Josiane Thethê Andrade - Programa de Pós-Graduação em História ...

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Josiane Thethê Andrade - Programa de Pós-Graduação em História ...

UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS – CAMPUS V

PROGRAMA DE PÓS-GRADUÇÃO EM HISTÓRIA REGIONAL E LOCAL

JOSIANE THETHÊ ANDRADE

O TABULEIRO DAS VENDAS:

COTIDIANO DE UM POVOADO MARCADO PELAS LOJAS DAS

ROÇAS

SANTO ANTONIO DE JESUS - BA

SETEMBRO - 2010


JOSIANE THETHÊ ANDRADE

O TABULEIRO DAS VENDAS:

COTIDIANO DE UM POVOADO MARCADO PELAS LOJAS DAS ROÇAS

Dissertação apresentada ao Programa

de Pós-Graduação em História Regional

e Local, da Universidade do Estado da

Bahia/UNEB, como requisito parcial para

a obtenção do título de Mestre.

ORIENTADORA: PROFª DRª CARMÉLIA APARECIDA SILVA MIRANDA

SANTO ANTONIO DE JESUS - BA

SETEMBRO – 2010


P553 Andrade, Josiane Thethê.

O Tabuleiro das vendas: cotidiano de um povoado marcado

pelas lojas das roças. / Josiane Thethê Andrade - 2010.

126 f.: il

Orientador: Prof. Dra. Carmélia Aparecida da Silva Miranda.

Dissertação (mestrado) - Universidade do Estado da Bahia, Programa

de Pós-Graduação em História Regional e Local, 2010.

1. História Oral. 2. Tradição Oral. 3. Vendas. 4. Mutuípe - Bahia I.

Miranda, Carmélia Aparecida da Silva. II. Universidade do Estado da

Bahia, Programa de Pós-Graduação em História Regional e Local.

CDD: 907.2

Elaboração: Biblioteca Campus V/ UNEB

Bibliotecária: Juliana Braga – CRB-5/1396.


TERMO DE APROVAÇÃO

O TABULEIRO DAS VENDAS:

COTIDIANO DE UM POVOADO MARCADO PELAS LOJAS DAS ROÇAS

Banca Examinadora:

JOSIANE THETHÊ ANDRADE

_______________________________________________

Profª Drª. Carmélia Aparecida Silva Miranda (Orientadora)

Universidade do Estado da Bahia - UNEB

_______________________________________________

Prof. Dr. Gilmário Moreira Brito

Universidade do Estado da Bahia - UNEB

_______________________________________________

Profª. Drª. Lina Maria Brandão de Aras

Universidade Federal da Bahia - UFBA

_______________________________________________

Prof. Dr. Raimundo Nonato Pereira Moreira (Suplente)

Universidade do Estado da Bahia - UNEB

_______________________________________________

Profª. Drª. Vilma Maria do Nascimento (Suplente)

Universidade Católica do Salvador - UCSAL

SANTO ANTONIO DE JESUS - BA

SETEMBRO - 2010


À memória do meu pai Juvenal Santos

Andrade, vendeiro no Tabuleiro por

mais de 30 anos, fazendo deste ofício

sua vida e da venda o lugar derradeiro

de sua existência.


AGRADECIMENTOS

Escrever sobre o Tabuleiro significou mais do que relatar a história de um

lugar, pois me proporcionou descortinar o cotidiano do homem do campo em suas

múltiplas facetas. Mas para tornar possível uma história do povoado e de suas

vendas foi necessário a colaboração de inúmeras pessoas que, com boa vontade e

solicitude, tornaram esta pesquisa uma realidade, e às quais gostaria de aqui deixar

meus agradecimentos.

Inicialmente, a minha orientadora, professora Carmélia Aparecida Silva

Miranda, por ter me acolhido como orientanda em um momento difícil e, também, por

sua paciência em me ouvir e ler meus escritos sempre com desvelo e criteriosidade.

A dois outros professores que ajudaram a dar forma à pesquisa ainda na

graduação e na pós-graduação. Primeiro, ao professor Rogério de Souza que, na

graduação, com suas indicações e conselhos contribuiu de sobremaneira para a

concretização desse trabalho, fazendo com que ele deixasse de ser um sonho.

Segundo, à professora Edinélia Maria Souza Oliveira que, durante o curso de

especialização, abriu novos horizontes para a pesquisa propondo outras abordagens

para o tema.

Aos professores Gilmário Moreira e Lina Maria Brandão de Aras que,

durante a qualificação do meu trabalho, me indicaram possibilidades e fizeram

sugestões prestimosas para o crescimento qualitativo desta pesquisa.

Aos professores e professoras do Programa de Pós-Graduação em

História Regional e Local, da Universidade do Estado da Bahia, Campus V, em

especial ao professor Charles D‘Almeida Santana, a quem devo o incentivo para

enveredar pelo estudo do cotidiano do homem do campo.

Àqueles que tecem/teceram a história que aqui narro: Pedro Dudu (Pedro

Andrade); José Gajilo (José Gonçalves); Carmerino Thethê (in memoriam); Neide

(Aurineide Thethê); Caboclinha (Laura de Jesus Andrade - in memoriam); Antonio

Coração (Antonio de Jesus); Maninho (Manoel Amado); Dona Pomba (Maria Nunes

dos Santos); Hélio Nunes dos Santos; Madalena P. de Andrade e Domingos S. de

Andrade. Todas essas pessoas que, com boa vontade, ao me ―emprestarem‖ suas

lembranças, deram vida e pulsação ao trabalho.


A minha família que direta ou indiretamente contribuiu para minha

formação. Em especial, a minha querida mãe, Aurineide Thethê, e a minha irmã,

Joseneide Thethê, que me incentivaram e não me deixaram desanimar.

A Hildete Leal, pela revisão criteriosa do texto e a indicação de caminhos

para torná-lo leve e prazeroso à leitura.

Aos meus amigos e colegas de profissão, Derneval Ferreira, Luciene

Rocha e Leninha, pelas leituras e sugestões que enriqueceram o texto, além do

apoio em momentos difíceis na escrita da dissertação.

A Simone Figueiredo e Fabiane da Silva, pela ajuda e troca de

experiências durante o mestrado, com sugestões de textos e ideias que contribuíram

no desenvolvimento da dissertação.

Aos meus amigos e colegas de mestrado: Margarete Nunes, Cristiane

Lima, Caroline Lima, Lielva, Rejane, Rosângela, Daiane, Taiane, Regina,

Wanderson, Kleberson, Fatinha, Leila Carol, Soane Cristino, Camila, Oscar, entre

outros que não cito.

A minhas amigas, Aline Miranda e Anna Carolina Reis Costa de Lima,

pelas leituras de alguns dos meus textos e pelas críticas sempre bem vindas.

A Catia Matias pela ajuda no abstratc e por sua solicitude em ajudar-me.

E, por fim, mas não menos importante, toda minha gratidão a Deus que

me deu força nas horas difíceis, não só durante a pesquisa, mas ao longo de minha

vida.

Muito obrigada.


É preciso dizer então como habitamos nosso

espaço vital de acordo com todas as

dialéticas da vida, como nos enraizamos, dia

a dia, num "canto do mundo‖.

Bachelard. A poética dos espaços, p. 26.


RESUMO

Este trabalho apresenta um estudo sobre as relações econômicas, sociais e

culturais desenvolvidas pela população local e fregueses no espaço das vendas

(estabelecimentos comerciais) do povoado do Tabuleiro, que está localizado no

município de Mutuípe - BA. Nos anos de 1960 a 2000 as vendas exerceram uma

grande influência sobre a vida cotidiana dos indivíduos que conviviam nessas

espacialidades, sobrepondo suas funções essencialmente comerciais para assumir

múltiplos papéis, dentre eles, destaca-se a função sociabilizadora das vendas que

se tornaram um verdadeiro ―observatório popular‖. Contudo, essas casas comercias

e, consequentemente, o povoado sofreram, ao longo do tempo, uma série de

mudanças que acabaram resultando na decadência das vendas e influíram na

dinâmica cotidiana do Tabuleiro ao gerar rupturas e permanências em costumes e

tradições, como por exemplo as que ocorreram nos festejos do brinquedo de roda e

da burrinha. No bojo dessas transformações vivenciadas no povoado podem ser

citadas: a introdução de elementos da modernização; as migrações; as reformas

infraestruturais; a ressignificação de antigas tradições, entre outras. Para a

realização da pesquisa foram utilizadas, sobretudo, narrativas de moradores locais,

que, por meio das memórias expressas pela oralidade, abriram perspectivas

variadas não só para reconstruir uma história do povoado e de suas vendas, como

também para refletir sobre o processo de ressignificação da memória em diferentes

situações e temporalidades.

Palavras-chave: vendas; cotidiano; memória; cultura; sociabilidade; modernização.


ABSTRACT

This work presents a study about the economic, social and cultural relations,

developed by the local population and customers in the ―vendas‖ of the village of

Tabuleiro, located in the municipality of Mutuípe, State of Bahia. From 1960 to 2000,

the ―vendas‖ had a great influence on daily life of the people who lived in Tabuleiro,

leaving of being just a commercial establishment to assume many functions, among

them, become a true ―popular observatory‖. However, these commercial

establishments and, consequently, the village had suffered, throughout the time, a lot

of changes that had in result the decay of the sellings and these facts influenced in

the Tabuliero‘s daily dynamics, transforming, for example, the customs and traditions

of that place, occurring into celebrations like: the ―brinquedo de roda‖ and ―burrinha‖.

Among the changes experienced by people who lived in the village can be

mentioned: the introduction of modernization elements; the migrations; the

infrastructural reforms; the changes in the old traditions, and others. For the

realization of this research had been used, principally, narratives of local inhabitants,

that through of memories expressed by the orality, had opened varied perspectives

not only to reconstruct a history of the Tabuleiro and its ―vendas‖, as well as to reflect

on the process of memory construction in different situations and temporalities.

Key words: ―vendas‖; quotidian; memory; culture; sociability; modernization.


LISTA DE FOTOGRAFIAS, FIGURAS E TABELAS

FOTOGRAFIA 01: Venda Santa Ana................................................................ 35

FOTOGRAFIA 02: ―Cantoria‖ na venda do Sr. José Gonçalves....................... 56

FOTOGRAFIA 03: Crianças na Venda............................................................. 66

FOTOGRAFIA 04: O festejo da burrinha na cidade de Mutuípe...................... 84

FOTOGRAFIA 05: Visão panorâmica do povoado do Tabuleiro...................... 104

FOTOGRAFIA 06: O vendeiro Juvenal Santos e sua esposa.......................... 110

FIGURA 01: Vale do peso de cacau assinado pelo vendeiro

Juvenal S. Andrade.......................................................................................... 47

FIGURA 02: Carta com pedido de noivado à Dona Maria Nunes..................... 81

TABELA 01: Evolução da utilização das terras na região do

Vale do Jiquiriçá 1970-1980........................................................................... 95

TABELA 02: Participação das áreas de lavoura na área total dos

estabelecimentos por municípios do Vale do Jiquiriçá 1975 –1980................. 95


ABREVIATURAS

COBER – Companhia Baiana de Eletrificação Rural

SEBRAE - Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas da Bahia

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

SEI - Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.....................................................................................

CAPÍTULO I - O COTIDIANO DAS VENDAS...................................... 32

1.1 As lojas das roças..........................................................................

1.2 A venda e suas múltiplas funções..................................................

1.3 Vendeiros e fregueses - uma relação marcada pela ética rural.....

1.4 Lugares de prosa...........................................................................

1.5 Venda: um espaço praticado e ressignificado...............................

CAPÍTULO II - VIVER NA ROÇA........................................................ 68

2.1 O povoado do Tabuleiro ................................................................

2.2 Quando os facões e enxadas dão lugar à diversão.......................

CAPÍTULO III - O TEMPO E O VENTO: PERMANÊNCIAS E

MUDANÇAS NA VIDA COTIDIANA DO TABULEIRO........................

3.1 Ressonâncias, repercussões sentimentais e recordações do

passado................................................................................................

3.2 A decadência das vendas .............................................................

CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................

FONTES .............................................................................................

REFERÊNCIAS ..................................................................................

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32

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INTRODUÇÃO

O povoado do Tabuleiro 1 , localizado no município de Mutuípe, estado da

Bahia, é o objeto de estudo desta pesquisa que, mais do que preocupada em

reconstituir sua origem e formação, busca analisar como uma comunidade rural,

distante cerca de 4 km da sede do município, esteve intrinsecamente ligada às suas

vendas, participando da dinâmica sócioeconômica e cultural do local.

A palavra ―vendas‖ designa as casas comerciais das zonas rural e urbana

de muitas localidades do Brasil. As vendas ainda constituem espaços tradicionais de

bairros de inúmeras cidades. Na Bahia, elas são comumente chamadas de bodegas,

bibocas, mercearias, armazéns, etc. Devido à organização espacial e variedade de

funções, a maior parte delas negocia com secos e molhados e complementa seus

estoques e encargos a partir das necessidades dos lugares em que se instalam. Na

essência, elas carregam o princípio de fornecer ―de tudo um pouco‖ à população.

O Tabuleiro é um povoado formado por pequenos agricultores e

trabalhadores rurais, que vivem em torno da policultura da mandioca, feijão, milho,

coco, banana, guaraná, cravo, entre outros. Todavia, o cultivo do cacau e a criação

de gado, a partir dos anos de 1960, ganharam força, constituindo-se, atualmente, os

grandes responsáveis pelo sustento econômico da população local.

No que diz respeito à estrutura física, esse povoado, outrora denominado

―Riacho do Mutum‖ 2 , é, atualmente, formado por um arraial onde se encontram

algumas dezenas de casas residenciais, uma escola fundada em 1948 e uma venda

em funcionamento, além de propriedades rurais. Ao longo do tempo o povoado

sofreu algumas mudanças, como o esvaziamento populacional do lugar fruto de

migrações, mudanças na produção agrícola, entre outras. O que destoa do passado

quando as vendas se multiplicavam ao longo da antiga estrada vicinal que corta o

Tabuleiro, que nos dias de sábado era tomada por tropas de mulas carregadas de

mercadorias, animais de passeio e trabalhadores rurais do local e de povoados

vizinhos que se dirigiam às vendas para ―fazer feira‖, negociar os produtos da roça,

1 O povoado faz parte do município de Mutuípe. O município é localizado na sub-região do Vale do

Jiquiriçá, na zona fisiográfica do Recôncavo Sul, tendo uma extensão territorial de 358 Km², com

população de 20.462 habitantes. Cf: Diagnóstico dos Municípios Vale do Jiquiriçá. SEBRAE, março

de 1995.

2 A partir da observação de algumas escrituras de terra dos moradores do povoado, na segunda

metade do século XX, o local onde está situado o povoado do Tabuleiro era denominado Riacho do

Mutum. Cf: Comarca de Mutuípe. Escritura de terra do Sr. José Gonçalves, livro nº 24, fls. 112-114.

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permutar animais e ―jogar conversa fora‖, quase sempre acompanhados de um copo

de cachaça e um cigarro de fumo picado envolvido em fina palha de milho ou papel

de seda.

No Tabuleiro, as vendas assumiam múltiplos papéis, além de fornecer

mercadorias variadas ao consumo dos fregueses, grande parte agregava as funções

de armazém, açougue e casa de jogos. Ao que parece, a sua essência múltipla se

constitui, ao longo do tempo, conforme as necessidades de consumo e lazer da

localidade, somando-se a outros fatores como a distância dos centros urbanos e a

própria opção dos consumidores pelas vendas locais no momento de realizarem as

compras e negociarem a produção agrícola de suas roças.

A preferência dos fregueses descortina outra faceta das vendas que é seu

caráter socializador. Por ser um espaço que promove a interação dos indivíduos, a

função comercial é o início de relações que, aos poucos, pela frequência e

intimidade, proporciona o estreitamento dos laços de amizade e solidariedade dos

seus frequentadores.

Segundo Sidney Chaulhoub (1986), a venda é ―um reduto de lazer

popular‖, pois congrega as pessoas em torno do lazer, da diversão, mas, também,

abre margem a relações diversas de convivência, expondo conflitos e tensões da

vida social. As vendas, desse modo, têm um significado importante na vida cotidiana

do Tabuleiro. O povoado tornou-se ―famoso‖, justamente, por ter um comércio

influente, que atraía compradores e negociantes de localidades vizinhas. A partir

dessas observações iniciais, a pesquisa se direcionou no sentido de compreender

como se davam as interações cotidianas entre os frequentadores das lojas rurais e

os desdobramentos na vida econômica, cultural e social do povoado.

Esta pesquisa se apoiou nas vivências e experiências de sujeitos de

carne e osso, que sentem dores, alegrias, saudades e sonham. Assim, ao privilegiar

suas lembranças e impressões sobre a vida ao longo de um tempo tão incerto

quanto é o da memória, determinar um recorte temporal com precisão calendar

tornou-se inviável. Aquilo que é rememorado não se inscreve num tempo fixo; por

vezes, datas e objetos significativos ajudam o processo de desencadeamento das

lembranças, mas, neste trabalho, por sua natureza, optou-se adotar uma baliza

temporal, a determinar temporalidades monolíticas.

No que tange às memórias dos indivíduos entrevistados sobre os

aspectos históricos do povoado, elas remontam a quase todo o século XX. Porém,

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pela própria formação histórica do Tabuleiro, pode-se dizer que, a partir da década

de 1960 até os primeiros anos século XXI, o vilarejo sofreu profundas mudanças e,

por seu caráter dinâmico e transformador, a pesquisa privilegiou as memórias

referentes a essa temporalidade. Dentre essas transformações, destacam-se: a

desativação da Estrada de Ferro de Narazé; a decadência do tropismo; a abertura

de uma ―estrada de chão‖ ligando o povoado à sede do município; a chegada da luz

elétrica; e o crescimento da pecuária e da produção cacaueira, entre outras.

Aliás, abro um parêntese aqui para explicar ao leitor alguns aspectos que

envolvem os sujeitos dessa pesquisa e a mim como pesquisadora. A escolha desse

povoado como objeto de pesquisa foi influenciado pelas minhas vivências no lugar,

visto que meu pai, Juvenal dos Santos Andrade (1948-2002), foi vendeiro no

Tabuleiro por mais de 30 anos. A história de vida das pessoas que narro aqui, de

certa forma, também é a minha, na medida em que vivenciei o cotidiano desse lugar.

Alguns dos entrevistados são meus parentes, como a Sra. Aurineide Thethê

Andrade, minha mãe, e o Sr. Carmerino Thethê, meu avô, e todos os outros citados

são pessoas com as quais convivi durante grande parte da minha vida. Foi por

compartilhar dessas vivências que decidi fazer um estudo das vendas e do povoado.

Esses lugares de memória, com características próprias, cheiros, sabores,

sensações táteis, remetem a lembranças de minha infância e juventude, das horas

que ficava sentada no balcão da venda, observando meus pais trabalharem. E,

embora, conserve a distância necessária para manter o rigor do ofício, deixo aqui

também minhas próprias experiências e memórias.

Ter vivido nesse povoado, assim como ter frequentado os espaços das

vendas foi o que despertou o desejo de desenvolver uma pesquisa histórica sobre o

Tabuleiro. No início, desde a graduação quando comecei a pesquisar esse tema, me

chamou a atenção o fato de um pequeno povoado possuir, em seu passado, uma

quantidade significativa de vendas que mantinham um comércio dinâmico,

absorvendo quase toda a produção agrícola local. A partir daí outras indagações

emergiam à medida em que a pesquisa se desenvolvia, tais como: por que as

pessoas do lugar davam preferência às vendas no momento de comercializar a

produção agrícola de suas roças? Por que raramente iam ao centro urbano da

cidade de Mutuípe negociar? Por que o Tabuleiro era geralmente associado as suas

vendas? O que havia nesse lugar que atraía tanta gente? O que as vendas

representavam na vida dos moradores do lugar? Como elas influíam no cotidiano do

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povoado? Como as pessoas do lugar viviam, trabalhavam, divertiam-se? Enfim,

esses questionamentos deram origem à problemática da pesquisa: analisar, através

de um olhar histórico, o cotidiano de uma comunidade rural marcado pelas vendas.

Para entender como esses estabelecimentos comerciais estavam

entrelaçados à vida dos moradores do lugar, bem como suas memórias estão

carregadas de impressões de um passado social, criado e recriado pela convivência

compartilhada entre os sujeitos e lugares, o diálogo com as fontes foi imprescindível

para dar liga a uma massa de lembranças de indivíduos únicos. Fossem escritas,

orais ou imagéticas, cada fonte, dentro de sua especificidade de abordagem,

contribuiu para compor um corpus de informações suficiente, se não apenas para

resolver as questões iniciais formuladas durante a pesquisa, mas para suscitar

outras tantas, que se configuram em indícios valiosos para os pesquisadores que

enveredam nas sendas incertas da história.

As fontes usadas na pesquisa foram variadas, somaram-se às narrativas

orais, documentos escritos e fotografias. Não obstante, as memórias expressas nas

narrativas orais dos entrevistados constituem o cerne deste trabalho, não pela

inexistência de outros tipos de evidências, mas por tratar-se de uma pesquisa que

lida com as sensibilidades de homem e mulheres do campo. O ato de narrar

demonstra comportamentos próprios de cada um, permeados de impressões tão

diversas da vida, que proporciona ricos objetos de investigação.

Nos momentos de diálogo com os narradores, um gesto furtivo, uma

pausa demorada na fala, uma queixa sobre a vida, os sorrisos provocados por

lembranças tão variadas acrescentaram pulsação à pesquisa, o que, às vezes,

escapa à impessoalidade do registro escrito. Para Raphael Samuel (1989-90,

p.231), ―há tipos de pesquisas que apenas podem ser realizadas com a ajuda de

uma testemunha viva‖, ou testemunhas, que, através de suas memórias expressas

pela fala, podem contribuir para acrescentar à pesquisa outras nuances muitas

vezes diferentes a outros tipos de fontes.

O historiador lida com seres únicos; portanto, depara-se com diferentes

versões de um determinado acontecimento. Cada pessoa pode produzir um grande

número de histórias em potencial, a memória não está desassociada do indivíduo,

mas passa por ele. Procurar semelhanças nas narrativas ou dados que confirmem

as informações pode levar o historiador ao anacronismo. Quem sabe sejam nas

diferenças, nas inconstâncias entre as impressões dos sujeitos que esteja aquilo que

17


vai descortinar um novo mundo de possibilidades à pesquisa. Para apreender tais

sensibilidades, Portelli (1997) alerta e, até mesmo, orienta o historiador que trabalha

com narrativas orais para o ato de ouvir e estar disposto a mudar seus

posicionamentos a partir dos indícios dados pelas fontes. Para esse autor,

A arte essencial do historiador oral é ouvir (...) se ouvimos e

mantivemos flexível nossa pauta de trabalho, a fim de incluir não só

aquilo que acreditamos querer ouvir, mas também o que a outra

pessoa considera importante dizer, nossas descobertas vão superar

nossas respostas (PORTELLI, 1997, p. 22).

Durante a realização das entrevistas foram ouvidos diversos indivíduos,

dentre eles os vendeiros, fosse homem ou mulher, os moradores do Tabuleiro, além

de sujeitos que frequentavam o povoado e tinham memórias diversas do lugar. É

preciso destacar que muitos aspectos apreendidos nas entrevistas foram registrados

em longas conversas ―informais‖, ocasiões em que, muitas vezes, o gravador não

registrou, mas que, durante o momento do cafezinho, da conversa descontraída,

ficaram gravados na minha memória e, de alguma forma, permeiam as

interpretações das fontes e a escrita do texto.

As narrativas foram transcritas na íntegra, como uma forma de respeitar

valores culturais e formas orais de expressão de um grupo de pessoas que criaram

socialmente sentidos próprios as suas vivências. A intenção era não deixar fugir, na

transcrição reinterpretativa das fontes orais, aspectos linguísticos que caracterizam

as ―formas de dizer‖ dos indivíduos. Na fala, emoções podem ser captadas, logo,

uma transcrição feita sem critérios pode comprometer o sentido daquilo que se

queria dizer, quanto mais próximo ao dito pelo narrador, mais rico torna-se o relato

oral.

Já as fotografias constituem as fontes imagéticas, muitas delas recolhidas

entre os moradores locais, outras produzidas durante a pesquisa de campo. As fotos

foram utilizadas como objetos de investigação histórica que apreenderam

experiências de trabalho, de lazer e aspectos cotidianos dos moradores do

Tabuleiro. As imagens mostraram-se como elementos portadores de memórias,

objetos tácteis que carregam consigo valores sociais e afetivos, significativos nas

vidas das pessoas.

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Susan Sontag (1981), que há décadas vem se dedicando aos estudos da

fotografia, chama a atenção para o fato de que o ―sentido da imagem fotográfica

permite a presentificação do passado, que, todavia, só ganha sentido se tiver sido

identificado ou caracterizado‖ (SONTAG, 1981, p.18). A imagem é um texto e

apresenta um contexto, sua compreensão fica afetada ao analisar a imagem por ela

mesma. Portanto, a fotografia ganha sentido no momento em que é mediada,

traduzida interpretativamente em palavras que a signifiquem. Daí a importância de

ter junto aos portadores da fotografia a história da própria imagem. Às vezes, o

contexto em que foi produzida pode contar mais sobre um determinado fato do que o

momento eternizado no papel.

Dentre os documentos escritos, utilizou-se uma carta, escritura de terra,

leis, vales de compra e venda cedidos por vendeiros, assim como estudos

econômicos e demográficos desenvolvidos por centros de pesquisa como o IBGE,

SEI e SEBRAE. O cruzamento de tais fontes foi importante por evidenciar aspectos

políticos e socioeconômicos constituintes da vida cotidiana e produtiva do povoado,

e proporcionar as conexões com acontecimentos regionais e nacionais, já que o

Tabuleiro está inserido em um contexto macrorregional.

A análise de cada tipo de documento ajudou a formar um arcabouço de

informações que compõe não só o trabalho aqui apresentado como contribui para

desmitificar as associações que comumente se faz do meio rural como ―lugar de

atraso, ignorância e limitação‖ (WILLIAMS, 1989, p.11), quando, constitui-se, dentro

de sua ampla gama de objetos e sujeitos, um vasto campo de estudo para história.

E, ao abordar os modos de vida da população local, suas manifestações culturais,

sua relação com as vendas, contribui-se para, através da oralidade e da memória,

apreender aspectos de sua vida passada, que os documentos não registraram e são

importantes para entender, hoje, as rupturas e permanências, valores e

experiências, comportamentos e atitudes marcantes e/ou constituintes de sua

história.

Nessa perspectiva, a relevância desta pesquisa está em mostrar como

uma localidade rural, aparentemente sem grandes acontecimentos importantes e

aspectos históricos ditos relevantes, pode constituir um rico objeto de estudo capaz

de revelar a história de um local e sua gente. Principalmente, por lançar luz sobre a

participação das vendas na vida cotidiana do homem do campo, que embora não

seja um tema desconhecido, é pouco abordado pelos historiadores. Assim, busco

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aqui aprofundar e problematizar tais espacialidades enquanto lugares de

socialização e trocas econômicas e culturais.

A feitura de um trabalho de pesquisa histórica requer uma série de

cuidados e tratamentos específicos. Além de estabelecer os tipos de fontes que

serão usadas, os métodos de investigação, os referenciais bibliográficos e,

sobretudo, quais campos historiográficos irá percorrer, é importante ter um

referencial teórico-metodológico coerente com a pesquisa desenvolvida, pois evita

torná-la um apanágio de abordagens distintas, perdida na hiperespecialização do

conhecimento histórico.

Barros (2004) chama a atenção para esse aspecto ao enfatizar e discutir

como os historiadores têm sentido dificuldades em situarem os trabalhos

historiográficos nos diversos campos da história. Para esse autor, a crescente

fragmentação do conhecimento, consequentemente, da própria história em

subespecialidades tem gerado uma ―fragmentação de perspectivas‖. Assim, não há

mais uma única maneira de ver os acontecimentos, justamente pela ausência de

certezas que serviam de modelo para o enquadramento do conhecimento científico.

O historiador não tem mais uma ideia homogênea de seu ofício. Os modelos de

história total passam por uma crise paradigmática. Diante disso, Barros (2004)

enfatiza que não há uma obrigação de encaixar o trabalho historiográfico em um

determinado campo da história,

Na verdade isso não é possível, já que a ampla maioria dos bons

trabalhos historiográficos situa-se na verdade em uma interconexão

de modalidades. Se são bons, são complexos. E se são complexos,

hão de comportar algum tipo de ligação de saberes, seja os interiores

ou exteriores ao saber historiográfico (BARROS, 2004, p. 7-8).

Uma alternativa proposta por Barros (2004) seria estabelecer alguns

critérios de divisão que facilitariam o processo de interconexão dos diversos

domínios da história. Segundo ele,

A chave para compreender estes vários campos, (...) está em

distinguir muito claramente as divisões que se referem a dimensões

(enfoques), as divisões que se referem a abordagens (ou modos de

fazer a História), e as divisões intermináveis que se referem aos

domínios áreas de concentração em torno de certas temáticas e

objetos possíveis (BARROS, 2004, p. 8).

20


As considerações iniciais sobre a problemática da feitura de um trabalho

historiográfico apontadas por Barros (2004) serviram para refletir as abordagens que

a pesquisa sobre o povoado do Tabuleiro requereu ao discutir sua vida cotidiana,

analisando as relações que as pessoas do lugar estabelecem com as vendas, bem

como as formas de sociabilidades e conflitos presentes na vida cotidiana daqueles

que vivem nessa localidade. Tais abordagens teórico-metodológicas se fizeram

necessárias visto que a pesquisa passeia por diversas dimensões da história e por

outros domínios. Essas ponderações deram um norte à pesquisa e ajudaram a

pensar os problemas e desafios inerentes a ela.

Ainda no que diz respeito à pesquisa em foco, foram contempladas, entre

as abordagens e dimensões propostas por Barros (2004), pelo menos, três ramos da

história: a História Regional e Local, a História Cultural e a História Oral, além de

outros caminhos pelos quais tais campos da história enveredam como os estudos do

cotidiano e da memória.

Dentre os diferentes conceitos de História Regional e Local, Neves (2002)

ressalta a ideia de pertencimento ao espaço, que o indivíduo o reconhece como

parte de sua História e a noção espacial se dilui, o homem se funde ao lugar,

reconhece-o como seu, criando uma identificação. Conforme esse autor,

A História Regional e Local consiste numa proposta de estudo de

atividades de determinado grupo social historicamente constituído,

conectado numa base territorial com vínculos de afinidades, como

manifestações culturais, organização comunitária, práticas

econômicas, identificando-se suas interações internas e articulações

exteriores e mantendo-se a perspectiva de totalidade histórica

(NEVES, 2002, p. 45).

Diferente de Neves (2002), que vê a região como uma construção história

de indivíduos que criam laços de pertencimento ao lugar, para Albuquerque (2003,

p. 8) a noção de região é mais que uma delimitação territorial, ela é uma construção

histórica, cultural e imagético-discursiva. Definição essa a que o autor chegou ao

observar como o surgimento de uma identidade nordestina se deu a partir de um

discurso circunscrito numa relação de poder, na qual a decadente aristocracia

nordestina, diante de um momento histórico que alimentava um discurso de

apagamento das diferenças regionais e integração nacional, se via ameaçada,

21


portanto fazia-se necessário manter uma memória espacial, que conservasse viva

essa dominação. A Região Nordeste surge, assim, como uma invenção discursiva.

Embora o Nordeste, estudado por Albuquerque (2003), tenha sido

resultado da construção discursiva de uma elite social, sua concepção de região

desenvolvida no livro ―A invenção do Nordeste‖ se configura uma realidade diferente

daquela na qual o Tabuleiro está inserido. Porém, os conceitos de História Regional

destacados por Albuquerque (2003), aplicados a essa pesquisa, fazem pensar como

o sentimento regionalista não se limita a meras fronteiras geográficas. A região pode

ser uma criação histórica, um discurso construído de uma dada visibilidade e

dizibilidade.

A existência física de um lugar, de um espaço, só ganha sentido na

prática cotidiana, nas relações afetivas, nas sensibilidades que se constituem entre

os sujeitos e os lugares por eles frequentados. Neves (2002, p. 45) destaca que o

regional e o local não estão desvinculados do extrarregional, do nacional, do que

acontece em outras localidades.

O Tabuleiro não está à parte de acontecimentos macrorregionais. Houve

a preocupação de fazer, sempre quando possível, a ponte entre os acontecimentos

não só do lugar como do Brasil e do mundo. Afinal, como aponta Ana Fani Carlos

(1996, p. 28-29),

O lugar aparece como um fragmento do espaço onde se pode

apreender o mundo moderno, uma vez que o mundial não suprime o

local. O lugar se produz na articulação contraditória entre o mundial

que se anuncia e a espacialidade histórica do particular.

Como se pode depreender das ideias de Ana F. Carlos (1996), é nesse

processo de interação, entre o particular e o geral, do micro com o macro, que é

possível estabelecer um número maior de relações e interpretações nas ações

cotidianas. As especificidades se explicam e ganham significado, possibilitando

atingir as sensibilidades dos homens do passado, revelar como eles representavam

a si próprios e ao mundo. Um mundo simbólico repleto de sentidos, por vezes

imperceptíveis, multifacetados e, ao mesmo tempo, mensuráveis em certos

aspectos, em ações concretas, palpáveis, passíveis de medição e comprovação.

O palco de atuação dos indivíduos não é o mero espaço delimitado por

seus passos inscritos, provisoriamente, no chão que corresponde ao território onde

22


habitam. O espaço é significado nas vivências diárias, na forma como os indivíduos

o praticam. As ações diárias urdem experiências de vida, que relevam como homem

e mulheres pensam e se comportam. Assim, o cotidiano é o lugar privilegiado para

observar como a vida se desenrola, porque longe de ser o lugar da banalidade, é no

dia-a-dia que as vidas ganham sentido.

No Tabuleiro, o cotidiano está ligado ao trabalho no campo, à ligação dos

moradores com a natureza, à agitação das vendas, às festas tradicionais, às

conversas nos passeios das casas, enfim a cada lugar por onde passam esses

indivíduos deixando suas marcas. Os estudos sobre o cotidiano se mostram de

grande valia para aqueles que se dedicam aos estudos locais. Muitas vezes, é na

vida de todo dia que os historiadores encontram as chaves que abrem as portas que

conduzem ao entendimento do conhecimento histórico produzido pelos indivíduos

nas relações sociais, sobretudo, em um ramo da história onde as experiências de

vida são fundamentais para sua compreensão.

Acerca dessas considerações, as ponderações feitas por Certeau (1994,

p. 41) no livro ―A Invenção do Cotidiano‖ são de grande valia. O autor argumenta

que os mecanismos de poder, regulamentação e disciplinamento da sociedade, que

tentam regular e controlar a vida dos homens, podem ser burlados por práticas,

táticas e estratégias de sobrevivência que os indivíduos criam na dinâmica cotidiana.

A vida social torna-se espaço de negociação dentro de um cotidiano improvisado,

sempre possível de ser re-inventado.

Por sua vez, Agnes Heller (1992, p. 17) argumenta que ―a vida cotidiana é

a vida de todo homem‖. Ele está imerso na cotidianidade, não escapa a sua

dinâmica. O indivíduo é, ao mesmo tempo, um ser particular e ser genérico, porque

cada sujeito é único e capaz de fazer escolhas individuais, assim como é produto de

suas relações sociais e sujeitos as suas influências a partir de assimilações. Esse

termo é usado pela autora para se referir às formas de intercâmbio social, nas quais

o indivíduo mediado por grupos (família, escola, comunidade, etc.) apreende os

elementos da cotidianidade (HELLER, 1992, p. 21).

Os estudos do cotidiano encontram guarida também na História Cultural,

pois, como afirma Barros (2004, p. 57), ―a vida cotidiana está inquestionavelmente

mergulhada no mundo da cultura.‖ Ao existir, o indivíduo já produz cultura. A história,

que, por muito tempo, se recusou em ver historicidade na cotidianidade, nas suas

práticas e representações sociais, tem na História Cultural uma gama de objetos de

23


estudo, diversidade tão grande que os historiadores que se debruçam sobre os

estudos culturais têm sentido dificuldade de estabelecer noções de cultura e limitar

seus domínios de investigação. Já que se trata de uma dimensão múltipla, plural,

complexa e que pode gerar diversas aproximações diferenciadas.

Diante dessa diversidade, é interessante abordar algumas das principais

discussões acerca da temática da cultura e dos teóricos que contribuíram com suas

concepções à pesquisa. Nas últimas décadas questões, como a própria concepção

de cultura, a legitimidade na divisão entre cultura popular e erudita, a consistência

de certos conceitos como: os de ―biculturalidadede Burke (1989); ―circularidade‖,

utilizado por Ginzburg (1987); ―multiculturalismo‖, usado por Hall (2003); e

―hibridismo cultural‖ de Bhabha (2005). Esses são alguns exemplos de conceitos de

cultura que têm gerado uma larga produção historiográfica. Para se ter uma noção

do que vem sendo produzido, vale citar alguns nomes de referência nos estudos

culturais e como eles abordam o tema cultura.

A concepção de circularidade cultural que propõe como recíprocas as

influências entre a cultura dos segmentos dominantes e subalternos – movendo-se

de baixo para cima – constitui-se noutra importante contribuição de Ginzburg (1987),

inspirado nos trabalhos de Bakhtin (1987). No movimento de circularidade, ambas as

culturas popular e erudita se influenciam mutuamente, de acordo com valores

próprios de cada classe social.

Aproximando-se do conceito de circularidade cultural, Peter Burke (1989,

p. 56) cunhou o termo ―biculturalidade‖, para expressar o quanto os membros das

elites conheciam e participavam da cultura popular, ao mesmo tempo em que

preservavam sua cultura; ou seja, práticas culturais eram compartilhadas entre

membros do povo e das elites. Todavia, a expressão cultura popular e erudita/elite é

criticada dada a extensão e a impressão homogeneizante que passa. Roger Chartier

(1991, p. 138-178), um de seus críticos, defende a ideia de que os sujeitos se

apropriam e representam as práticas culturais de formas diversas. Há imbricações

entre elas e diferentes maneiras de apropriação dos objetos, não sendo, por vezes,

possível estabelecer a fronteira entre popular e erudito, encontrando formas originais

de cultura do povo como queria alguns historiadores.

Thompson (1987), em outra perspectiva e mais ligado à História Social,

foi um dos pioneiros no que tange aos estudos de História Cultural, aproximando os

dois campos, ao afirmar que ―a classe social se constitui numa formação econômica

24


e também cultural‖ (THOMPSON, 1987, p. 10). Nos seus estudos culturais sobre a

classe camponesa e urbana, assim como as transformações operadas na Inglaterra

do século XVIII, observou que a cultura popular pode ser inserida nos movimentos

das classes trabalhadoras em defesa de seus costumes ante as mudanças do

mundo industrial moderno, o que ele chamou de ―economia moral da multidão‖

(THOMPSON, 1998, p. 152), assumindo um nítido viés de luta de classes na defesa

de seus costumes que incluíam tanto condições de trabalho como festas, feiras, vida

em tabernas e ritos sociais.

Os diferentes pontos de vista demonstram que, ainda hoje, é arriscado

assumir conceitos cristalizados sobre cultura. Os teóricos mencionados e outros

tantos revelavam que a cultura não pode ser reduzida a meros esquemas, limitada

em um conjunto de crenças e costumes. A cultura é permeada de representações,

apropriações, simbologias, variando de acordo com experiências e vivências dos

diferentes sujeitos históricos, lugares, espaços, relações econômicas, políticas e

sociais. Cabendo àqueles que se dedicam ao estudo dessa temática avaliar quais os

melhores conceitos ou procedimentos a serem adotados diante da vasta gama de

significações do termo.

Em maior ou menor grau, esses autores contribuíram para essa pesquisa,

embora em suas obras as discussões a respeito da cultura se debatam com

realidades diversas e conceitos ímpares. Trabalha-se, aqui, então, com a ideia de

cultura como uma ação tecida no dia-a-dia das relações sociais, permeando as

práticas cotidianas dos indivíduos, conforme as contribuições conceituais e teóricas

dos autores mencionados.

Como já foi abordada anteriormente, a narrativa oral constitui a principal

fonte usada no trabalho e, embora não necessite que os documentos escritos ou

imagens a sustentem, ela, por si só, já é uma evidência. Às vezes, para certas

realidades, espaços e lugares pesquisados, a fonte oral se torna essencial, uma vez

que é capaz de ampliar a compreensão do contexto, produzir outras informações

disponíveis apenas na memória das pessoas.

Os defensores do status da História Oral como disciplina, apesar de

inúmeras divergências entre eles sobre determinados pontos teóricos, partem de

uma ideia fundamental: ―a história oral inaugurou técnicas específicas de pesquisa,

procedimentos metodológicos singulares e um conjunto de procedimentos próprios‖

(AMADO & FERREIRA, 1998, p. 13). Ainda na concepção de Janaina Amado e

25


Marieta de M. Ferreira, como disciplina, a História Oral dispõe de um corpus teórico,

que seus críticos consideram impreciso e inconsistente. Aqueles que a tomam como

uma metodologia fazem uso das suas técnicas de recolhimentos das fontes orais e

procedimentos de interpretação da História Oral, mas não a dispõem como uma

dimensão histórica capaz de se sustentar como uma disciplina.

Muitas críticas à História Oral se ancoram em uma suposta ―não

confiabilidade‖, inconsistência das memórias, imprecisões de seus objetos de

estudos. Aí está o plus da História Oral, justamente por tratar da subjetividade, da

memória, das narrativas, depara-se com esse complexo mundo dos desejos, das

fantasias, dos sonhos que fazem parte de cada indivíduo. Ao historiador cabe

analisar como se dão essas subjetividades, como se constroem nas relações

sociais; nesse sentido Thomson (1998) lembra que, no trabalho com as narrativas

orais,

(...) procuramos explorar as relações individuais e coletivas, entre

memória e identidade, ou entre entrevistador e entrevistado. De fato,

frequentemente estamos tão interessados na natureza e nos

processos da rememoração quanto no conteúdo das memórias que

registramos (THOMSON, 1998, p. 69).

Thomson (1998) chama a atenção para a importância de como se dão os

processos de rememoração, o que é uma questão delicada na História Oral. Para

evitar o uso indiscriminado da memória, a sua manipulação requer um procedimento

ético do historiador na utilização das narrativas, para que não produza uma farsa

histórica, colocando o valor da História Oral em xeque. Segundo Portelli (1997, p.

13), os historiadores orais têm a ―responsabilidade não só de obedecer a normas

confiáveis, quando coligem informações, como também de respeitá-las, quando

chegam a conclusões e fazem interpretações.‖

Aliás, o objeto de estudo do historiador oral são as histórias de vida dos

indivíduos. O ato de narrar traz à tona memórias de um tempo passado que vive no

presente e novas experiências ―ampliam constantemente as imagens antigas e no

final exigem e geram novas formas de compreensão‖ (THOMSON, 1997, p. 57). Ou

seja, as memórias estão em um constante processo de ressignificação. Desse

modo, o que é rememorado, de que forma são reconstruídas essas memórias e

26


como elas dão sentido à vida dos sujeitos constituem aspectos a serem investigados

pelos historiadores.

As narrativas orais, então, remetem às memórias, já que as expressam

com toda força. Nas entrevistas, notou-se que os indivíduos pensam e sentem de

formas diversas, e essa profusão de reminiscências distintas requer ajuda teórica de

autores que se dedicam à problemática das memórias (para não incorrer no risco de

interpretações precipitadas), bem como abordagens interdisciplinares que auxiliem

no entendimento de seus mecanismos de funcionamento.

Fala-se muito em memória coletiva, memória individual, memória social,

enfim, vários tipos e formas de rememorar e de construir memórias. Dentre os

diversos conceitos, algumas considerações se tornam necessárias. Burke (2000, p.

74-75) traz duas abordagens sobre memória: primeiro, ele a considera uma

construção social, que se vale de esquemas de identificação que levam ao

aparecimento de outras memórias; e segundo, como a memória social é influenciada

por organizações sociais e meios de comunicação de massa. O autor elenca,

também, cinco elementos de propagação e formação das memórias sociais: as

tradições orais, os relatos escritos, as imagens, ações que transmitem memórias

como ritos de comemorações e os espaços, lugares de memória. Esses elementos

de construção não são ingenuamente usados, muitas vezes são tentativas de

convencer, formar a memória de outrem ou tentativas de impor interpretações do

passado e construir representações sociais, formadoras de identidades sociais.

O que Burke (2000, p.83) busca enfatizar é como os grupos sociais

utilizam a memória de formas diferentes. Uma guerra, por exemplo, pode ser sentida

de formas distintas, os vencedores ―podem dar-se ao luxo de esquecer, enquanto os

perdedores não conseguem aceitar o que aconteceu e são condenados a remoê-lo,

revivê-lo, refletir sobre como poderia ter sido diferente‖. Isso expõe as

multiplicidades de identidades sociais, de memórias, que podem se valer de

esquemas vários de conformação e identificação. Muitas vezes até o esquecimento

é um ato proposital de apagamento de uma memória inconveniente, uma amnésia

social, na definição do autor.

A memória também é feita de esquecimentos, de silêncios, de seleções e

inclusões, tão múltiplas em seus aspectos constituintes que propõe vários desafios

aos historiadores. Porém, pensar nas razões pelas quais ocorrem o esquecimento e

o silêncio, diz muito à história. Segundo Pollak (1989, p. 3), o silêncio pode surgir

27


como uma forma de resistência de uma memória reprimida e que, por muito tempo,

não encontrou vazão, mas foi conservada e transmitida pelas gerações posteriores.

O mesmo autor argumenta, ainda, que o silêncio sobre o passado está ligado a uma

necessidade de encontrar um modus vivendi, cujo esquecimento acomoda e ajuda a

superar experiências traumáticas.

As variadas considerações acerca da memória e suas imbricações com a

História Oral e aos estudos culturais e regionais remetem a Raphael Samuel

(1989/1990, p. 232) ao chamar atenção para o fato de que ―o historiador pode fazer

com que a pedra de toque se torne a experiência real da vida das pessoas‖,

presentes no cotidiano, na vida cultural, nas memórias, nas vivências que guardam

um mundo de possibilidades de investigação histórica.

Na perspectiva de pesquisar a vida cotidiana do povoado do Tabuleiro,

partindo da questão inicial de observar como as vendas da localidade influíam na

vida social, cultural e econômica da população do local, foram selecionadas algumas

referências bibliográficas a fim de dar suporte teórico-metodológico à pesquisa. Na

ausência de títulos que tenham o povoado do Tabuleiro como objeto de estudo foi

necessário recorrer à pesquisa de obras que tivessem algum registro histórico da

cidade de Mutuípe, da qual o Tabuleiro é parte. Nesta busca foi selecionado o livro

―Mutuípe, Pioneiros e descendentes‖, de Helena Rebouças (1992). O livro traz, de

forma geral e, por vezes, descritiva, a história da cidade, abordando desde sua

formação até aspectos de cunho político, econômico, social e cultural do município;

porém, não deixa de construir uma referência bibliográfica de grande valor diante da

escassez de trabalhos historiográficos a respeito do município.

Para tratar do mundo rural (um dos objetos de estudo deste trabalho),

foram selecionados alguns trabalhos de pesquisa histórica que têm em comum a

reflexão sobre cotidiano do trabalhador rural, suas vivências e experiências, bem

como suas práticas de sobrevivências, expressões culturais, costumes e tradições.

Dentre eles, ―Fartura e Ventura Camponesas‖ de Charles D‘ Almeida Santana

(1998), que se propõe a discutir sobre as migrações de trabalhadores rurais das

cidades de Santo Antônio de Jesus e Conceição do Almeida, entre os anos de 1950

a 1980, e a forma como homens e mulheres conseguiram sobreviver à perda da

possibilidade de trabalho em suas cidades, assim como preservaram na memória

percepções e recordações da vida no campo, utilizadas pelo historiador, a fim de

apreender mudanças / permanências / incorporações em seus costumes, hábitos,

28


valores e tradições no processo de rompimento com os laços que os prendiam à

região, na medida em que, pressionadas pelas transformações em seus modos de

vida e trabalho, foram levados a assumir, em seus horizontes, a migração para a

capital baiana.

Também foi de grande contribuição o trabalho de Edinélia Maria Oliveira

Souza (1999), ―Memórias e tradições: viveres de trabalhadores rurais do município

de Dom Macedo Costa – Bahia (1930-1960)‖. Trata-se de um estudo sobre a vida

cotidiana e experiências de descendentes de escravos e mestiços pobres, marcados

por um passado de lutas contra a pobreza e por lembranças da escravidão

traduzidas em comportamentos, atitudes, valores, tradições e costumes que

caracterizam a forma de viver dos trabalhadores do campo.

Por sua vez, Sylvia Maria dos Reis Maia (1985), em ―Dependency and

survival of Sapeaçu small farmers‖, contribui para o estudo do cotidiano no campo

da cidade de Sapeaçu, localizada no Recôncavo da Bahia. Nesse trabalho, a autora

discute as estratégias de sobrevivências, sobretudo, das trabalhadoras rurais, suas

vivências nas casas de farinha, a lida com os animais, enfim, o dia-a-dia nas roças.

Aspectos fundamentais para entender como homens e mulheres do campo

desenvolvem táticas de sobrevivências na vida cotidiana.

No que tange à bibliografia sobre as vendas poucos foram os títulos com

essa referência, e quando o fazem é sempre de forma rápida e sucinta, restando a

busca por obras com temáticas próximas, compartilhadoras de certos pontos em

comum com esses estabelecimentos comerciais. Abaixo seguem algumas obras

com as quais tive contato e considero próximas do assunto em investigação:

Os trabalhos de Fernand Braudel (1997/1998), primeiro e segundo

volumes da trilogia ―Civilização Material, Economia e capitalismo Séculos XV - XVIII‖.

Obras que analisam o conjunto das trocas, desde o escambo até o mais sofisticado

capitalismo, e cuja relevância justifica-se por tratar do pequeno comércio e seus

mecanismos de funcionamento, aspecto indispensável para compreender como as

vendas influenciavam na vida econômica e social do povoado;

O estudo de Sidney Chaulhoub (1986), ―Trabalho, Lar e Botequim‖,

embora trate do dia-a-dia da classe trabalhadora no Rio de Janeiro da Belle Époque,

traz uma importante discussão sobre o botequim como ―observatório popular‖. Palco

de relações sociais reveladoras de comportamentos, atitudes e valores culturais

29


desses sujeitos históricos, constituindo um estudo imprescindível na compreensão

das vendas não só como espaço de trocas econômicas como de sociabilização;

O estudo de Maria Izilda Santos de Matos (2001), ―Meu Lar é o

Botequim‖, que é outro importante referencial bibliográfico. O livro tem como eixo

central o alcoolismo e a construção da masculinidade nos discursos musical e

médico entre 1889 a 1940, através de campanhas sanitárias e publicitárias que

veiculavam padrões de sensibilidade, construindo novos hábitos, valores e costumes

para homens e mulheres. O que contribui para entender questões de identidade,

aspectos psicológicos e outras peculiaridades inerentes aos frequentadores das

vendas;

As obras relacionadas constituem apenas a seleção de algumas

referências utilizadas nessa pesquisa, mas é com a junção dos pressupostos

teórico-metodológicos que o trabalho assume uma identidade, mesmo que múltipla

em seus aspectos constituintes.

Este texto está dividido em três capítulos. No primeiro, intitulado ―O

cotidiano das vendas‖, discute-se o espaço das vendas na sua estruturação

organizacional, e o modo como essa espacialidade é revestida de significados

diversos para os sujeitos que a praticam. Também são analisadas as múltiplas

funções das vendas e papéis assumidos pelos vendeiros, com destaque para sua

função sociabilizadora, além de discutir como elas influíam na dinâmica

socioeconômica do Tabuleiro.

No segundo capítulo, é abordada a vida cotidiana da população do lugar,

desde as atividades diárias, como o trabalho no campo, até os laços de

solidariedade estabelecidos em atividades como os adjutórios, e as formas de lidar

com as adversidades diárias através de jogos de astúcias. Assim como foram

discutidas as mudanças operadas no povoado com a introdução de elementos da

modernização tais como, a luz elétrica, a TV, os eletrodomésticos, a utilização de

máquinas nas atividades laborais, a construção de uma estrada ligando o povoado à

sede do município de Mutuípe e seus impactos. Vale salientar que essas mudanças,

a partir da segunda metade do século XX, foram apontadas pelos entrevistados

como responsáveis pela introdução de novos costumes e tradições, provocando

rupturas e permanências na tessitura sociocultural e física do lugar.

Ainda no segundo capítulo, em uma outra seção, trata-se das formas de

sociabilidade presentes no povoado, dentre elas destacam-se o folguedo da burrinha

30


e o brinquedo de roda. Tais aspectos são observados em uma abordagem cultural, a

fim de perceber como algumas dessas práticas sociais e muitas dessas festas e

espaços de socialização foram deixando de existir ou ganharam novas

configurações, num processo de ressignificação de suas práticas, a partir de

mudanças operadas não só no povoado como na sociedade brasileira.

No terceiro e último capítulo, discutem-se os fatores que levaram à

decadência das vendas e a forma como isso afetou o povoado. Dentre esses

aspectos, destacam-se o crescimento da pecuária e da lavoura cacaueira, atividades

concentradoras de terras, que motivaram migrações da população para outros

estados brasileiros, na busca de melhores condições de vida. Sem falar, no maior

acesso da população local a outras localidades e aos bens de consumo ofertados

pela introdução de elementos da modernização no lugarejo ou o aumento da

violência, como identificado nas narrativas ao longo da pesquisa.

O trabalho apresentado tentou seguir os passos dos moradores do

Tabuleiro ao analisar e discutir suas ações e atitudes, possibilitando apreender

aspectos históricos não só de um lugar, como vivências de pessoas que imprimiram

no espaço sua própria história. Uma vez que esses sujeitos, ao darem voz a suas

experiências, deixando emergir as memórias de um tempo passado que ressoam no

presente, possibilitaram o estudo de uma memória social criada e forjada na vida

campestre.

31


1.1 AS LOJAS DAS ROÇAS

CAPÍTULO I

O COTIDIANO DAS VENDAS

32

Tinha uma vendinha no canto da rua,

onde o mangaieiro ia se animar.

Tomar uma bicada com lambú

assado, e olhar pra Maria do Joá.

Sivuca

―Lugares de memória‖, assim refere-se Pierre Nora (1993) aos lugares

onde a memória se cristaliza e se refugia; são vestígios do passado presentes no

espaço, no gesto, na imagem, nos objetos. Seguindo esses rastros de memória,

encontram-se evidências de um passado que o historiador, com seu olhar

perscrutor, mesmo carregado de signos do presente, pode usar para buscar, em

recordações de um tempo passado, aspectos constituintes da história de um lugar.

No caso do povoado do Tabuleiro, os lugares de memória se apresentam

nos caminhos abertos pelos trabalhadores rurais que diariamente se dirigem para

suas roças ou de seus patrões para trabalhar, em uma casa velha, no balcão das

vendas, onde muitos indivíduos se recostam para conversar, beber, jogar, comprar

ou vender produtos, nas fotografias antigas que congelaram no papel momentos de

alegrias e tristezas, enfim, lugares de memória que trazem marcas concretas de um

passado construído socialmente por aqueles que lá conviveram ou convivem.

Para os antigos moradores, esses lugares são relembrados ou vistos com

um misto de alegria, tristeza e saudade; muitos só existem em suas lembranças.

Mas, graças à capacidade dos indivíduos de guardarem em suas memórias os

acontecimentos significativos de sua vida, foi possível aos sujeitos que vivenciaram

as transformações cotidianas do local narrarem as suas memórias sobre as festas, o

dia-a-dia nas vendas, a chegada de elementos da modernização e seus efeitos


sobre as pessoas e o lugar, entre outros tantos aspectos da vida social de uma

comunidade rural.

Dentre os lugares de memória, as vendas, certamente, marcam a história

do Tabuleiro e as lembranças daqueles que lá convivem. Ao se dirigirem a esses

estabelecimentos comerciais, os indivíduos criam laços de familiaridade por meio de

práticas cotidianas imperceptíveis, que ajudam a compor lembranças e, mais que

isso, de alguma forma, fossem quais fossem os caminhos escolhidos para

percorrerem, no Tabuleiro, quase todos os caminhos levavam às vendas,

atravessando vidas, compondo destinos.

As marcas que os passos dos indivíduos deixam no chão de terra batida

do vilarejo, e que o tempo e o vento tratam de apagar, embora não tenham permitido

deixar registros materiais de sua passagem, criaram nas lembranças dos moradores

um cabedal de memórias que marcam definitivamente suas vivências. Ao falar do

Tabuleiro, remete-se, inevitavelmente, às vendas. Durante as entrevistas com os

moradores locais fica evidente como esses estabelecimentos comerciais permeiam

suas memórias. As vendas, no passado, eram como a seiva que revigorava a vida

do povoado, o coração de um corpo social cuja alma do lugar alimentava. Tanto que

as crises econômicas sentidas pelas vendas, a partir dos anos de 1990, abalaram de

forma direta a dinâmica social do Tabuleiro.

A venda se constitui múltipla em seus diversos aspectos, ultrapassa o

estereótipo de lugar de trocas econômicas. Os frequentadores mais do que comprar

e vender buscam as vendas para se divertirem, elas promovem o encontro, a festa,

o lazer. Mas as vendas podem ser também palco de desentendimentos, de brigas e

conflitos. Aspectos discutidos por Sidney Chalhoub (1986, p.231) ao se referir às

vendas e botequins do Rio de Janeiro na virada do século XX. Para o autor, a venda

é um

Centro aglutinador e difusor de informações entre populares. E mais

do que isto, a referência a venda como um ―observatório popular‖,

sugere que este é um ponto privilegiado uma espécie de janela

aberta para o estudo de padrões de comportamento dos homens

pobres (...). E, com efeito, a venda ou o botequim é cenário para o

surgimento e desenrolar de rixas e conflitos pelos mais variados

motivos, desde os problemas ligados ao trabalho e habitação,

passando pelas questões de amor e relações entre vizinhos, e

chegando até as contendas por motivos mais especificamente

ligados ao lazer, como os jogos (...) ou a bebida.

33


Muitos entrevistados trazem em suas narrativas os vários aspectos que

envolvem a vida cotidiana nas vendas, explícitos por Chalhoub, ao relembrarem das

brigas e assassinatos, das conversas animadas, dos dias que ficavam até altas

horas da noite cantando, tocando, jogando e bebendo; demonstrando, assim, que as

vendas não são apenas lugares de atividades comerciais e de ―bebedeira‖, mas

importantes espaços de sociabilidade e conflitos.

Aqueles que entravam por uma das diversas portas da venda, pelo menos

a partir da segunda metade do século XX, viam naquele ambiente imagens que lhes

eram e continuam, em parte, sendo próprias. As vendas, em sua estrutura física, têm

um balcão separando o espaço do vendedor e do freguês, sobre o qual eram

colocados fardos de carne do sol e do sertão (conhecida em outras regiões do Brasil

como carne seca ou charque), peixes salgados, toucinhos de porco, rolos de fumo

dos quais os fregueses costumavam tirar algumas lascas, picar e fazer cigarros sem

pagar nada. Até mesmo costumavam provar as carnes salgadas e cruas como ―tira-

gosto‖ acompanhado quase sempre por um copo de ―pinga‖ ou um punhado de

farinha de mandioca que também estava à venda.

Nas paredes, podia-se ver uma profusão de mercadorias expostas nas

prateleiras ou penduradas em ganchos, outras se espalhavam em cima de tábuas

pelo chão. Havia, também, uma mesa ou escrivaninha onde o vendeiro colocava o

dinheiro ganho, seus cadernos de anotações e outros instrumentos de trabalho. Do

lado do freguês, na parte externa do balcão, havia alguns bancos, cadeiras ou toras

de madeira colocadas em posição vertical servindo como assentos. Em algumas

vendas de maior tamanho haviam sinucas e mesas utilizadas para o jogo de cartas

ou simplesmente para servir os clientes. Pelo chão se espalhavam mercadorias,

sacos de farinha de mandioca, caixas, rolos de corda de sisal, etc.

As vendas eram vistas, também, por alguns como lugares de sujeira e

desorganização; ali os fregueses cuspiam no chão, as moscas zanzavam sobre as

carnes e os vendeiros, na sua maioria, não mantinham hábitos higiênicos na

manipulação dos alimentos. Aliás, aqueles que buscam nas vendas um ambiente

asséptico, provavelmente, não o encontrará. Há até um dito popular na região que

diz: ―quem não quer casa cuspida, não ponha venda‖. Ou seja, o chão das vendas

quase sempre estava sujo, mas há que se entender que isso faz parte de práticas

comuns aos frequentadores desse espaço. A cachaça jogada no chão, por exemplo,

tem origem no ritual dos bebedores de ofertar uma parte aos santos; outros porque

34


mascavam fumo e cuspiam a ―borra‖ no chão. Enfim, era um lugar onde muita gente

circulava, com costumes e hábitos diversos, logo lhe dava esse aspecto

aparentemente de desorganização, mas que é parte de sua essência diversa de

sentidos simbólico e funcional.

Foto 01: Venda Santa Ana. Povoado do Tabuleiro, Mutuípe.

Fonte: Fotografia - Josiane Thethê Andrade, setembro de 2003.

Esse cenário pode ser observado em algumas representações imagéticas

das vendas. A fotografia usada como elemento de abordagem do passado pode

conter, em sua ―superfície sensível, a marca indefectível do passado que a produziu

e consumiu‖ (MAUAD, 1996, p 10). E, talvez, seja nas memórias que a fotografia

carrega ou nas que ela pode revelar que a história surge, como um lampejo do

passado, despertando lembranças adormecidas que retornam velozes (BENJAMIN,

1993, p. 225), e que devem ser apresadas pelo historiador antes que se evanesçam

como uma luz que se extingue.

A fotografia é do estabelecimento comercial do falecido Sr. Juvenal

Santos Andrade (1948 – 2002). Com a morte do proprietário, a venda passou a ser

administrada por seu sócio e irmão Sízinio Santos Andrade. No que diz respeito à

produção da própria imagem fotográfica, é preciso destacar que a intenção era

captar um ângulo capaz de contemplar o máximo possível o espaço da venda, para

mostrar e ampliar o leque de elementos a serem analisados no documento. Ao

35


observar a imagem, nota-se que a venda conserva sua estrutura física e

organizacional, mas, na fotografia, outras espacialidades se revelam. Segundo

Mauad (1996, p.10),

A própria fotografia é um recorte espacial que contém outros espaços

que a determinam e estruturam, como, por exemplo, o espaço

geográfico, o espaço dos objetos (interiores, exteriores e pessoais), o

espaço da figuração e o espaço das vivências, importamentos e

representações sociais.

Quanto à organização das mercadorias nota-se que elas estão

espalhadas e misturadas sem nenhum critério quanto à forma e tipo. Por exemplo,

nas prateleiras superiores observam-se garrafas de bebidas alcoólicas lado a lado

com vasilhames de óleo lubrificante para motores automotivos, produtos que por

serem inflamáveis, não deveriam estar nesse lugar. Embora a disposição dos artigos

à venda seja feita com a intenção de mostrá-los e incentivar o consumo, esses

estabelecimentos possuem uma organização própria, a preocupação maior era com

o sortimento dos produtos, pois o espírito dessas lojas das roças é fornecer ―de tudo

um pouco‖.

Na imagem aparece com clareza o balcão que separa duas

espacialidades bem distintas, o lado do freguês e o lado vendeiro. Simbolicamente,

há uma separação entre o público e o privado. O balcão assume uma configuração

limítrofe e constitui um elemento carregado de representações significativas para

entender as atitudes dos sujeitos e as intenções na concepção cênica dos espaços

da venda.

Goffman (2009, p. 120) discute como espaços públicos e privados podem,

por sua natureza, estabelecer atitudes comportamentais diferenciadas. A partir de

uma análise dramatúrgica da sociedade, o autor enfatiza que os indivíduos

assumem diversos papéis sociais, agindo como atores em um jogo de simulação,

que varia conforme o palco e os interesses, dos papéis que eles querem assumir ou

dos que são obrigados a representar. Na concepção do autor, a forma como as

pessoas se comportam nesses espaços é uma questão a ser problematizada, visto

que revelam muitas ações por trás das atuações dos atores sociais.

Pode-se, distinguir, dentre outras, quatro regiões simbólicas no espaço da

venda: a fachada da venda; a parte externa e interna ao balcão e os fundos da

36


venda. Cada espacialidade é vivenciada e significada de forma diversa pelos

indivíduos que ali circulam. Na fachada, os batentes das portas são divisas entre

três ―mundos‖ complementares: a rua, a venda e por trás do balcão. O que acontece

na rua, embora seja exterior à venda, não é aberta a qualquer ação por parte dos

sujeitos que aí passam. A rua funciona como uma extensão da venda, embora fosse

pública e livre à circulação de todos. Para ali se estendiam as mesmas regras de

comportamento respeitadas no interior das vendas, o público e privado se fundem.

Da Matta (1997, p. 47) discute esses aspectos ao afirmar que a casa e a rua

constituem

Esferas de significação social - casa, rua e outro mundo - que fazem

mais do que separar contextos e configurar atitudes. É que eles

contêm visões de mundo ou éticas particulares (...), esferas de

sentido que constituem a própria realidade e que permitem

normalizar e moralizar o comportamento por meio de perspectivas

próprias.

Numa passagem de sua entrevista, Dona Aurineide ressaltou que os

comícios políticos e festejos tradicionais ―nas portas da venda‖, (em outras palavras,

na frente da casa comercial) para se realizarem era pedida, geralmente, autorização,

no caso, ao seu marido, o vendeiro Juvenal:

Eles chegava aqui na venda, chamava a gente avisando do que ia

acontecer e pregava os cartaz. Se fosse na frente da venda o

pessoal pedia autorização a Juvenal, se já fosse na frente da escola

pedia ao prefeito (Aurineide Thethê, 50 anos, entrevista em

14/04/2007).

Nessa fala, dois aspectos destacam-se: a parte da rua frontal à venda é

tratada como ―propriedade‖ do vendeiro; e a área em frente à escola como um

espaço público, controlado pelo governo. No primeiro caso, a dicotomia casa e rua

quebra sua barreira, o público é tratado como privado, talvez isso ocorra porque nas

comunidades rurais o ―terreiro da frente‖, como é chamado esse espaço, é uma

extensão da casa, como os passeios e calçadas nas casas urbanas.

No momento em que os pés dos transeuntes ultrapassam as portas das

vendas e adentram em seu espaço interior, outros comportamentos e atitudes

morais são esperados dos praticantes desse espaço. Como a rua ficou para trás,

37


comportamentos ―arruados‖ são malvistos, ―não se pode misturar o espaço da rua

com o da casa sem criar alguma forma de grave confusão ou até mesmo conflito‖

(DA MATTA, 1997, p.50), uma vez que a venda possui também um caráter de casa.

Segundo Bachelard (2008, p.25), ―todo espaço, realmente habitado traz

consigo a essência da noção de casa‖, ou seja, nele os praticantes sentem-se

acolhidos, protegidos; sem falar, que a casa é o lar primeiro, espaço que

Na vida do homem, (...) afasta contingências, multiplica seus

conselhos de continuidade. Sem ela, o homem seria um ser disperso.

Ela mantém o homem através das tempestades do céu e das

tempestades da vida. Ela é corpo e alma. É o primeiro mundo do ser

humano. Antes de ser "jogado no mundo", como o professam as

metafísicas apressadas, o homem é colocado no berço da casa. E

sempre, em nossos devaneios, ela é um grande berço. Uma

metafísica concreta não pode deixar de lado esse fato, esse simples

fato, na medida em que ele é um valor, um grande valor ao qual

voltamos nos nossos devaneios. O ser é imediatamente um valor. A

vida começa bem; começa fechada, protegida, agasalhada no regaço

da casa (BACHELARD, 2008, p. 26).

Ao pisar no chão da venda, penetra-se simbolicamente no espaço da

casa, portanto, os indivíduos sentem-se em um lugar que acolhe e protege; invadir

esse espaço ou desrespeitá-lo é pertubar a paz, pois o espaço destas lojas rurais é

sentido de forma sentimental pela maioria dos fregueses, visto que compõe as

memórias afetivas de muitos que cresceram frequentando a venda, conhecendo o

vendeiro e suas famílias.

Para Bachelard (2008, p.64), ―a casa é um espaço que deve condensar e

defender a intimidade‖. A ideia de privacidade remete a um estado no qual o

indivíduo pode exercer sua intimidade sem se preocupar que outros estejam

observando ou censurando, é sentir-se à vontade. Dessa forma, comportamentos

ofensivos, que agridam a intimidade e o sossego dos fregueses são reprováveis; e

agir, no espaço da venda, como se estivesse na rua é um comportamento

inaceitável.

Tanto a parte externa quanto a interna do balcão não propiciam plena

privacidade. Mesmo representando um limite entre o público e privado, divisar tais

instâncias é uma tarefa inexata. O balcão constitui uma meia barreira, ele permite

visualizar as ações do vendeiro, seus procedimentos, quem entra e sai daquele

ambiente, da mesma forma que o comerciante também o faz em relação à parte

38


externa. Por outro lado, se alguém, sem permissão, pular o balcão será visto como

um invasor quebrando a regra de convivência que permeia a conduta moral daquele

ambiente. Mais que isso, é invasão à propriedade privada, assim como à intimidade

do vendeiro; a parte interna é o seu lugar de atuação, onde ele e sua família

circulam. Até porque muitas vendas são conectadas à própria casa do vendeiro,

quase sempre por uma porta que dá acesso aos dois espaços, o que chamo aqui de

fundos da venda, o lugar, realmente, de privacidade dos proprietários dessas casas

comercias.

As diversas espacialidades, funções e representações das vendas que

existiam no Tabuleiro faziam delas um difusor de sensações aos sentidos com

cheiros típicos, vindos das carnes salgadas espalhadas no balcão, das cachaças,

das especiarias espalhadas em sacos pelo chão, um cheiro misto de cravo e cacau,

além das cores diversas configuradas pelas mercadorias dispostas nas prateleiras,

pelos doces expostos em frasqueiras giratórias cujo movimento encantava as

crianças, fazendo-as sonhar e salivar com as guloseimas. Sem contar as sensações

tácteis dos objetos dispostos no ambiente, enfim, a venda funcionava como um

espaço sinestésico, e como uma porta de entrada das novidades, fossem

tecnológicas ou dos noticiários referentes aos últimos acontecimentos no Brasil ou

no mundo.

Em consonância com a ideia de espaço da novidade, voltando à análise

da fotografia (Foto 01), é perceptível a introdução de elementos da modernização no

espaço da venda como frízeres, televisão e balança digital, entre outros,

evidenciando melhoramentos técnicos dos instrumentos de trabalho do vendeiro,

possibilitados, em parte, pela chegada da luz elétrica no povoado em 1979 3 .

Aliás, o fato da venda do Sr. Juvenal ter conseguido se modernizar e, ao

mesmo tempo, ter aliado sua prática comercial ao antigo sistema de socialização do

homem do campo podem ter sido fatores que fizeram com que sua venda tenha se

mantido por mais de trinta anos em funcionamento, com uma freguesia ―fiel‖,

enquanto esteve em atividade. Como afirma Certeau (1996, p.120), ao se referir às

pequenas mercearias tradicionais dos bairros franceses, ―a modernização suscita

sempre alguma desconfiança quanto à qualidade dos produtos; a padronização, a

3 A luz elétrica chegou ao Tabuleiro em 1979, devido à iniciativa de alguns moradores que recorreram

aos serviços da Companhia Baiana de Eletrificação Rural. Informações retiradas do contrato do

proprietário da Venda Santa Ana. Cf: COBER, Contrato n º 1623/79.

39


mercadoria previamente embalada, todos esses processos na apresentação dos

alimentos que inquietam‖ o freguês ante as mudanças. Portanto, foi justamente o

equilíbrio entre o novo e o antigo que evitou uma ruptura simbólica entre aquilo que

as vendas representam com toda sua tradição e as inovações trazidas pela

introdução gradativa de elementos modernizantes.

A chegada da televisão, no entanto, foi sentida pela população local de

uma forma bastante significativa. Abriu-se um mundo de possibilidades. A venda

passou a oferecer não só mais um meio de distração e lazer, mas um portal para um

mundo da cultura de massa. As novelas, o telejornalismo, os filmes e desenhos

animados passaram a adentrar naquele ―universo rural‖, mudando costumes,

interferindo nas práticas sociais. Assim a senhora Aurineide Thethê descreve a

novidade da TV:

Aí, ia os meninos assistir televisão, outros eu vou assistir o jornal. Já

vinha pra venda ver televisão, assistir novela. Tinha uma novela

chamada Marrom Glacê que o povo já gostava de assistir essa

novela, foi logo quando botou televisão aqui (Aurineide Thethê, 50

anos, entrevista em 14/04/2007).

Hobsbawn (1994, p.300) comenta como o fenômeno da televisão chegava

às populações de países mais pobres, a partir da segunda metade século XX, por

meio de espaços públicos, que aglutinavam as pessoas diante da ―caixa mágica‖, já

que os primeiros aparelhos de televisão eram caros e, por conseguinte, não

acessíveis a todos. Ir a lugares públicos como bares, clubes, praças para ver TV

tornou-se um costume de muitos, no início atraídos pela novidade da tecnológica,

depois pelo hábito ou, quem sabe, ver TV só era mais um pretexto para sair,

encontrar gente nos lugares públicos.

A chegada da TV é um exemplo dos impactos causados pela introdução

de elementos modernizantes no espaço da venda, que funcionava como uma

espécie de catalisador das transformações sociais do povoado, na medida em que

havia uma interação entre os sujeitos e o lugar, através de formas de apropriação,

utilização e ocupação do ambiente físico da venda. Se fosse definir o espaço das

vendas, diria que sua geografia é emocional desde quando ele é ressignificado

sentimentalmente pelos indivíduos enquanto construção social.

40


1.2 A VENDA E SUAS MÚLTIPLAS FUNÇÕES

As lojas das roças, como Guimarães Rosa (1969) trata as vendas no

conto ―A estória do homem do pinguelo‖, caracteriza-se pela diversidade de funções.

No Tabuleiro, elas deveriam atender às necessidades de consumo dos moradores e

absorver a produção agrícola da região, por isso o ambiente da venda teve que se

adaptar a tais necessidades. As vendas, comumente, agregavam no mesmo espaço

as funções de armazém, açougue e, até mesmo, casa de jogos e, por conseguinte, o

próprio vendeiro acabava assumindo diversos papéis.

O Sr. Carmerino Thethê (1925 - 2008), que viveu toda sua vida no campo,

sempre de chapéu na cabeça e vestido com camisa de manga e calça de linho,

gostava de andar sempre alinhado e, por anos, participou da vida cotidiana do

Tabuleiro, assim descreveu como se davam as relações comerciais nas vendas:

O povo leva mercadoria pra vender, levava coisa pra vender na

venda e trazer mercadoria da venda. Vendia e comprava, que tinha

armazém. A mesma venda servia de armazém, comprava a farinha,

comprava o café, comprava o cacau, comprava fumo, nesse tempo

tinha fumo! Comprava fumo e comprava mercadoria na venda. Isto

tudo eu arcancei; às vezes ia e não. Levava o dinheiro, levava as

mercadoria nos animá. Vendia e comprava mercadoria ( Carmerino

Thethê (1925 – 2008), entrevista em 16/03/2003).

Com essas palavras, o Sr. Carmerino Thethê traduz o papel da venda

como ―instrumento elementar da troca‖, termo usado por Fernand Braudel (1998)

para se referir às trocas comerciais que escapam ao grande mercado, que as

estatísticas não controlam, uma espécie de ―civilização material‖, que compõe ―esta

infraeconomia, esta outra metade informal da atividade, a da autossuficiência, da

troca dos produtos e dos serviços num raio muito curto‖ (BRAUDEL,1997, p.51).

Isto é perceptível numa pesquisa encomendada pelo SEBRAE-BA

(Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas da Bahia) em 1995, na qual a

microrregião do Vale do Jiquiriçá, onde o município de Mutuípe se localiza, é

apontada como uma região de produção predominantemente agrícola, em que os

sistemas de comercialização adotados diferem em se tratando de pequenos ou

médios/grandes produtores.

41


Os maiores produtores realizam a comercialização da sua produção

com intermediários tradicionais ou, em condições adversas de

preços, levam o produto diretamente ao mercado. Já os pequenos,

por falta de maior poder e barganha, entregam o resultado da sua

atividade aos ―bodegueiros‖ 4 ou ―caminhoneiros‖ sempre presentes

às feiras municipais. (SEBRAE, 1995, p.51)

Os vendeiros exerciam a função de intermediários das trocas 5 , limitando-

se a comprar e vender sem fabricar com as mãos a maior parte daquilo que

ofereciam. Os trabalhadores rurais (maioria de seus clientes), pelo contrário,

vendiam seus gêneros agrícolas e compravam imediatamente as mercadorias que

necessitavam nos próprios estabelecimentos ou em outros locais, como já foi

relatado pelo Sr. Carmerino que ―levava as mercadoria no animá, vendia e comprava

mercadoria‖, ou seja, era uma relação direta. Os lavradores com pouco poder

aquisitivo não tinham como segurar os produtos e esperar a elevação dos preços.

Não obstante, pelo menos até a década de 1960, era difícil o acesso à cidade de

Mutuípe, devido às dificuldades de locomoção e dada à precariedade das estradas,

as vendas acabavam surgindo como opções mais ―confortáveis‖ para comerciarem;

porém, é preciso salientar que isso não era regra geral, muitos encontravam outras

formas de negociar seus produtos.

A diversidade de produtos pode ter contribuído para que os moradores e

trabalhadores rurais procurassem com mais frequência as vendas do Tabuleiro e

não o comércio da cidade. Durante as entrevistas com vendeiros ou ex-vendeiros do

povoado, quase todos demonstraram a preocupação em fornecer ―de tudo um

pouco‖ para a população local, atendendo às necessidades dos consumidores,

vendendo desde alimentos, ferramentas usadas no campo a remédios, só pra citar

alguns exemplos.

Para o Sr. José Gonçalves, ―tocador de violão‖, vendeiro no Tabuleiro,

entre as décadas de 1960 a 1990, a venda deveria estar sempre sortida:

Era carne, era sabão, era açúcar, era feijão, era arroz e mais alguns

cereais. De tudo a gente botava: manteiga, cachaça, fumo de corda,

cigarro. Isso é as coisas da venda. Comprimido, ali, para febre, dor

de cabeça, essas coisa, gripe. Tudo a gente botava, retalho. Sabe?

4 Bodegueiros é outra denominação dada aos donos de vendas da região.

5 Conferir referência feita por Braudel aos lojistas europeus do século XVIII, como intermediários das

trocas, insinuando-se entre os produtores e compradores, sem quase nunca fabricarem com suas

mãos o que vendiam. Atividade semelhante a do vendeiro, como pequeno comerciante que é. Cf:

Civilização Material, Economia e Capitalismo séculos XV – XVIII: Os jogos das trocas. v.2, p. 48.

42


(José Gonçalves de Oliveira, 87 anos de idade, entrevista em

19/01/2003).

O princípio de fornecer ―de tudo um pouco‖ nas vendas foi apreendido no,

já citado, conto do escritor Guimarães Rosa (1969), ―A estória do homem do

pinguelo‖. Rosa relata o cotidiano de um vendeiro chamado Cesarino, que havia

herdado a venda do pai e vivia em um arraial, nas palavras do autor, em um

―princípio de mundo‖ cercado de campos e tabuleiros. No conto, Cesarino é descrito

como um homem querido de todos, influente no lugar, mas que também sofria com

as dívidas e concorrência de outras casas comerciais. Ao descrever o cotidiano das

vendas, as prosas ―ao pé do balcão‖, o ritual dos bebedores, Rosa (1969, p.107)

destacou como as vendas em sua essência deveriam ser sortidas de produtos ao se

referir aos ―estoques de uma loja da roça, onde de tudo há – armarinho, fazendas,

ferragens, armas, secos e molhados gêneros, toucinho, artigos fúnebres, tinta,

cadernos, panelas e velas‖.

Na fala do Sr. Pedro Andrade, ex-vendeiro do Tabuleiro e agricultor

famoso por ser um exímio contador de ―causos‖, ele descortina uma realidade que

se aproxima daquela que se configura na ficção de Rosa (1969): ―eu vendia secos e

molhados e comprava cereais. Matava boi, matava porco. Tinha casa de jogo, tudo

que participava da diversão eu também tinha e supria o povo‖ (Pedro Andrade, 75

anos, entrevista em 06/07/2003).

A variedade de funções e de produtos comercializados por essas lojas

das roças traz à tona alguns questionamentos. Como as mercadorias eram

adquiridas? De que formam chegavam ao povoado? A resposta para tais

questionamentos remete a uma reflexão sobre o acesso que os vendeiros tinham

aos meios de transporte, à dificuldade de localização do povoado e sobre a própria

rota percorrida pelos produtos até chegarem ao Tabuleiro e, consequentemente, a

sua população. Além do que, é preciso observar as mudanças de infraestrutura

ocorridas no povoado a partir da segunda metade do século XX, reflexo de

transformações em nível nacional que interferiram no acesso às mercadorias e em

antigos costumes e tradições.

Até a década de 1960 as mercadorias chegavam ao Tabuleiro, quase

sempre, transportadas por mulas, cavalos ou jumentos que os vendeiros possuíam.

Eles mesmos iam até à cidade montados nos animais, carregando-os de

43


mercadorias nos armazéns, que, por sua vez, adquiriam os produtos chegados

através da já decadente Estrada de Ferro de Nazaré, que cortava o município de

Mutuípe, ou nas mãos dos tropeiros que trabalhavam para os donos dos armazéns,

trazendo os produtos de regiões vizinhas; e como relembra Sr. José Gonçalves,

―tropeiro era nós mesmo‖, e ele continua:

[As mercadorias] vinha daqui de Mutuípe, nesse tempo não tinha

nem estrada diretamente, a gente andava era no lombo dos animá,

tanto eu quanto Maninho. A gente muntava no meio da cangalha,

botava panacum 6 e tudo, aí ia buscar as coisas (José Gonçalves de

Oliveira, 87 anos de idade, entrevista em 19/01/2003).

O Sr. Carmerino Thethê, em outro trecho de sua entrevista, narra com

riqueza de detalhes a maneira como os vendeiros adquiriam as mercadorias:

A mercadoria da venda vinha de Laje, vinha de Mutuípe, vinha de

Valença, vinha de todo o canto, em lombo de animá, ia buscar de

lombo de animá! A estrada de ferro trazia, botava em Laje, o trem de

ferro botava em Mutuípe, era carregado pelo trem de ferro. Agora, de

Mutuípe pra cá, vinha em lombo de animá, porque não tinha estrada

de carro, nesse tempo não havia carro, só burro mesmo (Carmerino

Thethê (1925-2008), entrevista em 16/03/2003).

A Estrada de Ferro de Nazaré foi, durante o período que esteve em

atividade (1875-1971), uma das grandes responsáveis pelo transporte de

mercadorias e passageiros na região do Recôncavo Sul, território historicamente

caracterizado pela policultura de subsistência, durante o século XIX, integrando o

chamado ―Recôncavo da Subsistência‖, como aponta Ana Maria Oliveira (2000, p.

57-58). A Estrada de Ferro servia para escoar a produção de fumo, mandioca, cana-

de-açúcar, entre outros, produzidos por trabalhadores rurais e por pequenos e

médios proprietários de terras.

Na segunda metade do século XX, a região do Recôncavo Sul

permanecia predominantemente agropastoril com destaque para os cultivos

permanentes do café e do cacau e para a pecuária bovina; mas, o cultivo do café

vinha sofrendo um processo de decadência das suas atividades produtivas desde os

anos de 1930 quando foi proibida por portaria governamental a exportação do café

6 Panacum é um grande cesto feito de cipó.

44


de terreiro (SEBRAE, 1995, p. 60-70). Somado a isso, a decadente Estrada de Ferro

Nazaré estava em processo de desativação, deflagrando uma crise econômica na

região, já que os principais fatores de progresso alcançado por seus municípios no

início do século XX estavam em crise, dando lugar a outras formas de produção e

transporte.

Os anos 60 do século XX se configuravam como um período de transição,

estavam surgindo novos lugares de memória. A Estrada de Ferro de Nazaré, cujos

trilhos chegaram a Mutuípe em janeiro de 1905 7 , interrompeu suas atividades na

década de 1960, na cidade, devido, sobretudo, à ―concorrência sempre crescente do

transporte rodoviário, absorvendo parcelas cada vez maiores do transporte que até

então vinha sendo realizado pela Estrada [de ferro]‖ (CARLLETO, 1997, p.79). A

ferrovia perdia sua importância como elemento dinamizador da economia, cedendo

seu espaço para as rodovias no escoamento da produção. Os trilhos foram

arrancados para dar lugar ao asfalto da BA-420, que veio a ser denominada

posteriormente a ―Grande Avenida do Vale do Jiquiriçá‖, expressando o pensamento

progressista da época (SEBRAE, 1995, p. 60-70).

No Tabuleiro, os melhoramentos nos meios de transporte chegaram com

a abertura de uma ―estrada de rodagem a braço‖ 8 , ligando o povoado à sede do

município, substituindo o antigo caminho ―cheio de degrau, dos burros andar‖, como

rememorou Sr. Carmerino Thethê. Essa estrada facilitou o acesso de automóveis ao

Tabuleiro e a própria ida dos moradores à cidade, resultando em duas mudanças

relevantes: a gradativa diminuição do tropismo 9 na região, dada à facilidade de

transporte das mercadorias, ocasionada pela maior circulação de automóveis de

1970 a 1980; e as transformações de antigas tradições dos homens do campo,

como o simples costume de caminhar descalço nas trilhas para não sujar os sapatos

nem as roupas que foi escasseando à medida que carros de passageiros facilitaram

a locomoção dos moradores das zonas rurais.

7 Segundo Helena Rebouças, a Estrada de Ferro de Nazaré chegou a município de Mutuípe em

Janeiro de 1905. Cf: Mutuípe, pioneiros e descendentes. Salvador: Editora Universitária Americana,

1992, p. 14.

8 Segundo o Sr. José Gonçalves, a abertura dessa estrada se deu no final dos anos 60, e a

expressão ―estrada de rodagem a braço‖ enfatiza que a estrada ligando o Tabuleiro à sede do

município de Mutuípe foi construída com a força de trabalho humano sem a utilização de maquinário

pesado.

9 Para melhor entender o processo de decadência do tropismo na região do Vale do Jiquiriçá Cf:

SANTANA, Maria Lúcia. Tropismo no Vale do Jiquiriçá: trabalho, memória e cultua – 1950-1960.

(Monografia de Graduação). Local: UNEB, 2002, p. 5-48.

45


Raymond Willians (1979, p.387) argumenta que ―o campo e a cidade são

realidades históricas em transformação tanto em si próprias quanto em suas inter-

relações‖. Portanto, os processos de transformação desencadeados tanto nos

espaços rurais quanto nos urbanos refletiram sobre a vida da população do

Tabuleiro.

As mudanças em valores e práticas inventadas e reinventadas pelo

homem ativo do campo vislumbravam um momento histórico de modificações no

povoado, em que a cidade e o campo estabeleciam intensas trocas sociais, culturais

e econômicas.

1.3 VENDEIROS E FREGUESES: UMA RELAÇÃO MARCADA PELA ÉTICA

RURAL

As relações econômicas estabelecidas entre o vendeiro e seus clientes

(na maioria trabalhadores rurais) eram permeadas por costumes e valores que,

muitas vezes, dispensavam a assinatura de documentos comprovante das dívidas,

ou da compra e venda de qualquer produto. Bastava a ―palavra‖, a confiança selada

num aperto de mão, num olhar ou numa simples promessa de quitação da dívida,

constituindo uma espécie de ―ética rural‖, sustentada numa longa tradição rural.

Muitos vendeiros registravam em cadernetas as compras ―a fiado‖ dos

fregueses. No caso do Tabuleiro, a maioria dos comerciantes sinalizou não usar

cadernetas, mas cadernos de anotações ou papéis soltos que registravam as

dívidas e eram pendurados em pregos, daí o a famosa frase dita por aqueles que

queriam comprar a crédito: ―pendura a conta‖. Alguns improvisavam formas de

guardá-los, como usar pregadores de roupa ou elásticos para unir os vales de

compra e venda.

Sobre os cadernos de anotações das dívidas, todos os ex-vendeiros do

Tabuleiro afirmaram não mais os possuírem, depois que acabaram com os

negócios, os débitos foram quitados ou esquecidos, os cadernos e os vales perdiam

seu valor e eram queimados ou rasgados. Dos registros das formas de negociar nas

46


vendas do Tabuleiro, apenas alguns recibos cedidos pela Sra. Aurineide foram

conservados, observe:

Figura 01 - Vale do peso de cacau assinado pelo vendeiro

Juvenal Santos Andrade da Venda Santa Ana.

Fonte: Acervo pessoal de Aurineide Thethê Andrade,

10/05/2001.

O vale mostra como os negócios eram feitos dentro de um clima de

confiança e informalismo. Aí está registrado que um senhor de nome Mangueira

deixou 87 kg de cacau na venda do Sr. Juvenal. O recibo ficava nas mãos do

freguês, comprovando que o vendeiro devia a quantia em dinheiro correspondente

às arroubas ou quilos de cacau. Nesse recibo consta que Sr. Mangueira recebeu em

dinheiro o valor correspondente a 30 kg de cacau, restando 57 kg dos 87 kg que

deixou e, por fim, toda a quantia foi paga, ficando o vale retido na venda, como

controle do vendeiro dos negócios quitados.

No vale, nota-se que há apenas a assinatura do vendeiro, muitas vezes

as pessoas pegavam empréstimos nas vendas e não eram cobrados juros, nem os

assinavam. Constar uma assinatura ou não no papel era apenas uma formalidade,

que não garantia o pagamento nem o recebimento do valor devido. O próprio papel

não apresenta timbres, nem o nome do estabelecimento comercial, tampouco

números de registros legais frente aos órgãos de fiscalização do governo. Os

negócios aconteciam mais num clima de confiança, as próprias vendas raramente

47


funcionavam legalmente, até mesmo cobrar dívidas não era uma tarefa fácil dado os

costumes que permeavam as relações comercias.

O vendeiro é um ―comerciante, numa situação de pequeno capitalista,

vive entre os que lhe devem dinheiro e aqueles a quem ele deve. É um equilíbrio

precário, sempre à beira da derrocada‖ (BRAUDEL, 1998, p.57). Cobrar as dívidas

era ao mesmo tempo uma obrigação e uma tarefa difícil, devido os costumes que

envolviam as relações entre ele e seus fregueses. Muitos comerciantes ficavam

constrangidos em cobrar, outros temiam que os fregueses ficassem ofendidos e

abandonassem seus estabelecimentos comerciais, até mesmo, sem pagar a conta,

como explicitaram os vendeiros, ao se referirem as cobranças como ―uma tarefa

muito difícil‖, conforme relata Dona Aurineide; também o Sr. José diz que ―tinha

gente que queria até bater na gente‖, e o Sr. Pedro afirma: ―eu tinha vergonha de

cobrar‖. Tão delicada era a situação da cobrança de dívidas que a experiência

marcou Sr. José:

Cobrava, uns dava pra valente, queria até bater na gente, mas a

gente ia atravessando. Teve um dia que aquele Paulo Correia me

escorou na porta da venda porque eu fui cobrar uma conta, ele

escorou com uma espingarda veia, que se eu saísse fora, tinha ele

me atirado (José Gonçalves de Oliveira, 87 anos de idade, entrevista

em 19/01/2003).

As palavras ―difícil‖ e ―vergonha‖, na fala dos vendeiros, expressam como

eles se sentiam constrangidos em cobrar as dívidas, já que poderia significar uma

quebra de tradição; o que ajuda a entender a reação violenta do cliente na fala do

Sr. José Gonçalves, ao se sentir ofendido com a cobrança.

Os próprios vendeiros esperavam do cliente uma atitude honesta

saldando as dívidas. Portanto, não se pode entender suas atitudes fora do processo

histórico, pois também faziam parte daquele grupo e compartilhavam seus costumes

e práticas sociais. Muitos vendeiros nem chegavam a cobrar as contas que

envelheciam junto com o papel onde tinham sido registradas, talvez esperando o

pagamento, o cumprimento da palavra dada ou por temerem perder o cliente, que

poderia se ofender com a cobrança e suposto questionamento da sua honestidade.

Paradoxalmente, o vendeiro poderia optar por práticas desonestas,

recorrendo à malandragem e à esperteza para enganar os clientes no peso, na

medida ou no preço dos produtos. Para Franco (1997, p. 80-81), que pesquisou o

48


trabalho dos homens livres e escravos nas regiões de São Paulo e Rio de Janeiro no

auge da produção cafeeira no século XIX, o vendeiro recorria a tais expedientes,

porque sua atividade era vista como ―marginal e quase dispensável‖, procurando ao

máximo ―equilibrar por vias menos lícitas a falta de regularidade de seu negócio‖.

Em contrapartida, no povoado do Tabuleiro, os vendeiros, longe de

configurarem uma função marginal como naquela sociedade apontada por Franco

(1997), exerciam um papel preponderante na vida econômica e social do povoado,

dando-lhe ânimo e pulsação com suas vendas. O vendeiro poderia apelar ou não

para meios desonestos, mas isso dependeria tanto de suas necessidades

econômicas quanto de valores religiosos, morais e culturais que se manifestariam

em suas atitudes.

As dívidas foram apontadas pelos vendeiros como uma das principais

causas de prejuízos e, até mesmo, do fechamento de algumas vendas. Eles

precisavam pagar seus fornecedores e renovar o estoque de mercadorias. Todavia,

não podiam deixar de abrir crédito aos fregueses que não tinham dinheiro para

pagar à vista, principalmente os trabalhadores rurais que recebiam o pagamento por

dia de serviço prestado, como os que recebiam os salários semanalmente ou

mensalmente e havia os que dependiam das colheitas.

Alguns vendeiros alegaram que vendiam fiado porque se sensibilizavam

com a condição de miséria de algumas pessoas, como expressou o Sr. Pedro,

atribuindo às contas não pagas um dos fatores que o levaram a fechar sua venda:

Fiado era comum! Às pessoas que pensava a gente vendia e

recebia, e os velhaco a gente vendia, então, não recebia. A gente se

compadecia, porque estava passando miséria, vendia e perdia,

né?Aí, eu não guentei mais, desisti do negócio e vim trabalhar

novamente [no campo]. Aí tomei conta daqui, fui comprando coisa,

juntando terra, aí fiz a fazendinha, hoje estou despreocupado (Pedro

Andrade, 75 anos, entrevista em 06/07/2003).

O vendeiro está intimamente ligado aos fregueses no que tange às

relações pessoais, compartilhando do mesmo espaço, experiências e valores

próprios daquele grupo social, evidenciando, muitas vezes, laços de solidariedade.

Sr. Pedro considera um dos causadores do fracasso de sua venda o fato de ter se

solidarizado com a miséria de certos clientes, cedendo-lhes crédito e não recebendo

de volta o dinheiro. Porém, isso não se pode estender a todos, muitos cobravam

49


suas dívidas sem qualquer constrangimento e não levavam em consideração

questões pessoais, embora a maior parte dos vendeiros tenha demonstrado essas

preocupações.

1.4 LUGARES DE PROSA

As vendas exerciam uma importante influência na vida da população do

Tabuleiro. Esses espaços de circulação de pessoas, abertos da manhã à noite,

todos os dias da semana, sem fechar para o almoço, significavam para os seus

frequentadores um momento de lazer e diversão. Lá contavam os ―causos‖, bebiam

cachaça e discutiam os mais diversos temas possíveis do universo cultural das roças

e fora delas, tais como: ouviam notícias no rádio ou viam televisão, falavam de

acontecimentos políticos, nacionais e regionais, debatiam futebol, contavam piadas,

faziam adivinhações, falavam sobre a vida pessoal e alheia, criando significados,

valores e práticas para suas vidas, como lembra a Sra. Aurineide:

Aí, de tarde, como não tinha a violência que tem hoje, de tarde o

povo vinha tudo pra porta da venda, que chovesse ou que fizesse

sol. À boca da noite, a venda era cheia de gente, uns vinha comprar,

outros fazer a feira. Trabalhava o dia inteiro, aí quando era de noite,

às vezes, tinha alguma coisa pra vender ou farinha ou cacau, trazia

pra vender, outros vinha, fazia a feira, outros vinha comprar alguma

coisa que tava faltando em casa, outros vinha mesmo beber, tomar

uma cachacinha e contar piada. Outros vinha bestando mesmo, pra

vê o povo, pra ver todo mundo que tava e conversar à boca da noite.

E, às vezes, de dia, quando chegava assim... Antigamente vinha os

cavaiadeiros pra aqui. Na época de 60, 70 e 80 ainda vinha

cavaiadeiros aqui. Aí o povo passava aqui, chegava por aqui pra

vender animal, barganhar, trocava, fazia barganha, um animal pelo

outro, por burro, por cavalo, por boi. Outra hora vendia por dinheiro,

fazia esse tipo de negócio, barganha. E, aí, de noite, os meninos

mais novo ia jogar sinuca, outros vinha jogar (Aurineide Thethê, 50

anos, entrevista em 14/04/2007).

As lembranças da Sra. Aurineide trazem à tona aspectos inerentes ao

cotidiano das vendas com destaque para a sua função social como ponto de

encontro privilegiado. Muitos se dirigiam para lá para fechar um contrato de meação,

50


ecrutar trabalhadores para capinar um terreno, podar uma roça de cacau, consertar

uma cerca ou procurar o trabalho de um pedreiro. Outros iam permutar animais e

objetos, tratar de compra e venda de terras ou deixar um recado. As vendas

tornavam-se um ponto de referência em qualquer vilarejo, não só no Tabuleiro.

A Sra. Aurineide relembra, também, como a venda era ponto de chegada

de viajantes. No Tabuleiro os ―cavaiadeiros‖, negociantes de gado bovino, equino e

asinino, que vinham do sertão da Bahia, conduzindo tropas animais para revender

ou permutar, é um exemplo daqueles que procuravam as vendas para se

abastecerem de mantimentos e se divertirem, assim como negociar os animais,

fosse através da barganha ou compra e venda de objetos, produtos e outros

animais.

As vendas sempre foram lugares de pousada e descanso de viajantes.

Numa expedição que empreendeu pela América do Sul, passando pelo Brasil, em

1832, Charles Darwin teve que inevitavelmente recorrer a uma pequena venda da

cidade de Mangaratiba no Rio de Janeiro. Faminto e carente de descanso, Darwin

escreveu no seu diário, cujo trecho foi transcrito por Cascudo (2003, p. 103-104),

suas impressões e experiência com a venda:

Em Mangaratiba há uma venda; quero demonstrar o meu

agradecimento pela excelente comida que ali me deram (comida que

constitui uma exceção, aí! Bem rara), descrevendo esta venda como

tipo de todas as hospedarias do país. Estas casas, comumente

grandes, estão construídas todas elas da mesma forma: cravam

postes no solo e entretecem ramos de árvores entre eles e cobrem

tudo de uma camada de barro. Raro é encontrar-se em bom estado.

A fachada, que se deixa aberta, forma uma espécie de átrio onde se

colocam bancos e mesas. Todos os dormitórios comunicam uns com

os outros, e o viajante dorme como pode sobre uma tarimba de

madeira coberta com um mau enxergão. A venda está sempre no

meio de um grande cercado ou pátio onde prendem os cavalos.

Nosso primeiro cuidado ao chegar consiste em desincilhar nossos

cavalos e dar-lhes ração. Feito isto, aproximamo-nos do hospedeiro,

saudamo-lo profundamente, pedimos que tivesse a bondade de darnos

alguma cousa para comer. – ―Tudo quanto os senhores

desejarem!‖, respondeu. Apressei-me a dar graças infinitas à

Providencia por nos haver conduzido a um homem tão amável.-

Podia o senhor dar-nos peixe? – Oh! Não temos! – E sopa? –

Também não! – E pão? – Oh! Não senhor, não há! – E carne? – Oh

senhor, não há! Ficamos muito satisfeitos porque ao cabo de duas

horas de espera conseguimos aves do galinheiro, arroz e farinha. E

até necessitamos de matar a pedrada as galinhas que nos foram

servidas.

51


Observa-se que a venda descrita por Darwin, foge, naquele momento, a

sua essência de fornecer ―de tudo um pouco‖, obrigando-o a matar a pedradas a

galinha que foi o prato principal de sua refeição. O naturalista detalhou ricamente a

constituição física do espaço da venda e trouxe um aspecto importante, que difere o

estabelecimento comercial por ele descrito aos do Tabuleiro, a função de

hospedaria. Muitas vendas serviam como estalagens aos viajantes em uma época

que o Brasil era um grande país rural e nos vilarejos e cidades do interior as vendas

tornavam-se um oasis àqueles cujo corpo reclamava descanso e alimento.

Consoante à ideia de espaço de sociabilidade, notava-se a presença do

jogo nas vendas, fosse do bicho ou de cartas. A maior parte delas oferecia esse tipo

de divertimento, mesmo que proibido o jogo de azar. No decreto lei nº 9. 215, de 30

de abril de 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu a prática e a exploração

de jogos de azar em todo o território nacional reafirmando o que previa a lei de

Contraversões Penais de 1941, que já proibia os jogos de azar 10 . O fato é que essas

leis nunca foram plenamente respeitadas, os jogos de bicho e de cartas eram

constantes no Brasil. Vários entrevistados narraram episódios envolvendo as

tentativas da polícia de coibir o jogo, quase sempre sem sucesso, já que muitos

fugiam às batidas policiais ou jogavam escondido para evitar possíveis multas e

prisões.

Rememora Sr. Pedro: ―eu mesmo botei jogo no meio da estrada. Botava

baralho com uma tábua no meio da estrada, visando se a polícia vim, corre todo

mundo, deixa a tábua e o baralho. Não tem casa, não tem dono‖ (Pedro Andrade, 75

anos, entrevista em 06/07/2003). A fala do senhor Pedro traz consigo um aspecto

comum ao que Certeau (1994. p.94) nomeia de ―jogos de astúcias‖, ―artes de fazer‖,

práticas silenciosas que operam microrresistências cotidianas, muitas vezes sem

objetivos políticos determinados. Inúmeras eram essas ações burlescas. O Senhor

Manuel Amado, ex-vendeiro no Tabuleiro e ―tocador de sanfona‖, lembra com risos

as noites em que

O povo jogava por dentro da vagem, cendendo vela, enfrentando o

diabo, mas jogava. No Tabuleiro a gente jogava por baixo das

bananeira, mas jogava! Enquanto tiver um baralho não tem jeito, a

fábrica não fecha (Manuel Amado, 75 anos, entrevista em

16/07/2003).

10 Senado Federal: http://www.senado.gov.br. Consulta: julho de 2009.

52


A resistência às medidas coercitivas da justiça, usando de esperteza para

continuar praticando os jogos, torna esses homens jogadores que brincam e

ganham com uma jogada de mestre o jogo proposto pelo próprio sistema dominante.

A teimosia em manter os jogos vai muito além de um aparente vício. A presença

dos jogos nas vendas reitera não só sua função como espaço de lazer, assim como

proporciona uma evasão da vida real, pois, como observa Huizinga (2001, p. 12), o

jogo é um momento de intervalo na rotina cotidiana, mesmo que sua frequência se

torne um complemento, em última análise uma parte integrante da vida em geral,

assumindo uma função cultural. Seria um momento no qual a existência real seria

suspensa, uma fuga permeada pela liberdade, qualidade intrínseca aos jogos. Como

lembra Huizinga (2001, p. 11),

É possível em qualquer momento, adiar ou suspender o jogo. Jamais

é imposto pela necessidade física ou pelo dever moral, e nunca

constitui uma tarefa, sendo sempre praticado nas ‗horas de ócio‘ (...)

à primeira das características fundamentais do jogo: é que o jogo não

é vida ‗corrente‘ nem ‗real‘. Pelo contrario trata-se de uma evasão da

vida ‗real‘ para uma esfera temporária de atividades com orientação

própria.

O jogo do bicho nas vendas significava um desses momentos onde a vida

real e o mundo dos sonhos interagiam. Durante todo o dia os fregueses chegavam

narrando os sonhos que tiveram na noite anterior ou fazendo associações com

formas de bichos reveladas nos formatos das nuvens ou nas manchas de cuspe

pelo chão. Aos apostadores, todos os sinais poderiam significar a ―fé certa‖ e o

consequente acerto do bicho. Segundo Sr. Carmerino Thethê, ―fazer a fé‖ era

―quando eu tinha um sonho, ou via arguma coisa que me lembrava algum bicho, eu

corria pra fazer uma fezinha, sempre em sempre eu ganhava um dinheirinho‖

( Carmerino Thethê (1925 – 2008), entrevista em 16/03/2003).

Normalmente, entre os apostadores de jogos de azar, costuma se dizer

―jogar a sorte‖ quando se faz uma aposta, no caso dos jogadores do bicho a

expressão mais usada é ―fazer uma fé‖. O termo fé remete a uma crença na

intervenção divina na escolha certa do bicho. Segundo Magalhães (2005, p.126),

que desenvolveu um estudo sobre o jogo do bicho na cidade do Rio de Janeiro na

virada do século XX e suas primeiras décadas, os apostadores recorriam às rezas,

magias e amuletos na ―caça aos bichos‖. Buscava-se, também, no sincretismo

53


eligioso a arma que ―mataria o bicho‖ certo, ―assim a Virgem Maria, Jesus Cristo,

Jurema, os Caboclos e os Exús se combinariam para ajudar o apostador na sua

fezinha‖.

Os jogos nas vendas do Tabuleiro com apostas em dinheiro podiam

resultar em brigas. Havia jogadores que não suportavam perder, surgiam acusações

de trapaças e isso podia incorrer no ajuste violento da rixa. Segundo Chalhoub

(1986, p. 214), a ação violenta de muitos sujeitos nos jogos que ocorrem em bares

ou em outros locais públicos podiam ter antecedentes em conflitos passados. O

momento de interação, promovido por espaços dados a atividades de lazer e

diversão, acabava propiciando o contato entre as pessoas, surgindo aí a ocasião

oportuna para despertar ou ajustar intencionalmente ódios e rivalidades que vinham

de antes.

O desfecho violento dos jogos descortina outro aspecto apontado por

Huizinga (2001 p.14-15): a quebra da magia do jogo. Todo jogo possui suas regras,

são essas que determinam aquilo que ―vale‖ dentro do jogo. E o jogador que

desrespeita a regra é um ―desmancha-prazeres‖; ao quebrar as normas ele quebra a

magia do jogo, o mundo encantado que o faz fascinante. O ―desmancha-prazeres‖,

portanto, é um covarde e precisa ser expulso. Os trapaceiros, segundo o autor, têm

mais sorte que os ―desmancha-prazeres‖, porque pior que burlar o jogo é cometer o

ato imperdoável de quebrar a magia.

O Sr. Pedro Andrade, como bom narrador, trazendo em suas falas

sempre um ensinamento moral, como salienta Benjamin (1993, p.200), expõe suas

impressões a respeito das brigas nas vendas:

Naquele tempo existia muita confusão! Mas no lugar que eu lutava

parece que o povo tinha amor a mim ou me respeitava, porque nunca

registrou uma briga numa venda que eu botava... Botava bebida,

cachaça, era jogo, coisas que não prestava. Mas nunca registrou

uma briga, pois quando começava uma briga, uma confusão, eu

falava: ―Isso aqui nem começa nem termina. Aqui não começa briga

nem termina, porque quem tiver sua rixa é onde começou, não é na

minha casa, por isso aqui é um ponto de prosa não de briga‖ (Pedro

Andrade, 75 anos, entrevista em 06/07/2003).

As lembranças sobre as brigas nas vendas mostraram-se conflitantes, as

impressões eram diversas. Alguns apontaram que havia muitas brigas, como

enfatiza Sr. Domingos de Andrade (63 anos, entrevista em 19/08/2009): ―venda é o

54


que tem: briga e cachaça‖. Mas reitera, ―era briga de porta de venda‖, como sendo

parte do cotidiano das vendas. Já Sr. Pedro observa, segundo sua experiência de

vendeiro, a não existência de brigas nos lugares onde ―lutava‖ (trabalhava) e atribuía

isso às relações de afeto e compadecimento que os fregueses mantinham com ele

e, até mesmo, a sua postura impositiva naquele espaço evitando o desfecho violento

de conflitos.

As impressões desses sujeitos são uma amostragem das diversas

observações a respeito das brigas no espaço das vendas. Porém, é necessário

salientar que são impressões individuais que, mesmo carregadas de uma memória

social, foram tecidas pelos sujeitos a partir de suas experiências particulares. A

memória não é fixa, ela varia constantemente conforme a atuação dos indivíduos na

vida cotidiana. Heller (1992, p. 17) destaca que: ―o homem participa da vida

cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade.‖ Daí

decorre tantas impressões sobre um mesmo aspecto, pois suas rememorações

projetam suas paixões, seus desejos e sonhos, como no momento que Sr. Pedro, na

narrativa, se projeta como alguém que conseguia impedir as brigas na sua venda

com a simples imposição de sua presença, talvez, conduzindo sua fala no sentido de

enfatizar seu papel de destaque.

Na mesma entrevista, o Sr. Pedro Andrade define as vendas como ―ponto

de prosa‖, aspecto que foi apreendido na fotografia abaixo da venda do Sr. José

Gonçalves (no centro da fotografia tocando violão), no início dos anos 80 do século

XX. Ela retrata a visita de Pedro Alves (a sétima pessoa da direita para a esquerda),

então prefeito da cidade Mutuípe ao povoado, recebido por alguns moradores com

uma ―cantoria‖, prática frequente nas vendas do Tabuleiro.

55


Foto 02 – ―Cantoria‖ na venda do Sr. José Gonçalves.

Fonte: Acervo pessoal do Sr. José Gonçalves.

Na fotografia tirada em primeiro plano, o fotógrafo usou uma distância

capaz de capturar a imagem daqueles que tocavam, assim como o ambiente da

venda. No entanto, a ação do tempo estragou algumas partes da imagem, sobretudo

as que revelam detalhes do balcão e das prateleiras. Além do que, foi preciso retirar

as bordas danificadas da fotografia para possibilitar salvar o máximo possível da

parte legível, o centro; assim, a manipulação comprometeu o sentido da foto, já que

ocultou elementos importantes da imagem. De qualquer forma, ela conseguiu

capturar um momento em que a venda congregava moradores e fregueses no

povoado do Tabuleiro, reafirmando sua função sociabilizadora.

Da imagem, percebem-se como as ―cantorias‖ que aconteciam na venda

não seguiam um ritual e muito menos eram solenes. Os indivíduos não mudaram

sua forma de ser; agiram naturalmente diante do então prefeito da cidade de

Mutuípe, com as práticas que lhe eram comuns, sem preocupação com trajes ou

comportamentos ditos apropriados. Essa atitude também foi mútua por parte do

prefeito ao integrar-se aquele grupo de pessoas. No momento da conversa, da

cantoria, o universo cultural e mental de cada um se encontrava. O prefeito, por

exemplo, poderia trazer experiências citadinas àquele espaço rural, ao mesmo

tempo em que compartilhava com os homens do campo valores culturais próprios.

56


A venda, também, era um espaço que congregava a diversidade étnico

racial. Na imagem nota-se a pluralidade racial dos moradores do lugar. A população

de trabalhadores rurais e fazendeiros era formada por negros, brancos e mestiços,

convivendo nos mesmos espaços. Revelam-se aspectos da formação histórica do

lugar, principalmente, do Recôncavo Sul da Bahia, que, segundo Oliveira (2000,

p.57-71), absorveu ex-escravos que passaram a se dedicar à policultura de

alimentos, assim como foi um lugar que privilegiou a lavoura familiar, com

propriedades em sua maioria de pequeno e médio porte, com pessoas das mais

diferentes etnias.

Ainda em relação à imagem, é perceptível a diversidade social dos

fregueses revelada nos trajes, nos calçados, chinelos de couro ou sandálias de

borracha, nos chapéus de feltro, palha ou boina usados por alguns. Segundo

Stallybrass (2008, p.10), as roupas ―literalmente nos habitam através dos hábitos

que nos legam‖. Elas são carregadas de simbologias que corporificam relações

sociais. Na imagem, os trajes dos indivíduos trazem consigo suas histórias de vida.

Uma camisa gasta, com rasgos, ou botão que falta, carrega memórias de

acontecimentos significativos. Os chinelos de couro que ganham o formato dos pés

de quem os calça, trazem consigo as formas de andar, a postura dos corpos que

sustentam.

Dentre essas formas de vestir-se, o costume de usar chapéus entre os

homens poderia ser a afirmação da chegada à fase adulta, assim como uma moda

da época. Nos pés, as sandálias de couro, muito usadas pelo homem do campo,

evidenciavam costumes tradicionais e, até mesmo, a condição social de muitos. O

uso de chinelos por alguns poderia ser devido à falta de dinheiro para comprar

calçados mais caros ou significaria, simplesmente, a opção por um calçado mais

confortável. Desse modo, tais aspectos demonstram a multiplicidade social e

identitária do lugar reunidas no espaço da venda.

Na imagem são notados aspectos inerentes à organização espacial da

venda. Observam-se no mobiliário um banco de madeira e tora de árvore que

serviam de assento. Atrás do tocador de atabaque, havia dois tonéis com óleo

diesel, muitas vezes usado pra mover o motor não só dos carros de alguns

moradores do povoado, como de tratores ou maquinários das casas de farinhas.

Isso evidencia, mais uma vez, o papel relevante das vendas que tentavam suprir as

57


necessidades de consumo dos fregueses, assim como absorviam muitas novidades

da modernização atuante na época.

Assim, o olhar do fotógrafo captou em um momento de diversão na

venda, aspectos da vida social de uma comunidade rural ao evidenciar hábitos e

costumes de forma espontânea, já que na organização cênica da imagem alguns

sujeitos não param diretamente para compor imagem a ser congelada. O homem

que bate palmas, com um dos pés apoiado no banco e cabeça baixa, acompanhado

o ritmo da música, não parece intimidado com a presença do fotógrafo ou da

autoridade política, representada pelo prefeito. Sua atitude e dos outros demonstram

como um simples entretenimento, um momento propício podia ser o convite ideal

para a trova e diversão nas vendas, pois é na fluidez natural, quase silenciosa, sem

formalidades que se ―inscreve a essência da vida cotidiana: a espontaneidade

(HELLER, 1992, p. 29).

1.5 VENDA: UM ESPAÇO PRATICADO E RESSIGNIFICADO

A venda como um espaço de sociabilidade é praticado por todos,

homens, mulheres, crianças, moços e velhos. E, como não poderia ser diferente, as

relações entre os indivíduos é orientada por uma série de limites que a conveniência

de viver em sociedade lhes impõe. No caso das mulheres, o fato das vendas serem

um espaço de predominância masculina não as impedia de frequentá-lo e, como

observa Perrot (1992, p.167), ―a fronteira entre o masculino e privado é variável,

sinuosa‖, nem todo espaço público é político e masculino e, por outro lado, nem todo

privado é feminino.

Os diversos comportamentos de homens e mulheres nas vendas, embora

envolvam diferentes razões, podem ser entendidos como atuações dentro da

sociedade, refletindo concepções de gênero internalizadas por eles. Nesse sentido

Saffioti (1992) alerta:

Eis porque o machismo não constitui privilégio de homens, sendo a

maioria das mulheres também suas portadoras. Não basta que um

58


dos gêneros conheça e pratique atribuições que lhes são conferidas

pela sociedade, é imprescindível que cada gênero conheça as

responsabilidades do outro gênero (SAFFIOTI, 1992, p. 10).

Saffioti (1992) ao refletir sobre as relações de gênero afirma que tanto

homens quanto mulheres têm em si atitudes machistas. Entender como isso se dá é

fundamental para perceber como os sexos interagem. Atribuir papéis próprios a

cada um, talvez, seja a intenção daqueles que exercem sobre a sociedade poderes

coercitivos, mas, mesmo sob forte controle social os indivíduos lidam,

cotidianamente, com diferentes situações que lhes faz mudar constantemente de

posicionamento face às exigências e necessidades de cada um.

O fato é que existem nos embates de gênero, relações de poder agindo,

seja de forma explicita ou não. Os comportamentos são vigiados e sujeitos às

críticas e censuras da sociedade. Disciplinar as atitudes das pessoas é um

mecanismo usado tanto pelas instituições quanto pelos próprios indivíduos nas

relações cotidianas. Conforme Foucault (2005, p.148) o poder disciplinar é,

Absolutamente indiscreto, pois está em toda parte e sempre alerta,

pois em princípio não deixa nenhuma parte às escuras e controla

continuamente os mesmos que estão encarregados de controlar; e

absolutamente ‗discreto‘, pois funciona permanentemente em grande

parte em silêncio.

O modo como homens e mulheres vivenciam essas relações

disciplinadoras, apontadas por Foucault (2005), influía na imagem que as vendas

tinham e no comportamento dos sujeitos. As diferentes experiências com o espaço

das vendas evidenciavam comportamentos que lidavam constantemente com jogos

de poder.

As mulheres do Tabuleiro praticavam e ainda experienciam o espaço da

venda de maneiras diferenciadas, apresentando consigo uma forte ligação entre a

necessidade de consumo, as relações afetivas e morais que mantinham com elas.

Embora a maioria das narrativas remonte a épocas variadas, na atualidade, muitos

dos aspectos apontados pelos entrevistados permanecem, as relações pouco

mudaram. Assim Dona Aurineide argumenta:

A frequência das mulheres na venda era comum sim. Elas iam,

assim, quando ia fazer a feira, que um dos marido adoecia, que não

podia ir à feira. Aí elas iam na venda fazer a feira. Aquelas que não

59


tinham marido, que elas tomavam conta da suas próprias vida e elas

mesma era quem ia fazer a feira, vender os produtos da roça.

Vendiam cacau, vendia farinha. Às vezes adoecia alguém e elas

precisava ir para a cidade, ai passava na venda, comprava o que

precisava. Se precisava de algum dinheiro prá depois pagar, elas ia

tomava o dinheiro... Mas as mulher não participava, assim, tanto da

venda não. Quem ia mais pra venda era os homens. As mulher ia,

mais, só ia assim, quando tinha grandes precisão. Que os homens ia

por precisão e, também ia assim nos dias de domingo de tarde pra

conversar, pro bate-papo, ia passeando, mas as mulheres não ia

passear ia por necessidade, por precisão mesmo (Aurineide Thethê,

50 anos, entrevista em 14/04/2007).

Noutra perspectiva a Sra. Laura de Jesus, agricultura, que, por anos,

frequentou as vendas do Tabuleiro, expressa vivências diversas às da Sra.

Aurineide Thethê:

Às vezes na dos outro, mas na casa de Zé Gajilo eu não tinha

vergonha, na casa de Jovená não tinha vergonha, na casa de Arthur

não tinha vergonha. Eu chegava bebia, fumava, prosava, pilheriava,

tirava meus caminho e ia embora... Lá era tudo conhecido, era

mesmo de ser meus irmão. Ochê! Ia ter vergonha de quê?! (Laura

de Jesus Andrade (1944-2006), entrevista em 24/10/2006).

No primeiro relato nota-se que a Sra. Aurineide vivencia o espaço da

venda como um lugar de trocas comerciais para as mulheres, no qual elas não

devem demorar mais do que o tempo necessário para fazer as compras e pagá-las,

assim o lazer nestas lojas rurais seria uma exclusividade masculina. Já para a Sra.

Laura, ir às vendas era um momento de fazer compras e de lazer, ocasião em que

ela conversava com os frequentadores e vendeiros sem a preocupação de ser uma

mulher num espaço majoritariamente masculino. Porém, ela justifica sua desinibição

pelo fato de estar entre amigos. A Sra. Laura trata as vendas como ―casa‖, refere-se

aos vendeiros como irmãos, demonstrando que mantinha uma relação próxima não

só com os moradores do lugar, mas, também, com os comerciantes. Era mais que

uma simples freguesa, assim ela se considerava.

Os laços de familiaridade que marcam as relações entre os vendeiros e

fregueses caracterizam um costume proporcionado por práticas anteriores de

convívio naquele espaço. Ou seja, os frequentadores das vendas em sua interação

com o lugar criaram práticas que identificaram o espaço da venda como um

ambiente propício às relações de solidariedade entre os indivíduos que o

60


frequentam. Segundo Certeau (1994, p.202), ―o espaço é um lugar praticado‖ e são

essas práticas cotidianas que dão a um lugar, destinado às relações comerciais, o

calor da convivência humana.

O vendeiro conhece os gostos de cada um, chama os fregueses pelo

primeiro nome ou por apelidos, conhece as famílias e as crianças do lugar. A ele se

recorre num momento de emergência, quando é necessário um remédio para dor de

cabeça ou febre a qualquer hora do dia ou da noite. Na iminência de um problema

de saúde ou financeiro apelava-se a um empréstimo de urgência como apontou Sra.

Aurineide. O vendeiro também é o confidente, aquele a quem se pede um conselho

ou um favor. Muitos o chamavam num canto para pedir dinheiro emprestado ou

comprar algo fiado para evitar constrangimentos. Algumas mulheres pediam para

serem atendidas nos fundos da venda quando queriam comprar uma ―meota‖ 11 de

cachaça ou algum artigo de higiene pessoal, por exemplo, já que não se sentiam à

vontade para fazê-lo no mesmo ambiente dos homens.

A Sra. Aurineide observou que as mulheres, geralmente, ―faziam a feira‖

quando os maridos estavam impossibilitados, ou aquelas que eram ―donas de sua

própria vida‖ o faziam sem impedimentos. No caso do Tabuleiro e, muito

provavelmente de outras localidades rurais do Recôncavo Sul da Bahia, o costume

de fazer a feira semanal da família, na maioria das vezes, nos dias de sábado, era

uma atividade basicamente masculina. Os homens acordavam cedo e se dirigiam

para o povoado, lá iam primeiramente ao açougue ou a uma das vendas e

compravam as carnes para garanti-las frescas e de boa qualidade. Depois, nas

vendas, compravam os gêneros alimentícios de que necessitavam, aproveitando o

momento para dar ―um dedo de prosa‖ e tomar uma ―branquinha‖ (cachaça), muitos

se empolgavam e acabavam demorando, para preocupação das mulheres que os

esperavam com a feira em casa.

Contudo, havia mulheres casadas cujos maridos não as impediam ou

talvez elas não se submetessem às imposições do limite de ir às vendas fazer as

compras. Mas, a grande presença masculina pode ser justificada por preceitos

morais arraigados numa cultura tradicional, tecida num passado paternalista da

sociedade brasileira, no qual os papéis femininos e masculinos deveriam ser pré-

definidos (embora isso não signifique que todos os assumissem). O homem exercia

11 O termo meota é usado pelos frequentadores das vendas para designar uma garrafa reaproveitada

que serve para conter cachaça comprada a granel.

61


a função de chefe de família - provedor, trabalhador - já as mulheres as funções de

mãe - donas do lar. Daí consagrou-se, socialmente, o espaço da venda como um

lugar de predomínio masculino.

O homem, provedor, ia à venda cuidar daquilo que era necessário ao

sustento da família e as mulheres deveriam ficar em casa cuidando dos filhos e dos

afazeres domésticos. Talvez, por isso elas não tivessem tempo de ir à venda, sem

contar com a imagem da venda de um lugar que não deveria ser frequentado,

sobretudo à noite, ―por mulheres de respeito‖. Visto que lá também era um lugar de

jogos de azar, bebidas e comportamentos masculinos impróprios que ―moças de

família‖ não deveriam presenciar para não desvirtuá-las do caminho da moral e dos

bons costumes, como lhes ensinavam seus pais.

A maior presença masculina nas vendas pode ser atribuída ao próprio

ritmo de vida do homem do campo, que tem maior flexibilidade em relação aos seus

horários de trabalho, podendo, até mesmo, escolher os dias e horários, caso a terra

seja de sua propriedade ou variando conforme a época de produção e colheita, ao

contrário dos trabalhadores urbanos que têm horários pré-definidos e, muitas vezes,

trabalham aos dias de sábado e domingo, impossibilitando-os de frequentar as feiras

ou mercados para fazer as compras, por isso as mulheres se encarregavam dessa

atividade. Todavia, é preciso ressaltar que essa observação não se estende a todos

os grupos de trabalhadores urbanos e muitos encontram formas alternativas de

fazerem suas compras semanais, como escolhendo outros dias da semana para

fazê-lo ou em horários alternativos.

Embora esses fossem os comportamentos esperados de homens e

mulheres, nota-se, pelas narrativas, a participação constante das mulheres nas

vendas. Fossem pra comprar, beber, conversar, proibido ou não para algumas, elas

lá estavam circulando por aquele espaço.

Dona Madalena relembra como sua relação com as vendas foi sendo

ressignificada ao longo do tempo. Na infância a venda era proibida às mulheres, sua

mãe não lhe permitia frequentar esse espaço. Quando seu marido tornou-se

vendeiro, aquele ambiente ganhou outro significado e depois da sua viuvez ir às

vendas do Tabuleiro tornou-se, além de uma opção de comerciar, uma forma de

lazer:

62


Eu não saia pra canto nenhum, não. Falar logo a verdade: quando eu

era pequena, eu não ia em venda não; quando precisava, quem ia

era Pedro, Toinho. Hoje em dia qualquer uma menininha vai na

venda. Inté agora não, quem ia era os meninos, as meninas ficavam

em casa. Mãe não deixa ir não. Ninguém nem falava isso de ir em

venda, menino era criado dentro de casa, preso. Eu peguei ir em

venda quando eu era mãe de Cele, que eu peguei ir em venda, e

quando casei meu marido botou uma vendinha, a gente trabalhava

na venda. E, quando eu fiquei viúva, mãe morava no Tabuleiro.

Pronto! A gente não saía de venda, pilheriava, tudo a gente ia

(Madalena Pereira, 73 anos, entrevista em 15/11/2009).

Tais variações de relação com a venda demonstram que embora

houvesse proibições e comportamentos esperados, até cobrados por parte da

sociedade, sobre a ida das mulheres à venda, muitas pareciam não se impor esses

limites, se é que eles existiam para muitas. Isso implica compreender as relações

cotidianas como um arranjo complexo, atravessado por impressões,

constrangimentos, censuras, repreensões, valorizações, diagnósticos, intimidações,

etc, advindas não apenas dos discursos institucionais, mas, também, das práticas

que são construídas em razão de diferentes posicionamentos dos próprios sujeitos

sociais.

As mulheres do campo tinham, ainda, uma relação econômica com as

vendas que supera o simples consumo de mercadorias. No Tabuleiro, entre as

décadas de 60 a 90, muitas comerciavam ali os frutos do trabalho nas ―rocinhas‖

para suprir suas necessidades pessoais e de seus filhos, sem ter que recorrer ao

marido. Segundo Maia (1985, p.92-94), as rocinhas são subdivisões da propriedade

familiar distribuídas entre os membros da própria família de maneira informal.

Nela o menino ou a menina aprenderia a ter responsabilidade e passava

a ganhar algum dinheiro. Em média com oito anos de idade a criança recebia a

rocinha e no momento de cultivar e preparar o terreno sempre contava com a ajuda

dos adultos (MAIA, 1985, p.92). Para as esposas, as ―rocinhas‖ representavam uma

fonte independente de renda, que lhes davam certa autonomia financeira em relação

aos maridos e os ajudava nas despesas do lar. A maior parte do dinheiro era gasto

com roupas, sapatos, material escolar para os filhos, dentre outros. Sra. Aurineide

reconhece a importância das rocinhas:

Tinha pais que o filho e a mulher trabalhava todo mundo junto com

ele. E o que a família precisasse ele dava o dinheiro pra comprar o

que precisassem. Mas tinha pai também que era os dono da terra e

63


que dava um pedacinho da terra pra mulher plantar. Pra ela ter uma

rocinha, pra ela ter, assim, o dinheirinho dela. Pra ela comprar as

coisas que ela precisava: calcinha, sutiã, perfume, xampu, creme pra

pele... Essas coisa. E também dava pros filho, também, que era uma

maneira... Muitos pensava assim, que dá aos filhos pros filhos

aprender a trabalhar pra também ter seu dinheirinho, quando fosse

numa festa, comprar os perfumes deles... [os produtos] vendia nas

venda ou nos armazéns. (Aurineide Thethê, 50 anos, entrevista em

14/04/2007).

Outro aspecto que merece destaque era o fato do dinheiro ganho com as

rocinhas ser gerenciado pelas próprias mulheres e crianças. Havia mulheres que

mantinham contas separadas dos maridos nas vendas para que elas pudessem

gerenciar seus ganhos da forma que achassem mais adequados. Supõe-se que,

para os homens, era uma forma de livrar-se de algumas despesas extras, visto que

muitos consideravam desnecessários gastos com vestuário, produtos de beleza,

entre outros, deixando ao encargo das mulheres o cuidado com esses detalhes da

economia doméstica.

Além do mais, esse espaço conquistado pelas mulheres demonstra que

elas não ficavam confinadas ao universo privado de casa, esperando que os

maridos ou pais provessem o sustento do lar. O trabalho das mulheres na roça era

fundamental para manter economicamente a família. Nos núcleos familiares mais

pobres não havia recursos financeiros suficientes para contratar empregados para

cultivar a terra, era preciso que a família trabalhasse junto para garantir o sustento.

E, mesmo que o homem administrasse o dinheiro ganho no trabalho familiar, a

mulher tinha formas alternativas de sobrevivência e conseguia manter sua

identidade sem ter que se anular por viver numa sociedade conservadora ao

distinguir papéis sociais para homens e mulheres.

Em relação aos frequentadores da venda, pode-se citar a participação

efetiva das crianças. Para elas, ir às vendas era entrar em contato com um mundo

mágico. A magia estava nas cores e sabores proporcionados pelos doces,

embalados em papéis coloridos ou plásticos brilhantes, girando em bombonieres

com suas diversas tampas que davam acesso a guloseimas de paladares múltiplos.

Já os sabores, que as faziam salivar, estavam no doce dos bombons que derretiam

―ao céu da boca‖, no gelado dos refrigerantes e picolés ou no salgado dos

64


amendoins e chebeus 12 , entre outros. Mas, para as crianças, os refrigerantes eram

bebidas especiais, pois no campo só eram encontrados nas vendas, e tomar uma

tubaína, cajuína ou laranji, refrigerantes populares, vendidos em garrafas de 1 litro,

tidos como os mais baratos e, nem por isso menos saborosos, poderia ser motivo

de festa para elas.

Dentre tantas funcionalidades, a venda era, também, um lugar de

conhecimento e de experiências lúdicas para as crianças. Alí poderiam brincar de

―ser gente grande‖, ao praticar um espaço que carrega vivências adultas, pois era

lugar de negócios, de jogos de azar e de bebidas alcoólicas, atividades tidas como

impróprias às crianças. Elas, entretanto, não deixavam de compartilhar do mundo

adulto ao jogarem sinuca, brincar com os dominós e circular pelo ambiente das

vendas, dividindo experiências com os mais velhos, mesmo que fossem nas

brincadeiras em que fingiam estar comprando e vendendo algo, bebendo

refrigerante, como aguardente ou fumando palitinhos de fósforos como se fossem

cigarros.

Na fotografia da Venda Santa Ana (foto 03), cedida pela senhora

Aurineide Thethê, a presença das crianças se faz notar. Algumas delas jogam

sinuca no interior da venda e uma, mais à frente, contempla com um olhar curioso o

que os adultos fazem. Aliás, esse garoto, embora fosse um menino ―de calças

curtas‖, parece incorporar o papel de adulto no momento que a imagem foi

capturada. De camisa de manga aberta e chapéu na cabeça, ele tenta assemelhar-

se aos mais velhos na sua forma de vestir, só se diferenciando pelo short curto,

denunciando ainda ser uma criança.

12 Chebeu é o mesmo que torresmo. Nas vendas eram vendidos em porções, embaladas em papéis,

cujas dobras nas extremidades formam um franzido. Os pacotinhos com chebeus eram comprados

para acompanhar as bebidas como tira-gosto ou simplesmente serem degustados.

65


Foto 03: Crianças na Venda.

Fonte: Acervo particular de Aurineide Thethê, 1979.

A atitude do garoto revela aspectos comportamentais e valores sociais do

homem do campo. O costume de usar chapéu entre os mais velhos era comum,

significava incorporar valores de masculinidade, por isso muitos adultos usavam-no.

Na época, o chapéu representava um símbolo de amadurecimento, com eles não

estariam apenas mais elegantes, mas afirmando a presença em um espaço social,

como um homem que deseja ser independente, dono de sua vida. Para o garoto da

fotografia, poderia significar a busca por uma identificação com um universo

masculino que ele tinha como um modelo a seguir.

Para Maria das Graças Teixeira (2004, p.8-9), ao pesquisar sobre os

brinquedos da infância, a criança no seu universo lúdico e social busca um caminho

de participação no mundo do adulto e, consequentemente, inicia processos de

interação com a realidade, pois

Quando brinca se projeta para o mundo, numa relação dialética onde

ela fica dentro e fora ao mesmo tempo, ou seja, ela se integra ao

locus do adulto sem perder de vista o seu mundo interior da fantasia

da criação e recriação. Esta condição dupla de estar presente nestes

dois mundos só é possibilitada pelo jogo lúdico que cria através da

linguagem um universo singular que infelizmente se perde ao longo

do crescimento etário do homem.

66


Assim, ao brincar, a criança busca incessantemente a compreensão do

mundo que a rodeia, como destaca Teixeira (2004). É nesse ínterim que ela toma

conhecimento de tudo aquilo que o adulto particulariza como seu. No caso das

vendas, os meninos, principalmente, com o contato com os jogos, com a bebida,

com o fumo, com os causos dos fregueses e, a partir das brincadeiras, que faziam

com esses valores e comportamentos desenvolvidos nas vendas, eles estavam de

alguma forma a experienciar o espaço, o outro e a si mesmo. Então, eles poderiam

projetar-se como indivíduos, usando a sua criatividade e liberdade para imaginar,

criar e recriar um mundo próprio.

A presença das crianças e mulheres nas vendas, portanto, simboliza não

só o comportamento delas num espaço determinado, mas como suas práticas e

vivências expressam atitudes e valores que se estendem às relações sociais, ao

trabalho, à vida familiar e às relações de poder. Os espaços sociais podem ser

ressignificados quebrando tradições e ganhando novas formas de acordo com as

experiências e práticas dos indivíduos com o lugar. E nas relações de convivência

com os lugares de memória ―transparece um trabalho que, incessantemente,

transforma lugares em espaços ou espaços em lugares‖ (CERTEAU, 1994, p. 203).

67


2.1 O POVOADO DO TABULEIRO

CAPÍTULO II

VIVER NA ROÇA

68

O chão batido e alisado pelos pés humanos não

são planejados mas podem ser comoventes.

Yi-Fu-Tuan

No dicionário ―Geológico Geomorfológico‖ (Guerra, 1993, p. 404), a

palavra tabuleiro significa forma topográfica que se assemelha a planaltos,

terminando geralmente de forma abrupta, cujo aspecto físico característico é a forma

plana, sedimentar e de baixa altitude, muito comum na zona costeira nordestina.

No caso do povoado do Tabuleiro, o significado etimológico da palavra

‗tabuleiro‘ incorpora com propriedade a formação topográfica desse lugar, localizado

num elevado de terra de superfície plana, com uma paisagem formada por vestígios

da Mata Atlântica, salpicada de roças de cacau e pastagens. O olhar de quem a

observa vislumbra uma terra recortada, como uma colcha de retalhos, na qual cada

terra arada e cultivada forma um mosaico de tons variados de verde e ocre.

A paisagem é, ao longo dos anos, criada e recriada constantemente, fruto

da ação de homens e mulheres. A cada manhã os passos que dão nos caminhos

que cortam as roças, em cada árvore que derrubam ou plantam, terra que aram

deixam nesse solo sua assinatura, mesmo que efêmera. O ato de andar diariamente

pelas roças os leva a lugares que o tempo fixa em suas memórias e deixa marcas

indeléveis na tessitura da alma desses indivíduos, uma vez que os ―passos que

moldam espaços tecem lugares‖ (CERTEAU, 1994, p.176) e, cujo ato de ir e vir cria

trajetórias, ajudam a dar vida a um lugar sentido afetivamente pelos que lá habitam.


Um lugar só tem significado para aqueles que o praticam; e é necessário

que o homem permaneça num determinado ambiente para que possa criar laços

identitários. A partir do momento que se fixa e passa a conhecer suas minúcias, sua

geografia, vivencia experiências íntimas e aconchegantes nesse espaço, bem como

conflitos e disputas, o homem contribui para a intensidade de seu sentimento de

pertencimento a um lugar.

O tempo de vivência em um ambiente e a consciência do passado são

elementos importantes no amor pelo lugar. A formação identitária de uma

comunidade parte de uma relação construída ao longo de um tempo histórico, no

qual os sujeitos, nas relações cotidianas, dividiram experiências que os aproximam

e, de certa forma, os unem por uma memória social comum.

Segundo Yi-Fu-Tuan (1980), os indivíduos estabelecem uma relação

topofílica com o meio ambiente, ou seja, criam pelo contato constante relações

afetivas com os lugares. Para o homem do campo,

Os músculos e cicatrizes testemunham a intimidade física do contato.

A topofilia do agricultor está formada desta intimidade física, da

dependência material e do fato de que a terra é um repertório de

lembranças e mantém a esperança (TUAN, 1980, p. 52).

Sentir o lugar é registrado pelos nossos músculos e ossos (TUAN, 1983,

p.203). A postura, o andar, remetem às atividades, às vivências, aos fazeres dos

indivíduos 13 . As marcas de cortes, os calos nas mãos dizem muito a respeito da

história de um indivíduo, expressões mudas que falam muito mais que qualquer

verbalização sonora de experiências de vida. Esses trabalhadores trazem consigo a

memória gravada na pele, aspectos observados nos entrevistados, grande parte

deles trabalhadores rurais.

Quanto ao perfil dos moradores do povoado, pelo menos até os fins da

década de 1980, era composto de pequenos proprietários de terra, rendeiros,

meeiros, comerciantes, trabalhadores rurais diaristas ou assalariados e suas

13 Na pintura ―O lavrador de café‖, de Portinari, por exemplo, o trabalhador das plantações de café do

início do século XX tem pés e mãos expressivos, observa-se que os pés são grandes e trazem

consigo rachaduras, e nas mãos a aspereza de membros que ceifam a terra. O pintor captou a

expressão corporal daqueles que trabalham na lavoura, ao enfatizar como pés e mãos são os

―instrumentos‖ de trabalho primordiais ao lavrador. Cf: Projeto Portinari: .

Consulta em 20/12/2009.

69


famílias. Direta ou indiretamente a população do lugar tinha uma ligação com a terra.

O dia começava, para grande parcela dos moradores, em direção às roças, onde

iam passar a maior parte do dia trabalhando. Homens, mulheres e crianças

deixavam suas casas para trabalhar nas roças de sua propriedade ou de seus

patrões. As mulheres, quando não acompanhavam seus maridos, ficavam em casa

cuidando dos afazeres domésticos e dos filhos menores. Já as crianças que

estudavam se dirigiam para a escola primária do povoado, fundada em 1948, e no

turno oposto ajudavam os pais na lavoura ou nas atividades domésticas.

Para os moradores do povoado, o dia poderia ser gasto na poda dos

cacaueiros, na plantação de mandioca, na colheita do café, na manocação 14 do

fumo, na criação de animais como porcos, galinhas, caprinos, gado bovino, e na

derrubada de árvores para dar lugar às plantações. E, em certas ocasiões, um

pequeno agricultor ou meeiro poderia chamar a vizinhança ou um grupo de amigos

para fazer um adjutório 15 para raspar mandioca, limpar um terreno, colher café ou

manocar fumo.

O adjutório era uma prática comum entre a população rural do Recôncavo

Sul. Nessas ocasiões, amigos, vizinhos e parentes reuniam-se para auxiliar uma

família que precisava de ajuda para realizar algum trabalho pesado ou que requeria

pressa e assistência de várias pessoas. Durante os adjutórios era responsabilidade

dos beneficiados oferecerem comida e bebida aos ajudantes. O trabalho realizava-

se num clima de animação, os participantes cantavam cantigas, cocos, tiranas e

sambas acompanhados de palmas, constituindo um momento de ―entrelaçamento

entre trabalho e diversão como uma convivência entre dimensões variadas na vida

no campo‖ (SOUZA, 1998, p.180).

A ajuda mútua entre os moradores do povoado não necessitava de

planejamento como nos adjutórios, ela acontecia em pequenas ações cotidianas de

forma voluntária entre os indivíduos do lugar. A Sra. Maria Nunes, conhecida como

Dona Pomba, uma senhora que em minhas memórias de infância sempre teve um

cabelo alvo como algodão e um abraço acolhedor, narra como a criação de seus 12

filhos, (sendo que 4 deles faleceram, alguns ao nascer e outros na infância

14

Manocação é o processo de seleção das folhas secas do fumo, que são divididas em pequenos

molhos chamados de bonecas ou manocas.

15

Alguns autores fazem importantes referências aos adjutórios. Cf: SANTANA. Fartura e ventura

camponesas: Trabalho, cotidiano e migrações. Bahia, 1950 – 1960. São Paulo: Annablume, 1998. p.

54. SOUZA, Edinélia Maria Oliveira. Trabalhadores do campo: práticas de sobrevivências e relações

de poder no Recôncavo Sul da Bahia. In: Revista Contraponto, Salvador, 1998. p.180.

70


acometidos por algumas enfermidades) foi tarefa amenizada graças à ajuda dos

amigos e vizinhos:

Tirava corte de café aqui que dava 60 arrobas de café! Nunca deu

trabalho pra se panhar, quando eu chegava, tava em cima do balcão,

não precisava pagar. As mulher juntava somente pra comer torresmo

e carne de porco, não precisava pagar não, bastava ter de comer,

juntava dez, doze (...). A gente aqui não fazia dijitório não! Aqui era

assim, juntava aquelas mulé atrás de mim, ajuntava aquele lote

danado, quando eu saia entupia a casa, uma ia lavar roupa, varrer a

casa, outra ia varrer o terreiro, tomar conta de um menino, quatro,

cinco tava pelos café, panhando café, nunca precisava de anúncio

(Maria Nunes, 88 anos, entrevista em 16/08/2009).

Entre os moradores, a ajuda mútua também poderia acontecer como

forma de diversão. Era muito comum nas cidades do Recôncavo Baiano o roubo da

malhada 16 . Nos dias que a terra era preparada para o plantio, se não fossem

plantadas todas as mudas de fumo ou se a terra ainda não tivesse sido arada, o

dono da lavoura poderia ser surpreendido na calada da noite por um grupo de

pessoas, quase sempre vizinhos e amigos, que ―roubavam‖ a terra e começavam a

plantar as mudas de fumo, muitos se assustavam, achando que algo de errado

poderia estar acontecendo na propriedade. A Sra. Madalena, irmã do Sr. Pedro

Andrade, citado por ela como mestre em roubar malhada, assim narra as noites em

que teve sua terra roubada:

Quando foi boquinha da noite, eu tô em casa mais Zelita, Lita

moleca, disse: ―- Ôh Lena, eu vi uns caras passando baixado com

enxada no ombro, vão cavar a terra da gente!‖ Eu digo: ―- É nada!

Oxe!‖ Tava Pedro, todo mundo no meio. Fazia surpresa pra gente.

Quando a gente via era gritaria, cantava que queria comer galinha,

comer não sei que diabo, que tinha que matar, a gente ia pro gasalho

[poleiro] de noite pegar as galinhas (...). Quando eles terminasse de

cavar, a comida já tava pronta, só era chegar comer e iam comer

pular, sartar, até tarde a noite. Depois ia todo mundo embora. Pedro,

ali, era um mestre pra fazer isso. Não era coisa pra prejudicar a

gente não, era coisa pra ajudar, brincadeira de família (Madalena

Pereira, 73 anos, entrevista em 15/11/2009).

Dona Madalena define esse momento de trabalho e diversão como

―brincadeira de família‖, suscitando um aspecto característico de pequenas

comunidades rurais, as pessoas do lugar estão unidas, muitas vezes, por laços de

16 Malhada é o nome dado à plantação de fumo.

71


parentesco, que proporcionavam o estreitamento dos laços de solidariedade.

Todavia, ser da família ou não, não era pré-requisito para que as ajudas mútuas

acontecessem. Segundo Tuan (1983, p.156),

A intimidade entre as pessoas não requer o conhecimento de

detalhes da vida de cada um; brilha nos momentos de verdadeira

consciência e troca, cada troca íntima acontece em um local, o qual

participa da qualidade do encontro. Os lugares íntimos são tantos

quantos as ocasiões em que as pessoas verdadeiramente

estabelecem contato.

Os momentos como os adjutórios, as reuniões para pilar café, plantar

fumo ou raspar mandioca nas casas de farinha, mutirões, entre outros,

proporcionavam encontros humanos afetuosos, os sujeitos dividiam experiências

íntimas, ao dançar, cantar, contar ―causos‖ até altas horas da noite. Tais ambientes

detêm a ―qualidade do encontro‖ como aponta Tuan (1983), ao propiciar aos

sujeitos, na interação social, experiências pessoais e afetuosas significativas,

relembradas quase sempre pelos narradores com muita alegria, uma vez que dias

como esses, quando rememorados, provocam intensa satisfação. Porém, a forma

como as pessoas lembram momentos de lazer e diversão tem variações conforme

as experiências de vida de cada um.

Nas lembranças do Sr. Pedro Andrade, sobre o trabalho no campo, um

misto de alegria e sofrimento, de trabalho e diversão aparece com certa constância

nas suas reminiscências. O que revela não apenas os sofrimentos do trabalho ou as

formas como ele escapava à exploração da lida diária e das relações com seus

patrões durante o período que trabalhou como meeiro, mas revela como ―a memória

que escolhemos para recordar e relatar (portanto, relembrar) e como damos

sentidos a elas são coisas que mudam com o passar do tempo‖ (THOMSON, 1997,

p. 57). Ou seja, as memórias do Sr. Pedro e de outros narradores mostram certas

variações, encarando acontecimentos dolorosos ora com alegria ora com tristeza,

demonstrando que as experiências ao longo da vida vão ressignificando as vivências

e lhes dando outros matizes e sentidos, como é perceptível na narrativa do Sr.

Pedro:

Quando a gente vinha da roça, cansado, nós ia manocar fumo até...

dormia na ruma de fumo. Banho ninguém tomava. A gente, quando

72


tinha um tempo, passava água nos pés. Tinha uma gamela, um vaso

de madeira parecendo uma bacia. Passava água nos pés, nos

braços e no rosto. Quando não tinha, dormia na ruma de fumo

mesmo, quando no outro dia clarear, tornava levantar para ir pra

malhada (...) O trabalho era tanto que não cuidava de si próprio. Era

somente pra trabalhar e era tudo difícil, por causa do transporte que

não existia. Então, trabalhava muito e apurava pouco. A grana era

pouco, a conta de comer mal, comer mal mesmo. Naquela época não

existia o que existe hoje (...). Quando era criança, quando casou uma

pessoa aqui, o pessoal falou ―o casamento deu bom teve até

macarrão‖. Naquele tempo parecia que o pessoal era mais alegre do

que hoje, era um pobre mais pobre, que era um pobre mesmo. Mas a

alegria era grande, naquela época a alegria eram muito grande. Eu

cansei de fazer um adjunto pra manocar fumo, vinha aquele grupo

todo de gente pra quando terminar a manocação de fumo cantar roda

até o dia amanhecer (Pedro Andrade, 75 anos, entrevista em

06/07/2003).

Em momentos como esse, observa-se que a vida no campo misturava

momentos de diversão e sofrimento. A lida diária na roça era marcada pelo trabalho

árduo, sob sol ou chuva quase todos os dias da semana. A baixa remuneração dos

assalariados, os meeiros que eram obrigados a ceder parte do fruto do seu trabalho,

a exploração dos proprietários das fazendas, contrastava com momentos de

solidariedade, em que os trabalhadores superavam as dificuldades, reafirmando ―a

prática efetiva de um tipo de identidade alicerçada nas agruras vividas‖ (SANTANA,

1998, p. 54).

No entanto, a rotina de trabalho e a convivência no povoado foram sendo

alteradas, ou melhor, novos elementos da modernização passaram a fazer parte da

vida cotidiana da população, refletindo não só nas relações sociais, quanto em

costumes e tradições, visto que a chegada da luz elétrica, da televisão, o maior

acesso da população à sede do município e a outras cidades com o avanço das

estradas de rodagem alteraram antigos costumes e deram início a outros, que foram

sentidos e expressos pelos moradores em suas recordações da vida no campo.

O Brasil, da década de 1950 a 1980, viveu um intenso processo de

urbanização e industrialização, passando pelo Plano de Metas de Juscelino

Kubitschek, que objetivava ―50 anos em 5‖, implantando setores industriais mais

avançados, como a indústria elétrica pesada, a de máquinas e equipamentos, a do

petróleo e do aço; continuando nos anos 60 e início dos anos 70 com o ―milagre

econômico‖ com destaque para a indústria pesada, de bens e serviços (MELLO &

NOVAIS, 1998).

73


As inovações tecnológicas foram sentidas nas melhorias técnicas, como o

uso do trator na limpeza e abertura de terrenos, maquinários nas casas de farinha,

substituindo gradativamente o processo manual de trituração e torração da farinha,

carros e caminhões transportando produtos agrícolas e pessoas. A luz elétrica

proporcionou o conforto da água encanada, da geladeira, do ferro elétrico, da TV e

do rádio elétricos, enfim inovações que aos poucos foram absorvidas pelo homem

do campo, com expressou o Sr. Manoel Amado:

Lá não tinha esse negócio de gelado, não tinha luz, não tinha nada.

Ali, hoje, que tá uma beleza, tem luz, tudo. Naquele tempo nada, era

candeeiro mesmo, fifó, na base do fifó 17 , também não tinha ladrão

né, ficava à vontade! Ficava à vontade, até meia noite a gente ficava.

Às vezes amanhecia o dia, os meninos brincando relanci [tipo de

jogo de cartas] (Manuel Amado, 75 anos, entrevista em 16/07/2003).

Tais transformações, porém, não podem ser vistas como simples

destruidoras das antigas tradições, o que se percebe é a apropriação e reinvenção

das tradições (HOBSBAWN, 1997, p. 13). Além do que, as mudanças não podem

ser enquadradas em processos de homogeneização, levando consigo tudo que faz

parte da cultura e dos conhecimentos anteriores da humanidade com sua marcha

avassaladora. Ela é sentida pelos indivíduos de diferentes formas e ao mesmo

tempo não está isolada de processos mais amplos de transformação cultural.

Thompson (1998, p.165) destacou que,

Nunca houve nenhum tipo isolado de transição. A ênfase da

transição recai sobre a toda a cultura: a resistência à mudança e sua

aceitação nascem de toda a cultura (...). Essa cultura expressa os

sistemas de poder, as relações de propriedade, as instituições

religiosas etc.

As ideias de Thompson (1998) ajudam a entender porque certos

costumes e tradições resistem, mesmo com a influência dos novos acontecimentos

históricos vivenciados pela população, pois, nem todas as tradições perduram,

algumas surgem, outras se renovam, expressando, no campo da cultura, os seus

reflexos de forma mais efusiva como enfatizou o autor.

17 Fifó é uma espécie de lamparina.

74


Nas conversas com os entrevistados nota-se que essas melhorias não se

sobrepõem, simplesmente, às antigas tradições. As máquinas na casa de farinha

não acabaram com ―as prosas e causos‖ que eles contavam no momento de raspar

a mandioca. A luz elétrica não suprimiu das vendas seu aspecto socializador; ao

contrário, ampliou as opções de diversão com a introdução da televisão, que rendia

muitos assuntos a serem debatidos nas conversas intermináveis entre os fregueses.

O que houve foi um processo gradativo de mudanças que operava no cotidiano do

campo, descortinando um novo mundo que causava aceitação ou estranhamento,

provocando permanências e mudanças em valores culturais, hábitos e costumes

tradicionais da vida nas roças.

2.2 QUANDO OS FACÕES E ENXADAS DÃO LUGAR À DIVERSÃO

À medida que o tempo avançava e a urbanização e industrialização eram

operadas na sociedade brasileira, entre os anos de 1950 a 1980, muitas tradições,

costumes e festas do Tabuleiro foram sendo ressignificadas, outras resistiram, mas

boa parte foi cedendo lugar a novos lugares de memória e novas práticas sociais.

As festas tradicionais e as manifestações culturais da região são um bom exemplo

de como as transformações vivenciadas na época refletiram na vida cotidiana e nas

práticas culturais da população. As reminiscências do Sr.Carmerino traduzem bem

as mudanças e transições entre ―novos‖ e ―antigos‖ valores ao falar das festas que

aconteciam no povoado:

No Tabuleiro tinha bumba-boi, tinha burrinha, tinha tourada, dava

muita festa. Agora as festas, inté agora, era diferente da de hoje, que

a festa inté agora tinha os tocador, tinha tudo isso. E hoje, hoje tudo

é fita gravada, é isso, é aquilo, é diferente (Carmerino Thethê (1925-

2008), entrevista em 16/03/2003).

―Hoje é tudo fita gravada‖. Esse enunciado evidencia um dos novos

elementos incorporados aos festejos, substituindo o ―tocador‖, a ―burrinha‖, o

―bumba-boi‖. As festas, portanto, ganharam novas formas, enquanto outras foram

75


desaparecendo, ou seja, as inovações técnicas e científicas influenciaram na vida da

população mudando certos hábitos e costumes. No entanto, não podemos atribuir o

desaparecimento de certas tradições unicamente às influências da modernidade, já

que a população tem capacidade de resistir às mudanças. Mesmo modificados em

certos aspectos muitos costumes e tradições permanecem.

Contudo, as manifestações culturais, as formas de diversão, ativas ou não

mantêm-se vivas nas memórias dos narradores, constituindo um elo vivo com o

presente. As lembranças das festas e diversões emergem nas falas dos

entrevistados quase sempre como um momento de grande alegria e, como enfatizou

Benjamin (1993, p. 222-223), ―a felicidade capaz de suscitar nossa inveja está toda

no ar que já respiramos‖. Assim, as reminiscências são reelaboradas e revividas de

uma forma capaz de dar as suas vidas certo sentido, atenuando insatisfações,

conflitos e tristezas experimentados no passado.

Nas reminiscências sobre as festas e diversões, as mais lembradas

foram a burrinha, o brinquedo de roda, o bumba-meu-boi, as rezas, os sambas, as

―cantorias‖, o quebra-pote, o pau de sebo 18 , as reuniões nas vendas ou nas suas

portas, a festa junina, as festas da escola e os passeios dominicais, quando

percorriam os caminhos da roça para visitarem amigos ou parentes. Nesses

momentos a comunidade se reunia abrindo um espaço privilegiado de sociabilização

e afirmação de valores e práticas construídas socialmente por aquele grupo. Esses

aspectos foram lembrados por Sr. Pedro:

Tinha muita diversão naquele tempo. Cantava brinquedo de roda,

chamado brinquedo de roda, aquelas música contava pra dizer

verso, sabe? A pessoa desfiava os versos, pra maltratar, tanto pra

agradar como pra maltratar as pessoas, entendeu? Entrava o

desafio. O brinquedo de roda. Tinha sala de dança, entendeu. Existia

a cantoria de tirania, cantar coco, tirania, essa coisa toda. Tudo era

diversão do povo. Naquele tempo, parece que o pessoal era mais

alegre do que hoje. Era um pobre, mais pobre, que era um pobre

mesmo! Mas a alegria era grande, naquela época, a alegria era muito

grande. Eu cansei de fazer em adjunto pra manocar fumo, vinha

aquele grupo todo de gente pra quando terminar a manocação de

fumo cantar roda até o dia amanhecer. Cantando e dançando, sabe

na sala. Fazia reunião pra pilar café, pra depois fazer algum samba.

Já não era dança, era samba, entendeu. Sempre quando rezava uma

18 Segundo os entrevistados, o quebra-pote consiste em quebrar vasos de barro recheados de doces

ou dinheiro com um porrete, por algum participante que tem os olhos vendados. Já o pau de sebo é

tronco de árvore besuntado com sebo, que tem no cume uma premiação, aquele que conseguir subir

até o alto fica com o prêmio.

76


ladainha, fazia sala de dança. Nunca registrou briga. Tudo naquela

amizade grande. Naquele tempo existia devoção. O pessoal tinha um

tal preceito, esse pessoal mais velho, rezava a quaresma toda. O

pessoal daquela região, toda noite ia pra aquela casa. Ouvir aquela

reza, uma ladainha, um Santo Ofício. Quando era sábado de páscoa

tinha festa pra se dançar. No mês de junho começava as novena,

trezena, pro quando terminar aquela novena, trezena, ter sala de

dança pro povo dançar (Pedro Andrade, 75 anos, entrevista em

06/07/2003).

Pode-se perceber nas memórias do Sr. Pedro que havia ―uma forte

sincronia entre as festas, atividades produtivas e o meio ambiente‖ (SANTANA,

1998, p.59). O trabalho árduo e pesado era atenuado em momentos de diversão

como nos adjutórios e reuniões para pilar café, manocar fumo ou raspar mandioca.

Até mesmo as manifestações religiosas, como as rezas de ladainha, incorporavam

elementos da cultura popular. Ao término das orações e das refeições (caruru,

bolachas, bolos, café, etc.) a sala da casa de quem estivesse oferecendo a reza era

tomada pelos participantes e dava-se início ao samba, às cantorias de coco e tirana,

até altas horas da noite, sempre acompanhadas de muita cachaça, vinhos e licores.

A tirana e o coco eram danças bastante praticadas no Tabuleiro, mas elas

se fundiam às músicas entoadas durantes os festejos. Tanto que muitos

entrevistados referiram-se a esses bailados como ―cantoria‖, por não diferenciarem a

dança da música. Segundo o dicionário online, ―Tesauro de Folclore e Cultura

Popular Brasileira‖, o coco,

é dança de conjunto e de umbigada conhecida em todo o Norte e

Nordeste do Brasil, em cuja coreografia básica os participantes

formam filas ou rodas e executam o sapateado característico,

respondem o coco, trocam umbigadas entre si e com os pares

vizinhos, e batem palmas, marcando o ritmo. É comum também a

presença do mestre, que puxa os cantos já conhecidos dos

participantes ou de improviso. Sua ausência, entretanto, não impede

a formação da roda de coco, para o que bastam as palmas ritmadas

dos participantes. Com o aparecimento do baião, o coco sofreu

algumas alterações. Hoje os dançadores não trocam umbigadas,

dançam um sapateado forte, como se estivessem pisoteando o solo

ou em uma aposta de resistência. (TESAURO..., Consulta em

14/12/09).

Já a tirana, assim como o coco, também era classificada como ―cantoria‖,

porém se diferencia do coco por ser uma dança de pares com formação em fileiras

77


paralelas ou círculos sob comando de um mestre-sala. Com inúmeras variantes,

dependendo da coreografia, verificam-se a tirana grande - com sapateado e em

roda grande; tirana de dois-bailada em grupo de pares; tirana-tremida -

caracterizada pelo trinado das cordas da viola‖ 19 .

No Tabuleiro, essas danças apresentavam tais variações. Tanto a tirana

quanto o coco eram sempre bailados ou cantados durante as ―brincadeiras‖ de roda

ou nos festejos da burrinha, nas salas de quem tivesse sua sala ―roubada‖ por um

terno de reis.

O brinquedo de roda era uma manifestação cultural muito comum no

povoado do Tabuleiro, consiste num grupo de pessoas formando um círculo de

mãos dadas, como nas brincadeiras de ciranda. Os participantes entoam músicas

típicas e girando os membros da roda tiravam alguém para o centro, se fosse um

homem geralmente tirava uma mulher para dançar, mas podia-se ir só para recitar

alguns versos, trovar 20 , como disseram alguns entrevistados.

A trova tem um caráter de desafio, os participantes do brinquedo

aproveitavam esse momento, como destacou Sr. Pedro, para entoar versos ―tanto

pra agradar, como pra maltratar‖, revelando outro aspecto importante de cultura

popular, o que Peter Burke (1989, p.217) chama de ―caráter carnavalesco‖ das

festas e formas de diversão das camadas populares, que ―enfatizavam os temas da

renovação, comilança, sexo, violência ou inversão‖.

Com relação aos brinquedos de roda, havia espaço para gozações,

inversões e ―desafios‖, como observou Sr. Pedro ao recitar alguns versos:

Eu me lembro uma certa feita eu tinha uma noiva, cabei o casamento

e passei a noivo de outra. Aí eu fui pra uma brincadeira dessas e,

tava eu com minha noiva. E ela, tava já com um noivo. Aê pegou a

cantar brinquedo de roda, aí eu cantei, eu falei uns versos:

Eu tinha um amor

O diabo carregou

Eu agora tenho outro

Entrego a nosso senhor.

19 Informações retiradas do dicionário online: ―Tesauro de Folclore e Cultura Popular Brasileira‖.

Disponível em: < http://www.cnfcp.gov.br/tesauro/00001662.htm >, consulta em 14/12/2009.

20 A trova é ―uma poesia popular ligeira que utiliza a quadra em sua composição poética em quatro

versos heptassílabos, com rima consoante ou assonante, entre o primeiro e o terceiro versos e entre

o segundo e o quarto‖. In: ―Tesauro de Folclore e Cultura Popular Brasileira‖. Disponível em:

, consulta em 14/12/2009.

78


O cara falou, o cara respondeu:

Quem tiver raiva de mim

Também pode falar

O diabo carregou

E adiante eu fui buscar.

Aí eu respondi:

Eu num entro no mato

Que não tenho medo de caipora

Não me importo que outro panhe

Aquilo que eu joguei fora.

A gente inventava e jogava, não é bonitinho? Já era desafio. E a

gente não disse nada (Pedro Andrade, 75 anos, entrevista em

06/07/2003).

O enunciado ―a gente não disse nada‖ revela bem como no momento do

brinquedo de roda a formalidade da vida social dava lugar à liberdade de falar o que

se pensava, sobretudo através de versos e desafios. A brincadeira e a gozação

eram permitidas, podia-se cortejar uma mulher, fazer piadas, agredir alguém

verbalmente com versos satíricos e, ao mesmo tempo, enaltecer e homenagear.

O brinquedo de roda incorpora também as chamadas ―táticas‖ cotidianas,

as operações clandestinas, as práticas comuns do homem ordinário, que é para

Certeau (1994, p.47) o herói do cotidiano, ―caminhante inumerável‖, que sobrevive

às dificuldades diárias fazendo das adversidades da vida os momentos para

desenvolverem ações de superação. Tais aspectos podem ser percebidos na fala de

Dona Maria Nunes ao narrar as táticas desenvolvidas pelos participantes do

brinquedo de roda para facilitar o namoro entre os participantes:

(...) qualquer uma flor que mostrasse a uma pessoa tava dizendo

alguma coisa, uma mão que botasse na cabeça, na testa, que

passasse a mão na orelha, passasse na cabeça, qualquer coisa era

um aceno, uma palavra que tava dizendo. Passou a mão na testa,

tava com saudade, morder o beiço pedindo um abraço, passar a mão

na batata da perna tava chamando pra fugir (Maria Nunes, 88 anos,

entrevista em 16/08/2009).

Nota-se que os indivíduos desenvolviam jogos simbólicos de gesto e

atitudes. Os corpos dos que ―brincavam‖ assumiam a função de veículos

comunicativos; os gestos, como signos linguísticos, possuíam um sistema de

79


codificação compartilhado pelos participantes do folguedo. Naquele momento, o

corpo falava, com aporte de objetos ou não, ainda que fosse uma singela flor.

Roy Porter (1992), que desenvolve estudos sobre a história do corpo e

suas funções, simbólica e social, destaca como o corpo sempre foi objeto de

censura e disciplinamento, uma presença suprimida, frequentemente ignorada ou

esquecida. Para Porter (1992, p.325),

Chegamos nus ao mundo, mas logo somos adornados não apenas

com roupas, mas com roupagem metafórica dos códigos morais, dos

tabus, das proibições e dos sistemas de valores que unem a

disciplina aos desejos, a polidez ao policiamento.

No ambiente das ―salas de dança‖, onde os brinquedos de roda

aconteciam, o flerte entre os participantes era comum. Segundo Dona Maria Nunes,

―o pessoal namorava muito‖, certamente, por ser um ambiente que unia as pessoas

e o próprio clima festivo abria margem para a paquera. Todavia, os namoros, na

época de adolescência da Sra. Maria Nunes e de muitos dos entrevistados, não

permitiam a explicitação direta da paixão, com beijos e abraços em público, o que

não era geral, mas seria o que a moral da época estabelecia. Recorriam-se, assim,

às táticas burlescas e silenciosas para expor o interesse amoroso por outrem, pois

os enamorados tinham ―constantemente que jogar com os acontecimnetos para os

transformar em ocasiões‖ (CERTEAU, 1994, p.47). Se os corpos não pudessem

―gritar‖ seu interesse por outros, sussurravam, num balé teatral de gestos, olhares e

―acenos‖, o amor ou interesse por alguém.

Durante a entrevista com Dona Maria Nunes, no momento que

relembrava do brinquedo de roda e dos namoros, ela mostrou uma antiga carta

(figura 02) datada de 1938, que, com todo zelo, havia guardado por décadas. Ao

começar a narrar sobre o que tratava aquela velha carta, percebi que representava

um tesouro visto o significado afetivo que tinha para ela. A carta foi redigida por

Leordino dos Santos, endereçada ao Sr. Olímpio Nunes, pai de Dona Maria,

pedindo-a em casamento. Ao que parece, pelo menos até as primeiras décadas da

segunda metade do século XX, ainda havia o costume de mandar cartas aos pais da

pretendida pedindo-a em noivado ou casamento, como havia lembrado Sr. Pedro.

80


Figura 02 - Carta com pedido de noivado à Dona Maria Nunes.

Fonte: Acervo pessoal de Maria Nunes, 04/09/1938.

81


Veja a transcrição da carta abaixo:

24 de Maio de 1941, 11 horas da noite

nasceu a menina Leonora.

21 de Feveiro de 1943 às 6 horas do dia

nasceu Adebaldo.

5 de outubro de 1944 às 8 horas da

noite nasceu Eufrazio.

1 de abril de 1946 às 12 horas do dia

nasceu Lindaufa.

Faleceu em 21/06/1947.

14-12-1947 às 12 horas da noite nasceu

o menino Elio.

8 de julho de 1949 às 10 horas da noite

nasceu a menina Luiza.

1951 19 de Março 3 horas da tarde

nasceu o menino Elonio.

4 de Março de 1953 9 horas do dia

nasceu Ezio

13 de Setembro de 1954 às 12 horas do

dia nasceu Ezonio.

Capim, 4 de setembro de 1938.

Ilmº. Sr.

Olímpio Nunes dos Reis

Saudações

Faço lhe estás duas linhas, desejo que

elas lhe encontre gozando saúde e todos

que lhe pertence, são os meus votos ao

nosso bom Deus – mando-lhe estás

duas linhas mal escrita mandando-lhe

pedir a sua Exmª. filha a casamento.

A senhorita Dona

Pomba

Peço resposta desta carta que vai lhe

encontrar em paz é o que desejo a

todos.

Do caro

Leordino dos Santos.

A leitura da carta revela que, além do pedido de casamento, ela contém

escritos feitos a lápis, com nomes e datas de nascimento dos filhos do casal. Dona

Maria foi lendo a carta e narrando a história de cada um dos filhos e como seu

marido tratava logo de registrar na correspondência, com hora, dia e ano, o

nascimento das crianças. Notei que durante o ato de narrar, a carta servia como um

―mecanismo de evocação da memória‖ (VIANA, 2006, p.09). O contato com a carta

aflorou as remiscências de Dona Maria Nunes, era como se um baú de memórias

fosse aberto e começassem a fluir momentos significativos da vida dessa senhora.

As datas dos nascimentos dos filhos de Dona Maria Nunes registradas na

carta e os significados que elas têm para a proprietária chamaram à atenção de

como o processo de esquecimento ou evocação da memória está associado a

momentos marcantes e, no caso das datas, elas deixam de ser furtivas no momento

82


que ganharam significado na vida de alguém. Segundo Blondel (1960, p. 177 apud

VIANA, 2006, p.09),

Essas datas, que dependem da história, nos servem todas de

pontos-de-referência mais ou menos seguros para situar os

pormenores de nosso passado, mas algumas dentre elas, pela

profundidade da repercussão que tiveram sobre nossas vidas, fazem

um corte tão claro entre o que fomos antes e o que passamos a ser,

que, ao primeiro lance de vista, verificamos se um acontecimento de

nosso passado lhe foi ou não anterior: por exemplo, o 2 de outubro

de 1914 e o 11 de novembro de 1918. No que diz respeito aos

incidentes e acontecimentos de nossa própria vida, como sempre

sabemos em que dia estamos, datam-se eles maquinalmente à

medida que são vividos, mas a maior parte perde sua data logo em

seguida ou, ao menos, muito rapidamente: guardamos raramente por

mais de uma semana a lembrança da data precisa de nosso último

jantar na cidade. Somente, ou quase, escapa a esse esquecimento a

data dos acontecimentos que significação e valor sociais.

As considerações feitas por Blondel (1960) evidenciam a importância dos

acontecimentos históricos e políticos na ativação da memória. A forma como tais

acontecimentos marcam os indivíduos é que torna as datas significativas para

alguns e outros não. O fato é que ficam na memória apenas datas expressivas que

possibilitam associações outras. No caso de Dona Maria, as datas de nascimentos

de seus filhos exercem a função de ativadoras de lembranças, no processo de

rememoração.

A associação de ideias leva o indivíduo a rememorar outros

acontecimentos, e, como enfatiza Ecléa Bosi (2004, p. 39), ―lembrança puxa

lembrança‖. O ato de narrar, em si, durante as entrevistas ajudava os narradores a

relembrar acontecimentos marcantes de suas vidas.

No que tange as memórias das festas, o folguedo da burrinha foi citado

por diversos moradores do Tabuleiro. Contudo, é preciso destacar que a burrinha

nunca estava só, ela geralmente vinha acompanhando outros festejos. Podia ser

―brincada‖ nas festas juninas ou nas festas natalinas, como no terno de reis ou

acompanhando o bumba-meu-boi, entre outras.

A burrinha é a representação de um burrico, feita, geralmente, pelo

próprio dono que a maneja. A cabeça é esculpida na madeira, o corpo é feito de

cipó, formando uma estrutura semelhante ao corpo do burro, que é forrada com

tecido colorido, servindo, também, para cobrir o corpo de quem a maneja; ela é

83


adornada com fitas e papéis luminosos e coloridos também usados no chapéu ―do

dono‖ da burrinha. As apresentações sempre eram acompanhadas por três outras

figuras: a catarina, o caboclo e os palhaços. Além disso, havia os tocadores de

pandeiro, violão, ganzá, etc, que davam tom à festa ao tocarem seus instrumentos

puxando as cantigas e versos recitados nas brincadeiras.

A catarina era um homem travestido de mulher, que ficava no meio da

roda formada pelos participantes da festa da burrinha, com os palhaços e o caboclo,

fazendo graça e mexendo com os espectadores, recolhendo dinheiro para entregar

na ―boca do cofre‖- uma pessoa - responsável pela arrecadação do dinheiro doado

pelos participantes da brincadeira.

Já o cavaleiro, o manipulador da burrinha, tinha nas suas apresentações

todo um gingado típico do corpo da burrinha. Como um vaqueiro que galopa seu

burrico, fazia-a ―saracotear e andar à banda, correr, deter-se de súbito, empinar-se,

trotar balanceado ao som da música, ou disparar a galope, perseguindo os

moleques” (LIMA, 1970, p.184). Assim descreveu o bailado da burrinha, captando

sua essência, o folclorista Carlos de Lima (1970), referindo-se à tradicional festa do

bumba-meu-boi de São Luís do Maranhão na década de 1960, e como outros

folguedos se misturavam à festa, dentre eles a burrinha. A fotografia a seguir traz

consigo a representação desses aspectos inerentes à burrinha:

Foto 04 : O festejo da burrinha na cidade de Mutuípe-BA.

Fonte: Fotografia-Josiane Thethê Andrade, 12/10/ 2006.

84


Na fotografia, da esquerda para a direita, nota-se o caboclo, coberto de

folhas de bananeira, a catarina, o palhaço e a burrinha. A fotografia foi produzida

num desfile cívico de comemoração a emancipação da cidade de Mutuípe no dia 12

de outubro de 2006. Embora a burrinha não seja mais tão comum no Tabuleiro,

ainda restam alguns grupos que brincam no município. Esse desfile, que teve como

tema a ―valorização‖ das manifestações culturais do município, de certa forma,

tentou reviver um festejo que, nas memórias das novas gerações, quase não

aparece mais.

Em outras cidades do Recôncavo Baiano, a folia da burrinha acontecia

acompanhando outros festejos tradicionais como no caso da cidade de Irará onde a

burrinha seguia a festa de Nossa Senhora da Purificação, no dia 2 de fevereiro, junto

com cheganças de marujadas 21 e bumba-meu-boi. Segundo Araújo (1986, p.170-

171), os mestres das burrinhas, ou seja, aqueles que a manipulam, geralmente,

improvisam versos introdutórios que convidam a população à dança, à diversão, ao

consumo de bebidas alcoólicas como a cachaça, como uma forma de animar a

festa; versos como este, da burrinha praticada na cidade de Lauro de Freitas, nos

anos 60:

Xô xô brurrinha

Xô xô ladrona

Cadeado do meu peito

Chave do meu coração

Bota burrinha pra dentro

Para a chuva não molhar

Meus senhores e senhoras

Faça o favor de olhar

A burrinha bebe vinho

Também bebe aguardente

Desconjuro desta burra

Que tem vício feito gente

(ARAÚJO, 1986, p.239).

Na cidade de Lauro de Freitas, a burrinha saía acompanhada de um

cortejo de pessoas na véspera da Festa de Reis, indo cantar e dançar em casas da

cidade. A cada casa o cortejo se detinha e recitava versos, e a burrinha, a sapatear

21 A chegança tem características variadas em suas apresentações nas diferentes regiões do país.

Em geral, as personagens vestem farda de oficiais e marinheiros, cantam e dançam ao som de

instrumentos de corda, representando aventuras marítimas. Na maior parte das versões inclui-se o

embate dos cristãos com mouros que, vencidos, são convertidos e batizados. Disponível em: <

http://www.cnfcp.gov.br/tesauro/00002053.htm>, consulta em 22/07/2010.

85


com outras figuras típicas como o bumba-meu-boi, os caboclos e as ―negas‖

malucas, 22 fazia graça, expondo seu caráter burlador.

No verso, apreende-se que a burrinha é personificada pelas ações que

lhes são atribuídas. No momento da brincadeira o caráter lúdico e satírico, inerente

ao folguedo da burrinha, parecia integrá-la à comunidade, compartilhando dos

mesmos valores sociais e morais. Ela, simbolicamente, participa da festa se

misturando aos outros participantes, ao dançar e cantar, além de trazer consigo o

vício de beber aguardente e vinho para a surpresa dos que ali estavam reprovando o

mau hábito da burrinha e, ao mesmo tempo, usufruindo de tais vícios, dentro do

mundo mágico da festa, onde a imaginação supera as barreiras da vida cotidiana e

alcança o mundo dos sonhos, da permissividade lúdica das festas.

A burrinha, assim como o brinquedo de roda, trazia aspectos

carnavalescos, tais como a inversão de papéis sexuais, o improviso dos versos, que

geralmente continham um tom burlador e satírico, e canções que acompanhavam o

folguedo. Na brincadeira, os participantes eram convidados a compartilhar

momentos de liberdade, alegria e ―vadiagem‖. A barreira da formalidade caía dentro

de um pacto silencioso de entendimento, dava-se margem a comportamentos tidos

como possíveis no espaço da brincadeira.

O termo ―vadiar‖, empregado geralmente num tom depreciativo,

associado à vagabundagem e, portanto, a atitudes tidas por muitos como impróprias,

aparece no vocabulário dos que participavam da festa, remetendo a um estado de

liberdade e permissividade típico das festas populares. Assim, a palavra vadiar é

empregada nas canções e versos no sentido de brincadeira, diversão. Note como

esse verso recitado por Sr. Antonio, e entoado por ele nas brincadeiras que dirigia,

chama os participantes à vadiagem:

A burrinha de ouro

Evem pra vadiar (3 vezes)

A burrinha de ouro

Evem pra vadiar (3 vezes)

Ô palhaço! Que é vaqueiro?

Ô cadê minha burrinha

Que eu mandei fazer?

Cadê minha burrinha

22 No Recôncavo Baiano, a negra maluca se personifica em um homem vestido com roupas de

mulher, com maquiagem ostensiva, peruca e corpo pintado de tinta preta ou carvão.

86


Que mandei fazer?

(Antonio Jesus, 84 anos, entrevista em 13/07/2003)

O Sr. Antonio Jesus Santos, conhecido como Coração, trabalhador rural,

foi por muito tempo mestre de burrinha. Apesar de não morar no Tabuleiro, todos os

dias de manhã saía de sua casa no centro urbano de Mutuípe e caminhava cerca de

4 km em direção a uma pequena roça que tinha no povoado. Lembro-me dele

passar sem camisa, com pés descalços e enxada nas costas em frente da venda do

meu pai, Sr. Juvenal. Ele animou muitas festas com sua burrinha no Tabuleiro.

No momento que entoou esses versos, Sr. Antonio usou como recurso

para relembrá-los um instrumento musical chamado ganzá. O utensílio serviu como

um objeto social de rememoração das letras das músicas. Naquele instante, Sr.

Antonio fez uso de um esquema. O termo esquema é uso por Burke (2000, p. 77) no

sentindo de configurar os mecanismos, criados pelos indivíduos, de identificação

com um passado histórico, a alguém ou a algo. ―O esquema se associa à tendência

a representar – e às vezes a lembrar- um determinado fato ou pessoa em termos de

outro‖.

Por anos Sr. Antonio levou seu ―brinquedo‖ para várias cidades da região

do Vale do Jiquiriçá, mas na época da entrevista Sr. Antonio já não mais promovia o

folguedo. Durante a narração, ele demonstrou tamanha saudade da burrinha e das

festas que animava que, em uma tentativa de reviver um passado de felicidade,

chegou a mencionar o desejo de construir uma burrinha para se mostrar, embora

não o tenha feito. O agricultor, naquele momento de rememoração, motivado pelas

memórias de experiências vivenciadas nas festas, remeteu-se à alegria de um

―passado que se fez presente‖ (SARLO, 2007, p.10).

O ato de narrar traz à tona memórias de um tempo passado que vive no

presente, e novas experiências ―ampliam constantemente as imagens antigas e no

final exigem e geram novas formas de compreensão‖ (THOMSON, 1997, p. 57). As

memórias estão num constante processo de ressignificação. E, durante as

entrevistas, o que é rememorado, de que forma são reconstruídas essas memórias e

como elas dão sentido à vida dos sujeitos constituem aspectos a serem investigados

pelos historiadores. Isso se mostrou evidente na entrevista com o Sr. Antonio, as

memórias afloravam e a forma como esse processo subjetivo acontecia dizia muito

87


sobre as experiências desse homem que narra com o ―gesto e a voz‖ (SARLO,

2007, p.26).

Del Priore (2000, p.10) destaca, através de importantes reflexões a

respeito das festas, como há, por trás do aparente clima de diversão dos

participantes, o compartilhamento de valores socialmente constituídos pela

comunidade, reforçando o sentimento de coletividade. Nesses momentos de festejo,

os indivíduos exortariam os ódios, extravasando desejos e paixões, assim como,

criando laços de solidariedade ou marcando especificidades e territórios.

A festa não é mera diversão, é a expressão de um povo, de sua cultura e

de valores sociais, morais e religiosos. Ao observar as brincadeiras de roda e a

burrinha, nota-se como a comunidade integrava-se, participava interagindo com os

que festejavam ou participando do folguedo em si. Durante os períodos festivos, a

rotina rompe-se; pois, por mais corriqueiro que seja o festejo, envolve um ritual que

absorve os participantes. Segundo Amaral (1998, p.39), ―a festa é ritualizada nos

imperativos que permitem identificá-la, mas ultrapassa o rito por meio de invenções

nos elementos livres‖, ou seja, mesmo marcada por regras de organização, o

espaço da festa está aberto à inventividade, ao improviso. Aspectos esses que

podem ser percebidos na fala do Sr. Antonio ao relembrar sua participação na festa

da burrinha:

O povo tocava, eu dançava na festa. E quando terminava, que eu

tava cansado, eu digo: ―óia, vamos suspender, e vamos vadiar na

festa‖. E eu embalava minha burrinha, bem embaladinha (...). Dona

Fia, a mãe de cumade Noelha, começou brincar pela primeira vez.

Eu pedi uma roupa dela, ela me deu um vestido avolante, ê diabo!

Pegava brinquedo (Antonio Jesus, 84 anos, entrevista em

13/07/2003).

Sr. Antonio mostra como o ritual era importante, só depois de ter brincado

com sua burrinha, como se estivesse se despindo de seu papel de cavaleiro, que

maneja sua montaria com maestria, dava-se aos prazeres da festa, entregando-se à

vadiagem. O ritual é parte inerente às festas; é ele que dá sentido ao festejo,

caracteriza-o e o diferencia de outros, e pelo que demonstra Sr. Antonio, a festa é

―coisa séria‖. Enquanto seu corpo fundia-se ao de sua burrinha faceira, que

embalava com tanto zelo, a festa para ele ainda não havia começado, o festejo era,

também, trabalho encarado com seriedade.

88


A burrinha, o brinquedo de roda, entre tantas outras manifestações

culturais ou festas populares da região, que não foram citadas, oportuniza, não só

um momento de diversão que acaba quando termina a festa, mas permite

compreender, como as formas de diversão do homem do campo devem ser

incluídas nas suas representações culturais, uma vez que se entrelaçam elementos

da vida cotidiana, como o trabalho na roça, as manifestações religiosas e o meio

natural, constituindo um universo amplo de investigação histórica e de significados

da vida rural. Porém, é preciso observar que as festas estão sujeitas aos

movimentos históricos, que as modificam e reinventam constantemente.

A introdução de elementos da modernização nas formas de diversões

tradicionais do lugar, não podem ser vista apenas como destruidoras das festas

populares, ―desqualificando-as, por ameaçarem certa autenticidade e

espontaneidade, decorrentes de sua pretensa origem popular‖ (ALMEIDA, 2003, p.

100). Deve-se ter cuidado em afirmar que as festas estão acabando unicamente por

causa das inovações técnicas. A impressão que fica, a partir da análise das

narrativas, é de que elas estão sempre se transformando, com sentido e

possibilidades diversos, envolvendo questões muito complexas que vão além do

avanço técnico científico. No Brasil, como aponta Amaral (1998, p. 34-35),

Tudo indica que o capitalismo cooptou as festas populares e foi

cooptado por elas, mas também que o povo vem reinventando suas

festas nas novas condições de vida resultantes de novos contextos

econômicos e sociais. Pode-se observar, também, que as antigas

festas populares, compartilhadas por grande número de pessoas

(principalmente as festas religiosas) fragmentaram-se em formas

diferentes de festejar conforme foram se formando grupos em

decorrência do crescente processo de desenvolvimento capitalista, e

a conseqüente divisão social do trabalho, dos espaços, das classes

sociais e, principalmente, do crescimento de diferentes

denominações religiosas com maneiras variadas de festejar. No

entanto, surgiram ou mantiveram-se grandes festas em centros de

atração regionais.

As festas tradicionais têm assumido tons e sentidos diversos, a depender

da região onde ocorrem e dos sentidos que os indivíduos lhes dão. No caso de

festejos tradicionais do Tabuleiro, a permanência ou não de alguns naquela

comunidade parece evidenciar como as formas culturais e sociais de viver estão em

constante processo de transformação e ressignificação. Muitos não permanecem

89


frequentes no povoado, como a burrinha e os brinquedos de roda, outras formas de

festejar foram criadas ou modificadas e ressoam nessas novas formas de festejar

ecos dessas festas tradicionais, no passado, tão pungentes no Tabuleiro.

90


CAPÍTULO III

O TEMPO E O VENTO: PERMANÊNCIAS E MUDANÇAS NA VIDA COTIDIANA

DO TABULEIRO

O fiado mal cobrado, e não pago, é que avoa com o negócio.

91

Guimarães Rosa

3.1 RESSONÂNCIAS, REPERCUSSÕES SENTIMENTAIS E RECORDAÇÕES DO

PASSADO

O tempo que transcorre transformando vidas com sua marcha

ininterrupta, condenando ao pó sólidas construções humanas, não consegue varrer

das memórias um passado que vive no presente graças à capacidade de rememorar

dos indivíduos. Segundo Pierre Nora (1993, p.9), a história é a reconstrução sempre

problemática e incompleta do que não existe mais, enquanto a memória é um elo

vivo que liga passado e presente. Portanto, o tempo, com tudo o que acarreta, traz

ao homem a possibilidade de mudanças com a quebra de paradigmas, como

também ocasiona a permanência de certos valores que têm na memória sua

guardiã.

Ao seguir as trilhas traçadas nos destinos pelo tempo, tendo as memórias

dos narradores como guias, é possível sinalizar alguns indícios que podem ter

contribuído para as mudanças operadas na vida cotidiana, econômica e cultural do

povoado, a partir da década de 1960. Embora tais evidências percorram caminhos

diversos, nota-se que as reminiscências dos moradores do povoado trazem novos

valores sociais, bem como conservam vivências que acumularam ao longo da vida.

O novo e moderno não acabaram, simplesmente, com as tradições culturais da

população local. Os processos históricos de transformações, que aconteceram e

continuam a operar no vilarejo, contribuíram para dar lugar a outras memórias,


outras tradições; enfim, continuidades de vidas, nas quais o passado que as compôs

vive no presente, orientando outros modos de vida.

Ante aos indícios das mudanças operadas no povoado, as lembranças

relatadas exprimiram sentimentos diversos, apontando a crise das vendas, a

introdução de elementos da modernização, as migrações, as reformas

infraestruturais, a ressignificação de antigas tradições, entre outras, como as

responsáveis por rupturas e permanências na dinâmica cotidiana do povoado.

Dentre esses fatores, a crise das vendas foi um aspecto preponderante

nas mudanças operadas no Tabuleiro. Atualmente, essas casas comerciais não têm

mais a mesma importância na vida socioeconômica do vilarejo (restando apenas

uma venda em funcionamento e sem a mesma representatividade que tinha no

passado), se comparado há décadas atrás, quando havia uma média de três a

quatro vendas em atividade como rememoraram os entrevistados.

Os moradores do povoado e fregueses das vendas afirmam sentir a falta

das antigas vendas, dos vendeiros, das pessoas que por diversos motivos já não

estão mais ali. A rotina de muitos foi quebrada. O costume de ir às vendas era

―sagrado‖ para alguns no fim da tarde, depois de um dia de trabalho na roça. A

venda que restou, para alguns pode ter o mesmo significado das outras que lá

existiram; já para outros, talvez, seja um alento, uma solução para a falta das

antigas vendas, sem o mesmo sabor, a mesma alegria, ou seja, outros significados

foram dados às vendas nas vivências e nas memórias dos moradores do Tabuleiro.

No fluxo da vida social que transcorre no Tabuleiro, observam-se que

entre as tradições culturais do lugarejo as festas não acontecem mais com tanta

frequência, algumas como o brinquedo de roda e o bumba-meu-boi são pouco

praticadas no povoado. Os adjutórios, com suas cantigas e animação próprias, são

cada vez mais raros. Outras como os festejos juninos e as rezas permanecem,

porém, trazem incorporações de novos valores culturais introduzidos com passar do

tempo.

O Sr. Carmerino afirmou: ―hoje tá tudo diferente‖ (entrevista em

16/03/2003). Essa era sua impressão e de outros entrevistados, diante das

mudanças nas formas tradicionais de diversão do povoado. Para esse senhor, a

passagem do tempo e as transformações vivenciadas pela população do Tabuleiro

resultaram em novos lugares de memórias que destoam do passado, configurando-

se, assim, o novo como destruidor do antigo. Contudo, é preciso, salientar que os

92


indivíduos têm impressões diferentes sobre os acontecimentos operados no

povoado. A novidade é aceita ou rejeitada, conforme suas experiências de vida,

restando, aqui, descobrir os impactos que tiveram e têm sobre a vida dos moradores

do lugar.

Em que pese as mudanças por que vem passando o Tabuleiro, a

migração da população local vem crescendo cada vez mais, seja para a sede do

município de Mutuípe ou para as grandes capitais do Brasil como São Paulo e

Salvador.

Outro aspecto sobre as mudanças no vilarejo é o aumento da violência

com uma constância maior de roubos, tanto nas vendas como nas residências,

constituindo uma realidade que contrasta com um passado no qual o povoado tinha

uma vida econômica, social e cultural com outra dinamicidade.

Diante dessas novas vivências vem à tona uma série de

questionamentos. Como o povoado foi impactado pela crise das vendas? Por que

houve o aumento da migração? Como a população lidava com as inovações

tecnológicas e infraestruturais operadas no Tabuleiro? Por que algumas festas

tradicionais não são mais comuns? Enfim, seguem algumas considerações sobre os

indícios que podem levar à compreensão das razões que influíram em alterações na

vida sociocultural e econômica do lugar.

Primeiramente, é preciso observar o processo de urbanização e

industrialização vivenciado no Brasil nas décadas de 1950 a 1980 do século XX.

Nesse período, os melhoramentos técnico-científicos ocorridos nas grandes cidades

brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, atraíram um número expressivo de

migrantes a procura de emprego e melhores condições de vida, sendo a maioria

deles originários da zona rural.

Novais e Mello (1998, p.581), num estudo sobre o impacto da

industrialização e urbanização da sociedade brasileira durante a segunda metade do

século XX, afirmaram:

Migraram para as cidades, nos anos 50, 8 milhões de pessoas (cerca

de 24% da população rural do Brasil em 1950); quase 14 milhões,

nos anos 60 (cerca de 36% da população rural de 1960); 17 milhões,

nos anos 70 (cerca de 40% da população rural de 1970). Em três

décadas, a espantosa cifra de 39 milhões de pessoas.

93


Além das indústrias que atraíam migrantes, outra saída para alguns foi

aventurar-se na fronteira agrícola em movimento. Nos anos de 1950 a 1980, regiões

do Brasil, até então com grande potencial econômico, mas pouco exploradas (Norte,

Centro-Oeste, principalmente), passaram a atrair migrantes graças às ações do

Estado na criação de ―estradas de rodagem e investimentos na infraestrutura

econômica e social, eletricidade, polícia e justiça, escolas, postos de saúde, etc. nas

cidades que foram nascendo ou revivendo na marcha para o interior do país‖

(MELLO & NOVAIS, 1998, p. 580).

As melhorias técnicas foram sentidas, no campo, de forma mais efusiva, a

partir dos anos 60, com a utilização crescente de tratores, implementos agrícolas

sofisticados, adubos e inseticidas, além da política do crédito rural, entre outros

fatores. Isso resultou na diminuição de postos de trabalho, conduzindo o homem do

campo às capitais brasileiras à procura de trabalho, sendo alguns absorvidos pela

indústria; mas, muitos, sem especialização que não a do trabalho no campo

incharam as periferias das grandes cidades, favorecendo a formação de favelas e

estabelecendo ocupações irregulares.

Ao que parece, no Vale do Jiquiriçá, as introduções de elementos da

modernização e incrementos na infraestrutura das cidades da região refletiram as

mudanças que ocorriam em âmbito nacional, resultando num acentuado êxodo rural,

que deve ser interpretado à luz da decadência/estagnação das bases produtivas

locais entre os anos de 1930 a 1970 (SEBRAE, 1995, p. 30-40).

Nesse período, a região do Vale do Jiquiriçá sofreu uma queda acentuada

na produção agrícola, a maior responsável pelo sustento econômico da região. A

crise foi fruto da decadência experimentada com as perdas na comercialização do

seu principal produto à época – o café – e a consequente desativação da Estrada de

Ferro de Nazaré na década de 1960, que foi implantada para o escoamento da

produção agrícola, sobretudo do café, até às portas da exportação, causando uma

séria crise econômica nos municípios do Vale, sentida pela população rural com a

diminuição dos postos de empregos e da rentabilidade da produção, tornando a

saída do campo uma das soluções para a crise.

Nos anos 80 e 90, a região ganhou um novo ânimo econômico com a

retomada da produção cafeeira regional, a expansão da pecuária e da lavoura

cacaueira. Por outro lado, o êxodo rural permaneceu devido às características

dessas atividades econômicas, concentradoras de terras e rotativa da mão-de-obra,

94


que ―recruta trabalhadores temporários nas sedes para as tarefas sazonais, sem a

necessidade e o custo de mantê-los de forma permanente nas propriedades‖

(SEBRAE, 1995, p. 37).

Para constatar o crescimento da agropecuária e da ocupação das terras

na região vejam as tabelas abaixo:

Discriminação

Área de Lavoura

Área de Florestas

Área de Pastagens

Terras em descanso

TOTAL

TABELA 01

Vale do Jiquiriçá

Evolução da utilização das terras na região 1970 - 1980

1970 1980

% Acumulado

%

12,03

16,40

12, 03

28,43

% Acumulado

%

11,37 11,37

15,18 26,55

46,09 74,52 48,30 74,85

25,48 100,00 25,15 100,00

100,00 - 100,00 -

Fonte: IBGE – Sinopse Preliminar do Censo Agropecuário/1980

TABELA 02

Vale do Jiquiriçá

Participação das áreas de lavoura na área total dos estabelecimentos por municípios

1975 – 1980

Municípios

Área total dos

estabelecimentos (Ha)

1975

1980

Área ocupada com lavoura

Permanentes Temporárias

1975 1980 1975 1980

Absoluto % Absoluto % Absoluto % Absoluto %

Cravolândia 22.171 22.298 1.055 4,75 2.807 12,58 727 3,27 616 2,76

Jiquiriçá 25.160 26.451 1.963 7,80 3.760 14,21 1.017 4,04 730 2,75

Laje 49.130 32.712 1.864 3,79 4.297 13,13 3.213 6,53 2.986 9,12

Mutuípe 30.206 24.914 3.642 12,0

5

5.466 21,93 2.793 9,24 1.303 5,22

Santa Inês 32.114 31.232 997 3,10 1.067 3,41 457 1,42 372 1,19

Ubaíra 75.975 75.532 3.109 4,09 7.211 9,54 1.860 2,44

TOTAL 234.756 213.143 12.630 5,38 24.608 11,54 10.067 4,29 7.877 3,69

ESTADO 25.263.546 30.169.168 972.047 1,30 1.389.459 1,77 1.691.534 0,60 1.969.061 0,40

Fonte: IBGE – Sinopse Preliminar do Censo Agropecuário / 1980

95

1.870 2,47


A partir da análise dos dados contidos na Tabela 01, observa-se que

ocorreu, por um lado, a expansão da fronteira agropecuária, que se efetua pela

ampliação das áreas de pastagens (46% para 48% no período de 70/80), e, de

outro, a ampliação das áreas ocupadas com lavouras permanentes (principalmente

café e cacau) como demonstram os dados da Tabela 02, que saltou de 5% para

mais de 10% entre os anos de 1975/1980, em detrimento daquelas de ocupação por

culturas temporárias e florestas (queda conjunta em torno de 2%). Embora o

crescimento não tenha sido proeminente, ele tem se mostrado constante, pois a

ocupação das terras é apenas um dos fatores que, somados a outros, causaram a

migração da população.

Já o crescimento das pastagens e da lavoura cacaueira acentuaram o

processo migratório da região representado numa diminuição da taxa de

crescimento da população rural de Mutuípe, se comparada com a urbana. Segundo

os estudos do IBGE, a população rural diminuiu de 74,6% em 1980 para 66,1% em

1991; enquanto a urbana cresceu de 25,4% em 1980 para 33,9% em 1991 23 .

Verifica-se, portanto, que o crescimento urbano, a expansão da pecuária

e da lavoura cacaueira, a concentração de terras impeliram a população rural a

migrar, dado o desgaste das condições de vida no campo; realidade que se

configurou no povoado do Tabuleiro. Esses fatores ajudam a entender porque parte

da população migrou, uma vez que ela vivia basicamente da produção agrícola.

Porém, é preciso salientar que o processo de migração foi lento e não significou o

―esvaziamento‖ da população rural, tanto que ela ainda hoje é maioria no município

de Mutuípe, mesmo perdendo cada vez mais espaço para a urbanização.

A Sra. Aurineide Thethê, ao explicar a diminuição da frequência de

fregueses nas vendas do Tabuleiro, dá indicativos das possíveis causas das

mudanças operadas no povoado:

Hoje em dia, o povo não vem mais pra porta da venda como vinha

antigamente. Hoje em dia, também eu penso, assim, que muita gente

novo, já não vem pra porta da venda como vinha, porque o novo já

vão estudar. Trabalhar de dia. Outros já vão estudar de noite. Outros

saíram porque aqui não tem uma área de emprego. Então, o que foi

que aconteceu? Esse povo novo estudou um pouco, e depois foi todo

mundo pra cidade grande procurar trabalho. Os filho do morador da

região foi todo mundo embora, uns pra Salvador, outros pra São

Paulo. Cada um foi pra um lugar procurar trabalho. Então hoje, ficou

23 Dados retirados dos censos demográficos do IBGE de 1980 e 1991.

96


mais as pessoas mais velha, só os moradores mais velho. Os mais

novo já saiu todo mundo (Aurineide Thethê, 50 anos, entrevista em

14/04/2007).

Com o crescimento das cidades e popularização da educação, os filhos

dos trabalhadores rurais foram buscar nas cidades outras formas de sobrevivência.

As novas gerações já não encontravam como se estabelecer nos postos de trabalho

oferecidos no campo, faltava terra para trabalhar, as pequenas propriedades dos

lavradores já não absorviam toda mão-de-obra das famílias dos proprietários, a

alfabetização abria novas perspectivas de trabalho e a migração acontecia como

alternativa de sobrevivência à população rural.

As migrações levaram os moradores do povoado a entrar em contato com

novos modos de vida, proporcionados pela convivência em outros lugares,

principalmente, no meio urbano, incorporando experiências tipicamente citadinas

que, junto com a introdução de elementos da modernização no povoado como a luz

elétrica, o rádio, a televisão e a criação da estrada de rodagem, causaram rupturas

no cotidiano rural.

Segundo Santana (1998, p. 135), na pesquisa que desenvolveu sobre a

migração de moradores das zonas rurais dos municípios baianos de Conceição do

Almeida e Santo Antonio de Jesus para cidade de Salvador, os migrantes ao

retornarem para seus lugares de origem, definitivamente ou a passeio, traziam

consigo experiências e vivências das cidades por onde haviam passado. As práticas

e costumes adquiriram novas características, articularam-se a outras firmando

continuidades.

Essas impressões sobre a introdução de elementos da modernização no

Tabuleiro, assim foram sentidas por Sr. Pedro Andrade:

Mudou muito aqui. Isso aqui hoje tá uma coisa, de tá todo mundo no

céu. Todo mundo hoje tem sua água encanada, tem seu televisão,

como eu mesmo aqui, hoje, tenho telefone aqui dentro de casa, não

é isso mesmo? Aí, todas as aparelhagens doméstica a gente tem.

Eletro-eletrônico a gente tem dentro de casa, porque antes a gente

não podia tomar água gelada, porque não tinha geladeira. Não tinha

como. Hoje tá todo mundo dormindo no claro. Hoje tá uma beleza na

região (Pedro Andrade, 75 anos, entrevista em 06/07/2003).

97


Para o agricultor, o conforto proporcionado pela modernização foi

responsável pela melhoria da qualidade de vida das pessoas do lugar, ao

proporcionar a utilização de eletrodomésticos, usufruir das facilidades da água

encanada, do entretenimento proporcionados pela TV. Todavia, Sr. Pedro Andrade,

ao comentar sobre as formas de diversão e lazer do Tabuleiro, não vê mais as

novidades tecnológicas como beneficiárias, mas transformadoras da cultura local.

Ele observa que as formas de diversão tradicionais, tanto no Tabuleiro quanto na

zona urbana de Mutuípe, passaram a conviver com outros festejos tidos como

modernos:

No Tabuleiro existia bumba-boi, burrinha pro povo brincar, por

ocasião vinha algum circo pro Tabuleiro. Aí, depois em 48 [1948]

fizeram aquele prédio. Aí, começou na inauguração do prédio, foi

uma grande samba, uma grande festa. Daí pra cá ficou de sempre

em sempre, fazia uma festinha no Tabuleiro. Sempre em aniversário,

nas festas das crianças, tinha férias né? Tinha dança, tinha estas

festas. Daí pra cá ficou assim, o Tabuleiro que nem Mutuípe mesmo.

As festas em Mutuípe não existia, micareta, não existia banda, não

existia trio elétrico, não existia nada.

As festas na ocasião de Natal, mesmo, era bumba-boi, burrinha. A

gente, quando saía, sabia que era pra acompanhar um bumba-boi ou

uma burrinha e depois ir pra missa do galo. Saía todo mundo de a

pé, aquele grupo e, aí, depois da missa do galo, a gente voltava todo

mundo. Também só tinha medo de cobra na estrada, somente né?

Não existia este negócio de marginalidade (Pedro Andrade, 75 anos,

entrevista em 06/07/2003).

Na narrativa, o Sr. Pedro expõe como o campo e a cidade não eram

espacialidades tão distintas. Na segunda metade do século XX, os moradores do

lugar se dirigiam ao centro urbano de Mutuípe para participar das comemorações

natalinas e, também, acompanhavam a burrinha e o bumba-meu-boi, manifestações

culturais tradicionais praticadas tanto no espaço urbano quanto rural. Essas duas

espacialidades são realidades integradas. Os indivíduos trazem consigo viveres que

provêm da convivência tanto no campo quanto na cidade. Por onde passam os

lugares os marcam e, se não vivem diretamente certas experiências, os sujeitos

adquirem valores provindos da cidade ou do campo, através das tradições, dos

valores sociais e familiares que são legados pelas gerações anteriores. Esses

aspectos são discutidos por Williams (1989, p. 270) nos seus estudos sobre o

campo e a cidade na história e na literatura:

98


A maioria das pessoas, antes de adquirir qualquer educação

literária, aprende a conhecer e dar valor à vida tradicional – bem

como a sentir as tensões por ela impostas. Vemos e aprendemos

com base no modo como nossas famílias vivem e se sustentam; um

mundo de trabalho e costumes locais, e de crenças tão

profundamente dissolvidas nas ações cotidianas que de início nem

sequer sabemos que são de fato crenças, passíveis de mudança e

questionamento.

Para Williams (1989), a valorização do saber tradicional imbuído à vida

cotidiana é indicativo de que campo e cidade são representações sociais que

infundem o modo de vida dos trabalhadores, manifestando-se em suas práticas e

crenças. Logo, a passagem do tempo e as novas vivências se fundem a valores

anteriores ou os rejeitam, as tradições, estão de alguma forma, presentes nos

comportamentos dos indivíduos orientando muitas de suas ações na vida cotidiana.

As tradições, por outro lado, podem ser a reafirmação da cultura ante as

inovações e as forças coercitivas presentes nas relações de poder como destaca

Williams (1979, p.118-119). Na sua concepção, a tradição lida com as mudanças de

forma seletiva, ―certos significados e práticas são escolhidos para ênfase e outros

significados e práticas são postos de lado, ou negligenciados‖.

Desta forma, as manifestações culturais tradicionais do Tabuleiro, em

consonância as ideias de Williams (1979), passaram, ao longo do tempo, por

processos de inovações e rejeições de significados e práticas, por isso certas

tradições perduram e outras não são mais praticadas, quando não assumiram novas

feições.

O rompimento de tais valores, tradições e costumes devem ser vistos sob

a luz do processo histórico operante naquele momento, tanto no mundo quanto

naquele pequeno povoado rural. O Tabuleiro como uma localidade rural inserida, na

atualidade, em um mundo globalizado, tem sua vida cultural e cotidiana fortemente

influenciada pela sociedade pós-moderna, o que não significa a inexistência de

trocas, articulações e desvios com a maré da tecno-modernidade ocidentalizante.

Talvez, apontar fatores isolados ou tratar como mera decadência as mudanças

ocorridas no povoado seja simplificar um processo maior de transformações que

ultrapassava os limites físicos do Tabuleiro. Entender como se dá o processo de

interação entre os espaços macros e micros é o meio para compreender como

99


localidades com sua dinâmica cultural própria não são ―engolidas‖ pelo fluxo

avassalador da globalização. Ana Fani Carlos (1996, p. 28-29) observa:

100

Desse modo o lugar se apresentaria como o ponto de articulação

entre a mundialidade em constituição e o local enquanto

especificidade concreta, enquanto momento. É no lugar que se

manifestam os desequilíbrios, as situações de conflito e as

tendências da sociedade que se volta para o mundial.

O local, na concepção de Ana F. Carlos (1996), é o ambiente das tensões

sociais, pois cada sujeito mantém com o espaço uma relação identitária de usos e

sentidos compartilhados socialmente. O sujeito pertence ao lugar assim como é por

ele pertencido, e as mudanças no espaço reverberam na vida dos que lá habitam;

portanto, o lugar envolve uma complexa rede de fatores interligados, nos quais

acontecimentos mundiais e locais se influenciam.

No Tabuleiro, a interligação entre acontecimentos no âmbito local e

mundial resultaram em transformações ocorridas na vida cotidiana do povoado. O

que, longe de significar uma simples decadência, apontara para os novos caminhos

experimentados pela população do lugarejo que, na atualidade, configura-se em

uma realidade na qual as vendas perderam o vigor do passado e outras formas de

viver são urdidas, acompanhando as ligações e combinações cambiantes dos

localismos com o mundial.

O fato é que a relação entre as diferentes escalas de observação dos

espaços, em um trabalho de História Regional e Local, faz-se necessária, pois ao

estabelecer o elo entre acontecimentos locais e mundiais permite-se um número

maior de relações e interpretações possíveis entre contextos sociais diversos, visto

que, com um leque maior de objetos de análise, o historiador consegue estabelecer

articulações, analogias, contrastes e justaposições, com outras espacialidades de

diferentes dimensões e localizações.

Essa tendência globalizante, como afirma Hall (2003, p.59), ―não pode

controlar ou saturar tudo dentro de sua órbita‖. Todos os sistemas globalizantes

convivem com o localismo, que não são deixados ―de lado pelo fluxo panorâmico da

globalização, mas retorna para perturbar e transformar seus estabelecimentos

culturais‖ afirma Bhabha (2005, p.161) reiterando a ideia de Hall (2003).


A observação de Bhabha (2005) suscita a discussão de como no campo

da cultura as inovações, transformações e rejeições vivenciadas pelas sociedades

ganham notoriedade. As discussões propostas sobre as tradições apontam nesse

sentido. Segundo os entrevistados, as formas de diversão, as manifestações

culturais foram absorvendo elementos da modernização nas suas práticas típicas,

ora incorporando, ora rejeitando-as. A população reconhecia tais mudanças ao

expressá-las em suas rememorações, reforçando a ideia de Thompson (1981, p.

189) de que as experiências e vivências dos sujeitos são o campo privilegiado da

cultura, uma vez que

101

As pessoas não experimentam sua própria experiência apenas como

idéias, no âmbito do pensamento e de seus procedimentos (...). Elas

também experimentam sua experiência como sentimentos e lidam

com esses sentimentos na cultura, como normas, obrigações

familiares e de parentescos, e reciprocidades, como valores ou na

arte ou nas convicções religiosas.

Os aspectos apontados por Thompson (1981) expressaram-se nas

narrativas da população do Tabuleiro, ao exporem experiências vivenciadas no

cotidiano que contribuíram para descortinar o universo mental, de homens e

mulheres, repleto de sensibilidades, reveladoras de irracionalidades e desejos que

muitas vezes movem suas ações e não aparecem em objetos palpáveis se não nos

sonhos, nos anseios, nos medos. A cultura tem o poder de abarcar as mais variadas

impressões sobre a vida, incorporando-as a elementos materiais ou imateriais que

se manifestam nas mudanças de um mundo em movimento.

No âmago de todas essas transformações foi possível apreender

evidências que contribuíram para entender porque as mudanças que ocorreram no

Tabuleiro são complexas de sentidos. Longe de acabar com a cultura tradicional ou

por fim às memórias do passado, as inovações acompanharam o transcorrer da vida

e da história, firmando continuidades em destinos de pessoas que, ante as novas

experiências, não deixaram de se enraizar, mesmo que sentimentalmente, em seu

―canto do mundo.‖


3.2 A DECADÊNCIA DAS VENDAS

As memórias sobre o povoado do Tabuleiro estão quase sempre

associadas às vendas, no caso, às casas comerciais. Elas foram, por muito tempo,

as responsáveis pela dinamização da vida social e econômica do povoado, dando-

lhe uma identidade. A partir da década de 1990, as transformações operadas no

cotidiano do vilarejo e que levaram à crise das vendas foram sentidas de forma mais

intensa, chegando ao auge na primeira década do século XXI quando, em 2007, a

Venda Santa Ana, última grande casa comercial do povoado, fechou suas portas.

Dentre os fatores responsáveis pela crise das vendas podem-se destacar:

a retenção na economia causada pela migração; variações na produção agrícola; e

a má administração dos vendeiros. A essas suposições somam-se outras, como a

possibilidade da decadência das vendas estarem atreladas à concorrência de

estabelecimentos comerciais de povoados vizinhos ou até mesmo à facilidade de

locomoção proporcionada pela estrada de rodagem que liga o povoado à zona

urbana do município de Mutuípe, configurando novas relações e trocas entre o

campo e a cidade.

No contíguo dessas mudanças operantes no povoado, a crise das vendas

resultou em novos modos de vida. Nota-se que os armazéns da cidade de Mutuípe

absorvem quase toda a produção agrícola do lugar, papel, no passado,

desempenhado pelas vendas. Os moradores, que tinham nelas um importante ponto

de lazer e diversão, têm que conviver, hoje, com a única venda restante, que pouco

abre aos domingos e não funciona até o tardar da noite com os jogos de cartas,

como há anos atrás. Os fregueses têm buscado, nas vendas de povoados vizinhos

ou nos supermercados da zona urbana, lugares que atendam as suas necessidades

de consumo.

As transformações mencionadas tiveram nas estradas de acesso ao

povoado as vias de entrada desses novos valores. Dizer que estradas cortam vidas

não é apenas uma metáfora. No Tabuleiro, elas significavam a possibilidade de

conectar não só o campo como a cidade de forma mais rápida e confortável. As

vendas do povoado também atraiam moradores de vilarejos vizinhos, graças às

facilidades de locomoção proporcionadas pelas estradas construídas a partir dos

anos de 1960 na região, interligando os povoados rurais do município. Segundo Sr.

102


Pedro Andrade, esse foi um fator que tornou o Tabuleiro um ponto estratégico de

comércio:

103

Porque é um lugar que ali é uma estrada viva. Tem saída daqui do

Beija-Flor, vem descendo daqui, e vem aí saída da Serra Grande,

Capela de Santana, esse mundo inteiro. Aí, passa tudo pelo

Tabuleiro. O Tabuleiro é um ponto para qualquer comércio, é melhor

do que na cidade (Pedro Andrade, 75 anos, entrevista em

06/07/2003).

As considerações do Sr. Pedro sugerem como estradas significam mais

que uma forma de ligar lugares. O Tabuleiro é dividido por uma estrada que

literalmente perpassa vidas. Em sua margem, as casas se elevam, a poeira do chão

de terra batida e o cascalho estão grudados nos pés dos que ali pisam diariamente.

Na estrada, a vida cotidiana do povoado desfila como em uma passarela, os que

chegam ou se vão, a novidade, o sonho, as boas e más notícias viajam por elas.

Aqueles que à noite sentam nos passeios das casas veem as suas vidas e a de

outros se desdobrarem. É um momento em que cada um fala de si, dos

acontecimentos que testemunharam ou viveram, e, assim, a sociabilização

acontece.

Poeticamente, como sugere Bachelard (2008, p.31), ―cada pessoa então

deveria falar de suas estradas, de seus entroncamentos, de seus bancos. Cada

pessoa deveria preparar o cadastro de seus campos perdidos‖. Aliás, esse é o

trabalho essencial do historiador, ouvir as histórias que as pessoas têm a dizer,

buscar as vias sobre os quais os sujeitos constroem trajetórias carregadas de

marcas de suas passagens ao longo do tempo. Nesse sentido é que o Sr. Pedro

afirmou que o Tabuleiro ―é uma estrada viva‖, porque, tal como caminhos feitos de

encruzilhadas com obstáculos e percursos, elas nos contam sobre a vida dos

indivíduos, sobre os lugares que habitam.

A imagem (foto 05) da ―estrada de chão‖ que corta o povoado revela

esses aspectos. Porém a fotografia, não captou na sua totalidade a vida cotidiana do

povoado, mas, como destaca Mauad (p.10-12), a fotografia é uma testemunha

indireta do passado, que dá ―uma pista para se chegar ao que não está aparente ao

primeiro olhar, mas que concede sentido social à foto‖. Assim, a fotografia incita a

imaginação e com os indícios presentes na imagem é possível vislumbrar, mesmo

que em parte, aspectos sociais do Tabuleiro.


Foto 05 : Visão panorâmica do povoado do Tabuleiro. À esquerda, a Venda Santa Ana.

Fonte: Fotografia - Josiane Thethê Andrade, setembro de 2003.

Ainda analisando a fotografia, nota-se que a estrada tangencia as casas

dos moradores, cujas varandas para ela estão voltadas, fazendo imaginar como no

passado os moradores se recostavam para presenciar o desenrolar da vida

cotidiana. Delas era possível ver a Venda Santa Ana (à esquerda na imagem), com

suas várias portas que davam acesso ao interior da venda, bem como os bancos de

madeira feitos de toras de árvores, sobre os quais os fregueses se sentavam para

conversar e testemunhar os pedestres passarem. O barulho das crianças que saíam

da escola pública Miguel Couto, que a fotografia não captou, o orelhão, os postes, o

carro, representam as mudanças operadas no vilarejo com a introdução dos

elementos da modernização, ressignificando vivências. Enfim, na imagem nota-se

como a estrada era uma parte ―viva‖ do Tabuleiro, na qual se desenrolava a trama

cotidiana que envolve a arte de viver.

As estradas, que eram passagens para as tropas de mulas dos tropeiros,

percursos para os moradores que se dirigiam as suas roças e casas, podem ter sido

aquelas que conduziram a outros caminhos que acarretaram a decadência das

vendas do Tabuleiro. Muitos entrevistados apontaram a acessibilidade promovida

pelas estradas até os centros urbanos próximos como um dos fatores que

104


ampliaram as alternativas de consumo, maior circulação das pessoas e,

consequentemente, de ideias, favorecendo as trocas sociais e comerciais.

Para o Sr. Domingos, as estradas e o acesso aos meios de transporte

facilitaram a locomoção dos moradores do povoado, modificando costumes e

antigos hábitos, como o de amarrar as mulas, cavalos e jumentos em estacas das

cercas que se estendiam ao longo das estradas. Agora, os pedestres e os animais

dividem as estradas com automóveis e motocicletas. Dessa forma, ele descreve o

impacto das estradas:

105

Essa estrada tem uns 40 anos de feita. Naquele tempo não existia

carro, assim em Mutuípe não. Só tinha um caminhão velho, quem

comprou foi o finado Leordino Rocha, um Jeep véi aí na rua e uma

tali [tal de] de motocicreta [risos], que eu não sei de quem era, era o

que existia na rua. As estacas vivia cheia de animá. E Hoje não, tudo

que é bichim [pessoa] tem carro, às vezes sai daqui mais de 50, mais

de 100 carros. Naquele tempo não, nêgo arrumava um jegue botava

uma cangalha, dois panacuns e ia pra rua fazer feira e vender uma

codornazinha. Hoje, não, nêgo tem seus carro, eu que não tenho

nenhum! (Domingos Santos de Andrade, 63 anos. Entrevista

em19/08/2009)

A escolha por trilhar os novos caminhos não significava o abandono de

antigos lugares de memória. O Sr. Hélio Nunes, assíduo frequentador das vendas do

Tabuleiro, referindo-se aos anos posteriores a década de 60 após a criação da

estrada de rodagem que corta o Tabuleiro, afirmou: ―o povo ia pra rua comprar

alguma coisa, mas quando passava nas vendas do Tabuleiro tinha que parar para

fazer a feira‖ (Hélio Nunes dos Santos, 62 anos, entrevista em 05/07/2010). A partir

desse relato, afirmar que as vendas foram trocadas pelas casas comerciais do

centro urbano de Mutuípe, simplesmente, porque os indivíduos poderiam ter acesso

à cidade e a bens de consumos variados seria ignorar as relações de consumo que

eram praticadas nas vendas. As formas de negociar ainda continuavam baseadas

em antigos costumes, pautadas na confiança e nas relações solidárias típicas das

vendas rurais.

O crescimento do capitalismo e seu avanço sobre o mundo rural fazia-se

sentir em valores ideológicos transmitidos pelas novelas, filmes, programas de TV ou

nas músicas e notícias difundidas pelo rádio. Como, também, os migrantes que

traziam em suas visitas ou retornos ao vilarejo as novidades tecnológicas, as

vivências das cidades; enfim, um mundo de informações que impactavam a vida dos


moradores do Tabuleiro. As próprias vendas funcionavam como catalisadoras das

novidades e dos valores sociais que se firmavam no mundo rural; porém, as novas

relações de consumo, características do mundo globalizado, encontraram nas

vendas uma forma própria de conviver com as formas tradicionais de comerciar.

Estudiosos das sociedades pós-modernas, dedicados a entender sua

dinamicidade, apontam como as relações de consumo dizem muito sobre as

sociedades capitalistas. Para Baudrillard (1991, p.80), a circulação, a compra, a

venda, ―a apropriação de bens e de objectos/signos diferenciados constituem hoje

nossa linguagem e o nosso código, por cujo intermédio toda a sociedade comunica e

fala.‖ O mundo capitalista, na visão do autor, que se mantém sobre a égide do

consumo, expressa nas relações de compra e venda uma linguagem, um sistema de

códigos e signos que, simbolicamente, se anunciam em comportamentos, na forma

como os homens compram, desejam e se deixam ou não seduzir pelas

mercadorias, expondo todo um modo de viver das sociedades.

Por sua vez, Bauman (1999, p.92-93) ratifica as ideias de Baudrillard

(1991) ao explicitar como tal linguagem da sociedade de consumo se corporifica nas

atitudes dos consumidores:

106

É essa combinação dos consumidores, sempre ávidos de novas

atrações e logo enfastiados com atrações já obtidas, e de um mundo

transformado em todas as suas dimensões — econômicas, políticas

e pessoais — segundo o padrão do mercado de consumo e, como o

mercado, pronto a agradar e mudar suas atrações com uma

velocidade cada vez maior; é essa combinação que varre toda

sinalização fixa — de aço, de concreto ou apenas cercada de

autoridade — dos mapas individuais do mundo e dos projetos e

itinerários de vida.

Bauman (1999, p.88-89) afirma que o homem contemporâneo, inserido na

sociedade de consumo, é impulsionado pelo desejo de comprar. O consumismo que

move suas atitudes lhe faz perder o sono, ante a necessidade de adquirir e ter

mercadorias, configurando um dilema, que para o autor está em se é necessário

―consumir para viver ou se o homem vive para poder consumir. Isto é, se ainda

somos capazes e sentimos a necessidade de distinguir aquele que vive daquele que

consome‖. Diante desse quadro de mudanças, Bauman (1999) sinaliza que a avidez

dos consumidores tem causado alterações nas relações sociais; os valores


humanos de solidariedade, compaixão, amor e ódio assumem novas configurações

orientadas pelos caminhos indicados pelo mercado consumidor de produtos.

No Tabuleiro, as novas relações de consumo são incorporadas

lentamente aos antigos costumes, contudo os moradores, em suas entrevistas,

demonstraram o desejo de permanecer nas vendas onde sempre comercializaram.

O Sr. Hélio, assim como Dona Madalena e o Sr. Domingos, cada qual com suas

razões, afirmaram que eles preferiam negociar com a venda do Sr. Juvenal onde,

geralmente, faziam suas compras e só cessaram após a morte do vendeiro.

Dessa forma, o acesso à cidade, a outros bens de consumo, ao dito

moderno não pareceu afastar os fregueses das vendas, demonstrando que os

localismos têm o poder de resistir à marcha da globalização, numa negociação em

que nem sempre o ―menor‖ é o derrotado. E quem sabe, a sociedade de consumo,

desenhada por Baudrillard (1991) e Bauman (1999) que varre ―dos mapas

individuais do mundo e dos projetos e itinerários de vida‖ formas tradicionais de

viver, tenha, em realidades locais, como o Tabuleiro, um campo fértil de resistência e

ressignificação desses valores à moda do homem do campo.

Em acréscimo às possíveis razões que conduziram as vendas à crise, o

crescimento da violência na região tem, de alguma forma, provocado a saída de

moradores para a sede do município e, consequentemente, afastado os fregueses

das vendas, pelo menos até altas horas da noite como acontecia no passado. Para a

Sra. Aurineide Thethê, que trabalhou na Venda Santa Ana até o ano de 2005, o

aumento de assaltos e furtos na região têm provocado o afastamento dos moradores

das vendas, visto que o estabelecimento comercial, onde trabalhou nos últimos nove

anos, antes de seu fechamento, foi assaltado três vezes. Segundo ela, isso acabou

reforçando a ideia de que o povoado tornou-se um lugar violento:

107

Nos tempos de hoje, acabou o movimento que tinha na venda à

noite, por causa da violência, que cresce dia após dia, tanto na

cidade como nas roças. Aqui mesmo já foi invadida a casa, já por

três vezes a mão armada. Noventa e oito pra cá, aqui se tornou

muito perigoso, tanto de dia quanto de noite. Eu vivo muito assustada

porque além do que já aconteceu aqui, a gente está sempre ouvindo

falar de roubos e assaltos nas casas e nas vendas (Aurineide

Thethê, 50 anos, entrevista em 14/04/2007).


Os argumentos da Sra. Aurineide dão indicações de como a violência

parece ter afastado os fregueses das vendas. No entanto, não é possível

dimensionar até que ponto essa violência influiu na diminuição do movimento de

fregueses desses estabelecimentos comerciais, pois o crescimento da violência no

campo, no Brasil, envolve questões de natureza diversa e complexa. Assim é que,

diferente da opinião da Sra. Aurineide, Dona Madalena observa:

108

Em todo lugar tem violência, não é só o Tabuleiro. Em Lugar que o

povo bebe muito aí é que dá briga, dá tudo. Não é dizer que o povo

vem de fora pra brigar, nem nada não. O povo diz que a violência é

por causa disso. No tempo que Juvenal e Sizínio tinha de venda ali,

qual foi as brigas que teve? Não teve briga nenhuma (Madalena

Pereira, 73 anos, entrevista em 15/11/2009).

A divergência de pontos de vista das entrevistadas evidencia quão

amplas são as razões para decadência das vendas. A influência da violência, na

memória dos narradores, assume matizes diversas, certamente influenciadas pelas

vivências de cada uma. Como a Sra. Aurineide presenciou alguns assaltos na venda

de seu cônjuge Juvenal Santos, logo traz consigo lembranças traumáticas desses

episódios. Enquanto Dona Madalena teve, com as vendas, outras experiências, por

isso as duas mantêm opiniões distintas. Portanto, a violência é sentida de forma

diferente na crise das vendas, mas atinge os moradores do lugar, seja impelindo-os

à procura de segurança na zona urbana da cidade ou mudando hábitos.

A respeito das diferentes lembranças e impressões dos indivíduos sobre

acontecimentos compartilhados na vida social, Portelli (1997, p. 16) considera que

A memória é um processo individual, que ocorre em um meio social

dinâmico, valendo-se de instrumentos socialmente criados e

compartilhados. Em vista disso, as recordações podem ser

semelhantes, contraditórias ou sobrepostas. Porém, em hipótese

alguma, as lembranças de duas pessoas são – assim como

impressões digitais, ou, a bem da verdade, como vozes –

exatamente iguais.

As ponderações de Portelli (1997) corroboram no entendimento das

impressões dos moradores do Tabuleiro sobre a violência. Embora compartilhem

memórias coletivas, produto de uma conivência social, a memória também é


individual. Então, buscar uniformidade nas memórias não é o mais aconselhável,

visto que elas são frutos de experiências coletivas e individuais.

Durante as entrevistas outro aspecto citado foi o rompimento das relações

afetivas e de pertencimento que integravam a população local com o espaço das

vendas. Acontecimentos como a morte de algum vendeiro, o fechamento de

determinadas vendas fizeram com que a população local sofresse uma espécie de

quebra de laços sentimentais que mantinham com aquelas espacialidades, já que

não significava apenas a perda de uma opção a mais de estabelecimento comercial

para negociar, mas referenciais de valores sociais e vínculos culturais tradicionais

irrompiam-se na vida dos fregueses das vendas.

De repente, não havia mais aquele vendeiro de pernas cruzadas e mão

no queixo, sentado no balcão conversando com fregueses (Foto 06), no fim da tarde

não se podia ir à venda para conversar, ver TV, beber cerveja ou cachaça, porque

não está mais em funcionamento a venda que sempre fez parte do cotidiano do

povoado, era como se uma ―peça‖ faltasse no tabuleiro, literalmente. Essas

lembranças construídas diariamente coligam lugares que consagraram memórias. E

a ausência referencial desses aportes impele a população à busca de novos lugares

de memória, outros referenciais em casas comerciais fora do Tabuleiro.

Há, também, um processo inverso, o de negação de antigas memórias

como fuga das lembranças doloridas. Talvez os fregueses, com o fim das vendas

que comerciavam, tenham procurado outros lugares como forma de adaptar suas

vidas às novas realidades. Para Pollak (1989, p.15), ―a memória é indissociável da

organização social da vida‖, acompanha seus movimentos e busca nas suas

adversidades formas de se acomodar, tornando as lembranças aceitáveis e

confortadas, ainda que fosse silenciando-as ou esquecendo-as.

109


Foto 06: O vendeiro Juvenal Santos e sua esposa Aurineide Thethê.

Fonte: Fotografa: Josiane Thethê Andrade, 1999.

Na fotografia 06 estão o vendeiro Juvenal Santos e sua esposa Aurineide

Thethê, que trabalharam juntos na Venda Santa Ana. Esse estabelecimento, após a

morte do Sr. Juvenal em 2002, funcionou até 2007. Nela vê-se uma imagem comum

àqueles que entravam na venda: esse vendeiro estava quase sempre sem camisa,

de calça jeans e chinelo nos pés, junto com o inseparável chapéu a cabeça. Assim,

sentado no balcão, o vendeiro ficava nos momentos de pouco movimento na venda

e dedicava-se a conversar com os fregueses. As mercadorias espalhadas pelas

prateleiras ou no chão, carnes, papéis, cordões, moscas sobre o balcão, chão sujo

de terra e cuspe eram imagens típicas dessas lojas das roças. Os fregueses

acostumaram-se com essas cenas, constituindo as referências para suas memórias

sobre as vendas.

Segundo Nora (1993, p.14), ―a memória é vivida do interior, mas ela tem

necessidade de suportes exteriores e de referenciais tangíveis de uma existência

que só vive através delas‖. A ausência referencial de lugares de memória provocou

rupturas profundas em costumes e comportamentos que ajudam a entender a crise

das vendas no Tabuleiro. A Sra. Madalena, assim, expõe suas impressões sobre o

fechamento da venda na qual ela fazia compras:

110


111

Quando Sizínio mais Juvenal botou venda, o Tabuleiro ali ficou

quente, que dia de sábado era um movimento! E depois que Sizinio

cabou com a venda, o Tabuleiro morreu. Você vê que Vando botou

ali, a gente chega dia de sábado não tem ninguém, acabou o

movimento. Luís botou aqueles dias teve um esquentinzinho acabou.

Você sabe que dia sábado não tinha ninguém. O Tabuleiro acabou!

(...) Hoje eu faço minha feira na rua, tem 5 anos que faço minha feira

em Duda! Desde que Juvenal morreu (Madalena Pereira, 73 anos,

entrevista em 15/11/2009).

Para Dona Madalena, que fez suas compras por anos na venda Santa

Ana, o fim desse estabelecimento representou a busca por um novo lugar para

comercializar. Mas não bastou a substituição de uma venda que fechou por outras

que surgiram depois. Ela afirma ainda que as relações de confiança e cumplicidade

que, por anos, caracterizaram as suas vivências na venda do Sr. Juvenal não eram

mais as mesmas. O Tabuleiro ―morreu‖ para Dona Madalena. Diante disso, ela

buscou em um supermercado da zona urbana de Mutuípe um novo lugar para

negociar, buscando estabelecer novas relações já que as antigas haviam saturado e

as memórias construídas, em anos de convivência naquela espacialidade perderam

o brilho no presente, tornando-se amargas, desde quando as vendas do Tabuleiro

não eram mais lugares acolhedores, os espaços da intimidade do passado, nos

quais as memórias eram tão fortes e significativas, que talvez a convivência tenha se

tornado difícil ante a nova realidade.

O fato de Dona Madalena ter procurado os supermercados, na zona

urbana da cidade de Mutuípe, não foi um fato isolado, boa parte dos narradores

passaram a fazer o mesmo. A morte do vendeiro Juvenal provocou modificações

nas vivências que a população mantinha com as vendas do lugar, pois mesmo

havendo outras vendas no Tabuleiro, alguns preferiram negociar em outros lugares.

Sr. Domingos, assim como Dona Madalena, recorda suas lembranças a respeito da

venda do Sr. Juvenal:

As venda do Tabuleiro já foi venda quando tinha Jovená, quando era

vivo. Morreu, acabou! Até hoje não pude mais compreender esse

negócio ainda. No tempo de Jovená aquela venda ali andava

atopetada. Lembro que Jovená comprava quadro, cinco caminhão de

cacau no decorrer da semana, tinha época de sair três, quatro

caminhão truncado [cheio], hoje não sai um Jeep, pra você ver. Tinha

aquela confiança. O Tabuleiro, o que era acabou! Hoje faço minha

feira na rua (Domingos Santos de Andrade, 63 anos. Entrevista

em19/08/2009).


Na sua fala, Sr. Domingos traz outro aspecto que contribuiu para o

declínio do comércio das vendas. A população do Tabuleiro vive basicamente da

produção cacaueira, que junto com a pecuária constituem as bases produtivas do

município de Mutuípe. Entre os anos de 1960 a 1990, o comércio das amêndoas do

cacau fez os negócios das vendas crescerem de forma significativa. O cacau era

comprado pelos vendeiros e, depois, repassado aos armazéns da cidade. E, como

Sr. Domingos afirmou, da venda do Sr. Juvenal saíam ―quadro, cinco caminhão de

cacau no decorrer da semana‖, logo milhares de arroubas de cacau eram vendidas

nas vendas na época da safra. Porém, isso não mais acontece. A população vende

diretamente a produção aos armazéns da cidade, que buscam a produção na

fazenda do agricultor; no passado, entretanto, não havia essa comodidade, a

produção era levada ―no lombo‖ dos animais até às vendas ou aos armazéns.

Ainda no sentindo de entender as razões que causaram a decadência das

vendas, devem-se contemplar fatores como as tensões que permeiam o ofício dos

vendeiros e a ―corda bamba‖ sobre a qual equilibram seus negócios sujeitos às

―intempéries‖ do mercado financeiro. As dívidas, as más administrações, somadas

aos outros fatores, influíram decisivamente na crise das vendas. Sr. Pedro, citado

anteriormente no segundo capítulo, afirmou que as dívidas foram umas das

principais responsáveis pelo fracasso das vendas. Segundo Sr. Hélio Nunes, o fim

da Venda Santa Ana, em 2007, foi a gota d‘água de uma crise que vinha sendo

sentida desde os fins dos anos 90 do século XX.

112

Nuca [Juvenal] morreu, aí depois ficou Dona Neide [Aurineide

Thethê], mas não foi a frente porque o povo não se acostumou sem

ele. E o sócio dele mesmo dizia que não dava pro negócio. Ficou

devendo dinheiro ao povo, muitos se zangaram e saíram de lá. Foi

uma quebradeira, falta de dinheiro, o povo se desequilibrou e o povo

procurou outros cantos. O Tabuleiro acabou mais por causa disso. E

na roça pegou a ter muita vagabundagem, e se botar um negócio

como tinha Nuca não vai a frente não, por causa dos ladrãos. Eu

arriei de ir ao Tabuleiro, uma vez por outra que passo lá, eu ia todo

dia lá, pra mim era o melhor negócio do mundo. Hoje eu só vou ao

Tabuleiro comprar uma carne de porco na mão de Gil. Ali tem dia de

domingo que abre de manhã até meio dia, ou de meio dia até de

tarde que é fechado o dia todo. Semana passada fiquei aqui não

chegou ninguém aqui, eu sai, fui no Tabuleiro tava fechado, mas de

tardinha fui de novo, só tinha Piau. Prosei com ele e fui me embora.

Não tinha mais ninguém, acabou! (Hélio Nunes dos Santos, 62 anos,

entrevista em 05/07/2010).


Os desequilíbrios se mostravam nos conflitos entre os vendeiros

endividados e os clientes. A confiança depositada nos negócios selados com um

aperto de mão, na certeza de que a honestidade bastaria para a quitação das

dívidas, rompia-se e, como consequência, surgiam as cobranças, as ameaças

verbais, o uso da violência para forçar os vendeiros a pagarem suas dívidas. Porém,

nota-se que a agressão física implode sentimentos de descontentamento pelo não

pagamento das dívidas. A população demonstrava sua insatisfação com todo um

conjunto de valores que vinha por terra; geralmente, as pessoas sentiam-se traídas,

usurpadas e desterradas, em um ambiente que sempre as acolheu, onde o crédito

estava disponível, e quando elas precisaram não encontraram mais amparo.

Como consequência imediata, parte da população afastou-se das vendas

do Tabuleiro e procurou fora do povoado outras casas comerciais, como já foi

mencionado. Para o Sr. Hélio, o fim da última grande venda do povoado soou como

uma sentença de morte: o ―Tabuleiro acabou‖. Enquanto funcionaram, as vendas

foram a artéria pulsante da vida social de um lugar marcado por intensa convivência

nessas espacialidades. O fim dos estabelecimentos, no período de 1960 a 2007,

marcou a memória de várias gerações, deixou marcas profundas não só nas

lembranças de um povo, como em seu cotidiano.

Hoje, aqueles que têm a oportunidade de caminhar pela estrada que corta

o povoado não veem mais as vendas que no passado ficavam abertas até à noite.

Não se escuta mais com frequência as vozes dos fregueses conversando, as

cantorias, a TV ou o rádio ligado e as pessoas comentando as últimas notícias. Não

se veem mais os jogos de cartas, com suas discussões fervorosas e o

descontentamento dos perdedores; ou os apostadores do jogo do bicho que faziam

―sua fé‖ confiantes na interpretação dos sonhos que tiveram na noite anterior. Não

são mais tão comuns as cenas daqueles que de lá saíam cambaleantes após

beberem muitas ―pingas‖ ou terem tomado muitas cervejas, fossem comemorando,

lamentando ou simplesmente satisfazendo o prazer de beber. Também ficaram nas

memórias as brigas pelos mais diversos motivos, os carros que chegavam e saíam

carregados de fregueses que vinham da cidade de Mutuípe, mas que tinham que ali

―chegar‖, nem que fossem para conversar. Tudo isso vem dando lugar para outras

vozes, outros hábitos que revelam novos anseios, outros lugares de memória.

O Tabuleiro não vive mais uma realidade apontada pelas memórias dos

narradores da história desse lugar, ou seja, sua própria população que,

113


cotidianamente, testemunhou as transformações dessa espacialidade. Contudo,

apontar a ―morte‖ do povoado, pela crise das vendas, seria anunciar

apocalipticamente o futuro. A pesquisa aqui desenvolvida levantou indícios e

hipóteses sobre a decadência das vendas. Por isso, a impressão é a de um lugar

que viveu modificações profundas, com um passado marcado pela vitalidade das

vendas, mas o seu esvaecimento, na última década, modificou a vida dos

moradores, uma vez que o Tabuleiro tinha nelas um referencial, um dinamizador da

vida econômica e social.

O arraial das vendas não mais se reconhece assim, porque esses

estabelecimentos comerciais estão desaparecendo desse cenário no qual foram as

vedetes por muito tempo. Nas reminiscências dos moradores, porém, as vendas são

memórias vivas, impregnadas de lugares e tempos. Os lamentos da inexistência das

antigas vendas, a saudade de pessoas, lugares, fazeres, costumes foram

constantemente mencionados nas narrativas, muitos narradores sugerindo, até o fim

da vida socioeconômica do Tabuleiro.

O fato é que novos modos de viver se instauram e as vendas, quem sabe,

podem revigorar-se como desejam muitos moradores. No presente, elas não mais

dão o tom da vida cotidiana do povoado, mas as gerações que viveram no contexto

das vendas, e tiveram suas vidas tangenciadas pela dinâmica imprimida naqueles

espaços, mantêm viva a memória daquilo que a decadência econômica não

conseguiu varrer de suas vidas.

114


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Utilizar as narrativas de moradores do Tabuleiro para analisar aspectos

da vida cotidiana do povoado foi mais do que relatar a história de um lugar.

Significou debater a importância do mundo rural como objeto de estudo histórico,

contrastando com algumas ideias que associam o mundo rural a lugar de atraso e

ignorância, adjetivando preconceituosamente o homem do campo como ―jeca‖,

―mateiro‖, ―roceiro‖, etc. Esses sujeitos são agentes históricos, transformadores de

sua realidade com costumes e tradições, fruto, muitas vezes, de práticas e vivências

experimentadas nas relações socioculturais constituídas cotidianamente.

Para empreender um estudo histórico do povoado, foi preciso buscar nas

memórias sobre as vendas do Tabuleiro a explicação para muitos dos fatores que

dinamizavam a vida socioeconômica do lugar. Esses estabelecimentos comerciais

eram múltiplos em funções e significados; e, durante a pesquisa, observou-se que

as vendas não se limitavam apenas ao comércio de mercadorias para satisfazer as

necessidades de consumo da população local. Elas funcionavam também como

armazéns, açougues e casas de jogos, alimentando o espírito dos fregueses com o

lazer e a diversão e os seus corpos com os alimentos serem comercializados.

Em relação ao vendeiro, ele tornava-se um personagem singular do lugar

e não era visto pela população apenas como um comerciante. A convivência e o

estreitamento dos laços de intimidade juntavam-no aos fregueses, tornando-o,

muitas vezes, amigo ou inimigo de muitos. Assim, as vendas constituíam-se em

espaços que tanto aproximavam as pessoas e promoviam o nascimento de

prósperas amizades, como também possibilitava desentendimentos e brigas.

Dentre tantos papéis, o vendeiro ainda poderia, no momento de

necessidade de um freguês, ajudá-lo não cobrando uma dívida ou concedendo um

empréstimo com facilidades de pagamento. No entanto, é importante frisar que, em

muitos casos, a cobrança de dívidas poderia romper com a relação de confiança que

envolvia os negócios dessas lojas rurais. Historicamente, elas ajudaram a construir

significados dos espaços do povoado, assim como contribuíram na constituição de

memórias sobre as formas de comerciar e sociabilizar dos fregueses. As vendas

tornavam-se um ponto de referência e, no caso do Tabuleiro especificamente, a

diversidade e o dinamismo econômico intrínsecos a elas colaboravam para a criação

115


de uma imagem do lugar carregada de experiências e vivências nessas

espacialidades.

O trabalho oportunizou, também, apreender diferentes aspectos do

―universo‖ cultural do homem do campo, ao observar como indivíduos construíram,

em momentos de lazer e diversão, relações com a natureza, costumes e tradições.

No Tabuleiro, dentre as formas de socialibilização dos moradores, destacaram-se os

festejos da burrinha e do brinquedo de roda que, ao acompanharem outras

manifestações culturais do lugar como as rezas, os ternos de reis, entre outras,

expunham como se entremeavam formas de sociabilidade com aspectos religiosos e

culturais de pessoas que têm suas vidas tangenciadas pelas vivências nas roças.

Notou-se, ainda, que com o avançar dos anos operou-se uma série de

transformações na vida dos moradores do povoado. Uma das mudanças mais

marcantes, sentidas pelas pessoas daquela localidade, foi a crise das vendas a

partir dos anos 90 do século XX, modificando, consequentemente, a dinâmica social

e econômica do lugar. Dentre essas alterações, podem-se destacar: as dívidas e

más administrações das vendas; a retenção na economia causada pela migração e

as variações na produção agrícola; as transformações causadas pelo avanço da

sociedade de consumo e pela introdução de elementos da modernização, dentre

outras. Tudo isso gerou novas vivências, no dia-a-dia dos moradores do lugar,

expressas nas relações sociais, nas festas, nas formas de lazer e no trabalho.

Contudo, analisar tais aspectos históricos só foi possível graças ao

trabalho com as narrativas orais que permitiram o contato direto com fontes ―vivas‖ e

o afloramento das memórias. O gesticular das mãos, os olhos lacrimosos dos

narradores, quando lembravam momentos alegres e tristes, enriqueceram o trabalho

árduo de pesquisa com toques de humanidade e sensibilidade, elementos esses

perceptíveis nas falas dos entrevistados.

Cruzar as narrativas proporcionou repensar o ofício de historiador e como

o conhecimento histórico se constitui. Ao longo de toda a pesquisa, percebi que o

trabalho com memórias nos permite ultrapassar as fronteiras da impessoalidade; o

contato com os entrevistados, com seus espaços de vivência, a possibilidade de

conhecer suas famílias, sua intimidade, sem dúvida, aproximaram-me do objeto de

pesquisa de uma forma que espero ter sido capaz de exprimir os sentimentos dos

narradores, uma vez que a história é feita do sangue e do suor de pessoas de carne

e osso.

116


Sem pretensão de colocar em xeque o papel do historiador, a pesquisa

também me possibilitou perceber que ele age, de certa forma, como um poeta ao

buscar entender o que é aparentemente, corriqueiro, comum, debruçando-se sobre

as questões do cotidiano. Visto que ser poeta é ter um olhar contemplativo sobre a

vida e, ao fazê-lo, o historiador inevitavelmente imprime na narrativa um olhar

sensível, escapando ao rigor que, em nome de uma ciência, muitos deixam perder o

que a história, feita a partir de experiências de vida, tem de mais rico: as

sensibilidades.

Segundo Bachelard (2008 p.26), quando se adiciona o valor de sonho às

lembranças, adentra-se no campo da poesia, ou seja, ao expor os sentimentos, a

imaginação dos indivíduos, o historiador revela para a história o mundo inteligível

das sensibilidades. Dessa forma, para esse autor, ―nunca somos verdadeiros

historiadores, somos sempre um pouco poetas e nossa emoção traduz apenas,

quem sabe, a poesia perdida".

Foi assim que, ao tentar esmiuçar os detalhes das roupas, os gestos, os

tons das vozes, o movimento dos corpos tive a oportunidade de descortinar um

mundo de sensações e sentimentos presentes em minúcias quase imperceptíveis

aos olhares desatentos, os aspectos históricos do Tabuleiro. Esse é, dentre muitos

outros, o mérito do historiador: oportunizar ao leitor o acesso às memórias que

contam histórias de indivíduos, de lugares, de vivências diversas.

Discutir a vida cotidiana do Tabuleiro, oportunizou-me, na condição de ex-

moradora do desse lugar, reviver um passado que compartilhei com os narradores

dessa história que exponho neste trabalho. A venda de meu pai, o vendeiro Juvenal,

foi meu espaço de vivência por décadas, lá presenciei as relações que os indivíduos

mantinham com essas casas comerciais. Assim como, brinquei com a burrinha,

vivenciei o cotidiano nas casas de farinha, andei pela estrada de cascalho do

povoado, senti a falta das vendas e dos vendeiros e presenciei novos viveres se

forjarem no lugarejo.

Enfim, a pesquisa me proporcionou reviver as memórias do passado que

criei em anos de convivência no Tabuleiro e, como historiadora, tive a chance de

abordar uma temática próxima a mim, como a muitos homens e mulheres das zonas

rurais de municípios do Recôncavo Baiano que, aqui, por meio das memórias,

tiveram analisadas suas visões sobre a vida e a forma de conduzi-la expostas nas

vendas, nas festas, no ir e vir de seus passos pelos campos.

117


Como toda pesquisa histórica, não se esgotaram as análises e as

interpretações referentes ao tema. Assim, é preciso reiterar que, tamanha a riqueza

de material analisado, só foi possível registrar fragmentos. Seria preciso, outros

tantos trabalhos como este para apreendê-las e, assim, novas investigações

poderiam ser empreendidas e outras histórias sobre as vendas do Tabuleiro

narradas. Os aspectos apresentados podem dar uma noção de como era a vida

cotidiana do lugar, a relação dos moradores com as vendas, seus costumes e

tradições. Por fim, sua dinâmica sociocultural demonstra que povoados como o

Tabuleiro constituem ricos objetos de estudos históricos e que os sujeitos que lá

convivem foram capazes de conduzir seus destinos, participando ativamente no

processo de construção de suas memórias, de suas histórias.

118


FONTES

ORAIS:

Antonio Jesus Santos, 84 anos de idade, trabalhador rural, ―brincou‖ de

burrinha grande parte de sua vida. Reside na sede do município de

Mutuípe. Primeira entrevista em 13/07/2003, 15 minutos, segunda

entrevista em 20/07/2003, 10 minutos.

Aurineide Thethê Andrade, 50 anos de idade, trabalhava na Venda Santa

Ana junto com seu marido, Juvenal Santos Andrade (in memoriam).

Reside na sede do município de Mutuípe. Entrevista em 14/04/2007, 30

minutos.

Carmerino de Souza Thethê (1925-2008), pequeno proprietário rural

aposentado. Residia na localidade do Beija-Flor, município de Mutuípe.

Entrevista em 16/03/2003, 35 minutos.

Domingos Santos de Andrade 63 anos. Pequeno proprietário rural. Reside

no povoado do Tabuleiro no município de Mutuípe. Entrevista em

19/08/2009, 40 minutos.

Hélio Nunes dos Santos, 62 anos. Pequeno proprietário rural. Reside no

povoado do Tabuleiro, município de Mutuípe. Entrevista em 19/08/2009,

42 minutos.

José Gonçalves de Oliveira, 87 anos de idade, exerceu a função de

vendeiro desde a segunda metade da década de 40 permanecendo até

os anos 80 no Tabuleiro, em 2007 retornou ao povoado. Reside no

Tabuleiro município de Mutuípe. Entrevista em 19/01/2003, 30 minutos.

Laura de Jesus Andrade (1944-2006), conhecida como Caboclinha,

faleceu poucos meses após a entrevista. Trabalhadora rural, residia na

sede do município de Mutuípe. Entrevista em 24/10/2006, 30 minutos.

Madalena Pereira de Andrade, 73 anos de idade. Agricultora e dona de

casa. Reside no povoado do Tabuleiro no município de Mutuípe.

Entrevista em 15/11/2009, 65 minutos.

Manoel Amado da Silva, 75 anos, exerceu a função de vendeiro no

Tabuleiro nas décadas de 50 e 60. Reside na sede do município de

Mutuípe. Entrevista em 16/07/2003, 15 minutos.

Maria Nunes dos Santos, 88 anos. Dona de casa. Reside no povoado do

Tabuleiro no município de Mutuípe. Entrevista em 16/08/2009, 51

minutos.

119


Pedro Andrade de Souza, 75 anos de idade, pequeno proprietário rural,

exerceu a atividade de vendeiro tanto no Tabuleiro, quanto em outros

povoados e cidades. Reside no povoado do Tabuleiro, município de

Mutuípe. Entrevista em 06/07/2003, 45 minutos.

MANUSCRITAS:

Comarca de Mutuípe. Escritura de terra do Sr. José Gonçalves, livro nº 24, fls.

112-114.

Carta – acervo particular de Maria Nunes dos Santos.

Vales e recibos de compra e venda - acervo particular de Aurineide Thethê

Andrade.

IMPRESSAS:

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Aurineide Thethê Andrade.

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