FEVEREIRO DE 1921

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FEVEREIRO DE 1921

RIO ÜE JANEIRO

FEVEREIRO DE 1921


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•« V.

1

Illustrâção Brazileíra

REVISTA MENSAL

Propriedade da Sociedade Anotiyma O MALHO

Rua tio Ouvidor, 164 — Rio de lansiro

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Para o Estrangeiro

Um anno 3Ó$ooo

Y Kão lia assignatura de semestre.

Os exemplares para os Srs. assignantes são

enviados pelo correio, sob registo.

N U M E R O S A V U L S O S R

No Rio 2$000

Nos Estados 2$5oo

Atrazadòs 3$ooo

A correspondência sobre assignaturas e remessa

de números deve ser dirigida ao directo/gerente

A. SERGIO DA SILVA JUNIOR. Collaboração

literaria, artística ou photographica, ao directorsecretario

ALVARO MOREYRA.

06

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66, RUA 5ETE DE SETEMBRO, 66 - antigo 34 e 36

= = = RIO DE JANEIRO =

de 1' cias e, na Ex-

posição de 5. Luiz,

America do norte

em 1904, (com o

grande premio), na

Exposição Placional

de 1908, c-m o

grande premio, o

qual recusou


Na escolha de um 'automóvel tres são os factores que se devem

levar em conta, a saber :

SEGURANÇA,

ECONOMIA e

BELLEZA,

(3 S T U D E B A K E R os possue em gráo máximo. Testemunhas

deste facto são os centenares de carros fazendo o serviço de praça

na cidade do Rio de Janeiro e outras do interior, e os centenares de

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f0K

^nino.

CV^ »nS W°


Anno

N.° 6

reverei ro

de 1921


Quem actualmente demorar sua attenção sobre

os uniformes do Exercito brazileiro ficará

convencido de que elles são organisados por pessoas

que do assumpto nada entendem. Os erros

de esthetica militar e de significação dos ornatos

accumulam-se, de maneira que a impropriedade

das divisas, dos galões e de outros enfeites

resalta á primeira

vista. E quem conhecer

um pouco

da historia das

nossas fardas, verificará

que o soldado

brazileiro é o

único que veste

trajes que o não

ligam ao seu passado

e á sua historia

guerreira. D&fri.

a ausência de cai


P A I Z A G II M

L Ü Z T R O P I C A L

QUADROS DE MARIO NAVARRO

DA COSTA ,


Vives. . . e em tua vida inquieta ou mansa,

Cheia de gloria, ou de incerteza cheia,

Cons tróes teu sonho erguido na esperança,

Tanto mais frágil, quanto mais se alteia...

Depois, fio subtil, na ignota teia

Teu pensamento pelo espaço avança...

Mas tem a indecisão e a semelhança

De passos fugitivos pela areia. . .

* íí v • i :

Wh* : VV Ç

t&cztic*^

Julgas que crês, e a duvida te esmaga !

Ardes, deliras... tudo inutilmente,

Pois, do incêndio interior que se propaga,

fica-tc apenas; quando o sonho passa,

r

Um punhado de cinza inconsciente

li uma remota sombra de fumaça...

Roma, Dezembro de 1920

UM GRAVADOR TRABALHANDO — AGUA I ; ORTJJ DIC CAKLOS OSWAUXX

S: ^ ' > «M

^ w

*

» '


ANTO se tem dito do mestre, tanto e tão bem se tem falado

e escripto -de sua vida como de sua morte, que áquelles, qual

o autor destas linhas, de parvos talentos e não maiores poderes

de expressão, nada mais resta, para manifestarem a

r

J> magua -de o perderem, que a repetição do que outros mais

'j/ destros o fizeram já.

De feito, no mundo portuguez (e por isso entendo,

^

'

com perdão dos nacionalistas, os povos que se exprimem

na língua de Camões) vingamos garantir não ha cultor do

vernáculo que não conheça o Dr. Ernesto Carneiro Ribeiro

v e lhe não teça os mais justos gabos ao nome illustre. Seus

livros, fartos repositorios de sciencia philologica, compostos

em linguagem

classica, fi gu ram,

jóias de apurado quilate, em todas as

bibliothecas do Brazil e de Portuga'

Além de outras obras sobre linguistica

e assumpto vario, duas — Serões

Grammaticaes e A Redacção do

Codigo Civil e a Replica do Dr. Ruy

Barbosa — são monumentos que ficarão

para sempre de pé nas letras dos

dois paizes.

Vem a pello rememorar a lustrosa

polemica travada entre Carneiro Ribeiro

e Ruy Barbosa,


JI TMA das maiores surpresas destes últimos dias de

jtl Janeiro foi tirarem-se os andaimes que escon-

^^ diam a nova Banca Francese e Italiana. Surpresa

architectonica.. . Nos meus tempos de creança,

lembro-me muito bem que os andaimes eram

tão mal feitos e abertos que muito antes de terminado

o edifício já todo mundo lhe conhecia as feições.

Deixem passar estas feições !. .. E* velho véso

meu amar sensualmente as linhas das casas, agradar-me

de umas, antipathisar-me com outras, namorar

algumas, desejar duas ou tres como se fos-sem

vivíssimas personagens. Houve mesmo uma época da

minha vida em que, atenazado por vôsga neurasthenia,

o meu espirito ficou as-ombrado por uma

phobia cruciante: as casas. lembravam-me uma porção

de cabeças de entes enterrados. Não sahta á rua

que me não perturbassem immediatamente o espírito

recordações de supplicios tartaros e chinezes. E a

existencia para mim resumia-se á comtemplação de

um circulo único e sobremaneira monotono, dum inferno

dantesco. Mas isso foi nos tempos que já lá

vão. A neurasthenia passou e os chins enterrados

passaram também. Mas as casas continuaram para

mim a viver como seres vivos» cada qual com o seu

rosto, ou sorridente de belleza ou infelicitado pela

feiura. Mas isto é falar de mim... Ia eu dizendo

que, tirados os espessos andaimes que ciosamente a

guardavam, appareceu aos olhos dos paulistanos da

rua Quinze a nova fachada do Banco Francez e Italiano.

Houve grande surpresa. Os peralvilhos estremeceram

ante a severa imponência daquellas linhas

que só admittem deante de sl o amor grandioso e

italiano do Dante por aquella que parecia tanto eeria

quanto gentil. Os basbaques, mesmo sem comprehender

nada daquella serenidade e daquella nobreza,

pararam por uns instantes deante do edifício

as suas boccas eternamente escancaradas. Os que se

dizem conhecedores em arte, exultaram. — "Aquilio

é renascença italiana. Quando estive em Perugia..."

E' com effeito uma bella inspiração duma

renascença florentina. E' bem uma inspiração e não

uma imitação do estylo florentino, dos princípios da

Renascença, ainda saudoso do gothico nas rendilhadas

janellas com possantes columnas que relembram

as da escadaria do palacio Davanzati. O largo tecto

debruçado sobre a rua inspirou-se mais directamente

na Reggia dei Bigallo, assim como os almofadões

salientes da fachada transportam-nos mais para dentro

do século quinze, recordando as obras de Michellozzo,

Da Maiano, Cronaca. E* um monumento imponentíssimo,

embora, por se cingir demasiado a uma

época em excesso de nós longínqua, seja um pouco

frio e exaggerado. Um pouco frio... Valeria mais

dizer morno. O que me irrita sobremaneira na actual

habitação da Banca Francese e Italiana é a quantidade

das lanternas que lhe illuminam o rosto. E'

o caso da educadíssima e linda moça que. fantaziando-se

de Gioconda, passou um baile inteiro As

gargalhadas, só porque a inspiradora de Da Vinci

sorria... Seguem nas linhas geraes a celebre lanterna

de Xicòlo Grosso Caparra, desse milagre de

proporção e grandeza que é o palacio Strozzií^u

não sei muito bem que heroicos serviços tenha prestadô

a Banca, nem a qual das patrias os prestou,

si á França, á Italia ou ao Brasil... Nos tempos

augustos de Florença, quando exteriormente a republica

se debatia entre lutas e ambições, emquanto

a cidade toda se engalanava de carnavaes brilhantíssimos,

porque

"Di doman non c'é certezza",

só podiam ter lanternas na frontaria das suas

mansões os senhores nobilitados pelo hero smo, dos

quaes, pela ousadia dos seus sacrifícios ou temeridade

das suas emprezas, a patria era credora de galardoe?.

Hoje um banco, por sua alta recreação, borda

com lanternas todos os andares e o alto da sua

residencia, quando Américo Vespucio só tinha uma

no seu lar, em Borgo Ognissanti!.. . Permittam-me

os leitores da Illvptração Brazileira que só mais uma

vez, a ultima do mundo, me seja permittido o :

Tcnípora mutaniur !. . .

Afinal, estou muito longe do meu fim. Embora

uma retirada de andaimes, seja mesmo num casinhoto

de pobres, de assumpto mais que suffíciente

para uma chronica... E querem ver como dá? "Os

andaimes". Summario : "Retiram-se os andaimes de

uma pequena casa na rua Cardoso de Almeida. —

Mais uma casa. — A gota d'agua é o gérmen dos

atlanticos. — A grandeza do novo bairro das Perdizes.

— A nova casa cm relação a elle. — Psycholo-

áXO

gia da gota d'agua.—A solidão das casas novas vazias.—

Que familia fará florir o novo lar. — A cantiga

do brazeiro acceso. — O mysterio interior das

moradias.— As proprias paredes duma resdancia

são os andaimes duma nova familia. — Mas não se

retiram nunca. — A familia é um edifício que não

acaba. — E muitas vezes a sua construcção é abandonada

em meio. — A tristeza ruinosa dos edifícios

inacabados. — A nostalgia dum futuro que não veiu.

— Minha vontade de repor aquelles andaimes no logar.

—- Para que a casa não se terminasse. — E assim

uma familia não n'a viria habitar. — Para, quem

sabe ? parar em meio caminho da sua propria construcção.—

A nenia dos andaimes. — E uma phrascr

bonita, bem acabadinha, como chave de ouro". Já

viram que dá. E se eu entremeíar a chronica com

um ou dois versos de Verhaeren e de Coppée, e uma

anecdota, que se não existir inventa-se, tínhamos

uma chronica, que algum Mario de Alencar, piedoso

e amigo, poria em livro depois da minha morte.

E quem sabe mesmo si a Revista da Língua Portugueza

— esse Te Deum Laudamus ! mensal, ao conselheiro

Ruy — não a reproduziria nas suas paginas,

onde em phrases de primor, o bom falar de antanho,

galhardo e numeroso, exsurge, amostrando a

francelhos e galicanos, o subido quilate da -sua prata

antiga !

Apenas : eu me perdi novamente. Estava a dizer

que, "embora uma retirada de andaimes, seja

mesmo num casinhoto de pobres, dê assumpto ma's

que sufficiente para uma chronica" a minha intenção

nesta era falar sobre a bella architectura de

São Paulo, e contar que os paulistanos têm um secreto

orgulho dos seus bon3 e bellos edifícios. (A

respeito da Revista da Língua Portugueza sei uma

anecdota engraçadissima. Já agora não a contarei.

Ficará para outra vez, si calhar.) Na verdade si

em edifícios públicos o Rio poderá levar a palma a

São Paulo, e certamente a leva... no numero, a

edificação particular é incontestavelmente mais perfeita,

mais bella e ma s adiantada na Paulicéa que

em Guanabara. Por infelicidade, com a vinda de architectes

belgas, suecos, austríacos, allemães, italianos,

francezes e lusitanos, os vários estylos importados

com esses artistas dão a São Paulo esse aspecto

de exposição internacional, peculiar a todas as

grandes cidades da America e a bairros novos das

cidades européas. Si Jean Christophe viesse á Paulicéa,

surprehendel-o-ia a mesma disparidade esthetica

do bairro berlinense onde morava Hassler. Ha

uns cinco annos atraz ainda uma certa uniformidade,

proveniente talvez de serem dois ou très engenheiros

só a desenhar habitações, revestia a cidade

ESTADO DE SANTA CATHARINA — SERRA — S. JOAQUIM.

com a graça amavel e luminosa dum renascença

simples, sem data, mais italiano que francez, e que

lhe dava um aspecto de Turim. Hoje o grego, o renascença

de todas as épocas, o gothico. o manuelino,

o arranha-céo e o bungalow — que o Sr. Lfcinio Cardoso

se sentiu inclinado a considerar um estylo, na

sua "Philosophia positiva da Arte — emfim um semnumero

de estylos ostentam as suas linhas curvas,

rectas, quebradas, retorcidas, numa promiscuidade

de gostos e de gestos. Até o sesseccionismo e

o allemão pesadíssimo de Munich e Dresde entraram

na exposição. O aspecto geral da urbe está sensivelmente

prejud cado, embora a grande maioria dos

edifícios assignados por um archltecto, considerados

insuladamente, sejam notáveis pela belleza e perfeição.

Mas o que ha de mais glorioso para nós é o

novo estylo néo-colonial, que um grupo de architectos

nacionaes e portuguezes, com o Sr. Ricardo Severo

á frente, procura lançar. Ha já exemplares interessantíssimos

e a residencia do Sr. Numa de Oliveira

é uma obra prima. Não me consta que já tenha

havido no Brazil uma tentativa de nacionalisar

a architectura, estylisando e aproveitando os motivos

que nos apresenta o nosso pequeno passado artístico,

e formando construcções mais adaptadas ao

meio. Ouvi dizer que Hercules Florence fez uma vez

uma communicação a uma sociedade de engenharia

italiana sobro mais uma ordem architectonica inventada

por elle, estylisando o estipite da palmeira...

E é só. O néo-colonial que por aqui se discute é infinitamente

mais audaz e de maior alcance. Si o publico,

bastante educado, ajudar a interessante iniciativa,

teremos ao menos para a edificação particular

(e é o que importa) um estylo nosso, bem

mais grato ao nosso olhar, hereditariamente saudoso

de linhas anciãs e proprio ao nosso clima e ao

nosso passado.

São Paulo será a fonte dum estylo brasileiro.

Estou convencido de que não, mas creio firme e gostosamente

que sim. Perdoem-me esta phrase que mais

parece de Hegel ou de B?nedeto Croce. Quero crer

que São Paulo será o berço duma formula de arte

brazileira porque é bom acreditar em alguma cousa.

Não sou critico nem philosopho: sou chronista. Ah!

deixem-me sonhar. Deixem-me crer que embora perturbado

pela diversidade das raças que nelle avultam,

pela facilidade de communicação com os outros

povos, pela vontade de ser actual, europeu e futurista,

o meu estado vae dar um estylo architectonico

ao meu Brazil. Ah ! deixem-me sonhar !...

MARIO DE ANDRADE.


YoKou da Europa o Sr. Dr. Rodrigo Octá-

vio. chefe da Delegação que representou o Brazil

na primeira assembléa da Sociedade das Nações,

reunida em Genebra, a 15 de Novembro do anno

passado. Compunham a Delegação, além do in-

signe jurisconsulto, os Srs. Drs. Gastão da Cunha,

embaixador em Paris e nosso representante no

Conselho da Sociedade, e Raul Fernandes, depu-

tado e nosso representante junto á Commissão de

Reparações, que funcciona em Paris. Foi delega-

do technico o Sr. Barbosa Carneiro, nosso addido

commercial cm Londres. Como secretários servi-

ram os Srs. Pedro Moraes e Barros, secretario de

Legação em Berna, Fernando Mendes de Almeida'

Filho, secretario da nossa Delegação á Commissão

de Reparações, e Alvaro da Cunha, cônsul cm Dun-

kerque, e como addidos militares os Srs. coni-

mandante Penido e coronel Andrade Neves.

Duraram até fins de Dezembro os trabalhos

da Assembléa, nos quaes a Delegação Brazileira

tomou parte muito activa, collaborando intensa-

mente nos affazeres das commissões e desenvol-

vendo uma acção diplomatica de approximação

sul-americana, que foi coroada dos mais auspicio-

sos resultados.

O Sr. Dr. Rodrigo Octávio aproveitou, duran-

te a sua estadia na Europa, a circumstancia de se

achar em Paris o Sr. Alexandre Conty, embaixa-

dor francez 110 Brazil, e proseguiu as negociações,

aqui iniciadas com aquelle embaixador, quanto ao

reconhecimento dos nossos direitos sobre os na-

vios allemães que se achavam em nossos portos *

que requisitámos por occasião da guerra. Nessas

negociações estudou-se o modo de considerar taes

navios em face do Tratado de Yersailles, matéria

sujeita aos mais contradictorios pontos de vista.

Todas as duvidas entre o Brazil e a França fica-

ram resolvidas, prevalecendo inteiramente os nos-

sos desejos, baseados, aliás, em dispositivos do

Tratado.

• i f c ^ . <

wmm.

ASSEMBLÉA SOCIEDADE NAÇÕES.

O SR. PAUL HYMAXS, PRESIDENTE DA ASSEMBLÉA, LKXDO O SF.U DISCURSO EM FRENTE Á ESTATUA DE J. J. ROUSSEAU, NA

REALISAÇÃO DA HOMENAGEM RESOLVIDA POR PROPOSTA DO SR. RODRIGO OCTÁVIO. — OS DELEGADOS E POVO RETIR A N DO - S E DEPOIS DA SOLEM NIDADE.


A DELEGAÇÃO QUE REPRESENTOU O BRAZIL NA PRIMEIRA ASSEMBLÉA DA SOCIEDADE DAS NAÇÕES : SENTADOS, DA ES-

QUERDA : SRS. GASTÃO DA CUNHA, RODRIGO OCTÁVIO, RAUL FERNANDES E ANDRADE NEVES J EM PÉ: SRS. COMMANDAN-

TE PENIDO, MORAES E BARROS, ALVARO DA CUNHA, FERNANDO MENDES FILHO E BARBOSA CARNEIRO.

O BANQUETE DA DELEGAÇÃO BRAZILEIRA, NO QUAL TOMARAM PARTE, ALÉM DOS NOSSOS, TODOS OS DELEGADOS DOS DIVER-

SOS PAIZ ES QUE SE FIZERAM REPRESENTAR NA ASSEMBLÉA DE GENEBRA. VÊEM-SE, AO CENTRO, DE UM LADO O SR. RODRIGO

OCTÁVIO, CHEFE DA DELEGAÇÃO DO BRAZIL, E DO OUTRO O SR. GASTÃO DA CUNHA, NOSSO EMBAIXADOR EM PARIS. NUMA

DAS EXTREMIDADES DA MESA ESTÁ O SR. AFFOKSO COSTA, DELEGADO DE PORTUGAL.


STAMOS sentindo o gesto de espanto

que faz o leitor á vista destas palavras:

um rei do Paraguay completamente

-desconhecido e um imperador

daquella famigerada gente, intrépida,

orgulhosa e forte, que, durante quasi

tresentos annos, "desbravou os invios

sertões, para o sul, até á cordilheira

dos Andes, transpondo, deste modo,

a linha de Tordesilhas, e para o norte, até os confins

do rio Amazonas, — obra admiravel que, com

ter desvendado mais vastos horizontes á nacionalidade

brazileira, constitue um cyclo heroico incomparável,

único, sem rival na historia do continente

colombiano.

O caso- é realmente muito original e de imprevisto

maravilhoso, e, quando, por um mero

acaso, nos caiu nas mãos um curioso livrinho,

anonymo e enigmático, intitulado pomposamente

Histoire de Nicolás I, roy du Paraguai., et empereur

des Mamelus, e dado- como impresso em São

Paulo, em 1756, tivemos a.mesma sensação de surpresa.

Não ha duvida que logo nos despertou uma

reminiscência muito vaga de velha leitura, em que

se fazia allusão, ou mesmo clara referencia, a um

aventureiro que conseguira ser rei entre os indígenas

do Paraguay. Onde, porém, iriamos agora

descobrir o fio do, Ariadna que nos levasse seguro

ao autor em que encontráramos ha tempos essa noticia,

que então nos passára despercebida e só agora

nos interessa? Tanto pelo seu conteúdo, quasi

inexplicável, como pelo seu valor intrínseco, o livro,

que tem ainda o sabor especial de obra contemporânea,

é realmente desnorteador. Dest'arte,

envolvia o nosso trabalho duas ordens de investigações,

uma quanto á especie bibliographica e outra

concernente á historia, o que mais aguçou a

nossa curiosidade, sempre activa e solicita para esse

genero de pesquizas.

Nenhuma noticia .da preciosidade bibliographica

nos deram os catalogos consultados. Ninguém

conhecia o opusculo e muito menos a exquisita

aventura que nelle se divulga com o caracter fie

historia authentica. Havia o facto escapado ás pacientes

investigações de Varnhagen, erudito de

subido quilate e profundo autor da " Historia Geral

do Brazil", como passára incógnita ao incansável

Capistrano de Abreu, um dos raros conhecedores

dos escondidos mananciaes da nossa chronica,

mas sempre puerilmente cioso dos seus achados e

fontes, e aos intelligentes estudiosos da vida colonial

paulista Pedro Tacques, Azevedo Marques,

Theodoro Sampaio, Affonso Taunay, Washington

Luis e outros. O proprio Dr. José Carlos Rodrigues,

um especialista que conseguira reunir cerca

de 3.000 especies bibliographicas brazileiras, sendo

a sua collecção a mais notável do paiz, ignorava

absolutamente o livro e a existencia do suppositivo

soberano das duas gentes (1).

Tanto- meditámos ácerca de tal assumpto que

afinal demos com o tenue fio revelador. Após pa-

(1) Com effeito, na abundante "Bibliotheca

Brasiliense" não figura a "Histoire de Nicolas

embora se encontrem verdadeiros incunabulos,

vários cimelios e innumeras raridades, taes como

a edição latina, impressa em Roma. por Stephane

Plannk, em 1493. da carta que Colombo endereçou

a Sanchez, o thesoureiro do rei D. Fernando,

referindo o descobrimento das "ilhas da índia

além do Ganges", tido como o livro mais antigo

sobre a America; a "Copia der Newe Zeitung

aus Presillg Landt", de 1514, sem duvida o mais

antigo impresso sobre o Rio da Prata, e de quo

são conhecidos apenas quatro exemplares; a "Cosmographise

Introductio", de Martinho Waldseemuller,

que, sob o nome de Ilacomylus. neHa imprimiu,

em S. Deodato, em 1507. a traducção latina

das quatro cartas conhecidas de Américo

Vespucio; e o "Paese nouamente retrouati". de

Francanzio de Montalbodo estampado em Vicencia,

em 1507, e contendo, pela primeira vez. impressa

a narração' da viagem de Cabral ao Brazil.

Além destas, registra o catalogo José Carlos

Rodrigues outras muitas raridades, destacando-se

ainda onze edições da "Cosmographia" de

Ptolomeu, impressas entre 1508 e 1573, oito das

"Décadas", de Pedro Martyr Angleria, obra que

veiu pela primeira vez á luz em 1516, quatro da

"Cosmographia" de Apiano, apparecidas em 1524

a 1575, quatro da "Historia general y natural de

las índias", de Oviedo, de 1535 a 1723, e a preciosíssima

"Relacion y commentarios" de Cabeza

Aiwa iiKVg/jiÇ&lçõo

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cientes e penosas pesquizas, lendo os chronistas espanhóes

do século XVIII e consultando os nossos

principaes historiadores, Southey facilita-nos a tarefa.

Ha mister, porém, assignalar aqui uma circumstancia

assás curiosa, para que se veja quanto

é verdadeira a maxima italiana do Traduttore,

traditore. Na traducção brazileira da Historia do

Brazil de Robert Southey (2), encontramos varias

indicações a respeito, mas sem que delias pudéssemos

inferir alguma cousa para identificar o

livro que tanto nos intrigava. No nosso parecer,

Southey conhecia-o não de visut mas por informação,

se bem que bastante ampla. A transcripção

de um trecho do opusculo, 110 original francez,

feita pelo historiador britannico e reproduzida

na traducção, nos deixou cuidadoso e pensativo.

Ao mesmo tempo que nos fez especie o quasi silencio

de Southey relativamente á Histoire de Nicolás

I, quando mostrava ter tido noticia da obra,

pela citação que fizera, começámos a desconfiar

da probidade do traductor. Naturalmente, empenhados

que estavamos em descobrir-lhe a procedência

ou estabelecer a authenticidade do texto,

procurávamos então consultar o autor -na edição ingleza

e grande foi a nossa surpresa quando se nos

depararam longos trechos de maxima importancia,

que haviam sido esquecidos, senão sonegados pelo

trasladador patrício, como é fácil verificar-se.

Sem esses periodos, em que Southey fornece elementos

para elucidação do problema, é claro que

a nossa investigação, com ter sido mais demorada

e difficultosa, talvez não chegasse á conclusão que

adeante apresentamos. Só assim se explica, por outro

lado, ter ficado por tanto tempo ignorado no

Brazil, sob seu duplo aspecto, historico e bibliographico,

a curiosíssima Histoire de Nicolas I, roy

du Paraguai et empereur des Mamelus (3).

Restabelecido o texto- de Southey, a cuja competência

ficamos devendo agora a entrada para a

nossa bibliographia histórica de uma verdadeira raridade,

a pesquiza tomou outro rumo. Vejamos,

portanto, o que ha de verdadeiro em relação á ousada

aventura desse paraguayo, que, não contente

de ser rei do povo guarany, se fez proclamar imperador

dos paulistas. Tratando da repulsa dos

indios das Missões á execução do tratado de 13 de

Janeiro de 1750, celebrado entre Portugal e Espanha,

particularmente na parte concernente á

de Vacca, impressa em Valladolid, em 1555. Relativamente

aos livros mais antigos sobre o Brazil,

a collecção do eminente bibliophilo é quasi

completa e, além das edições "princeps" dos trabalhos

dê Duarte de Albuquerque, Laet, Barlaeus,

Moreau, Calado, Raphaël de Jesus, Santa Thereza,

Nieuhoff, Montanus, Britto Freire, etc. e de

innumeros opusculos pouco vulgares impressos

em Hollanda no século XVII, entre os quaes a

primeira edição do famoso "Brasilsche Geet

Sack", dado como impresso no Recife, em 1647, e

não citado por Asher no seu clássico "Bibliographical

Essay", conta a "Arte de grammatica da

lingua mais usada na costa do Brasil", de Anchieta,

publicada em Coimbra, em 1595, a primeira

edição da obra de Thevet "Les Singularitez

de la France Antarctique", publicada em Paris,

em 1557, e quasi desconhecida dos bibliophilos. e

as duas outras seguintes, doze edições da "Histoire

d'un voyage fait en la terre du Brésil", de

Jean de Léry. de 1578 a 1889, a "Histoire de la

nouvelle France, de Lescarbot, de 1609, os quatro

pamphletos de Willegaignon, datados de

1542 e 1562, e as primeiras edições da "Conquista

Espiritual" e do "Tesoro de la lengua guarany",

de Montoya, impressos em Madrid, no anno

de 1639, a "Relation succinte et sincère de la

Mission des Cariris", de frei Martinho de Nantes.

Quimper. 1707, e a obra de Antonil "Cultura e

Opulência do Brasil", editada pela primèira veEf

em Lisboa, em 1711, e raríssima. Falta, porém, a

"Histoire de Nicolas I" e bem assim as edições

"princeps" da " Walishafftige Beschreibung", de

Hans Stade, Frankfort, 1556, a "Historia da província

Santa Cruz", de Gandavo, Lisboa, 1576. e

a "Prosopopéa ", do Bento Teixeira Pinto. Lisboa,

1601, únicas lacunas que se notam, . talvez, na

admiravel "Bibliotheca Brasiliense".

(2) Roberto Southey: "Historia do Brazil".

traduzida do inglez pelo Dr. Luiz Joaquim de Oliveira

e Castro e annotada pelo conego Dr. J. C.

Fernandes Pinheiro, Livraria B.. L. Garnier, Rio

de-Janeiro, 1862, 6 volumes.

(3) • Rocha Pombo, n'a sua monumental "Historia

do Brazil", por exemplo, como verificámos

depois, não conhece o facto senão através da nota

truncada de Southey, que transcreve no vol. VI,

pag. ' 479.

IfloPlCCL

mm

mm

evacuação daquelle territorio pelos sete povos que

os jesuítas haviam aldeado nas reducções orientaes

do rio Uruguay (4), escreve o historiador inglez:

"Quando o então chefe dos guaranys soube do que

se passava, mandou logo livrar o jesuíta da perigosa

situação em que se achava, pedindo-lhe desculpas

pelas indignidades a que se vira exposto. Era este

novo capitão um certo Nicoláo Neenguirú, homem

bom, humilde e inoffensivo, e excellente tocador

de rabeca e que ambicionaria tão pouco o cargo

para que fôra eleito, quanto para o mesmo não estava

talhado, não podendo nunca passar-lhe pela

imaginação que ia tornar-se famoso nas gazetas

da Europa, sob o titulo de el-rei Nicoláo do Paraguay

(5)". Southey, que dá Nicoláo Neenguirú

como tendo succedido a Sepé Tyarayú, então chefe

dos guaranys, mais adeante escreve: "Foram os

jesuítas accusados de terem estabelecido no Paraguay

um império, como dominio seu exclusivo,

donde tiravam riquezas enormes. Affirinava-se defenderem

elles este império á força de armas, e,

negando todo o preito aos reis de Espanha, posto

ali um monarcha de sua própria fabrica, Nicoláo

por nome. Inventavam-se e faziam-se circular historias

deste rei Nicoláo. E com tão zelosa malignidade

se propagava esta falsidade, que até moeda

se chegou a bater neste nome, fazendo-a passar de

mão em mão na Europa, como irrefragavel prova

da accusação. Ignoravam os forjadores deste nefasto

plano não correr numerário 110 Paraguay,

(4) Trata-se da chamada "guerra guaranitica",

e o núcleo de resistencia contra os exercitos

alliados de Portugal e Espanha foi apontado

ao mundo civilisado como "uma poderosa republica

de 31 povoações tão ricas e opulentas em

frutos e cabedaes para os jesuítas, como pobres

e infelizes para os desgraçados indios" (Rei.

Abr.). Por mais banal ou ingrato que fosse o

episodio, teve o seu cantor no poeta José Basilio

da Gama, que escreveu o "Uruguay", obra em

cinco breves cantos e em versos endecassylabos

soltos, tyarm0ni0S(0s e sentidos, "como se não

escrevera nunca melhores na lingua portugueza"

(Veríssimo: "Obrs. poet. de Basilio da Gama", 40).

Além do merecimento de ser na literatura lusitana

o precursor do romantismo e nas letras brasileiras

o creador da poesia americana, o poema,

"admiravel epopéa". no dizer de Camillo ("Curso

de Lit.",. 247), e "a melhor corôa da poesia brazileira",

no pensar de. Garret ("Parn. Lusit."),

contém alguns episodios formosos, como a morte

da linda Lindoya, especie de Vénus guarany, em

que refulge o celebre verso:

Tanto era bella no seu rosto a morte!

(Canto IV.)

A obra impressionou os poetas contemporâneos.

Joaquim Ignacio de Seixas Brandão, nym

soneto ao autor, proclama:

Não é presagio vão: lerá a gente

A guerra do Uruguay, com a de Troya;

E o lacrimoso caso de Lindoya

Fará sentir o peito, que não sente.

("Parn. Bras.", 3 o cad., 32.)

Manoel Ignacio da Silva Alvarenga dedicoulhe

também uma ode, que começa assim:

•Génio fecundo e raro, que com polidos versos

("Obras"; 1, 289.)

e, por fim. Felinto Elysiio, no "Ultimo adeus ás

musas", acClamava o seu antigo companheiro da

"guerra dos. poetas":

Novos Camões o nosso reino illustrem.

Que cantem novos Gamas e Albuquerques.

Basilio, em Canto antfloquo forceja

Cantar Freire, na America famoso.

("Obras", 1, 417.)

O proprio Basilio, num assomo de legitimo

orgulho e commovedora confiança no seu estro,

terminou o poema, exclamando:

Serás lido, "Uruguay"...

(5) "History of Brazil", Longman Husst.

Kees, Orme & Brown. London. 1819. vol. III, 468,

trecho este a que o annotador da traducção brazileira,

o conego Fernandes Pinheiro, ajuntou a

seguinte nota: "Esta fabula foi de invenção jesuítica,

para arredarem de si a imputação de conspiradores,'

f;t'/enrin recahir a responsabilidade

sobre esse po bi^ na ajT^q u i m " (Pag. 35).


nem haver ali casa da moeda (6)." Finalmente,

numa longa nota, que se encontra na mesma pagina,

Southey fornece informações em que se ergue

o véo de novas perspectivas. Copiemol-a, integralmente:

"Na Apologia (7), paragrapho 11, se conta

que nas collecgões européa^ existem guardadas

muitas destas moedas com a effigie de Nicoláo.

Diz Dobritzhoffer terem sido ellas cunhadas em

Quito, não podendo, quem as via, duvidar da existência

do rei. "y cru m patuit fraus de nique. Ipse

Jiarttm monctarum cusor I. C. 1760 anno, 20 martri,

litcras ad regem dedit, quibus fàietur occuHis

inordacis conscientiae stimulis compelli se ad detcngcndum

flag'itium : Me veo forzado (verba sunt

Hispani) por unos secretos remordimientos de

consciência á descubrir esta iniquidad. Hoc scripto

detegitur venalis fi.dci et profligatae concicntiae

vir, a quo ad cudendos Nicolai regis num mos

fuerat itistigatus. Nomen hujus, et cognoment toiã

licet Hispaniã pcrviùlgatum, P. F. M. M. rcticendum

putavi, ne illi hominum classi, ad quam pertinct,

maculam adpergcrâm. Gaditanã in urbe vcrsabatur

anno 1768. " As iniciaes indicam com certeza

um padre, e, provavelmente, um frade. Na vida de

Pombal, escripta em italiano, tom. I, 127 (8), se

diz terem as moedas sido forjadas por D. N. Lac,

cavalleiro, e Fr. N. Mag., dominicano. Uma historia

de Nicoláo I fala em medalhas em logar de

moedas. "On frappa même á cette occasion plusieurs

médailles, qti' on a vues avec indignation en

Europe. La première de ces médailles répresenta

d'un côté Jupiter foudroyant les géants, et de

l'autre, on voit le buste de Nicolas I, avec ces

mots : NICOLÁJ I ROI DU PARAGUAI. La seconde médaille

représenta un combat sanglant, avec les attributs

qui caractérisent la fureur et la vengeance.

Sur l'exergue on lit ces mots: LA VENGEANCE AP-

PARTIENT Á DIEU, ET A CEUX QU'IL ENVOIE. " O

commentario de Southey é decisivo. " Não creio,

diz elle, que jamais existissem semelhantes medalhas

: o livro que as descreve não contém uma

única syllaba verdadeira em nenhum outro ponto,

devendo pois suppor-sc que seja neste consequentemente

falso. O seu' titulo é : Histoire de Nicolas

I, roy du Paraguai et empereur des Mamclus, a

Saint Paul, 1756. Foi impresso na Allemanha, e

composto por algum impostor faminto e ignorante,

menos 110 intuito de prejudicar os jesuítas, do

que na esperança de levantar dinheiro á custa da

credulidade publica. Fez elle de Nicoláo Roubiouni,

um espanhol de origem, educado como vagabundo

e jesuita por profissão, que fomentou uma

rebellião entre os índios em Nova Colonia, atacou

a cidadella, proclamou-se rei do Paraguay, atravessou

esse paiz á frente de um exercito, depoz c

matou os missionários, foi a São Paulo a convite

dos mamelucos e abi fixou a sede do seu governo,

tomando o titulo de imperador. Tal historia é ahi

tida como verdadeira, e o editor affirma no prefacio

que tudo quanto a esse respeito publicaram

as gazetas é falso (9). Imputa Dobritzhoffer a

fabula deste rei a Gomes Freire ou a Pombal,

não sei bem a qual dos dois: "Nicolas rCx illius

tantum in cerebro fuit natus, qui totã nos Paraguariã

exturbatus du dum peroptavit; ut nobis Hispanicac

domifiationis illã in provinda acerrimis

defcnsoribus amotis, Uruguayensem, quanta est rcgioncm

Brasiliae adjiciat finition is (10)." Mas é

gratuita a imputação. O homem em si mesmo de

tão pouca importância era, que o seu nome apenas

uma vez occorre na historia da guerra, que é

quando intervem em Yapcgu a favor do pobre je

suita. Foi aqui provavelmente que se originou' a

fabula. Tendo apparccido á frente de alguns combatentes

em Concepcion, e, como diz Dobritzhoffer,

Dossuindo os guaranys a palavra mburubicka,

que significa rei, capitão ou cacique, para designar

o chefe, isto deu maior vulto á versão (11). A

prova da sua insignificância é concludente. Supprimida

a insurreição, apresentou-se elle voluntariamente

a Andoancgui, no campo espanhol, a responder

por si ; foi escalado com paciência, e despedido

sem castigo algum, sendo, pelo contrario,

até reintegrado no seu antigo officio na reducção.

Dobritzhoffer conhecia-o bem, tendo-o visto muitas

vezes tanger o gado e rachar lenha na praça

publica. Frequentemente lhe beijára Nicoláo a mão,

pedindo-lhe alguma musica nova para a sua rabeca.

(6) Obra citada, vol. III, 473.

(7) Diz Southey tratar-se de um manuscripto.

(8) Deve ser a "Vita di Sebastiano Giuseppe

di Carvalho i Melo. March, di Pombal, Conte di

Oeyras, Secretario di Stato e primo Ministro dei

Re di Portogallo, D. Giuseppe I", sem indicação

de logar, nem de typographia, 1781, em 8 o , 5

tomos, obra composta pelos impressores florentinos

Pagani, que se serviram principalmente das

informações que lhes forneceram ex-jesuitas portuguezes.

(0) Estes períodos foram sonegados pelo

traductor.

(10 e 11) Trecho também supprimido pelo

traductor, . j . j..

Diz Dobritzhoffer que toda a historia deste rei foi

officialmente declarada falsa na Gazeta de Madrid;

vira elle a folha, e, ou estava muito enganado, ou

era de Outubro de 1768. Não duvido da veracidade

deste escriptor, mas falhara-lhe a memoria

iqu-anto á data. D. Manoel Abelha me fez a fineza

de percorrer, a pedido meu, todas as gazetas daquelle

mez e de alguns anteriores e posteriores,

sem poder descobrir semelhante declaração." Adiante,

tratando do modo como era vista na Europa

a sedição, damos com esta noticia no autor a que

alludimos: 44 Tal era a impressão produzida na Europa

pelas falsidades e exaggeradas descripçÕes,

que ao chegar a Buenos Aires a esquadra com

estas tropas a bordo (reforço que se havia pedido

para a metropole) julgou-se necessário, antes de

deixar desembarcar alguém, averiguar se estava

el-rei Nicoláo de posse da cidade (12)."

Nada mais se encontra na obra de Southey

em relação a tal aventureiro e, existindo pontos

controversos, duvidas e omissões fundamentaes,

resolvemo-nos proseguir a empreza. Antes de

tudo, procuramos conhecer a obra de Martin Dobritzhoffer,

jesuita allemão que serviu durant?

vinte e dois annos como missionário entre os guaranys,

e encontrámos não a Apologia da Companhia,

citada, como manuscripto, por Southey, mas

a Historia de Abiponibus equestre Bellicosaque

Paraquariae Natione (13), importante para a historia

e geographia dos paizes platinos, parecendonos

que o autor inglez lhe truncou o titulo. Salvo

alguns pormenores na parte em que expõe amplamente

a genese da falsa historia e estuda a origem

e composição do nome do cacique, a transcripção

de Southey é fiel. Dobritzhoffer affirma positivamente

que foram os portuguezes, empenhados

em annexar a extrema região uruguayana aos dominios

do Brazil, os inventores da\fabula, que nasceu

primeiro da ignorancia da lingua guarany e

logo depois foi divulgada pelos inimigos dos jesuítas.

Ao ouvirem os índios chamarem de Mburubicha

ou> Nundcrubicha ao seu chefe, vocábulo

que significa cacique, capitão ou chefe, e confundindo

esta denominação com as palavras Mburubichabete

ou Mburubicha guazu, grande capitão e

monarcha supremo, os espanhóes e lusitanos entenderam

que Nicoláo era rei dos guaranys.

Accrescenta o jesuita. que se Nicoláo tivesse adquirido

a dignidade real, cunhando moeda e creando

difficuldades ao rei catholico, não teria o governador

Andonaegui lhe perdoado a audacia, quando

o cacique se apresentou espontaneamente no acampamento

espanhol para justificar-lhe o procedimento.

Ninguém ignora, escreve, o castigo que os

castelhanos reservam aos rebeldes, e haja vista a

sorte que tiveram Atahualpa, inca do Perú, e Montezuma,

monarcha mexicano^ mortos cruelmente

pela simples suspeita de infidelidade ao rei de

»Espanha. A'cerca das medalhas que circularam

na America e na Europa com a effigie de Nicoláo,

não duvida que tivessem sido cu-nhadas no Paraguay,

onde, no emtanto, não existiam metaes nem

casa de moeda, mas informa que o seu autor foi

um certo individuo, cujo nome e appellido (P. F.

M. M.), embora divulgado na Espanha, elle silencia

para evitar a deshonra da classe a que pertence,

o qual. certamente um jesuita, acossado pelo

remorso, se denunciou em carta dirigida ao rei, datada

de 20 de Março de 1760. Por derradeiro, referindo-se

á celeuma que a historia do rei Nicoláo

produziu em Madrid, diz que Pedro Zevallos, enviado

com numerosas tropas para defender o Paraguay,

mandou declarar bfficialmente que era

falso tudo quanto se propalava a este respeito.

No Diário da expedição de Gomes Freire de

Andrade ás missões do Uruguay, pelo capitão Jacintho

Rodrigues da Cunha (14), mal se nos deparam

vagas referencias ao nosso heróe. Diz o referido

Diário: "A 22 (abril de 1756), pelas Ave- #

Maria, correu a noticia no nosso exercito de que

neste mesmo dia fugira da retaguarda um dos prisioneiros

da batalha do dia 10 de Fevereiro passado,

que era o artilheiro dos indios, cujo tinha sido

hespanhol, filho do Paraguay, e andava feito indio

destas Missões, para onde tinha desertado ha uns

poucos de annos, tendo sido soldado na sua mesma

patria, e o qual estimavam muito os padres da

Companhia destas ditas Missões, a quem elles o

tinham mandado, havia poucos dias, com grande

pressa, para o ataque dos indios da dita batalha,

por bom artilheiro seu, com que nos esperavam,

o qual ficando prisioneiro, vciu sempre preso de-

(12) Obra cit., vol. III, 498.

(13) A edição latina é de 1784 e publicada

em Vienna por José Nobe de Kuzzbek. existindo

uma traducção allemã, feita por A. Kiel, sob o

titulo "Geschuhte der Abiponer", 1783, 1784, 3

vols.

(14) Publicado na "Revista do Instituto Historico

e Geographico Brasileiro", 3® série, n. 10, 2 o

ssmestre de 1853.

baixo de guardas castelhanos, e das mesmas fugiu

(15)." Logo adiante, á pagina 274, accrescenta:

"Também hoje (5 de Maio de 1756), depois das

Ave-«Maria, correu a noticia no nosso exercito que

esta tarde chegaram a falar uns poucos de indios

do governador de Montevidéo, que andava vendo

as su-as ditas guardas, e um dclles lhe deu a conhecer

(mas de longe), dizendo que elle era o paraguay,

que na .batalha do dia 10 de Fevereiro passado,

sendo elle artilheiro dos indios, fôra prisioneiro,

e que do seu exercito tinha fugido 110 dia

22 do mez passado, e que elle agora vinha feito

general de todos aquclles indios, e que trazia uma

corda para enforcar o dito governador; que elle c

todos lhe hão de pagar com as próprias vidas o

máo trato que lhe deram e tiveram prisioneiro; e

disse-lhe mais que agora não vinham a pé, como

da outra vez, por culpa do seu general, que foi

Sepé, que por isso morreram tantos indios; mas

agora todos estão montados para lhes não succeder

outra vez o mesmo; e elle, que traz bons cavallos

e boas esporas; que já sabe como ha de

fazer a guerra a estes exercitos, e tem muito grande

numero de indios á sua ordem para isso..."

Taes palavras se referem, sem duvida, ao famoso

Nicoláo, mas é de observar que, segundo a versão

corrente, o successor de Sepé foi morto no combate

do dia 10 de Fevereiro, quando ahi é elle resuscitado...

No Diário Historico do padre Tadeo

Xavier Henis, um dos jesuitas que tomaram parte

mais activa na guerra dos guaranys, servindo desde

muitos annos na reducção de S. Lourenço, encontramos

informações conformes á versão dos jesuitas.

O seu autor refere-se varias vezes ao corregedor

ou cacique Nicoláo Nanguiru, sujeito principal

do povo de Concepcion, que havia sido eleito governador

ou capitão general desse povo, por morte

de Sepé, e, nesta qualidade, dirigira, em 1755 e

1756, vários ataques contra os portuguezes e espanhóes

(16). Ferdinand Dénis, que por mais de 30

annos se oceupou das cousas do Brazil, não ignorava

a existencia da lenda do rei do Paraguay, tanto

assim qnie, no seu' volume sobre o Brazil, escreveu:

"Ninguém ignora hoje os pormenores desta

guerra que os jesuitas do Paraguay sustentaram

tão resolutamente contra a coroa espanhola, e

durante a qual um fantasma de rei, o indio Nicoláo,

appareceu como representando os direitos de

sua raça (17)." Também nos Annaes da Provinda

de São Pedro, regista o visconde de São Leopoldo,

annotador de Southey, algumas referencias

ao famoso Nicoláo, figurando-o como successor

de Sepé. Referindo-se ao combate que se travou

no dia 10 de Fevereiro de 1756, junto ás lombas ou

coliinas de Caaybaté, diz4 que á testa de um exercito

de 2.500 indios se achava o "corregedor do

povo de Conceição, o bravo Nicoláo Languirú" c,

Inuma nota, accrescenta que "este Languirú ou

Neenguirú, simples automato, que só obrava pelas

encobertas mollas e impulsão dos jesuitas, he o

mesmo ácerca do qual estes regulares fnventarão

a fabula do rei do Paraguay Nicoláo I, com os

fins de se subtrahirem á imputação de serem o.;

verdadeiros autores da resistencia dos indios (18)."

O visconde de São Leopoldo, na referida nota, faz

menção da History of the Vice-Royality of Buenos

Aires, publicada em Londres em 1807, em que o

seu autor, Wilcoke, se refere ao rei Nicoláo I, divergindo,

porém, que era um frei Nicoláo de Lerico,

jesuita de grande autoridade nas Missões, e

cuja independencia, não sendo reconhecida nem

apoiada pelos chefes da Companhia na Europa, veiu

a decahir. Ayres de Cazal vagamente refere-se ao

"cacique Nicoláo, que na Europa passava por soberano

fantastico do reino guaranitico ", regedor di

missão de Yapegú, dando-o, erradamente, sem duvida,

como tendo 70 annos de idade e alquebrado,

isto em 1768, quando os jesuitas foram expulsos c

as reducçõcs entregues ao dominio lusitano (19).

Vamos encontrar na Historia do Brazil do padre

Galanti um vago commentario á Southey, por onde

se verifica que um escriptor francez se havia referido

ao assumpto (20). Com effeito, Crétineau-

(15) Obra cit., pag. 265.

(16) "Diário Historico de la rebelion y guerra

de los pueblos guaranis, situados em la costa

oriental dei rio Uruguay, dei afio de 1754", version

Castellana de la obra escrita en latin, Buenos

Aires. Imprenta dei Estado, 1836, na collecion

de "Obras y documentos relativos a la historia

antigua y moderna de las províncias dei Rio de

la Plata", de Pedro de Angelis, Buenos Aires, Imprenta

dei Estado, 1836.

(17) Ferdinand Dénis: "Brésil", Firmin Didot,

Fréres, Fils & C., Paris, 1843, 171.

(18) Visconde de S. Leopoldo: "Annaes da

Provinda de S. Pedro", Typographia de Cazimir,

Paris. 1839, 77.

(19) "Corograpliia Brazilica ou Relação Historico-Geographica

do Reino do Brazil", na Impressão

Regia. Rio de Janeiro, 1827, I, 161.

(20) Raphael Galanti: "Compendio de Historia

do Brazil", Duprat & C., S. Paulo, 1905, III,

286 e 287.


Joly, que é o autor referido, na sua historia da

Companhia de Jesus, lança alguma luz sobre a

questão. Para elle, a historia de Nicoláo I é manifestamente

fabulosa e attribue a circulação da

lenda, tão pittoresca na sua contextura, á machinação

dos inimigos dos jesuitas. Nega tudo quanto

se attribue ao cacique de Concepcion e procura

refutar, -naturalmente, toda a historia segundo a

versão jesuítica, apoiado no relatorio de D. Francisco

Guttierez de la Huerta, fiscal do conselho e

da camara. ao Conselho de Castella, -datado de 12

de Fevereiro de 1815, e nas relações de D. Pedro

de Cevallos, enviado em 1756, como governador de

Buenos Aires, pelo rei de Espanha, Fernando

VI. "Sob o titulo de Relação abreviada da republica

que os jesuitas das provindas de Portugal

fundaram nas possessões ultramarinas, e da guerra

que elles atearam e sustentaram contra os exerci

tos das duas coroas (21), Pombal espalhou á

profusão, na Península e na Europa, escriptos

cuja prova, sempre promettida, nunca appareceu.

Segundo essa Relação, os jesuitas no Paraguay

faziam monopolios dos corpos e das almas, eram o

Santo Padre ou rei de cada reducção. Haviam até ^

tentado reunir essas províncias sob o sceptro de

um dos seus irmãos coadjutores, ao qual tinham

dado o titulo de imperador Nicoláo I. A tão grande

distancia dos logares e dos homens, Pombal tinha

o direito da calumnia: calumnia por conta dos dois

reinos. Em Portugal, sua autoridade e suas ameaças

impediam a verdade a resaltar desse amalgama

de mentiras (22). "O imperador Nicoláo, no dizer

delle, é produeto da imaginação de Pombal e do

Duque d'Alba, que, como prova da sua existencia,

fizeram cunhar e espalhar medalhas de ouro e de

prata. Crétineau procurou estabelecer as fontes da

lenda, restituir á figura as proporções de um

simples cacique, innocente, submisso, pacifico,

religioso exemplar e respeitador da lei. Valeu-se

como argumento contra a fabula e até contra a

propria historia de uma supposta declaração em

que o Duque d'Alba confessava ser elle um dos

inventores de muitas calumnias contra os jesuitas,

uma das quaes era a fabula do rei Nicoláo I, e

ter sido uin dos que mandaram fabricar moedas

com a effigie do falso monarcha. Escreve elle, textualmente,

numa nota, a pagina 237, da obra citada:

"Au moment de mourir, le duc d'Albe déposa

entre les mains du Grand Inquisiteur, Philippe

Bertram, êvéque de Salamanque, une déclaration

portant qu'il était un des auteurs de l'emeute des

Chapeaux, qu'en 1766 il l'avait fomentée en haine

des Jésuites, et pour la leur faire impu-ter. Il

avouait aussi avoir composé en grande partie la

lettre supposée du Général de l'Institut contre le

roi d'Espagne. Il reconnaissait encore avoir inventé

la fable de l'empereur Nicolas I, et être un des

fabricants de la monnaie á l'effigie de ce faux

monarque." Taes informações são sobremaneira

curiosas e importantes, mas procedem todas de

fonte muito suspeita, e sem que possamos demonstrar

a falsidade delias, só confirmadas por historiadores

jesuitas, como Christoph von Murr, Cl. Muratorius,

autor da Paraquaria Felice, e outros.

Relata Murr no seu Jornal que o duque d'Alba fez,

em 1776, idêntica declaração, por escripto, a Carlos

III: "Dux de Alba pauto ante mortem (quae

larvam rebus detrahit) scripto declaravit Regi, se

ex inveterato iji Socieiatem odio, séditions popularis

ante erectam Societatem inccntorem, infantis

tibelli contra Regem conscripti. pritteipem autorem,

et fabulae de Nicoláo I Paraquariae Rdge, inventorem

fuisse, monetanque nocturni himus fungi

typo a se procuram, ac in Ilispania dispersam fuisse,

etc. (23). " Murr refere ainda que, em carta

datada de 29 de Fevereiro de 1777, um amigo de

Italia, provavelmente um jesuita, lhe affirmára que

a retratação do Duque d'Alba feita ao inquisidor

Pélippe Bertram era verdadeira, e bem assim d

conta que o autor da Paraquaria Felice, frade protestante,

refutou também a fabula de Nicoláo. Por

ultimo, Francisco Bauzá explica a origem da lenda

(21) liste documento faz parte da "Collecção

dos breves pontifícios e leiis regia«", etc. e foi.

pela primeira vez, publicado em 1757. pela Secretaria

de Estado. O seu verdadeiro titulo é "Relação

abreviada da republica que os religiosos jesuitas

das "províncias de Portugal e Hespanha estabeleceram

nos Domínios Ultramarinos das duas

monarchias, e da guerra que nellas têm movido

e sustentado contra os exercitos hespanhóes e

portuguezes, formada pelos registos das secretarias

dos dous respectivos principaes commissarios

e plenipotenciários; e por outros documentos authenticos".

S. I. n. d. 8 o , de 85 pags. Foi reproduzida

na "Revista do Instituto Historico e Geographico

do Brazil", Vol. IV, 265.

(22) J. Crétineau-Joly: "Histoire religieuse,

politique et littéraire de la Compagnie de Jésus",

Jacques Lecoffre & C., Paris, 185, troisième

édition, Vol. V, 132.

(23) "Journal ts'ur Kunstgeschiclite un zur

allgegeinen Litteratur, Nürnberg, ben Johann

Eberhard, 1780, Vol. IX, 221.

do rei do Paraguay do mesmo modo que os historiadores

e chronistas jesuitas. Narra que a noticia

espalhada malevolamente na Europa da existencia

de um poderoso império jesuitico, com soldados

que offereciam batalhas renhidas contra a 1

tropas portugiuezas e espanholas, é que deu origem

á fabulosa coroação de Nicolás Nanguirú, que

se pretendeu fazer acreditar com documentos e

até com moedas cunhadas pelo supposto soberano

das Missões, sem se lembrarem os autores do plano,

que nem numerário, nem casa de moeda havia

naquellas alturas. "Ni rey ni coza parecida habia

sonado ser nunca el aludido, ni tal lo supuzo ninguno

de los que le rodeaban" mas simples "caudilho,

rústico pastor, que, fuera de los menesteres de

su oficio, no tenia más habilidad que la de tocar

cl violon", diz Bauzá (24). Nicoláo Nanguiru

apparece ahi como natural e corregedor do povo

de Concepcion, onde gosava fama de humilde e

bom, e successor de Sepé, general dos guaranys,

que era dotado de notáveis propensões guerreiras.

Na batalha de Caaebaté (ou Kaibaté), commanda

cerca de 1.700 homens, armados de frechas, lanças,

algumas armas de fogo c oito canhões de taquara

c empunhando seis bandeiras com a cruz de

Borgonha, contra o exercito luso-espanhol, que

dispunha de 2.500 soldados. Foi esse o ultimo combate

da chamada "guerra guaranitica" e transformou-se

numa verdadeira hecatombe, porque tendo

tido os alliados apenas 4 mortos e 41 feridos, entre

estes últimos o governador D. José Andonaegui,

contu-so numa perna, a perda dos guaranys foi

quasi completa (25). Nicoláo Nanguiru foi morto,

com a fina flor de sua gente, na peleja, versão

que é confirmada por Andonaegui 110 seu Diário

e quasi todos os escriptores jesuitas que se occuparam

do assumpto. Outros escriptores antigos foram

consultados, e na maioria são concordes cm

negar tivesse o misero indio realisado a aventura

que lhe é attribuida. Occorre que, na sua historia

do dominio jesuita no Paraguay (Arkstee & Merkus,

Paris, 1780, III, 285), o bem informado padre

Bernardo Ibanez de Echavarry, ao referir-se a Nicoláo,

assevera que o mesmo era um simples instrumento

dos jesuitas, mas nunca se lembrara

elle arvorar-se de chefe independente de seu paiz,

af firmando, sendo que os jesuitas crearatn a

fabula do rei Nicoláo para evitar fossem apontados

como únicos autores da resistcncia á entrega

das missões. A opinião de Echavarry, que nos parece

insuspeita, porque, além de pertencer á Companhia

de Jesus, exerceu o cargo de secretario da

commissão espanhola de demarcação de limites,

contradiz a informação de Martin Dobritzhoffer,

que explica de outro modo a historia, como vimos.

Eis ahi tudo quanto nos foi possível colher de

vários autores ácerca do estranho caso do rei do

Paraguay. Suppomos a Iíistoire de Nicolas I quasi

inteiramente desconhecida no Brazil, por não ter

visto nunca nem mesmo a mais ligeira referencia

a semelhante obra, excepção de Southey, que a

conheceu por um exemplar adquirido em Génova,

em 1817, conforme declara numa sub-nota (26),

ainda supprimida pelo seu infiel traductor, e do

visconde de S. Leopoldo, que se refere á edição

italiana. No emtanto, ao que nos consta, existem

ivarias traduicçÕes do celebrado opus^cuÜo: duas

castelhanas e outra italiana. A versão italiana é

esta: Storia di Nicolá primo, rei dei Paraguay, e

imperator de Mamalucchi. Tradusion dei f rance se.

S. Paulo nel Brasilc. Si vende a Venczia, da Francesco

Pittcri (27). Quanto ás demais, a primeira

appareceu no numero de Dezembro de 1891 da Revista

dei Paraguay, de Assumpção, publicada por

D. Enrique D. Parodi, que fez uma tiragem á parte

de 100 exemplares, trabalho este reputado infiel e

omisso, e a segunda deve-se ao argentino D. Juan

A. Pradére, que, depois de transcrevel-a no fascículo

de Agosto de 1911 da Revista de Dcreclio,

Historia e Letras, de Buenos Aires, a editou em

opusculo de 47 paginas, precedida de um prefacio

ein que transcreve Dobritzhoffer e Bauzá, sein

cousa alguma de novo accrescentar ás asserções

ou informações destes autores, salvo o tom impertinente

da apologia de Nicoláo, " que positivamente

détubo el avance de los portugueses mandados por

Gomes Freire, qui se vió en la vergonzosa necessidad

de suscribir un armistício" (28) e "acaso

(24) "Historia de la Dominacion Espafiola

en el Uruguay", etc., Barreiro y Ramos, Montevidéo,

2« ed., II, 113.

(25) Rio Branco, nas "Epliemerides Brazileiras",

edição de 1919, a pag. 81, regista a batalha

de Caaebaté, resumindo evidentemente este autor.

(26) Obr. cit., vol. III, 474.

(27) Vol. in 8 o e de 89 pags., e vem annunciado

nos "Annali Litterari d'Italia", vol. I, liv.

I, cap. X, Modena, MDCCLXII.

(28) Pradere não se esqueceu de divulgar o

documento, que appareceu por elle transcripto no

numero de Julho dc 1911 da "Revista dei Dere-

merecia (Nicoláo) que sus hazanas fueran, sino referidas

con la pompa e el brillo que era creedor,

por lo menos con la sinceridade y la franqueza a

que tenia derecho por el elevado patriotismo de

sus móviles " (29) .

O volume que temos á vista é em oitavo e de

117 paginas, escripto cm francez, e exemplar bem

conservado, com o ex-libris da Bibliothèque de

Mr. L. Dufruit. O titulo da obra é: Histoire de

Nicolas I, Roy du Paraguai, et empereur des Mamclus.

A Saint Paul. 1756. A pagina 9 ostenta uma

pequena vinheta representando uma paizagem.

Além do Advertissemcnt du libraire, que occupa

as paginas 5 a 7, e do prefacio do autor, que vae

da pagina 9 a 12, divide-se o livro em 17 pequenos

capítulos, a saber: I — Naissance de Nicolas Roubiouni.

II — Filouteries de Roubiouni. III — Roubiouni

Laquais. IV — Roubiouni Muletier. IV

(repetido) — Roubiouni á M alaga. V — Nicolas

est reçu jeóuite. VI — Frère Nicolas devient éperdumet

amoreux d'une jeune espagnole. VII —

Frére Nicolas se marie á la face de toute une ville.

VIII — Revolte de Frérc Nicolas, et de quelques

autres frères Jésuites. IX — Frcre Nicolas

s'embarque pour l'Amérique. X — Frcre Nicolas

arrive á Buenos Aires. XI — Revolte des Indiens.

XII — Les Missionaircs sont chassés de l'Isle de

S. Gabriel. XIII — Nicolas se fait proclamer Roi

du Paraguai. XIV — Conquêtes dc Nicolas /. XV

— Combat entre Nicolas et quatre Réductions que

le danger avoit réunies. XVI — Nicolas I, reconnu

Roi du Paraguai et Empereur des Mapteius. Apezar

de tudo, não se conseguiu identificar o livro,

contra o qual os jesuitas, com razão, protestaram

com vehemencia. Southey, que, aliás, não costuma

ajuizar por intuição ou tradição, diz que não pôde

ser attribuido a sua autoria nem aos jesuitas, nem

aos seus inimigos, pois não defende nem accusa

os missionários. O mais que faz, além do que interessa

aos créditos do rei Nicoláo I, é justificar

o odio dos índios aos seus algozes, tanto espanhóes

como portuguezes. A parte que diz respeito

á personalidade de Nicoláo é a mais desenvolvida

do livro, a que mais dá da sua vida antes de haver

sido exaltado á realeza, e é também a que Southey

menos interesse ligou. Indubitavelmente, ha

nella muitos pormenores e incidentes que se ligam

aos tempos em relação aos quaes o proprio Southey

narra muita cousa que serviu de fundamento

para a lenda daquella estulta magestade do sertão.

Tudo isso faz crer que a historia de Nicoláo

não é de toda despida de verosimilhança e não se

poderá contestal-a como absurda á vista dos proprios

factos historicos expostos pelos autores contemporâneos

ás lutas que se travaram no território

das Missões. Se a coroação de Nicoláo é pura

fantasia, o que não resta a menor duvida, o mesmo

não se pôde dizer da sua qualidade de chefe

supremo dos insurrectos e da acção que exerceu

na luta contra os executores do tratado de 175°-

Foi esta, sem duvida, a origem da fabula : o morubixaba

de Concepcion, fôra elevado á magestade

de rei do Paraguay pela imaginação do autor europeu

do mesmo modo que o nosso Gangazuma,

o rei da "Tróia Negra", com a differença que

cho. Historia e Letras", dirigida por Zeballos, e

tratando do vilissimo cacique diz: "Su valiente

figura y su enérgica acción valen tanto 6 más

que las marchas, rivalidades, conferencias y conquistas

de los Gómez Freire, Andonaegui y Viana

y si estos tienen sus panegiristas, aquél no debió

tener su detractor. Cuanto debió gozar Nanguirú ai

obligar á alguno de ellos á suscribir un tratado

de suspención de hostilidades, en el cual si no imponia

las amplias condiciones de vencedor omnimodo,

por lo menos detenia en sus furores al orgulloso general

europeo. La resistencia constante y pertinaz

dei indio. chocaba con la ambiciôn y sed de venganza

de los invasores. Bien pudo sucumbir en un combate

aquel á quién no faltándole corazón y empuje

para luchar, se vió vencido por la fuerza de la« cosas

y aplastado por el numero y superioridad dei

enemigo ! Si la crónica de la guerra de las Misiones

registra algun nombre digno de ser ensalzado,

ese es el de Nanguirú, que con un ejército de ocasion

é indisciplinado, á base de indios, con cartones de tacuara

ferrados en cuero, con lanzas, flechas y bondas

contuve por un instante la marcha dei ejército

combinado (espflnoles y portugueses) que debian repartirse

las tierras de los indígenas con la misma

naturalidad con que se reparte á los pobres los restos

de un festin. Al plomo y al acero de sus enemigos

opuso su noble pecho varonil. Si el escenario histórico

resulta estrecho porque en él se dá cabida á

héroes que de tales solo tienem el nombre, obliguese

enhorabuena á salir de aquel á los que tal titulo

usurpan, pero no se les rriegue un lugar á los que

en su modesta esfera y en su humilde acción dcfendieron

el sagrado suelo de la patria con el mismo

ardor y enthusiasmo con que proceden los que

se ven favorecidos con galones y entorchados ó llevan

consigo un nombre que los escuda y salva de

todo olvido."

(29) "Historia de Nicoláo I, rey dei Paraguay

y imperador de I03 mamelucos", San Pablo,

Talleres de la Casa Jacobo Peuser, Buenos Ayres,

1911.


não teve o destemido zambi dos Palmares, como

Nicoláo, quem lhe escrevesse os feitos (30).

Vejamos o que nos dá o livro. Segundo nos

informa o editor no seu Advertissement du libraire,

a Histoire de Nicolas I, roy du Paraguai et empereur

des M ame lus, foi escripta por um marítimo,

um "bom piloto", e no. proprio theatro dos acontecimentos.

Por mais que se desculpe o tal editor

de todos os defeitos, repetições de phrases, negligencias

de estylo, etc., o que se vê é que a historia

-não é mal escripta, e até que o autor procura

disfarçar as suas aptidões de escriptor. A advertência

do editor é esta: "Je n'ignore pas les défaus

de l'Histoire que se présente au public; on

me les a assez montrés. J'aurois du en faire enlever

toutes les taches, répétitions de phrases, négligence

de stile, etc. J'ai cru devoir les y laisser.

J'aurois même pu aisement faire augmenter et

embellir l'Ouvrage; mais j'ai compris qu'il me

seroit plus utile, et plus agréable au Public de le

donner tel que je l'ai reçu. Un bon Pilote, homme

plus sensé que scavant, l'a écrit sur ce que des

personnes pages et instruites de cette affaire singulière

lui en ont déclaré, et sur ce qu'il en a vu

lui même. L'air marin et l'air même sauvage que

cette Histoire a pris au-delà et sur les mers on

elle a été faite, ne peuvent que plaire aux connoisscurs,

et en assurer la vérité et mon gain. Il est

bon d'avertir encore que tout ce que les Gazettes

publient au sujet de Nicolas I est absolument faux

et destitué de vraisemblance, comme on le verra par

cette Histoire." A seu turno, o escriptor, no seu

prefacio, escreve: "Des Mémoires récemment arrivés

du nouveau monde, nous mettent a portée

de faire connaître au? Public le fameux Nicolas J,

Roi de Paraguai et Empereur des Mamelus. Nous

croyons que son Histoire será d'autant plus interessante

qu'on verra avec étonnement un homme

ambitieux, né sous une chaumiere, concevoir les

projects les plus vastes, suivre un plan de conduite

réfléchi, lequel feroit honneur au-s Politiques

les plus expérimentés, prévoir les inconvénients

sans nombre qui s'opposoient á ses desseins, analyser

le coeur de l'homme, le faire servir á sa

grandeur en le remuant par les ressorts cachés, et

s'élever comme insensiblement de l'état de plus

abject, á la puissance suprême. Cet Ouvrage servira

encore á convaincre de la vérité de cette maxime:

Que les grands scélérats sont presque toujours

des hommes de génie, et que tel qui périt sur

l'échafaut, seroit peut-être placé dans le Temple

de l'Immortalité á côté des Héros amis de l'humanité

et de la Patrie, si la vertu eut eu sur son

coeur l'empire que le crime y exerça. Quel Général

d'armée, quel Ministre que Cromwcl ! s'il n'eut

point été un enthousiaste, et si sa main, au lien

de flatter l'hydre de la rébellion, eut combattu

pour la bonne cause. Tant d'autres audacieux dont

le nom seul fait frémir aujour d'hui le bon citoyen,

seroient des modeles de courage et de fidélité,

si le patriotisme les eut inspirés, et s'ils ne

fussent pas sortis des bornes du rigoureux devoir."

Nestas duas transcripções, não se nos depara cousa

alguma que abra luz, (yue conduza á solução do

problema.

Isto posto, vejamos agora o que nos diz o

historiador. Nicolas tem, na narrativa, o sobrenome

de Roubiouni. Nasceu na Andaluzia em 1710.

Não teve educação, e desde menino revelou os

peores instinctos. Na idade de 18 annos tentou assassinar

um companheiro, furtando ao pae duas

pistolas, e á mãe um annel de preço. E começou a

vida. Em Sevilha vendeu o annel e as pistolas para

comer. Acabando esses cobres, entrou' a frequentar

os jogos públicos e as igrejas. Alugou-se como lacaio

de uma rica viuva devota. Passou ahi vida

regulada; mas por poucos mezes. Fez-se depois

conductor de bestas. Um dia matou o officiai encarregado

de receber os impostos sobre as bestas

c teve de esconder-se. De recoveiro fez-se então

religioso; e conseguiu entrar para um collegio de

jesuítas como irmão leigo. Ganhou logo a confiança

dos padres; e emquanto cuidava das suas

novas funeções, sedu-ziu uma rapariga, com quem

chegou a casar-se, a encantadora Victoria, filha de

família de certa posição. Receioso de ser descoberto

na Espanha, aproveitou o ensejo que se lhe

(30) Varnhagen lamenta que a tragedia do rei

negro e seus successores não tivesse ao menos o seu

chronista. Oliveira Martins, dando a Palmares o

nome de Tróia Xegra. diz ser o "mais bello e heroico

de todos os protestos do escravo", e cuja história

tem lances de uma "Illiada". Também no sul tivemos

o rei Tombu, que, na serra de Apucarana, havia

estabelecido a sua côrte com os goianíls que abandonaram

os campos de Piratininga. Delle dão noticia

circumstanciada Pedro Taques, na "Nobiliarchia

Paulista", e o illustre Rocha Pombo na sua "Historia

do Brazil", vol. VI. pag. 54. Notaremos ainda

que a seus príncipes chamavam os nossos indios

também de "morobixaba", palavra composta de

"poro", mudado o "P" em "m", que significa gente,

e "yxaba", o que manda (Lioureto do Couto) :

oífereceu de partir com alguns jesuítas para a

America. Aporta a Buenos Aires no momento cm

que o paiz estava em convulsões, devido á execução

do tratado de 1750. Mette-se de camaradagem com

os indios e dentro de poucos mezes estava á frente

delles na repulsa desesperada ás commissÕes demarcadoras.

Não demorou que imprevistos successos

da sua fortuna o levassem a fazer-se proclamar

Rei do Paraguay. Como rei, cuidou de conquistar.

Submetteu ao seu dominio algumas reducções de

Guaranys que se mostravam esquivas. E quando

a sua soberania não teve mais contestações, entendeu

que era necessário organisar a sua côrte, creando

em torno de sua pessoa uma nobreza. Diz a

historia que elle foi terrível como rei, contando-se

mais de 150 ou 160 indios sacrificados pelas suas

proprias mãos. Com muito geito fez-se de soberano

oriental, não se mostrando a todo o mundo,

e só recebendo personagens illustres com toda a

pompa de um cérémonial.

Até aqui o que se refere ao rei dos paraguayos.

O mais curioso é o que se segue na historia.

O ruido desta figura mysteriosa espalhouse

na America, e os mamelucos de S. Paulo cono

ceberam grande enthusiasmo pela fortuna daquelle

irmão de bando (que tal suppunham) tornado famoso,

e cujas façanhas passaram de bocca em

bocca, orgu-lhecendo todos os da raça. Tal foi a

admiração despertada em S. Paulo pelas façanhas

do rei Nicoláo, que os paulistas mandaram áquella

magestade vingadoura uma embaixada convidando-a

a visitar S. Paulo. Os paulistas estavam resolvidos

a fazer-se independentes, e queriam valerse

da opportunidade de ter logo á sua frente um

rei valente, capaz de os defender. Acceitou Nicoláo

o convite. Veiu com grande apparato, e foi

recebido em S. Paulo como um verdadeiro monarcha,

e 11a principal igreja da cidade foi coroado

"imperador dos mamelucos", prestando-lhe na

mesma ocasião os paulistas juramento de fidelidade.

Não ha nada mais pittoresco na nossa historia

e já agora vale a pena transcrever o texto

original: "On ne doit pas être surpris que les

Mammelus frappés de l'éclat des conquêtes de Nicolas,

lui ayent offert la Ville de Saint Paul et

la Couronne Impériale. Ces peuples ne vivant euxmêmes

que de brigandages, ont été bien aises de

se donner un Chef accrédité. Ce fut á Ciudad

Réal que les envoyés de Saint Paul le joignirent,

et lui firent les offres les plus brillantes et les

plus flatteuses. Nicolas se hata de se rendre dans

cette Ville. Il chargea un de ses principaux officiers

de faire construire des voitures sur les bords

du Paraná, et de les charger du butin immense

qu'il avoit embarqué sur ce fleuve dans des Baises

ou Batteaux de transport en usage dans ce

Pays. Pour lui, il partit á la tête de six mille hommes

d'élite et fit son entrée dans Saint Paul le 16

Juin 1754. avec toute la pompe d'un grand Roi

qui triomphe de ses ennemis, après avoir terminé

une guerre juste et légitime. On dit que le 27 de

Juillet suivant il fut couronné Empereur des Mammelus

dans la principale Eglise de Saint Paul : (car

il y a dans cette Ville beaucoup de Religieux, ainsi

que très peu de Religion) ; et que tous les Habitants

lui ont prêté serment de fidélité. " No memento

em que o historiador nos deixa, assegura

que Nicoláo cuidava de escrever um codigo de leis

"appropriées sans doute aux moeurs et au caractère

du souverain, et des sujets".

Ora, ahi está a singular e nunca sonhada maravilha

de um "imperador dos mamelucos", novidade

inédita dos annaes da colonia, que, por mais

de um século, ficou ignorada dos mestres da historia

nacional. Não encontramos tal occurrencia

nem nas memorias de Pedro Tacques, nem nos

Apontamentos de Azevedo Marques, nem algures,

c simplesmente porque tal historia, com ser absurda,

é manifestamente fabulosa, não se fazendo

mister muito esforço para negal-a ou destruil-a.

Antes de tudo, é de estranhar que, tendo sido divulgado

e commentado na Europa, como acontecimento

sensacional, o facto tivesse passado despercebido

das autoridades portuguezas e delle não

se encontrem vestígios em nossos velhos chronistas,

que não deixaram de registar, quasi um século

antes, quanto occorreu relativamente á tentativa de

coroação de Amador Bueno, em 1640. Depois, o

estado de cultura dos paulistas, naquelle tempo em

que dominavam já no paiz o sentimento de patria

e a aspiração da independencia, não era de modo

a permittir ou sanccionar aventura tão grosseira

quanto humilhante. Com effeito, no século XVIII,

a vasta capitania de S. Vicente, com constituir a

mais importante província do dominio no ponto de

vista do progresso economico, representava um

núcleo ethnico accentuadamente brazileiro, que, por

varias vezes, havia dado signaes de seu espirito de

rebeldia, manifestando-se contra o despotismo da

metropole ou contra a sua subalternidade ao go-

verno geral. Orgulhosa e altiva, desvanecida da

sua fortuna e do seu poder, ao ponto de registarem

as chronicas que formava ella uma verdadeira

republica, a exemplo de Florença ou Veneza, a

gente paulista não tolerava a soberania portugueza,

quanto mais acceitar a autoridade suprema de um

cacique, e de um cacique paraguayo, por mais

afrontada de despeito c ferida nos melindres. Por

ultimo, como argumento decisivo, por irrespondível

e incontrastavel, basta ver que o autor dá para

a coroação de Nicoláo em S. Paulo a data de 16

de Junho de 1754, quando nessa época o mesmo se

achava 110 territorio das Missões, como capitão

general dos indios confederados dos sete povos

orientaes, eleito em logar do famoso Sepé, morto

no combate de 7 de Fevereiro de 1754 pdo general

D. José Andoanegui, governador de Montevidéo.

O jesuita Xavier Héttis, cura de S. Lourenço,

e que teve tanta parte na guerra dos gua-

• ranys, no Diário Historipo, já citado, a paginas

31 a 51, obra de authenticidade incontroversa, e

bem assim Andonaegui e os demais registam a

circumstancia de que até a data da sua morte, 10

de Janeiro de 1756, Nicoláo se achou sempre entre

os indios. Além disto, apparece firmando o armistício

celebrado em 18 de Novembro de 1754 com

o general portuguez Gomes Freire, documento

muito conhecido e divulgado. A mystificação, como

se vê, é tão absurda, quanto grosseira.

De quanto acabamos de ver e do conteúdo do

livro, quasi que se pódc concluir fora escripto também

com o proposito de amesquinhar, humilhar ou

injuriar os descendentes de João Ramalho, o progenitor

dos mamelucos, inimigos acérrimos dos indios,

dos jesuitas e dos portuguezes, do que para

attender aos interesses particulares do autor ou

editor, como quer Southey. Effectivãmente, a

idéa de fazer do misero rndio paragu-ayo imperador

dos mamelucos, quando tal não tinha connexão

com a historia de S. Paulo, só poderia obedecer a

intuito inconfessável, aggressivo e affrontoso, e

disto parece serem prova os dois últimos capítulos

do mysterioso opusculo. A proposito de S. Paulo

e dos paulistas, escreve o autor da Histoire de

Nicolas I, a pagina 109, e seguintes: "La Ville de

Saint Paul, qu'on nomme autrement Paratininga,

est située au-delà de Rio de Janeiro, et vers le

Cap de Saint Vincent, á l'extrémité du Brésil. Ce

furent-ils établis qu'il leur arriva ce qui étoit arrivé

aux anciens Romains : ils manquèrent de femmes.

Ils se virent donc contraints d'en prendre

chez les Indiens. De ces Mariages bizarrement assortis,

naquirent des enfants qui eurent tout les

défauts de leurs meres, et peut-être ceux de leurs

peres, sans aucunes de leurs vertus. La séconde

génération étoit déjà dans entel décri, que les Villes

voisines auroient cru se déshonorer, si elle eussent

continué de vivre en commerce avec des peuples

si corrompus. Pour marquer même le souverain

mépris qu'on avoit pour eux, on leur donna

le nom de Mammelus, nom sous lequel ils ont été

connus depuis. Il y a déjà long-temps qu'ils ont

secoué le joug du- Portugal et qu'ils n'obéissent

plus aux Gouverneurs envoyés dans ce pays par le

Roi trés-fidele. Il s'est donc formé dans cette

Ville de République, qui a ses Loix et son Gouvernement

particulier. Il est bon encore de remarquer

que cette Ville s'est formée comme l'ancienne

Rome du rebut de toutes les Nations (31).

C'est l'asyle de tous ceux qui se sont dérobés aux

supplices dus a leurs crimes, ou qui cherchent á

mener impunément une vie licentieuse. Les Ncgres

fugitifs, les Voleurs, les Assassins, sont furs

d'y être bien reçus. La situation avantageuse de

Saint Paul et les Fortifications que les Habitants

y ont fait faire, ont fait perdre aux Rois de Portugal

l'ésperance de remettre cette Ville dans de,

devoir; et même encore aujour-d'hui, si les Mammelus

payent un cinquième de l'or qu'ils tirent de

leurs mines, au Roi trés-Fidele, ils ont grand soin,

en payant, de proteseer qu'ils sont indépendants, et

que c'est un présent qu'ils font au Roi de Portugal,

pour lui témoigner le respect qu'ils ont pour

sa Personne sacrée." Explicando o facto da escolha

de Nicoláo para imperador dos paulistas,

diz elle que "on ne doit pas être surpris que les

mammelus frappés de l'éclat des conquêtes de Nicolas,

lui ayent offert la Ville de Saint Paul et lia

couronne impériale", porque "ces peuples ne vivant

eux-mêmes que de brigandages, ont été bien

aises de se donner un chef accrédité (pag. 114)."

A injuria é manifesta, c se nos depara assidua cm

todas as referencias á gente paulista. Até mais

ver, não renunciaremos a esta explicação, por nos

parecer satisfactoria para o caso, convindo, entretanto,

não bastar entendel-a para que a origem

(31) Fr. Gaspar da Madre de Deus. na "Hist.

da Cap. de S. Vicente", a pagina 113, rebate vantajosamente

esta calumnia, a que deram largo cur-

•Fo os jesuitas e estampou Vairrette em 1755 na

sua "Hist. Geogr. Eccl. et Civile, Paris, XII, 215.


histórica sc antolhe clara e explicita. De que pretendeu

vingar-se o autor ignoto? Fôra o livro inspirado

pelo Duque d*Alba ou escripto e impresso

com o concurso directo ou disfarçado do Marquez

de Pombal e de Gomes Freire, como inculcam os

jesuitas, ou teriam sido estes inimigos dos autores

do drama obscuro de Guayra, num ímpeto de

vellada cólera, os inventores da rnfamia?

Nesta metaphysica das probabilidades, não

poupamos diligencias e averiguações para obter luz

completa a este respeito, mas a que alcançamos foi

mesquinha e vaga. Seja como fôr, a verdade se

está vislumbrando da própria narrativa do livro

diffaniantissimo, em que, a par das miseráveis vilanias,

ha particularidades que persuadem ter sido

ainda o mesmo ditado ou composto por um inimigo

dos nossos patricios, que mal dissimulou o seu

rancor. Ora, notorio é que o Marquez de Pombal,

no longo e agitadíssimo reinado de D. José I, escreveu

ou fez imprimir vários trabalhos anonymos

em defesa dos seus actos e idéas contra os jesuitas,

taes como a celebre Deducção Chronologica, obra

erudita, mas apaixonada, attribuida falsamente, por

conta do Marquez, ao intelligente José de Seabra

da Silva, o opusculo em que se explicavam as causas

naturaes do terramoto de Lisboa, encomtnendada

a certo padre, o famoso libcllo contra os fundadores

do "império oceulto" do Paraguay, intitulado

Relação Abreviada, talvez do proprio punho

de Pombal, e outros, muitos dos quaes, traduzidos

em varias linguas, circularam por toda a Europa.

Innocencio, no Diccionario BibliograpJiico (li,

131), cita ainda outros escriptos que successivamente

appareceram, "ditados sob a mesma inspiração,

e mandados dar á hiz pelo ministério, menos

cpm o intento de justificar o procedimento havido

para com os jesuitas portuguezes, que com o fim

de concitar contra a ordem a animadversão universal,

propugnando assim a necessidade da sua abolição",

conseguida afinal em 1774 do papa Clemente

XIV (32).

Factos positivos, em que assente ter sido a

ílistoire de Nicolás I invenção de Pombal, para

(32) Attribue-se também (registemos o facto

de passagem) á influencia do grande reformador, e

não sem justos motivos, o poema "Uruguay", de

José Basilio da Gbma. approvado pela mesa censória

c saido da Regia Officina Typographica em 1769.

e que é infensissimo aos jesuitas. Seria errado crer,

naturalmente, que lhe inspirasse elle a belleza e distineçao

da pequena epopéa, que foi, no dizer de um

historiador, os "Lusíadas" do século de Pombal (L.

de Azevedo : "O marquez de Pombal e a sua época",

Lisboa, 1909, 162). Não é arrojado conjecturar, porém,

que ao poeta forneceu os elementos para a composição

do formoso livro, visto como, por mais conhecedor

da litteratura referente aos jesuitas e da

historia patria que fosse, não poderia çplligir os

factos, informações e juizos que serviram de fundamento

historico ao poema, e principalmente as 87

notas explicativas do texto, que, aproveitadas com

sacrifício da esthetica, accentuam ainda mais o caracter

combativo da obra e a tornam mais ao gosto

do bemfeitor, que devia ter apreciado allusões ferinas

como esta :

Lã vão passando o mar a estranhas terras

Os negros bandos das nocturnas aves

Com a inveja, a ignorancia, a hypocrizia,

Que nem se atrevem a encarar o dia.

Sem duvida, foi o Marquez de Pombal quem

suggeriu a Basilio da Gama incorporasse a "Relação

Abreviada", publicada havia 11 annos, ao "Uruguay",

cuja edição "princeps", como se sabe. appareceu

conjunctamente com aquella, em formato egual

e no mesmo volume. Ainda mais : o poema é dedicado

ao irmão querido de Pombal, Francisco Xavier

de Mendonça Furtado, governador durante muitos

annos do Maranhão e do Grâo-Pará, e vinha

precedido de um soneto encomiástico ao então Conde

de Oeyras. Por ultimo, occorre que o poema se

imprimiu no mesmo anno em que o poeta alcançou

o perdão do desterro para Angela e angariou, senão

a amizade, a protecção do omnipotente estadista, a

quem antes offerècera o epithalamio que lhe inspiraram

os esponsaes da filha. D. Maria Amalia de

Carvalho e Mello, tão cheio de louvores a esta quanto

de lisonjas áquelle. Embora declare Basilio da

Gama, na nota 14 canto 1, que "as primeiras idéas

do poema lhe nasceram em Roma da curiosidade de

muitas pessoas de conhecerem com fundamento das

occurrencias do Uruguay", negadas ou deturpadas

pelos jesuitas, e do "estranho contentamento por encontrarem

um americano que os podia informar miudamente

de todo o succedido", não cremos na informação.

que é, provavelmente, tendenciosa. Ratton,

nas suas "Memorias" (a paginas 320), assegura que

Basilio, na qualidade de official da secretaria do reino

e sob dictado do marquez, escreveu depois o

"Regimento da Inquisição", que foi publicado em

nome do Cardeal da Cunha, assim como o respectivo

alvará confirmativo datado de 1 de Setembro

de 1774. Num paiz onde a condição do homem de

letras fôra sempre de subserviência e a vida literaria

uma especie de parasitismo nutrido pelos reis. •

príncipes e grandes senhores, Basilio da Gama, como

José de Seabra da Silva, o bispo Cenáculo, o latinista

Antonio Pereira de Figueiredo, Luiz Antonio

Volney, autor do "Verdadeiro Metliodo de Estudar"

e coltaborador do ministro Almada, 0 frade Norberto,

que publicou na Italia uma obra intitulada

"Memorias históricas sobre a questão dos jesuitas.

o famoso Blatel e tantos outros áulicos e cortezãos,

não podia fugir á influencia avassaladora do ferreo

estadista, ao qual sempre lisonjeou em prosa e em

verso e serviu como convinha aos seus desígnios.

Vem a proposito lembrar que os jesuitas, dezasete

annos depois da publicação do "Uruguay", editaram

servir simultaneamente o seu odio implacavel aos

missionário« de Loyola e a sua animosidade aos

descendentes dos bandeirantes não possuímos, mas

apenas vestígios, indícios e circumstancias que autorisam

e fortalecem a suspeita. Antes de tudo,

valendo-se de todas as praticas, processos e expedientes

para dominar os reis e as sociedades,

não lhe repugnava a manipulação de escriptos facciosos,

como o opusculo em debate, com o intuito

de justificar a sua politica revolucionaria ou vingar

suppostas affrontas, e tinha a seus serviços

escribas e dedicações de todos os quilates. Repare-se

ainda que a fabula do rei Nicoláo veiu a

luz quasi ao mesmo tempo que a Relação Abreviada,

que é de 5 de Fevereiro de 1757, tendo para

êxito desta mais concorrido porventura o escandalo

ou a curiosidade que aquella provocou 11a Allemanha,

na Italia e na França, que os successos do

Uruguay, e deste modo, authentica ou fantastica,

a narrativa do rei do Paraguay, e verdadeira ou

mentirosa a relação da republica jesuitica, o certo

é que se uniam e se combinavam para estabelecer

0 confusão no espirito publico, e assim, crear o

estado de opinião desfavorável em que a Companha

de Jesus sossobrou fragorosamente. Quasi ao

fim destas investigações, tivemos noticia de um documento

precioso, que, dando mais alento e

robustecendo a hypothese, nos faria passar da

probabilidade á certeza se nos fosse possível um

exame rigoroso nos papeis da Collecção Pombalina

em Lisboa. Trata-se do memorial que Nicolas Pagliarini

endereçou á rainha D. Maria, de Portugal,

em. data de 12 de Março de 1788, e trasladado por

J. Crétineau-Joly na sua obra Clemente XIV et

les jesuites (33), e cuja authenticidade affirma.

Por elle se vê que D. Francisco Almada de Mendonça,

parente de Pombal e seu dedicado, intelligente

e astucioso embaixador na côrte romaiv*,

fôra quem se encarregára da impressão de quasi

todos os escriptos relativos á questão jesuitica que

sahiram da secretaria do reino. Assim é que Pagliarini

confessa que, por conta e ordem de Almada,

publicou " tudo quanto a côrte queria se publicasse

em Roma, o que não foi pouco, e tudo interessante".

Imprimiu' em 1757 a Relação Abreviada,

composta em Luca e em quinze dias, e o famoso

breve de Bencdicto XJV, dirigido ao Cardeal

Saldanha, e, mais, que, á vista das difficuldades

enontradas para a impressão das mesmas,

resolveu o embaixador portuguez estabelecer uma

pequena typographia clandestina no palacio da embaixada,

a exemplo do que fizeram os representantes

da França e da Hespanha. Da referida typographia

sairam a edição original das celebres

Reflexões de um portuguez sobre o memorial apresentado

pelos padres jesuitas á santidade do papa

Clemente XIII, expostos em uma carta na lingua

italiana a um amigo de Roma, e o Appendix ás

mesmas reflexões, tudo obra do monsenhor Juan

Bottari, e traduzidos ambos em portuguez, cm 1759,

sem logar, nem nome do impressor, e cuja distribuição

em Roma foi feita por intermedio do correio

de Gênova, " com tanta reserva que, não só os

jesuitas, mas também o cardeal Torregiani, suppondo

o livro impresso naquella cidade, se queixaram

ao Senado da Republica". Outros escriptos do

mesmo genero foram feitos na officina typographica

da embaixada, sob a direcção do pouco escrupuloso

Pagliarini, que, afinal, foi assignalado á vigilância

dos esbirros do Perquiratur e, máo grado a

protecção de Almada, ausente então de Roma, em

virtude do rompimento das relações entre Portugal

e a Santa Sé, foi preso na noite de 11 de De-

a "Resposta" (sic) "apologética ao poema intitulado

o "Uruguay" por José Basilio da Gama", obra de polemica

e de paixão, naturalmente acrimoniosa contra

Basilio. Foi publicada em Lugano (Italia) em 1786

ô e, no seu "Filinto Elysio e os dissidentes da Arcadia",

(pag. 499), traz Theophilo Braga um documento,

do qual se verifica ser autor da "Resposta" o

jesuita padre Lourenço Kaulen, com a collaboração

do padre Domingos Antonio. "Este livro famoso (Veríssimo

: "Obras poéticas de José Basilio da Gama",

Livraria Garnier, Rio, s|d. 21), que existe na Bibliotheca

Nacional na primeira e única edição, também

em manuscripto, copia do impresso, foi ultimamente

republicado de um manuscripto existente na bibliotheca

do Instituto Historico, na sua "Revista"

(tomo LXVIII,parte 1, p. 93, 1907) com o titulo

supposto de "Repetição das calumnias contra os jesuitas

contidas no poema "Uruguay" de José Basilio

da Gama". Nada, pensamos, autorisava ou justificava

mudar o titulo com que se tornou famoso este

opusculo. O que trazia na copia (copia ligeiramente

adulterada e com algumas variantes do impresso)

só provava a ignorancia ou irreflexão de quem lá o

pôz, suppondo-o talvez obra differente ou nova".

(33) "Clemente XIV y los jesuitas o sea historia

de la destruicion de los jesuitas". Escrita em

francez con vista de autênticos e inéditos documentos

por J. Crétineau-Joly, y traducida al Castellano

de la segunda edicion franceza considerablemente

aumentada por el doctor D. N. V. M. Estabelecimento

Typographico — Literário de D. Nicolas de Castro

Palomino y Compartia, Madrid, 1848, 61. A edição

original é "Clément XIV et les jésuites", Mellier

Fréres, Paris, 1S4 7, e as informações a que

nos referimos se encontram a paginas 67 a 76.

zembro de 1760. Processado e condemnado a sete

annos de cárcere, Clemente XIII entendeu não

homologar a sentença e conceder-lhe a liberdade

sem restricções. Até 7 de Fevereiro de 1762, permaneceu

Pagliarini em Roma, obsequiado por todos

e principalmente pelo ministro de Espanha, D.

Manuel de Roda, quando, por ordem do marquez

de Pombal e a chamado do embaixador portuguez

em Nápoles, D. Ayres de Sá, partiu para essa côrte,

onde recebeu as recompensas dos relevantes serviços

prestados a S. M. Fidelíssima. Foi feito fidalgo

da Casa Real e secretario de embaixada, com

a pensão vitalícia de ioo$ooo mensaes, e um donativo

de 12.000 cruzados "para as despezas mais

urgentes que exigisse a sua nova posição", e mais

a recommendação especial de ser considerado

hospede distineto do embaixador. Transferido o

embaixador Ayres de Sá para Madrid, Pombal convida

Pagliarini a vir para Lisboa, visto desejar o

rei D. José I conhecel-o pessoalmente, e chega á

côrte portugueza a 15 de Março de 1764, onde é

recebido carinhosamente pelo então conde de Oeyras.

Depois de ter residido cerca de um anno no

palacio de Ayres de Sá, passou a habitar com D.

iFrancisco de Almada, e, mais tarde, com a partida

deste para o seu posto cm Roma, transferiu-se para

o Collegio dos Nobres, nomeado que foi bibliothecario

dessa instituição. Tempos depois, Nicolas

Pagliarini é definitivamente nomeado director da

Imprensa Regia, fundada por Pombal e graças ás

suggestões do seu antigo amigo, com ordenado

mensal de 2.000 cruzados, casa e dois exemplares

de cada obra que na mesma se imprimisse. Foi

quem fez imprimir, em 1767-1768, os tres tomos da

edição princeps da Deducção Chronologica, que depois

a traduziu para o italiano e, por encargo especial

do marquez, a imprimiu novamente. Auxiliar

valioso, acabou, por fim, em 1779, secretario

de Pombal, que delle se servia ainda para a correspondência

diftlomatica com Roma. Pagliarini

conta que "redigia os documentos em portuguez e

traduzia para o italiano, e depois de revistos pelo

marquez, os copiava definitivamente e os traduzia

para serem transmittidos ao Papa". El-rei, respondendo

a uma suggestão de Clemente XIV, lembrando-lhe

fossem os documentos relativos á questão

/dos jesuitas traduzidos por Pagliarini, que sabia ao

serviço de Pombal, visto não ter confiança no trabalho

das pessoas venaes a quem Almada confiava

as traducções, escreveu que "Pagliarini, seu secretario

de legação, possuia com effeito titulos sufficientes

para ser admittido no gabinete, depois de

tantas provas como havia dado de sua probidade e

adhesão á côrte". Pagliarini mantinha ainda relações

com embaixadores, ministros e cardeaes na

Italia. Ora á vista do exposto, não ha mais duvidar

ter sido a Histoire de Nicolas I engendrada

por Pombal e impressa e posta cm circulação pelo

seu agente de publicidade 110 estrangeiro, Nicolas

Pagliarini, que foi, evidentemente, ainda quem a

traduziu para o italiano e a fez imprimir mais uma

vez. O mysterio-, a juizo nosso, está esclarecido,

e não vemos como cxplical-o de outro modo (34).

Na parte referente aos paulistas, tidos por desabusados,

turbulentos, perigosos e cheios de basofias

(35), eram olhados por isso com receio e

com despreso por Pombal e seus prepostos. Vários

factos e circumstancias, umas antigas e outras contemporâneas,

entre as quaes o anniquilamento das

missões, a expulsão dos jesuitas, a acclamação de

Amador Bueno, a guerra contra os emboabas e

principalmente a descoberta e exploração das r

nas, que lhes trouxeram fabulosos e cubiçados cabedaes,

contribuíram para que S. Paulo caisse

no desagrado dos dirigentes lusitanos (36). O illustre

Gomes Freire de Andrade, muito dilecto do

(34) O padre Pablo Hernandez ("El extrartamiento

de los jesuitas dei Rio de la Plata y de

las missiones dei Paraguay por decreto de Carlos

III", Victoriano Suarez, Madrid, 1908, 45) insinúa

que a fabula de Nicoláo foi escripta pelo mesmo

autor das calumnias do "Relação Abreviada". Garante

que na obra do padre Nonell sobre V. P.

Pignatell, n, 99, se transcrevem as declarações feitas

pelo marquez no processo que lhe moveu o governo

revisionario de D. Maria I e nos iquaes diz

encontrar-se a confissão do ministro de D. José I

de ter sido de seu punho o folheto anonymo sobre

a supposta bastardia do rei de Espanha, escripto

e divulgado com o objecto de intrigar os jesuitas

com o monarcha espanhol, empenhado que

estava na expulsão dos padres do Paraguay. accrescentando

que o manuscripto original fôra descoberto

entre outros papeis compromettedores num cofre

que Pombal confiára á guarda da irmã abbadessa.

Refere ainda Pablo Hernandez que o referido opusculo,

em que se convidava os grandes de Espanha

a depôr o rei bastardo, fôra traduzido por um certo

espanhol chamado Mortalich. o mesmo que fez

cunhar em Roma as moedas do rei Nicoláo I.

(35) Vide W. Luiz. "Historia da Capitania

de S. Paulo". 1918, 27.

(36) "Os paulistas antigos eram desinteressados

e generosos, porém altivos com demazia : por

conta desta elevação de espirito»?, que foi a causa

(Condue nn fim do numero.)


i

SENHORINHA GRINGA BERNARDEZ, AGCRA LONGE DO

RIO, MAS SEMPRE PRESENTE NA SAUDADE DOS QUE

TIVERAM A GRAÇA DO SEU CONVÍVIO DE BELLEZA K

INTEI.UGENCIA.


... o

Do antigo castellão, que fundara o Castello,

nada mais resta, nem lembrança. .. nada mais

Renovado — o solar, ficou, talvez, mais bello,

c no seu tom-crepusculo — amarello — y

deu nova austeridade ás cousas senhorcaes.

Dentro, o mármore-rosa ao granito cinere o

succedeu. E nos longos corredores

que levam do amphitheatro ao fulgido salão,

não ha graça, ou my st crio,

só ha pompa e esplendor. E, em pompas e esplendores,

estiola-se o perfume ideal da tradição. ..

A escadaria-mestra, que se abria

em dois lances iguaes, como dois braços

que iam ter — um, á antiga mordomia,

outro, ao grande salão, rodeado de terrassos

onde o amor de outras épocas floria...

. .. Guarda os dois lances, abre-se em dois braços,

mas parece conter os seus abraços

para o abraço de um dia,

que, no eterno Amanhan,

restabelecerá na dynastia

a amçida Castellã.

Nos tectos, em logar de heráldicos estuques,

insculpturas de lieróes, ou brasões de archiduques,

ha frisos de ouro. E, junto ao antigo vitral,

Um pequeno ascensor leva ao jardim-suspenso

de onde se tem, ao longe, o campo — extenso,

perdendo-se na linha horizontal...

Tudo mudou: — cada degrau marmóreo

ou cada reposteiro de velludo !

Desde as insígnias do primeiro escudo

até ás seis rosaceas do zimborio !

Mas, nem tudo,

nem, tudo !

O âmbito pequenino do oratorio

ficou intacto.

E, por signa\ da despedida extrema,

guardou aquellc cheiro de alfazema,

para goso do espirito e do olfacto.

E, atraz do velho nicho

(X milagre dos santos ! ó capricho

do tempo ! ó pertinácia

do Acaso, pae do Sobrenatural !

— Entre o nicho e a rosacea,

resta, como uma nota de advcrtencia,

uma teia de aranha,

qitasi immemorial...

E, á aurorai claridade, que se entranha

pela rosácea, na magnificência

dos reflexos chromqes — dir-sc-ia, a leia

se dilúe c sc esgarça,

eimo

se transfunde na luz em que se enleia,

e, aos subtis filamentos, se desfibra. . .

— Harpa de cordas frouxas e alma esparsa,

cantam os fios soltos, arde a teia,

desperta e vibra.

E dir-sc-ia que a aranha,

silenciosa e esquecida,

também revive o primitivo afan

c, fiandeira do sonho de outra vida,

bórda na tala garça,

que se esgarça,

o nome da saudosa Castellã.

Bem que sonhaste, eu sei ! E a tua Vida

quis, acima dos sonhos, o dever.

O' redivivo, intencional suicida,

despojada do amor, a alma ferida,

sangrou atada ao poste do dever,

e, á encruzilhada da penosa despedida,

morreu para si mesma e tentou esquecer. . .

Mas renovaste tanto a tua vida,

para completamente te esqueceres

da alma extineta, perdida

entre as almas sem alma e indiffcrentes seres !

Ah ! que fizeste tu da tua vida ?

Vieram novos amores c deveres

c, absorto na ascençâo e na descida,

foram, na idade desapparecida,

os teus sonhos, os teus ideaes, os teus prazeres

Veiu, um dia, porém, (Ha sempre um dia,

um dia bom ou máó, que te acompanha

e se repete em tua trajectória),

de tanto espanejar tua melancolia,

lá descobriste, atraz do nicho da memoria,

. . . uma teia de aranha !

Que suave confusão e que deslumbramento !

Teu coração na teia se embalança...

Pela rosácea azul do Pensamento,

o sol occiduo subtilmente invade

o pequeno aposento :

Tudo sc renovou — a ambição e a esperança,

castellos de ouro da Virilidade

e castellos de nuvens de criança.

Mas ficou, sempre a mesma, a lembrança: a lembrança

do amor purificado em renuncia c saudade.

Guarda, esconde em teu sonho e cm tua vida

esse desejo bom, que te acompanha,

não abras teu espirito a qualquer !

Guarda bem a saudade ! — essa teia de aranha.

dissimuladamente entretecida

por invisíveis dedos de mulher...

A


ÍJJ NDAVAM, então, dois homens pescando no

7j I Parahyba. Iam tão rentes com a terra que

f os ramos acenosos por vezes de todo os en-

cobriam e ao barco. E' que assim, chegados

á barranca, tinham certeza de fazer bôa pescaria

lançando a rede á bocca das madrigueiras. E foi

como fizeram.

Deixaram-se estar á espera e quando lhes pa-

receu que era o momento colheram a rede achando

apenas, entre as malhas, uma imagem tosca á qual

faltava a cabeça e tão negra como se fosse de

lodo.

Que seria aquillo? miraram, remiraram... Em-

fim... Deixaram-n'a no barco, remando para

diante.

Lançaram de novo a rede em poço acarduma-

do. A agua refervia piscosa e, volta e meia, um

dourado deslisava rápido, quasi á tona, como a

desafial-os'.

Alam, puxam a rede e eis que lhes vem da

profundeza e só, mais nada, a cabeça que faltava

á imagem. Ajustaram-n'a ao tronco, deu bem.

Proseguiram e, adiante, tentaram novo lanço e ta-

manha foi, dessa vez, a abundancia de peixe que

os dois homens, ainda que robustos, tiveram de

valer-se de outros para trazerem á terra a redada

copiosa. E que peixes !

Referindo os pescadores o caso, tido por mi-

lagre, logo divulgou-se e, de toda a parte, affluiu

gente a ver a imagem, já, então, recomposta e re-

colhida a um oratorio.

Accendeu-se instantaneamente a fé e, feita a

primeira promessa, deferida por um milagre, foi

quanto bastou para que a noticia se espalhasse

como a luz e attrahisse, dos mais remotos rin-

ções, molestos e infelizes.

Por ser tudo escampo ou mattagal, assim

como chegavam os peregrinos iam levantando ca-

banas e rancharias, desde a raiz do outeiro até

o cimo, onde se erigira uma capellinha, que foi

o núcleo, em volta do qual surgiu e cresceu o po-

voado mystico, começando, desde logo, a irradiar

prodígios.

E nasceu mais um culto e. com elle, uma

nova esperança.

Não só dos pontos mais longínquos do Bra-

zil, como das Republicas do Prata, dos Estados

Unidos e da Europa chegam, todos os annos, le-

vas de peregrinos em romaria á Apparecida, onde

a imagem tosca, retirada das aguas, coroada em

acto solemne pelo núncio pontifício, recebe as

oblações dos crentes na sua basílica portentosa,

única que possuímos e que é um dos santuarios

de mais prestigio do mundo catholico.

Quem lá vae e vê a affluencia de fiéis, todos

louvando agradecidamente a Beneficiadora, e visi-

ta a casa, adstricta ao templo, onde se conservam

as lembranças dos milagres, tantas que, se não fos-

sem annualmente substituídas, dariam para cobrir

todo o outeiro e muito ainda entraria, em sobras,

pela varzea, vendo as paredes d'alto abaixo forra-

das de ex-votos, de allegorias allusivas a milagres,

e promessas e homenagens mysticas, sente o presti-

gio da Fé, que réalisa, por mysteriosas reacções,

verdadeiras maravilhas, ante as quaes a Sciencia

estaca interdita e a ironia do sceptico retrahe-se.

O actual vigário da Apparecida, o reverendo

padre Estevam Maria, da Congregação dos Re-

demptoristas, é um sacerdote culto, que não escra-

visa almas, fanatisando-as com o terror, mas do-

cemente as esclarece com boa doutrina, guia-as

com serenidade. Não impõe a Fé, narra os factos,

mostrando o que fica no rastro dos peregrinos

como prova dos benefícios que, por mercê divina,

se realizam naquella séde da Misericórdia.

Quantos ali subiram em braços, quantos ta-

cteando, quantos cobertos de ulceras ou desvaira-

dos pelo desespero que, mal chegados ao pé do

altar, que é o solio da Virgem e o relicário do

corpo de um martyr, logo sahiram : os paralyti-

cos, caminhando; os cégos, vendo; os leprosos,

sarados; os abatidos, de animo refeito?

Teria sido o ar das alturas que assim, instan-

taneamente, os poz a todos sãos ?

De mui alto, de certo, devem ter vindo taes

auras para trazerem tantos fluidos celestiaes.

Pois seja o ar, como propalam os incrédulos

c se é o ar (bemdito seja elle !) respiremol-o

com fé, a grandes haustos, para allivio do nosso

corpo e salvação da nossa alma.

A GRUTA DA IMPRENSA, DEDICADA PELO SR. PREFEITO AOS JORNALISTAS CARIOCAS, FOI DYNAMITADA! DUAS

OU TRES BOMBAS, POSTAS DENTRO DELLA, TRANSFORMARAM-NA, DE REPENTE, NUMA RUÍNA DOLOROSA. DECÍ-

DIDAMENTE, OS NOSSOS ANARCHISTAS SÃO MENOS MÁOS DO QUE IMBECIS.


jrJ.wiA já nas salas um certo tom de impacien-

?"t cia, quando um carro parou- ruidosamente,

lá em baixo, na larga escadaria de pedra.

— E' ella!

As varandas do palacio encheram-se de damas.

— E' ella, siml

E todos os olhos es voltaram para Pedro I,

que, no meio do salão, conversava intimamente com

o Chalaça.

Naquelle momento o imperador não parecia o

mesmo homem. Tinha também ouvido o rodar do

carro e o coração lhe batia precipitadamente, como

que adivinhando. O seu rosto, sempre altivo, tornara

mm tom de pallidez. ^

Era no paço de S. Christovão, em noite de

festa. Desde as primeiras horas que se sentia ali

dentro um prurido de mexerico. Quasi que ninguém

conversava naturalmente: as damas, nos cantos

das salas, só ífa;lavam em cochichos, por detraz

dos leques.

Naquella noite, ao que se sabia, Dona Domitilla

de Castro ia ser paresentada á imperatriz. Era

a primeira vez que a celebrada amante de D. Pedro

entrava officialmente nos salões da Boa Vista.

O cscandalo daquelles amores vinha de muito

tempo sacudindo as cordas bisbilhoteiras da. cidade,

chocando e despertando a pudicícia do povo

e da gente fidalga.

Desde o anno seguinte ao da indcpendencia

que as saias impuras daquella mulher farfalhavam

D. DOMITILLA

no Rio, nos theatros, nas igrejas e nas festas, como

uma imposição e como um insulto.

D. Pedro, ao que parecia, tinha perdido francamente

a cabeça. Era um desses amores estuan-

,tes, perturbadores, que estonteiam e arrazam o

espirito da gente para toda a vida.

Quando, dias depois do grito do Ypiranga,

nas rodas intimas do paço, se murmurou que,»o

príncipe voltara de S. Paulo apaixonado por uma

linda mulher que por lá vira, ninguém pensou que

aquillo tivesse importancia maior. D. Pedro era

moço, ardente, mulhereiro e as suas paixões não

passavam de aventuras de rapaz — fogos de palha,

que flammejavam num momento para extinguir-se

num sopro.

Mas quando, no anno seguinte, se tornou publico

que a tal mulher, com armas e bagagens, se

mudára para o Rio, ao appello do proprio imperador

e que este a installára nas proximidades da

Boa Vista, num palacio luxuoso, houve pela cidade

um frêmito de escandalo e de revolta.

— Está louco!

— E' um cynico.

Por aquella época já Dona Leopoldina havia

entrado fundamente na sympathia nacional. Sabialhe

o povo da sua bondade, da sua ternura e do

trabalho envolvente que tivera em convencer o marido

para proclamar a independencia. Sentia-se que

a alma da cidade soffria com ella a immensa des-

graça daquelles amores que lhe vinham pesar sobre

os melindres de esposa.

O nome do imperador andava atassalhado em

toda a parte. Na cegueira de apaixonado, já não

via, sequer, as conveniências. Na Boa Vista parava

apenas o tempo • indispensável para os actos

D. PEDRO I

officiaes. Já se o não via nas caçadas, nos passeios

a cavallo pelos logares pittorescos dos suburbios.

Agora era o dia inteiro na alcova da

amante, preso áquelle amor allucinante que dia a

dia mais o embriagava.

Vozeava-se que a vida domestica da Boa Vista

tinha mudado lentamente: o imperador não era

mais o mesmo para a imperatriz — tratava-a asperamente,

desprezando-a como se despreza um

traste inútil.

Os seus mimos, os seus cuidados, a sua alma

fogosa de moço eram para a tal mulher. Sentiase

que era ella quem nelle mandava, sentia-se que a

intenção do monarcha era impol-a á força. Nos

O ULTIMO RETRATO DA M ARQUEZ A DE SANTOS.

theatros, deante da sociedade escandalisada, por

mais de uma vez, tivera o' desplante de descer do

camarote imperial para falar á amante. Nas festas

publicas mandava-lhe reservar os logares mais

distinetos. A parentela de Dona Domitilia subia vertiginosamente

de postos, preterindo direitos alheios.

Até na politica influia. Não era mais segredo para

ninguém que José Bonifacio sahira pela segunda

vez do ministério por exigencia delia.

D. Pedro, numa inconsciência de animal hypnotisado,

ia fazendo as maiores inconveniências,

arrastando-se á impopularidade. O theatrinho Constitucional

do largo do Rocio, onde se reunia a

gente mais fina da cidade, fòra violentamente fechado

e despejado, porque a directoria não quizera

receber Dona Dbmitilla na sua platéa.

Eram escandalos todos os dias.

O ultimo delles fóra o que provocava, naquella

noite, a apresentação da concubina á imperatriz.

Dera-se o caso na capella real, durante as cerimonias

da Sexta-feira da Paixão. A tribuna das

damas do paço começava a encher. Viam-se a

marqueza de Aguiar, camareira-mór da imperatriz;

as damas de honor — marqueza do Maranhão,

baroneza de S. Salvador dos Campos dos

Goytacazes, viscondessa do Rio Secco e D. Anna

Romana de Aragão Calmon, D. Marianna Laurentina

da Silva Souza Goidilho, D. Maria José de

Paiva de Andrade, D. Maria de Loreto Vianna de

Souza de Macedo e mais a dama de camara D.

Micaella Josephina de Araujo.

Não tinham ainda começado as cerimonias sacras,

quando Joaquim de Faria de Souza Lobato

entrou na tribuna acompanhando respeitosamente a

amante imperial.

D. MARIA LEOPOLDINA

Foi um choque. As damas entreolharam-se,

siurprehendidas.

A fidalguia tinha um odio horrível áquella que

dominava o coração do imperador.

Durante tres minutos aquillo não passou de

cochichos cortantes. A surpresa fazia-as apénas

murmurarem contrariadas:

— E' um desaforo.

Mas aos poucos o murmurio foi tomando o

clamor de um protesto. Dona Domitilla, esquerda» a

um canto da tribuna, moída por tanta hostilidade,

estava de orelhas cm braza e de cabeça zonza.

Dona Anna Francisca Maciel da Costa, baroneza

dos Campos dos Goytacazes, ergueu mais a voz.

— Isto é um desaforo, isto é um insulto !

Era um insulto para as damas da imperatriz

o contacto de semelhante mulher, ali na igreja,

aos olhos do publico.

E o rumor foi subindo. As saias femininas

agitavam-se como um formigueiro assanhado. De

quando em quando uma ou outra palavra aspera

saltava mais alta.

— E' uma vergonha!

— Que desplantei

A baroneza dos Goytacazes, mais inflammada

que as outras damas, gesticulava furiosamente.

— Nós precisamos tomar uma medida, já.

Isto não pôde ser.

Souza Lobato foi chamado á tribuna. As se-


fir.

nhoras interpellaram-no magoadas. Que historia

era aquella? Que desaforo! Como tinha elle coragem

"de trazer para a tribuna do paço a tal mulher?

O introductor abriu os braços, num gesto profundo

:

— Ordem de sua magestade!

As senhoras ficaram um momento aturdidas.

— E' de mais! exclamou a baroneza dos Goytácazes,

apanhando o grande leque que poisava

mima cadeira. Eu é que aqui não fico. Não quero

que pensem que sou da mesma laia.

As damas cercaram-na. Ia-se embora?

— Voai. E todas nos devemos ir. E' um insulto.

E olhando Dona Domitilla que, no peitoril da

tribuna, de rosto em fogo, fingia nada ouvir:

— Ella que fique ahi sozinha. Eu é que não

quero mistura.

E pallida, mordendo os beiços, sahiu resolutamente

portas afóra, no farfalhado das suas sedas

pesadas.

As outras damas ficaram um instante attonitas,

a entreolharem-se. Era -um desaforo mesmo!

Quem tinha razão era a baroneza!

E, num segundo, decidiram-se todas a sahir.

Aquella scena machucou amargamente a alma

de D. Pedro.

Quando á tarde, na alcova da amante, ouviu

delia própria, minúcia por minúcia, a descortezia

das damas da imperatriz, o sangue lhe subiu loucamente

á cabeça. Ah! era necessário pisar aquella

gente toda!

E teve um instante tempestuoso, em que as

palavras lhe sahiam da bocca como ribombos. Idiotas!

Malucas! Imbecis 1

A saia alma estava num frémito de dôr. O

amor por aquella mulher tinha alguma cousa de

loucura e de vertigem. Sentia-se inanimado nos

seus braços, feliz e glorioso, como se vivesse dentro

de um halo.

E porque tamanha hostilidade, tamanha repugnância

que em toda a parte estalava contra a

eleita dos seus desejos? Porque elle era monarcha,

porque era casado? Mas acima de tudo era

moço, na idade allucinada em que o amor não conhece

leis.

E fitou a amante. Dona Domitilla fitava-o

também. Ali estava ella, chorosa e humilhada, com

aquelles dois immensos olhos a reluzir dentro de

lagrimas, olhos que foram todo o seu poder, olhos

de seda, languidos, quebrados, de uma ternura que

mais parecia um espasmo, olhos envolventes, profundos,

amorosos, que davam sempre a impressão

de alcovas peccadoras e a doce volúpia de leitos

desmanchados.

A' beira da cama, como uma ave ferida, a

pobre soluçava. Havia nella um quê de amargura

que commovia. O roupão aberto desvendava-lhe

um pedaço do collo.

D. Pedro lambeu-lhe o collo com o olhar. A

sensualidade ancestral do sangue bragantino accendeu-se-lhe

no peito. Os seus olhos ali ficaram demoradamente

na contemplação daquella carne amorenada

e fresca, no extasis daquella pelle côr de

rosa e quente. A ternura, o desejo, a obcessão do

goso encheram-lhe o peito como um rio que extravasa.

Ah! não podia deixar o seu amor humilhado!

não podia consentir que alguém o diminuísse!

E. com um murro no ar, gritou:

— Elias não te quizeram na tribuna, pois hão

de engulir-te no paço.

Dona Domitilla ergueu-se da beira da cama

com o olhar em braza:

— Que vae fazer?

— Pedir á imperatriz que te nomeie a sua

primeira dama.

Os olhos da futura marqueza de Santos faiscaram

como dois fachos, um clarão de alacridade

lavou-lhe subitamente o rosto annuviado. Era o seu

grande sonho — o paço! Ah! viver entre as da-

mas, entre as fidalgas, em contacto com ellas, conhecendo

os meandros da vida chic, ir aos bailes,

ás festas, aos jantares, a ostentar gloriosamente a

sua belleza e o seu poder, ah!

E uma palavra de alegria quiz sahir-lhe do

peito, mas lhe morreu surdamente na garganta.

Ficou gaguejante, tonta, sem saber como exprimir

o contentamento. Mas os seus braços de mulher

abriram-se eloquentemente, os lábios palpitaram

numa ancia, e ella, rolando no leito, com a cabeça

de D. Pedro apertada nas mãos, envolveu-o numa

suffocação e num beijo.

Dias depois publicavam os jornaes a nomeação

de Dona Domitilla para primeira dama da imperatriz.

Procurou-se espalhar pela cidade que aquillo

tinha sido um movimento espontâneo de Dona Leopoldina.

Sua magestade, sensibilisada com a offensa

que soffrera a amante do marido na capella

real, como uma compensação, a chamava para o

paço.

Era mentira. D. Pedro tinha a coragem indómita

dos nevropathas e dos obcecados: impuzera

á esposa aquella humilhação horrível.

Agora, com 0 rodar da carruagem lá em baixo,

as salas se agitavam. Queriam todos gosar

aquelle pratinho novo de escandalo — f como o imperador

se ia haver numa mesma festa com a imperatriz

e a amante...

Nos cantos, nos vãos das janellas, nas varandas,

nos corredores murmurava-se:

— Está pallido.

— Ficou nervoso.

— E' o remorso.

Na outra sala, Dona Leopoldina que, com a

sua argúcia feminil, havia presentido e adivinhado

tudo, conversava com as damas de honor, dignamente

serena, na magestade imperturbável do seu

sorriso de santa.

Nas escadas vinha subindo aim leve rumor de

sedas caras.

— E' ella! E' ella!

O Chalaça seguiu o rumo do corredor. D.

Pedro, apparentando uma calma que não tinha,

tamborilou nervosamente no espaldar de uma cadeira,

naquelle gesto muito seu. E, quando voltou

o olhar para a porta de entrada, o coração lhe bateu

subitamente. A sala inteira estava como que

petrificada, silenciosa, olhos nelle, como numa

tourada se acompanham os movimentos de um toureiro.

A' porta assomava o vulto magnifico de Dona

Domitilla. Estava toda de branco, a immensa cauda

do vestido arrastando, o cabello fulgindo numa faiscação

de pedras.

O imperador quiz avançar e não poude. Chumbaram-se-lhe

os pés no tapete escarlate. E ficou

minutos na contemplação da amante, immovel, como

ella immovel ficára ao vel-o. Havia realmente um

quê de extasiante naquella mulher. Alta, envolta

nas dobras da seda branca, a epiderme mordida

pelo fulgor da sala, assim parada no meio da porta,

tinha qualquer cousa de vaporoso, de ethereo,

uma apparencia de deusa que estivesse coberta de

espumas.

Olharam-se. A sala comprehendeu a perturbação

dos dois.

D. Pedro conseguiu avançar. Risonho, entregou

a mão de soberano ao beijo da amante.

E ella entrou no salão com o seu andar ondulado

de mulher voluptuosa.

Algumas senhoras approximaram-se. O imperador

estava desageitado como nunca. Parecia um

collegial em primeira falta. Escaldava-lhe a cabeça,

o sangue subira-lhe todo ao rosto.

Não teve sequer a lembrança de apresentar a

amante ás damas que a cercavam. E houve uns segundos

esquerdos, silenciosos, em que ninguém falava

por não saber o que dizer. Afinal sua magestade

indicou a Dona Domitilla o sophá ao lado.

Ella sentou-se. No salão os olhares das mulheres

coruscavam, como que a devoral-a da cabe-

O Rio, CIDADE DOS JARDINS — TRÊS RECANTOS DO CAMPO DE SANT'ANNA.

ça aos pés, devassando-lhe, minúcia a minúcia, os

sapatos, as meias, a curva da cintura, o talho do

vestido, as fitas, as rendas, o colar de pérolas, a

coroa de rosas dos cabellos.

De uma e de outra sala, de quando em quando,

chegava á porta um olhar perscrutador de

dama, disfarçando. Era a curiosidade feminina assanhada,

a bisbilhotice de mulher gosando aquella

novidade picante de sabor escandaloso.

Ninguém falou-, a não ser aos cochichos. Tinha-se

a impressão de um quarto de enfermo.

E o tempo ia passando. Não era possível aquillo

continuar assim. Havia muito tempo que a primeira

dama da imperatriz ali estava e não tinha

sido ainda levada á outra sala para ser apresentada

a Dona Leopoldina. Pelas regras do protocollo

devia ser o prorrio D. Pedro a fazer a apresentação.

O Chalaça veiu ter com o imperador. Toda

gente comprehendeu pelos gestos a conversa. O valido

estava a lembrar ao monarcha as regras protocollares.

E mais vivos, mais agudos, chisparam os olhos

, bisbilhoteiros.

D. Pedro caminhou para o sophá em que Dona

Domitilla, sozinha, agitava o vasto leque de madrepérola.

Ia leval-a á apresentação.

Houve um prurido de curiosidade entre as

damas. Muitas surdiram da sala próxima.

Dona Domitila erguera-se á approximação

do imperador. Os dois caminharam em rumo da

porta que levava á sala da imperatriz.

As mulheres moveram-se para seguir o par.

Queriam ver aquillo! Queriam ver a cara de D.

Pedro apresentando a amante á esposa legitima!

Era um pratinho raro, que valia a pena saborear.

Mas, no momento em que sua magestade ia

para transpor a porta, vinha entrando Dona Francisca

Castello Bracnco, açafata da imperatriz. D.

Pedro fez á dama um gesto, detendo-a. E' gentil e

risonho:

— Quer prestar-me um obsequio?

— A's ordens de vossa magestade.

— Faça á imperatriz a apresentação de sua

primeira dama, disse, indicando Dona Domitilla.

A açafata leve um leve rubor no rosto, mas

immediatamente mudou de expressão, curvando-se

delicadamente:

— A honra é toda minha.

Passou pela sala o choque de uma decepção.

Ora!... Mas o pratinho não estava de todo perdido.

Devia ser interessante ver a cara da concubina

imperial deante da imperatriz.

E a onda de fidalgos seguiu.

Quando Dona Francisca Castello Branco chegou

perto de Dona Leopoldina, estava ella a conversar

intimamente com Dona Marianna Verna de

Magalhães.

Depois das palavras banaes da apresentação,

Dona Domitilla curvou-se profundamente. Fez-se

um silencio que a aza de uma mosca perturbaria.

Ninguém falava, ninguém cochichava para não

perder um detalhe da scena.

E não houve quem não guardasse a mais pequenina

minúcia.

A imperatriz, com o canto dos olhos, mediu

a rival lie alto a baixo, num relance. Um traço de

amargura vincou-lhe o rosto pallido.

Mas o seu braço se estendeu senhorilmente,

augustamente, e ella foi num momento a soberana

que entregava a mão aos beijos da vassala.

Dona Domitilla beijou-lhe os dedos.

E sua magestade, voltando o rosto para o outro

lado, fez á amante do marido um gesto desprezível

com a mão esquerda, como a ordenal-a

que se retirasse, e continuou tranquilamente a conversar

com Dona Marianna.

Nesse momento a orchestra rompia o signal

Ha primeira quadrilha. D. Pedro tinha mandado tocar

a musica para desmanchar as impressões.


LITERATURA PRECOCE

A pequenina alongou os braços, e disse, a sorrir, com unia voz

muito lenta:

— Estas violetas estão pedindo ao senhor que as leve. Faça-lhes

a vontade, sim?

Comprei as violetas.

— Muito obriga-da. Não quer troco?

— Não. Quero que me diga a sua idade.

— Tenho onze annos.

— Pois, minha filha, continue... Você promette.

ftí

QUINTA-FEIRA .

Um dia côr de zinco. As ruas apinhadas. Gente

Gente em grupos. Toda a gente com o ar acceso de quem

jornaes.

Entro num cinema. A sala de espera dá para a Avenida.

Vem da Avenida um rumor confuso... Apago os ouvidos,

pouco a pouco. Fico a viver pelos olhos, esparramando-os

torno, sorvendo as figuras que alli estão, como eu também

tou á espera do toque. E' dia de Constance Talmadge.

Junto de mim, desmanchada sobre um divan, uma

senhora mappa-tnundi, distrahidamente, torce, entre

os dedos vermelhos, o programma da sessão. Quando

percebe que a miro, estira os lábios num amuo offendido,

larga o programma, comprime com as largas

mãos os largos seios...

Felizmente, a campainha dá o signal, e, no meio

da multidão, a senhora se desfaz...

A PROPOS1TO DE MODAS

passa

O Chefe da Igreja Catholica, ao receber, não ha

muito, uma commissão ide senhoras, dentro do Vaticano,

aproveitou o momento para protestar contra a

moda feminina dos últimos tempos. Sua Santidade

exigiu das filhas de Deus modéstia e compostura 110

vestuário; se não, o mundo, já em estado tão ruim,

acabará de vez, sem pudor e sem dignidade.

Em resumo profano, pôde traduzir-se assim o

discurso de Benedicto XV: — E' da maior urgência

que as mulheres -deste século se vistam!

Mas, as mulheres do século XVIII, 11a cidade que

ensina a elegancia ás outras cidades do planeta, andavam

vestidissimas, e o século XVIII, em Paris, portou-se

muito mais escandalosamente do que o nosso.

A roupa é um mal entendido dos moralistas. O

Papa, insistindo por ella, pondo nella a salvação da

humanidade, aggravou esse engano millenar...

Nada mais casto do que um corpo nú. Esconder

a nudez, eis uma idéa do Diabo... São Mael teve de

convencer-se disso. Os habitantes da ilha d'Alca, aos

quaes elle fôra levar a boa nova do Christianismo, viviam

ao ar livre, crescendo e multiplicando-se, ingênuos,

felizes e nús. O santo resolveu vestil-os. Mandou

pedir aos monges d'Yvern os aviamentos®necessarios.

Como se sentasse, á espera, numa pedra, junto

UMA LINDA FANTASIA


O FLAMENGO

NO BAILE DOS ARTISTAS — NO FLUMINENSE F. C. — NO VILLA ISABEL F. C


VlVtr

A

v*

De mãos postas, olhar amortecido,

de joelhos prostro-me ante o teu santuario,

tão pai lido e sombrio c solitário

como o vago fantasma de um vencido...

Venho de longe, tôrpido c extenuado,

sentindo o coração a transbordar.. .

O* Tristeza, meu bem amargurado,

acolhe-me em teu seio c deixa-me chorar...

Fita nos meus os olhos teus de luar,

serenamente, reiigiosamente,

minha suavíssima Tristeza,

— divina fôrma do meu grande Amor...

Vem! acolhe na tua a minha Dor,

no teu sorriso o meu sorriso doente,

e a minha Magtta ir redimida

será meu sonho de Bellesa...

Aperta-me em teus braços frios, frios...

Quero ter

dentro em meu ser

a essencia germinal da tua Vida.

Une ao meu pranto

a melopêa dos teus murmúrios...

banha-me em teu mysterio e em teu quebranto...

oscula a minha face fria,

ó Tristeza, minha ultima alegria!

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a í x

I H

ALVARO 31 ORE Y li A

Quero cm meu coração tua amargura

e o soturno silencio do teu Sonho;

abysma toda a minha Desventura

no teu viver nobre e tristonho...

Quero-te minha, ó Alma da minh'alma!

Vem! acalma

o choro de revolta em que os olhos inundo

e dá-me as tuas lagrimas sem fel...

Suffoca meu desvario mais profundo!

Adormece este espirito revel

e deixa-me ser teu, minha Tristeza...

Guarda-me á tuc± sombra amiga e boa,

e põe no meu olhar, accesa,

a luz mortiça que no teu descansa

e em meus lábios a loa

de uma cantiga doce e mansa...

Num soluço interior,

deixa cm mim tua voz que nunca mente;

não me abandones mais, ó minha Dor!

Aconchega-me ao sevo teu gelado...

Dá teu beijo de espectro, fluidamente,

ao beijo meu alado...

entrega ao meu ardor a tua frieza,

minha suavíssima Tristeza,

— divina fôrma do meu grande Amor...

QUADRO DOS NOVOS ADVOGADOS, QUE COIFARAM GRÁO O AN NO PASSADO.


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• SENHORA NEMÉSIO DUTRA SENHORINHA MARIZE DUCLOS SEXNORTNTTA LEÃO V£E£C$C

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COMRATE NOS TEMPOS PREHISTORICOS

MARMORIC DK TI. PTC Y ROL, QUIV F.STÁ NO JARDIM DA C,T.ORTA

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I

I

I

STA' na consciência de todo o patriota esclarecido que o Brasil

não pôde dispensar uma forte marinha militar, para garantia de

seu progresso, para salvaguarda de seus mais s-agrados interesses,

que dentro de um futuro bem proximo reflectirão as' suas

mais justas aspirações a um logar de destaque entre as nações 1

produetoras, como centro de uma grande actividade economica.

Não poderemos progredir livremente, s*em receios, em nossa expansão

commercial e industrial, se não caminharmos a coberto de possiveis

aggressões movidas pelo espirito de rivalidade, pelo entrechoque das paixões

mesquinhas que revolvem o planeta.

As nações* fracas, sobretudo — e mesmo as fortes — precisam seguir

40

"DESTROYER" BRAZILEIRO, TYPO "PARÁ*", CONSTRUÍDO F.M 1908, COM 650 T. F, -26

MILHAS HORARIAS.

uma politica de entendimentos internacionaes, para não ficarem expostas ao

ataque de forças esmagadoras. Essa necessidade, que se revela na esphera da

diplomacia e nas próprias relações commerciaes, mais ainda se evidencia no

terreno militar. Todo entendimento se traduz, praticamente, em um pacto

onde apparecem vantagens e obrigações. Entre estas* ultimas figura, inevitavelmente,

o concurso material de um apoio militar reciproco; de outro modo

é fatal a subordinação estreita do fraco acorrentado e submisso ao forte, a

sua tutela absoluta.

Quer para exercer, isoladamente, uma represalia dentro das possibilidades

de sua força individual, quer para concorrer com outros na defesa comnuum,

cumpre ao Estado preparar-se militarmente. Ninguém virá em seu auxilio

com desinteresse. Os imprevidentes e os sonhadores, que contarem com

a protecção dos amigos poderosos para se salvarem 110 momento do desastre,

nada mais alcançarão que mudar a fôrma a esse mesmo desastre, deixandoo

subsistir, muitas vezes, com o proprio nome de victoria.

Débil e impotente, lançar-lhe-á sempre em rosto — delicadamente — o

amigo da vespera, que lhe salvou a elle a própria vida, a sua existencia

politica, e que, pela amizade, não se lhe poderão negar, então, compensações

vantajosas, em proporção á assistência materal e ao apoio moral, desinteressadamente

offerecidos...

E' assim a historia do mundo... Os estadistas responsáveis pelos des-

tinos de nosso pa z devem reflectir.

E' profundamente doloroso chegar-se a esta conclusão: que o Chile e

a Republica Argentina souberam crear as duas' primeiras marinhas da America

do Sul, e no vasto e ubérrimo torrão nacional — vive-se a dizel-o —

"SCOUT BAHIA", IGUAL AO U RIO GRANDE DO SUL", DESLOCANDO 3-000 T.. COM 20

MILHAS DE VELOCIDADE MAXIMA, K CONSTRUÍDO EM 1908.

não poderemos su-stentar o nosso poder naval, já hoje collocado em terce ro

logar no continente, em flagrante e escandaloso declínio progressivo.

Chilenos e Platinos egualmente não deixaram de lado a organisação de

suas forças de terra, precedendo-nos, de muitos annos, na solução desse problema

vital. Com a marinha dá-se o mesmo.

Suas' frotas auginentam, enquanto a nossa diminue; seus navios movimentam-se,

emquanto os nossos, por falta de lhes darmos carvão e trato

conveniente em officinas capazes, para se manterem efficientes, deixamolos

em pasmaceira, mezes e annos.

Seremos, na verdade, tão ma : s pobres que os* nossos visinhos, que nos

tenhamos de resignar a esta posição secundaria, com um fardo muito maior

de responsabilidades no mar, e sendo o Brazil uma vasta e inesgotável fonte

de riquezas naturaes ?

Nos últimos dez annos vem declinando o nosso materal naval; nunca

chegámos a organisar convenientemente certos serviços. Navios velhos vão

tendo baixa (Tamoyo, Tupy, Tymbira, Tiradentes, Tamandaré) ; outros,

como o "Republica", são candidatos ostensivos á compulsoria; as* unidades

mais novas, do programma de 1906, envelhecem á mingua de recursos para

serem mantidas em estado de utilisação eff'ciente, e vão exigindo cada vez

elementos mais abundantes de conservação, que diminuem, entretanto, paradoxalmente,

á medida que se tornam mais necessários !

Em 1910, noss*a frota era accrescida de quatorze unidades de alto mar,

e, pouco depois, de mais quatro navios, tudo representando um total de

58.000 toneladas, 24 canhões grossos*, 84 médios e 70 de pequeno calibre.

Os dreadnoughts, com seus machinismos* complexos, com suas torres giratórias

para a artilharia; os submersíveis* com os seus orgãos de delicada precisão;

os destroyers e scoutst navios relativamente leves de escantilhão, que

se gastam coin facilidade, — todos elles em pouco tempo começaram a

exigir cuidados que lhes não deram.

O material fluctuante, depô s de certo uso, demanda um trabalho continuo

de conservação. Desattendida essa necessidade, avolumam-se, crescendo

em progressão vertiginosa, as despezas futuras.

E* o que se tem verificado no decurso dos últimos sete annos : á medida

que os nossos navios, com todo o seu abundante machin'smo e o seu

COURAÇADO "MINAS GERAES", QUE PASSA ACTUALMENTE POR UMA GRANDE REMO-

DELAÇÃO, NO ARSENAL DE BROOKLYN, DO GOVERNO NORTE-AMERICANO, ONDE FOI,

HA POUCO, MODERNISADO O "SÃO PAULO", DO MESMO TYPO. DESLOCAMENTO 20.OCO

T., 21 MILHAS DE MARCHA, 12 CANHÕES DE 30 C|M E 22 DF. 12 C|M.

armamento complexo, têm-se tornado mais gastos com o uso, decresce assustadoramente

a capacidade de mão de obra nas officinas do Estado, dimi*

mue o operariado ! Recorreu-se, afinal, tardiamente, ás frmas particulares

para conjurar a crise, — solução a principio bem orientada, mas algum tempo

depois desvirtuada.

Os dois grandes couraçados, que apresentam uma tonelagem global maior

que a metade do deslocamento de toda noss*a esquadra, em face dos progressos

do torpedo e do canhão, podem ser considerados completamente obsoletos*.

Não ha remodelação possível que lhes compense uma insufficiencia

tactica flagrante. Serão excellentes unidades de treinamento — com a condição

de se movimentarem... — desde que o "Minas", modernisado na

America do Norte, onde se acha, venha fazer companhia a seu irmão "São

Paulo".

Não mais* poderão ser, entretanto, de 1921 em deante, as bellas unidades

de combate que em 1908 encerravam os -últimos aperfeiçoamentos technicos.

A Nação não pôde ficar indifferente em face dessa desconcertante realidade.

Uma marinha de Guerra não se improvisa; é o fructo de um labor paciente,

prolongado e continuo. O material se adquire com dinheiro; mas o

homem que vae manejal-o, que vae transformar a massa inerte de aço em

instrumento dócil da sua vontade, para talhar o monumento da victoria, esse,

é mister educal-o, identifical-o pelo habito prolongado com os s*eus elementos

de acção, fazel-o ao mesmo tempo guerreiro e marinheiro.

E. IV. MUNIZ BARRETO.


ouço ? Louco será q-uem o não comprehende,

quem o não admira, quem

se não inflamma em estos de enthusiasmo

ao fogo vivo da sua exaltação

perenne, quem se não illumina

em belleza e commoção ao

esplendor do seu ideal ! Louco não

é elle, que sente tumultuar em si,

desencontradamente, todas as forças de pensamento,

de ambição, de fé, da sua raça moça e pujante

— que as sente e que as exprime ! Louco não

é elle — elle, o exaltado, elle, o assomado, elle, o

visionário, elle, o poeta — mas quantos, desalentados,

apathicos', molles, indifférentes, inhabeis, vazios

de idéas, a si mesmos, na sua infinita candura,

ingenuamente se julgam capazes' de julgal-o...

A quantos não conheciam delle senão uma ou

outra obra, um drama, um romance, um trecho

solto de poesia, Gabriel d'Annunzio appareceu agora,

nestes annos de guerra, como uma figura nova,

estranha e pittoresca, uma figura enorme, que

vista á distancia parece desenhada nas nuvens, variando

a cada momento de aspecto e de expressão,

agora sublime e gigantesca, logo ridícula, conforme

o vento a altere e deforme.

E entretanto a personalidade do poeta não se

modificou; a sequencia harmoniosa da sua vida

não se quebrou. Ao chegar dos seus Abruzos nataes,

imberbe e lindo, já Scarfoglio, já Matilde

Serau lhe vislumbravam em Roma nos olhos grandes,

grandes sedes de grandes feitos'; nos seus

versos de então, como nos de hoje, corria já o

frémito patriotico, palpitavam já, como em jaulas

de ouro, as esperanças luminosas.

Em toda a sua vasta obra escachoante, tão

diversa de si mesma, (notava o principe Borgese),

as condições da vida publica, os acasos felizes e

infelizes por que passou a Italia reflectem-se, ora

a aclaral-a, ora a recobril-a de uma névoa opaca,

de um véo de ambiguo soffrimento. O impeto instinctivo

do seu lyrismo coincide com a loucura

da empreza africanista, com o orgulho de Crispi,

com a fúria negocista e aventureira da terça Roma;

cmquanto que o ancioso e incerto recolhimento que

vae do Giovanni Episoopo á Gioconda corresponde

ao periodo dos desastres, de Dogali a Abba Carima...

E Jules Destrée, o deputado e publicista belga,

relembra a carta enviada por d'Annunzio menino

ao seu professor, na qual o futuro poeta nacional

escreve: "A minha missão na Terra será ensinar

ao povo a amar a Patria, e a odiar de morte os

inimigos da Italia!" E ajunta Destrée: "Ces grands

serments puérils font sourire quand les faits ultérieurs

les viennent démentir; mais á la lumière d'aujourd'hui,

oserons-nous railler celui-ci?"

Qual é o seu livro de versos cm que o amor,

a paixão da Patria não flamme

je, não arda aqui e ali em

hymnos de gloria, impetuosos,

em estrophes de alcandorado e

estúante enthusiasmo ? Muito

antes da guerra d'Annunzio

cantava já a guerra, impellia

com gritos o povo ao destino

magnifico. As Odes Navaes

estão cheias de toques de alerta,

lançados' no ar sereno por

clarins vibrantes. O Adriático é

já nesses poemas o marc nostrum

dos italianos, prolongamento

liquido do Reino... Os

encouraçados, as - CL

torpedeiras,

os canhões, a polvora, são assumptos

lyricos da obra, que

se eleva ás vezes em um sopro

de epopéa a sublimes alturas. Poeta da Força,

da Audacia, do Arrojo, do sangue, do fogo,

d'Anmmzio em uma das suas' poesias mais bellas,

insatisfeito de si proprio, só pede á Natureza que

o encha de luz, de ardência, de soffreguidão, de

mais sangue. E diz :

O mia Madre, in tutte le vene

accresci il mio sangue e 1'affina !

E. s'io fosse in crudo suppliuio

ed ogni aumento di sangue

mi fosse aumento di pena,

io te griderei : "Madre, Madre,

moltiplioa questo mio sangue

doglioso, perché piú mi feros

l'anima e mi sia piú divina !"

E depois, em «uma exclamação, como Anteu,

filho da Terra:

Eccomi, sano

su 1'erba, con múscoli snelli,

cuore saldo e fronte capace. . .

Piú ragione v'é nel mio corpo

válido che in ogni dottrina !

Na sua ode Al re giovane, ao joven rei Victor

Manuel III, que pelo assassinato do seu pae subia

inesperadamente ao throno, o poeta incita com

vehemencia o soberano á declaração de guerra.

Refere-se primeiro ao rei Humberto :

Egli volle Roma

egli ebbe il Campidoglio,

egli ha pace nel tempio romano.

E cm seguida interroga ancioso o filho":

Che vorrai tu sul tuo soglio ?

Quale altura é il tuo segno ?

Miri tu lontano ?...

E' largo quanto il tuo orgoglio

il gesto delia tua mano ?

Sai tu come sia bello il tuo regno ?

Conosci tu le sue sorgenti

innumerevoli, e la forza

nuova 6 antica delle sue correnti ?

E depois, em «um arroubo, incita-o :

T'elesse il destino

all'alta impresa audace.

Tendi l'arco, accende la face,

colpisce, illúmina eroe latino !

Vénera il lauro, esalta il forte.

Apri alia nostra virtú le porte

dei domini futuri !

E fazendo antever ao monarcha a sua revolta,

caso elle se não decidisse a satisfazer os desejos

de todo o povo, accrescenta paragonando o

Dante :

Ché, se il danno e la vergogna duri.

Quando l'ora sia venuta,

tra i rebelli vedrai da vicino

anche colui che oggi ti saluta,

ó tu, che chiamato delia Morte

fosti re nel Mare !

* * *

As estações passaram-se. O Rei Joven cresceu

em annos» e em sabedoria. E um dia, a -uma

nova apostrophe vehemente do poeta, que se erguia

em Génova, eil-o que afinal declara a guerra.

DAnnunzio faz-se então soldado, combate, guia

no ar, como aguia real, um bando de falcões. E

quando a guerra termina, o poeta, percebendo que

a Italia não alcançaria todos os fructos da Victoria

estupenda, cumpre a sua promessa: rebella-se,

•põe-se, contra o governo da Italia e de todas as

grandes nações alhadas, com excepção única do

Brazil, á frente de um punhado de patriotas, toma

de assalto uma cidade, fortifica-se nella...

A sua acção foi então como um prolongamento

natural de toda a sua obra anterior de artista.

Elle, o guia, o conductor de homens, foi a Fiume

empolgado, conduzido — conduzido e empolgado

pela sua immensa esperança, pelo seu desconforme,

inaudito enthusiasmo, pelos estos da sua fulgurante,

da sua perpetua juventude...

Filho do Sol e do Mar, dos Abruzos, em que

os altos montes azues mobilmente se reflectem e

parecem aprofundar-se nas aguas do oceano, d'Annunzio,

como a Italia, cumpriu o seu destino fulgurante.

A sua vida foi toda ella uma chamma,

tão alta que o seu clarão illuminará a Historia.

A Mãe-Natureza não lhe negou o ardor que elle

lhe pedia, o Verão abeberou-o de sol :

O Estate, Estate ardente,

quanto famanimo noi per fassomigliare,

per gioir teco nel cielo, nella terra e nel mare

per teco ardere di gioia su la faccia dei mondo.

selvaggria Estate

dei respiro profondo.

figlia di Pan diletta, amor dei titan Sole

armoniosa,

melodiosa. ..

O fulva fiera,

o infiammata leonessa del Etra.

grande Estate selvaggia,

libidinosa,

vertiginosa,

tu che affochi le reni

che incrudisci Ja sete,

che infurii gli estri,

musa, Gorgóne,

tu che sciogli le zone,

che succingri le vesti,

che sfreni le danze,

Grazia, Baccante.

tu ch'esprimi gli aromi,

tu che afforzi i veleni,

tu che aguz'zi le spine,

Esp£ride, Erine,

deitá diversa,

divina nella schiuma dei mare

[e dei cavalli

nel sudor dei pisceri,

nel pianto aulente delle selve

[assetate,

o Estate, Estate,

io ti diró divina in mille nomi

in mille laudi

ti loderó, se m'esaudi.

se soffri che un mortal ti domi.>

che in carne io ti veda,

ch'io, mortal, ti goda sul letto deli* immensa

, „ [piaggia

tra l'alpe e il mare,

nuda le fervide membra che riga il tuo san-

[gue d'oro

odorate di áliga, di résina e di alloro !

Palavras ? Palavras cuja magica belleza consiste

apenas no rithmo, na sonoridade larga?...

Não; palavras sinceras, expontaneas, reveladoras.

Com ellas, d'Annunzio não só fez um poema, o

que seria bastante, como fundou, na velha Italia,

um Reino novo, uma Patria nova.

AFONSO LOPES DE ALMEIDA


Tratar das igrejas do Rio de Janeiro

sem collocar, em primeiro plano, a de Nossa

Senhora da Candelaria, seria uma verdadei-

ra heresia. Ella é a mais bella de todas, e o

historico da sua fundação é interessantíssi-

mo. Antonio Martins da Palma, de volta das

índias Hespanholas, em companhia de sua

mulher, Leonor, vinha em uma embarcação

commandada por elle proprio. Furiosa tem-

pestade ameaçou-os de serio desastre. Reli-

giosos em extremo, invocaram a Nossa Se-

nhora da Candelaria, padroeira da ilha de

Palma, patria de amhos; fizeram votos e

promessas para se pôrem a salvo da tormen-

ta. A promessa constava do levantamento

de uma igreja no primeiro porto em que to-

cassem. Quizeram os fados que esse porto

fosse o do Rio de Janeiro; e o voto foi fiel-

mente cumprido. A data desses acontecimen-

tos não é precisa, os documentos existentes

são falhos. Sabe-se que elles tiveram logar

nos princípios do século XVII. Tão pouco

se conhece o nome da náo que trouxe os fun-

dadores ílo templo que hoje nos orgulha e

envaidece.

Balthazar Lisboa affirma que na praia

onde foi erguida a igreja existiu, encalhada,

por muito tempo, uma embarcação chamada

"Candelaria", tendo sido o templo, cm parte,

construído com o madeiramento da referida

náo. ,

De positivo existe, unicamente, que o

casal Martins - Gonçalves era possuidor de

grandes cabedaes, e que comprou terrenos

da praia (rua de S. Pedro), erigindo ahi a

"Igreja da Varzea", como era conhecida.

Nas "Memorias históricas do Rio de

Janeiro", monsenhor Pizarro diz que a Igre-

ja da Varzea foi a terceira erguida no Bra-

zil, sob a invocação da Virgem. A primeira

foi a ermida de Nossa Senhora do Soccorro,

em 1546, da qual nasceu a Santa Casa da

Misericórdia. A segunda foi a de Nossa Se-

nhora da Ajuda, em frente ao Palacio Mon-

roe actual.

Em 1639, não querendo os fundadores A PORTA PRINCIPAL DA CANDELARIA, OBRA DE TEIXEIRA LOPES.


do templo abrir luta com as autoridades ecclesiasticas, doaram o mes-

n.o á Santa Casa da Misericórdia, com uma única condição: terem se-

pultura na capella-mór para "elles e seus descendentes" e mais "uma

missa semanal em acção de graças aos fundadores da capella".

As demandas, temidas pelos fundadores, surgiram entretanto, sen-

do a Santa Casa destituída dos direitos adquiridos por doação sobre o

templo, por sentença do juiz apostolico; "mas ficando com a serven-

tia do terreno ao lado da rua de São Pedro, para ahi fazer um ora-

torio e casa para guardar as tumbas e bandeiras, e recolher as pro-

cissões, occupando todo o terreno, desde a porta travessa até uma

capella de São Pedro que ahi havia, isso segundo Marques Pinheiro

— "A Irmandade da Candelaria". — Não foi essa, porém, a ultima

questão. A historia de Nossa Senhora da Candelaria, desde a então

ermida de Palma, até, póde-se dizer, os nossos dias, tem sido um

rosário de lutas. Bispos, governo, artistas, confrarias, etc., empenha-

ram-se em demandas, felizmente com o fim de engrandecel-a cada

vez mais. Em 1710 foi reedificada, e, segundo alguns, teve o tem-

plo a sua fachada principal para a rua Gonçalo Gonçalves — hoje

General Camara. Não obstante essa reconstrucção, em 1768 offere-

cia o templo bem pouca segurança aos seus fieis; o temor de um

desmoronamento impedia-os de assistir aos officios religiosos que

se effectuavam.

Em 1775, D. Justiniano Mascarenhas Castello Branco, bispo,

natural do Rio de Janeiro, e precisamente da freguezia da Candela-

ria, estimado por todos, acceitou o cargo de provedor (no mesmo

anuo assumia o governo da diocese), propondo, em sessão de 3 de

Junho, a construcção definitiva »do templo. Acceita a proposta, foi

determinado o dia 6 de Junho de 1775 para a sagração da pedra

fundamental. Na cerimonia officiou o bispo-provedor, estando pre-

sentes não só a mesa administrativa como também o vice-rei, mar-

quez de Lavradio, autoridades civis, militares e ecclesiasticas.

Mas só em 1899 a igreja da Candelaria surgiu aos olhos do

povo, magestosa, cheia de graça nas suas soberbas linhas. A deco-

ração interna, o objectivo desta chronica, resplandece. O seu autor,

o grande mestre João Zeferino da Costa, em companhia de um pu-

nhado de discípulos, perpetuou nos painéis existentes o seu luminoso

talento. Heitor Cordoville deixou também o seu nome ligado a tão

soberba obra; são delle as columnas da nave.

Os painéis de Zeferino encerram 11111 conjunto admiravel de rc-

quesitos que só os grandes artistas podem possuir. A partida de

Palma, a tempestade e a invocação, a arribada ao Rio de Janeiro, a

inauguração da primeira capella, o lançamento da pedra fundamen-

tal da grande igreja em 1775, a sagração solenne em 1810, são os

motivos principaes da magistral decoração.

Na partida de Palma sente-se a calma e o adeus dos que em-

prebendem uma longa e duvidosa viagem. As figuras movimentam-

se em attitudes de uma verdade estupenda. Martins e Leonor Gon-

çalves apparecem tranquillos 110 tombadilho para receber a despe-

dida dos que ficam, e a marinhagem activa as ultimas manobras.

Na tempestade, o pintor apparece violento como as vagas que

sacodem a frágil nau... A figura de Martins surge, agora, não

com a calma da partida, mas implorante, tendo sobre o peito a gen-

til figura de Leonor; ao fundo, contrastando com a revolta, a santa

imagem da Virgem, de uma suavidade grandiosa.

O movimento de tudo impressiona. O velame estoura pela fúria

do vendaval...

No painel "O salvamento" a tranquillidade religiosa volve no-

vamente aos olhos do observador. E' o agradecimento de almas que

se viram perdidas 11a procella. O conjunto é suave, de um mysticis-

1110 que encanta.

O "Voto cumprido" é o refinamento, a vaidade da promessa

satisfeita e os costumes e as pompas de uma época. Lá estão as nos-

( A


sas tradições: o fogueteiro, a preta mucama e as galas, as bandeiras,

os galhardetes e a folha de mangueira pelo chão... Os gibões em

seda, rutilantes de ouro dos seus galões, perucas e caprichosos tou-

cados empoados, que emprestam ás mais juvenis physionomias uma

apparente severidade.

"A sagração em 1775" representa o mesmo scenario de "O

voto cumprido", revestido de galas religiosas.

Sob o grande pallio, sustentado por pernas de madeira envoltas

em folhagens, surge omnipotente a figura de Castello Branco, o

santo bispo, grande, dentro dos paramentos. A nobreza e o governo

da época estão representados na pessoa do marquez do Lavradio e

sua gente.

Finalmente, temos "A inauguração em 181 o". E' o templo de

hoje, grande 11a sua magnificência severa. E' a recepção solemnc

da imagem da Virgem; a procissão, com todo o seu séquito pittores-

co, com o seu pallio colorido; são os chalés finos de seda em con-

traste com as vestes dos clérigos; são as lanternas que cortam, aqui

e ali, as massas formadas pelos grupos, e finalmente o fim das lutas

de dous séculos, e a mais soberba glorificação de um artista.

Ainda de Zeferino da Costa são os painéis proximos ao altar-

mór e os grandes prophetas que estão sob a grande cupola.

Em toda a obra, mestre Zeferino reuniu o que de grande tinha

11a sua alma. A sua personalidade de artista puro resplandece, lím-

pida, formosa como o seu coração.

Os que conviveram com Zeferino da Costa e da sua bocca ou-

viram os martyrios passados nos andaimes da decoração é que po-

dem bem avaliar o seu valor. Lá, elle adquiriu a moléstia que o le-

vou ao tumulo, um rheumatismo que o aleijou e impediu de conti-

nuar a produzir obras do mesmo valor. Mesmo assim, continuou

apostolo; doutrinou até os últimos momentos, e as gerações que

passaram pelas suas encarquilhadas mãos continuam a viver sob a

aureola que elle deixou 110 pensamento de todos.

Zeferino da Costa foi o mestre dos mestres. Delle receberam

ensinamentos desde Bernardelli até Raymundo Cella, um fino artis-

ta, hoje em Paris, no goso do Premio de Viagem.

A producção de mestre Zeferino da Costa é copiosíssima; só

a Galeria da Escola de Bellas Artes possue uma bella collecção de

dezenove quadros, sem contar com as ultimas compras, onde se en-

contram os formosos cartões da Candelaria, impressões e o estudo

a carvão do "Obulo da Viuva", do tamanho original; nesse quadro

o saudoso mestre patenteou severamente os grandes conhecimentos

de perspectiva que caracterisavam as suas aulas. E' o quadro de

regulares proporções, pois mede im,oi x 1111,32, sendo pintado em téla.

"A Caridade", a melhor obra de cavallete do artista, também

pintada em téla, representa um periodo de sofíVimento para o pintor.

Foi o quadro executado novamente, depois de terminado, em virtu-

de de uma critica feita por um dos grandes mestres que encaminha-

vam o saudoso mestre durante a sua estadia em Roma. Era com la-

grimas a banhar-lhe as faces que o bom mestre Zeferino narrava

aos seus «diiscipulos essa 'passagem da sua vida. Entre os quadros que

figuram na Galeria da Escola encontra-se também a "Pompeiana",

que tão severa critica mereceu de Gonzaga Duque... E' um quadro

cheio de ingenuidades, porém desenhado com correcção impeccavel

e pintado com technica segura e colorido suave...

Completando as obras de Arte existentes 11a nossa mais formo-

sa basílica, estão as portas de bronze, esculpidas pelo notável escul-

ptor portuguez Teixeira Lopes. São magnificas peças, trabalhadas

em larga maneira, que honram o seu autor e augmentam a grandeza

da nossa verdadeira Cathedral.

ERCOLE CRI:MONA.

NOTA — Obras cons.: Marques Pinheiro — "A irmandade da Candelaria".

Monsenhor Pizarro — "Memorias históricas do Rio de Janeiro".

Lindolpho Azevedo — "N. S. da Candelaria". ("Kosmos").


ACTO I

Sala pobre, em casa modestaf de subiirbio. Ao

levantar-se o panno Lúcia e Amélia acertam um

vestido num manequim.

SCENA I

Lúcia e Amélia (Criada)

LÚCIA — Puxe desse lado! Ficou peor. E.»ty

agora todo enviesado!

AMKUA — Não se desespere. E' o primeiro

vestido que faz!

LÚCIA — Quem me confiou a costura, porémnão

fará a mesma reflexão, e nem sabe que foi

para ajudar meu marido que me improvisei cost::*

reira. Dê-me a tesoura.

AMÉLIA (Dando-lhe a tesoura) — Vae descozel-o

?

LÚCIA — A ver se lhe acerto a barra. (Descose

um dos lados da saia) Alfinetes! (Ligeira

pausa) Vejamos agora. Bonito! Ficou peor: todo

penso! E dizer-se que fui a primeira alumna de

costura do collegio!

AMÉLIA — Com certeza algum collegio de

meninas ricas... Deixe-me vel-o, D. Lúcia. Quem

sabe se consigo acertal-o.

LÚCIA — Cuidado! Tem as mãos sempre a

cheirar a cebolas.

AMÉLIA — Veja agora!

LÚCIA — Um primor! Fica o forro a apparecer...

AMÉLIA — E' melhor não esquentarmos a

cabeça. Deixemol-o. Faço uma promessa a Santa

Anna, e vae ver como mais tarde é só pegal-o c

já estará certo.

LÚCIA — Deixe Sant'Anna em paz, e leve-o

á casa de minha costureira pára que o acerte.

AMÉLIA — Vae cobrar-lhe mais do que recebe

a senhora por todo o feitio-.

LÚCIA — Que fazer? Que o acerte, apenas.

Costural-o-einos nós.

AMÉLIA — Sant'Anna não cobrava nada, e

para vestido penso não ha igual, nem mesmo entre

os santos.

LÚCIA (A sorrir) — Leve-o. (Amélia sáe)

Para outra vez em que tivermos menos pressa

pensaremos em Sant'Anna.

SCENA II

Lúcia e Christiano

CHRISTIANO — Dá licença?

LÚCIA — Oh! Entre, Christiano.

CHRISTIANO — Bom dia! Ainda bem que a

encontro a sorrir.

LÚCIA — Ria-me de Amélia! Descobriu uma

santa que cose de graça! Imagine que serviço

terá a pobre santa!

CHRISTIANO — São as mais felizes, as almas

simples. E — quer saber? — no fundo de cada

um de nós ha um pouco dessa ingenuidade de

crença que é, ainda, uma benção da fantasia.

LÚCIA (Apanhando alguns retalhos) — Desculpe-me

este desalinho. Terminávamos um vestido.

CHRISTIANO — Seria a mim de lhe apresentar

desculpas por vir tão cedo importunal-a.

LÚCIA — Já é dia alto. Sabe que conservo

meus hábitos de solteira. Na pensão, deve lembrarse,

era a primeira a descer.

CHRISTIANO — OH! os tempos da pensão! Foram

hontem c parecem tão distantes.

LÚCIA — Lembro-me delles com saudades,

apezar de não me terem sitio de alegria, principalmente

depois que se aggravaram os padecimentos

de minha mãe, até que a vi morrer, sempre

resignada, sem um queixume.

CHRISTIANO — O soffrimento parecia accresccr-lhe

a coragem, em vez de a despedir.

LÚCIA — Foi o qaie me deixou cm herança, e

que, ainda agora, quando nossa situação se tornou

difficil, dá-me calma para affrontal-a, emquanto

Juliano se desespera.

_ unptcA

tyeçaein \pefóc)of. ímu^c/^p^rti^a

\o\aòa é /co na pri a Goni pü n ii i ü H^Xti i ) ò tv 1 ^ e vocfro.

CHRISTIANO — Oh!... (Duvidando) Situação

difficil...

LÚCIA — Juliano está desencorajado. Conhcce-o

tanto como eu: deixa-se vencer por pouco.

Vivemos juntos todos tres alguns mezes de pensão.

CHRISTIANO — Sim. Conheço-lhe o temperamento.

Mas disse-me elle que o novo ministro do

Interior lhe havia promettido uma collocação...

LÚCIA — Promessas!... Políticos não ha quef

se fiar delles. Promettem sempre o que estão certos

de não cumprir. Apezar disso, Juliano foi procurar

o ministro, ainda ha pouco. Foi cedo, para o

apanhar em casa. Será, ao menos, recebido?

CHRISTIANO — E' de suppor. Foram companheiros

de Faculdade, se me não engano.

LÚCIA — E de collegio». Mas que importa

isso? Um subiu, outro ficou em baixo... E só

são lembrados os companheiros de collegio que subiram.

..

CHRISTIANO — Está assim descrente á conta

dos homens?

LÚCIA — E' a vida. Coitado de meu marido!

Tem milhares de projectos, faz mil cálculos, mas

tudo lhe falha!

CHRISTIANO — Talvez seja esse seu defeito:

tem projectos de mais e pouca acção. E' um defeito

de todos nós, brazileiros... Herdamos um

pouco de I). Quixote, e outro pouco da lerdice de

Sancho. D. Quixote, mais magro e, consequentemente,

mais agil, chegou-nos ao cerebro. Sancho

ficou-nos dependurado da medulla. O cerebro delira-nos

de fantasia, e os braços dormem de preguiça

!

LÚCIA — Se ao menos pudesse eu ajudal-o!

(Mostrando dois figurinos que estão collocadvs á

janclla) Tentei fazel-o. Improvisei-me costureira,

e puz, por annuncio, aquelles dois figurinos á janeila.

Não posso queixar-me. Tive, logo, encommenda

de um vestido.

CHRISTIANO — Que deve ter sabido uma obraprima.

LÚCIA — De facto... (Sorridente) Mas pensa

de um lado!

CHRISTIANO — Não é um defeito... A torre

de Piza só é notável por ser pensa.

LÚCIA — Infelizmente, nenhuma senhora toma

a torre de Piza para modelo de vestuário. Acabei

por mandar o vestido a uma costureira para

que o acerte. Se vou assim, crcio que com o meu

auxilio Juliano não se livrará de embaraços.

CHRISTIANO — Tudo isso se vae reequilibrar

com um pouco de methodo, e com qualquer emprego

que Juliano obtenha. O assumpto domicilio,

por exemplo, está equilibrado com a resolução que

tomaram de alugar esta casa no suburbio, e de me

cederem dois quartos.

LÚCIA — Que só nos alugou como meio delicado

de vir em nosso auxilio...

CHRISTIANO — Como? Como?... Hom'essa!

Tomei-os de aluguel porque precisava morar em

alguma parte, é claro. Diabo! Tenho o direito de

morar. E' uma das poucas vantagens que tem o

genero humano sobre os irracionaes: pagar aluguel

de casa, e nella beber agua por hydrometro!

LÚCIA — Brinque! Brinque!... Ficar, como

está, tão longe do seu jornal...

CHRISTIANO — Tenho o bonde á porta.

LÚCIA — Quasi uma hora de trajecto...

CHRISTIANO — Mas uma hora de bonde é uma

hora de meditação, de exame interior, de analyse

introspectiva, como se chama agora aos exames

de consciência. . Não se preoccupe, que hei de

arranjar um automovel, qu-ando fôr jornalista do

governo, e não me fór necessário meditar sobre o

valor do tempo e das distancias. E', então, que se

tem necessidade de começar a correr...

LÚCIA — Para que insistir? Bem comprchendo

sua delicadeza e sou forçada a acceital-a,

porque Juliano não a entende assim. Olha suas seguidas

attenções como um myope apressado, que

deixou os óculos em casa... •

CHRISTIANO — E minha boa amiguinha Lúcia

como um myope desconfiado, que põe dois oculos

e acaba assim por ver as imagens duplas. Su


: SCENA III

Os mesmos, Juliano e Roberto

JULIANO (Indo cumprimentar Christiano, emquanto

Roberto cumprimenta Lúcia) — Bom dia,

Christiano.

CHRISTIANO — Bom dia.

LÚCIA — Então, meu amigo?

JULIANO — O que já esperavamos. Não me

recebeu. Felizmente, Roberto tem alguém que pôde

influir em minha nomeação.

ROBKRTO — Um amigo do ministro.

JULIANO — Não creio muito, mas, para que

não digam que não me mexo, acompanho-o. Com

licença! E' um momento. Passei por uns papeis.

(Sác.)

LÚCIA — Não precisas de mim? (Acompanha-o.)

CHRISTIANO — E' a delles uma situação que,

dia a dia, se torna afflictiva. Esperemos que com

tua intervenção Juliano obtenha alguma coisa.

ROBERTO — E' preciso não contar exaggeradamente

com ella. Sou jornalista do governo, e o

governo meu apoio tem-n'o seguro, não é preciso

que me penhore com attençôes...

CHRISTIANO — E' uma situação deplorável...

ROBERTO — A de jornalista do governo?

CHRISTIANO — Não... A de Juliano...

ROBERTO — Talvez você, como jornalista da

opposição, pudesse valtfr-lhe com mais efficacia.

O governo sempre namora a opposição, e prefere

suas graças ás nossas, que são as legitimas... E'

o eterno adultério... Continuas grande amigo do

casal?

CHRISTIANO — Sim. Estou, mesmo, a morar

aqui. Tomei-lhes de aluguel parte da casa.

ROBERTO (Malicioso) — AH!...

CHRISTIANO — Por que esse ah?

ROBERTO — Disse a, como podia ter dito b ou

c, até z, que é o rabo do alphabeto.

CHRISTIANO — Houve uma segunda intenção,

que não posso permittir que perdure.

ROBERTO — Oh, filho, sou como sou. Tenho

um pouco da cebola e do alho: se me expremem,

denuncio-me...

CHRISTIANO — Conheço sua franqueza um

pouco dura. E' por isso que lhe peço que me traduza

aquelle ah.

ROBERTO — Vá que seja. Sei que viveram juntos

em uma pensão, vejo que Lúcia continua a ser

uma mulher encantadora, emquanto que o marido...

pobre diabo... Deus o fará primeiro no

accesso ao reino dos céos... Ora, não é de minhas

peores faculdades a memoria, e lembro-me que cm

certa noite de desconforto me disse você que pretendia

fazer de Lúcia sua mulher...

CHRISTIANO (Surpreso) — Ah!... Disse-lhe

isso?

ROBERTO — Já vê...

CHRISTIANO (Resolvendo-se, após ligeira pausa)

— Não me recordava disso. Tive, de facto, por

Lúcia um grande sentimento, que não cheguei a

dizer-lhe. Mas, desde o momento em que se tornou

a esposa de um outro, afastei-me, como me

era dever, procurei esquecel-a e, só agora, depois

que aquelle sentimento se transformou numa devoção

respeitosa, resolvi approximar-me de novo,

e para velar por sua felicidade, que vejo ameaçada.

ROBKRTO — Pôde ser que seja sincero...

CHRISTIANO — OH!...

ROBERTO — Quero dizer: suppõe, sinceramente,

que é sincero. São raros, mas ainda ha alguns cavalleiros

andantes do fallecido romantismo...

CHRISTIANO — E peço á sua velha amisade

que nunca mais, nem aqui nem alhures, se refira

á confidencia que lhe fiz num dia que devia ter

sido de desconforto, como disse.

ROBERTO — Esteja descansado. Aliás, isso naR

pôde interessar a ninguém. Todo o individuo que

ama suppõe que o Universo inteiro está preoccupado

com seu amor... Se quer um conselho, porém,

não persista nessa arriscada gymnastica... Sei que

é quasi um ultramontano em pontos de honra...

e o jogo é perigoso...

CHRISTIANO — Quer ouvir-me?

ROBERTO — Oh, filho, que lhe hei de fazer?

CHRISTIANO — Sabe, como eu, em que condições

se realisou esse casamento.

ROBERTO — Vagamente.

CHRISTIANO — Não sei que relações tem com

Juliano.

ROBERTO — Banaes. Pôde falar. Demitti-me

da Protectora dos Animaes, mas ainda me interesso

por elles...

CHRISTIANO — Juliano aproveitou-se da moléstia

da mãe de Lúcia para, velando-lhe á cabeceira

e fazendo-se prestadio, conquistar o reconhecimento

de ambas.

ROBERTO — Trabalho de sapa... Conhecido...

CHRISTIANO — E foi assim, com essa lanterna

furta-fogo, que se insinuou no coração de Lúcia.

ROBERTO — São processos... Se não fosse

isso, como se casariam os feios e os desengraçados?

CHRISTIANO — Houve, porém, nesse casamento

uma nota monstruosa. A mãe de Lúcia, como

sabe, falleceu. Depois da sabida de seu cadaver,

naquella tristeza vazia da pensão, Lúcia sentiu-se

só, abandonada, sem parentes, sem amigos. Ficou

a chorar no terraço de seu quarto, como quem se

sentia orphã de tudo. Foi onde a alcançou Juliano,

de volta do enterro. Ali a acompanhou, ali lhe segredou

ternuras e confortos e, quando a noite veiu,

ali se apoderou daquelle pobre corpo alquebrado e

vencido pela dór...

ROBERTO — Oh... Mas como se comprehende

que ella...

CHRISTIANO — Ella... (Com um riso sarcástico)

Ella era a pobre cousa amassada, triturada,

desossada, sem vontade, sem consciência, que a

sorte para ali jogára... Não podemos accusal-a...

Sua dór era immensa... Ouvia ao lado uma voz

que a consolava, que a animava, que a embalava...

Ha miseráveis que se aproveitam de todas as armas.

..

ROBERTO — Felizmente que Juliano reparou o

mal.

CHRISTIANO — Reparou o mal... A phrase

banal da moralidade publica... Mas ha males que

se não reparam... Lúcia quando acordou de sua

lethargia devia ter começado a soffrer, e deve

soffrer até hoje o despotismo do destino... e do

dever... E lembrar-me que fui eu que forcei Juliano

a... (Ironicamente) reparar o mal... porque

eu também era escravo do preconceito e do

dever...

ROBKRTO — Ah... Começa abi um romance...

CHRISTIANO — Achava-me em São Paulo, onde

tinha ido obter a publicação das biographias de seu

presidente e secretários...

ROBERTO — Romaria obrigatoria para todos

nós. Se não houvesse politicos notáveis em São

Paulo, seria necessário invental-os, para lhes publicar

a biographia e as mensagens a tanto por linha...

Mas dizias...

CHRISTIANO — Em meu regresso, Juliano vem

a meu quarto e conta-me, como uma victoria, como

uma grande conquista, a infamia que praticara.

Pergunto-lhe, de mãos crispadas, que pretendia fazer,

e elle responde-me, calmamente: Disparar,

meu caro, ir tratar da rica vidinha, tão cedo me

apanhe formado.

ROBERTO — O homem é um animal muito mais

interessante do que os porcos suppõem...

CHRISTIANO — Ah!... Pódes imaginar a minha

revolta.

ROBERTO — Calculo...

CHRISTIANO — Ameacei-o de estripal-o moralmente

pelo meu jornal, de chamal-o á policia, de

obrigal-o a casar-se, em fim, de fazel-o conhecido.

..

ROBERTO — Dá uma peça... O cynico, o galã,

o pae nobre, uma ingênua...

CHRISTIANO — E foi assim que elle se resolveu

a "reparar o mal"... emquanto Lúcia, que isto

ignora, me fazia seu padrinho de casamento...

Asna de vida!... Eis por que me encontra aqui, a

defender uma felicidade que não poude ser minha...

ROBERTO — Está você bem, dentro desses sentimentos...

E' o que eu dizia... Ainda ha cavalleiros

andantes e Dulcinéas...

CHRISTIANO — Peço-lhe discreção sobre tudo

que lhe disse, e que me obrigou a dizer.

ROBERTO — Hei de pôr tudo isso num drama,

quando tiver tempo, mas sem os nomes... Grande

alma de romance! (A rir) A vida não é isso! A

vida soube-a o outro... O grande canalha... Ah...

ah... ah... ah... Em todo o caso não merece que

me interesse por elle...

CHRISTIANO — Não faça isso, peço-lhe. E'

preciso collocal-o. O que fizer por elle reverterá

a favor da pobre presa que o destino lhe entregou.

Ha uma especie de macacos, os bugios, que, segundo

contam, ao avistarem o caçador que os alveja,

estendem-lhe os filhos. E mais de uma vez

o caçador, que tem a sua arma em alvo, que pôde

abater o animal com o ligeiro impulso de um dedo,

deixa-se mover pela piedade, e poupa-o...

ROBERTO — E' o caso desse bugio humano. Em

vez do filho, a mulher.

JULIANO (Entrando) — Aqui estão os papeis

que me pediu«. (DáAhc uns papeis.)

ROBERTO — Obrigado. Vou fazer o que fôr

possível.

LÚCIA — Deixa-nos uma esperança?

ROBERTO — Pois não, minha senhora.

JULIANO — Serve-me tudo, até um logar de

varredor, já que minha carta a nada me dá direito.

ROBKRTO — E não ha deshonra em varrer,

meu caro amigo. Entram naquelle acto tres elementos:

o varredor, a vassoura e o lixo. O único innocente

é, ás vezes, a vassoura. Mas para que o lixo

cahisse sobre o varredor seria preciso que o mundo

virasse ás avessas, e isto está fóra de suas leis

de equilíbrio. Adeus! Minha senhora! (A Christiano)

Vem também?

CHRISTIANO — Vamos.

JULIANO — Acompanho-os até ao bonde.

(Sahem os tres.)

SCENA IV

Lúcia e depois Amclia

LÚCIA (Vae até a um movei que está ao fundo,

abre uma de suas gavetas, tira uma cai.ra de sandalof

percorre alguns manuscriptos que nella estão,

e lê um delles) — "O sacrifício". E' este. Christiano

lembra-se, apenas, do titulo. E' simples trocal-o.

(Toma uma borracha, apaga o titulo do manuscripto

e substitue-o Por outro, emquanto fala com

Amélia, que entra.)

AMÉLIA — Deixei o vestido lá, minha senhora.

Disse á costureira que o acertasse, para que depois

costurássemos.

LÚCIA — Demora?

AMÉLIA — Não. Manda-o já. Diz que é coisa

de nada. Precisa ainda de mim?

LÚCIA — Vá pelo almoço. Que não falte á

hora. Juliano impacienta-se quando as refeições se

atrazam.

AMÉLIA — A's vezes sem razão. Eu, é por

ser a senhora tão boa... E' um padecimento para

os empregados que esteja o patrão sem emprego...

Implica com tudo...

LÚCIA — Está bem. Vá!

AMÉLIA — Vou. (Ao sahir) Uma moça tão

bonita como a senhora é... Mal empregado...

LÚCIA — Oh... Quem lhe deu essa liberdade?

Vá !

AMÉLIA — Já vou. (Sáe.)

LÚCIA (Lendo) — "A renuncia"... Vae-lhe

tão bem quanto "O sacrificio". (Deixa o vianuscripto

em cima da mesa.)

SCENA V

Lúcia e Juliano

JULIANO — Não me posso esquecer daquelle

alarve de ministro! Ora. o Pereira, o Pereirinha,

como lhe chamavamos. E' uma besta, uma cavalgadura.

Pilha-se ministro, é uma empada de orgulho.

LÚCIA — Pôde ser que agora, com a influencia

de teu amigo...

JULIANO— O imbecil (*) manda dizer-me que

não estava em casa, quando o criado acabava de

me dizer o contrario! Fiquei-me á porta, e pilhei-o

quando sabia. Tive Ímpetos de atirar-lhe um par

de sopapos...

. LÚCIA — Que adeantavas com isso? Foi melhor

que lhe não tivesses dito nada.

JULIANO — Ah, mas lancei-lhe um sorriso, um

sorriso de piedade, que me vingou... O idiota não

comprehendeu. Sorriu, também, cumprimentou-me

com os dedos com ar de protecção, e entrou para o

automóvel com alguém que o acompanhava, sem me

dar tempo de lhe dizer quatro obscenidades.

LÚCIA — Fizeste bem de lh'as não dizer...

Nada se consegue com violência...

JULIANO — Oh! as mulheres, as mulheres!

Por vocês levava-se tudo a rosas... Que é elle?

Um bacharel como eu, apenas mais burro. Queria

que o mundo virasse ás avessas, como dizia Roberto,

e me apanhasse em cima e o Pereirinha em

baixo... Havia de fazer-lhe o mesmo, positivamente

o mesmo... (Imitando-lhe os gestos, a dizer

adeus com os dedos) Adeusinho, collega!... Aí, o

pífio!

LÚCIA (A rir) — Vês que não é tão grande

seu crime, porque farias o mesmo.

JULIANO — Ri-te, rirte! E' espantoso como

falta ás mulheres o senso da vida.

LÚCIA — Tudo se ha de arranjar, meu caro.

JULIANO — Arranjar como? Não tenho amigos

influentes, não disponho de protectores. Ah,

se os tivesse, outros gallos me cantariam, porque

este é o paiz da mediocridade, do filhotismo. Se

tivesse feito um casamento de conveniência, como

o Pereirinha, abi bem, teria subido pela mão de

minha mulher.

LÚCIA (Desapontada) — Quantas vezes tenho

pensado nisso, e quantas vezes me tenho accusado

de te haver cortado a carreira!

JULIANO — Bonito! Vêm, agora, os chorumes...

os dengues... os quindins... Oh, filha,

não posso estar a medir palavras. Preciso que não

me contrariem em casa!

LÚCIA — Que disse eu?


JULIANO — E' enervante (*) ter-se a gente

dedicado a alguém, e por esse alguém se ter

'executado (*) para não ser comprehendido...

Pois é claro ou não é que se me tivesse casado

com uma mulher rica e influente não estaria nesta

situação?

LÚCIA (Humilhada) — Sim...

JULIANO — Então, que ha em dizel-o?

LÚCIA — Por que o repetes? Pelo prazer de

humilhar-me? Sabias quem eu era. Não te posso

dar mais do que tenho. Que culpa me cabe em que

a vida não te satisfaça as ambições, quando procuro

ajudar-te e encorajar-te? Tua injustiça é

tanto mais dolorosa quanto se refere á pobreza de

quem te deu toda a riqueza que possuia...

JULIANO — A literatura... A eterna pulhice

da literatura. Casem-se com literatas.

LÚCIA — Não te fui buscar... Se tinhas um

futuro em vista, um casamento rico em perspectiva,

por que baixaste até mim, e me soluçaste, apaixonado,

que serias infeliz para toda a vida se me

recusasse a teu affecto? (Dolorosamente irônica)

Não calculei... não medi... Dei-te tudo o que havia,

toda a minha riqueza: o pão alvo de minha

innocencia, o vinho quente de minha virgindade...

JULIANO — Já sei... Já sei... Nada adiantamos

com tiradas e lyrismos. Afinal, não te quiz

offender.

LÚCIA — Talvez essa outra neste momento

não estivesse corajosamente a teu lado... procurando

auxiliar-te... (Commovida) Vc aquelles

figurinos. Para ajudar-te, improvisei-me costureira...

Trabalharia, fosse em que fosse!

JULIANO — Bem... bem... Não vamos brigar...

Não peses minhas palavras. Estou contrariado,

tudo sáe-me ás avessas... até as palavras...

E' aquella formidolosa cavalgadura do Pereirinha...

(Põe-se a andar pela sala e dá com a sobrecarta

que Christiano deixara em cima da mesa)

Que é isso?

LÚCIA — O aluguel de dois mezes que Christiano

deixou.

JULIANO (Guardando o dinheiro) — Ah! Vem

a proposito. Dois mezes, hein? A opposição rende-lhe.

LÚCIA — Christiano é um amigo raro.

JULIANO — Acreditas em amigos? E' que o

dinheiro lhe anda a sobrar. (Toma o manuscripto

que Lúcia emendara) E isso? Ainda literaturas?

LÚCIA — Pensava em uma fôrma de te ajudar.

..

(*) Imbecil, enervante, executado e quejandas

tolices estão na bocca dos tarelos que as dizem, e

pos isso as conservei no dialogo.

JULIANO — Com literaturas? Estava fresco!

(Passando os olhos pelo manuscripto) Pensei que

com o casamento te tivessem passado esse vapores

de romanticismo.

LÚCIA — E' ainda uma coisa de solteira. Uma

novella que déste a ler a Christiano...

JULIANO — Não me lembro. Emfim, é preciso

que acabes com essas tolices. Não ficam bem a

uma senhora casada.

LÚCIA — Christiano propoz-me uma collaboração

paga, e falou-me dessa novella. Pensei em

mudar-lhe o titulo, e... ou antes, nem sei no que

pensei... talvez escrever uma outra, e mandar

sob pseudonymo, secretamente, ao jornal de Christiano.

..

JULIANO — Ah, não me faltava mais nada!

Literatas em casa! Basta de calamidades!...

LÚCIA — Ouve! Se por acaso a novella agradasse,

se chegassem a publical-a, poderias apresentar-te

como seu autor e obter, em teu nome, uma

collaboração paga... Era um achego, um "bico",

como vulgarmente se diz... e meu nome não appareceria.

JULIANO — Hein? Que idéa é essa? •

LÚCIA — E continuaria eu a escrever, e tu a

assignar. Tentaríamos, também, a columna politica...

E, com o prestígio que tem a imprensa,

quem sabe se estaria abi o meio de abrires caminho?.

..

JULIANO — A idéa, efectivamente, não é

muito estúpida... O primeiro artigo politico havia

de ser contra o Pereirinha... Racho-o... ou antes...

rachamol-o. Ah, amigo Pereirinha, amigo

Pereirinha... (A imitar-lhe os gestos) Adcusinho,

collega!... Espera pelo adeusinho... (Ligeira pausa)

O diabo é se descobrem... Sim, porque podem

descobrir...

LÚCIA — Como poderão descobrir, se o segredo

fica apenas comnosco? Para mim será uma

redempção, crê-me, se puder auxiliar-te a obter

tudo o que minha pobreza te não poude dar. A

obra de redempção da esposa sem dote...

JULIANO — Tudo isso são fantasias, e para

fantasias não ha como tu. Manda a novella, se quizeres.

Pôde bem ser que nem seja lida! Em todo

caso é melhor que mandes uma outra. Christiano

tem boa memoria.

LÚCIA — Nunca me dirás mais daquellas coisas,

sim?

JULIANO — Que coisas?... (Recordando-se)

Ah, bem! Pensei que já te tinhas esquecido. Fico,

ás vezes, a pensar como é que tu, que és uma mulher

intelligente, tens desses quindins, como uma

costureirinha susceptível.

A DANSA — BRONZES DE G. RENDA, QUE PERTENCEM Á GALERIA DA ESCOLA NACIONAL DE BELLAS ARTES.

• %

LÚCIA — E' que no fundo, meu caro Juliano,

o coração da costureirinha e de qualquer outra mulher

foram feitos na mesma forma. Deus, depois

de haver creado a mulher, quebrou o molde em que

a fizera.

JULIANO — E o diabo, apanhando os cacos,

collou-os de novo, com seu cuspo maldito, e fez

a sogra... (Muito idiotamente) Tive graça, pois

não tive? Bem, bem... Manda a novella, e occupate

do almoço. (Sáe).

SCENA VI

Lúcia e Amélia

AMÉLIA — Vou ver quem bate. (Atravessa a

scena, emquanto Lúcia guarda o manuscripto.)

LÚCIA — Os homens!...

AMÉLIA — E' o vestido.

LÚCIA (Toda a sua idéa) — Que vestido?

AMÉLIA — Ué!

LÚCIA — Ah... Sim... (Tomando o vestido)

E\ talvez, o primeiro e ultimo que faço. Em vez

de vestir corpos, vou despir almas, Amélia.

AMÉLIA — Almas? Do outro mundo?...

(A'parte) De tanto quebrar a cabeça com a costura,

parece que está variando!

LÚCIA (Passando o vestido a machina) --

Traga o manequim.

AMÉLIA — Sim, senhora.

LÚCIA — Escolheu bem o arroz?

AMÉLIA — Sim, senhora.

LÚCIA — Hontcm trazia elle tantos marinheiros

que Juliano não o comeu.

AMÉLIA — Como o arroz só dá no molhado,

ha de ter marinheiros... Prompto o manequim.

LÚCIA — Vamos ver. (Ambas vestem o manequim)

Está com as mãos limpas?

AMÉLIA — Sitrf, senhora. Olhe. (Olhando o

vestido) Ah, agora, sim! Veja o que é uma pessoa

saber...

LÚCIA — Parece que está perfeito.

AMÉLIA — Espere um pouco, patroa... Parece

que...

LÚCIA (Assustada) — Ainda? Parece o que?...

AMÉLIA (A rir) — Eu estava vendo...

LÚCIA — Vendo o que?

AMÉLIA — Temos que descostural-o...

LÚCIA — Por que?

AMÉLIA — A senhora costurou metade no

avesso... (Ri, sem cessar.)

LÚCIA — O primeiro premio de costura!

PANNO


KRiRAM-SK. neste mez de Fevereiro, as

eleições federaes para a undécima legislatura

republicana. Foi posta á

prova, em todo o territorio brasileiro.

a nova lei eleitoral. A impressão

que se tem do pleito travado 110 dia

20 é, em geral boa, relativamente aos

Kstad s, e q:asi óptima n o que se refere

a esta Capital. Parece a todos, em fim. que a

verdade eleitoral volta a existir em nosso paiz.

Sente-se que a opinião publica, por seu turno, novamente

começa a interessar-se pelo resultado das

urnas. Ainda bem. Esse o melhor augurio para a

nossa moralidade politica. Só tal interesse levará

o povo brazileiro a escolher, realmente, os seus dirigentes

e legisladores, proporcionando ao paiz a

posse de si mesmo. Estamos, portanto, em caminho

seguro para a reforma dos nossos costumes eleitoraes.

E' preciso, agora, não descansar sobre os primeiros

resultados. Muito resta ainda a fazer. A

nova lei é bca, mas não dispensa melhorias immediatas,

pois que não basta difficultar as eleições a

bico de penna para se aperfeiçoar o pleito eleitoral.

Em vergonhas e indecencias politicas ainda

foi fértil a eleição geral do dia 20. A cabala por

meio do dinheiro exerceu-se vastamente e vastamente

também se sujeitou o eleitorado ao vexame

de só receber o titulo de votante com as cédulas

dos candidatos á bocca da »urna.

São hábitos máos, bem sei, cuja corrigenda

depende menos da lei que da educação civica dos

nossos homens e do nosso povo. Mas a lei pôde,

perfeitamente, restringir a sua pratica, estabelecendo

o voto secreto e exigindo que os titulos eleitoraes,

á primeira hora da eleição, sejam depositados

em mãos do juiz presidente da mesa, que os

irá devolvendo na cccasião de votar, pela ordem

da chamada.

F/ mister lambem, quanto antes, facilitar ao

eleitor o exercício do voto. O cidadão que vae ás

urnas não deve continuar a soffrer cs incommodos

da espera de votar, nem permanecer nas incertezas

de saber onde votará. Estão abi mais dois defeitos

da antiga lei eleitoral que a nova não corrigiu.

Para sanal-os bastará talvez que se fixe o

numero cie eleitores a votar em hora previamente

marcada e que se ampliem os prazos da publicação

dos editaes da eleição, auginentando-se os meios

de tornal-os conhecidos. Se todes os eleitores de

uma secção não puderem votar em um dia, faça-se

a eleição em dois ou tres. Acabem-se. porém, com

as votações das madrugadas e dos dias consecutivos,

o que é um suppücio para os mesarios e fiscaes

e uma iniquidade para os eleitores cujos nomes

principiam pelas ultimas letras do alphabeto,

011 que residem em 1 gares de conducçáo escassa

e difficil.

Não cuide ninguém, no emtanto, que a mais

importante reforma dos nossos hábitos eleitoraes

dependa da perfeita regulamentação das eleições.

Xão. Fosse perfeita a nova lei que executamos e

os resultados do pleito recentemente travado não

seriam melhores.

A principal e mais «urgente das reformas eleitoraes

por que teremos de passar está enlaçada,

desatadoramente, á educação civica do povo brazileiro

e, para melhor aproveitamento dos indivíduos

já civicamente bem educados em nosso paiz,

á decretação de uma lei de alistamento muito melhor

que a actual.

A nossa Magna Carta, no artigo 70, exclue do

alistamento os mendigos, os analphabetos, as praças

de pret e os religiosos que hajam renunciado

á liberdade individual.

Urge, porém, deixar de admittir, como não

analphabetos, os cidadãos que mal e porcamente

assignam os nomes respectivos e


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' / / / / W ' " f/>"*tn uttttttttttttittttttttti/'tf/tf/t'//// ////// //////. /////<

Depois da desagradavel nova que dava a mestre Manna um repouso

forçado de oito dias, muito desolado, elle arrumou a tralha e

retirou-se debaixo da galhofa dos companheiros!. Rumou para o seu

atelier, onde uma grande téla o esperava,

trepada em uma tripeça que pretendia ser

um cavallete de pintor. Não perdeu tempo.

Atirou-se ao trabalho com alma. Dentro

de poucos dias convidava os collegas

a irem ver o trabalho já bem esboçado.

Representava o quadra um contraste doloroso.

No primeiro plano, um homem, de

aspecto miserável, descalço, pés nodosos,

roupas estraçalhadas pelo uso 'demasiado.

Ao fundo, o reboliço do luxo de uma

grande avenida. "Claro escuro social", intitulava-se

o trabalho, que foi enviado ao

Salão de Setembro, causando verdadeiro

successo, merecendo as honras de um so-

NICOLINA DE ASSIS — ESCUL-

PTOHA, DISCÍPULA DE BER-

X ARDELLI, 1905.

brio soneto da autoria da architecta Arin-

(la Sobral e publicado 11a "Renascença",

pelo saudoso mestre Araujo Viana. Ao

mesmo salão enviaram trabalhos de real

valor oá "rapins" Arthur Timotheo, Bevilacqua, Chambelland, Latour,

Evêncio Nunes, Soares Cunha, e outros. Arthur Timotheo,

quebrando a monotonia dos envios

usuaes, mandou um quadro de nú,

irreverente, mas b e 111 resolvido,

que, atrevidamente, intitulou "Livre

de preconceitos Enviou também

uma cabeça de negro, para a

qual servira de modelo o velho Lucio,

antigo "guayamú", de andar

ondulante, trazendo sempre no

canto da bocca grossa uma "barata"

prestes a queimar-lhe a beiçola.

Bevilacqua mandou "Orpheu",

Chambelland a "Noite de espectáculo",

Latour a "Escolha difficil",,

Evêncio Nunes a "Morte de Anchieta",

e Soares Cunha o retrato

de um collega. A luta para a conquista

do premio de viagem foi renhida,

sahindo vencedor Eugênio

Latour, com a "Escolha difficil",

um quadrinho de genero, que reproduzia

uma scena caseira, uma

figura de mulher a escolher entre

duas gallinhas a mais gorda para

o sacrificio...

Xa secção de esculptura. Honorio

da Cunha Mello expoz um

busto que lhe valeu por muito tempo a alcunha de "Coalhada", pela

razão seguinte: alguém, por perversidade,

M / / aconselhou ao inexperiente "comedor de

0k barro" que o leite dava* uma boa patina ao

; A gesso; Cunha Mello, sem mais aquella. dá

, j ^ f Cl um banho de leite ao trabalho ainda 111 -

lliado e manda-o para o Salão; o effeito

f gflw ! não se fez esperar; uma fedentina terrível

W° yJu li 1 infeccionava o ambiente, o busto tresandava

a leite podre! Devido a esse pouco cheiroso

acontecimento. Cunha Mello foi promovido

de "Brontolone" a "Coalhada";

chamavam-n'o "Brontolone" por ter copiado

o busto daquelle illustre senhor, feio,

horrendo, cheio de rugas. Era companheiro

de "Brontolone" o Moreira Júnior, que tinha

um appellido tão feio. que não pôde

O MARUFI

O BAPTISMO DE UM

BARROS "O FACHADA

CUNHA (FALLECIDO) ; 5,

VEIRA ("O CAVALLARO") ;

ser -dito aqui. Certo dia estavam todos na

portaria da antiga Escola, atenazando o

velho Travassos, quando appareceu 11a porta da Escola, carregando

uma caixa de pintura, o Galdino Bicho. Moreira murmura uma pa-

8, A. MATTOS ("O FRANGO D'AGUA "). — IÇO4.

I

|

2

i

lo e

p j

'"W/z"'

lavra que fere a dignidade artística de Galdino, Bicho de nome e de

facto, pois frequentava a Escola pela primeira vez. Galdino, que ouvira

a palavra, retrucou, promettendo vingar-se. A ousadia do calouro,

que se insurgia contra um veterano

querido por todos, foi bastante para causar

reboliço em toda a Escola. Em um

momento, foi resolvido que o atrevido

fosse julgado com todas as regras do estylo.

Constituiu-se um jury, com todos os

requisitos, em uma sala da Escola. Tomou

a presidencia dos trabalhos um dos

veteranos mais temíveis para um "trote ,

o Soares Cunha. A accusação ficou a cargo

'de Ernâni Bilac, que, em brilhante bestialogico.

salientou as qualidades crimino

sas do accusado, que se remoia de raiva.

110 "banco dos réos". Em seguida, teve a

palavra a defesa, representada por Antonio

Pitanga, que, além de calouro, era

surtlo-mudo! Antonio Pitanga, depois ;le

muitos berros e gestos desordenados, deu

por finda a "defesa". Os jurados reco-

O RA PIN ARTHUR TIMO-

THEO FINGINDO DE IMPOR-

TANTE — 1905.

lheram-se á "sala secreta" e deliberaram que o accusado fosse co:idemnado

a atravessar a "zona chic" que circumdava a Escola, com o

casaco do avesso e o balde e a

vassoura do lixo ás costas, tendo

por acompanhamento todos os veteranos

e bichos. Inútil é dizer-se

que dentro de poucos momentos o

que havia de mais "elegante" na

redondeza fazia parte do acompanhamento.

Puxava o préstito o

"Marufi", um turco engraxate,

muito sem vergonha, que engraxava

as botas dos "rapins" á razão

de tres um tostão, e ás vezes fiado!

"Marufi" era um typo curioso

e amigo da rapaziada ; não cobrava

nunca os nickeis que lhe deviam.

Tão identificado ficou com o ambiente

que acabou modelo. Pouco

trabalhou, o coitado. A peste bubônica

levou-o em poucos dias. e,

com grande saudade, foi recebida

a noticia da sua morte, na Jurujuba,

abandonado de todos e da família.

Não demorou muito t e m p o

vago o logar do "Marufi" nas grade?

da estatua de João Caetano.

Substituiu-o o José, um mulato doceiro,

que, dentro de muito pouco tempo, estava amigo de todos, c,

impreterivelmente, comparecia ao meio dia

em frente á Escola, commungando com a

sentinela postada na porta do edifício.

Certo dia. foi a Escola abalada com a triste

noticia de que o José tinha sido preso por

11111 dos ventrudos guardas f isca es e que

seguia a caminho da Agencia, na rua da

Carioca. A noticia impressionou seriamente

os rapazes, que deixaram as aulas como estavam.

uns em mangas de camisa, outros

4 BICHO" — I, LUIZ CORDEIRO (FALLECIDO) ; 2, ANGENOR

"; 3, MANOEL HENRIQUE LIMA; 4, JOAQUIM SOARKS

MANOELA (MODELO) ; 6, JOSE' AMARANTE DE OLI-

7, GASPAR MAGALHÃES ("O MENINO DO BALÃO") ;

de longas blusas sujas de tinta e gesso, e,

em grupos, empunhando palhetas, tentos,

desbastadoresv seguiram em grande berreiro

pelas ruas, invadindo o sobrado em que

estava installada a Agencia. Ninguém se

entendia. Todos gritavam a um tempo. O

agente não sabia o que fazer; por fim, prometteu

não punir o doceiro e mandal-o em

paz, logo que evacuassem a sala. O agente

cumpriu religiosamente o promettido. Mi-

UMA AULA DE ANATOMIA!

OS "RAPINS" RAUL BEVILA-

CQUA E OS IRMÃOS MATTOS,

1905.


UMA EXPOSIÇÃO ESCOLAR — 1905.

nutos depois o José surgia, lampeiro, 110 Becco das Bellas Artes.

Nesse dia, ninguém pagou os idioces comidos, porque o coitado do

doceiro, por agradecimento, não quiz absolutamente receber dinheiro.

A' noite, um espectáculo pouco commum sacudio a aula de modelo

vivo. Mestre Zeferino havia chegado »de máo humor, sentára-sc

á sua mesa sem dirigir a palavra aos alumnos, o que no velho mestre

representava 11111 thermometro de precisão. O silencio era completo.

•Quando menos se esperava, quebrou o silencio uma melodia irritante,

11111 acorde repetido de caixa de musica ordinaria: tlim, tlim, tão,

blim, dim dão, tlim... tlim...

Mestre Zeferino pigarreou forte, levantou-se, arrastando o seu

rhcumatismo e foi collocar-se de observação 110 alto do amphithea-

.tro. A musica parou para dar logar ao pipocar de um "espanta-coió",

partido da bancada onde o irreverente "rapin" Francesco Manna

tinha assento. Mestre Zeferino dirigiu-se vagarosamente para lá e,

radiante, soltou a sua phrase favorita: "Peguei um!" De facto, havia

pegado um com a bocca 11a botija. O Francesco Manna, depois

de soltar o "espanta-coió", divertia-se em atacar á parede uma enorme

caricatura do mestre. Representava a caricatura, feita pelo J.

Arthur, um grande perfil do mestre, desenhado em uma folha de

papel "Ingres", tendo a entrar-lhe pelo craneo um enorme parafuso.

"Peguei um! Peguei um!" Exclamava o velho mestre, emquanto a

caixa de musica gemia irritante: tlim, tlim, tão, blim dim dão, tlim...

Acabou a festa pelo fechamento da aula naquella noite e por

novas ferias forçadas para o Francesco Manna,

que, áquellas horas, não tinha outro remédio

senão ir perambular pelo Café Paris,

onde a bohemia da época se reunia, tendo á

frente o saudoso Chacon, canalhamente assassinado

em seu Estado natal pela politicagem

desenfreada!

No Café Paris, 110 largo da Carioca, reuniam-se

todos elles á noite, a discutir Arte,

Sciencia... e a vida alheia. Naquellc tumulto

de idéas incendiarias nasceu o pensamento da

primeira publicação* exclusivamente de Arte.

Do pensamento á execução nada custou. A

"Atheneida" surgiu, gloriosa, prégando idéas

novas e a matracar aos quatro ventos o talento

do Helios Seelinger e os desenhos de Heitor

Malagutti.

Tomavam parte diaria nas reuniões do

Paris os irmãos Timotheo, irmãos Chambeiland,

Correia Lima, Helios, Malagutti, Chacon,

Luiz Edmundo, Bastos Tigre, Emilio de

Menezecr, alguns dos actuaes imniortaes da

Academia, médicos, advogados e engenheiros,

hoje notabilidades.

Nesse meio tempo, encerram-se as aulas

da Escola. Começaram as férias. Os ricos foram

fazer estações de aguas e os pobres cavar

a vida dentro das próprias habilidades e co-

nhecimentos. João Timotheo, os irmãos Chamibelland,

Carlos e Rodolpho retocavam photographias

110 Zaramella e Bastos Dias; Arthur

Timotheo fazia scenographia, J. Arthur fazia

«desenhos para "O Malho" do tempo de Chrispim

do Amaral e Raul Pederneiras. Em fim,

cada um "cavava" a vida como podia...

Depois de prolongadas lerias volveram

todos ás aulas, rumorosos, cheios de novas

energias. Qa calouros andavam pelos cantos,

medrosos dos "trotes" e dos "baptisados".

Consistia o "baptisado" em um completo banho,

que servia para purificar a alma e o sentimento

artistico ainda nascente. Essa operação

tinha logar invariavelmente em uma area

existente ao fundo da velha Escola. No fim

da operação, a victima era mandada em paz,

com a intimação de pagar, 110 dia seguinte, a

"patente", para poder cumprimentar os veteranos...

As "patentes" variavam, conforme

as posses de cada um, tendo o valor minimo

de dez mil réis.

C0111 o producto das "patentes" eram organisados

lautos banquetes, em que só tomavam

parte os veteranos. Aosf bichos era permittido

assistir á festa, sem direito, porém, de

tomar parte nella... O proprio mestre Zeferino

era o primeiro a indagar dos bichos se

já haviam pago tal obrigação. Uma vez passado

o periodo das troças, atiravam-se todos ao estudo com ardor.

Após as aulas, cada qual procurava o seu ganha pão, pois naquelle

tempo os que frequentavam as Bellas Artes eram na maioria paupérrimos.

Não obstante essa circumstancia, o salão annual era fértil

de cousas de Arte sahidas das mãos dos "rapins"

Na pintura brilhavam: Latour, Macedo, Evêncio, De Agostini,

Bolato, que tinha a propriedade de pintar sem tinta, Puga Garcia,

Lucilio, Rodolpho Chanibelland, Carlos Chambelland, J. Arthur, João

Timotheç, o bacharel, Eudoxio Trajano, Amarante, o Cavallaro, a

Julietinha, Arthur Timotheo, Eduardo Bevilacqua, Francisco Manna,

Maria José, Georgina Albuquerque, Angeline Agostini, Soares Cunha,

e mais tarde : Moraes Silva, Raul Bevilacqua, Bracet, Eustorgio

Wanderley, Annibal Mattos, Manoel Domenek, Argemiro Cunha,

Angenor Barros, Cavalleiro, Marques Junior — o homem do guardachuva

— Gaspar — o menino do balão — Oscar Boeira, Fedora

Monteiro, Isolina Machado, Gutmann Bicho. Na esculptura, Nicolina

Vaz de Assis, Bonifacio, Moreira Junior e Cunha Mello. Na gravura

de medalhas, o Armindo Francisconi, que nas horas vagas era manipulador

de pilulas 110 Laboratorio Militar, Eduardo de Barros, o

guarda civil, e o rabiscador destas linhas cavavam o aço ao som do

sursido do "ordegno" de mestre Girardet, sempre escondido atraz

de uns tabiques complicados. Representava a aula de gravura o maior

mysterio para a rapaziada, pois era a única aula em que ninguém

penetrava, porque as ordens eram severas. Mestre Girardet não dava

(Termina no fim deste numero)

UMA AULA DE PINTURA AO AR LIVRE NO MORRO DE SANTO ANTONIO — IÇO^


!

or O CAO

III MA das fontes cm que os troveiros sertanejos

mais se têm inspiração para suas

quadras, mottes e decimas, é a tradição

de factos narrados na Bíblia e nos Evangelhos,

acommodada ao seu modo de ver e deturpada

com o tempo pelas successivas gerações. O

cantador occupa-se de Christo e de Maria, de

Judas e de Job, muitas vezes, como se occupa

dos acontecimentos locaes e das lendas da região.

Essa physionomia não é especial a uma

parte do folk-lore matuto. Ella se mostra em

todos os folk-lores. Guillen Robles mostra-nos

nas Leyendas M or iscas exemplos semelhantes

aos do sertão em plena Hespanha.

São innumeros os exemplos de producções

folk-loristicas dessa ordem, todas ellas dominadas

pela celebre quadra da virgindade de Maria :

No ventre da Virgem Pura

Entrou a Divina Graça

Como entrou também sahiu,

Como sol pela vidraça !

Nos restos de linguagem correcta que se

encontram no meio das producções poéticas do

sertanejo, sobre cousas religiosas, nota-se que

foram feitos por gente que tinha alguma

instrucção c que assim os legou aos seus descendentes.

A PUREZA DE MARIA

MOTTE

Maria pura náo é,

O verbo não encarnou.

Jesus Christo não nasceu,

Nada no mundo elle obrou.

GLOZAS

Maria pura nasceu

Nesta rocha crystallina,

Por effeito e mão divina

Com bello fructo foi seu,

Com virgindade morreu

Esposa de São José.

T/tesouro de Santa Pé !

Para quem não c christão

PI não crê na religião,

Maria pura não é.

Eu creio que ha no inferno

Um dragão mesmo infernal,

Que procura fazer mal

Aquelle Senhor Eterno.

Eu creio que o Padre Eterno

Que todo o mundo formou,

O mesmo homem creou,

E quem recebe a offensa

De quem diz por não ter crença :

— O verbo não encarnou !

Nasceu o infante menino

Em presépio do desterro,

Para nos livrar do erro

O' que thesouro tão fino !

Aquelle Senhor tão divino

Que atormentado morreu,

A propria vida perdeu

Numa cruz crucificado !

Mas a favor dos condemnados

Jesus Christo não nasceu !

Não ha pae como Jesus,

Que dos justas se commove,

Os peccadores absolve,

Para a gloria os conduz !

Morreu pregado na cruz !

Gottas de sangue suou !

O mesmo Deus o adorou

Por ver tanta santidade !

Mas contra a lei de virgindade

Nada no mundo elle obrou.

E' um traço interessante dos cantadores do

sertão deixarem algum tempo os que os escutam

espantados da ousadia das suas theses, que, depois,

mostram ser condemnadas por elles proprios.

O motte acima é todo de negação dos

dogmas religiosos. Entretanto, as glozas o destroem.

O autor anonymo das mesmas procurou

o mesmo effeito que o outro que no meio de

um samba soltou estes dois versos no pc da

viola :

Eu sou maior do que Deus,

j Maior do que Deus eu sou...

E quando todos os presentes, horrorisados,

esperavam uma blasphemia, elle concluiu entre

applausos geraes :

Eu sou maior no peccado,

Porque Deus nunca peccoit /...

O effeito é o mesmo.

MOTTE

Maria cheia de graça,

Concebida sem peccado,

Esposa do Espirito Santo

E mão do Verbo Encarnado.

GLOZAS

Quando o anjo annunciou

A' Maria bella e pura,

Diz a Sagrada Escriptura,

De graça cheia ficou ;

Neila o verbo se encarnou

Com tal subtileza e traça,

Humildf a divina fumaça

Em seu ventre maternal.

Picou com gloria vital,

Maria cheia de graça.

Ella é mãe dos peccadores,

E' mãe de immenso poder.

Do seu ventre viu nascer

Um menino entre flores,

'íodo cheio de louvores,

Que no mundo c exaltado

Em Jesus purificado

Para Nosso Rcdemptor.

E por isso ella ficou

Concebida sem peccado.

Foi que na realidade

O esposo de Maria,

Por Deus dado em companhia

De tão pura castidade,

Recebeu coroa e manto

Xcste annunciado canto. «

E veio então a conhecer

Que Maria havia de ser

Esposa do Espirito Santo.

Entre todas as mulheres

Só ella foi escolhida

• Para mãe de boa pida,

Com abundancias a ver ;

Só ella teve o poder

De vir cm um ventre formando

Um Jesus purificado

P'ra nossa vida e doçura.

Esta Santa Virgem Pura

E' mãe do Verbo Encarnado.

A PACIÊNCIA DE JOB

Queira prestar-me attenção

'íodo o povo cm redor,

One vou contar a obra santa

Da paciência de Job.

Estava o servo de Deus

A o templo Deus adorando,

Quando vi o a Sa ta nas

Junto d elle vir passando.

-

Deus foi dizendo ao diabo :

— O que queres Satanaz t

Não sabes que ao meu servo

Debalde tu tentarás ?

O diabo disse a Deus :

— Debalde eu vos faço guerra.

O senhor me anda correndo

Da superficie da terra.

Deus disse a Satanaz :

— Corre o mundo cm redor

E diz as faltas que achaste

A r o meu santo servo Job.

Dos varões que a mim amam

Elle c o mais discreto,

Em quem não se acha dolo,

Varão santo, justo e recto !

Satanaz disse a Deus :

— Se elle te ama com firmeza

E', Senhor, porque lhe destes

Filhos, paciência e riquçza.

Deus disse : — Vae, Satanaz,

Tira-lhes filhos, riqueza.

Verás se elle blasphéma,

Inda se vendo cm pobreza.

Dahi sahiu Satanaz.

Comsigo mesmo sorria.

Cuidou que fazendo isso

O santo Job se affin g ia.

Estava o santo Job em casa

Ao Senhor Deus adorando,

Quando espia para a porta

E vc o diabo entrando!

Foi dizendo ao santo Job:

— O fogo como um algoz

Acabou de devorar-te

Quinhentas juntas de bois!

Ainda a sua historia

Estava ao santo contando,

Quando Job bota os olhos,

Vê outro na porta entrando!

— Neste instante os philisteus

Os teus servos carregavam,

Os teus rebanhos de ovelhas,

E os teus potros mataram!

Este a sua historia

Inda bem não acabava,

Quando o santo vae olhando :

Outro na porta entrava !

— O' Grande Job, triste nova

O teu serro vem te dar

D'uma desgraça no mundo

Como nunca ouvi falar !

Um grande vento do norte

Teu castello derrubou,

Teus filhos e teus netos

Tudo, tudo se acabou!

— O* Deus de meu pae Abrão,

Que pcccados são os meus ? !

Sc eu pequei contra vós,

Louvado sejas, meu Deus !

Já me tirastes meus filhos,

Fiquei em grande pobreza,

Basta que me dês a Gloria, (*)

Não quero maior riqueza !

Dahi sahiu Satanaz,

Foi onde estava o Senhúr.

Deus lá no Santo dos Santos

A Satanaz perguntou :

(*) Gloria — céo, paraiso, vida eterna.

1


IC^ f Jj" ;

— Estás sciente, Satanas,

Qwe /ofr (/ií^r c/iorí? o/í gana,

Sem filhos ou sem riqueza,

Morre, www «aí? blaspJiema?

Disse Satanas a Dçus:

— ///


GENTE DE CINEMA — ELSIE FERGUSON, A MAIS ELEGANTE DAS ARTISTAS AMERICANAS.



m

ADALBERTO MATTOS

Conselho Superior de Bellas Artes, conferindo

o premio de viagem á Europa ao gravador

Leopoldo Campos, não fez nenhum

favor. O premiado reúne as melhores qualidades

que um verdadeiro artista requer; conhecedor da

sua profissão, desenhador seguro, possuidor de

idéas próprias, dá á sua obra um cunho de personalidade

definida.

E' o segundo gravador que os Salões de Bellas

Artes enviam ao estrangeiro. As outras especialidades

contam com um bcllo numero de detentores

do alludido premio. A pintura, dos 17

pensionistas, perdeu alguns por motivos diversos,

morte, dcsistcncia, incompetência... A esculptura

de;: 4 pensionistas, sendo mais feliz que a sua

irmã gemea.

Leopoldo Campos, muito creança ainda, entrou

para a Casa da Moeda como aprendiz da officina

de Gravura. Estudou desenho com Hilarião Teixeira.

Foi mais tarde para a Escola de Bellas Artes,

e ahi cursou as aulas de Rodolpho Chambelland

e Augusto Girardet, este professor de Medalhas c

Pedras Preciosas, c aquelle de Modelo-vivo. Em

ambas as classes, Leopoldo Campos conquistou,

pelo talento, logar de destaque. Em 1916, obteve

menção honrosa de I O gráo; cm 1917, a pequena

medalha de prata e em 1918, a grande medalha de

prata. Em todos os Salões de Bellas Artes, o

moço artista apresentou-se com galhardia, merecendo

sempre os melhores encomios dos seus mestres

c da critica.

Com a ida de Leopoldo Campos ao estrangeiro

poderiam os poderes competentes resolver um

problema até agora insolúvel na nossa Casa da

Moeda. Funecionario distineto como é o premiado,

poderia perfeitamente estudar os modernos processos

de medalhas e moedas, afim de, uma vez

por todas, acabar com a balbúrdia technica que

ali reina. No estrangeiro, executa-se uma medalha

em pouquíssimos dias; aqui, são precisos mezes

para um qualquer trabalho. Os galvanos, a

reducç?o, a temperagem, os transportes e a cunhagem

sáo ainda entre nós verdadeiros problemas...

Não que á Casa da Moeda faltem competentes.

Verdade é que possue funccíonarios, que, pela

idade e tempo de serviço, deveriam estar descansando

ha muito tempo...

Sabemos perfeitamente das difficuldadcs que

a direcção enoontra no entrave das informações

burocráticas. A parte technica, da gravura por exemplo,

continua a ser a mesma de 30 annos atraz,

podemos dizer que com as suas mesmíssimas machinas.

Na parte que diz respeito aos pantograpbos,

acha-se esse ponto perfeitamente caracterisado.

Os funccíonarios que lidam com taes apparelhos

estão fazendo verdadeiros prodígios, pois

nunca tiveram a menor lição de tal cousa...

Na gravura, temos profissionaes competentes,

como Vargas, Faria, Jorge Loubre, Hermínio,

Trindade, Arlindo Bastos, Marinho e Leopoldo

n v *

LEOPOLDO CAMPOS

Campos. Augusto Girardet lá está também. Que

aproveite, pois, o governo, a opportunidadc e o

moço artista que parte para o estrangeiro e lhe

confie a incumbência de estudar os meios convenientes

de ser a Casa da Moeda mais breve, quer

no conhecimento dos novos processos, quer adquirindo

machinaria adequada aos seus fins; podendo

também aproveitar o ensejo de dar descanso

aos seus velhos funccíonarios...

O primeiro gravador a quem tocou o premio

de viagem foi o nosso companheiro Adalberto

Mattos, cm 1909. Adalberto, que tem sido membro

do jury .cm varias Exposições Geraes de Bellas

Artes, recebeu, pelos trabalhos apresentados 110

Salão de 1912, medalha de ouro.

NA ENSEADA DE BOTAFOGO — REVISTA MARÍTIMA DOS PESCADORES, EM HOMENAGEM AO SR. PRESIDENTE DA REPUBLICA.

1


Vimos que o deficit «no orçamento commum

era de 50 mil contos, feitas as conversões do saldo

•ouro. Ora, o saldo da renda de applicação especial

é de 105 mil contos, e assim, mesmo descontando o

que se destina ás obras contra as seccas do nordeste,

temos um saldo de mais de 40 mil contos de

réis (quarenta mil contos papel).

Todos esses cálculos são naturalmente approximados.

A conversão da» renda ouro, dependendo

do cambio, não pôde ser avaliada de ante-mão,

senão de um modo geral. Mas assim mesmo temos

recursos sufficientes para attender a créditos extraordinário«,

dando margem para satisfazer até a

despezas constantes das autorisações.

Isso foi um resultado auspicioso. Porque necessitamos

ter a coragem para enfrentar as difficuldades

de ordem financeira. Só o Estado, a

União, pôde, 110 Brazil, reunir elementos para

iniciar e levar a cabcx uma porção de cruzadas,

campanhas indispensáveis e benemeritas contra o

analphabetismo, o ensino manco, as endemias do

interior, o empirismo da lavoura, do commercio,

campanhas a favor de standardisação da (nossa

prodtxção e de seu apparelhamento technioo'.

Só a União poderá dar impulso generalisado

as communicações, aos transportes... Para tudo

isso é preciso dinheiro. Assim, se a União não

obtiver orçamentos com saldo«, de fôrma a augmentar

as suas despezas reproductivas, o paiz não

poderá multiplicar a sua actividade como deve e

é capaz.

O principal está na systematisação, -na coordenação,

no estimulo e no fomento da União. Nãc

Lançamento de um pontão ao mar

Pla praia do Retiro Saudoso

Effectuou-se no dia 24 de Fevereiro a

ceremonia do lançamento

ao mar, em

São Christovão, na

praia do Retiro

Saudoso, do segundo

pontão de cim

e 11 to construído

pela firma O. Silva

& C.

A essa ceremonia

assistiram muitas

pôde haver politica de construcção sem dinheiro.

Nada de esbanjamentos e expedientes que conduzem

á bancarrota e ás crises... Mas não convém

reduzir verbas, quando é indispensável ampliar serviços.

Havendo estabilidade financeira, a prosperidade

economica poderá ser estimulada e assim os

sacrifícios dos contribuintes serão largamente recompensados.

..

* * *

O governo deu outra organisação á Carteira

de Redesconto, de accordo com as novas disposições

constantes da lei da receita. O juro mínimo

será, como tinhamos annunciado, de 5 Entretanto,

pelo regulamento, a fixação desses juros caberá

ao Conselho de Administração e não ao director.

Seria talvez melhor que -coubesse ao proprio

director.

A praça aguarda com tranquilla confiança o

funccionamento do novo apparelho, porque espera

muito, e com razão, da competencia do Sr. Daniel

de Mendonça. Este joven banqueiro terá uma missão

de educação, além da de director do mercado

de dinheiro. Não ha, infelizmente, perfeita comprehensão

dos fins' e da funeção de 'uma Carteira

de Redesconto, e isso augmenta as responsabilidades

de seu director.

* # *

Os nossos títulos estão subindo no mercado de

Londres. Subindo em relação ás suas cotações baixas

do fim do anno passado. Mas a 25 de Janeiro

soffreram queda em relação á taxa anterior e o

funding 5 estava a 67, o Novo Funding -a 56,

O engenheiro P. Gualdi e seus convidados. O pontão antes e depois do lançamento.

a Conversão 4 0 |° a 42 c o 5 de 1908 a 62.

As cotações dos títulos argentinos e chilenos estão

muito mais altas, regulando entre 68 e 89.

Os nossos serviços de divida não estão em

dia, salvo os da Amazónia e da Bahia. Mas na

Argentina, por exemplo, Buenos Aires c Rosario

também estão atrazados. Parece que o saldo da

balança mercantil desses paizes exige das potencias

européas a compra de títulos para ajuste de

contas.

O Times annunciou, em Novembro, um empréstimo

para o Chile, de 9 i|2 por cento. A 4

de Dezembro, noticiando a possibilidade de um

empréstimo ao Brazil, de 30 milhões de dollars,

na praça de Nova York, mas auxiliado pelos banqueiros

de Londres, deu como taxa provável de

juros a de 10 por cento. E accrescentou que os

banqueiros britannicos pediam, para auxiliar o

emprestimo, garantias espcciaes para os possuidores

de títulos do Amazonas e da cidade da Bahia.

Esse emprestimo, como se sabe, não se realisou.

O Times o annunciou apenas em negociações. Damos,

portanto, em primeira mão, essas informações,

por parecerem interessantes.

A importação vae baixando, mas ainda não

compensou o deficit da balança mercantil e assim o

cambio sobre Londres oscilla entre 9 e 10 e o

dollar entre 6$ooo e "$000. O café, no Rio, está a

11 $700, o que é ainda compensador, embora não

seja tranquillisador, porque qualquer pequena depressão

pôde fazer a taxa descer a preços arrumadores.

\ V. V.

pessoas, para esse

fim convidadas pelos

constructores.

O citado pontão

tem uma tonelagem

de 120» medindo 20 metros de comprimento

por 5 m. 50 de bocca. A sua construcção

esteve a cargo do engenheiro italiano

Pietro Gualdi, que levou 28 dias nesse serviço.

O Sr. Gualdi informa que o pontão poderá

supportar 250 toneladas de peso, com

uma resistencia muito maior do que qualquer

construcção de madeira. Foi construído

por encommenda do Sr. P. de Siqueira

Fritz, tendo a firma outras encommendas

nos seus estaleiros.

O Sr. Gualdi está 110 Brazil ha seis

annos e a sua especialidade foi sempre a

de obras de cimento armado.


Rapins de hontem artistas de hoje

F I M

uma folga, sempre enfurnado lá dentro da manhã á noite; tal proceder

provocava o humor da rapaziada, que propalava por toda a Escola

que o mestre cozinhava na aula os gatos da visinhança, e dahi

o Seu gênio impertinente. A classe que mais se prestava ás troças

era a do saudoso barão Homem de Mello. O venerando mestre havia

soffrido uma operação de catarata, estando, por consequência,

com a vista muito fraca. Certo dia. resolveu elle dar

a aula de historia das Bellas Artes deante dos bellissimos modelos

existentes na Escola, na sala em que o restaurador João José trabalhava.

Em grupo alegre, todos rodeavam o bondoso mestre, que, depois

de muito olhar uma estatua, apalpar-lhe as fôrmas, começou,

com voz clara, a explicar como fòra encontrada a Vénus de Medici

n. Falou com enthusiasmo da estatuaria antiga. A sua voz assumia

expressões apaixonadas; as suas mãos tremulas acariciavam as fôrmas

da estatua: "Vejam, meus amigos, quanta mocidade, como o

artista exprimiu a virgindade 110 modelo desta soberba Vénus!" E

as mãos subiam, fazendo sentir as nuances, o modelo suave da estatua.

Os rapazes entreolhavam-se. apertando os lábios, contendo o

riso. O mestre continuava sempre, cantando as fôrmas de Vénus.

Calou-se, de repente. Retirou as mãos da estatua. Ella não representava

Vénus e sim Apollo... Uma gargalhada estourou e duas lagrimas

borbulhantes cahiram dos olhos quasi mortos do grande mestre,

UMA INVESTIGAÇÃO HISTÓRICA

N icoláo I, rei (lo Paraguay e imperador

dos mamelucos

l»or KLYSIO DIO CARVALHO

(FIM)

grande marquez, e ligado directamente á execução

do seu programma politico no Brazil, não tolerava os

paulistas, que, por sua parte, não sympathisavam

com este governador, talvez mais pela subalternidade

em que ficava a capitania do que pelos erros,

desserviços ou abusos de que aquelle fóra accusado.

Sempre prevenido contra o povo paulista, nes-

de supplicarem algumas vezes a Sua Magestade,

que não lhes mandasse generaes e governadores,

senão de primeira grandeza do reino, desprezaram

elles n'outro tempo a mercancia, etc. (Fr. G. da

Madre de Deus: "Memorias para a historia da Capitania

de S. Vicente", Lisboa, 1797, 62).

QUE PRECIOSIDADE CONTEM

ESTA CAIXA?

Precioso?Só conheço o segredo

do toucador das damas elegantes:

0J>0* de arroz GfíâSEOSO

- de =====

HEPIDEL

0 mais adherente e perfum: do

Vende-se em todas as bôas perfumarias

e casas des e ramo

de commercio.

ta radical incompatibilidade com o espirito de altivez

e de insubmissão dos vicentinos residindo

evidentemente a genese da profunda aversão aos

mesmos votada, c formando sobre o caracter dellc

conceito pouco lisonjeiro, durante quasi tres decennios

em que exerceu o cargo de governador da Repartição

do Sul, só cerca de dezoito ou vinte mezes

esteve em S. Paulo, e nunca mais lá voltou.

Ao referir-se um dia o Conde de Bobadella á terra

sumptuosa e pródiga, cujos potentados não poude

submetter á obediencia passiva, quebrando-lhes a

altivez, deu-lhe o epitheto de Bella sem dote (37).

phrase sybilina e impertinente, mas sem fereza,

que só distilla azedume e traduz despeito. A injuria

sibillantc, que vincasse, cá semelhança de um

látego, a alma dos Lemos e dos Prados, seria a

abjecta historia do imperador dos mamelucos.

(37) Milliet de Saint - Adolphe

Geographico", Paris, 1S45, II, 605.

CflSfl CRITIS

COlFFEUfíS DE CAMES

Rua Uruçuavana, 78

Tcleph. C. J313

Postiços, Objetos de toilette, Pentes de tartaruga, imitação e

de fantasia.

e, lentamente, por entre as rugas, deslisaram, até desapparecer no

emmaranhado das longas barbas brancas...

ADALBERTO MATTOS.

(Continua no proximo numero.)

R

. 1

v

1

"Dicc'onario

UNIFORMES BRAZILEIROS

por G VST A VO BARROSO

(FIM)

o collarinho verde; os do Paraná, com enfeites

côr do céo; os do Amazonas, com vivos brancos, e

os Pedestres de jaquetas e gorros pretos.

Km 1865 triumpha de todo a linha franceza

adaptada ao gosto nacional: túnicas compridas,

calças bombachas, kepis de panno. Os batalhões

trazem os números nas mochilas. Com essa farda,

o exercito faz as campanhas do Uruguay e do

Pa ragruay.

Depois, até o advento da Republica, o bom

gosto se vae perdendo até á degenerescencia do

padrão de uniformes de 1887, que felizmente mio

foi posto em uso e vestiria os soldados brazileiros

com as fardas da "Grande Duchesse". Mucha

desenhou uns fardamentos afrancezados para a

Republica, em 1894, que já foi cem V€tses modificado

para peor. E hoje do nosso passado guardamos

unicamente nas roupas militares o vivo azul

celeste dos engenheiros e o pennacho negro da

artilharia. O mais, desappareceu.

MiilllllH

O melhor e mafs~

fino dos Talcos; no

acondicionamento o

mais elegante.

O Frasco de vidro

fosco é um verda-

deiro adorno para a

mesa de toilette. A

quantidade de Talco

é quasi o dobro das latas communs.

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A maior fabrica do mundo de artigos dentários.

0 mesmo Talco


CARNEIRO RIBEIRO

POR ACACIO FRANÇA

(FIM)

massas. Porém essa attitude de evidencia não exprime contraste com aquelle

viver modesto, antes é delle consequência. Eil-o na lógica da sua vida. A patria

fóra constrangida a entrar na convulsão mundial, tudo esperava da luzida

mocidade ali presente. Elie foi sempre o guia dos moços, ali estava também.

Os jovens foram o culto de toda a existencia de Carneiro Ribeiro, a força

motora da sua actividade, interrompida apenas oito dias antes delle morrer.

Escutae-o em discurso de agradecimento á congregação do Gymnasio da

Bahia, reunida em sessão solemne para se •despedir do venerando collega, que

se aposentava, após cerca de quarenta annos de serviços, em 1902, escutae-o:

"Devo, em verdade, lançar em grande parte á conta da mocidade

as honras com que ora me distinguis com mão liberal e

dadivosa; inspirado no amor delia foi que aprendi a ser mestre,

a fazer do trabalho assíduo e constante minha só arma de conquista,

meu único thesouro.

E se foi o amor da mocidade o manancial donde bebi força

e energia para ser mestre, justo é que com ella reparta os

louros com que me honraes nesta festa «le despedida."

# *

O povo da nossa terra compensava-o com o muito que lhe queria. Era,

como já o notaram, o nosso patriarcha nesses últimos tempos. Em qualquer

parte, onde surgisse a figura sympathica do velho Carneiro§ para logo se espalhava

no ambiente certo ar de alegria e de respeito. Saudavam-no os circumstantes

num profuso beija-m:.o. Elie tinha para todos expressões de carinho

e os abraçava sem distineção de cathegorias, a todos, que a quasi todos

vira crescer e ensinara.

Yae a Bahia dentro em breve perpetuar no mármore e no bronze a gloria

do grande filho que perder. Plante-se essa memoria num sitio bem aprazível,

onde haja muita luz e a que não falte a alacridade das flores e dos

passaros. Seja esse ponto logradouro das garrulas creanças. Ao vel-as brincar,

ha de parecer que do cimo do seu pedestal ainda Carneiro Ribeiro recite

os versos do poeta americano, tantas vezes por elle traduzidos em voz alía

c embevecido aos seus discípulos amados:

•m "

Come to me, O ye children!

For I hcar you at your play.

Ah! what would the world be to us.

If the children zcere no more?

...whisper in my ear

What the birds and the winds arc singing

In your sunny atmosphere.

Ye arc better than aH the ballads.

That ever were sung or said;

For ye are living poems

And all the rest are dead.

Sim, existe entre Longfellow e Carneiro Ribeiro esta semelhança, além

das longas barbas e cabelleiras brancas: ambos ensinaram e muito amaram

as creanças.

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28 de Fevereiro na Historia do Brazil

1565 — Desembarca na bahia de Guanabara, com a expedição destinada

a expulsar os francezes que aqui se haviam installado, Estácio

de Sá, que logo lança os fundamentos da cidade, transferida em 1537

para o morro depois chamado do Castello.

1592 — E' doada, nesta data. aos frades franciscanos, 110 Rio de

Janeiro, a ermida de Santa Luzia, da qual se transferiram pouco mais

tarde para o morro do Crispim da Costa, depois chamado de Santo Antonio.

A 20 de Fevereiro de 1607 foi que chegou ao Rio de Janeiro a

leva de Franciscanos destinada á fundação do convento; chefiava-a o custodio

frei Leonardo de Jesus e delia faziam parte 4 religiosos, entre os

quaes frei Vicente do Salvador, a quem se deve a primeira "Historia do

Brazil". ' ;. .

1640 — "Com uma geral satisfação dos seus moradores", na phrase

de Berredo ("Annaes", liv. X, cap. 748). toma posse do governo da capitania

do Pará o capitão-mór Pedro Teixeira, que acabava de .realisar

a exploração do rio das Amazonas (1637-1639). Exerceu o cargo até 26

de Maio do anno seguinte, data em que o passou a Francisco Cordovil

Camacho. Poucos dias depois morria Pedro Teixeira, com grande magna

dos habitantes do Pará.

1644 — Graças ao heroísmo de Antonio Muniz Barreiros (que morreu

antes de findar-se a campanha a que se votara) e do sargento-mór

Antonio Teixeira de Mello, vêem-se os hollandezes forçados a evacuar

a ilha do Maranhão, que haviam occupado a 25 dc Novembro de 1641.

Encravaram os invasores a artilharia do forte de S. Luiz, partindo immediatamente

em dois navios velhos que estavam 110 porto; c. deixando

110 Ceará uma pequena guarnição, ás ordens de Gedeon Morritz, seguiram

por terra para o Rio Grande do Xorte.

1796 — Fallece, em seu posto dc governador da capitania dc Matto

Grosso, João de Albuquerque de Mello Pereira e Caceres, que o exercia

desde 20 de Novembro de 1789. Assumiu o governo uma Junta provisória,

até a chegada do novo governador, Caetano Pinto de Miranda Montenegro

(depois marquez da Praia Grande), que tomou posse do cargo a

6 de Xovembro de 1796.

1845 — Tendo sido decretada, para os que depuzessem as armas,

ampla amnistia, em 18 de Dezembro dc 1844, David Canavarro, chefe

dos rebeldes do Rio Grande do Sul. depois de reunir em Ponche-Verde

um conselho de officiaes de todo o seu exercito e obtido o assentimento

dos mesmos, proclama a acceitação da mencionada amnistia, nos termos

do referido decreto imperial. A I o de Março, o barão de Caxias proclama,

a seu turno, a pacificação da província, da qual era presidente e commandante

das armas desde 9 de Novembro de 1842.

1854 — E' nesta data que se inicia 110 Rio dc Janeiro o habito de

festejar o carnaval por meio dc carros allegoricos e cavalgatas, cm logar

do antigo entrudo a esguichos de agua c laranjinhas de cera.

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