Fernando Pessoa - Antologia - Rotary Club Coimbra

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Fernando Pessoa - Antologia - Rotary Club Coimbra

ROTARY CLUB DE COIMBRA

Evocação de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Evocação

Introdução de Dulce Mendes

Antologia de José Ribeiro Ferreira

Coimbra — 2009


Fernando Pessoa


FERNANDO PESSOA

COIMBRA – 26 de novembro de 2009


Ficha técnica

Título: Fernando Pessoa.

Introdução: «Encontro com Fernando Pessoa» por

Dulce Mendes.

Antologia: José Ribeiro Ferreira.

Capa: Escultura de Fernando Pessoa, da autoria de

Lagoa Henriques, sita no Café Brasileira (ao

Chiado em Lisboa).

Folha de Rosto: Pormenor da mesma escultura de

Fernando Pessoa.


Fernando Pessoa

Nasce a 13 de junho de 1888

Morre a 30 de novembro de 1935

Fernando Pessoa

Evocação e antologia

Nasce a 13 de junho de 1888

Morre a 30 de novembro de 1935

O FUTURO DO ROTARY

Evocação e antologia

ESTÁ EM SUAS MÃOS

Rotary Club de Coimbra

26 de novembro de 2009

Rotary Club de Coimbra

26 de novembro de 2009


Prefácio

Esta pequena antologia faz modesta evocação de

um dos maiores símbolos da cultura portuguesa,

Fernando Pessoa (de seu nome completo Fernando

António de Nogueira Pessoa, que nasce em Lisboa a 13

de junho de 1888 e na mesma cidade morre em 30 de

novembro de 1935), que todo se concentrou na sua obra

literária e se sentia uno e vários, ele próprio e outros –

outros que criou, a que deu personalidade biográfica, a

que até deu a morte a alguns. O texto introdutório, com o

título “Encontro com Fernando Pessoa”, que apresenta o

poeta de forma leve mas com sensibilidade e finura, é de

Dulce Mendes. A minha sincera gratidão pela

disponibilidade para comigo evocar esta figura cimeira

da literatuta e da cultura – não só portuguesas, como

também mundiais –, quando se perfazem setenta e quatro

anos da sua morte.

A antologia – naturalmente marcada pelo gosto de

quem a fez – destina-se apenas a apoiar a sessão

evocativa de 26 de novembro de 2009, no Rotary Club de

Coimbra, ou em outros clubes rotários que a ela queiram

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ecorrer. Se feita com o intuito de proporcionar a plena

participação na celebração, não desdenharia incentivar

também a leitura da obra de Fernando Pessoa, e seus

heterónimos, de que há edições várias, umas mais

acessíveis e outras críticas e fidedignas. Cito as Obras

Completas de Fernando Pessoa, das Edições Ática; a

Edição Crítica de Fernando Pessoa, da Impremsa

Nacional – Casa da Moeda, feita por diversos autores e

coordenada por Ivo Castro (ainda em curso); e Obras de

Fernando Pessoa, que também não está ainda concluída

e tem autoria variada.

Coimbra, novembro de 2009

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José Ribeiro Ferreira


INTRODUÇÃO


Casa em que nasceu Fernando Pessoa

(Lisboa, Largo de S. Carlos, 4)


Cronologia mais significativa

de Fernando Pessoa

1888: Nasce Fernando Pessoa (13 de junho) – nome

completo, Fernando António Nogueira Pessoa – em

Lisboa, Largo de S. Carlos, 4.

1893: Morte do pai com tuberculose (13 de julho)

A família vê-se obrigada a vender parte dos bens.

1895: Escreve o primeiro poema (julho). Em Dezembro,

a mãe, por procuração, casa com João Miguel

Rosa, então cônsul em Durban, África do Sul, para

onde parte em janeiro de 1897.

1899: Ingressa na Durban High School (abril).

Cria o pseudónimo Alexander Search.

1901: Exame na Cape School High Examination (junho).

Escreve os primeiros poemas em inglês.

Parte com a família para visita a Portugal (agosto).

1903: Submete-se ao exame de admissão à Universidade

do Cabo e ganha o Prémio Rainha Vitória para

melhor ensaio em inglês.

1904: Termina os estudos na África do Sul (dezembro).

1905: Parte definitivamente para Lisboa e aí vive com a

avó Dionísia.

1906: Matricula-se no Curso Superior de Letras

(outubro), de que desiste em 1907, ano em que

também morre a avó Dionísia.

11


1908: Começa o trabalho de correspondente estrangeiro

em escritórios comerciais.

1912: Publica o primeiro artigo de crítica literária

(Revista Águia).

1913: Escreve O Marinheiro.

1914: Cria os heterónimos Alberto Caeiro, Ricardo Reis

e Álvaro de Campos. Escreve os poemas de O

Guardador de Rebanhos e também parte do Livro

de Desassossego, que atribui a um seu outro eu,

Bernardo Soares.

1915: Sai o primeiro número de Orpheu (março).

Fernando Pessoa dá a morte a Alberto Caeiro.

1916: Mário de Sá-Carneiro suicida-se em Paris.

1918: Publica poemas em inglês, a que o Times dá

relevo.

1920: Conhece Ofélia Queiroz e com ela rompe nesse

mesmo ano. Novo relacionamento em 1929, para

romper em 1931, em definitivo.

1924: Surge a Revista Atena, sob a direcção de Fernando

Pessoa e Ruy Vaz.

1925: Morte da mãe do poeta (Lisboa, 17 de março).

1927: Colabora na Revista Presença.

1934: Publicação da Mensagem.

1935: É internado com cólica hepatica (29 de novembro).

Morre no dia 30 de novembro.

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Encontro com Fernando Pessoa

Vou convidar-vos para uma estranha viagem. Por

vezes saímos para distantes terras para ver diferentes

paisagens, tomar contacto com outros usos e costumes.

Quase sempre trazemos recordações que nos enriquecem,

espiritualmente. Pois bem, vamos agora a um reino

maravilhoso, o reino da poesia, o que é sempre dum

inesquecível fascínio. Para lá podermos entrar, terá de ser

pela mão dum poeta. Quem hoje nos vai acompanhar será

Fernando Pessoa. Os seus poemas vão ser as chaves que

hão-de abrir as portas do sagrado reino da poesia. Vamos

com ele, mas eu desde já previno que e difícil

companhia. Tem uma personalidade complexa e versátil,

é um inconstante no sentir e querer, e foge do convívio

das gentes para um complicado mundo interior só seu

conhecido. Por isto nunca está bem onde está. É ainda

um instável com crises de energia e apatia e tem como

ele próprio diz o "vício de pensar", pensar sempre, o que

origina o contínuo desassossego — o termo é dele — em

13


que vive. E o pior é que com este feitio lança também o

desassossego no nosso espírito. Mas que talento tão

grande o que Deus lhe deu! Como esquecemos tudo,

seduzidos no encanto dos seus versos!

Antes de recordar alguns poemas do autor da

Mensagem, vou tentar dar uma panorâmica que, de

maneira nenhuma terá a pretensão de exaustiva, sobre

Fernando Pessoa e a sua criação literária. Limitar-me-ei à

obra poética, citando no entanto trechos em prosa, por

me parecerem elucidativos para uma melhor

compreensão da sua tão original poesia. E como o poeta

tanto gostava de fazer pedi-lhe para se "outrar", isto é, ser

ele num outro, neste caso o Presidente do Clube, José

Ribeiro Ferreira, que é quem vai ler os versos de

Fernando Pessoa.

Sabia bem o poeta que era alguém muito acima da

vulgaridade das comuns pessoas. E mais sabia também

que tinha uma obra a legar a toda a humanidade. Com um

empenhamento que o levou a abdicar de toda uma

normal existência, dedicou a vida inteira à criação da

obra literária para a qual se sentia predestinado.

Escrevendo-a, mais não fazia senão cumprir a missão que

superiormente lhe fora confiada. É isto mesmo que ele

nos diz

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«Hoje ao tomar de vez a decisão de ser Eu de viver à

altura do meu mister .... reentrei de vez, de volta da minha

viagem de impressões pelos outros, na posse plena do

meu Génio e na divina consciência da minha Missão».

E afinal, embora escrita, nunca essa obra foi

publicada em vida do poeta. Consciente do seu valor,

procurou Fernando Pessoa reunir e ordenar tudo quanto

tinha feito, planeando até como seria a edição dos seus

livros. Simplesmente a morte não o deixou realizar tal

intento e morreu ignorado como sempre tinha vivido.

Publicou apenas a Mensagem, e poemas dispersos em

revistas. Tudo o mais, e tanto é o que dele lemos hoje, é

obra postuma.

Tendo alguém perguntado a Eça de Queiroz porque

se chamava "Vencidos da Vida", um grupo de escritores

tão brilhantes como Antero de Quental, Guerra

Junqueiro, Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, o autor da

Cidade e as Serras respondeu: «É-se vencido da vida não

por aquilo que se alcança, mas pelo que se ambicionou

alcançar». Segundo este critério foi sem dúvida Fernando

Pessoa o mais vencido da vida de toda a literatura

portuguesa, ele que disse:

Sim, sei bem

Que nunca serei alguém.

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Sei de sobra

Que nunca terei uma obra.

Sei, enfim,

Que nunca saberei de mim.

Sim, mas agora,

Em quanto dura esta hora,

Este luar, estes ramos,

Esta paz em que estamos,

Deixem-me crer

O que nunca poderei ser

Toda a angústia existencial, vivida por Fernando

Pessoa tem a sua raiz no impossível do tanto que ele

pretendeu alcançar. Desconhecido de todos em vida

legou-nos uma obra grandiosa não só em extensão como

também na sua tão perturbadora originalidade. Ela tem

sido, através dos anos, aliciante convite a uma tentativa

de interpretação e a este convite não têm resistido os que

se interessam por assuntos literários. Digo tentativa

porque depois de tantos críticos e ensaístas se terem

debruçado num contínuo e pertinaz esforço sobre esta

matéria, o enigma Fernando Pessoa continua a ser um

desafio para todos os que por ele se sentem atraídos.

Quanto mais intimamente conhecemos a obra do poeta

melhor sentimos que tudo o que sobre ela dissermos

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ficará sempre aquém do muito que há ainda para dizer.

Acerca de Fernando Pessoa nunca a tranquilidade duma

certeza, por um esforço de exegese alcançada, uma vez

que só conseguiremos fazer, para a sua compreensão,

pálido esboço, apoiado em débeis conjecturas. A proválo

a diversidade de opiniões dos inúmeros estudiosos da

obra pessoana.

Quem foi afinal Fernando Pessoa? Talvez ele

próprio nunca o chegasse bem a saber dada a contínua

não aceitação dum eu incapaz de se realizar num outro eu

sonhado.

Quando naquela tarde de 13 de Junho de 1888

Joaquim Pessoa e sua mulher Maria Madalena Nogueira

Pessoa, olhavam embevecidos o seu primeiro filho, não

suspeitavam que o destino os tinha feito pais do que

havia de ser um dos maiores poetas de Portugal. Nascido

em Lisboa, em dia de Santo António, deram-lhe o nome

de Fernando António em homenagem ao Santo Padroeiro

da Cidade. Dos apelidos de família herdou os

sobrenomes de Nogueira e Pessoa. Tinha nascido

Fernando Pessoa.

Em volta do berço de qualquer recém-nascido

esvoaçam sempre os sonhos dos pais. Sendo cada criança

um símbolo da esperança, natural é que nela se

concentrem as aspirações dos progenitores quanto ao

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futuro da vida que desponta. Mas por mais alto que voem

os sonhos não há nenhum pai, que, olhando um filho,

conscientemente possa dizer: quero fazer dele um poeta.

E isto pela simples razão de que um poeta não se faz por

melhor preparação académica que the possam dar. Um

poeta acontece. E dom que o Céu a alguns concede,

quase sempre em troca duma existência mais amargurada

que a das outras pessoas.

Quando numa literatura aparece um poeta da

grandeza de Fernando Pessoa não há só motivo de

legítimo orgulho para essa literatura. A humanidade

inteira se deve felicitar porque a poesia do autor da

Mensagem, pela universalidade dos temas tratados, não

tem só projecção nacional, mas sim pertence a todo o

mundo.

Sendo primeiro que tudo poeta, escreveu também

textos políticos, filosóficos e tem o segredo duma prosa

poética como até então nunca ninguém inha escrito em

Portugal.

Toda a sua poesia é muito diferente da da maioria

dos poetas, que, embora sentindo, não são capazes de

intelectualizar a emoção. Na criação poética de Fernando

Pessoa há uma feliz ligação de sentimento e

racionalidade. Como nota característica desta poesia o

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tormento da busca da Verdade Oculta, identificando-se

esta como o conhecimento último de toda a existência.

Na literatura portuguesa são raros os poetas que na

sua obra se sentem atraídos por questões de ordem

metafísica. Camões, Antero de Quental, Teixeira de

Pascoais, são excepção e são também paradigmda

elvação que atinge a poesia quando se interroga sobre o

mistério da existência. A metafísica e região

desconhecida para a grande maioria dos poetas líricos

que esses, graças a Deus, sempre os houve em Portugal.

Mas dos líricos não fica para a posteridade a riqueza de

conteúdo ontológico da mensagem legada na obra dum

poeta metafísico. Falta aos primeiros a grandeza dos

poetas que consagram a vida à descoberta da resposta à

inquietação despertada pelo mistério da realidade. Os

poetas metafísicos são as únicos que, na liberdade duma

linguagem só possível de acontecer em poesia, ousam

interrogar o Céu, as estrelas e o mar sobre o enigma da

existência. Só eles são capazes de lançar no nosso

pensamento o fermento do ideal que condiciona a

demanda de reinos desconhecidos do "Mais Além" tão

distantes das mesquinhas preocupações do diário

acontecer. Par isto não surpreende a nenhum conhecedor

da obra de Fernando Pessoa que ele seja considerado o

mais metafísico poeta da literatura portuguesa. Na

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superação do lirismo e saudosismo nacional Fernando

Pessoa atinge nos seus versos uma tão grande dimensão

que nos aparece como poeta que, escrevendo embora

fujndamentalmente em português, não é só de Portugal,

mas sim um poeta europeu.

Outra nota a realçar é que a poesia de Fernando

Pessoa como já a de Antero nas Odes Modernas é uma

poesia de missão, uma poesia que tem algo a dizer e onde

está bem evidente o empenhamento do poeta como

apóstolo dum sentido novo a dar à vida humana.

Zeladores do fogo sagrado do espiritualismo são os

poetas que, com os seus versos, continuamente

alimentam, cientes da responsabilidade que lhes compete

na salvaguarda dos valores mais preciosos da

humanidade, os valores morais. Assim tem a poesia para

o autor da “Ode Triunfal” um relevante papel a

desempenhar como instrumento de transformação não só

mental, mas o que e mais importante ainda, ética, do

homem, da sociedade e até da Pátria.

Como havemos de classificar uma tão original

poesia é interrogação que se nos põe perante a leitura dos

poemas de Fernando Pessoa. Podemos dizer que é uma

poesia ontológica e transcendental nas suas

caractterísticas mais gerais, mas ela é ainda muito mais

do que isso. É também uma poesia mística, ocultista e

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alquímica até. É ontológica porque é o problema do Ser a

questão com mais profundidade nela tratada. O mistério

da realidade manifestada nas diversas categorias de seres

tendo de comum a existência, participantes que são dum

mesmo princípio original, essencialmente diversificados

porém em distintas maneiras de ser, eis o centro em volta

do qual gravita toda a obra de Fernando Pessoa. O Ser

dos entes é a interrogação a que ele se dedicou com um

empenhamento que ultrapassa em actividade mental toda

a possível resistência humana. O enigma da vida, o pavor

do incompreensível é obsessão em que se fixa sem

descanso o pensamento do poeta. A tortura de não

conseguir libertar-se destes pensamentos aniquila-o:

Ah, perante esta única realidade, que é mistério

Perante esta única realidade terrível – a de haver uma

[realidade,

Perante este horrível ser que é haver ser,

Perante este abismo de existir um abismo,

Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,

Ser um abismo por simplesmente ser,

Por poder ser,

Por haver ser!

— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,

Tudo o que os homens dizem,

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Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou

Se empequena!

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[desfaz através deles,

Não, não se empequena ... se transforma em outra coisa –

Numa só coisa tremenda e negra e impossível,

Uma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do

Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,

[Destino –

Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,

Aquilo que subsiste através de todas as formas,

De todas as vidas, abstractas ou concretas,

Eternas ou contingentes,

Verdadeiras ou falsas!

Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,

Porque quando se abrangeu tudo nao se abrangeu

[explicar por que e um tudo,

Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por

...............................

Cárcere do Ser, não há libertação de ti?

Cárcere de pensar, não há libertação de ti?

[que ha qualquer coisa!

Ah, não, nenhuma – nem morte, nem vida, nem Deus!

Desesperado na angústia da impossível libertação

de si mesmo, crucificado num Eu que, pela intensidade


do pensar, é contínuo tormento, pede a Deus numa

sentida prece que dele mesmo o livre:

Senhor, que és o céu e a terra, e que és a vida e a morte! o

sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos

corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também.

Onde nada está tu habitas e onde tudo está, – (o teu

templo) – eis o teu corpo.

Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me

vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te

ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu

nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não

haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas

mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu

saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um

pai.

( ... )

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja

digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer

diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa

adorar em mim; e torna-me puro como a Lua, para que eu

te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para

que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

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Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me

sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

......

Intimamente realacionado com o problema do Ser

está sempre Deus, questão primeira de toda a metafísica.

Para quem tem a felicidade da graça da fé o problema da

existência não chega sequer a esboçar-se. Acredita-se que

Deus tudo criou por um acto de livre e espontânea

vontade e não há portanto nenhum mistério. Mas esta

simplicidade de crença era impossível no labirinto de

interrogações e dúvidas da mente de Fernando Pessoa.

Essencialmente racionalista, com uma reconhecida

impossibilidade de amar, pensou exaustivamente a

questão de Deus que acabou por considerar

transcendental demais para poder ser compreendido.

Desistiu no extremo limite da capacidade de pensar, no

cansaço de em vão ter procurado solução para o

problema. E embora tão desejado o encontro com Deus

não se verifica porque seguiu a via errada. Não é pela

inteligência, pelo pensamento que vamos até Deus.

Fernando Pessoa pensou-O mais do que O sentiu. Ora

Deus acontece em nós no Amor, na entrega incondicional

do nosso eu, sem questionar teorias metafísicas, na

simplicidade da Verdade que Deus não é para

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compreender, mas para amar, uma vez que por Amor e

para o Amor nos criou. No impossível duma solução para

a questão de Deus, é na requintada estética duma obra

impressionante que Fernando Pessoa procura

superiormente realizar-se.

Incapaz por temperamento de levar uma existência

vulgar, dilacerado numa intranquilidade angustiosa e

permanente, resultado da análise contínua a que submete

todos os sentimentos, a vida para Fernando Pessoa é

apenas a vida interior. Não há espaço em si para viver a

vida real.

A extrema versatilidade da sua maneira de sentir

leva-o a isolar-se, muito novo, na fuga para urn mundo

interior povoado de vertiginosas emoções que, sem

descanso, sentia em si desencadearem-se como fantástico

caleidoscópio de imagens. Se pensamos que qualquer

sensação experimentada era, por urn imperativo da sua

específica personalidade, imediatamente intelectualizada,

compreendemos que só repartindo-se evitou enlouquecer.

Pensou demasiado para poder suportar sozinho o

torturante e contínuo diálogo entre si mesmo e a

realidade. Sentiu demais, e impossível era viver num só

Eu todas as emoções experimentadas. Houve que

transferir para outros Eus imaginados uma tão pesada

carga emocional. E assim surge o mais insólito caso de

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toda a literatura, na estranheza da obra dum poeta que,

aparentemente, parece ter sido escrita por vários poetas.

É o tão debatido problema da heteronomia, nome este

dado pelo próprio Fernando Pessoa ao aparecimento

duma poesia múltipla escrita por varios poetas, sendo

afinal poesia e poetas criação literária dum só autor.

Diversas interpretações têm sido dadas a este fenómeno

pelos numerosos críticos da obra pessoana. E cada um

tem uma opinião porque cada um acaba por ver não o

verdadeiro Fernando Pessoa, mas sim o que acerca dele

imaginou. Penso ser preferível, em vez de os citar, ouvir

o que o próprio poeta nos diz acerca da heteronimia:

Não sei quem sou, que alma tenho.

Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade

falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se

existe (se é esses outros). ....

Sinto-me múltiplo. Sou como urn quarto com inúmeros

espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma

única anterior realidade que não está em nenhuma e está

em todas.

Como o panteísta se sente árvore e até a flor, eu sinto-me

vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim,

incompletamente, como se o meu ser participasse de

todos os homens, incompletamente de cada, por uma

suma de não-eus sintetizados num eu postiço.

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Assim se explica o aparecimento dos heterónimos

Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos,

Bernardo Soares, e muitos mais, todos com uma muito

pessoal maneira de ser e exprimir. Obsecados pelo

interesse suscitado na análise e relacionamento entre si

destas fictícias personagens literárias, esqueceram alguns

críticos de apontar o principal. É que Alberto Caeiro,

Ricardo Reis, Álvaro de Campos, falando apenas nos

poetas, não são partes distintas dum todo reconstituído

através da sua leitura, mas sim a representação dum todo,

obviamente Fernando Pessoa, fragmentado em múltiplas

personalidades. No primeiro caso partimos da

multiplicidade para a unidade e no segundo é

precisamente o inverso que se verifica. Não devemos

esquecer que as obras de Alberto Caeiro, Ricardo Reis,

Álvaro de Campos fazem parte da obra de Fernando

Pessoa tanto quanto o Alberto Caeiro, o Ricardo Reis e o

Álvaro de Campos. E estes mais não são afinal que o

próprio Fernando Pessoa diversificado – ou outrado,

como ele gostaria de dizer – nessas personagens por ele

inventadas.

Como surgiram estas personalidades no espírito de

Fernando Pessoa? Nenhum estudioso da sua obra é capaz

de dar uma melhor explicação do que ele próprio. Vamos

27


pois ouvi-lo numa carta escrita a Adolfo Casais

Monteiro:

Desde criança tive a tendência para criar em meu torno

um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos

que nunca existiram. ....

Esta tendência para criar em torno de mim um mundo,

igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da

imaginação. Num dia .... – e foi em 8 de março de 1914 –

acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel,

comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que

posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa

espécie de êxtase cuja natureza nao conseguirei definir.

Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro

assim. Abri com urn título, O Guardador de Rebanhos. E

o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a

quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro.

Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o

meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E

tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos

poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a

fio também, os seis poemas que constituem a Chuva

Ob1iqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e

totalmente .... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto

Caeiro a Fernando Pessoa e1e só. Ou, me1hor, foi a

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eacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência

como Alberto Caeiro.

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de 1he descobrir

instintivamente e subconscientemente – uns discípulos.

Arranquei do seu fa1so paganismo o Ricardo Reis latente,

descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa

altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de

Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente urn novo

individuo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem

interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfa1 de

Álvaro de Campos a ode com esse nome e o homem com

o nome que tem.

.......

Mais uns apontamentos nesta matéria .... Eu vejo diante

de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as cartas,

os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Construí-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu

em 1887 .... no Porto, é médico e está presentemente no

Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em

1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida

no campo. Não teve profissão nem educação quase

alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15

de Outubro de 1890 .... é engenheiro naval (por

Glasgow).

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Como escrevo em nome desses três? .... Caeiro por pura e

inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que

iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação

abstracta, que subitamente se concretiza numa ode.

Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e

não sei o quê.

Apresentados estes três Eus de Fernando Pessoa,

tempo é de ouvirmos os poemas de cada um deles. São

diferentes não só no conteúdo ideológico como também

no estilo: Alberto Caeiro é de todos os heterónimos o que

é menos Fernando Pessoa, que lhe inveja a simplicidade.

Caeiro não pensa, limita-se a sentir. Ele é um poeta

bucólico, vivendo apenas das sensações que o seu íntimo

contacto com a natureza a cada momento lhe desperta. Só

acredita no que vê e a sensação nele é sempre pura,

intuída directamente das coisas através dos sentidos. As

coisas são o que são .... É inculto, e Fernando Pessoa, ao

inventá-lo, deu-lhe apenas como instrução a primária,

mas a sua poesia tem uma tal grandeza que Ricardo Reis

e Álvaro de Campos lhe chamam o Mestre. Toda a

compreensão da realidade é para Alberto Caeiro dada

pelos olhos nunca pelas ideias que acerca dela vamos

fantasiar.

30


Caeiro é panteísta, mas de um panteísmo

espiritualista. Isto porque todas as coisas não são Deus,

mas Deus está em todas as coisas sendo a realidade nada

mais que manifestação de Deus. Compreendemos melhor

esta atitude através dos passos mais significativos dum

poema de Alberto Caeiro que em seguida se vai ler:

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do Mundo?

Sei lá o que penso do Mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

............

O misterio das coisas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o Sol

E a pensar muitas coisas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o Sol,

Porque a 1uz do Sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A 1uz do Sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

.............

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

31


Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pe1a minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!

............

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o 1uar,

Então acredito ne1e,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com as olhos e pelos ouvidos.

Ricardo Reis é dos três poetas criados pela

imaginação de Fernando Pessoa o que escreve melhor,

chegando por vezes a um exagero no purismo da

linguagem. É pagão, dum paganismo requintado. A sua

poesia tem um sabor helénico, transporta-nos a paisagens

e sentimentos como pensamos terem existido na Grécia

Antiga. Os Deuses são para Ricardo Reis os responsáveis

do sentido trágico da vida humana. Nada há a fazer senão

aceitarmos sem revolta a vontade deles. Perfeitamente

consciente do fatalismo do destino, é um estóico na

resignação como a esse mesmo destino se submete.

Vamos apreciar isto mesmo numa Ode de Ricardo Reis:

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,

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E deseja o destino que deseja;

Nem cumpre o que deseja,

Nem deseja 0 que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros

O Fado nos dispõe, e ali ficamos;

Que a Sorte nos fez postos

Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento

Do que nos coube que de que nos coube.

Cumpramos o que somos.

Nada mais nos é dado.

Falta falar de Álvaro de Campos, o que é

engenheiro naval, lembram-se? É também pagão, mas

dum paganismo sensual no qual as sensações na sua

multiplicidade e variedade são razão de ser de toda a

vida. Mas a sensação em Álvaro de Campos não

permanece pura como em Caeiro. É intelectualizada pelo

pensamento. Para viver é preciso experimentar tudo, ter

todas as sensações, sentir todos os sentimentos, viver

todas as situações possíveis, ser tudo e todos enfim. Por

conseguinte a necessidade sentida de ser muitos Eus num

33


só, como única maneira de realização pessoal. Álvaro de

Campos é um desiludido de si mesmo, sentindo que não

é capaz de viver a vida como ela deve ser vivida, devido

à intensidade de desordenadamente pensar todos os

pensamentos que, num fantástico carrocel sem nunca

parar, giram na sua mente. Na maneira como se exprime,

é Fernando Pessoa com a coragem que Fernando Pessoa

não foi capaz de ter.

Vão-se ler partes dum poema de Álvaro de

Campos.

Passagem das horas

Trago dentro do meu coração,

Como num cofre que se não pode fechar de cheio,

Todos os lugares onde estive,

Todos os portos a que cheguei,

Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,

Ou de tombadilhos, sonhando,

E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero

.................

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.

Só humanitariamente é que se pode viver.

Só amando os homens, as acções, a banalidade dos

[trabalhos,

Só assim – ai de mim! –, só assim se pade viver.

34


Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim!

.................

Multipliquei-me, para me sentir,

Para me sentir, precisei sentir tudo,

Transbordei, não fiz senão extravasar-me,

Despi-me, entreguei-me,

E há em cada canto da minha alma urn altar a um deus

35

[diferente.

Que pensava Fernando Pessoa acerca duma obra

sua escrita por diversos poetas? Como conseguia em

nome deles escrever poesia de características tão

diferentes? Seria possível haver sinceridade numa obra

assim? Ele e que vai responder:

Regresso a mim. Alguns anos andei viajando a colher

maneiras de sentir. Agora, tendo visto tudo e sentido,

tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e

trabalhar, quanto possa e em tudo quanto possa, para o

progresso da civilização e o alargamento da consciência

da humanidade. ....

Mantenho, é claro, o meu propósito de lançar

pseudonimamente a obra Caeiro-Reis-Campos. Isto é

toda uma literatura que eu vivi, que é sincera, porque é

sentida, e que constitui uma corrente com influência

possível, benefica incontestavalmente, nas almas dos


outros. .... Chamo insinceras as coisas feitas para fazer

pasmar, e às coisas, também – repare nisto, que é

importante – que não contêm uma fundamental ideia

metafísica, isto é, por onde não passa, ainda que como um

vento, uma noção da gravidade e do mistério da Vida. Por

isso é serio tudo o que escrevi sob os nomes de Caeiro,

Reis, Álvaro de Campos. Em qualquer destes pus um

profundo conceito da vida, diverso em todos três, mas em

todos gravemente atento a importância misteriosa de

existir.

Será um regresso a ele próprio o poema com que

vou finalizar a apresentação. A poesia é mesmo de

Fernando Pessoa, mas como sempre dum Fernando

Pessoa impossível de se assumir inteiramente como

Fernando Pessoa:

O tempo que eu hei sonhado

Quantos anos foi de vida!

Ah, quanto do meu passado

Foi só a vida mentida

De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio

Sossego sem ter razão.

Este seu correr vazio

36


Figura, anónimo e frio,

A vida vivida em vão.

A 'sp'rança que pouco alcança!

Que desejo vale o ensejo!

E uma bola de criança

Sobe mais que a minha 'sp'rança,

Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves

Que não sois ondas sequer,

Horas, dias, anos, breves

Passam – verduras ou neves

Que o mesmo sol faz marrer.

Gastei tudo que não tinha.

Sou mais velho do que sou.

A ilusão, que me mantinha,

Só no palco era rainha:

Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,

Gulosas da margem ida,

Que lembranças sanalentas

De esperanças nevoentas!

Que sonhos o sonho e a vida!

37


Que fiz de mim? Encontrei-me

Quando estava ja perdido.

Impaciente deixei-me

Como a um louco que teime

No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas

Que correm por ter que ser,

Leva não só as lembranças,

Mas as mortas esperanças —

Mortas, porque hão-de morrer.

Sou já o morto futuro.

Só um sonho me liga a mim —

O sonho atrasado e obscuro

Do que eu devera ser – muro

Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me

Para o olvido do mar!

Ao que não serei legai-me,

Que cerquei com um andaime

A casa por fabricar.

38

Dulce Mendes


Antologia


Escultura da autoria de Lagoa Herriques

(Lisboa, no Café Brisileira, ao Chiado)


FERNANDO PESSOA

O dos castelos

A Europa jaz, posta nos cotovelos:

De Oriente a Ocidente jaz, fitando,

E toldam-lhe românticos cabelos

Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;

O direito é em ângulo disposto.

Aquele diz Itália onde é pousado;

Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,

O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita e Portugal.

Mensagem (Lisboa, Ática, 21 2006), p. 23

41


Ulisses

O mito é o nada que e tudo.

O mesmo sol que abre os céus

É um mito brilhante e mudo –

O corpo morto de Deus,

Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,

Foi por não ser existindo.

Sem existir nos bastou.

Por não ter vindo foi vindo

E nos criou.

Assim a lenda se escorre

A entrar na realidade,

E a fecundá-la decorre.

Em baixo, a vida, metade

De nada, morre.

Mensagem (Lisboa, Ática, 21 2006), p. 27

42


D. Dinis

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo

O plantador de naus a haver,

E ouve um silêncio múrmuro consigo:

É o rumor dos pinhais que, como um trigo

De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,

Busca o oceano por achar;

E a fala dos pinhais, marulho obscuro,

É o som presente d’esse mar futuro,

É a voz da terra ansiando pelo mar.

Mensagem (Lisboa, Ática, 21 2006), p. 33

43


D. João o Primeiro

O homem e a hora são um só

Quando Deus faz e a história é feita.

O mais é carne, cujo pó

A terra espreita.

Mestre. Sem o saber, do Templo

Que Portugal foi feito ser,

Que houveste a glória e deste o exemplo

De o defender,

Teu nome, eleito em sua fama,

É, na ara da nossa alma interna,

A que repele, eterna chama,

A sombra eterna.

Mensagem (Lisboa, Ática, 21 2006), p. 34

44


D. Filipa de Lencastre

Que enigma havia em teu seio

Que só génios concebia?

Que arcanjo teus sonhos veio

Velar, maternos, um dia?

Volve a nós teu rosto sério,

Princesa do Santo Gral,

Humano ventre do Império,

Madrinha de Portugal!

Mensagem (Lisboa, Ática, 21 2006), p. 35

45


D. Pedro Regente de Portugal

Claro em pensar, e claro no sentir,

É claro no querer;

Indiferente ao que há em conseguir

Que seja só obter;

Dúplice dono, sem me dividir,

De dever e de ser –

Não me podia a Sorte dar guarida

Por não ser eu dos seus.

Assim vivi, assim morri, a vida,

Calmo sob mudos céus,

Fiel à palavra dada e à ideia tida.

Tudo mais é com Deus!

Mensagem (Lisboa, Ática, 21 2006), p. 42

46


D. João o Segundo

Braços cruzados, fita além do mar.

Parece em promontório uma alta serra –

O limite da terra a dominar

O mar que possa haver além da terra.

Seu formidável vulto solitário

Enche de estar presente o mar e o céu.

E parece temer o mundo vário

Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu

Mensagem (Lisboa, Ática, 21 2006), p. 52

47


O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,

Clareou, correndo, até ao fim do mundo.

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.

Do mar e nós em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Mensagem (Lisboa, Ática, 21 2006), p. 59

48


O Mostrengo

O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso,

«Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu.

E disse no fim de tremer três vezes:

49


«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!»

Mensagem (Lisboa, Ática, 21 2006), pp. 64-65

“O Mostrengo”, escultura do portão central da Fac.

de Letras (Univ Coimbra) que simboliza o poema de

Fernando Pessoa

50


Mar português

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram.

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar alm da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu.

Mas nele e que espelhou o céu.

Mensagem (Lisboa, Ática, 21 2006), p. 72

51


As Ilhas Afortunadas

Que voz vem no som das ondas

Que não é a voz do mar?

É a voz de alguém que nos fala,

Mas que, se escutamos, cala,

Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,

Sem saber de ouvir ouvimos,

Que ela nos diz a esperança

A que, como uma criança

Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas,

São terras sem ter lugar,

Onde o Rei mora esperando.

Mas, se vamos despertando,

Cala a voz, e há só o mar.

Mensagem (Lisboa, Ática, 21 2006), pp. 87-88

52


Como a noite é longa!

Toda a noite é assim...

Senta-te, ama, perto

Do leito onde esperto.

Vem pr'ao pé de mim...

Amei tanta coisa

Hoje nada existe.

Aqui ao pé da cama

Canta-me, minha ama,

Uma canção triste.

Era uma princesa

Que amou... Já não sei...

Como estou esquecido!

Canta-me ao ouvido

E adormecerei...

Como a noite é longa!

53


Que é feito de tudo?

Que fiz eu de mim?

Deixa-me dormir

Dormir a sorrir

E seja isto o fim.

Poesia 1902-1917(Lisboa, Assírio & Alvim, 2005), pp. 247-248.

54


Ó sino da minha aldeia

Ó sino da minha aldeia,

Dolente na tarde calma,

Cada tua badalada

Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,

Tão como triste da vida,

Que já a primeira pancada

Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto

Quando passo, sempre errante,

És para mim como um sonho,

Soas-me na alma distante.

Poesias (Lisboa, Ática, 1961), pp. 95.

55


Ela canta, pobre ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,

Julgando-se feliz talvez;

Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia

De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave

No ar limpo, como um limiar,

E há curvas no enredo suave

Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,

Na sua voz há campo e a lida,

E canta como se tivesse

Mais razões p'ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!

O que em mim sente 'stá pensando.

Derrama no meu coração

A tua incerta voz ondeando!

56


Ah, poder ser tu, sendo eu!

Ter a tua alegre inconsciência,

E a consciência disso! Ó céu!

Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!

Entrai por mim dentro! Tornai

Minha alma a vossa sombra leve!

Depois, levando-me, passai!

Poesias (Lisboa, Ática, 1961), pp. 110-111

57


Paira à tona de água

Uma vibração,

Há uma vaga mágoa

No meu coração.

Não é porque a brisa

Ou o que quer que seja

Faça esta indecisa

Vibração que adeja,

Nem é porque eu sinta

Uma dor qualquer.

Minha alma é indistinta

Não sabe o que quer.

É uma dor serena,

Sofre porque vê.

Tenho tanta pena!

Soubesse eu de quê!...

Paira à tona de água

Poesias (Lisboa, Ática, 1961), pp. 115-116

58


Natal... Na província neva.

Nos lares aconchegados,

Um sentimento conserva

Os sentimentos passados.

Natal

Coração oposto ao mundo,

Como a família é verdade!

Meu pensamento é profundo,

'Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça

A paisagem que não sei,

Vista de trás da vidraça

Do lar que nunca terei!

Poesias (Lisboa, Ática, 1961), pp. 117-118

59


Chove. É dia de Natal

Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal.

E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.

Poesias (Lisboa, Ática, 1961), pp. 129-130

60


Gato que brincas na rua

Gato que brincas na rua

Corno se fosse na cama,

Invejo a sorte que é tua

Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais

Que regem pedras e gentes,

Que tens instintos gerais

E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou sem mim,

Conheço-me e não sou eu.

Poesias (Lisboa, Ática, 1961), p. 133

61


Do vale à montanha,

Da montanha ao monte,

Cavalo de sombra,

Cavaleiro monge,

Por casas, por prados,

Por quinta e por fonte,

Caminhais aliados.

Do vale a montanha,

Da montanha ao monte,

Cavalo de sombra,

Cavaleiro monge,

Por penhascos pretos,

Atrás e defronte,

Caminhais secretos.

Do vale à montanha

62


Do vale à montanha,

Da montanha ao monte,

Cavalo de sombra,

Cavaleiro monge,

Por plainos desertos

Sem ter horizonte,

Caminhais libertos.

Do vale à montanha,

Da montanha ao monte,

Cavalo de sombra,

Cavaleiro monge,

Por ínvios caminhos,

Por rios sem ponte,

Caminhais sozinhos.

Do vale à montanha,

Da montanha ao monte,

Cavalo de sombra,

Cavaleiro monge,

Por quanto é sem fim,

Sem ninguém que o conte,

Caminhais em mim.

Poesias (Lisboa, Ática, 1961), pp. 148-149

63


O menino da sua mãe

No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,

De balas traspassado

– Duas, de lado a lado –,

Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.

De braços estendidos,

Alvo, louro, exangue,

Fita com olhar langue

E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!

(Agora que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

Um nome e o mantivera:

«O menino da sua mãe».

64


Caiu-lhe da algibeira

A cigarreira breve.

Dera-lha a mãe. Está inteira

E boa a cigarreira.

Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada

Ponta a roçar o solo,

A brancura embainhada

De um lenço... Deu-lho a criada

Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:

«Que volte cedo, e bem!»

(Malhas que o Império tece!)

Jaz morto e apodrece,

O menino da sua mãe.

Poesias (Lisboa, Ática, 1961), pp. 219-220

65


O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

Autopsicografia

E os que lêem o que escreve,

Na doe lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama o coração.

Poesias (Lisboa, Ática, 1961), p. 237

66


Dizem que finjo ou minto

Tudo o que escrevo. Não.

Eu simplesmente sinto

Com a imaginação.

Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,

O que me falha ou finda,

É como que um terraço

Sobre outra coisa ainda.

Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevgo em meio

Do que não está ao pé,

Livre do meu enleio,

Sério do que não é.

Sentir? Sinta quem lê!

Isto

Poesias (Lisboa, Ática, 1961), p. 238

67


Eros e Psique

Conta a lenda que dormia

Uma Princesa encantada

A quem só despertaria

Um Infante, que viria

De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,

Antes que, já libertado,

Deixasse o caminho errado

Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,

Se espera, dormindo espera.

Sonha em morte a sua vida,

E orna-lhe a fronte esquecida,

Verde, uma grinalda de hera.

... E assim vedes, meu Irmão, que as verdades

que vos foram dadas no Grau de Neófito, e

aquelas que vos foram dadas no Grau de

Adepto Menor, são, ainda que opostas, a

mesma verdade.

Do Ritual do Grau de Mestre do Átrio

na Ordem Templária de Portugal.

68


Longe o Infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado.

Ele dela é ignorado.

Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –

Ela dormindo encantada,

Ele buscando-a sem tino

Pelo processo divino

Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro,

E, vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,

À cabeça, em maresia,

Ergue a mão, e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.

Poesias (Lisboa, Ática, 1961), pp. 239-241

69


Ai que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada,

Estudar é nada.

O sol doira

Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

Liberdade

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

70


A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca...

Poesias (Lisboa, Ática, 1961), pp. 246-247

71


Várias quadras

1

Cantigas de portugueses

São como barcos no mar –

Vão de uma alma para outra

Com riscos de naufragar.

7

Se ontem à tua porta

Mais triste o vento passou –

Olha: levava um suspiro…

Bem sabes quem to mandou…

9

A caixa que não tem tampa

Fica sempre destapada.

Dá-me um sorriso dos teus

Porque não quero mais nada.

60

Acendeste uma candeia

Com esse ar que Deus te deu.

Já não é noite na aldeia

E, se calhar, nem no céu.

72


65

Não sei em que coisa pensas

Quando coses sossegada…

Talvez naquelas ofensas

Que fazes sem dizer nada.

118

Trazes os sapatos pretos

Cinzentos de tanto pó.

Feliz é quem tiver netos

De quem tu sejas avó!

120

Moreninha, moreninha,

Com olhos pretos a rir.

Sei que nunca serás minha,

Mas quero ver-te sorrir.

241

Meia volta, toda a volta,

Muitas voltas de dançar…

Quem tem sonhos por escolta

Não é capaz de parar.

73


242

Fui passear no jardim

Sem saber se tinha flores.

Assim passeia na vida

Quem tem ou não tem amores.

244

Quando apertaste o teu cinto

Puseste o cravo na boca.

Não sei dizer o que sinto

Quando o que sinto me toca.

248

Tinhas um vestido preto

Nesse dia de alegria…

Que certo! Pode pôr luto

Aquele que em ti confia.

250

Esse xaile que arranjaste

Com que pareces mais alta

Dá ao teu corpo esse brio

Que à minha coragem falta.

74


251

Tem um decote pequeno,

Um ar modesto e tranquilo;

Mas vá-se lá descobrir

Coisa pior do que aquilo!

269

Duas horas vão passadas

Sem que te veja passar.

Que coisas mal combinadas

Que são amor e esperar!

272

O moinho que mói trigo

Mexe-o o vento ou a água,

Mas o que tenho comigo

Mexe-o apenas a mágoa.

274

Tens uns brincos sem valia

E um lenço que não é nada,

Mas quem dera ter o dia

De quem és a madrugada.

75


288

Lavas a roupa na selha

Com um vagar apressado,

E o brinco na tua orelha

Acompanha o teu cuidado.

290

Velha cadeira deixada

No canto da casa antiga

Quem dera ver lá sentada

Qualquer alma minha amiga.

321

Trazes os brincos compridos,

Aqueles brincos que são

Como as saudades que temos

A pender do coração.

323

Não há verdade na vida

Que se não diga a mentir.

Há quem apresse a subida

Para descer a sorrir.

76

Seleccionadas do livro

Quadras ao gosto popular (Lisboa, Ática, 1969).


ALBERTO CAEIRO

Guardador de Rebanhos IX

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

Poemas de Alberto Caeiro (Lisboa, Ática, 1963), pp. 37-38.

77


Guardador de Rebanhos XX

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha

78

[aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre

[pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha

[aldeia,

O Tejo tem grandes navios

E navega nele ainda,

Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,

A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha

E o Tejo entra no mar em Portugal.

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai

E donde ele vem.

E por lsso, porque pertence a menos gente,

É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.

Para além do Tejo há a América


E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.

Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Poemas de Alberto Caeiro (Lisboa, Ática, 1963), pp. 44-45.

Fernando Pessoa, de José Macedo Bandeira

79


Guardador de Rebanhos XXVIII

Li hoje quase duas páginas

Do livro dum poeta místico,

E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,

E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem

E dizem que as pedras têm alma

E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas as flores, se sentissem, não eram flores,

Eram gente;

E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não

[eram pedras;

E se os rios tivessem êxtases ao luar,

Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios

Para falar dos sentimentos deles.

80


Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,

É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.

Graças a Deus que as pedras são só pedras,

E que os rios não são senão rios,

E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos

E fico contente,

Porque sei que compreendo a Natureza por fora;

E não a compreendo por dentro

Porque a Natureza não tem dentro;

Senão não era a Natureza.

Poemas de Alberto Caeiro (Lisboa, Ática, 1963), pp. 51-52.

81


Guardador de Rebanhos XL

Passa uma borboleta por diante de mim

E pela primeira vez no Universo eu reparo

Que as borboletas não têm cor nem movimento,

Assim como as flores nao tern perfume nem cor.

A cor é que tem cor nas asas da borboleta,

No movimento da borboleta o movimento é que se

[move.

O perfume é que tem perfume no perfume da flor.

A borboleta é apenas borboleta

E a flor é apenas flor.

Poemas de Alberto Caeiro (Lisboa, Ática, 1963), p. 62.

82


Coroai-me de rosas,

Coroai-me em verdade

De rosas —

Rosas que se apagam

Em fronte a apagar-se

Tão cedo!

Coroai-me de rosas

E de folhas breves.

E basta.

RICARDO REIS

Coroai-me de rosas

Odes de Ricardo Reis (Lisboa, Ática, 1959), p. 16.

83


As rosas amo dos jardins de Adonis

As rosas amo dos jardins de Adonis,

Essas volucres amo, Lídia, rosas,

Que em o dia em que nascem,

Em esse dia morrem.

A luz para elas é eterna, porque

Nascem nascido já o Sol, e acabam

Antes que Apolo deixe

O seu curso visível.

Assim façamos nossa vida urn dia,

Inscientes, Lídia, voluntariamente

Que há noite antes e após

O pouco que duramos.

Odes de Ricardo Reis (Lisboa, Ática, 1959), p. 30.

84


Prefiro rosas, meu amor

Prefiro rosas, meu amor, a pátria,

E antes magnólias amo

Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me nao canse, deixo

Que a vida por mim passe

Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa

Que um perca e outro vença,

Se a aurora raia sempre,

Se cada ana com a Primavera

As folhas aparecem

E com o Outono cessam?

E o resto, as outras eoisas que os humanos

Acrescentam à vida,

Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indif’rença

E a confiança mole

Na hora fugitiva.

Odes de Ricardo Reis (Lisboa, Ática, 1959), p. 56.

85


Tão cedo passa tudo quanta passa!

Tão cedo passa tudo quanta passa!

Morre tao jovem ante os deuses quanto

Morre! Tudo é tão poueo!

Nada se sabe, tudo se imagina.

Circunda-te de rosas, ama, bebe

E cala. O mais é nada.

Odes de Ricardo Reis (Lisboa, Ática, 1959), p. 80.

* *

*

Prazer, mas devagar

Prazer, mas devagar,

Lídia, que a sorte àqueles não é grata

Que lhe das mãos arrancam.

Furtivos retiremos do horto mundo

Os depredandos pomos.

Não despertemos, onde dorme, a Erínis

Que cada gozo trava.

Como um regato, mudos passageiros,

Gozemos escondidos.

A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos.

Odes de Ricardo Reis (Lisboa, Ática, 1959), p. 81.

86


Lenta, descansa a onda que a maré deixa

Lenta, descansa a onda que a maré deixa.

Pesada cede. Tudo é sossegado.

Só o que é de homem se ouve.

Cresce a vinda da lua.

Nesta hora, Lídia ou Neera ou Cloe,

Qualquer de vós me é estranha, que me inclino

Para o segredo dito

Pelo silêncio incerto.

Tomo nas mãos, como caveira, ou chave

De supérfluo sepulcro, o meu destino,

E ignaro o aborreço

Sem coração que o sinta.

Odes de Ricardo Reis (Lisboa, Ática, 1959), p. 96.

87


Quer pouco: teras tudo.

Quer pouco: terás tudo.

Quer nada: serás livre.

o mesmo amor que tenham

Por nós, quer-nos, oprime-nos.

Odes de Ricardo Reis (Lisboa, Ática, 1959), p. 113.

* *

*

Não só quem nos odeia ou nos inveja

Não só quem nos odeia ou nos inveja

Nos limit a e oprime; quem nos ama

Não menos nos limita.

Que os deuses me concedam que, despido

De afectos, tenha a fria liberdade

Dos píncaros sem nada.

Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada

É livre; quem não tem, e não deseja,

Homem, é igual aos deuses.

Odes de Ricardo Reis (Lisboa, Ática, 1959), p. 114.

88


ÁLVARO DE CAMPOS

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,

Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,

Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco

Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,

Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro

[mundo,

Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,

Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar

[mas seguir?

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em

[Lisboa,

Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado

[em Lisboa.

89


Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem

Sempre, sempre, sempre,

90

[consequência,

Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,

Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na

[estrada da vida...

Maleável aos meus movimentos subconscientes do

[volante,

Galga sob mim comigo o automóvel que me

[emprestaram.

Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.

Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no

[mundo!

Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!

Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da

[estrada.

À direita o campo aberto, com a lua ao longe.

O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,

É agora uma coisa onde estou fechado,

Que só posso conduzir se nele estiver fechado,

Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a

[mim.


À esquerda lá para trás casebre modesto, mais que

[modesto.

A vida ali deve ser feliz, só porque não é minha.

Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele

[é que é feliz.

Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do

andar que esta em cima

Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho,

[uma fada real.

Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela

[janela da cozinha

No pavimento térreo,

Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de

[rapariga,

E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em

[que me perdi.

Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o autom6vel que os

[deixa?

Eu, guiador do autom6vel emprestado, ou o automóvel

[emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e

[a noite,

91


Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,

Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que

92

[alcanço,

E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,

Acelero ...

Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me

À porta do casebre,

O meu coração vazio,

O meu coração insatisfeito,

[desviei ao vê-lo sem vê-lo,

O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que

[a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao

volante,

Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,

Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,

Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim ...

Poesiass de Álvaro de Campos (Lisboa, Ática, 1964),

pp. 35-37.


Todas as cartas de amor são

Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Nao seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

E que são

Ridículas.

93


Quem me dera no tempo em que escrevia

Sem dar por isso

Cartas de amor

Ridículas.

A verdade é que hoje

As minhas memórias

Dessas cartas de amor

É que são

Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,

Como os sentirnentos esdrúxulos,

São naturalmente

Ridículas.)

Poesiass de Álvaro de Campos (Lisboa, Ática, 1964),

pp. 83-84.

94


Dois excertos de odes

(Fins de duas odes, naturalmente)

I

................................................................................

Vem, Noite, antiquíssirna e idêntica,

Noite Rainha nascida destronada,

Noite igual por dentro ao silêncio, Noite

Com as estrelas lantejoulas rápidas

No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,

Vem, levemente,

Vem sozinha, solene, com as mãos caídas

Ao teu lado, vem

E traz os montes longínquos para o pé das árvores

[próximas,

Funde num campo teu todos os campos que vejo,

Faze da montanha urn bloco só do teu corpo,

Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,

Todas as estradas que a sobem,

95


Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao

96

[longe.

Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,

E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,

Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,

Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora

Das coisas impossíveis que procuramos em vão,

Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,

Dos propósitos que nos acariciam

Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas

Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,

E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...

Vem, e embala-nos,

Vem e afaga-nos,

Beija-nos silenciosamente na fronte,

Tão levemente na fronte que não saibamos que nos

[beijam

Senão por uma diferença na alma.

E um vago solu


Vem soleníssima,

Soleníssima e cheia

De uma oculta vontade de soluçar,

Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,

E todos os gestos não saem do nosso corpo

E só alcançamos onde o nosso braço chega,

E só vemos até onde chega o nosso olhar.

Vem, dolorosa,

Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,

Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,

Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,

Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.

Vem, lá do fundo

Do horizonte lívido,

Vem e arranca-me

Do solo de angústia e de inutilidade

Onde vicejo.

Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,

Folha a folha lê em mim não sei que sina

E desfolha-me para teu agrado,

Para teu agrado silencioso e fresco.

Uma folha de mim lança para o Norte,

Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;

97


Outra folha de mim lança para o SuI,

Onde estão os mares que os Navegadores abriram;

Outra folha minha atira ao Ocidente,

Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,

Que eu sem conhecer adoro;

E a outra, as outras, o resto de mim

Atira ao Oriente,

Ao Oriente donde vern tudo, o dia e a fé,

Ao Oriente pomposo e fanático e quente,

Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,

Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,

Ao Oriente que tudo o que nós não temos,

Que tudo o que nos não somos,

Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda

98

[hoje viva,

Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...

Vem sobre os mares,

Sobre os mares maiores,

Sobre os mares sem horizontes precisos,

Vem e passa a mão pelo dorso de fera,

E acalma-o misteriosamente,

Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

Vem, cuidadosa,


Vem, maternal,

Pé antepé enfermeira antiquíssima, que te sentaste

À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,

E que viste nascer Jeová e Júpiter,

E sorriste porque tudo te é falso, salvo a treva e o silêncio,

E o grande espaço Misterioso para alem deles...

Vem, Noite silenciosa e extática,

Vem envolver na noite manto branco

O meu coração...

Serenamente como uma brisa na tarde leve,

Tranquilamente como urn gesto materno afagando,

Com as estrelas luzindo (Ó Mascarada do Além!)

Pó de ouro no teu cabelo negro,

E o quarto minguante máscara misteriosa sobre a tua face.

Todos os sons soam de outra maneira

Quando tu vens.

Quando tu entras baixam todas as vozes,

Ninguém te vê entrar,

Ninguém sabe quando entraste,

Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,

Que tudo perde as arestas e as cores,

E que no alto céu ainda claramente azul

Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova

[que vem,

99


A lua começa a ser real.

Poesiass de Álvaro de Campos (Lisboa, Ática, 1964),

100

pp. 153-157.

Autógrafo de F. Pessoa (ciclo "Além-Deus")


Tabacaria

Nao sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

A parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que

(ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente

[por gente

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente

[certa

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos

brancos nos homens

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada

[de nada.

101


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

E nao tivesse mais irmandade com as coisas

Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado

102

[da rua

A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida

De dentro da minha cabeça,

[apitada

E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos

[na ida

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e

[esqueceu.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

À Tabacaria do outro lado da rna, como coisa real por fora,

E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por

[dentro.

Falhei em tudo.

Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

A aprendizagem que me deram,

Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Fui até ao campo com grandes propósitos.

Mas lá encontrei só ervas e árvores,

E quando havia gente era igual à outra.


Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de

103

[pensar?

Que sei eu do que serei, eu que nao sei o que sou?

Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que nao pode

[haver tantos!

Génio? Neste momento

Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,

E a história não marcará, quem sabe?, nem um,

Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.

Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas

[certezas!

Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou

[menos certo?

Não, nem em mim...

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo

Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?

Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —

Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,

E quem sabe se realizáveis,

Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de

[gente?

O mundo é para quem nasce para o conquistar


E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

104

[tenha razão.

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do

[que Cristo,

Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,

Ainda que nao more nela;

Serei sempre o que não nasceu para isso;

Serei sempre só o que tinha qualidades;

[escreveu.

Serei sempre o que esperou que the abrissem a porta ao

[pé de uma parede sem porta,

E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,

E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Crer em mim? Não, nem em nada.

Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente

O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,

E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não

Escravos cardíacos das estrelas,

[venha.

Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da

Mas acordamos e ele é opaco,

Levantamo-nos e ele é alheio,

[cama;


Saímos de casa e ele é a terra inteira,

Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão

[chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais do que a

[confeitaria.

Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade

[com que comes!

Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de

[folhas de estanho,

Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei

A caligrafia rápida destes versos,

Pórtico partido para o Impossível.

Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo

[sem lágrimas,

Nobre ao menos no gesto largo com que atiro

A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,

E fico em casa sem camisa.

105


(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,

Ou deusa grega, concebida como estatua que fosse

106

[viva,

Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,

Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,

Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,

Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,

Ou não sei que moderno — não concebo bern o quê —,

Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar

[que inspire!

Meu coração é um balde despejado.

Como os que invocam espíritos invocam espíritos

[invoco

A mim mesmo e não encontro nada.

Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.

Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que

[passam,

Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,

Vejo os cães que tambem existem,

E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,

E tudo isto e estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,

E hoje não ha mendigo que eu não inveje só por não

[ser eu.


Olho a cada urn os andrajos e as chagas e a mentira,

E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem

107

[amasses nem cresses

(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem

[fazer nada disso);

Talvez tenhas existido apenas, como urn lagarto a

[quem cortam o rabo

E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que nao soube,

E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem não era e não

[desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, ja não sabia vestir o dominó que não

[tinha tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou

[sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis,

Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,

E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de

[defronte,

Calcando aos pés a consciência de estar existindo,

Como um tapete em que urn bêbado tropeça

Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia

[nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à

[porta.

Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada

E com o desconforto da alma mal-entendendo.

Ele morrerá e eu morrerei.

Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.

A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos

[também.

Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a

[tabuleta,

E a língua em que foram escritos os versos.

Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se

[deu.

Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa

[como gente

108


Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por

Sempre uma coisa defronte da outra,

[baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa tão inútil como a outra,

Sempre o impossível tao estúpido como o real,

Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de

109

[mistério da superfície,

Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa

[nem outra.

Mas urn homem entrou na Tabacaria (para comprar

[tabaco?),

E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.

Semiergo-me enérgico, convencido, humano,

E vou tencionar escrever estes versos em que digo o

[contrário.

Acendo urn cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os

[pensamentos.

Sigo o fumo como uma rota própria,

E gozo, num momento sensitivo e competente,

A libertação de todas as especulações

E a consciência de que a metafísica e uma consequência

[de estar mal-disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira

E continuo fumando.

Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira

Talvez fosse feliz.)

Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira

[das calças?).

Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.

(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)

Como por urn instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.

Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o

[universo

Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono

[da Tabacaria sorriu.

Poesiass de Álvaro de Campos (Lisboa, Ática, 1964),

pp. 250-257.

110


BIBLIOGRAFIA

Obras de Fernando Pessoa

Poesia e prosa (principais títulos):

Mensagem de Fernando Pessoa

Poemas de Fernando Pessoa

Quadras de Fernando Pessoa

Poemas de Alberto Caeiro

Odes de Ricardo Reis

Poemas de Álvaro de Campos

Poemas Ingleses

Livro do Desassossego de Bernardo Soares

Obras de António Mora (Lisboa, INCM, 2002)

Escritos sobre o Génio e a Loucura de Fernando Pessoa. 2 vols.

(Lisboa, INCM, 2006)

Educação do Estóico de Fernando Pessoa (Lisboa, INCM, 2007).

Epistolografia:

Correspondência. 2 vols. (Lisboa, Assírio & Alvim, ).

Estudos sobre Fernando Pessoa

(apenas alguns títulos)

Maria Teresa Schiappa de Azevedo, Rostos de Pessoa (Coimbra,

MinervaCoimbra, 2000).

Maria José de Lancastre, Fernando Pessoa. Uma Fotobiografia

Lisboa, INCM, 1981).

Georg Rudolf Lind, Estudos sobre Fernando Pessoa (Lisboa,

INCM, 1981).

111


Eduardo Lourenço, Pessoa revisitado (Porto, 1973).

Jacinto Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando

Pessoa (Lisboa, Verbo, 4 1973).

João Gaspar Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa (Lisboa,

Bertrand, 3 1973).

Para mais completa bibiografia vide José Augusto Sebra

(Coord.), Fernando Pessoa, Mensagem. Poemas esotéricos

(Madrid, Archivos e Fund. Eng. António de Almeida,

1993), pp. 473-530.

Última casa em que viveu Fernando Pessoa.

112


ÍNDICE

Prefácio ………………………………. 7

Introdução …………………………. ……..... 9

Cronologia mais significativa ............... 11

«Encontro com Fernando Pessoa»

por Dulce Mendes ......................... 13

Antologia ………………………………....... 39

Fernando Pessoa ………………………... 41

O dos Castelos …………….................. 41

Ulisses …………….............................. 42

D. Dinis ……........................................ 43

D. João o Primeiro .…........................... 44

D. Filipa de Lencastre .....……………. 45

D. Pedro Regente de Portugal ..……… 46

D. João o Segundo .….......................... 47

O Infante …………………………….. 48

O Mostrengo ………………................ 49

Mar português ……………………….. 51

As Ilhas Afortunadas .....……………... 52

Como a noite é longa .....…………….. 53

O sino da minha aldeia .....…………… 55

Ela canta, pobre ceifeira .....………….. 56

Paira à tona de água .....…………….... 58

Natal ………………………………..... 59

Chove. É dia de Natal .....……………. 60

Gato que brincas na rua .....………….. 61

Do vale à montanha .....…………….... 62

113

Pág.


O menino da sua mãe .....…………….. 64

Autopsicografia .....……………........... 66

Isto ………………………………....... 67

Eros e Psique ………………………… 68

Liberdade ……………………………. 70

Várias quadras .....……………............ 72

Alberto Caeiro ………………………..... 77

Guardador de rebanhos IX…………... 77

Guardador de rebanhos XX………….. 78

Guardador de rebanhos XXVIII……... 80

Guardador de rebanhos XL…………... 82

Ricardo Reis ………………………......... 83

Coroai-me de rosas ………….............. 83

As rosas amo dos jardins de Adónis .... 84

Prefiro rosas, meu amor …………...... 85

Tão cedo passa tudo quanto passa ...... 86

Prazer, mas devagar …………............ 86

Lenta, descansa a onda que a maré deixa 87

Quer pouco, terás tudo …………........ 88

Não só quem nos odeia ou nos inveja . 88

Álvaro de Campos ……………………… 89

Ao volante do chevrolet pela estrada

de Sintra ..................................... 89

Todas as cartas de amor são ridículas 93

Dois excertos de odes I ……………... 95

Tabacaria ……………………………. 101

Bibliografia ……………………………........ 111

Índice ………………………………………. 113

114


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