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INTERNACIONAL RESENHA 28

com a direita libanesa e essa recomposição

deu algurn espaço de manobra a OLP que

conseguiu manter suas bases em Beirute e

no suldo Líbano até a invasão do general

Sharon, que deixou suas forças a mercê da

Síria no vale do Bekaa e no norte do

Líbano.

Mas o atual cerco a Aralat náo teria

sido táo fácil se paialelamente ap complô

sírio não tivesse estourado uma grave crise

no interior da Al Fatah a pretexto da

retirada de Beirute e do massacre de Sabra

e Chatila, utilizados como munição contra

a liderança de Arafat, a quem também se

reprovava as tentativas de diálogo com os

EUA e Israel. No fundo foi sempre a velha

questão, o"x" do dilema palestino: lutar

pela destruição de Israel ou por um estado

palestino ao seu lado? -

Estadista que 6 — um dos mais clarivi-

dentes do mundo árabe — Arafat já se deu

conta, há muitos anos, que a destruição

militar de Israel é militarmente impossível

e politicamente inaceitável para o mundo.

Essa ameaça quando brandida só reforça

seu imenso poderio militar hoje coroado

pela posse, nem tão secreta assim, dè

algumas dezenas de armas nucleares e pela

garantia formal dos EUA, que certamente

interviriam se Israel fosse ameaçado. A

existência do estado judeu foi também, é

sempre bom lembrá-lo, apadrinhada da

União Soviética. Assim os sonhos de des-

truir militarmente Israel já se tomaram há

muito uma mitologia, uma fantasia só

realizável no contexto de um conflito nu-

clear onde todos seriam destruídos.

Consciente desse fato Arafat tem como

estratégia, desde a guerra do Yon Kippur,

levar os israelenses ao diálogo, ao reconhe-

cimento do fato palestino e a uma composi-

ção em tomo da Cisjordánia e da faixa de

Gaza, como base territorial possível para

um estado palestino. O grande obstáculo a

essa solução, defendida pela imeivsa maio-

ria dos países membros das Naçtfes Uni-

das, inclusive o Brasil, é, naturalmente, a

recusa israelense e sua política de ane-

xação.

Mas nem só de Israel advém as dificul-

dades. A Síria sempre buscou sabotar essa

solução, pois ela envolve a OLP e a

Jordânia e a Síria não admite menos do

que ser o principal interlocutor de uma

eventual negociação com Israel e os Esta-

dos Unidos.

Frustrado pela sistemática recusa israe-

lense, imobilizado por pressões contraditó-

rias Arafat pouco tinha a oferecer aos seus

seguidores em troca da sua tão decantada-

"moderaçâo", Numa cruel ironia o seu

grande feito políico de ter conseguido sair

incólume de Beirute com o grosso da força

militar palestina, evitando o extermínio,

certo como favas contadas, nas mãos do

general Sharon, se converteu no seu calca-

nhar de aquiles nas mãos dos inimigos

intemos que o acusaram de "traição".

Miseravelr.. if! enganados pelos norte-

americanos que prometeram assegurar a

segurança dos civis palestinos depois da

evacuação dos combatentes, Arafat ainda

é, com má fé, responsabilizado pelos dissi-

dentes pelos massacres de Sabra e Chatila.

Militarmente "vencedores" os dissi-

dentes de Abu Mussa, um ex-oficial do

exército jordaniano — completamente im-

becil politicamente, a julgar por suas decla-

rações — se transformam em coveiros da

causa palestina. São mero joguete nas

mãos de Hafez Assad. Enquanto lhe inte-

ressar permitirá que operem para pressio-

nar Israel e os EUA, quando for reconhe-

cido finalmente como interlocutor privile-

giado, para negociar a crise libanesa e o

problema palestino em nome deles, Assad

dará um jeito expeditivo nos "seus" pales-

tinos.

A força de Arafat como líder-dft um

povo sem terra, errante e maldito por

inimigos e falsos amigos, sempre foi a de

jogar em todas as altemativas, buscar to-

das as alianças e, em constantes façanhas

de equilibrismo político, manter sua auto-

nomia. Foi isso que permitiu a causa pales-

tina ser reconhecioa pelo mundo. Seus

detratores buscam a regressão, querem

transformar a OLP naquilo justamente que

o governo israelense a acusa de ser: uma

organização terrorista obcecada em des-

truir Israel. Nessa via estreita e sem saída a

causa palestina estará em péssimos lençóis.

Mas Abu Ammar tem sete vidas e já

saiu de enrrascadas piores. Perde um dis-

positivo militar (no fim das contas de

pouca utilidade) no Líbano mas mantém o

mais importante: o apoio das massas pales-

tinas na Palestina; no estado de Israel, na

Cisjordánia e em Gaza, na Jordânia e em

toda diáspora palestina. Mantém o respei-

to e o reconhecimento intemacional c, se

sobreviver e esperar, terá brevemente

diante de si uma nova conjuntura.

Sua derrota militar no norte do Líbano

será no final das conta* desimportante

perto da vitória política que talvez possa

em breve almejar, nada menos do que em

Israel onde a coligação Llkud vive seus

últimos estertores e, mais cedo ou mau

Urde sofrerá estrepitosa derrota nas umas.

£ bem verdade que a volta dos trabalhistas

não garante por si nenhuma mudança de

fundo na questão palestina, mas a debacle

da direita sionista e a crise em que essa

mergulhou Israel criará, talvez pela primei-

ra vez desde 1948, um clima de discussão

seria sobre a paz com os palestinos.

Abu Ammar com suas sete vidas estará

mais forte para encarar essa nova conjun-

tura como líder internacionalmente reco-

nhecido de um governo palestino no exílio,

em Tunis, do que como chefe de alguns

milhares de guerrilheiros mergulhados no

caos da guerra do Líbano. £ estará a

postos com seu revólver na cintura mas seu,

ramo de oliveira na mão.

Aos otimistas incorrígiveis, aos que se

obstinam em lutar por uma paz justa no

Oriente-Médio se permite supor que os

israelenses livres do fanatismo beguinista e

os palestinos livres da hipoteca síria e dos

seus extremistas irredutíveis, poderão um

dia entabular a conversa à volta da oli-

veira.

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