Leia um capítulo do livro aqui! - Casa da Palavra

casadapalavra.com.br

Leia um capítulo do livro aqui! - Casa da Palavra

O Guardião

de Livros

romance

CristinaNorton

A rocambolesca história da chegada da

família real e de sua biblioteca ao Brasil


Chegada

À medida que a fragata se aproximava do Rio de Janeiro, Luís, que

tinha imaginado desembarcar numa praia no meio da selva, fi cou surpreendido

com as rochas colossais que emergiam do mar, escuras e

lisas, como se os ventos as tivessem polido para enfeitar a baía. No

topo, distinguia alguma vegetação que lhes dava um aspecto menos

fantasmagórico. Uma delas embelezava a entrada do porto e parecia

ter sido esculpida por mãos de gigantes; disseram-lhe que a chamavam

Pão de Açúcar pela altura e a forma arredondada. Ao descer o olhar,

descobriu praias de areia clara e pequenas enseadas, lagoas entre colinas

com fl orestas de árvores desconhecidas para ele e, se não tivesse

certeza de estar sem febre, poderia pensar se tratar de uma alucinação.

O conjunto tinha o aspecto de uma tela enorme pintada com cores que

nunca vira, colocada com a ajuda de Deus para o aliviar de todas as

afl ições passadas durante a viagem.

A cidade estendia-se à volta do porto e as casas brancas misturavam-

-se com igrejas e praças, e Marrocos não podia negar que aquilo tudo

era de uma beleza inigualável.

À medida que se iam aproximando, os tiros de canhão, que faziam

estremecer o barco, avisavam a chegada daquela fragata tão esperada,

que trazia um carregamento muito valioso, os livros. De terra, outros

tiros davam as boas-vindas e, assim, no meio do fumo de pólvora e de


72

Cristina Norton

um barulho infernal, ancoraram no porto, num dia ensolarado de junho,

ainda que nesse continente fosse inverno.

Luís esqueceu-se por um instante dos maus momentos passados

durante a longa viagem; não tinha sido o único a pensar que alimentariam

os peixes com seus corpos, por isso e vendo o estado da fragata,

quando puseram os pés em terra fi rme, todos se benzeram e deram

graças a Deus por tê-los conduzido sãos e salvos àquela cidade que

parecia maravilhosa.

Barcos a remo vieram buscar os passageiros e outros maiores e mais

sólidos foram descarregando as bagagens e o correio. Antes de os tirarem

do porão, pediram para verifi car os caixotes com os livros, que, por

milagre, estavam intactos, pelo menos por fora, como pôde comprovar

Marrocos com seu antigo colega de Lisboa, José Joaquim de Oliveira, e

dois novos ajudantes que o foram esperar no cais para dar-lhe as boas-

-vindas. Luís perguntou a José se eles não podiam ir a pé até o lugar

onde o iam hospedar, enquanto a preciosa carga ia ser transferida dos

barcos e acomodada nos carros puxados por mulas. Precisava ter novamente

aquela sensação de espaço onde exercitar as pernas, depois de

três meses andando cem vezes, ida e volta, num pequeno retângulo do

convés, único lugar onde podia dar alguns passos sem ter de contornar

ou tropeçar em algum obstáculo.

— Aqui tudo fi ca perto, eu vou a pé a todo lado.

— Ainda bem, não quero perder os bons hábitos de Lisboa.

— A vida não é a mesma, vai sentir algumas diferenças.

— Quais?

— Cada um encontra as suas, é inútil que eu lhe conte. O que me

incomoda pode não lhe desagradar. Para já, arranjaram-lhe uma boa

casa onde viver, o que não é fácil porque esta cidade não está preparada

para receber tanta gente. Parece que, a princípio, foi muito complicado,

tiveram que requisitar casas em nome de Sua Majestade e os donos

não fi caram nada contentes, mas era preciso alojar os nobres e os criados

que acompanharam a deslocação da corte para o Brasil.

— E onde fi ca?


O guardião de livros 73

— Numa área de casas nobres e bonitas na rua das Violas, onde vivem

mais pessoas, um ofi cial da Secretaria dos Negócios Estrangeiros

e um clérigo.

— Então o aluguel deve ser alto.

— Não se preocupe com isso. São 12$800 por mês, que são pagos

pela Fazenda Real.

À medida que iam percorrendo as ruas, Luís começou a fi car desiludido

com o que via e, acima de tudo, o que cheirava. Aquela paisagem

de sonho que parecia a pintura do palco de um teatro estava repleta

de imundícies, as águas sujas desciam pelas ruas levando todo tipo de

detritos, alguns disputados por cães vadios e, com o calor e a umidade,

o mau cheiro aumentava.

Oliveira percebeu o desconforto do recém-chegado e contou-lhe que

especialistas estavam fazendo projetos para mudar a cidade. As lagoas

iam desaparecer, porque estavam repletas de mosquitos, iam obrigar a

jogar o lixo num lugar próprio numa das praias e, para esses e outros

trabalhos, estavam trazendo mais escravos da África.

— Pode demorar muito tempo. Se calhar, nem estaremos mais aqui

para ver todas essas melhorias — disse Luís, pensativo, porque naquele

momento lhe apeteceu sentir o frio do verdadeiro inverno e andar

nas ruas de seu bairro.

Achou a casa magnífi ca e não encontrou os dois hóspedes, que já

tinham saído para seus respectivos trabalhos. Tratou de imediato de

arrumar todas as suas coisas, e depois de se lavar com um pano embebido

em água doce e mudar de roupa; foi com José Oliveira a um lugar

agradável, onde lhe serviram comida de gente, mas não teve coragem

de experimentar as frutas, por serem totalmente desconhecidas, apesar

de seu acompanhante lhe jurar que eram do melhor que tinha provado

no Brasil.

Sua vida tinha mudado completamente, nem ele imaginava até que

ponto. Pensou que daí a uns dias, em 17 de junho, ia fazer trinta anos

e não os ia festejar em família nem com os amigos. Achou que era

demasiado jovem para se enterrar naquele lugar sem futuro e dema-


74

Cristina Norton

siado velho para se habituar a viver de maneira diferente da que estava

acostumado.

Mesmo assim, decidiu enfrentar o futuro que Deus lhe tinha escolhido

com a maior boa vontade e dirigiu-se a seu novo trabalho com

ar de quem está contente com o próprio destino. Conheceu o padre

Joaquim Damaso, que tinha o físico de um bom garfo e um sorriso de

homem feliz com a sorte e trabalhara em Lisboa nas Necessidades, e

também frei Gregório José Viegas, mais circunspecto, de tronco curto

e pernas compridas, e um nariz magro que parecia farejar as atitudes,

não por medo, mas por desconfi ança.

Os três serventes que tinham ido recebê-lo no cais já estavam lá,

dando ordens para que descessem com cuidado os caixotes. Abriram

alguns para avaliar o estado em que se encontravam e fi caram satisfeitos

com o que viram. No dia seguinte, começariam a arrumá-los nas estantes

que tinham mandado fazer para eles. Por enquanto, deixariam

as caixas abertas para que os livros arejassem e a umidade, se alguma

se tivesse infi ltrado entre as páginas, pudesse sair mais livremente.

Luís deixou nas mãos de seu superior a pasta de capa dura que

continha a relação dos volumes pelos quais tinha sido responsável até

aquele momento, mas guardara uma cópia em seu quarto, por não

conhecer ainda os métodos de trabalho daquela gente e na partida suspeitar

de tudo e de todos.

Estava demasiado cansado para poder apreciar fosse o que fosse e,

depois das conversas que foram longas e pouco produtivas, despediu-

-se até o dia seguinte. Se havia algo que lhe apetecia era deitar-se numa

cama, com colchão, almofada e lençóis que cheirassem a limpo, e dormir

sem interrupções durante muitas horas para tirar do corpo aquela

sensação de balanço e o sabor de podridão que o acompanhou durante

toda a viagem.

Acordou 14 horas depois, com a impressão de ter feito uma longa

sesta porque sentia que recuperara um pouco o sono perdido, mas não

completamente. Quando desceu para tomar o desjejum, encontrou na

casa de jantar os outros locatários. Achou-os amáveis e interessantes


O guardião de livros 75

e tentou disfarçar com o relato de sua penosa viagem o ligeiro desconforto

provocado por aqueles três desconhecidos. Seu forte nunca fora

estar em sociedade e ainda havia a diferença de idades, todos tinham

58 anos. O clérigo, baixo e entroncado, tinha olhos astutos da cor do

céu e uma careca que acariciava enquanto falava, e orgulhava-se de ter

sido secretário do governo na ilha da Madeira. O outro, viúvo e sem

fi lhos, tinha estatura média, vestia à moda da corte, provavelmente por

seu trabalho no ministério, e parecia lavar as mãos a seco quando lhes

confi denciou alguns problemas de Estado. Estava casado em segundas

núpcias com uma viúva também sem fi lhos, pequena e magra, de

cabelo bicolor, branco e ruivo, o que lhe dava um ar de pássaro, pelos

contínuos movimentos da cabeça, pois parecia não poder deixar escapar

nenhum pormenor do que acontecia à sua volta. Aparentemente

eram pessoas pacatas e educadas, o que lhe agradou bastante, pois não

se via convivendo com gente barulhenta. Ainda não sabia se estar entre

velhos ia ser o ideal; de qualquer modo, a convivência não ia ser constante,

pois cada um tinha suas funções que os ocupavam a maior parte

do tempo e, provavelmente, só se cruzariam logo pela manhã e no fi m

da tarde.

Apresentou-se na Biblioteca e, depois de cumprimentar todos os

funcionários, passou em revista as caixas que vieram sob sua guarda.

Ao todo tinham chegado ao Rio de Janeiro 230 caixotes de livros; os da

primeira viagem já estavam limpos e arrumados, porém sem método.

Faltava desencaixotar os que acabava de trazer e sabia que em setembro

deviam vir os restantes 87, acompanhados pelo servente José Lopes

Saraiva, e assim a Real Biblioteca estaria outra vez toda reunida.

Luís sabia que o esperavam muitos meses de trabalho intenso, e

isso o preocupava. O pior seria conseguir, sem criar mau ambiente,

pôr em prática sua maneira de ordenar os volumes.

O lugar parecia agradável, tinha luz e fi cava na rua detrás do Carmo,

perto do Paço Real. Na realidade, nada tinha a ver com as salas do

Palácio da Ajuda, pois à falta de um lugar próprio ou de um espaço

digno, o Príncipe Regente mandara desocupar as salas do andar supe-


76

Cristina Norton

rior do hospital, onde até então estavam as enfermarias. Ficava atrás

da igreja dos Irmãos da Ordem Terceira do Carmo, na rua Direita,

um lugar demasiado movimentado e barulhento para o sossego que se

pretendia para uma biblioteca. Mesmo assim, foi fazendo seu melhor,

esforçando-se por dentro, pois não se atrevia a se abrir com ninguém.

More magazines by this user
Similar magazines