,«5=^ história 2 - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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VJOLtNCJA, EKVLOSKO, VJOLtHCJA RESENHA - 11

seja incomparável ao agir. Incorpo-

rou doutrinária e praticamente a»

PMs, exatamente para dispor dessa

tropa. O comandante da PM, em-

bora indicado e pago-pelo_govemô

do Estado, só assume se aceito pelo

Ministério do Exército. Quer dizer,

e pago por um, mas está sob co-

mando e orientação de outro. Foi

essa PM que não tolerou o co-

mando policial montado por Mon-

toro e I9Í essa PM que abandonou

o policiamento ostensivo, sua obri-

garão e, por decreto iederal, sua

prerrogativa.

A Polícia Civil tentou suprir essa

ausência. A PM mantinha seus 60

mil homens no quartel e a polú i.i

guardava São Paulo com pomo

mais de 1.000 homens e alguma»

(enienas de carros. Além desse boi-

cote, a PM, nos últimos anos. desdr

que seus cursos são montados pelo

Ministério do Exérciio, tem sido

adestrada mais nas questões de se-

gurança interna e guarda territorial

que para as tareias de policiamento.

Em saques e quebra-quebras ela

age com torça porque são crimes de

segurança nacional. A mistura do

boicote com ineficiência, por dou-

trina ou má vontade, deixou São

Paulo sem policia. Ao mesmo

tempo, as pressões sobre as lormas

tradicionais de ação policial, como

tortura, prisão ilegal ou a obtenção

de iniormaçào através de uma cor-

rente de corrupção que mistura la-

drão, receptador e policial, ocasio-

naram a greve branca.

A conseqüência disto é que,

olhando a estatística sobre boletins

de ocorrência da policia, entre ja-

neiro e setembro de 83, a criminali-

dade aumentou em mais de 5096. O

lurto simples pulou de 5.090 em ja-

neiro para 7,281 em setembro, e os

crimes contra o patrimônio salta-

ram de 14 mil para 20 mil. Mesmo

assim houve aumento dos inquéri-

tos remetidos; de 4.900 para 7.600,

com greve branca e tudo.

Foi nessa circunstância que os

jornais começaram a atacar a nova

polícia e sua ineficiência Não eiam

«penas os comerciantes ou vitimas

individuais que procuravam o go-

verno para se queixar. Em ocasiões

privilegiadas, empresários procura-

vam mostrar a Montoro que ele

precisava fazer a policia agir. Mas

como.'

Imo momento em que, cedendo a

pressões e olertas do governo íéde-

rali Mnninin mudou n comando

da |ioliua, ele entregou as lorças de

segurança de Sâo Paulo nas mãos

do ex-delegado do Dops e atual de-

legado lederai, Romai Tutna.

thmi.i iijuiaijln «íUl|iiinuli'iili.

para quem faz parte de um governo

oposicionista e se deleita em discur-

sos do mais velho liberalismo, Mi-

guel Reale Júnior indicou para de-

legado geral o substituto de Fleury,

José Vidal Pilar Fernandes, o qual

já assumiu, segundo registro da

Veja, "despreocupado com a cor-

rupção policial".

Na mesma ocasião. Vídal no- 1

meou para o Departamento de Co-

nuinicação Social - encarregado da

área de informação da Polícia Civil,

substituindo o antigo Dops - exata-

mente o delegado Sílvio Machado,

segundo homem de Romeu Tuma,

quando esse dirigia o Dops de Sâo

Paulo. Reale Júnior remontou toda

a velha direção da policia que serviu

a Maluf e ao governo federal. Mas

deixou seu governador sem policia.

Se foi uma conspiração ou não, já

não importa. O fato é que o go-

verno oposicionista do principal Es-

tado do Pais, onde a incidência cri-

minal e a ocorrência de saques e

quebra-quebras vem crescendo,

tem no comando de seu esquema

de segurança homens ligados ao

governo federal. A pergunta mais

paranóica que ocorre é: eles vão

agir ou deixar o governo Montoro

se esvair pela comprovação de sua

indecisão:'

A nova polícia tem como certo

que a velha polida, se conseguir co-

locar a PM na rua, reduzirá o pro-

blema. Mas está convicta que o agu-

çamento da recessão vai incremen-

tar a crise na área em que Polícia

Militar e Polícia Civil devem agir.

"A situação já está pior do que a

população é informada", diz um

dos delegados. "E vai piorar mais."

Embora acredite que o policia-

mento ostensivo funciona, lembra

que o aumento da violência poli-

cial, atual opção do governo esta-

dual, nunca resolveu ou reduziu o

problema da violência criminosa.

'Ao contrário, olhem as estatísticas

do tempo em que Fleury e alguns

mais dirigiam três ou quatro esqua-

drões da morte por São Paulo. É

tolice imaginar que isto resolve."

Ele não deixa de estender suas críti-

cas a uma política equivocada do

Judiciário ao enfrentar o problema

das prisões. 'Temos 25 mil prisio-

neiros; 2096 acima da capacidade

das prisões. E temos 60 mil manda-

dos de prisão. Como alguns crimi-

nosos têm três ou quatro manda-'

dos, podemos calcular que haja 30

mil criminosos a serem presos. È o

tlobio iktuutk) qur ü sistema pnii-

lendário já agüenta com muita difi-

«oildade.Como se faz? Se constróem

mais cadeias? Não. Se facilita a li-

Unwção. É o que a gente chama de

rodízio de presos. Se resolve o pro-

blema de superpopulação carce-

rária mudando a lei para se soltar

presos. Cada cadeia, se a polida re-

tirar das mas alguns desses milhares

de criminosos, vai virar um ponto

de explosão."

A mudança na polícia (tolerada

pela imprensa, na sua quase maio-

ria) entregando a segurança de volta

ao governo Iederal, é um recuo -

ou pior, uma tolice - do governo

em não assegurar à população a

tranqüilidade da segurança. E a im-

prensa, que, em geral, igualmente

combateu a arbitrariedade e até a

conduta criminosa desses policiais,

engole a troca de comando como

se, desta vez, os porões estivessem

apenas reservados aos matadores de

mulheres e crianças. Como se um

esquema repressivo fosse contro-

lado por editoriais bem escritos ou

pelo possível saber jurídico de upn

secretário de Segurança que, na de-

finição de um delegado irônico,

"iála como D. Evaristo e age como

o Erasmo Dias".

Conspiração, coincidência ou a

simples fraqueza do governo esta-

dual? São Paulo só ficará tranqüila

até a primeira morte num xadrez. E

a imprensa, que se deixou envolvei

pelo clima histérico sem dar o me-

recido destaque á resistência, greve

ou boicote organizado pela própria

policia, mesmo sabendo do que es-

tava acontecendo, passou o recibo

do pragmatismo.

Naturalmente os repetidos gemi-

dos de que todo o crime é causado

pela crise social se tomam motivos

de riso. Mas há uma crise social

aguçando, que terá apenas um tra-

tamento policial. A imprensa, prin-

cipalmente quando é poderosa,

pode e deve ir além do senso co-

mum. Há formas de se levantar os

fatos mais corretas que as outras,

como há formas de se policiar as

ruas melhores que outras. Mas a

pior polícia é a que não aceita se li-

mitar á lei. E o pior que pode acon-

tecer a uma imprensa é não perce-

ber os riscos que ela está criando

para si mesma.

Quanto ao govemo Montoro, ele

agora é prisioneiro de seu esquema

de segurança. Quando recomeça-

rem os saques e os quebra-quebras,

(porque eles recomeçarão e mais

fortes), que clima se criará no Es-

tado e no País? O governo Mon

toro trocou uma imagem de hesita-

ção por uma de recuo. E quem jx"-

tua uma vez, pode recuar sempre.

í O

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