JORNALISMO E LITERATURA - Unesp

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JORNALISMO E LITERATURA - Unesp

JORNALISMO E LITERATURA

Jogo de Alteridade

BRITO, Sônia de 1

RESUMO

Pensando em direito a informação aliada à técnica, o jornal busca novos padrões de expressão

para veicular diferentes versões dos fatos. Daí, segundo José Marques de Melo (apud LIMA,

1995, p. 81), “a objetividade torna-se instrumento eficaz para privilegiar a subjetividade

(interesses, opiniões, ideologias) dos proprietários das instituições jornalísticas”. Ao refletir sobre

questões que transitam entre objetividade e subjetividade, entende-se que a crônica expresse

informação de forma opinativa, lúdica, leve, pitoresca, caricatural, trabalha a presentificação com

liberdade e diversidade temática e o referente será explorado e impresso em jornais, revistas,

livros, internet. Assim, o corpus deste artigo atém-se: ao autor: Armando Nogueira; à natureza:

gênero opinativo; à tipologia: crônica; à delimitação: crônica esportiva; e ao veículo de

comunicação: o jornal O Estado de S. Paulo. Armando Nogueira foi um jornalista experiente e

renomado, suas crônicas foram publicadas no caderno de Esportes, seção Na Grande Área, às

quartas-feiras e domingos. A crônica escolhida para análise é: “A sina do torcedor”. A crônica

mantém um jogo interlocutivo implícito com seu público de interesse. Esse jogo consiste em tirálo

do seu mundo material para cativá-lo e inseri-lo em um mundo emocional, hipotético,

pressuposto, informativo, imaginoso. Desse modo, Armando Nogueira (cronista/emissor) envia

mensagem para o receptor/leitor (público de interesse), sobre um determinado tema ou referente,

sendo que a crônica pode ser interpretada como mediadora entre emissor e receptor. Quanto à

fundamentação teórica, a base está no processo de produção e em alguns teóricos como: Análise

do Discurso da linha francesa (PÊCHEUX, 1969); Semântica Argumentativa (DUCROT, 1972);

Teoria Pragmática (AUSTIN, 1970; SÁ, 1999; BELTRÃO, 1980), entre outros. Quanto aos

objetivos: para analisar o contexto como elemento estrutural dos escritos produzidos por

jornalista/escritor; verificar até que ponto as duas linguagens (jornalística e literária) se

fundem e analisar o jogo de alteridade entre o jornalista e o escritor, acredita-se que a

proposta desses teóricos irá contribuir para a análise da crônica.

Quanto à bibliografia, será usada a que contemple o suporte teórico. Além dessa, as que forem

necessárias para contextualizar e definir o gênero opinativo escolhido: a crônica. Assim, o

artigo desenvolvido será estruturado em duas partes: uma teórica priorizando conceitos,

características do gênero e a outra pragmática, percorrendo, assim, o discurso apodítico,

afirmando e em seguida demonstrando. A princípio, informações sobre jornalismo e literatura

serão observadas como dicotomia e, depois, fusão com o propósito de atingir o alvo: relatar o

real. E, por último, a crônica e alguns cronistas irão definir e embasar elementos pertinentes à

tipologia, que serão aproveitados como elementos estruturais para análise do texto. A crônica

será analisada de forma crítica, detalhada, pitoresca, a partir do efeito de sentido decodificado

por esta receptora/leitora. As considerações dessa pesquisa resultarão da decodificação e do

relato de como será lida a crônica “A sina do torcedor”, uma vez que, aproveitando os

ensinamentos de Paulo Freire, “testemunhar como você lê é eminentemente pedagógico”. Desse

modo, o jogo comunicativo entre afirmar, argumentar, demonstrar, emana do próprio texto e

1 Doutorado em Letras (1999), UNESP/Assis/SP. Mestrado em Projeto, Arte e Sociedade (1994) – Comunicação

e Poéticas Visuais, UNESP/Bauru/SP. Especializações: Alfabetização ou Aquisição da Linguagem (1989) e em

Língua Portuguesa: A Pragmática do Discurso (1988), pela Fundação Educacional de Jaú. Graduação em

Letras pela Universidade do Sagrado Coração (1986). Atualmente, é Professora Assistente Doutora da UNESP-

Bauru. Tem experiência na área de Comunicação e Artes. snbrito@faac.unesp.br


permitirá que as marcas discursivas, a seleção lexical, indiquem e levem o receptor a tirar suas

conclusões, lendo o dito e o não dito da crônica e da (re)escritura.

Palavras-chave: Jornalismo Literário, Crônica, Característica, Efeito.

Jornalismo e Literatura

A escrita é o ponto comum entre jornalismo e literatura. O jornalismo inspira-se na

literatura para narrar o real. Alguns escritores iniciaram a vida profissional trabalhando em

jornal. Lançado o hábito da escrita, muitos jornalistas aprendizes tornaram-se grandes

escritores. Principalmente no século XIX, o jornalismo foi, ao mesmo tempo, meio de

subsistência e canal do talento literário. No Brasil, por exemplo, Machado de Assis começou em

jornal como aprendiz de tipógrafo e revisor. Além dele, Manuel Antônio de Almeida, José de

Alencar, Gonçalves Dias, Joaquim Manuel de Macedo e outros, trabalharam em jornais e

revistas daquela época.

Segundo Lima (1995), a literatura e a imprensa confundem-se até o início do século

XX. Os jornais abriam espaços para a arte literária, produziam folhetins e publicavam

suplementos literários. É como se o veículo jornalístico se transformasse numa indústria

periodizadora da literatura da época. Esse aspecto divulgador atrai os escritores, como

oportunidade inovadora de chegar à coletividade.

O jornalismo absorve elementos do fazer literário, mas atribui a eles nova roupagem,

pois as marcas de precisão, objetividade, clareza, simplicidade, aos poucos vão se

modificando através do uso das formas de estilo ou de expressão escrita. Daí, o jornalismo

alia-se à literatura para transferir contribuições que possam renovar, estilisticamente, a

narrativa. Logo, a partir da classificação dos gêneros, a crônica relata o real, o factual ou o

referente, alternando objetividade/subjetividade; denotação/conotação; funções da

comunicação/funções da linguagem, visando ao ato perlocucional, ou seja, o receptor.

A crônica e alguns cronistas

A linguagem jornalística constrói a opinião a partir de uma informação, de uma notícia,

de um fato. Descreve, relata os fatos de acordo com o momento e o dinamismo da situação.

Seleciona o vocabulário para adequar as palavras ao objetivo, ao modo e às condições de

produção do texto, visando ao efeito que este irá provocar.

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Entre o formal e o coloquial, o tecido jornalístico usa o registro da linguagem coloquial

para expressar a realidade de maneira espontânea e imediata.

A ação jornalística é feita na sociedade, portanto, assume vínculo com a ideologia,

informa a maneira de agir de seu povo, denuncia hábitos de nepotismo, retrata relações

individuais e sociais, relata antagonismo, preconceitos, divisões de classes, além de fazer

comentários gerais etc.

Para Marques de Melo (1985, p. 10), “o jornalismo é concebido como um processo

social que se articula a partir da relação (periódico/oportuna) entre organizações formais

(editoras/emissoras) e coletividades (públicos receptores), através de canais de difusão

(jornal/revista/rádio/televisão/cinema) que asseguram a transmissão da informação (atuais)

em função de interesses e expectativas (universos culturais ou ideologias)”.

O jornalismo é um processo em curso, ágil, veloz e determinado pela atualidade. A

prática deste processo implica credibilidade, abrangência, complexidade, difusão,

periodicidade, universalidade e engajamento entre a empresa jornalística (o que quer fazer

saber) e a coletividade (o que gostaria de saber).

Se de um lado a coletividade quer informação; do outro – o jornal torna concreto o

querer, orientando a atualidade através de mensagens estrategicamente pensadas em sua

forma/conteúdo/temática. A linguagem jornalística não reproduz os fatos e as opiniões, mas

constrói, através de estratégias discursivas, o referente: o sujeito, o objeto, o evento, a opinião

pública. O jornal fala do mundo, produzindo as imagens que o receptor irá compor sobre o

referente.

O jornal estabelece relações sociais, culturais, políticas, econômicas, de interesses

paradigmáticos (da empresa jornalística com o discurso social) e, também, relações

sintagmáticas formadas pelas diversas seções do periódico. De cada seção do jornal, o

receptor decodifica mensagens, forma opiniões, juízos de valores e extrai significações.

Para isso, a credibilidade é fator preponderante para que o receptor eleja o seu jornal

preferido. Juntos, jornal escolhido e receptor incluído determinam o jogo interlocutivo.

Para Marques de Melo (1985, p. 59), a seleção da informação é instrumento de que

dispõe a empresa jornalística para expressar sua opinião. Enquanto empresa, vê o mundo sob

a ótica da seleção, vem daí a decisão do que será publicado em cada edição, evidenciando

certos assuntos, determinados personagens em detrimento de outros, além de omitir, excluir

etc.

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Desse modo, a crônica (gênero opinativo) pode ter um núcleo conteudístico

informativo, noticioso, factual, além de apresentar uma posição interpretativa e opinativa, que

será constatado na análise.

Jorge de Sá (1985) comenta que a literatura no Brasil nasceu da escritura da carta de

Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel. E, daquela circunstância nasceu também a crônica.

Tal afirmação sobre literatura, até que os brasileiros produzissem linguagem própria, livre dos

padrões portugueses, é discutível. Porém, é indiscutível que a carta é criação de um cronista,

pois ele registrou com arte e poesia o que estava vivenciando: contato direto com os índios,

seus costumes, espaço geográfico, fauna, flora etc.

Ainda segundo Jorge de Sá (1985), Caminha registrou o circunstancial (princípio básico

da crônica) com riqueza de detalhes, para que o receptor pudesse decodificar a pluralidade

discursiva que se transformou em unidade significativa. O ponto de partida para o relato fiel

foi à observação direta. Foi aquele olhar perceptível que tornou concreta a recriação daquela

realidade composta por pequenos detalhes ou lances do Brasil descoberto.

Até hoje a crônica mantém a característica do registro circunstancial, relatado por um

narrador-repórter não mais para um leitor, mas para muitos que formam um público de

interesse. De acordo com o Novo Manual da Redação do Jornal Folha de S. Paulo (FOLHA

DE S. PAULO, 1992, p. 66), crônica é um “gênero em que o autor trata de assuntos

cotidianos de maneira mais literária que jornalística. Pode ser também um pequeno conto. É

sempre assinada”.

Sendo a crônica a somatória de jornalismo e literatura, justifica-se a presença de um

narrador-repórter (o próprio autor), que fala para um público seletivo e segue a ideologia do

veículo, atendendo aos interesses dos consumidores, dos patrocinadores, acionistas, passando

(algumas vezes) pelo crivo da razão e limitação do espaço para diagramação. E, com espaço

econômico é preciso cortar palavras, “catar feijão”, plasticidade, resultando em estrutura

legível, agradável.

Outro cronista, Paulo Barreto (1881-1921), conhecido pelo pseudônimo João do Rio, foi

do tempo em que a crônica era quase uma seção informativa e o repórter ficava atrás da mesa

de redação à espera de informação. Com a modernização da cidade, o comportamento

humano também teria que mudar. Paulo Barreto ia ao local do fato, do morro, a lugares

refinados e passou a vivenciar a profissão de jornalista. Mudou o enfoque e a estrutura de

folhetim, tornou-se o “cronista mundano” e acrescentou um toque ficcional ao texto.

O cronista tem liberdade para relatar ou comentar, para leitores apressados, os

acontecimentos. Para acompanhar a pressa da vida, o texto ganha ritmo ágil; a linguagem

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aproxima-se da conversa entre amigos, mas não perde o vínculo com as normas da língua

escrita.

Estabelecido o jogo interlocutivo entre o cronista e os leitores, a crônica não é mimética,

mas recriação da realidade com lirismo. Entre eles, cabe ao jornalista explorar o poder das

palavras e causar as mesmas emoções naquele que ocupa o outro extremo do processo

comunicativo: o leitor. Assim, o diálogo equilibra-se entre o coloquial e o literário.

A vida é por si só feita por antíteses, não é só realidade, nem só poesia, mas o que vale

para a crônica, enquanto verdade é o instante. Esse elemento estrutural desperta sensibilidade

e intensidade na produção desse gênero jornalístico.

Nesse sentido, para Rubem Braga, no flash do momento presente, só em narrativa curta

para caber despojamento verbal, construção ágil, direta, explorar a polissemia das palavras e,

ainda, atrair o leitor.

O cronista de jornal também é escritor e deseja perpetuar sua produção (às vezes junta

as crônicas em livros) e quando não pode falar, deixa que o receptor leia o “não dito” do

discurso. Ou então, da estrutura da conversa superficial de um tema, conduz o receptor para

outros mais complexos.

Jorge de Sá (1985) denomina o cronista de “espião da vida”. Fernando Sabino, um

deles, “busca o pitoresco ou o irrisório no cotidiano de cada um”. Essa afirmação está em “A

última crônica”, na qual ele usa a função metalinguística para definir a crônica e sua estrutura,

como o pitoresco, a construção de tipos, a ambiguidade do gênero.

Já Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) foi um dos “cronistas mundanos” quando estes

dominavam os jornais e jamais dispensavam o seu próprio colunista social. Em suas crônicas,

usou o humor, a ironia, o tom jocoso da expressão, a gíria, a linguagem moleque (própria do

carioca), a crítica e os escritos levianos (no sentido de leveza) com o propósito de conduzir

seus receptores à reflexão. Com esses elementos, rompe os padrões da norma culta e constrói

sua própria linguagem: caricaturesca, nova, dinâmica, rítmica e séria (denunciativa,

informativa, demonstrativa).

O cronista Carlos Heitor Cony reforça a ideia de lirismo como estado de alma. Usa

como estratégia o confronto entre o presente e o passado, é a ficcionalização dos fatos e das

pessoas reais.

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A sina do torcedor

Armando Nogueira foi colunista do jornal O Estado de S. Paulo, publicou suas ideias

em crônicas assinadas às quartas-feiras e domingos. Seus textos estão incluídos em antologias

que reúnem os melhores cronistas brasileiros. Cobriu todas as Copas do Mundo, a partir de

1954. Na Rede Globo de Televisão, foi diretor de jornalismo por 24 anos. Participou de

programas televisivos, assinou Colunas de esportes em 36 jornais brasileiros. É autor dos

livros: Drama e Glória dos Bicampeões (em parceria com Araújo Neto); Na Grande Área,

Bola na rede; O Homem e a Bola; Bola de Cristal; Voo das Gazelas; A Copa que Ninguém

viu e a que não queremos lembrar (em parceria com Jô Soares e Roberto Muylaert – 1994).

Foi torcedor do Botafogo do Rio de Janeiro.

Como se pode observar, o referencial de seu trabalho tem por temática o futebol. O

cronista não é só um observador de partidas de futebol, campeonatos, copas, ou de jogadas

geniais, muito menos é narrador de fatos só inusitados, mas um observador do universo

futebolístico, principalmente dos aspectos humanos, narrados e analisados em seus textos.

Em sua Coluna de futebol Na Grande Área, do jornal O Estado de S. Paulo, às quartas-

feiras, na de 26 de setembro de 2001, Armando Nogueira escreveu sobre a temática: o destino

do torcedor.

Inicia sua crônica intitulada “A sina do torcedor”, sem precisar o aspecto temporal:

“Outro dia”, uma vez que o quando não tem importância, mas privilegia o quê, quem, como e

o porquê, regentes do processo argumentativo e demonstrativo advindos do título.

O jornal desempenha um papel específico de prestar informação, explicar e orientar,

enquanto o jornalista/cronista faz tudo isso de forma sucinta, atraente, com uma linguagem

leve, bem humorada e, de forma velada, crítica e irônica.

Assim, no primeiro parágrafo, o cronista usa a polifonia, outra voz na sua voz para

exemplificar e começar a esclarecer o que ficou no ar, através do título: “Outro dia, o técnico

Oswaldo de Oliveira ficou chateado porque a torcida do Fluminense o chamou de burro”.

Dizer o que o outro disse, sem se engajar, é menos comprometedor. A torcida compara e diz

que o técnico não é inteligente, nem capacitado para ocupar tal cargo. A partir daí o eixo

temático desloca-se para o torcedor.

O referente é o torcedor, cuja relação da parte pelo todo se estende à generalização, ou

seja, à torcida. Simbolicamente, o torcedor representa uma classe de pessoas que compartilha

as mesmas ideias, sentimentos, comportamentos e horizontes de expectativa.

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Uma das características da crônica é o uso da primeira pessoa, o que caracteriza,

também, a presença da função expressiva, cujo referente é o cronista, com seus comentários,

julgamentos, pensamentos e críticas: “Chegou a pensar em ir embora do clube. Por tão pouco?

– pensei eu. Se o futebol, em si, não deve ser levado muito a sério, que dirá o torcedor – cuja

sina parece ser o desatino”.

Pensando com ele mesmo, o cronista mantém certa ironia já que ser comparado e

chamado de burro não é nada, nem o futebol, que é um jogo, entretenimento (de um lado)

deve ser levado a sério. Futebol e torcida estão intrinsecamente ligados, comentário vindo de

torcedor não é sério, uma vez que este é um desatinado, sem juízo, louco. A conjunção “se” é

um operador argumentativo, que conduz o receptor à conclusão de que ambos torcedor e

futebol não podem ser levados a sério. O torcedor é um desequilibrado em relação aos

sentimentos e aos fatos. Amor e ódio caminham juntos, levando-o a agir conforme o lado que

a bola corre.

Voltando ao comentário do cronista: “...cuja sina parece ser o desatino”, volta-se,

também, ao título “A sina do torcedor”, como se respondesse a uma indagação implícita: Qual

é a sina do torcedor? – a sina do torcedor parece ser o desatino. Tem-se, ainda, a ideia de que

ele está completando a asserção iniciada no título. Pode-se, também, estender o sentido de

desatino a insatisfeito, contraditório, ou não, pois a culpa pode ser das antíteses:

ganhar/perder, gol/não gol.

O texto move-se ritmicamente à circularidade do diálogo. O jogo estratégico entre o

explícito e o implícito, entre o parecer e o ser, tem por intermediário palavras ou ato do

adjetivo desatinado, qualidade esta justificada em seguida: “Ali, no aceso da paixão, o

torcedor perde a cabeça por tudo e por nada”. “Ali” é um dêitico, um operador espacial

apropriado, onde o torcedor se acende movido à adrenalina. Age e reage aplaudindo,

incentivando ou vaiando. Além disso, tem-se a ideia reforçada e justificada da passagem da

dúvida para a certeza, realizada pelo dito: “parece ser o desatino” e pelo não dito, pois se o

torcedor, movido pela paixão, perde a cabeça por tudo e por nada, este não parece ser ele é o

desatino.

Reafirmando esse argumento, no perfil do torcedor, tem “por tudo e por nada” e apesar

do mesmo nível semântico (pronome indefinido), remetem o leitor para o comportamento

contraditório. Nesse sentido, o cronista não usa a conjunção ou, enquanto alternativa,

exclusão ou indicação de dúvida, mas usa a conjunção aditiva “e”, unindo os pronomes

indefinidos, ou as antíteses, encaminhando a leitura para o sentido de que o pulsar das

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emoções pode ser listado e cabe no tudo e no nada: juiz, jogada, time, jogador, técnico. Tudo

vira motivo para o torcedor se expressar.

Depois de justificar a idiossincrasia do torcedor, o cronista através da oralidade (função

expressiva da linguagem), tece uma definição sobre o mesmo, com a propriedade de um

observador qualificado e experiente: “Tenho, sobre o torcedor, uma definição que o tempo só

tem reforçado. Trata-se de um ser que torce e distorce a verdade, até morrer, doa a quem doer.

Azar de quem, técnico, árbitro ou jogador, ainda esquenta a cabeça com bronca de torcida”.

Este finalzinho de parágrafo é o olho do texto jornalístico, em destaque e em negrito; anuncia

o ponto de vista do cronista; ameniza a leitura de texto ou de parágrafo longo. Serve, também,

como chamada para que o leitor leia o texto todo.

Traçando, ainda, o perfil do torcedor, o cronista nas entrelinhas, de forma irônica, vê o

torcedor: é detalhista, nada lhe escapa aos olhos e ouvidos quando se trata do seu time ou de

futebol. É nas entrelinhas, também, que o jogo entre o dizer e não dito estabelece o

dialogismo entre o afirmar e o negar: esquentar a cabeça com bronca de torcida versus não

esquentar a cabeça com bronca de torcida. Já o operador argumentativo “ainda” conduz o

leitor para tal negação, de forma irônica, uma vez que considera azar de quem ainda acredita

em torcida.

Observa-se, neste primeiro parágrafo, que a crônica tem por singularidade a reprodução

da conversa. Utiliza recursos estilísticos, de figuras de linguagem que facilitem a composição

das imagens e se aproximem da linguagem coloquial:

- Metonímia (concreto pelo abstrato)

“...perde a cabeça...”

“...esquenta a cabeça com bronca de torcida” – refere-se à perda da razão do

torcedor e à quem fica preocupado, nervoso, com bronca de torcida;

- Iteração e hipérbole

“...torce e distorce a verdade até morrer...” Como figura de sintaxe, anáfora é uma

iteração, que consiste na repetição de termos. Tal recurso estilístico realça o

pensamento, desvirtuando o sentido para dar o sentido pretendido. Brinca com o

som e indicia a feição caricatural, exagerada, bem humorada, ambígua sobre o

torcedor, que as palavras denotativas registram, mas que a conotação plastifica.

No segundo parágrafo, o cronista usa o exemplo de Juca Kfouri que tem um amigo

“santista inveterado” para confirmar que de fato o torcedor é volúvel. A fala do cronista

adquire ares de confiabilidade (através da citação e demonstração de alguém que se relaciona

com o cronista e é conhecido na mídia).

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Lá no primeiro parágrafo, a derivação imprópria do substantivo “desatino” (ato ou

palavras de desatinado), qualifica a sina do torcedor ao mesmo tempo em que a transgressão

leva o receptor a se interessar pelo texto. O adjetivo “colérico” (mesmo nível semântico de

desatinado) reforça, também, a imagem a ser construída pelo receptor. Além disso, a

prosopopeia, a hipérbole, o eufemismo, ajudam a construir a imagem exacerbada do torcedor:

“...prá ele, o Santos deixava de existir...” Tem-se, então, a transcrição do ato ilocutivo, da

indignação do torcedor: “...tamanho o horror que nutria pelo craque”.

No terceiro parágrafo, o cronista continua demonstrando que o torcedor, de fato, é um

inconstante, sobrevive do seu próprio estado de espírito: “Quinze dias depois, o mesmo

cidadão telefonava pro amigo Juca, jurando amor eterno ao Santos e dando graças a

Marcelinho pelo show de futebol do ex-desafeto em cima do Bahia”.

Explicitamente, o narrador compara e pressupõe-se que, para dar certo, torcedor e time

são como casamento e, como tal, devem jurar amor eterno e esquecer os desafetos.

Continuando, a função conativa da linguagem tem como referente o receptor, o cronista

o insere no tecido discursivo, dirigindo-se diretamente a ele, com intimidade, familiaridade,

próprias da interação entre amigos, mas trata de forma pejorativa o torcedor: “o mesmo

cidadão”; “dito torcedor”, aquele que só quer vitórias: “Imaginem, amigos, se o Juca tem

registrado em cartório os impropérios que ouvira do dito torcedor contra o Santos e,

principalmente, contra Marcelinho”. Implicitamente, alerta para a questão legal quanto à

calúnia e difamação, se o Juca tivesse registrado queixa. O operador argumentativo conduz a

essa conclusão.

No quarto parágrafo, o cronista conta (e gosta de contar) a história do “seu” Eurico. Se o

narrador gosta de contar, subentende-se que tal história foi contada antes. Tem-se, então, um

intratexto com ligações temáticas, enfatizado na função expressiva. Quanto ao pronome de

tratamento, o axiônimo senhor entre aspas, seguido da palavra designativa de sua profissão,

emprestado da oralidade, imprime certo tom de ironia e indica o perfil do Sr. Eurico, pois este

não é qualquer Eurico: “Gosto de contar a história do “seu” Eurico, um conceituado

engenheiro carioca, que torcia pelo Botafogo. Ele tinha uma mórbida implicância com o

atacante Paulo Valentim”.

Em jornalismo, os fatos são mais fortes do que as declarações pluralistas. Logo,

constata-se que o cronista conta tal história para defender a tese de que o comportamento do

torcedor é contraditório e fanático.

Assim, um parágrafo volta ao outro, como uma espiral. O fio condutor sai do título

alinhava o tecido discursivo, como se os interlocutores estivessem interagindo face a face.

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Continuando a história, o cronista manifesta sua opinião dizendo que o Sr. Eurico tinha

uma “mórbida implicância com o atacante Paulo Valentim”, referia-se a ele com a expressão

“aquele bonde”, pedindo inclusive ao João Saldanha, de quem era amigo íntimo, que não o

escalasse no próximo jogo. Subentende-se que “bonde” venha da máxima “pegar o bonde

andando” e, por associação, em final de campeonato, deve jogar quem treinou em equipe.

Mas, por outro lado, a expressão bonde vem de um veículo sobre trilhos que pode dificultar o

trânsito. Por associação, pegar o bonde andando ou “aquele bonde”, só pode atrapalhar o

trânsito do jogo. Como não foi atendido, o Sr. Eurico desligou-se do assunto “se mandou”

para o sítio em Petrópolis, mas ligou para um amigo, justificando sua ausência no Maracanã.

Entre a hipérbole e a personificação, tal justificativa de ausência no jogo ganhou comentário

irônico do narrador: “...justificando a ausência no Maracanã com uma frase patética: “Pra

mim, o Botafogo morreu!”.

Diante da tragicomédia, o tom irônico continua no quinto parágrafo: “Apesar de

“morto” no coração de “seu” Eurico, o Botafogo ganhou o jogo, numa goleada histórica de 6

a 2. O herói da tarde foi Paulo Valentim, “o bonde”, autor de 5 dos 6 gols. No dia seguinte, o

artilheiro me aparece na primeira página, dando a volta olímpica no Maracanã, montado no

cangote de um tresloucado torcedor. Que não era outro senão ele, “seu” Eurico, o próprio, que

descera de Petrópolis, a mil por hora, depois do quarto gol de seu, já então, idolatrado herói”.

Ora era a final do campeonato carioca de 57.

O sentido conotativo da linguagem nutre-se de humor, imagens, definições, asserções,

metáforas, entrelaçando jornalismo e literatura. Nesse sentido, os operadores argumentativos

conduzem o leitor a tirar suas conclusões. Assim, os operadores: temporal “Quinze dias

depois, No dia seguinte, depois”; espacial: “Maracanã, no cangote”; de intensidade: “a mil por

hora”; numeral: “quarto gol”; ajudam a compor a cena mental que as palavras e o modo de

dizer proporcionam ao receptor, enquanto os operadores “o próprio, me aparece, já então”,

reforçam a ironia (ou gozação brasileira) e a instantaneidade do fato.

É no jogo entre o explícito e o implícito, que a ironia atinge o ápice, quando o Sr.

Eurico pega o bonde do artilheiro e sai na primeira página do jornal, dando a volta olímpica,

símbolo da morbidez, do agradecimento, da satisfação e da paixão da torcida (a parte pelo

todo).

Lá no século XIX, Eça de Queirós e sua personagem Carlos Fradique Mendes

comentavam que as pessoas eram capazes de fazer qualquer coisa, inclusive caridade, para

aparecer no jornal, em destaque, ou não, desde que o nome ficasse impresso (sem importar o

tamanho da letra), com tinta bem negra. Atualizando, o Sr. Eurico apareceu na primeira

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página, simbolizando a volta olímpica no Maracanã, com o seu troféu no pescoço (mas, para

aparecer poderia ser uma melancia), o então artilheiro e herói Paulo Valentim. Do outro lado,

o jornal lucrou com a foto-legenda e deve ter esgotado o assunto graças ao Sr. Eurico.

Falando em esgotar o assunto, na crônica, o que vem a seguir é o intertítulo Nova casa,

novo amor. O que poderia ser dicotomia move-se no mesmo sentido, ou seja, enfatiza de

forma argumentativa e lúdica o dizer e o dito em parágrafos anteriores. O adjetivo anteposto

ao substantivo cria sonoridade rítmica. Parece um trocadilho. Brinca com o gênero do adjetivo

e lembra a ideia do ditado popular: quem casa, quer casa. Ideia essa contida em parágrafo

anterior: torcedor e time em comum união. Além disso, a antítese, marcada pelo substantivo

concreto casa e pelo substantivo abstrato amor, simboliza duas faces, revelando, assim, o

próprio antagonismo da vida ou, da realidade, do torcedor, do jogo.

Assim, o sexto parágrafo tem por referente à palavra mudança, da ideia abstrata à ação

de mudar. Para isso, contextualiza a mudança ocorrida em sua própria vida. Estratégia essa

também característica da crônica.

Tal experiência serve, exatamente, para defender, implicitamente, o Marcelinho que

mudou de casa, de humor, de amor, trocou o Corinthians pelo Santos. Fato esse já indiciado

no segundo e terceiro parágrafos: “Meu professor de vida e saudoso amigo Otto Lara Resende

gostava de dizer que toda mudança é fecunda. Nada melhor que um novo emprego, uma casa

nova, um novo amor. Ele me deu a valiosa lição quando ambos deixamos a revista Manchete.

Logo, arranjamos um novo trabalho e fomos muito bem-sucedidos”.

Tem-se, então, a função expressiva da linguagem “meu professor; Ele me deu”,

aplicando os juízos de valores do cronista no discurso apodítico (afirma e em seguida

demonstra), apoiado em outra voz, na sua voz. A polifonia, jornalisticamente, conduz o leitor

para o efeito de sentido voltado para a credibilidade, pois o cronista deseja que o leitor

acredite nele. O concreto, demonstrado e comprovado, é garantia, ou não, do efeito

perlocutivo. Se o leitor acredita, fica do lado da produção da mensagem, uma vez que a

produção jornalística contém coleta de informações, de imagens, depoimentos e organização

do material coletado.

Ainda reforçando seu ponto de vista, ou melhor, a teoria de Otto Lara Resende, no

sétimo parágrafo, tem-se a nítida visão de que toda teoria tem sua prática. Estende, assim, sua

experiência, caída como uma luva, ao Marcelinho: “A sábia teoria se aplica, na medida, ao

jogador Marcelinho, que trocou o Corinthians pelo Santos, pondo fim a uma briga feia com

seu ex-clube. E é impressionante o bem que fez ao craque a mudança de ares”.

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Mudança em comum, narrador e Marcelinho conhecem o sabor concreto e emocional de

mudança que deu certo, positiva.

No oitavo parágrafo, o cronista utiliza-se do mesmo campo semântico do adjetivo

fecundo (sexto parágrafo) e do verbo desabrochar (oitavo parágrafo), reforçando, assim, a

ideia positiva contida na palavra mudança, que sendo fértil, frutificará, ou, implicitamente,

será o princípio de partidas gloriosas, muitos gols, torcida e time contentes, no mesmo nível

da emoção: “Marcelinho está jogando como havia tempos não se via. O time do Santos,

graças a ele, desabrochou”.

E, “agora”, (dêitico de presentificação, emprestado da oralidade e propício de quem

conta uma história, um fato), Marcelinho não agirá só, nem o armador ficará só. Nesse

sentido, o operador argumentativo “até então” conduz o receptor à conclusão de que antes do

Marcelinho, Robert, o armador, não tinha com quem armar as jogadas. Afinal de contas, time

é conjunto e não unidade: um armador solitário não faz gol, apesar de ter a nobre missão de

criar chances de gol. Eis aí o auge da ironia: fazer gol ou criar condições de gol transcende a

técnica e passa a ser missão, não uma missão qualquer, mas uma nobre missão, que o Viola

saberá aproveitar como poucos. Como se pode constatar, mudança de ares, de casa, de amor,

ou seja, mudança em ação mudou também o astral, o clima e contagiou os outros jogadores.

Continuando a ideia de missão, de sobrenatural, no nono e último parágrafo, Marcelinho

transformou em vinho um time que vinha sendo água sobre água. Nada como uma nova casa,

um novo amor para chegar ao sucesso. Nesse final de parágrafo, consequentemente, do texto,

fica a imagem de que Marcelinho foi o próprio Moisés. Mudou o time da água para o vinho; o

que não tinha sabor passou a ter; o que não tinha cor passou a ter; o que não era visível

(inexpressivo) passou a ser. Cinestesia aguçada à parte, tese argumentada e defendida chega à

tese concluída: “nada” (com valor de advérbio – somente) como casa nova, ou seja, mudança

de time, de espaço físico, de tempo, de comportamento, para conquistar um novo amor (um

torcedor, a torcida, o crítico, o jornalista).

Na peroração, o cronista retoma o intertítulo e o título amarrando a argumentação e a

coerência textual sobre o destino do torcedor. Se ele parece ser desatinado é porque o jogo,

por si só, é imprevisível, influencia o comportamento ora apaixonado, ora revoltado do

torcedor.

O jogo de alteridade entre a linguagem jornalística e a linguagem literária alterna-se

entre as funções, expressiva, referencial, conativa e poética. Ora é informativa, objetiva,

direta, com frases curtas; ora é irônica, adjetivada, caricatural, com certo humor. Leve, sem a

pretensão de chocar, mas sutilmente crítica, opinativa e interessante.

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O jogo de alteridade estende-se ao dizer e ao como foi dito, registrando o estilo, a forma

e as características da crônica jornalística. É o registro também dos atos de fala como: “dizer,

declarar, jurar, contar”, extraídos da crônica, que são feitos com palavras, na superfície

discursiva. Já os atos, que envolvem consequência ou efeito dos atos ilocucionais, vão além

da pronunciação e da significação, com o objetivo de fazer com que o receptor decodifique a

intenção pretendida pelo emissor. Esses atos, como persuadir convencer, irritar, divertir o

receptor, são essenciais e implícitos e são chamados atos perlocucionais Austin (apud

DANCE, 1967, p. 157).

Resumindo-se a estrutura interna e externa da crônica tem-se:

Título: A sina do torcedor.

Fonte: O Estado de S. Paulo.

Condições de produção: Data: Quarta-feira, 26 de setembro de 2001. Tem-se um fato: o

comportamento desatinado do torcedor.

Estratégias discursivas: o cronista tem um fato que foi narrado, comentado e

demonstrado a partir de uma pressuposição: a sina do torcedor parece ser o desatino. O texto

vai se fechando entre elementos coesivos, coerentes, contraditórios, jogo de implicitação e de

explicitação, da argumentação à conclusão.

Desfiando-se essa trama de fios, da superfície discursiva, o jogo de alteridade entre o

dito e o não dito, entre o sentido denotativo e o conotativo da linguagem, permitem a

passagem, indiciada no título e completada no primeiro parágrafo, da dúvida para a certeza.

Certeza, essa, decodificada no não dito e comprovada, ao longo do texto, de forma bem-

humorada pelo receptor, já que este deve ser também um torcedor em busca, ou na espera, do

sabor da emoção da vitória.

Considerações

O percurso desse artigo foi traçado a partir de pesquisas e estudos sobre Jornalismo

Literário. Delimitado o assunto, chegou-se à crônica esportiva e ao seu produtor, Armando

Nogueira, um jornalista experiente e presente no meio futebolístico. Além disso, Armando

Nogueira foi escritor, o que contemplou a ideia de se trabalhar o jogo de alteridade entre o

jornalista e o escritor e entre a sua ferramenta de trabalho a linguagem posta em ação:

jornalística e literária.

O jornal O Estado de S. Paulo é o canal pelo qual o cronista registrou informações e

ponto de vista, para um público A e B, selecionado, isto é, de interesse. Assim, pode-se dizer

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que o discurso jornalístico sofre, em sua produção, a força comunicativa do leitor. Daí, o

discurso é dirigido, consciente de sua função em relação ao seu público. Só depende das

condições de produção e do elemento, em si, que ele quer privilegiar. Em texto de narrativa

curta, cabem o relato e o comentário do cronista/jornalista para leitores apressados. A

linguagem aproxima-se da oralidade.

Parafraseando Jorge de Sá, para a crônica esportiva, Armando Nogueira foi um “espião

do futebol”. Para construir o que viu e sentiu, recorreu ao pitoresco, ao “irrisório do

cotidiano” futebolístico, ao humor, à ironia, ao ditado popular, ao “tom jocoso da expressão”

(gozação brasileira), à “leveza” do texto, ao “lirismo”, à “conversa fiada”. Enfim, escreve à

Pero Vaz de Caminha, à Paulo Barreto, à Rubem Braga, à Sérgio Porto, à Conny, à Carlos

Drummond de Andrade, à Vinicius de Moraes, à moda da crônica jornalística.

No jogo de alteridade, escritores podem buscar o aperfeiçoamento do exercício de

captação e pesquisa, além da lapidação da técnica de expressão. No Jornalismo Literário,

como se pode constatar, não cabe à dicotomia, mas a fusão das linguagens. Fusão esta

enriquecida pelas palavras plásticas, além da visão especular e espetacular, do banal à

reflexão crítica. Desse modo, a imagem poética preenche os vazios existentes entre a

representação do real e a representação do ficcional.

Assim, resumindo-se a crônica obtém-se:

- em “A sina do torcedor”, tem-se a descrição de um referente insatisfeito, ambíguo, que

deseja somente o sabor da vitória, quando jogo é imprevisível;

- o intertítulo “Nova casa, novo amor” reforça a ideia de que o torcedor muda de amor

assim que o jogador faça gols ou que o seu time ganhe o jogo.

O cronista usou “história de vida” como recurso para demonstrar e justificar que a

mudança gerou um novo amor. Como se pode constatar, apesar do corte marcado pelo

intertítulo, o eixo comum entre os dois textos é o torcedor. Logo há uma ligação temática

entre ambos.

Na crônica, as funções da linguagem predominantes (expressiva, conativa, referencial,

poética) constroem o referente, a partir do ponto de vista do cronista, do envolvimento do

receptor (pode ser visto como um clichê machadiano, já que o cronista conta, fala diretamente

para ele), da poeticidade (figuras de retórica). Logo, se a função poética tem como referente à

mensagem, a forma reduzida de palavras deve produzir ampla significação.

Assim, constatou-se que a função jornalística alia-se/funde-se à poética quando o

cronista fala do real de forma diferente, criativa, explora a semântica e provoca emoção

semelhante no receptor.

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De acordo com Sá (1999), o produto é a notícia, ou seja, o fato em si, daí a preocupação

do jornal com a notícia. Mas, é possível ver além do factual. Se há um jogo interlocutivo,

intermediado pelo fato, personagens, aspectos físico, psicológico, temporal, estético, há um

efeito (ato perlocutivo) – empatia, ou seja, cumplicidade entre quem produz e quem lê, através

das linguagens reproduzidas do mundo e traduzidas em forma e conteúdo.

Apesar da distância dos fatos, do tempo, dos times, do espaço físico, a sina do torcedor

é atemporal.

Referências

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Jou, 1970.

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palavra. São Paulo: Escrituras Editora, 2002. – (Coleção ensaios transversais).

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São Paulo: Maltese, 1992.

MELO, José Marques de. Para uma leitura crítica da comunicação. São Paulo: Edições

Paulinas, 1985.

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Olympio Editora, 1980.

PÊCHEUX, Michel. Analyse automatique du discours. Paris: Dunod, 1969.

QUEIROZ, Eça de. A correspondência de Fradique Mendes. 1. ed. datada de 1900. Lisboa:

Fundação Calouste Gulbenkian, s/d.

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SÁ, Jorge de. A crônica. São Paulo: Ática, 1999.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1977.

VANOYE, Francis. Usos da Linguagem: problemas e técnicas na produção oral e escrita.

São Paulo: Martins Fontes, 1993.

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