,«5=^ história 2 - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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SIMPICÂLTSMO

Fundada a Central

Sindical -po

da Conciliação

Com a realização do Conclat-Baixada, fica provado que os motivos

para rachar o movimento sindical em agosto estavam longe de se

referir ao regimento interno.

Diante da retomada das lutas expressa na greve do dia 21 de

julho, o Conclat, com todos os setores do movimento, seria um

marco incontestável da afirmação de um programa de combate à

crise e um avanço decisivo na construção de uma Central Única,

independente do Estado. •

Esse avanço da classe trabalhadora tinha que ser golpeadol

O que observamos na Praia Grande foi a manifestação política dos

setores pelego e reformistas do movimento sindical, com sua linha

claramente assumida de colaboração de classes, expressa na

proposta de um Encontro pela Democracia e Soberania Nacional

e na legitimação da estrutura sindical corporativa, atrelada ao

estado, criando um organismo sindical dirigido pelas federações e

confederações.

Dois meses depois do Conclat de S.

Bernardo do Campo, onde foi

fundada a Central Única dos

I rabalhadores. realizou-se nas colônias de

IcriaM dos sindicatos paulistas, na Praia

Cirande, o chamado Conclat Baixada.

Kcuniu sobretudo os chamados sindicalistas

■independentes" vinculados ao PMDB.

correntes políticas proibidas pela ditadura

(PCB. PC do B. etc) e grande parte da

burocracia sindical de tradições pelegas

empurrada pela conjuntura e pela crise

econômica. O Conclat da Baixada tirou

bandeiras não muito distantes do congresso

do ABC. Contudo, suas-formasde organiza-

ção e luta e principalmente seu projeto

político global, mostram claramente um

programa quase-partidário, com nítida

avaliações sobre o que os seus organizadoreíi

esperam da ""transição democrática" do país.

O congresso, na verdade, já tinha muita^

de suas resoluções preparadas antecipada-

mente pela Comissão Organizadora. Ai

discussões e votações (quando houve) eram

na verdade "simbólicas*, como as da plenária

final, que aprovou em bloco a "Carta de

Princípios" e o Conselho Nacional da Classe

Irabalhadora - Conclat- nome da central

criada pelos "novembristas".

O significado dos dois congressos, para

alguns dos sindicalistas era de que "ambos

tinham que ser realizados: cada corrente

constituiu seu bloco, suas propostas, agora a

questão é chegar num acordo para uma

reunificação". Apesar disso e dos constantes

apelos à reunificação, por oradores e por

clatiues do plenário, a resistência a essa

política vinha forte, principalmente dos

simpatizantes do Hora do Povo, do

"partidao" (ala do Comitê Central) e outros

"duros". -

A discussão sobre a fundação ou não de

uma central dividia a comissão organizado-

ra e os cardeais do congresso. Frente à

ausência de consenso, optou-se pela forma-

ção de algo híbrido e nebuloso, inclusive sem

mecanismos de filiação a serem discutidos

nas entidades.

As correntes e o projeto comum

A composição do conselho reflete o tripé

que estava na base dos organizadores do

congresso: forte presença da Contag. a ala

dos sindicalistas ditos "independentes

capitaneados pelos metalúrgiccw de S. Paulo

e. por fim. uma ala dos trabalhadores em

cMatais, sobretudo os urbanitários, onde

desponta o peso dos eletricitários, capita-

neados por Antônio Rogério Magn, clássico

representante da ala mais direitista e,

"americanizada" do sindicalismo brasileiro.

A metodologia para organizar o conselho de

entidades reflete, em grande parte, a posição

há muito defendida pelo PCB. embora seja

muito discutível se se trata de uma vitória do

velho partidao ou mais uma de suas

"realistas" adaptações à estrutura sindical e a.

seus velhos burocratas.

As "teses" aprovadas sobre os temas

principais e a' "carta de princípios" assinada

pelo congresso aparentemente não distam

muito,, daquilo que se aprovou em S.

Bernardo. Contudo, as formas de luta e

organização e, principalmente o projeto

político global embutido.neles — o de uma

multípartidária do consenso nacional,

veiculo alternativo da "sociedade" ao regime

militar — mostram grandes diferençai «fe

concepção que, certamente, serão aprofun-

dadas nas lut?s' conjuntas que. as duas

centrais deverão travar.

RESENHA -2

As teses da Baixada

A tese n." I J Problemas nacionais e as

alternativas dos trabalhadores formula

uma verdadeira política econômica: reforma

financeira, tributária e creditícia. divida

externa (moratória unilateral), reforma

agrária, fim do arrocho, políticas de

emprego, energética, tecnológica, de saúde,

cultura, etc. Termina por defender o fim do

regime militar, eleições diretas e Assembléia

Constituinte, liberdade partidária e sindical,

etc. A tese ní' 2— Unidade e organização dos

trabalhadores — o mais resumido, preocupa-

se em "malhar" os promotores do congresso

de S. Bernardo e, como forma de combater a

estrutura sindical, não vai além de propagan-

dear a necessidade de um "movimento

sindical unitário", livre dos prejuízos do

partidarismo, do paralelismo e do pluralis-

mo sindical".

A malhação na CUT teve seu lance mais

sensacionalista, porém, fora dos textos: trata-

se da renúncia de Nilson Bahia (petroquími-

cos de Salvador) à direção da CUT. "para

não dividir sua base". Nilson não permanece

portanto em nenhuma das direções, assim

como seu suplente.

A estrutura da "coordenação"

e as mobilizações

O relatório mais longo — Plano de Lutas

Sindicais - expõe longamente a estrutura da

central criada no encontro. Trata-se de um

conselho de entidades composto pelas

confederações e sindicatos nacionais e mais

90 entidades eleitas pelas bancadas estaduais,

proporcionalmente ao número de sindicali-

zados dos estados. Dentro desse conselho se

Classe Trabalhadora (Conclat), com funções

executivas e que é na verdade, a cabeça

politica da central. A coordenação é compos-

ta das entidades de caráter nacional e mais 25

entidades eleitas dentro do conselho,

mais 25 entidades eleitas dentro do conselho.

Ainda neste último relatório, fala-se dos

planos de luta e mobilização da nova

agremiação. Em primeiro lugar, elaborar e

encaminhar no parlamento projetos de lei de

interesse do movimento sindical. Em

segundo lugar, deflagrar e coordenar várias

"campanhas" de massa: campanha nacional

de sindipalização, pela reforma agrária,

contra o desemprego, pelas mais amplas

liberdades políticas, etc. Na linha desta

última campanha se insere o fim da Lei de

Segurança Nacional, além das eleições

1 O


SÍNVJCALÍSMO RESENHA - 3

diretas para presidente da República. Um

nebuloso "estado de mobilização permanen-

te", composto de manifestações que "apon-

tem" para a greve geral é outra das resolu-

ções.

O projeto político global

A chamada "Carta da Praia Grande",

manifesto político dos congressistas, expõe

mais claramente a avaliação da conjuntura e

a perspectiva política global dos organizado-

res. Reduzindo o momento atual à contradi-

ção entre o capital estrangeiro e um pequeno

número de tecnocratas ("de costas para toda

a Nação") e. de outro lado, "toda uma

sociedade", a carta tem uma proposta clara

que, ao que tudo indica será encaminhada no

sentido de constituição de uma frente

multipanidária oposicionista: a organização

de um Encontro Nacional pela Democracia e

Soberania Nacional, englobando todos os

partidos, entidades e personalidades repre-

sentativas, além de organismos do "movi-

mento popular" (sociedades de bairros,

comunidades religiosas, entidades estudantis,

etc). Esse encontro elaboraria uma "alter-

nativa nacional democrática e popular ao

atual regime", proposta que "unificaria toda

a nação" e seria apresentada à sociedade, aos

parlamentos locais e nacional, governos de

Estado e presidência da República, na forma

de um "abaixo assinado".

Contudo, pela tônica parlamentar e pela

importância dada às instituições estatais,

tudo indica que se trata de canalizar um

movimento de apoio à plataforma política de

transição que a oposição burguesa majoritá-

ria (PMDB) apresentou, no dia seguinte ao

congresso, através de um manifesto de

Ulysses Guimarães que é quase sua platalor-

ma eleitoral para a presidência.

Os números do

Conciat-Baixada

1) O leitor deve notar que

quatro estados (S.Paulo, Rio

Grande do Sul, Minas Gerais,

Rio de Janeiro) congregam pei to

de 40% das entidades presentes,

50% dos delegados, 45% dos

dirigentes sindicais, mais de

50% dos delegados de base.

2) O número de trabalha-

dores representados (tamanho

das categorias que tinham

delegações no congresso) em S.

Bernardo era, pelos números

constantes nas fichas de inscri-

ções, perto de 12 milhões. Pelos

dados divulgados pela secreta-

ria de imprensa do Conclat-

Baixada, neste último estavam

representados perto de 9,5

milhões. Esses números, po-

rém, não revelam uma possível

dupla representação, em virtu-

de de vários sindicatos estarem

com suas delegações (parciais

ou totais) em ambos os en-

contros.

Delegado^ de

Base

De qualquer modo, isso não

diferem muito da verdadeira

"guerra de números" promo-

vida pelas centrais de outros

países.

3)- A comparação entre re-

presentação de base e de

diretoria nos dois congressos

também não revela muita

distância. Veja-se por exemplo

este quadro comparativo:

4) O leitor deve notar que os

"sindicatos urbanos" incluem,

além de entidades de base

nacional, os sindicatos de

indústria e de serviços básicos

(eletricidade, saneamento, etc)

e as atividades terciárias (co-

mércio, serviços, etc), que

poderiam ser desagregados da

seguinte maneira:

A partir daí, pode-se obser-

var que a categoria mais

representada (em número de

entidades e de dirigentes) é a

rural; é também a de mais alta

taxa de sindicalização.

Delegados de

Diretoria

ABC Baixada ABC Baixada

Sindicatos

rurais 1036 964 600 531

Sindicatos

urbanos

Sindicatos

de indústria

e servidores

básicos

3496 968 1-200 1146

Delegados

Trabalhadores

Total

Entidades Diretoria Base Categoria Associados

269 582 676 1258 2.275.009 853.188

Terciários 145 324 354 . 678 1.400.278 454.756

O CGT, vinte anos depois

O CGT. fundado em 1962, resultado de uma aliança estreita

entre o PTB e o PCB, deu lugar agora a uma "coordenação"

que alia o PM DB e setores da esquerda como o PCB e o PC

doB.

No CGT de 1962, o peso da agricultura era pequeno (1,9%

dos delegados) contra a predominância de sindicatos de indús-

tria (quase 80% dos delegados). Mais de 60% desses represen-

tantes vinham do estado de S. Paulo.

Essa situação mudou. A Conlag, que nem existia em 1962,

está representada em maioria entre os delegados do Conciat

Baixada. Por outro lado, a distribuição pelos outros estados é

bem maior.

O espírito de construção da central no entanto, é o mesmo:

em torno das federações, confederações e das diretorias dos

principais aparelhos sindicais do país. Para o Conselho

Nacional e para a Coordenação foram eleitas entidades e não

pessoas e, numa das normas de funcionamento aprovadas, está

explícito que, cada uma dessas entidades pode indicar e substi-

tuir os seus representantes conforme seus próprios critérios.

Não existe nenhum mecanismo de filiação e de controle dos

sindicatos à Central: o Conselho e a Executiva pairam acima do

conjunto dos sindicatos.


SIWPICALISMO

No próximo dia 26 ocorrerá

sm São Paulo um novo Encon-

tro de Metalúrgicos petistas,

convocado pelo Encontro ante-

rior, realizado em outubro. A.

pauta desse Encontro deverá

discutir questões centrais, como

a construção do PT na catego-

ria, a relação que o partido deve

manter «om o sindicato e com o

conjunto das forças de oposição

à atual diretoria (presidida por

Joaquim), e a questão das elei-

ções - que deverão ocorrer no

final do próximo semestre.

Já no processo preparatório

ao Encontro do dia 26 abriu-se

um processo positivo de discus-

sões, a partir da organização de

encontros regionais, que em sua

maioria ocorreram neste final

de semana. Em Santo Amaro,

por exemplo, cerca de 30 meta-

lúrgicos participaram das dis-

cussões.

Num sentido geral. Lula defi-

niu aquela que deve ser a atuação

do partido, durante o Encontro

de outubro: o PT deve construir

seus núcleos nas fábricas, nas

regiões, onde for possível,-pro-

curando organizar os trabalha-

dores na luta pela satisfação

das reivindicações. Ao mesmo

tempo, o PT não pode se trans-

formar "num grupo a mais",

mas sim ser o motor de um

processo que constitua uma for-

te oposição a Joaquim. Nesse

sentido, como disse Lula, o PT

deve fazer um chamado a todas

as forças de oposição para levar

um combate unitário para tirar

o Joaquim da diretoria do Sin-

dicato.

Tirar o Joaquim

da direção

A afirmação desse objetivo - ti-

rar o Joaquim da direção do

Sindicato - decorre do próprio

lugar que sua diretoria (com-

posta por pelegos e burocratas

ligados ao Partido Comunista

Brasileiro - PCB) ocupa no mo-

vimento sindical brasileiro.

Os metalúrgicos de São

Paulo constituem uma das mais

Metalúrgicos do PT

realizarão novo Encontro

.Q IRAtíAl.tiC)

fortes e importantes categorias

de trabalhadores de toda á

América Latina. Do ponto de

vista da própria categona, Joa-

quim e sua diretoria constituem

o principal obstáculos à luta

-«pela satisfação das reivindica-

ções. Isso foi amplamente de-

monstrado, por exemplo, na úl-

tima campanha salarial (outu-;

bro/novembro), em que o pró-

prio Joaquim encarregou-se de

aplicar sobre a categoria o 2065

- o mesmo decreto contra o qual

os metalúrgicos do ABC tize-

ram greve e foram vitoriosos.

Do ponto de vista mais geral,

Joaquim foi um dos principais

sustentadores do Encontro Sin-

dical fantoche de novembro, na

Praia Grande, um circo monta-

do por pelegos e stalinistas do

PCB para dividir o movimento

sindical e atacar a CUT.

E açsim que todos os que

lutam pela satisfação das rei-

vindicações dos metalúrgicos de

São Paulo; todos os que se pro-

põem a engajar a preparação da

Greve Geral e a construção da

CUT unificando os metalúrgi-

cos de São Paulo com o conjun-

to dos trabalhadores brasilei-

RESENHA - 4

ros, encontram em Joaquim e

sua diretoria o grande obstácu-

lo a ser varrido. Assim, antes

de mais nada, o objetivo de tirar

o Joaquim deve ser a preocupa-

ção central, para assegurar a

ünidaHe. de todos os que sé

opõem ao notório pelego.

Construir oPT

na categoria

Dentro desse quadro, o PT,

como partido cujos militantes

estão na primeira linha da luta

contra ditadura, contra o sindi-

calismo oficial e contra os pele-

gos, pode e deve ser o motor da

constituição de uma forte oposi-

ção a Joaquim. Uma oposição

que se concretize numa chapa

unitária, baseada no combate.

O Encontro do partido terá a

oportunidade de realizar essa

discussão, e tirar uma orienta-

ção geral a todos os militantes.

Desde já, entretanto, a iniciati-

va de sua realização, já consti-

tui um passo extremamente po-

sitivo, que deverá ter continui-

dade com a construção do PT

na categoria.


POLÍTICA PARTIPARIâ RESENHA - 5

FOLHA DE S. PAULO

Mau pagador n/H

Se Figueiredo fosse uma raposa política, sua

entrevista em Lagos seria tida como apelo

direto ao País, para livrá-lo das peias do PDS

que o estaria impedindo — coitado! — de

encaminhar o processo de eleições presidenciais

diretas. Vindo de quem vieram, não se deve

entrar nesse tipo de divagaç&o. Mantendo uma

pinguela para qualquer emergência, o general

cuidou mesmo foi de posar de bom moço, no

esforço de preservar sua imagem já gasta,

assegurando, porém, a conservação da regra

falsária criada com a finalidade de permitir que

representantes da minoria absoluta dos habi-

tantes e doa eleitores nomeiem, contra a

vontade da maioria, um presidente que tente

assegurar a continuidade de domúüo, aos

mesmos grupos que açambarcaram o poder.

O viajante deve ter precisado de coragem igual

à de Paulo MaM, na negativa de fatos patentes,

para dizer que acha que as eleições devem ser

diretas, mas que è muito difícil, e' até

impossível, estabelecer esse seu ideal, porque

"meu partido não abre mão de eleger o futuro

presidente" e "não iria se conformar". Ou para

dizer, noutro trecho, que "se minha opinião

valesse iria ser muito Som". A verdade e que,

sendo a maioria comprovada do País pelo pleito

direto; filiando-se a essa mesma opinião todos

os partidos oposicionistas, o PTB e até grande

parte do PDS, inclusive vários governadores

escolhidos sob essa legenda (entre outros

Roberto Magalhães e Esperidião Amin); não

havendo recusa militar, dominante a essa

alternativa; e sendo impossível sair da crise de

confiança oa administração sem grande mani-

festação democrática, nenhum dique pedessista

poderia deter a avalanche nacional pela escolha

popular, se o chefe do governo formulasse

proposta de emenda constitucional nesse senti-

do. "■

A desculpa do mau pagador não salda a dívida.

Se o general iá provou, exuberantemente, que é

capaz de dobrar as resistências do PDS

(lembrai-vos do 2.065...) mesmo em questões

em que a postura carece de qualquer apoio da

opimao, o que dizer de sua força, no taso de

apelo de tão ampla receptividade nacional! Os

60 milhões de eleitores, a maioria dos quais

nunca pôde exercer a escolha presidencial,

apoiaria com unanimidade a proposta e nenhum

grupo político teria condições de contê-la.

Precisamente isso é que assusta Figueiredo,

seu grupo e seu partido, temerosos de perder

em definitivo o controle da situação que lhes

foge. A escolha indireta, por um colégio

ilegítimo e sem representalindade, no qual se

incluem até mesmo biônicos, alimenta no

Planalto a esperança de fazer sucessor e

confere aos eleitores de segundo grau poder ao

qual só renunciarão sob pressão direta, quando

e se os riscos da resistência mostrarem-se

maiores que os perigos das umas.

Reconhecendo um direito que não existe de seu

partido exercer em monopólio, o que só cabe à

Nação, o general Figueiredo mostrou, mais uma

vez, seu estranho conceito de democracia às

avessas. (Newton Rodrigues).

FOLHA DESPAULO^


POLÍTICA PARTIPARIÂ

sência de alternativas crí-

ticas para a ideologia na-

cionaf^sta predominante.

Ou seja, a crítica carece

de novas utopias trans-

formadoras da realidade

que o nacionalismo con-

serva, impedindo a su-

plantaçâo da presente or-

dem internacional.

Daí a necessidade de

novas utopias, de novas

visões orientadoras que

compatibilizem a cons-

trução de cada naçáo com

a construção do mundo.

Tais visões teriam em

comum a convicção pro-

funda de que a construção

de cada nação depende

essencialmente da cons-

trução do mundo. Pois a

construção da maioria das

nações é inviável sem

novas federações e auto-

ridades mundiais agenci-

adoras de melhor igual-

dade internacional. Hoje, o

projeto autárquico é ab-

surdo: ou é inviável ou em

raros casos cria centros de

dominação novos. O caso

da China autárquica é

exemplar. Converteu-se

em centro de poder, mas

viu-se forçada a abrir-se

ao mundo.

Concluindo: o presente

paroxismo nacionalista é

contingência universal.

Não se trata de fenômeno

brasileiro. A peculiaridade

brasileira se manifesta

mais viva — o naciona-

lismo permeia todos — em

decorrência da adesão

excessivamente exage-

rada ao modelo de desen-

volvimento dependente.

Quando este modelo entra

em crise, como agora, o

nacionalismo reacende

autarquizante, sem me-

dida e sem senso. E a

passagem abrupta e ra-

dical do modelo depen-

dente para o modelo au-

tarquizante teria custos

sociais altos e políticos

muito perigosos.

O nacionalismo brasileiro

irá forçar a moderação

dos excessos de depen-

dência. Mas a pretensão

de romper com interde-

pendências inevitáveis nos

colocaria em posição

aberrante de isolamento.

A excessiva dependência

vertical de nações-pos-

suidoras justifica prote-

cionismos defensivos e

excludentes. Tal política

teria porém de ser com-

pensada, muito mais

energicamente, por es-

forços de cooperação e de

integração, principal-

mente com países da

América Latina, o que

supõe menos proteci-

onismo regional e melhor

disposição para implantar

nova divisão de trabalho

nesta parte do mundo. A

política de investimentos

teria de ajustar-se a

planejamentos integraci-

onistas. A política indus-

trial na América Latina

deveria ser planejada em

bases regionais em lugar

de resultar de decisões de

grandes empresas trans-

nacionais que competem

entre si arrastando os

países por elas penetrados

para concorrências anti-

econômicas, sob inspi-

ração da ideologia naci-

onalista.

O nacionalismo brasilei-

ro, na construção de nova

FOLHA DE S.PAULO

ordem internacional, ou

seja, do mundo, pode e

deve concentrar-se na

construção dessa parte do

mundo em desenvol-

vimento e por desenvolver.

Esta é uma das utopias

transformadoras ao nosso

alcance.

LUIZ AlURTO lAHIA é |ornalltla •

mwnbro do Com.lho Editorial da

O nacionalismo como

ideologia da desconversa

MAURÍCIO

TRAGTENBERG

A população brasileira,

especialmente os as-

salariados urbanos e

rurais, tem baixo envolvi-

mento ideológico, tanto

quando as classes dominan-

tes

Os primeiros, especial-

mente após a Revolução de

30 com a criação á


POLíTICA PARTIPâRIA

internacional define con-

tradições secundárias no

sistema. A intelectualidade

classe média assumindo-o

poderá usá-lo para ascensão

social nos 'aparelhos do Es-

tado'. $ o 'interesse naci-

onal' ideal e o interesse

classista particular real.

Para o proletariado urbano e

rural nada significa, mais

envolventes tem sido os

'saques' para saciar a fome.

MAURÍCIO TIAOTfNUM * profa»»'

de O»por1om«n(o ám Clénclo» Soclol»

do Fundaçfio Gllúlio Vorgo» «m Sòc

Paulo • do Unlv*nidod« Estadual d.

Complnoa ÍUnicamp).

FOLHA DE S.PAULO

1935 e os usos

da história

MARCO AURÉLIO GARCIA

Lembrai-vos de 35. reitera a pro-

paganda oficial às vésperas de

mais um 27 de novembro, quando

transcorrerá o. 48° aniversário da

"Intentona Comunista". "Intentona".

para os militares, "insurreição naci-

onal libertadora", para os comunistas,

o episódio da praia Vermelha continua

ainda encoberto pelo espesso véu dos

parti pris ideológicos.

Para as Forças Armadas, segundo

reiteram as ordens do dia a cada ano,

a "Intentona" apenas comprova o que

de há muito se deveria saber: o

caráter "apátrida e traiçoeiro do

comunismo internacional '. Como

prova são exibidos cadáveres de ofici-

ais e soldados "mortos enquanto dor-

miam". A reiteração monótona desta

versão não resiste aos fatos. Todas as

pesquisas históricas sérias realizadas

sobre o episódio, sobre as quais será

difícil levantar suspeição, como é o

caso do trabalho de Hélio Silva,

desmontam, com apoio nos laudos dos

médico-legistas da. época, a tese de

assassinalos "pelas costas". Em

suma: não houve "mortos enquanto

dormiam", sem falar no absurdo que

representaria soldados dormindo em

quartéis submetidos a regime .de

prontidão, como era o caso da ma-

drugada do levante. Mortos houve, e

dos dois lados, como nos levantes de 22

e 24, na coluna Prestes ou em 30, para

não falar em 1932.

O desembaraço eom que a historio-

grafia oficial trata 1935, contrasta com

as dificuldades visíveis nas versões

dos que participaram do aconteci-

mento como insurrectos.

Depois de muitos anos de virtual

silêncio sobre o acontecimento, os

últimos anos assistiram uma relativa

abertura da discussão. O debate sobre

1935 está, no entanto, fortemente

marcado pelos conflitos que afetam

hoje o próprio Partido Comunista

Brasileiro, agravados sobremaneira a

partir da dissidência de Luiz Carlos

Prestes,' o principal protagonista do

movimento. \. $ % '' ^■-■f

Intelectuais e dirigentes ligados ao

chamado "coletivo nacional dos

comunistas" não têm perdido a opor-

tunidade para ajustar contas com

Prestes a partir da análise de 1935,

vendo no episódio a manifestação mais

evidente do "golpismo" do ex-secre-

tário-geral, tendência que segundo eles

se repetiria em outros momentos dá

vida ao partido, particularmente entre

62e64.

Prestes por sua vez, faz a corda

rebentar no lado mais fraco, credi-

tando ao secretário-geral do PC à

época, Miranda, as responsabilidades

pelo levante, entre outras coisas "por

haver mal informado" sobre a real

situação do movimento de massas...

Em seu depoimento aos jornalistas

Dênis de Moraes e Francisco Viana, o

dirigente procura negar a tese, am-

plamente difundida pela polícia 'nos

anos 30, de que a insurreição havia

sido decidida no 7 o Congresso da

Internacional Comunista, realizado em

agosto de 1935, em Moscou. Ora se é

verdade que o Congresso não deliberou

sobre o levante, é bastante difícil

eliminar a participação da Internaci-

onal nos acontecimentos de 1935,

atestada, entre outros elementos, pela

presença de Ewrert, Ghioldi e outros

enviados da IC, reforçada por vários

depoimentos e até pelo estudo mais

amplo da atuação do Comintern desde

sua fundação.

A presença indiscutível da Interna-

cional Comunista nos acontecimentos

de 1935 dificilmente poderá esgotar a

explicação sobre o levante. Em pri-

meiro lugar há que deslindar o para-

odoxo da participação do Comintern

numa insurreição, justamente quando

suas posições a nível mundial se

orientavam para a formação de-

bandes coligações eleitorais inclusive

com a burguesia democrática, còmò

/oi o caso das Frentes Populares: f. '.v,

'Outros .elementos devem ser incor-

porados para um efetivo esforço de

clarificação histórica: a profunda

crise social e política que atravessava

o Brasil nestes anos e as tendências

crescentes, que se desenvolviam no

governo e nas Forças Armadas-para

adoção de uma solução autoritária, o

que viria a ocorrer em 37, preparado

em certa medida pelo levante de 35.

Esta crise nacional, particularizava-se

em algumas regiões do País, como é o

caso de dois Estados que foram

também cenários de insurreições im-

pulsionadas pelo PC — Rio Grande do

Norte e Pernambuco. ■

As Forças Armadas, elas próprias, se

viam também afetadas^ pela polari-

zação política que sacudia o País.

Trinta e cinco, neste sentido, pode ser

visualizado, também, como mais um

(e quem sabe o último) episódio

tenentista, a despeito do revestimento

ideológico mais preciso.

Há, finalmente, a própria crise do

PCB neste período, vivendo tardi-

amente sua "bolchevização" e en-

frentando a contra-pelo uma nova

conjuntura onde as relações de classe

se alteravam bruscamente.

Somente através destas e de outras

' pistas — afastandO-se da propaganda

anticomunista, ou da autocomplacên-

cia de certos setores à esquerda — é

que o episódio de 1935 poderá ser

restituído em toda sua integridade à

história do Brasil.

MACCO AUatLIO OAKIA 4 prol.iiot do D.por-

tom«Mo d« Hlflórlo do Univvrtidod* Eitoduol d«

Complnoi • coord*nodor do Arquivo d« Hiilõflo Soclol

do m«tmo Inttllulfõo.

FOLHA DE S.PAULO

Teotônio,

consciência

moral do País

Banco de Dados

Político desde 1954, quando se ele-

geu deputado estadual em Alagoas pe-

la extinta UDN, vice-governador de

Alagoas em 1960 e um dos seis senado-

res eleitos pela antiga Arena em 1966,

RESENHA - 7

Teotônio Brandão Vilela, por sua luta,

nos.últimos anos, contra o arbítrio e a

favor da democracia, tornou-se um

dos homens públicos de maior desta-

que no País.

Orador inflamado, esse alagoano de

Viçosa, onde nasceu a 28 de maio de

1917, filho de um proprietário rural,

fez da firmeza de posições adotadas a

razão de boa parte do seu êxito políti-

co nos últimos anos.

Foi criado numa grande família, on-

de teve nove irmãos — entre eles duas

freiras e o cardeal-arcebispo de Sal-

vador, dom Avelar Brandão Vilela.

Após estudar com os jesuítas em Re-

cife, Teotônio tentaria várias carrei-

ras no Rio (Escola Militar, Engenha-

ria e Direito). Não chegou a concluir

nenhum dos cursos, mas conservou,

desde então, o apreço pela discussão

de idéias e pelas letras.

De volta a Alagoas, ele levaria uma

vida aventurosa comprando e venden-

do gado no sertão, atividade em que

conseguiu reunir um capital suficien-

te para ficar com a propriedade da

família, apostando na transição do en-

genho de bangüê para a usina. Hoje,

sua Usina Seleta, administrada desde

1979 por um de seus filhos, é das maio-

res do Estado.

A atividade política começaria em

1954, por intermédio dé um de seus

(ios que, em oposição ao Góes Montei-

ro (então identificados com o PSD),

apoiava a UDN. Dentro desse partido,

ele se alinharia à corrente liberal se-

guida, por exemplo, por Milton

Campos.

Contra Goulart

^or ocasião do movimento de 1964,

Teotônio, que se elegera vice

governador na chapa de Luís Caval-

canti, apoiou a articulação militar

contra o governo Goulart. Mas nunca

foi conivente com qualquer excesso:

toda vez que assumia o governo por

viagem do governador, ordenava ao

secretário de Segurança que soltasse

todas as pessoas presas de forma

ilegal.

Em 1968, logo após o AI — ^, foi um

dos signatários de telegrama ao presi-

dente Costa e Silva, protestando con-

tra a edição daquele documento. Era

da Arena e sua atitude foi considera-

da audaciosa. Já havia escapado ò

cassação quando vice-governador e

ainda desta vez voltou a escapar. .

"Não sou homem de metas. O que

me move são ansiedades." Essa frase

caracteriza sua atuação no plano

político. Mas sua caminhada no senti-

do de uma crescente oposição ao regi-

me que, pensara, iria regenerar o

País, foi mais lenta, pois, durante

muito tempo, acreditou, como Milton

'Campos, que era possível alterá-lo a

partir de dfentro. Foi em fins do gover-

no Geisel que constatou que essa al-

ternativa era ilusória e começou, por

conta própria, uma pregação institu-

cional, que o transformaria em dissi-

dente dentro de seu próprio partido.

Nessa fase de sua vida pública, teve

um papel determinante na campanha

pela anistia, percorrendo todo o País

em função deseu "Projeto Brasil", di-

vulgado em abril de 1978 (uma pro-

posta política para o País, que elabo-

rou com um grupo de assessores);

atuou com destaque também em de-

fesa do nascente sindicalismo inde-

pendente, alvo, durante a grfivtde.

I O


POLíTICA pARimm

1979 no ABC, de medidas arbitrárias

por parte do governo.

Contra u duençu

Em abril de 1979, ele passaria final-

mente para o então MDB, abrindo ca-

minho para outros arenistas, desiludi-

dos com os rumos do regime e com a

fragilidade da democratização, então

delineada. Alguns meses antes das

eleições de 1982, que modificaram o

equilíbrio de poder dentro do País, ele

seria, porém, atacado por um inimigo

bem mais insidioso que seus ad-

versários políticos: a doença. Ao

constatar em junho qüe estava com

câncer, desistiu de se reeleger para o

Senado (umâ tribuna em que brilhou

por vários anos).

Com uma coragem imoral e uma re-

sistência fora do comum, Teotônio Vi-

lela demonstrou que, antes que a mor-

te o levasse, ainda tinha muito a dar

ao Brasil. Sua atuação cívica neste

último ano o colocou num plano bem

acima dos interesses partidários, pa-

ra transformá-lo numa espécie de

consciência moral do País.

Muitas homenagens

Teotônio Vilela foi nestes últimos

meses alvo de várias homenagens, co-

mo a entrega do Prêmio "Guerreiro

Alagoano" em seu Estado — na qual

seu antigo companheiro, Luís Caval-

canti, chegou a se ajoelhar no chão

para pedir a Deus seu restabeleci-

mento — ou a inauguração 1 em Sáo

Paulo de uma tribuna livre (na Praça

da Paz, no Ibirapuera) com o seu no-

me. Também foi objeto de uma can-

ção ("O menestrel das Alagoas"), de

Milton Nascimento. Um filme sobre

ele (encomendado pelo PMDB a Vla-

dimir Carvalho) e uma biografia (a

cargo de Márcio Moreira Alves, que o

acompanha em muitas de suas via-

gens) também estão programados.

No começo deste ano, sua esposa, d.

Helena Quintela Brandão Vilela, com

quem foi casado por 35 anos e que lhe

aeu sete filhos, morreu, atacada tam-

bém pelo câncer.

Com o desaparecimento de Teotônio

Vilela, morre a voz corajosa que ou-

sou afirmar que "a bomba é um ca-

suísmo" (logo após o atentado do Rio-

centro) ou que "patriotismo não se

mede nem por correntes ideojógicas

nem pela ponta de baionetas", entre

muitos pronunciamentos que fez era

momentos difíceis

Chame o ladrão

Nirlando Beirào

O assunto violência sacode a Nação num trenesi pré-

natalino. Armas, tiros, polícia, bandido, assaltos, iuga,

perseguição. De repente, o que se vê nos filmes vira en-

redo banal de nosso coüdiano. O taroeste não está

mais em Dodge City, mas em Ermelino Matarazzo e

Sáo João do Meriti.

A mídia se lambuza. Esmera-se na hipocrisia: laz da

segurança do cidadão um alarde moral, como se esti-

vesse participando de uma cruzada pelo bem-estar so-

cial. Não está. Há quem queira a policia na rua por

convicção política - e curiosamente são aqueles que se

dizem liberais históricos. Militarizar o cotidiano, disse-

minar o terror, cair de pau - submeter, enfim, a popu-

lação, a ralé, a gentalha. E há quem queira fatur:"-.seus

caraminguás com a paranóia alheia. Violência, como se

RESENHA - 8

sabe, vende.

Com seus olhares rútilos, baba dostoicwskiana, íala

alarmista, repórteres de tevê freqüentam os lares da

classe média com a visível intenção de satisfazer-lhes os

instintos mórbidos ou os pânicos recolhidos. O Ibope

penhoradamente agradece. A tevê há de se reíestelar no

conforto que lhe dá a idéia de que está servindo a

uma bela causa. Não serve. O esforço de reportagem

não prescinde da inteligência e da reflexão. O fantás-

tico show da vida prossegue, às cegas. A tevê brasileira

teria feito a cobertura da Inquisição com exemplar des-

velo profissional.

Ninguém nega a amplitude e a realidade da questão

segurança. É evidente que a Nação está insegura. Sc

não houvesse as pesquisas de opinião, bastaria olhai'

nos rostos de quem, nas sombras da madrugada, tem

de esperar o ônibus que vai levá-lo ao trabalho. Tam-

bém é injusto, com tanta mortandade, lavar olimpica-

mente as mãos, argumentando que tudo isso é reflexo

do desastre econômico e social a que 20 anos de regime

autoritário conduziram o País. É verdade, mas não é

tudo. Lembra a postura daqueles pregadores de

weitm, brandindo Bíblias em meio ao tiroteio.

Agora, é preciso dar à questão segurança, que é real,

uma noção democrática. Redrar da palavra o ranço

fascista e repressivo, herança da ditadura. Segurança

não é criar um Doi-Codi em cada esouina. Segurança

não é soltar as feras loucas dos batalhões policiais -

porque a fúria policial só aumenta a insegurança do ci-

dadão. A violência exige uma reflexão democrática. A

insegurança é grande, e tem vários componentes, inse-

gura está a Nação porque lhe falta, hoje, tudo. Falta

um governo legíümo. Falta um governo honesto. Falta

um governo sério. Faltam empregos. Falta comida.

Falta a verdade. E falta esperança.

Segurança, quem dá à sociedade, não é uma policia

em quem não se pode confiar. Não será o general

Newton Cruz. Segurança é confiança. Quem minou a

segurança da Nação não foi o assaltante do banco da

periferia, foram os meliantes oficiais, de temo e gra-

vata. Eles assaltam, não são punidos. E têm um revól-

ver apontado permanentemente para o peito da Nação.

Cadê a verdade?

Mino Carta

Se o ministro Delfim tivesse de atravessar o viaduto

do Chá, em São Paulo, há quem diga que bem antes de

alcançar o outro lado seria precipitado para o asialto

do Anhangabaú, 30 metros abaixo. Talvez vá nisso al-

gum exagero, mas é certo que o ministro Delfim é o

atual recordista brasileiro de impopularidade, embora

não lalte um ou outro empresário ainda disposto a

submergi-lo debaixo de uma chuva de pétalas de rosas,

como a imagem de Santa Terezinha do Menino Jesus.

Por isso, o ex-ministro Hélio Beltrão, ao assestar bate-

rias contra o ministro Delfim, ganhou pontos aos olhos

da opinião pública.

Não foi só por causa disso. Ele se demirau; e neste

pais, em que a maioria faz qualquer negócio para não

perder o emprego, uns por razões de fome e outros por

razões de sem-vergonhice, um gesto de dignidade im-

pressiona muito. Agora, não se pode afirmar que, ao

criücar duramente a Seplan e ao diagnosucar a gravi-

dade da situação brasileira, o ex-ministro Beltrão tenha

descoberto a pólvora. Haverá alguém ainda cego

diante do fato de que a receita recessiva e insuportável ^

E de que ela condena o Brasil à destruição da econo-


POLíTICA PARrmm .RESENHA - 9

mia, ao desemprego e à desesperança? E de que ela re-

sulta de uma negociação incompetente, ou seja,apenas

subserviente aos interesses dos banqueiros internacio-

nais?

A novidade é que, desta vez, o grilo falante se chama

Beltrão. Mas ele acaba por fornecer uma versão das

mais profundas razões da tragédia que o Grilo Falante,

aquele de Pinóquio, não se permitiria. Primeiro: o sr.

Beltrão denuncia a ausência de sensibilidade do sr. Del-

fim "em relação aos problemas da área social". Certo,

certíssimo. Faltou dizer, porém, que a Seplan não esti

sozinha nisso, no tempo e no espaço. Por trás de boba-

gens que falam de um povo cordial e de uma democra-

cia racial, os donos do poder e os seus lacaios, os privi-

legiados das classes mais favorecidas (como se diz) e os

aspirantes ao privilégio sempre manifestaram o mais

solene desprezo pela questão social, neste país em que a

maioria é miserável. E é miserável porque os governos

brasileiros jamais se preocuparam com a verdadeira in-

dependência do Brasil, com a distribuição de renda,

com a reforma agrária (senhores, não há outro nome

para o fim do privilégio no campo, embora nem todas

as reformas agrárias se façam para valer). Etc. etc. O

que, por outra, significa coral e interminável insensibi-

lidade diante dos problemas sociais. E anote-se: neste

infeliz ano de 1983, o governo ratificou irremediavel-

mente a condenação à miséria absoluta, se quiserem á

morte, de pelo menos um terço dos brasileiros.

Segundo. Essa idéia de que o patriota Figueiredo,

tão nobremente envolvido na sua missão histórica de

fazer deste país uma democracia, está sendo levado na

conversa por seus colaboradores mais chegados, é ingê-

O papeíl da violência

A imprensa acompanha o clima de pânico diante

da violência com ampla cobertura. Mas cuidando de

limitar o assunto. Diante do crime, mais vale reprimir

do que entender como a polícia ajudou a criá-lo

José-Onofre

A intensa campanha da imprensa

, paulista, nos últimos dois meses,

tratando do aumer.to da criminali-

dade e da ação da policia, gratificou

seus consumidores principais: os

indivíduos da classe média que

igualmr.-nte tem o discutível privilé-

gio de. ser a principal vítima dessa

mesma criminalidade. O crime ga-

nhou as primeiras páginas da Folha

de S. Paulo, do Estado de S. Paulo e

á


l/IOLÊWCIA, EXPLOSÃO, VJOLtUCíA

privilégios que o govemo federal se

dedica a saquear, ela exigiria um es-

clarecimento sobre os motivos do

aumento da criminalidade, ou seja,

se esta nasce da inépcia policial ou

do aguçamento de uma crise que é,

em outros setores dos jornais, as-

sunto permanente.

womo se cruiam.e em que mo-

mento, a crise nacional e a crimina-

lidade? O diretor de O Estado de S.

Paulo, Júlio de Mesquita Neto, não

acredita que exista uma ligação di-

reta, mas reconhece que existe al-

guma influência. Da mesma forma

que a direção da Veja, alerta "que

não existem estadsücas provando

que há uma relação entre criminal! ■

aade e miséria". A opinião, embora

não compardlhada por elementos

que até há pouco dirigiam o apare-

Ino policial, tem sua base confir-

mada; a policia não dispõe de es-

tatísticas estabelecendo essa relação

e, se essas existem, as desconhece. Já

Boris Casoy, diretor da Folha de S.

Paulo, acredita que a ineficiência

policial deveria ser resolvida "prin-

cipalmente num momento em que

haverá um agravamento do crime

pela frustração e o desemprego".

Em posição oposta, Júlio de Mes-

quita e a direção da Veja perguntam

qual a relação possível entre miséria

e crime, se o Pais possui 40 mi-

lhões de miseráveis e não mais que

um milhão de criminosos? Veja e

Eítadào, que se diferenciam na ma-

neira de operar a notícia, concor-

dam em outro aspecto: o problema

da criminalidade deve ser encarado

com absoluto pragmatismo, inde-

pendentemente das causas que se^

encontrar para o fenômeno.

Na mesma Carta ao Leitor, Élio

Gaspari escrevia que "a associação

mecanicista entre o caráter do cri

minoso e o caráter da sociedade em

que ele vive - como se por fálm (i


VJOLtNCJA, EKVLOSKO, VJOLtHCJA RESENHA - 11

seja incomparável ao agir. Incorpo-

rou doutrinária e praticamente a»

PMs, exatamente para dispor dessa

tropa. O comandante da PM, em-

bora indicado e pago-pelo_govemô

do Estado, só assume se aceito pelo

Ministério do Exército. Quer dizer,

e pago por um, mas está sob co-

mando e orientação de outro. Foi

essa PM que não tolerou o co-

mando policial montado por Mon-

toro e I9Í essa PM que abandonou

o policiamento ostensivo, sua obri-

garão e, por decreto iederal, sua

prerrogativa.

A Polícia Civil tentou suprir essa

ausência. A PM mantinha seus 60

mil homens no quartel e a polú i.i

guardava São Paulo com pomo

mais de 1.000 homens e alguma»

(enienas de carros. Além desse boi-

cote, a PM, nos últimos anos. desdr

que seus cursos são montados pelo

Ministério do Exérciio, tem sido

adestrada mais nas questões de se-

gurança interna e guarda territorial

que para as tareias de policiamento.

Em saques e quebra-quebras ela

age com torça porque são crimes de

segurança nacional. A mistura do

boicote com ineficiência, por dou-

trina ou má vontade, deixou São

Paulo sem policia. Ao mesmo

tempo, as pressões sobre as lormas

tradicionais de ação policial, como

tortura, prisão ilegal ou a obtenção

de iniormaçào através de uma cor-

rente de corrupção que mistura la-

drão, receptador e policial, ocasio-

naram a greve branca.

A conseqüência disto é que,

olhando a estatística sobre boletins

de ocorrência da policia, entre ja-

neiro e setembro de 83, a criminali-

dade aumentou em mais de 5096. O

lurto simples pulou de 5.090 em ja-

neiro para 7,281 em setembro, e os

crimes contra o patrimônio salta-

ram de 14 mil para 20 mil. Mesmo

assim houve aumento dos inquéri-

tos remetidos; de 4.900 para 7.600,

com greve branca e tudo.

Foi nessa circunstância que os

jornais começaram a atacar a nova

polícia e sua ineficiência Não eiam

«penas os comerciantes ou vitimas

individuais que procuravam o go-

verno para se queixar. Em ocasiões

privilegiadas, empresários procura-

vam mostrar a Montoro que ele

precisava fazer a policia agir. Mas

como.'

Imo momento em que, cedendo a

pressões e olertas do governo íéde-

rali Mnninin mudou n comando

da |ioliua, ele entregou as lorças de

segurança de Sâo Paulo nas mãos

do ex-delegado do Dops e atual de-

legado lederai, Romai Tutna.

thmi.i iijuiaijln «íUl|iiinuli'iili.

para quem faz parte de um governo

oposicionista e se deleita em discur-

sos do mais velho liberalismo, Mi-

guel Reale Júnior indicou para de-

legado geral o substituto de Fleury,

José Vidal Pilar Fernandes, o qual

já assumiu, segundo registro da

Veja, "despreocupado com a cor-

rupção policial".

Na mesma ocasião. Vídal no- 1

meou para o Departamento de Co-

nuinicação Social - encarregado da

área de informação da Polícia Civil,

substituindo o antigo Dops - exata-

mente o delegado Sílvio Machado,

segundo homem de Romeu Tuma,

quando esse dirigia o Dops de Sâo

Paulo. Reale Júnior remontou toda

a velha direção da policia que serviu

a Maluf e ao governo federal. Mas

deixou seu governador sem policia.

Se foi uma conspiração ou não, já

não importa. O fato é que o go-

verno oposicionista do principal Es-

tado do Pais, onde a incidência cri-

minal e a ocorrência de saques e

quebra-quebras vem crescendo,

tem no comando de seu esquema

de segurança homens ligados ao

governo federal. A pergunta mais

paranóica que ocorre é: eles vão

agir ou deixar o governo Montoro

se esvair pela comprovação de sua

indecisão:'

A nova polícia tem como certo

que a velha polida, se conseguir co-

locar a PM na rua, reduzirá o pro-

blema. Mas está convicta que o agu-

çamento da recessão vai incremen-

tar a crise na área em que Polícia

Militar e Polícia Civil devem agir.

"A situação já está pior do que a

população é informada", diz um

dos delegados. "E vai piorar mais."

Embora acredite que o policia-

mento ostensivo funciona, lembra

que o aumento da violência poli-

cial, atual opção do governo esta-

dual, nunca resolveu ou reduziu o

problema da violência criminosa.

'Ao contrário, olhem as estatísticas

do tempo em que Fleury e alguns

mais dirigiam três ou quatro esqua-

drões da morte por São Paulo. É

tolice imaginar que isto resolve."

Ele não deixa de estender suas críti-

cas a uma política equivocada do

Judiciário ao enfrentar o problema

das prisões. 'Temos 25 mil prisio-

neiros; 2096 acima da capacidade

das prisões. E temos 60 mil manda-

dos de prisão. Como alguns crimi-

nosos têm três ou quatro manda-'

dos, podemos calcular que haja 30

mil criminosos a serem presos. È o

tlobio iktuutk) qur ü sistema pnii-

lendário já agüenta com muita difi-

«oildade.Como se faz? Se constróem

mais cadeias? Não. Se facilita a li-

Unwção. É o que a gente chama de

rodízio de presos. Se resolve o pro-

blema de superpopulação carce-

rária mudando a lei para se soltar

presos. Cada cadeia, se a polida re-

tirar das mas alguns desses milhares

de criminosos, vai virar um ponto

de explosão."

A mudança na polícia (tolerada

pela imprensa, na sua quase maio-

ria) entregando a segurança de volta

ao governo Iederal, é um recuo -

ou pior, uma tolice - do governo

em não assegurar à população a

tranqüilidade da segurança. E a im-

prensa, que, em geral, igualmente

combateu a arbitrariedade e até a

conduta criminosa desses policiais,

engole a troca de comando como

se, desta vez, os porões estivessem

apenas reservados aos matadores de

mulheres e crianças. Como se um

esquema repressivo fosse contro-

lado por editoriais bem escritos ou

pelo possível saber jurídico de upn

secretário de Segurança que, na de-

finição de um delegado irônico,

"iála como D. Evaristo e age como

o Erasmo Dias".

Conspiração, coincidência ou a

simples fraqueza do governo esta-

dual? São Paulo só ficará tranqüila

até a primeira morte num xadrez. E

a imprensa, que se deixou envolvei

pelo clima histérico sem dar o me-

recido destaque á resistência, greve

ou boicote organizado pela própria

policia, mesmo sabendo do que es-

tava acontecendo, passou o recibo

do pragmatismo.

Naturalmente os repetidos gemi-

dos de que todo o crime é causado

pela crise social se tomam motivos

de riso. Mas há uma crise social

aguçando, que terá apenas um tra-

tamento policial. A imprensa, prin-

cipalmente quando é poderosa,

pode e deve ir além do senso co-

mum. Há formas de se levantar os

fatos mais corretas que as outras,

como há formas de se policiar as

ruas melhores que outras. Mas a

pior polícia é a que não aceita se li-

mitar á lei. E o pior que pode acon-

tecer a uma imprensa é não perce-

ber os riscos que ela está criando

para si mesma.

Quanto ao govemo Montoro, ele

agora é prisioneiro de seu esquema

de segurança. Quando recomeça-

rem os saques e os quebra-quebras,

(porque eles recomeçarão e mais

fortes), que clima se criará no Es-

tado e no País? O governo Mon

toro trocou uma imagem de hesita-

ção por uma de recuo. E quem jx"-

tua uma vez, pode recuar sempre.

í O


CAMPO

Igreja prevê morte de 3 milhões

de flagelados até o final de 84

FOUlAiDES.PAULO .54 Me 3

Da Sucursal d* Bratflla

Até o final de 84, caso permaneça a

atual situação de seca, o Nordeste

apresentará mais uma estatística

dramática: três milhOes de mortos de

fome, causada pela estiagem que se

prolonga há cinco anos. A denúncia foi

feita ontem pelo cardeal-arcebispo de

Fortaleza, dom Aloísio Lorscheider,

com base em levantamentos e proje-

ções feitos pela Igreja da região.

Essa estatística, lembrou o cardeal,

"dá a noção exata do estado de guerra

do Nordeste, pois nem a guerra do

Irã-Iraque, considerada uma das

mais sangrentas do momento, apre-

senta esse quadro dramático".

Diante da situação, os bispos que in-

tegram o Conselho Permanente da

CNBB, reunidos em Brasília, decidi-

ram colocar o problema do Nordeste

como tema prioritário da próxima

assembléia-geral de Itaici. Paralela-

mente, a CNBB desenvolverá um

"projeto de emergência" para o Nor-

deste, envolvendo as dioceses do Sul.

"Esse projeto — explicou dom Aloísio

— é paliativo, só para impedir que os

nordestinos morram de fome, pois o

grande projeto é o de educação políti-

ca do povo, de organização ao povo".

Acredita dom Aloísio que "o traba-

lho de organização do povo interessa a

toda a Nação, porque povo organizado

não se submete a manipulações de

grupos". Lembrou o cardeal que "nas

comunidades onde já existe um míni-

mo de organização, não há saques.

ilem violências, porque aí o povo se

defende e passa a reivindicar seus

direitos".

SoluçOes

Disse ainda dom Aloísio que a solu-

f o para o problema do Nordeste não

distribuir dinheiro pafa minorar a

seca, "pois passada a seca, a região

volta novamente ao seu abandono. A

solução está na organização do povo e

RL3EKÜA - 12

na criação de empregos. Para a cria-

ção de empregos, é necessário promo-

ver uma real reforma agrária .

"O mal maior da seca — completou

— é o latifúndio. È nessa época de se^

ca, quando há um verdadeiro êxodo

para às grandes cidades, que os lati-

fundiários expandem suas cercas, to-

mando terra dos pequenos agriculto-

res que foram obrigados a fugir".

Franceses fazem doação ao NE

PARIS — Do correspondente

Cláudio Abramo — A importância de

150 mil francos foi enviada ontem, por

telex, do banco francês CIC ao Banco

do Nordeste do Brasil, em Fortaleza,

pela Fundação Rocinante, animada

pelo psicanalista Heitor de Macedo,

endereçada a uma comissão mista

encabeçada por dom Aloísio Lorchei-

der, e destinada a socorrer os flagela-

dos pela seca que se encontram na ca-

pital do Ceará.

Essa importância, 150 mil francos,

foi recebida pela Fundação Rocinante

tem sua conta no CIC, depois que ini-

ciou uma campanha em prol do

auxílio aos flagelados da seca em For-

taleza. Heitor de Macedo fez um filme

que foi exibido na TV francesa, há

mais de um mês e causou fortíssimo,

impacto na opiniãoSpública aqui. Foi

iniciada então uma grande campanha

destinada a angariar doações

públicas.

O telex expedido ontem pelo CIC ao

Banco do Nordeste do Brasil tem o

número 851231 BNBR. A comissão em

Fortaleza que vai receber esses 150

mil francos e destiná-los a atividades

de auxílio aos flagelados é consti-

tuída, além de dom Aloísio, por Paulo

Guerra, diretor, durante 30 ahos, do

Dnocs de Fortaleza, e de Edmundo

Maia, correspondente da "Folha" no

Ceará.

Esse dinheiro tem como objetivo o

financiamento de projetos alternati-

vos de auxílio aos flagelados, segundo

projetos apresentados, a pedido, em

Fortaleza, a dom Aloísio. Dentro de

três semanas será feito um novo le-

vantamento dos fundos existentes na

conta da Fundação Rocinante aqui e

novamente enviados a Fortaleza.

Estudo apura as causas

dos conflitos de terras

ELIANA LUCENA "

' Da «ucur»«l de Brasília

O Ministério Extraordinário pa-

ra Assuntos Fundiários, üigado ao

Conselho de Segurança Nacional, ]á

detectou as sete principais causas de

conflitos pela posse da terra que

ocorrem no País: dúvidas quanto à

legitimidade do título; litígios entre

posseiros em terras devolutas quan-

to a suas áreas de pretensão; proprie-

dades rurais que níio têm cumprido

sua função social; ausência de de-

marcação; desrespeito aos direitos

de posses anteriores às privatiza-

ções; reassentamentos de famílias

para a implantação de obras públi-

cas e exigência, por parte dos possei-

ros, de área superior ao módulo rural.

O documento do Ministério

acentua que todas essas questões

têm sido objeto de programas e mul-

tas já foram solucionadas, pois o

órgão está resolven.doj'os conflitos

em número proporcionalmente bem

superior ao surgimento de novos

conflitos — assinala o document-

FOLHA DE S.PAULO

emnora algumas instituições, com o

intuito de mostrar o aumento do

número de conflitos, procurem con-

fundir os problemas de âmbito ex-

clusivamente policial — Inclusive o

índice dê criminalidade no melo ru-

ral — com conflito fundiário".

Assessores do ministro Danilo

Venturinl afirmam, também, que

não procedem as acusações de que o

Incra e o Getat estariam distribuin-

do títulos para grandes fazendeiros,

em detrimento de pequenos possei-

ros, aumentando com isso a violên-

cia em suas áreas de atuação. Dados

relativos à dimensão das áreas titu-

ladas, desde a criação do Getat até

setembro de 1983, indicam que do

total de 31.367 títulos distribuídos na

região do Araguaia-Tocantds, 72,4%

beneficiaram posseiros com lotes de

um a 100 hectares; 15,2% foram da-

dos a 4.789 agricultores que recebe-

ram lotes entre 101 a 200 hectares:

JH JA4 I 03

10% correspondem a lotes entre 201 a

500 hectares: 1,2% a lotes entre 501 a

mil hectares; 1% entre 1001 a 3 mil

hectares e apenas uma empresa, a

Andrade Outierrez, que ocupa uma

área de 400 mil hectares no Sul do

Pará, recebeu uma área acima de 3

mil hectares, cuja licitação exigiu a

aprovação do Senado.

AS ALTERNATIVAS .

O documento "Conflito de Ter-

ras", illvulgado pelo ministério, le-

vanta as causas dos conflitos e as

soluções indicadas. Para a questão-

da legitimidade do título, que propi-

cia a atjâo de grileiro de terra e envol-

ve tambéiji compradores de boa fé, é

apontada a necessidade de ação dls-

criminatória que permite o levanta-

)

A_

=0


CAMPO

mento da cadeia domlnial.

AB disputas entre posseiros em

terras devolutas — estaduais ou fe-

derais — sfio encaradas, por sua vez,

como uma tendência que vai existir

enquanto a fronteira agrícola conti-

nuar ampliando-se. Para diminuir o

problema é encomendado maior in-

cremento ao programa de regulariza- 1

cão fundiária. A existência de gran-

des latifúndios improdutivos funcio-

na como foco de tensão e o ministé-

rio aponta como alternativa a desa-

propriação por interesse social. Esta,

no entanto, é feita sempre como últi-

mo recurso, segundo ressaltam os

assessores de Venturini. Antes, ten-

ta-se um acordo com os proprietários

que atenda os interesses dos pos-

seiros.

A inexistência de demarcação de

terras gera conflitos especialmente

nas áreas indígenas e a solução para

esses casos, segundo o ministério, é a

aplicação do decreto 88.118/83, que

estabeleceu a criação de uma comis-

são interministerial para cuidar da

demarcação das áreas indígenas. An-

MOVIMENTOS POPULARES

Zumbi vivo

ABDIAS DO NASCIMENTO

Apesar dos protestos da comuni-

dade negra, a sociedade brasi-

leira insiste, ainda, em alimentar

a ilusão da "democracia racial 1 '. £ o

culto à mentira cívica mais insidiosa

da nossa história. Para sustentar essa

miragem, nossas figuras públicas

caem na defesa de engodos os mais

transparentes possíveis. Há pouco, por

exemplo, fiz uma observação (aliás

pouco original, pois vem sendo sus-

tentada há anos por. estudiosos e

críticos de todos os cantos do mundo)

sobre o racismo evidente na literatura

brasileira. Referi-me ao notório

exemplo dos romances afro-exóticos

de um aclamado escritor bahiano que,

muito brasileiramente, apresenta-se

como anti-racista, mas cuja obra é

saturada: pelo mais óbvio euroçen-

trismo paternalista luso-tropical..-.

— Infâmia I, gritaram os brancos da

Bahia: aqueles que nunca foram

racistas, embora tenham erigido um.

instituto de genealogia afim de com?

provar , cientificamente a. pureza do

sangue europeu que, lhes corre nas

veias; aqueles mesmos criadores de

um museu etnológico onde colocam

obras de arte kl objetos sagrados da

religião afro-brasileira ao lado de fetos

defeituosos, no contexto de exposições

sobre patologia mental; aqueles que

há quatro séculos são òs, donos "da

política bahiana, onde "representam"

o negro,, por esta razão totalmente

alijado do poder. Deputados estaduais

.e federais repudiaram minha acusação

"grosseira e injusta" ao veperável

escritor.

í Entretanto, sua obra literária fala por

si • mesma. Será preciso citar os

trechos dos seus livros? Todos conhe-

cemos, oerfestereótipos racistas' culti-

tes, a Punai demarcava adminl tr^ti

vãmente as reservas, mas agora o

projeto é Inicialmente submetido a

uma comissão integrada por repre-

sentantes dos órgãos ligados ao Mi-

nistério do Interior e Ministério Ex-

traordinário para Assuntos Fundiá-

rios. Mas este reconhece que faltam

recursos para a demarcação, a curto

prazo, de todas as áreas Indígenas,

grande parte delas ainda não defi-

nidas.

Quanto à situação de desrespei-

to aos direitos de posses anteriores

ãs privatizações, resultado de titula-

ção do Estado ou da União sem a

conveniente vistoria, o ministério

aponta dois caminhos: o acordo en-

tre proprietários e posseiros e como

altemaliva extrema a desapropria-

ção, e recomenda maior rigor nos

procedimentos discriminatoriot.

A questão dos milhares de famí-

lias que estão sendo ou foram desalo-

jadas de suas terras para a implanta-

ção de obras públicas — como em

Passo Real do Colégio, no Rio Gran-

de do Sul; Tucuruí, no Pará; Italpu,

FOLIIA DtS.PAULO A&ji* jü^

vados pelo romancista e pela socie-

dade dominante brancoíde que ele

representa: a mulata lasciva, nunca

mae de família, sempre prostituta ou

semi-prostituta, objeto exótico do de^

sejo sexual dos brancos; o herói negro

proletário "puro e livre como um

animal", que "tem por única lei os

instintos" (Antônio Balduino, protí

gonistade Jubíabá).

Ostensivo na obra citada é o fato ie

que a religião do Candomblé figura

como uma espécie de orgia ritualiza-

da: "Oxalufá (...) dançou entre as

feitas atè que Maria dos Reis caiu

eslremunnando no chão, (...)

espumando pela boca e pelo sexo", na

"dança mística de macumba, sensual

como dança da floresta virgem (...)

dança religiosa dos negros, macupba,

deuses, da caça e da bexiga, a saia

voando, os seios saltando..."

O racismo brasileiro, campeão mun-

dial'.da: hipocrisia, não enxerga suas

próprias contradições ,niais gritantes;

Toaoo mundo se diz contra o racismo.

Pois "bem; quando advogamos o rom-

pimento ide' relações com o bastião

mundial do racismo, a África do Sul ~

posição' apenas coerente com a retó-

rica diplomática/brasileira nó çontextp

das reiteradas resoluções da ONU a

favor de um boicote total ao regime do

Apartbeid — falamos no vazio. Onde se

oculta, conivente, a "democracia ra-

cial" brasileira, face aò ássassinio em

massa' das populações africanas

constantemente massacradas pela

África do Sul?.

Embora o Apartbeid constitua um

crime contra a humanidade (a defi-

nição é da ONU), a defesa da cumpli-

cidade brasileira com aquele regime

genocida não provoca escândalos e

nem' é considerada infâmia entre

RESENHA - 13

no Paraná — é outro ponto destaca-

do. Essas famílias alimentam confli-

tos porque insistem em permanecer

no seu Estado de origem, onde nem

sempre o Incra consegue reassentá-

las nas áreas que reivindicam. O mi-

nistério aponta como solução "maior

antecedência no planejamento das

obras públicas e esforço em busca de

melhores alternativas que atendam

aos anseios da comunidade relocada.

Outro ponto abordado, a exigên-

cia dos posseiros de conseguirem lo-

tes de área superior ao módulo rural,

é visto como "a lenda dos cem hecta-

res". O Ministério acha que os possei-

ros precisam ser esclarecidos a res-

peito da legislação vigente. Esta es-

tabelece a desttnação de lotes até

cem hectares para os posseiros, mas

não necessariamente com essa di-

mensão.

nossos "anti-racistas". Entretanto,

qualquer critica feita àqyeles que

apoiam o Apartbeid inspira acusações

indignadas: "Injusta agressão, neu-

rose, complexos, síndromes, índios-

sincrasias." (Frases lançadas contra

mim, na Câmara dos Deputados.) São

intocáveis os responsáveis dos órgãos

da imprensa brasileira que defendem

a manutenção e ampliação das nossas

relações com o estado facista da

África do Sul, apesar das decisões

coletivas da comunidade internaci-

onal. Da mesma forma, são intocáveis

os industriais da negntude que utili-

zam como matéria-prima anisties a

cultura de origem africana; fato

agravado quando se auto-denominam

defensores daqueles a quem a todo

instante insultam e degradam. Por

outro lado, o afro-brasileiro que

denuncia; a África do Sul e seus

defensoi-es, e tenta promover uma

tomada de consciência do povo brasi-

leiro quanto á discriminação diari-

amente sofrida pelo negro em nossa

sociedade — este é definido como

racista;.um elemento perigoso à so-

ciedade: '

O povo negro náo tem mais paciência

com tais .chantagens dai morenidade

tropical. A coisa agora esquentou.

.Hoje, no I£íQ, comemorando o aniver-

sário da morte em batalha do herói

negro Zumbi. — corajoso como um

homem — os afro-brasileíros desfila-

rão da Candelária até 4 CihelAndia,

onde dirão' um basta,' a todo esse

paternalismo meloso da sociedade

brancoíde dos "anti-racistas". É a

marcha contra o racismo e o

Apartheid; Zumbi está vivo.

ASMAt PO NAMMMTO é étputai» («ferol (PU),

vk» p


MOl/IMEWTOS POPULARES

Feministas criticam proposta

para remunerar dona de casa

Se depender da maioria das feministas

ouvidas ontem pela "Folha" , a

recomendação da Igreja Católica, con-

tida na Carta dos Direitos da Família,

para que se remunere o trabalho da

dona de casa, nunca será implantada.

Para a maioria dos homens entrevis-

tados trata-se de uma medida justa, que

deve ser adotada o mais rápido possí-

vel.

Numa reunião no gabinete da verea-

dora Irede Cardoso, ontem à tarde, um

grupo de feministas atuantes em di-

versos movimentos não conseguiu

chegar a um consenso sobre a questão

Muitas delas, além de críticas à re-

comendação do Vaticano, questiona

ram, por exemplo, se, no caso dela ser

adotada, haveriam contratos têmpora

rios ou permanentes entre as partes,

desconto para a Previdência, recolhi-

mento do fundo de garantia e de-

missões.

Participaram da reunião Cida Kopcak

e Josefa Ferreira, da Associação das

Donas de Casa; Lourdes Cardoso An-

drade, da Associação Feminista da

Zona Norte; Jucinete Souza Machado,

da Casa da Mulher do Gtraiaú; Diva

Alves, da Associação das Donas-de-

Casa de Mauá; Vicentina Saraiva Pes-

soa, do Movimento por Creches de São

Mateus; Eneida Selíer; Cecília Sapucal

ECONOMIA

Cavalcanti, do Grupo Mulher de

Caçapava. e Irede Cardoso.

Para Cida Kopcak, "a medida resta

belece a autoridade do homem sobre a

mulher". Enquanto Lourdes Cardoso

afirmava que o salário tem aue ser o

equivalente a cinco mínimos , Josefa

Ferreira retrucava que "não será uni

salário que irá libertar a mulher, mas

sua consciência", com apoio de Jucinete

Souza Machado.

Diva Alves acredita que a adoção da

medida seria "humilhante". As críticas

aumentaram quando Vicentina Saraiva

Pessoa disse que a proposta do Vaticano

"transformará a mulher na empregada

oficial da família". Por isso, Eneida

Seller manifestou-se "contra tudo que

obrigue a mulher a ficar presa dentro

de casa". Cecília Sapucai Cavalcante

completou dizendo que "o trabalho de

casa tem que ser dividido entre todos os

membros da família". Irede Cardoso,

vereadora pelo PT, ressaltou ter o

"Papa p«la primeira vez reconhecido a

existência desse trabalho da mulher,

invisível para a sociedade".

Todas fizeram questão de ressalvar

que expressavam pontos de vista pes-

soais.

Moratória da América Latina arruinaria EUA

Caso o Brasil decida, unilateralmente,

suspender o pagamento de sua dívida aos

bancos privados norte-americanos, os Es-

tados Unidos sofrerão, em 1984, uma

queda de USS 24,7 bilhões em seu Produ-

to Nacional Bruto (PNB), declínio de

USS 14,2 bilhões nas exportações e au-

mento do desemprego, déficit público e

taxas de juros dos fundos federais. Se, po-

rém, todos os países devedores da Améri-

ca Latina seguissem o exemplo do Brasil,

partindo para uma moratória unilateral,

a economia dos EUA ficaria praticamente

em ruínas: o PNB cairia USS 69,7 bilhões

e as exportações USS 38,3 bilhões, com

um aumento de USS 26.4 bilhões no dé-

ficit público, enquanto as taxas de ju-

ros dos fundos federais se elevariam em

2,26%.

As estimativas estão em um documen-

to reservado do Núcleo de Estudos Eco-

nôinicos da Confederação Nacional do

Comércio (CNC). com base em estudos

realizados por um grupo de bancos pri-

vados norte-americanos, "preocupados

cm avaliar a influencia de um eventual

iUfmU dos devedores da América Latina

Milm' n eciHUMllll d*»» lísliulnn Unidos'.

letim interno da CNC. que começou a cir-

cular, ainda reservadamente. na área da

entidade, logo depois que as autoridades

econômicas do governo brasileiro deram,

início à terceira fase de renegociação da

dívida externa.

A CNC calculou que o peso do Brasil

no perfil da dívida latino-americana che-

ga, em média, a um terço do total. Evi-

dentemente, uma moratória unilateral da

América Latina colocaria em xeque o pró-

prio sistema monetário internacional, pois

estão na região os dois maiores devedores

do mundo: Brasil e México. Na realidade,

Produto Nacional Bruto (US$ bilhões)

Exportações (USS bilhões)

Empregos (mil)

Déficit público (USS bilhões)

Taxa de juros dos fundos federais (%)

(no 19 quudilmunro)

RESENHA - V\

FOLHA DES.R\ULO cJoM/83

Prejuízo dos bancos dos EUA

"Acho muito bom que a Igreja tenha

feito essa recomendação", disse a atriz

Regina Duarte, favorável à adoção da

medida. Lamentou porém que o Papa

ainda mantenha sua posição contrária

ao controle da natalidade. "A Igreja

tem que encarar esse problema com

mais modernidade", completou.

Óbvio

Entre ps homens entrevistados a re-

comendação agradou. Segundo o radia-

lista Antônio Jülio Baltazar, "o Papa

disse o óbvio. A mulher deve receber

pelo trabalho digno e estafante". O

funcionário público Francisco de Al-

meida, após classificar a proposta como

"justíssima", araumentou que " o

homem tem ate dia de descanso

remunerado, enquanto a mulher traba-

lha todos os dias em casa, sem

remuneração". Já o vendedor de flores

Valdemar Codima Sorroche acha "ló-

gico ter de pagar". Mas acrescenta que

se for o marido a pagar, ele vai se

enforcar".

Apenas o motorista de táxi Ezequiel

Luís de Brito posicionou-se contrario.

Explicou que a mulher quando casa

sabe que vai assumir a responsabili-

dade de cuidar da casa e dos filhos". Q

funcionário do Deic, João Batista da

Costa, disse não ter "opinião alguma!

Não posso dizer nada. acabou"V

RELATÓRIO RESERVADO

21 a 27/11/83

pelo efeito ricochete, seus efeitos teriam

impacto em outros mercados financeiros,

além do norte-americano, com prejuízos

para todo o mercado interbancário oci-

dental.

O documento da CNC observa que,

embora poucos especialistas norte-ameri-

canos e europeus acreditem que os países

latino-americanos deixem, em conjunto,

de honrar seus compromissos, represen-

tantes dos bancos privados dos Estados

Unidos recomendaram à Reserva Federal

que não descarte totalmente essa possibi-

lidade.

Brasil

-24,7

-14,2

-39

+ 8,4

+ 0,60

América

Latina

- 69,7

- 38,3

-1.100

+ 26,4

+ 2,26

Participação

do Brasil

35%

37%

36%

32%

26%


iCOWOWIA

Os gigantescos lucros com a especulação

Aloysio Biondí

A Andenon Clayton divulgou seu

balanço. Resultado: aumento de

1. 7007o em seus lucros, que passaram

de CrS I para Cr$ 18 bilhões. Além

' disso, suas ações - antes mesmo da

divulgação do balanço - haviam

subido mais de 1.000% nas Bolsas de

Valores de São Paulo, o que significa

que cada CrS 100 milhões que alguém

possuísse em ações se transformou em

Cr$ 1 bilhão, em poucas semanas.

O caso da Anderson Clayton não é

isolado. Outras empresas do setor

alimentício estão acusando e vão

acusar resultados semelhantes, em seuS

balanços: indústrias de óleo, de rações,

de embutidos de carne (salsichas,

salame etc), exportadoras de frangos,

frigoríficos etc.

Como explicar tais resultados? Eles

são o fruto das imensas manobras

especulativas realizadas com alimentos,

a partir de junho/Julho último,

denunciadas repetidas vezes aqui nesta

- coluna, no Relatório Reservado, e sem

que a chamada grande imprensa e a

oposição despertassem para ela. Raras

vezes o Brasil foi palco de uma jogada

tão violenta, que envolveu centenas de

bilhões de cruzeiros, ou mesmo

trilhões de cruzeiros, com a

complacência e a conivência da Seplan,

Ministério da Agricultura, Comissão de

Financiamento da Produção, Cacex,

i/ma jogada que, pelas proporções.

no chamado mercado a futuro, a bolsa

de commodities de São Paulo, onde

puxaram os preços futuros da soja e do

boi em pé. Na segunda etapa,

começaram a puxar os preços também

no mercado físico, nas bolsas de

cereais, no atacado. Como? Por

exemplo: em setembro, a puxada levou

o preço da saca de soja para até

CrS 20 mil, para vendas em novembro,

contra o preço de CrS 6/8 mil então

vigente no mercado real, físico. A

partir do momento - em setembro -

em que as cotações de novembro, no

mercado a termo, chegaram aos CrS

20 mil a saca, logicamente estava

preparada a manobra para puxar os

preços também no mercado físico:

se as cotações futuras indicavam que

transforma a ciranda financeira ou os

casos Delfins em uma brincadeira de

criança. E que tem um agravante: o

outro lado dessa manobra foi a

carestia, a alucinante alta do custo da

alimentação, com a conseqüente

inquietação social, a fome, os saques

(cm cinco reportagens de página

inteira, o Diário da Manhí, em

outubro último, descreveu todas as

etapas dessas manobras com a soja, o

óleo de soja, o milho, a carne e o

feijão).

Gigantesca especulação. Grandes

grupos empresariais, grandes grupos

financeiros se locupletam com essas

manobras, em três frentes e três

etapas: na primeira etapa, os

participantes das manobras atuaram

Acordo com o Brasil livrou o FMI de aperto

0 acordo feito pelo governo brEsileiro

com o Fundo Monetário Internacional ge-

rou mais alívio ao diretor-gerente cio FMI

Jacques de Larosicre, do que propriamen-

te ao ministro Delfim Netto, já cansado

de dar explicações sobre o movimento*

quase à deriva da economia brasileira. Se-

gundo informações de fontes corn acesso

ao próprio de Larosiere, o FMI vinha so-

frendo todo o tipo de pressões por parte

dos bancos credores do Brasil, do Federal

Reserve dos Estados Unidos e até do Ban-

co de Compensações Internacionais (BIS).

0 presidente do BIS, Fritz Leufwiller,

havia deixado claro que os bancos cen-

trais europeus apenas aportariam USS 8

bilhões, como previsto no Acordo Geral

de Empréstimos (General Arrangernent

for Borrow) negociado no inicie do ano,

para aumentar as condições de liquidez

do FMI se o Brasil pagasse o qu.: deve ao

BIS, ou seja, cerca-de US$ 1,05 bilhffo.'

Larosiere, temendo', certamente-, que o

Congresso norte-americano acabf; não vo-

tando o aumento,de cotas do FMI — a

participação dos demais desenvolvidos

está condicionada a essa aprovação —, de-

i 4 cidiu aceitar os termos propostos por Del-

fim Netto, pondo, logo, um fim nesse in-

trincado problema brasileiro.

Assume, contudo, o risco de outros

países virem, também, a pleitear as facili-

dades oferecidas ao Brasil, mediante

maior flexibilidade do Fundo na apura-

ção das metas negociadas. A opinião dos

banqueiros internacionais é de que a ten-

dência futura será de menor ajuda do FMI

ESCÂNDALO MOGI

RESENHA - 15

K£LAT(5RI0 RESERVADO

21 a 27/11/83

os preços iam chegar a CrS 20 mil, em

novembro, é lógico que, em setembro,

ninguém venderia a CrS 6 S mil,

preferindo esperar novembro para

vender por um preço três vezes maior.

Logicamente, as vendas no mercado

■físico foram suspensas, e, por falta de

ofertas, as cotações começaram a

subir, chegaudo-se finalmente a mais

de CrS 17 mil a saca.

Sc a Seplan deixar. Com variações,

idênticas manobras foram feitas com

o boi em pé, isto é, com a carne - e

com o milho e o feijão (não cotados

no mercado a futuro). Os felizes

participantes dessa gigantesca

especulação lucraram assim em três

frentes: com a manipulação do

mercado a termo, com a manipulação

do mercado físico, que valorizou seus

estoques, de soja, milho, feijão, carne,

em 300, 400, 500% em poucos

meses (as indústrias compraram a soja

a CrS 4 mil a saca, no começo do

ano), e, finalmente, também com

operações na bolsas de valores: como

já sabiam que seus lucros em balanço

seriam fabulosos, as próprias empresas

e pessoas a elas ligadas começaram a

comprar suas próprias ações - antes

que surgissem os balanços e elas

disparasíem 500, 600, 1.0007o.

0 que interessa agora: esses lucros

mostram que o governo pode reduzir

os preços do óleo de soja (em alta), •

da carne (em alta), do feijão, do milho

e derivados. Se a Seplan deixar.

RELATÓRIO RECERVADO

21 a 27/11/83

aos países endividados, mas, ao mesmo

tempo, maior condescendência em rela-

ção aos que tiveram o privilégio da assis-

tência financeira. Essa tolerância deverá

se refletir na preocupação exclusiva dos

países em liquidar seus pagamentos ex-

ternos, deixando de lado a eterna preocu-

pação com as condições internas de suas

economias, especialmente os problema»

relacionados com a inflação.

RELATÓRIO RESERVADO

21 a 27/11/83

Maluf teria montado esquema contra Àlmino

O escândalo de Mogi das Cruzes, que

envolveria o secretário dos Negócios Me-

tropolitanos de São Paulo, Almino Afon-

so, teria sido montado, em Brasília, pelo

esquema de Maluf, com o fim de evitar a

divulgação da sindicância instaurada na

Companhia do Metrô para apurar irregu-

laridades administrativas durante os go-

vernos Paulo Maluf e José Maria Marins.

Quando Almino Afonso fosse divulgar as

irregularidades, fatalmente cairia em des-

crédito perante a opinião pública.

A informação foi fornecida pelo depu-

tado federal Airton Soares, líder do PT na

Câmara. Segundo Airton Soares, Almino

Afonso iria anular todas as concorrências

irregulares feitas pela Companhia do Me-

l O


ECONOMIA

trô durante o governo Maluf.

Na semana passada, o escândalo Mogi

voltou a ter destaque, com o depoimmto

do advogado e empresdrio Clóvis Beznos

à Comissão Especial de Inquérito da As-

sembléia Legislativa de SSo Paulo, reafir-

mando que foi vítima de um plano de ex-

torsão de Cr$ 200 milhões. Em troca,

Beznos não veria cassadas as oito linhas

intermunicipais exploradas pela Empresa

Auto-ònibus Mogi das Cruzes, da qual é

sócio e diretor. O depoimento de Beznos

levantou dúvidas sobre a participação ou

não do secretário Almino Afonso no caso.

Construtoras. Fontes ligadas à Compa-

nhia do Metrô asseguraram que estão en-

volvidas no episódio duas grandes cons-

trutoras: Andrade Gutierrez e Camargo

Correia. E assessores da Companhia do

Metrô esclareceram que, realmente, é pos-

sível que sejam anuladas todas as concor-

rências irregulares. Tanto que recente-

mente a empresa convocou todas as em-

preiteiras e mostrou-lhes as irregularida-

des, obrigando-as a refazerem os contra-

tos. Os custos dos projetos foram todos

revistos. Mas o que mais dificulta a Com-

panhia do Metrô, segundo as fontes, são

os reajustes periódicos dos custos das

obras iniciadas em governos anteriores.

As fontes da Companhia do Metrô

disseram que a maioria das informações

sobre a anulação das concorrências públi-

cas partiu da Secretaria de Negócios Me-

tropolitanos. A sindicância para apurar as

irregularidades foi aberta no dia 5 de se-

tembro, com prazo de dois meses. Essa

comissão tinha chegado a uma conclusão

cinco dias antes de Almino Afonso ter si-

do acusado de estar envolvido no escânda-

lo de Mogi. Almino não divulgou esse re-

latório e insiste que oficialmente não o

tem em mãos.

SINDICALISMO

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ÍMTERUACJONAL

O Suriname não quer briga

Em entrevista exclusiva, o tenente-coronel Bouterse fala sobre a situação do Caribe,

a ajuda brasileira, a morte de oposicionistas, as relações com Cuba etc...

^1^ JQ-Ò

Não será pgr falta de pretexto

que o presidente Ronaid Reagan

deixará de exibir, outras vezes, se

quiser, o big stkk de sua cruzada rna-

carthista contra a América Latina -

como acaba de fazer em Granada.

Nicarágua, El Salvador. Honduras

- o quintal está cheio de "agitado-

res", ou "subversivos", de conspira-

tas castro-comunistas, de todos os

fantasmas que os governos norte-

americanos costumam reivindicar

para justificar a violência e a inter

vençáo em nome de seus "interes-

ses". O Suriname, então, é um

prato feito para a fome bélica de

Reagan: um regime inclinado para

a esquerda, comandado por milita-

res, guardado por milidas popula-

res. As analogias com Granada são

várias e inquietantes.

Esta entrevista exclusiva com o

tenente-coronel Dersi Bouterse, lí-

der do regime militar surinamês, foi

concedida antes da invasão de Gra-

nada pelos rruiriners. Mas, na pá-

gina 4, você ficará sabendo quais

são os humores do regime do Suri-

name depois de mais esta ameaça à

estabilidade do Caribe - e de sua

própria estabilidade, é claro.

Mesmo antes da invasão - notou o

repórter Emir Sader - o clima não é

completamente ameno. "Disparos

de fuzis e de canhões na madrugada

de Paramaribo rompendo o toque

de recolher", conta Sader. "Desta

vez, porém, a população não se so-

bressalta. O govemo unha anun-

ciado publicamente a realização da

primeira grande prática conjunta

do Exército surinamês com as

recém-formadas milidas populares,

mobilizando um total de quatro mil

ífetivos." Tem-se a impressão de

que é um país em permanente

ilerta. Realizadas poucos dias de-

DOíS da conferência preparatória de

rundaçáo do Movimento pela Uni-

dade - o partido que quer dar foro

político ao movimento dos sargen-

tos, que tomaram o poder em 1 980

-, as manobras e o partido vão c:on-

formando uma fisionomia mais de-

finida ao controvertido processo

político surinamês.

O Suriname é um mosaico d^e ra-

ças - hindus, negros, índios, chine-

ses, javaneses, portugueses, judeus,

libaneses, indonésios e uma ínfima

minoria (l,59í) de brancos - que

não se "tomou conheddo intema-

donalmente nem pela sua indep>en-

dênda da Holanda, em 1975, r«m

pelo movimento dos sargentos de

1980, súbito desdobramento de

uma greve reivíndicatória. A rigor,

foi a execução de 15 dirigentes opo-

sidonistas, em dezembro de 1982,

que fizeram o país ganhar as man-

chetes dos jornais - e passar a mere-

cer represálias econômicas por

parte da Holanda e dos Estados U*

nidos. •

O piano de estrangulamento

econômico fracassou justamente em

razão da inesperada intervenção de

um vizinho - o Brasil, preocupado,

ao que parece, em resguardar a

America do Sul e as suas fronteiras,

em espedal, das conseqüêndas do

conflito leste-oeste. Para a adminis-

tração Reagan, o Suriname tem um

regime pró-castrista - portanto, é

uma ameaça a se extirpar. Para o

general Danilo Venturíni, chefe da

missão brasileira á ex-Guiana Ho-

landesa, é necessário, ao contrário,

evitar que o país passe a depender

apenas de Cuba, daí a escalada da

cooperação brasileira com o Suri-

name.

O tenente-coronel Bouterse, ex-

{"ogador da seleção holandesa de

msquete c preparador fisico do

Exérdto surinamês, é hoje o enig-

mático líder de um processo

político n/i generis. Tímido c de

olhos infantis, contrastando com a

imagem pública conhedda, Bou-

terse concedeu a entrevista a Senhor

no Falado de Govemo de Parama-

ribo, antes de sair para dirigir ai

primeiras manobras conjuntas do

Exérdto surinamês com as novas

milidas populares:

? - A Anistia Internacional e outras orga-

rútaçôes de Direitos Humanos acusaram

o seu governo da execução de li lideres

da oposição mit dezembro do ano passado.

O que o ir. pode dizer sobre esses/atos?

R - Parece que o único aspecto di-

fundido nos meios internacionais

do processo político que se desen-

volve no Suriname, nos últimos três

anos e meio, lòi o que sucedeu no

dia 8 de dezembro do ano passado.

Tudo o que aconteceu antes não c

mencionado c, assim, o cenário dos

acontecimentos de dezembro pas-

sado iica muito confuso para a opi-

nião pública internacional. Talvez

nunca tenha sido publicado na.im-

prensa internacional relcrèncias às

cinco tentativas de golpes contra o

eovemo-atual, nos últimos três anos

RESENHA - 22

£m/r Sader

e meio. Em março de 1982. por

exemplo, os golpistas chegaram a

controlar boa parte do país por

quase dois dias. Várias tentativas de

assassinato contra mim lambem ti-

veram lugar, através de comandos

que tentai «un me matar num comido

na saída de uma missa, entre outras

ocasiões. Quando as tentativas de

golpe de março de 81 e de março de

82 fracassaram, eles perceberam

que nenhum poder poderia

manter-se sem o apoio do povo,

porque, quando tivemos que reagir

contra essas tentativas de golpe, re-

cebíamos todo o apoio do nosso,

povo. Por isso, os denoiamos. Eles, 1

então, começaram a trabalhar para

conseguir apoio popular para o

golpe ou para debilitar as simpatias

pela revolução. Passaram a traba-i

ihar setores sindicais, universitários,

do campo, para começar a criar

uma situação de tensão permanente

no pais. Era um plano para desesta-

bilizar o pais, que lícou absoluta-

mente claro quando a cadeia norte-

americana ABC revelou os planos

reais da CIA e do govemo Reagan

f>ara tentar derrubar o poder revo-

ucionário surinamês. Se eles tives-

sem triunládo, não seriam 15 pes-

soas mortas, mas como se deu em

outros países, como no Chile, se-

riam 1500 ou 15 mil mortos. As-

sim, querer caraeserizar que o Suri-

name é dirigido por Dráculas é ab-

solutamente falso

P - Qual i a situação dos Qireitos Hu-

manos, atualmente no Suriname?

R - Existe uma absoluta normali-

dade em relação aos Direitos Hu-

manos no Suriname, apesar das

condições especiais que ainda sub-

sistem. Por esses dias, por exemplo,

começa c» julgamento das pessoas

cnvülviclã»Tra~úItimíTentativa gol-

pista, conforme todos os preceitos

legais. Nós convidamos vánas orga-

nizações de Direitos Humanos para.

assistir e vamos contar com a pre-

sença de muitas delas. Nos últimos

meses, numerosas organizações dê

Direitos Humanos vi.siiaram o pais

e liveram iodas as iácilidades para

verificar a situação neal do Suri-

name hoje. Entre elas, está a Co-

missão dos Direitos H umanos da

OEA e a Cruz Vermelha Internacio-

nal, que puderam publicar anún-

cios na imprensa, recebi sr visitas e

conversar com as pessoa: t quequi-

seram. c^


IWTEmCIONAL

P - Como u Suriname poderá sobreviva

san os USS 100 milhões da ajuda holan-

desa, cortada em função dos últimos a-

conLecimetilos f

R - A suspensão do tratado de coo-

peração por parte do governo ho-

landês lòi uma tentativa do impe-

rialismo para destruir, a economia

surinamesa. Mas o bloqueio econô-

mico tem também aspectos positi-

vos. Em primeiro lugar, impõe a

necessidade de uma maior organi-

zação dos esforços nacionais, do

povo e do governo, e obriga a des-

envolver uma maior criatividade na

busca das soluções que, no passado,

resolveram-se com a ajuda holan-

desa. Politicamente, o bloqueio

também tem o lado' positivo de

mostrar para o povo como real-

mente é 'o imperialismo. Porque a

ajuda não é para o senhor Bouterse,

mas para o povo surinamês. Então,

a sua supressão é um excelente ins-

trumento para elevar a consciência

popular,

P - 5f pudesse seníar-se, hoje, com o go-

verno IwUmdès, conversar com eles e

dingir-se ao povo da Holanda, o qiie üies

dina?

R - Antes de tudo, é preciso lazer

uma dilèrença entre o povo e o go-

verno da Holanda, porque nós

nunca tivemos nenhum problema

com o povo holandês e sim com o

governo. Sobre o tratado com p go-

verno da Holanda, temos que dizer

que o Suriname tem direito a essa

ajuda, que é o resultado de um

acordo entre os dois países. E nós

não lizemos nada que esteja contra

as cláusulas desse tratado. Por ou-

tro lado, não creio que a Holanda

tenha nenhum direito a tomar essa

atitude, porque basta olhar para as

dilérentes relações internacionais

que o governo holandês tem -

como, por exemplo com Israel e

com a Álrica do Sul, país este úl-

timo onde milhares e milhares de

pessoas Ibram assassinadas - para

ver até onde vai a sua incoerência.

Mas se lor possível restabelecer a

cooperação entre os dois países,

uma das principais condições é a de

que, ao contrário do passado,

quando o linanciamento holandês

seivia para Vortalecer as posições do

imperialisr.no no Suriname, agora

leiíamos que utilizá-lo para o desen-

volvimento da economia nacional,

para superar a dependência e^não

para aumentá-la.

P - Seu governo estabeleceu uma série de

acordos cor.n o governo brasileiro depois

das sanções aplicadas pela Holanda e pe-

los Estados JJnidos em dezembro passado.

Qual é o ca rala desses acordos e o que o

Suriname espera deles?

R - ü Suriname desenvolve uma

política externa independente, de

relações com todos os países, de res-

peito á soberania de cada um e no

seu proveito mútuo. O Suriname é

membro integral do Movimento

dos países não-alinhados. Nesse as-

pecto, nós estabelecemos acordos

com o governo brasileiro em dife-

rentes campos, que podem ser

proveitosos para os dois países, c

complementares em vários setores.

O Brasil necessita, por exemplo, de

bauxita e de arroz, e nós precisamos

de tecnologia e equipamentos que

antes comprávamos da .Holanda.

Esse acordo estão sendo implemen-

tados conforme o discutido entre os

nossos dois governos e abriram boas

Eossibilidades de uma futura cola-

oração ainda maior entre o Brasil

e o Suriname.

P - £ que tipo de colaboração existe entre

o Suriname e Cuba?

R - No marco da nossa política in-

ternacional independente, nós esta-

belecemos acordos com Cuba nos

campos da assessoria tecnológica,

da educação, da cultura, da agricul-

tura e dos esportes,

p _ O governo do Suriname encara a

possibilidade de assinar um acordo com o

FMI, como a imprensa internacional

anda cogitando?

R - Esperamos que nunca tenha-

mos que apelar para essa última

possibilidade. Porque as condições

dos empréstimos do FMI não lávo-

recem o desenvolvimento real dos

países, não atacam a raiz dos pro-

blemas, mas as multiplicam.

P - Vocês chamam ao movimento militar

que assumiu o poder em 1980 de "revolu-

ção". Por que um pais como o Suriname

- com o segundo lugar em renda per ca-

pita na América Latina, com uma longa

tradição democrática, um pais que é con-

siderado um exemplo de convivência ra-

cial - precisa duma revolução?

R - Se você olha para os excelentes

índices de renda per capita, para as

condições sociais do povo em geral,

é muito fácil equivocar-se. Uma das

primeira razões para entender que a

imagem usualmente apresentada no

exterior não é real, é exatamente o

lato de que, se não houvesse pro-

blemas reais e profundos no país, o

movimento de fevereiro de 1980

nunca teria tido lugar. Esse simples

(ato explica que havia coisas que

não andavam bem no país. É ver-

dade que existe uma parte da popu-

lação que tem um nível de vida

muito alto, mas a situação real do

povo é completamente diferente.

Por exemplo, em dez anos, 150 mil

p>essoas,, especialmente jovens,

abandonaram o país, particular-

RESENHA - 23

mente entre iy/ü e lysü, para ir á

Holanda, país onde têm muitas di-

ficuldades, a começar pela discrimi-

nação. Os problemas da juventude

sem emprego, da discriminação

comia as mulheres, os problemas

dos negros e das condições da

classe operária são claramente diíc-

renies da imagem propagandeada

do Suriname no Exterior, que não

iclleie a simaçào real tio povo ira-

balhador.

P - Qual é a política do Suriname m re-

lação ài mprrm privculas e as naciona-

liiações?

R - Nós temos, atualmente, a polí-

tica de desenvolver diferentes cam-

pos na economia. Há setores em

que o capital estrangeiro pode

atuar, sob certos regulamentos.

Outros, em que estimulamos as ati-i

vidades das empresas privadas na-

cionais, enquanto que, em setores

como a agricultura, impulsionamos

atividades cooperativadas. Há cam-

pos em que nós apoiamos o desen-

volvimento das empresas estatais. A

questão da nacionalização de em-

presas depende da capacidade que

se tem para administrá-las, e das

possibilidades de marketing e de tec-

nologia com que se conta.

P - Uma publicação francesa expressou,

recentemente, preocupação sobre o perigo

que o processo surinamês representa paru

a Gidana Francesa. Que relações tem o

Suriname com esse pais?

R - O Surinanie sempre teve boas

relações com todos os países vizi-

nhos. Essa tradição é plenamente

respeitada pelo governo atual, que

mantém relações normais e cordiais

com o governo da Guiana Fran-

cesa. Há dois anos, um grupo opo-

sitor ao governo desse país nos bus-

cou para solicitar apoio na luta pela

independência da Guiana Francesa.

Nós lhe explicamos que não esta-

mos em condições de fazê-lo. Man-

temos essa mesma posição nas rela-

ções com todos os países frotueiri-

ços, que nada têm a temer do Suri-

name.

P - Qual é a posição do Suriname sobre

a crise centro-ancricana e o Pacto de

Contadora?

R - Vemos com muiu preocupação

a situação ccntro-Hmericana, mais

ainda depois das grandes manobras

navais norte-americanas na região

Nós somos a íávor de uma solução

pacífica global para o conilito e.

por isso, apoiamos uotalmeme as

iniciativas do grupo cie Contadora^

para conseguir a pacificação do

conilito centro-americano.

P - Como se define politicamente o

tenente-coronel Desi Boultrse?É tjm so-

cialista? Um marxista? ^^


ÍMTEWACJOhlAL RESENHA - 24

R - Antes que tudo, eu sou um suri-

naniès, um patriota. É vcixlade que

em março de 1981, eu atiimei que

um dos objetivos de nosso movi-

mento em o de lutar pela constru-

ção de uma sociedade socialista no

Suriname. No entanto, cada vc/.

mais é preciso levar em considera-

ção as condições especilicas em que

nós temos que lazer isso. Quando

nós talamos de socialismo, nos rele-

riinos a algo que tem de ser cons-

truído a partir da própria situação

concreta em que vive o povo e o

pais. E esse é um dos objetivos do

nosso movimento revolucionário.

P - Que erros cometeu o movimento, rws-

ses três anos e meio*

R - Vários eiros, mas o principal loi

o de não ter conseguido construir

uma lórte organização no país para

se opor aos adversários do nosso

país. Em segundo lugar, não logra-

mos usar a iniòrmação e o aparelho

de propaganda de ioima adequada,

o que resultou, por exemplo, nas

diliculdades para manter completa-

mente inionnado o povo. E tam-

bém o de não termos desenvolvido

^estruturas democráticas, que é um

dos principais objetivos da revolu-

ção, nas quais nós temos que pôr

grande empenho agora.

P - Ajormaçào das Milícias Populares e

o próximo lançamenio do Movimento pela

Umdade projeta superar esses erros?

R - Uma das principais lições que

tiramos dos últimos uès anos e

meio, é que entusiasmo popular

não é suliciente para construir uma

nação. Seguramente, temos que

manter o mesmo entusiasmo pela

icvoluçilo, mas lemos que com-

biná-lo com um nível de orga-

ni/ação popular. E eu acho que a

lomiação do Movimento de Uni-

dade, no próximo dia 25 de no-

vembro, vai ser um importante

passo rumo ao desenvolvimento da

revolução. Seguiremos avançando,

mas sempre com a llexibilidade ne-

cessária para ir corrigindo os passos

nesse avanço.

A invasão de Granada repercu-

tiu imediatamente no Suriname.

O governo de Bouterse emitiu

uma declaração, lida por ele

mesmo na televisão, no mesmo

dia do desembarque das tropas

none-aincricanas na pequena ilha

caribenha (veja mapa), que con-

cluía com a decisão de rebaixar o

nível das relações com Cuba, sus-

pendendo os acordos vigentes e

solicitando ao embaixador cu-

bano que retornasse a Havana nas

semanas seguintes. Parecia ser um

dividendo extra para a politica

brasileira tom o Suriname.

HOMIMUS

O governo do tenente-coronel

Bouterse teme que a crise grana-

dina seja detonante das contradi-

ções que inegavelmente encerra o

processo militar iniciado em 1980.

No transcurso deste ano, as rela-

ções com o Brasil e com Cuba são

o centro duma polêmica dentro

do próprio regime, entre os inte-

grantes do partido que fornece os

principais quadros para o governo

formado a partir de dezembro do

ano passado - o Palu , ao qual

pertence o primeii o-ministro Er-

rol-Alibux - e os sargentos que di-

rigiram o golpe, há três anos e

meio.

Alibux não esconde suas simpa-

tias pelo papel que as relações

com o Brasil podem desempenhar

na substituição do nexo neo-

colonial com a Holanda, conside-

rada o único inimigo do Suri-

name. Bouterse imprime uma ca-

racteristica mais antiimperialista ás

declarações do regime, centrando

seus ataques na Holantla,mas tam-

bém nos Estados Unidos. En-

quanto Alibux visitou duas vezes o

Brasil desde a viagem do general

Venturini a Paramaribo em maio

deste ano, Bouterse foi á Confe-

rência dos Não-Alinhados, em

Nova Delhi, em março, no avião

de Fidel Castro, com o presidente

cubano, e Maurice Bishop, ex-

der granadino.

A formação do Movimento pela

Unidade - partido do processo

iniciado em 1980 - cuja lundação-

está confirmada paia a última se-

mana deste mês, é considerada

como uma tentativa de conlormar

um partido próprio do regime,

libertando-o assim da dependên-

cia em relação aos quadros do

PaJu - formados na Ho'ianda - e

cuja visão é considerada pelos mi-

litares como tecnocrátiai. O outro

partido que participa rio governo

- o Partido Revolucionário tio

Povo, marxista - se 'mtegrar-se-á

íUCO

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et*»

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OCEANO

ATLÂNTICO

ao novo Movimento, cuja funda-

ção pode dar lugar a transforma-

ções que imprimam uma fisiono-

mia mais permanente ao regime

surínamês.

Consultado por telefone, esta

semana, um porta-voz do

tenente-coronel Bouterse decla-

rou a Senhor que o governo ava-

liou a nova situação gerada pe-

la atitude do governo norte-

americano em Granada e decidiu

tomar medidas que preservem o

desenvolvimento do processo suri-

namês. Considera que, a partir

desse momento, a situação interna

já não estava sob controle e que o

afloramento de contradições simi-

lares às de Granada poderia dar-

se no Suriname. Seria necessário,

cnuio, deter a dinâmica de anta-

gonismos internos que poderia

conduzir a uma polarização e rup-

tura da unidade interna do re-

gime, favorecendo ações como a

invaíão de Granada.

É nesse marco que o porta-voz

interpreta a imposição de um

baixo perfil ás relações com Cuba.

O afastamento da presença polí-

tica imediata de Cuba, através do

embaixador Oswaldo Cárdenas, e

a suspensão temporária dos acor-

dos com esse país funcionariam

como um alívio para as tensões

por que passa o processo político

surínamês. O porta-voz acredita,

no entanto, que a situação de-

satada com a invasão norte-

americana de Granada provocará

outros desdobran rentos impor-

tantes no futuro próximo no Suri-

name.

O general Venturini - coinci-

dindo com fontes do Itamarati -

tinha declarado, na Comissão de

Relações Exteriores da Câmara

dos Deputados, que não existia o

perigo de Suriname cair na ói Wta

cubana, tanto pela inexistência cie

condições sociais de crise que ser-


INTERNACIONAL RESENHA - 25'

viriam de "caldo de cultivo" para

transformações revoludonáriai,

como pelo papel determinante

tute as relações brasileiras passa-

ram a icr a partir de maio (leste

ano.

A a(;ão do governo Keagan, no

entanto, pode alterar as lendèncias

anteriores, numa direçío diferente

FOLHA DE S.PAULO M\M\S^

Cláudio Abramo

de Paris

Como se sabe, os bispos franceses

acabam de editar um importante do

:umento denominado "Ganhar a Paz"

im que afirmam seu engajamento em

favor da ampliação dos efetivos nucle-

ares das forças ocidentais na Europa,

diante da URSS.

O documento não foi publicado na

Integra pelos grandes jornais, mas seus

pontos principais foram abundaménte

divulgados e discutidos. Os bispos

afirmam entre outras coisas defender a

paz no mundo, consideram que a

corrida das armas nucleares põe em

risco a humanidade mas se mostram

extremamente impressionados ante a

perspectiva de uma eventual dominação

soviética da Europa. Que seja muito

difícil à URSS neste momento ou num

futuro que se esgota neste século — a

menos que surjam condições frontal-

mente adversas — pensar numa ofen-

siva militar convencional sobre o con-

tinente europeu, parece não ter preo-

cupado muito os bispos franceses.

0 episcopado francês adotou uma

linguagem reconhecida por todos como

escoimada de subterfúgios, identifi-

cando o inimigo principalda Igreja, tal

como o vêem os bispos franceses, na

"ideologia marxista-leninista" e a par-

tir dai, deram o inevitáve passo se-

guinte: declarar moralmente aceitável

a dissuasão nuclear.

PoriçAo antiga

Um religioso com quem conversei

ontem me observava, a propósito da

decisão da maioria esmagadora dos

bispos franceses (a resolução foi apro-

vada por 93 votos, oito contra e duas

abstenções) que no passado da Igreja,

sobretudo em certos períodos da

Renascença, papas editaram bulas

condenando o uso de armas (como o

arcabuz, por exemplo) que multipli-

cassem os efeitos mortais das armas

até então conhecidas. Nesse sentido, os

canhões, os aviões, a metralhadora etc,

para ficar apenas nos armamentos

convencionais correntes, deveriam ser

objeto da mesma condenação, ficando

óbvio portanto que as armas nucleares

que multiplicaram por milhões a capa-

cidade destrutiva do homem deveriam

ser igualmente alvo da condenação da

igreja. Mas a inventividade do ser

humano parece ter superado a capaci-

dade da Igreja de editar condenações.

da que se esboça imediatamente,

se as conseqüências políticas pas-

sarem a se impor sobre a indls-

cuiivel superioridade bélica norte-

americana. Poderia transformar-

se numa "vitória de Pirro" -

como apontou o primeiro-minis-

tro cubano Fidel Castro - da

mesma Ibrma que a puerra das

Bispos franceses apoiam

instalação de euromísseís

O documento do Episcopado suscitou a

perplexidade de meios católicos — mas

não se sabe em quê medida — e é objeta

de uma intensa polêmica entre católi-

cos, entre católicos e marxistas, entre

direita francesa e esquerda. O padre

Jean Toulat, por exemplo, recorda no

'Le Monde' de ontem, com absoluta

razão, que a "dissuasão só tem credibi-

lidade se aceita põ-lá em ação", o que

significa que é preciso "estar pronto a

cometer o que o Vaticano 2 denomina

"um crime contra Deus e contra o

Homem".

Governo francês

0 episcopado francês adotou posição

idêntica à do governo francês que

defende a instalação dos Pershing e

Cruise americanos na Europa (mas pão

na França). O governo e mais especi-

ficamente Francois Mitterrand tem

essa posição por várias razões, algumas

doutrinárias mas outras definiti-

vamente políticas: ela atrai o apoio das

Forças Armadas, que naturalmente,

querem armar-se e aperfeiçoar-se seu

armamento. A corrida nuclear que a'

instalação dos euromísseís provocará

dará às Forças Armadas francesas os

pretextos para exigirem verbas mais

elevadas para o orçamento militar. O

documento do Episcopado, que foi

redigido por dois prelados pelo menos

que têm intima relação com as Forças

Armadas, reflete os interesses dessas

forças.

De outro lado, o documento reflete a

verdadeira obsessão da maioria dos

franceses — e de europeus — que se

setem ameaçados pelo sistema soviéti-

co, que causa, aqui, literalmente, hor-

ror. E muito freqüente intelectuais ou

jornalistas do Terceiro Mundo, como

este correspondente, ouvir de intelec-

tuais, jornalistas, ou políticos europeus

a afirmação de que as sangrentas

tiranias latino-americanas (tipo Pino-

cbet, Somoza, Guatemala, Haiti) são

mais amenas do que o totalitarismo

soviético. Essa espantosa afirmação me

foi feita por exemplo por nada menos

que Leszek Kolakovsky, um polaco que

ganhou um emprego em Oxford e que,

ex-marxista, tem hoje horror ao

marxismo.

Os bispos americanos divulgaram em

maio um documento diametralmente

oposto ao dos bispos franceses, e mais

recentemente o episcopado alemão se

pronunciou na mesma direção. A maio-

ria ou pelo menos uma parcela ponde-

Malvinas, isolando ainda mais os

Estados Unidos, na região, e favo-

recendo a constituição de um con-

senso íiivorável a loluçãd nego-

ciadas para a Amérii a ( Vmral e o

Caribe, levadas adiante pelo

grupo de Contadora, e hoje estag-

nadas pela atitude de Reagan c

dos seus aliados locais.

rável dos bispos da América Latina se

consultados a respeito, se pronunciaram

de forma absolutamente oposta è dos

bispos franceses. O que sublinha que,

como toda instituição tentacular e

universal, a Igreja Católica Apostólica

Romana tem mais de uma posição a

respeito de mais de um problema

mundial. Exatamente com os partidos

comunistas e os gupos marxistas fora

*PPC8.


IWTERA/A. 10NAL

FOLHA DE S.PAULO ZH [^ k*

Cláudio Ahramo

de faris

O delegado soviético nas cçnversações

de Genebra fez o que todo mundo já

sabia que faria: m dia seguinte da

aprovação, pelo Parlamento alemão, dá

instalação dos mísseis americanos, 04

soviéticos como haviam advertido vá-

rias vezes, interromperam as conver-

sações. Nenhuma surpresa ai, portanto,

apesar de Ronald Heagan em

Washington e PaüJ Nitze em Genebra

tenham manifestado surpresa e per-

plexidade.

A União Soviética não tinha mais nada

a discutir, diante de dois fatos con-

sumados. O início da instalação dos

mísseis na Alemanha, e a aprovação

dessa instalação pelo Bundestag. Se

continuassem a discutir como se nada

tivesse acontecido, dariam prova dé

fraqueza e de insensibilidade. O chan-

celer Helmut Kohl estava pessoaimenfe

informado da posição soviética. Tam-

bém ele nào deve ter sido surpreendido.

ü Folitburo sabe há muitos meses que

não adianta fazer qualquer proposta que

os EUA a rejeitarão. Como os EUA

sabem que seja qual for a proposta que

possam fazer, a URSS as rejeitará set

■ essa proposta não for acompanhada da

inclusão dos dispositivos nucleares da

França e da Inglaterra no conjunto das

negociações.

Diálogo de surdos

Esse é um diálogo de surdos destinado

a ser absorvido por uma eventual

renegociação global das armas estra-

tégicas. Até lá é isso aí.

Norberto Bobbio, pensador que nin-

guém acussará de pro-soviético, dizia

há alguns dias que "a dificuldade maior

ida doutrina da dissuassão reciproca

como garantia do não emprego das

armas nucleares é que eía se fun-

damenta sobre a eficácia do temor

reciproco, e o temor recíproco presu-

põe, por sua vez, a igualdaoe das torças.

A doutrina da dissuasáo retoma a

doutrina tradicional do equilíbrio. Mas

este equilíbrio épossível?

4) que Bobbio quer dizer é que não é

possível, como o reconhece aliás o Sipri

(de Estocolmo), também mencionado

por ele, é que esses cálculos de

equilíbrio devem basear-se em detalhes

como capacidade de sobrevivência das

populações eventualmente atingidas,

qualidade dos engenhos, quantidade,

confiabilidade, etc,, elementos esses tão

passíveis de contar variáveis de inter-

pretação e diferenças subjetivas que ele

se toma extremamente difícil e peri-

gosamente arriscado na prática.

A "ameaça" soviética

Os EUA tinham, com os europeus, um

dispositivo que a URSS considerou

desvantajoeo para si própria. A URSS

instalou seus SS-20. Os ocidentais con-

sideraram que a URSS estava em,

vantagem numérica de capacidade de'

destruição e a OTAN imaginou colocar

600 e tantos mísseis nos países euro-

peus. A chave aíé a real, ou suposta,

ameaça soviética, que se traduziria pela

invasão da Europa. Certamente os

Apenas dois fatos consumados

soviéticos não iriam destruir nuclear-

mente a Europa se quizessem invadi-la.

Fariam a invasão com forças conven-

cionais, nas quais também é imbatível

neste Continente. Daí a França ter

construído sey arsenal nuclear, e a

Inglaterra idem. Quando os soviéticos

dizem com razão que esses arsenais

devem ser- contados como forcas oci-

dentais. França e Inglaterra reclamam,

e oa EUA aproveitam para rejeitar as

propostas soviéticas. Não que a URSS

seja 'boazinha' e os EUA e os europeus

"maus". Ê que tudopa/Êp do princípio

segundo o qual a URSS vai invadir a

Europa, algo sobre o que algumas


pessoas tem sérias dúvidas.

RESENHA - 26

De aualquer maneira os EUA queriam

instalar seus mísseis. E vão instála-loa.

Os soviéticos já haviam percebido que

não adiantaria fazer qualquer proposta,

que ela não seria aceita. Diante de dois

fatos consumos, Kvítinsky deixou a sala

é interrompeu as conversações. Não as

suspendeu.

Mas se forem reiniciadas, provavel-

mente só depois de terminada a cam-

panha eleitoral americana, com a

reeleição de Ronald Reagan, vão con-

versar de novo.

O resto é bobabem

Há um ano e meio, quando o exército sionista

invadiu o Líbano para expulsar os palestinos da região

de Beirute, o presidente sírio reagiu violentamente —

em palavras. Agora, no entanto, sua guerra contra

Arafat nâo é apenas verbal: a Síria Incentivou

a rebelião entre os combatentes concentrados nos

territórios sob seu controle, expulsou Arafat de

Damasco e as tropas leais a ele do vale do Bekaa,

e agora participa diretamente dos combates que estão

se travando perto de Trípoll. Nas mãos dos rebeldes

que se dizem "combativos" e de seus "defensores"

sírios, parte dos melhores lutadores palestinos estão

sendo dizimados, e a população civil dos campos

de refugiados e da cidade de Trípoll sofre um

massacre comparável aos de Sabra e Chatlla no ano

passado (quando cerca de duas mil pessoas foram

executadas pela Falange fascista libanesa, com

o Incentivo e cumplicidade do exército de ocupação

de Israel).

O que ocorre é que, para as burguesias dos países

árabes, existe um inimigo maior que o estado sionista

e o próprio Imperialismo ianque: é a revolução em

seus próprios países. Por Isso, acima de todas as

suas divergências, essas burguesias concordam num

ponto: não permitir que a resistência palestina seja

o estopim da revolução árabe.

Quarenta anos óB luta

Numa região cortada por fronteiras artificiais,

traçadas pelo imperialismo, a luta incessante

dos palestinos, desde que foram expulsos de suas

terras em 1947-48 (na guerra sangrenta em que se

formou o estado de Israel) constitui uma ameaça para

os regimes locais. Os palestinos se dispersaram por

vários países da região, sendo tolerados pelos

respectivos,governantes enquanto podiam ser

controlados e usados nas negociações com o estado

sionista e o imperialismo; mas Implacavelmente

combatidos sempre que sua organização e luta

punha em perigo a estabilidade desses mesmos

governantes.

Alicerce

->


im L

Isso se c.- a pa.tir de 1964-67, cem a

constituição da Organização de Libertação da

Palestina, a OLP, .ue nâo é um simples ajuntamento

de partidos, e sim uma entidade nacional, um estado

sem território, que representa toda a população

palestina. A exisUncla dessa organização estatal

paralela, dentro de seus próprios estados, punha em

parigo os regimes I urguesea arabos.

Foi assim em 1 rdánia, quando o rei

Hussein promoveu o horrendo massacre que ficou

conhecido como "Setembro Negro". Foi assim no

L bano, provocando a agressão Israelense, em 1982.

Ao mesmo tempo, cada novo massacre, cada nova

dispersão desse povo heróico reafirma que não há

solução possível para o Oriente Médio sem solução

do "problema palestino".

As burguesias árabes

querem acordo com o sionismo

Um depois do outro, os vários governos árabes

foram chegando a um acordo, tácito ou escrito, com

Israel (e, por aí, com os EUA). Aceitaram a

permanência do estado sionista agressor e

abandonaram, na verdade, a causa palestina (que fica

reservada apenas para os discurrsos inflamados de vez

em quando).

Só falta a Síria, diretamente vinculada (econômica

e militarmente) á URSS, que se mantém em estado

de guerra permanente contra Israel. È claro que

a burguesia síria percebe que não ganha nada em

continuar sozinha essa luta, e que arrisca uma

explosão revolucionária dentro de suas próprias

fronteiras. Por isso, seu objetivo é também chegar

a uma "tolerância" em relação ao sionismo —

recuperando a região do Golã e, de quebra, anexando

quase metade do Líbano (e deixando para Israel

a outra metade).

Para isso, procura acabar com a organização

independente dos palestinos, destruir a OLP como

entidade nacional. Pode admitir, no máximo, direções

fantoches, manipuladas. Assim, Abu Musssi e os

outros "rebeldes" palestinos — como a organização

Saika, diretamente controlada pelos sírios — servem

de Instrumento na divisão da OLP e, agora, na

tentativa de sua liquidação física.

Por uma direção revolucionária

Existe uma base real nas críticas feitas à direção de

Arafat: a burocratização da OLP e, principalmente,

o rebaixamento de seu programa, aceitandci, na

prática, o reconhecimento de Israel e a crlajão de um

estado palestino subordinado à Jordânia.

O motivo disso é que a direção d? OLP sei apoia

na pequena e média burguesia palestina, que está

interessada num lugar para viver sossegadai, e só.

Arafat não é um dirigente revolucionário. M as, como

um burocrata sindical que não leva a fundo as

reivindicações dos trabalhadores, mas defende com

unhas e dentes o sindicato ameaçado, assim também

Arafat não se presta à tentativa de destruição da

nação palestina.

Apesar das vacilações


INTERNACIONAL RESENHA 28

com a direita libanesa e essa recomposição

deu algurn espaço de manobra a OLP que

conseguiu manter suas bases em Beirute e

no suldo Líbano até a invasão do general

Sharon, que deixou suas forças a mercê da

Síria no vale do Bekaa e no norte do

Líbano.

Mas o atual cerco a Aralat náo teria

sido táo fácil se paialelamente ap complô

sírio não tivesse estourado uma grave crise

no interior da Al Fatah a pretexto da

retirada de Beirute e do massacre de Sabra

e Chatila, utilizados como munição contra

a liderança de Arafat, a quem também se

reprovava as tentativas de diálogo com os

EUA e Israel. No fundo foi sempre a velha

questão, o"x" do dilema palestino: lutar

pela destruição de Israel ou por um estado

palestino ao seu lado? -

Estadista que 6 — um dos mais clarivi-

dentes do mundo árabe — Arafat já se deu

conta, há muitos anos, que a destruição

militar de Israel é militarmente impossível

e politicamente inaceitável para o mundo.

Essa ameaça quando brandida só reforça

seu imenso poderio militar hoje coroado

pela posse, nem tão secreta assim, dè

algumas dezenas de armas nucleares e pela

garantia formal dos EUA, que certamente

interviriam se Israel fosse ameaçado. A

existência do estado judeu foi também, é

sempre bom lembrá-lo, apadrinhada da

União Soviética. Assim os sonhos de des-

truir militarmente Israel já se tomaram há

muito uma mitologia, uma fantasia só

realizável no contexto de um conflito nu-

clear onde todos seriam destruídos.

Consciente desse fato Arafat tem como

estratégia, desde a guerra do Yon Kippur,

levar os israelenses ao diálogo, ao reconhe-

cimento do fato palestino e a uma composi-

ção em tomo da Cisjordánia e da faixa de

Gaza, como base territorial possível para

um estado palestino. O grande obstáculo a

essa solução, defendida pela imeivsa maio-

ria dos países membros das Naçtfes Uni-

das, inclusive o Brasil, é, naturalmente, a

recusa israelense e sua política de ane-

xação.

Mas nem só de Israel advém as dificul-

dades. A Síria sempre buscou sabotar essa

solução, pois ela envolve a OLP e a

Jordânia e a Síria não admite menos do

que ser o principal interlocutor de uma

eventual negociação com Israel e os Esta-

dos Unidos.

Frustrado pela sistemática recusa israe-

lense, imobilizado por pressões contraditó-

rias Arafat pouco tinha a oferecer aos seus

seguidores em troca da sua tão decantada-

"moderaçâo", Numa cruel ironia o seu

grande feito políico de ter conseguido sair

incólume de Beirute com o grosso da força

militar palestina, evitando o extermínio,

certo como favas contadas, nas mãos do

general Sharon, se converteu no seu calca-

nhar de aquiles nas mãos dos inimigos

intemos que o acusaram de "traição".

Miseravelr.. if! enganados pelos norte-

americanos que prometeram assegurar a

segurança dos civis palestinos depois da

evacuação dos combatentes, Arafat ainda

é, com má fé, responsabilizado pelos dissi-

dentes pelos massacres de Sabra e Chatila.

Militarmente "vencedores" os dissi-

dentes de Abu Mussa, um ex-oficial do

exército jordaniano — completamente im-

becil politicamente, a julgar por suas decla-

rações — se transformam em coveiros da

causa palestina. São mero joguete nas

mãos de Hafez Assad. Enquanto lhe inte-

ressar permitirá que operem para pressio-

nar Israel e os EUA, quando for reconhe-

cido finalmente como interlocutor privile-

giado, para negociar a crise libanesa e o

problema palestino em nome deles, Assad

dará um jeito expeditivo nos "seus" pales-

tinos.

A força de Arafat como líder-dft um

povo sem terra, errante e maldito por

inimigos e falsos amigos, sempre foi a de

jogar em todas as altemativas, buscar to-

das as alianças e, em constantes façanhas

de equilibrismo político, manter sua auto-

nomia. Foi isso que permitiu a causa pales-

tina ser reconhecioa pelo mundo. Seus

detratores buscam a regressão, querem

transformar a OLP naquilo justamente que

o governo israelense a acusa de ser: uma

organização terrorista obcecada em des-

truir Israel. Nessa via estreita e sem saída a

causa palestina estará em péssimos lençóis.

Mas Abu Ammar tem sete vidas e já

saiu de enrrascadas piores. Perde um dis-

positivo militar (no fim das contas de

pouca utilidade) no Líbano mas mantém o

mais importante: o apoio das massas pales-

tinas na Palestina; no estado de Israel, na

Cisjordánia e em Gaza, na Jordânia e em

toda diáspora palestina. Mantém o respei-

to e o reconhecimento intemacional c, se

sobreviver e esperar, terá brevemente

diante de si uma nova conjuntura.

Sua derrota militar no norte do Líbano

será no final das conta* desimportante

perto da vitória política que talvez possa

em breve almejar, nada menos do que em

Israel onde a coligação Llkud vive seus

últimos estertores e, mais cedo ou mau

Urde sofrerá estrepitosa derrota nas umas.

£ bem verdade que a volta dos trabalhistas

não garante por si nenhuma mudança de

fundo na questão palestina, mas a debacle

da direita sionista e a crise em que essa

mergulhou Israel criará, talvez pela primei-

ra vez desde 1948, um clima de discussão

seria sobre a paz com os palestinos.

Abu Ammar com suas sete vidas estará

mais forte para encarar essa nova conjun-

tura como líder internacionalmente reco-

nhecido de um governo palestino no exílio,

em Tunis, do que como chefe de alguns

milhares de guerrilheiros mergulhados no

caos da guerra do Líbano. £ estará a

postos com seu revólver na cintura mas seu,

ramo de oliveira na mão.

Aos otimistas incorrígiveis, aos que se

obstinam em lutar por uma paz justa no

Oriente-Médio se permite supor que os

israelenses livres do fanatismo beguinista e

os palestinos livres da hipoteca síria e dos

seus extremistas irredutíveis, poderão um

dia entabular a conversa à volta da oli-

veira.

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