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Saberes docentes - Dom Bosco

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19 a 21 de julho de 2006<br />

<strong>Saberes</strong> <strong>docentes</strong><br />

Da teoria à prática, da ação à reflexão


Logomarca: Opusmultipla — Comunicação Integrada S.A.<br />

Capa: Gilberto Soares dos Santos<br />

Planejamento gráfico: Gilberto Soares dos Santos<br />

Análise lingüística: Bernadete Monteiro<br />

João Daniel Bervique<br />

Yara Wojslaw Pereira Dias<br />

Revisão: Tatiane Valéria R. de Carvalho<br />

Diagramação: Marline Meurer<br />

Impressão: Gráfica <strong>Dom</strong> <strong>Bosco</strong><br />

Tiragem: 1 300 exemplares<br />

“As informações contidas nos artigos são de inteira responsabilidade dos respectivos autores”.


II CONGRESSO DE EDUCAÇÃO<br />

DOM BOSCO<br />

19 a 21 de julho de 2006<br />

SABERES DOCENTES<br />

DA TEORIA À PRÁTICA, DA AÇÃO À REFLEXÃO


II CONGRESSO DE EDUCAÇÃO<br />

DOM BOSCO<br />

19 a 21 de julho de 2006<br />

SABERES DOCENTES<br />

DA TEORIA À PRÁTICA, DA AÇÃO À REFLEXÃO<br />

Comissão Organizadora<br />

Anneliese Alcoba Ruiz<br />

Cristiane Sliva<br />

Laurilea Mafra de Souza Galdi<br />

Luciane Lipmann<br />

Maria Lúcia Castellano<br />

Marineide Look Azevedo<br />

Marta Helena Terra<br />

Patricia Silva<br />

Samira Dib<br />

Silvana P. Vaz<br />

Comissão de Programação e Avaliação Científica<br />

Comissão de Comunicação<br />

Nair Lobo Pacheco<br />

Rosane de Mello Santo Nicola<br />

Samira Dib<br />

Edson José de Oliveira Santos<br />

Polyana Burko Krelling


Sumário<br />

Apresentação 9<br />

I<br />

Diversidades de ações sociais e de representações: diversidade de<br />

gêneros e em gêneros — Angela Paiva Dionísio 11<br />

II<br />

Aspectos semânticos e discursivos no texto jornalístico — Sandra Batista<br />

da Costa 31<br />

III<br />

Reflexibilidade: alternativas de intervenção na prática pedagógica — Joana<br />

Paulin Romanowski 47<br />

IV<br />

Projetos, currículo e aprendizagem na Educação Básica e Superior — Marcos<br />

Cordiolli 55<br />

V<br />

Planejando e analisando as atividades didáticas em sala de aula —<br />

Marielda Ferreira Pryjma 81<br />

VI<br />

O relevante papel do professor no ensino de Matemática — Ângela<br />

Ferreira Pires da Trindade 89<br />

VII<br />

Qualidade de vida, subjetividade e interação — Fernanda Pires Bertuol<br />

VIII<br />

Gestão de pessoas: formação de uma equipe bem-sucedida — Marilda<br />

Corbelini 103<br />

95


Apresentação<br />

Os professores são os criadores da sua atividade profissional,<br />

mas também são criações de seu local de trabalho.<br />

Hargreaves (2002)<br />

O Colégio <strong>Dom</strong> <strong>Bosco</strong>, reunindo as unidades Ahú, Batel e Mercês, tem<br />

promovido, nos últimos anos, seminários de Educação, objetivando viabilizar<br />

aos gestores, professores e equipe administrativa da instituição, programas de<br />

formação continuada, proporcionando aperfeiçoamento educacional.<br />

Os eventos se ampliaram, adquirindo caráter de Congresso em 2005 e,<br />

neste ano, consolida-se como o II Congresso de Educação <strong>Dom</strong> <strong>Bosco</strong>, intitulado<br />

SABERES DOCENTES — da teoria à prática, da ação à reflexão.<br />

Este livro é resultado do esforço conjugado de profissionais de educação<br />

que, em parceria com o Colégio e o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em<br />

Educação (CPDE) da Editora <strong>Dom</strong> <strong>Bosco</strong>, socializam experiências de docência<br />

e gestão na Educação Básica e no Ensino Superior, por meio desta publicação<br />

e de sua participação no evento sediado na unidade Batel, no período de 19 a<br />

21 de julho de 2006.<br />

A temática geral da práxis pedagógica desdobra-se em três eixos: letramento<br />

e gêneros textuais; planejamento, metodologia de ensino-aprendizagem<br />

e reflexão sobre a ação docente; e gestão de pessoas.<br />

No eixo letramento e gêneros textuais, expõe-se o conhecimento dinâmico<br />

da língua, fornecendo aos <strong>docentes</strong> das diversas áreas e fases de ensino<br />

básico um aperfeiçoamento de sua educação lingüística, para que tenham instrumental<br />

científico em sua atuação profissional, uma vez que suas práticas<br />

são de natureza sociocomunicativa e contribuem no letramento dos alunos.<br />

No eixo planejamento, metodologia e reflexão sobre a ação docente,<br />

estabelece-se uma espiral com pontos convergentes e divergentes, tal qual o<br />

percurso da sociedade contemporânea, admitindo novas visões e novas estruturas<br />

sociais, discutindo princípios da vida cidadã que perpassam a ciência, a<br />

tecnologia e a pluralidade cultural, imbricados na organização do trabalho docente,<br />

nas atividades didáticas e na atitude reflexiva desse profissional.<br />

Finalmente, no eixo de gestão de pessoas, compartilham-se as inquietações<br />

da atual sociedade, vivendo num paradoxal processo de gestão de vida<br />

pessoal e profissional, entre o individual e o coletivo, o público e o privado,<br />

a qualidade de vida das organizações sociais e a deterioração da dimensão<br />

humana.


10<br />

Agradecemos de modo especial aos autores que prontamente nos enviaram<br />

seus textos inéditos, em tempo hábil para a publicação. Todo esse movimento<br />

representa a gestão integrada de diversas ações desenvolvidas dentro<br />

e fora da escola, pois a docência na educação básica não pode ocorrer isolada.<br />

Não só os professores e a equipe administrativa estão envolvidos na execução<br />

da proposta pedagógica, mas também os alunos, as famílias e as comunidades<br />

leiga e científica.<br />

Antônio Nóvoa, em conferência intitulada “Avaliação das escolas e<br />

dos professores”, no 4 o Congresso Internacional de Avaliação, em São Paulo<br />

(12/7/2006), declarou a extrema necessidade de que a escola lute por sua<br />

credibilidade na sociedade, cuide de sua imagem pública, pois uma grande<br />

desconfiança paira sobre ela advinda das demais instituições nesta sociedade<br />

do conhecimento.<br />

Esse alerta tem relação direta com iniciativas como a produção deste<br />

livro, que significa o registro, a permanência de um tempo de reflexão e formação<br />

continuada de profissionais da educação. Por meio dele, materializamse<br />

discursos de diferentes áreas de conhecimento, buscando contribuir para o<br />

processo de reflexão coletiva sobre o trabalho docente.<br />

Curitiba, 19 de julho de 2006.<br />

Rosane de Mello Santo Nicola,<br />

Comissão de Programação e Avaliação Científica<br />

do II Congresso de Educação <strong>Dom</strong> <strong>Bosco</strong> e<br />

Coordenadora Científica do<br />

Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Educação


Diversidades de ações sociais e<br />

de representações: diversidade de<br />

gêneros e em gêneros<br />

Angela Paiva Dionísio 1<br />

Introdução<br />

Parece-me essencial começar este texto esclarecendo que toda a discussão<br />

se dará em torno de dois conceitos básicos, que são gêneros textuais e letramento.<br />

Devido à própria amplidão de tais conceitos, devo antecipar que priorizei<br />

alguns aspectos para sistematizar minha exposição. Estes aspectos são:<br />

1. Distinção entre tipo textual, gênero textual e domínio discursivo;<br />

2. Concepção de gênero textual como ação sociorretórica;<br />

3. A relação gêneros textuais, intertextualidade e letramento;<br />

4. Diversidade na forma de representar, diversidade de letramentos. Na<br />

realidade, multiletramento!<br />

5. Lendo mais sobre o tema.<br />

1. Distinção entre tipo textual, gênero textual e domínio<br />

discursivo<br />

I<br />

A distinção entre os três termos tipo textual, gênero textual, e domínio<br />

discursivo se justifica essencialmente por razões didáticas para o professor,<br />

mas não deve consistir numa preocupação basilar a ser tratada nas salas de<br />

1 Professora da Universidade Federal de Pernambuco (Recife), com Pós-doutorado pela Universidade da Califórnia<br />

(EUA) e Doutorado pela UFPE.<br />

11


12<br />

aula do ensino fundamental e médio. Seguindo Marcuschi (2002:22-25), os<br />

tipos textuais são designações teóricas dos tipos: narrativo, argumentativo,<br />

descritivo, injuntivo, explicativo e dialogal, que se caracterizam como (i)<br />

“constructos teóricos definidos por propriedades lingüísticas intrínsecas”, (ii)<br />

“seqüências lingüísticas ou seqüências de enunciados no interior dos gêneros e<br />

não são textos empíricos”, bem como apresentam uma nomeação que “abrange<br />

um conjunto limitado de categorias teóricas determinadas por aspectos lexicais,<br />

sintáticos, relações lógicas, tempo verbal”. Por sua vez, os gêneros podem ser<br />

definidos, como (i) “realizações lingüísticas concretas definidas por propriedades<br />

sociocomunicativas”, (ii) “textos empiricamente realizados cumprindo funções<br />

em situações comunicativas”, cuja “nomeação abrange um conjunto aberto e<br />

praticamente ilimitado de designações concretas determinadas pelo canal, estilo,<br />

conteúdo, composição e função”, como, por exemplo, parecer médico, laudo<br />

técnico, palestra, telefonema, sermão, carta pessoal, romance, bilhete, reportagem<br />

jornalística, notícia jornalística, horóscopo, piada, conferência, e-mail, batepapo<br />

por computador, etc. Já o termo domínio discursivo se refere às instâncias<br />

discursivas (discurso jurídico, discurso jornalístico, discurso religioso, discurso<br />

educacional, etc.) dos gêneros, ou seja, sinaliza a origem discursiva deles, “já<br />

que os gêneros são institucionalmente marcados. Um domínio constitui práticas<br />

discursivas dentro das quais podemos identificar um conjunto de gêneros que às<br />

vezes lhe são próprios como práticas ou rotinas comunicativas institucionalizadas”<br />

(Marcuschi, 2002:22-25).<br />

Vejamos a título de ilustração o texto (1).<br />

Você não quer contar esta história para seus filhos, quer?<br />

(1)


Trata-se de uma propaganda do Greenpeace que focaliza a luta pela preservação<br />

do meio ambiente, pela não-poluição dos rios, por exemplo. A história<br />

de um patinho que era feio, por ser o único patinho negro da ninhada, faz parte<br />

do elenco das histórias que ouvimos na infância e contamos aos nossos filhos:<br />

O Patinho Feio, conto de Hans Christian Andersen. A retomada dessa história na<br />

propaganda se dá predominantemente pela imagem, com destaque para a camada<br />

de óleo que cobre a penugem da ave. Notem-se também as manchas de<br />

óleo no rio e nas pegadas do patinho. A estrutura “Você não quer contar esta<br />

história para seus filhos, quer?” que se dirige diretamente ao leitor, associada<br />

às relações intertextuais sugeridas funcionam como recursos argumentativos.<br />

Enfim, o texto (01) é do tipo argumentativo, o gênero textual é uma propaganda,<br />

e o domínio discursivo é o publicitário.<br />

2. Concepção de gênero textual como ação sociorretórica<br />

A noção de gênero como ação sociorretórica tem por base a escola<br />

americana, influenciada por Bakhtin, mas com forte contribuição de antropólogos,<br />

sociólogos e etnógrafos, que se preocupam com a organização social<br />

e as relações de poder que os gêneros encapsulam. Carolyn Miller e Charles<br />

Bazerman são dois grandes representantes dessa escola. Para Miller (1994),<br />

gêneros textuais são ações tipificadas que os indivíduos realizam em respostas<br />

a situações também tipificadas socialmente. Por sua vez, Bazerman (2005:23)<br />

salienta que “os fatos sociais consistem em ações sociais significativamente<br />

realizadas pela linguagem, ou atos de fala. Esses atos são realizados através de<br />

formas textuais padronizadas, típicas e, portanto, inteligíveis, ou gêneros, que<br />

estão relacionados a outros textos e gêneros que ocorrem em circunstâncias<br />

relacionadas”.<br />

Vejamos a situação-exemplo apresentada por Bazerman.<br />

Quando invocamos um gênero, tal como um editorial de jornal, estamos<br />

invocando não apenas um modelo de um tema oportuno, palavras avaliativas e<br />

emocionais, e recomendações políticas. Estamos invocando o papel do jornalismo<br />

e do comentário na política contemporânea, o poder cívico e econômico de de-<br />

terminado jornal, a reputação pública dos seus jornalistas e a influência de seus<br />

leitores. Estamos invocando eventos nos quais participam muitos jogadores, uma<br />

topologia que evolui com o tempo e um habilidoso senso de timing necessário<br />

para o sucesso de qualquer editorial. Estamos invocando os padrões de crítica e<br />

de bom gosto dentro de uma comunidade, as atitudes correntes com respeito a<br />

figuras políticas e os temas mais polêmicos do momento. É nesse ambiente com-<br />

plexo que o editorial tem que agir (Bazerman, 2006).<br />

Gêneros são, portanto, concebidos como tipos de enunciados que estão<br />

associados a um tipo de situação retórica, ou seja, “com os tipos de atividades<br />

que as pessoas dizem, fazem e pensam como partes dos enunciados” (Bazerman,<br />

2006).<br />

13


14<br />

Como “os gêneros são espaços familiares aonde vamos para criar uma<br />

ação comunicativa inteligível uns com os outros e são os guias que nós usamos<br />

para explorar o não-familiar” (Bazerman, 2006), o escritor pode jogar com<br />

uma variedade de formas em diferentes situações sociais e com diferentes<br />

objetivos. Os avanços tecnológicos têm colaborado e muito para esse jogo de<br />

experimentação de arranjos no processamento textual. Podemos afirmar com<br />

segurança que a maior liberdade na manipulação dos gêneros textuais tem<br />

relação direta com a audiência e com o meio físico que transmite o gênero.<br />

Basta pensarmos, por exemplo, nas charges animadas, nos infográficos ou nos<br />

diagramas em movimento.<br />

Essa noção de padrão não-familiar de apresentação dos gêneros textuais<br />

deve constituir um aspecto de fundamental interesse para os professores de<br />

todas as linguagens, uma vez que o padrão inesperado de disposição gráfica<br />

provoca diferentes reações nos leitores, desde fascinação até rejeição. Dionisio<br />

(2006:138), com o intuito de observar os movimentos oculares de leitores<br />

no processamento de gêneros com diferentes graus de informatividade visual,<br />

conceito que é retomado ao longo deste artigo, realizou uma pesquisa com 10<br />

leitores (3 crianças, entre 7 e 10 anos; 2 adolescentes, 18 anos; e 5 adultos,<br />

entre 21 e 55 anos, dentre eles, 3 professores de língua portuguesa), na qual foi<br />

constatado que os adolescentes e os adultos tendem a rejeitar textos que têm<br />

uma orientação de escrita diferente do Mundo Ocidental, como, por exemplo, o<br />

trecho Paradas Desastrosas do texto Como Funciona o Pit Stop de Fórmula 1?,<br />

extraído da seção Perguntas dos Leitores, da revista Superinteressante (2).<br />

Localizado no canto direito, na parte debaixo, da segunda página, o trecho Paradas<br />

Desastrosas está escrito em linhas diagonais, progressivamente inclinadas<br />

de cima para baixo. “Eu achei um pouco desorganizado. As informações em “Parada<br />

Desastrosas” são difíceis de ler, porque ele não está na posição vertical”,<br />

“Eu não gostei do lugar das “Paradas Desastrosas”. Parece que não havia mais<br />

espaço, então ele (o jornalista) jogou lá. Foi necessário eu quebrar o pescoço<br />

para ler. Isso não estimula a leitura”, são alguns dos depoimentos colhidos.<br />

As alterações no processo de construção dos gêneros provocam, conseqüentemente,<br />

uma mudança também na forma de ler os textos. O dinamismo<br />

da imagem do filme passou para a charge virtual, para um pôster interativo; a<br />

disposição do texto na página oscila entre os moldes ocidentais e orientais de<br />

escrita. Esses são alguns exemplos que deixam transparecer a necessidade<br />

de revisão do conceito de leitura e de suas estratégias que utilizamos em nossas<br />

aulas. Conseqüentemente, se os gêneros se materializam em formas de<br />

representação multimodal (linguagem alfabética, disposição gráfica na página<br />

ou na tela, cores, figuras geométricas, etc.) que se integram na construção<br />

do sentido, o conceito de letramento também precisa ir além do meramente<br />

alfabético. Precisamos falar em multiletramento! Um exemplo? Basta uma visita<br />

ao site http://revistaescola.abril.uol.com.br/especiais/posteres para uma


(2)<br />

15


16<br />

breve demonstração da visualidade da escrita com fins didáticos. O pôster “A<br />

Formação da Cárie” lido aqui neste artigo e lido diretamente na tela de um<br />

computador, no site acima indicado, requer estratégias de leituras distintas,<br />

exige o domínio técnico de uso dos suportes envolvidos, além do conhecimento<br />

do complexo, mas fantástico, conjunto de linguagens e formas de representação<br />

do conhecimento. Como desafio, convido o meu leitor a ler este pôster<br />

também na versão infográfico animado.<br />

3. A relação gêneros textuais, intertextualidade e letramento<br />

Ao processarmos um texto verbal ou pictorial, sempre recorremos a outros<br />

textos, fazendo referência, por exemplo, ao seu conteúdo, ao seu estilo, à<br />

sua forma estrutural, com os mais variados propósitos discursivos. Compactuando<br />

com Bazerman (2006) ao afirmar que “nossa originalidade e nossa habilidade<br />

como escritores advêm das novas maneiras como juntamos essas palavras para<br />

se adequarem às situações específicas, às nossas necessidades e aos nossos<br />

propósitos específicos”, saliento a importância de se investigar como se manifesta<br />

a intertextualidade entre gêneros verbais e pictoriais em materiais didáticos<br />

de diferentes áreas de conhecimentos para o ensino fundamental e médio.<br />

A intertextualidade, portanto, deve se configurar como um dos grandes<br />

temas de interesse dos professores de todas as disciplinas, nas situações de leitura<br />

e de escrita, em que se queira perceber como os alunos se apropriam das<br />

várias fontes de pesquisa e as transpõem para a produção de seus textos. Cabe<br />

aos professores de todas as áreas preocupar-se com a atividade de análise de<br />

(3)


intertextualidade. Com isso, amplia-se o campo de investigação das relações<br />

intertextuais, rompendo-se as fronteiras do texto literário e das paredes das<br />

salas de aula de língua portuguesa. Como assegura Bazerman (2004:84), “nós<br />

criamos os nossos textos a partir do oceano de textos anteriores que estão à<br />

nossa volta e do oceano de linguagem em que vivemos. E compreendemos os<br />

textos dos outros dentro desse mesmo oceano”.<br />

Numa rápida consulta a alguns manuais didáticos, observamos diferentes<br />

usos do princípio da intertextualidade tanto na construção dos capítulos em<br />

si como na construção dos exercícios de verificação de aprendizagem. Vejamos<br />

alguns casos.<br />

No exemplo (4), para introduzir o conceito de estatística são utilizados<br />

fragmentos de uma matéria jornalística que demonstram os indicadores sociais<br />

do Brasil nos anos 90 em forma de gráficos. Louvável é a atitude de trazer<br />

para o texto didático vozes de outras instâncias sociais, porém observa-se que<br />

não há uma só menção aos gráficos ali apresentados. Apenas uma referência<br />

é feita à manchete do jornal, numa estrutura pouco esclarecedora. A intertextualidade<br />

aqui com o IBGE e com a Folha de S. Paulo parece ter meramente<br />

um cunho figurativo, se o professor não tomar para si a tarefa de explorar tais<br />

vozes.<br />

Já em (5), na seção Atividades, o exercício 3 recorre a uma notícia publicada<br />

na revista Época sobre o derramamento de óleo, que serve de base<br />

para a construção de um problema matemático. Diferentemente da situação<br />

anterior, o intertexto aqui estabelece uma função discursiva com a disciplina e<br />

com o conteúdo explicitada na proposição da tarefa.<br />

Uma outra situação discursiva encontrada que apresento para reflexão<br />

consiste nos casos de materiais didáticos que selecionam alguns termos dos<br />

enunciados dos exercícios e apresentam um intertexto sobre eles, na maioria<br />

das vezes, escrito pelo próprio autor do livro, como se verifica em (6). A justificativa<br />

apresentada pelos manuais se sustenta no favorecimento da interdisciplinaridade.<br />

Em tais casos, geralmente, o texto original não é do autor do livro; no<br />

exemplo em análise, uma questão de vestibular da PUC—SP, o termo MAPA é<br />

destacado pelo autor do LD com um link para dois blocos de textos, visualmente<br />

salientes na página sobre o tema Cartografia. Cerca de 50% da página é<br />

ocupada por tais informações. Será que tal intertexto realmente está, quanto à<br />

localidade, coerente? Será que a informação sobre o curso de cartografia, dada<br />

no início da primeiro oração do problema proposto, não desviará a atenção do<br />

aluno do assunto em si?<br />

17


18<br />

(4)


(6)<br />

(5)<br />

19


20<br />

Intertextualidade entre imagens<br />

Um outro aspecto interessante quanto à intertextualidade reside no fato de<br />

esse recurso não se constituir uma particularidade do texto verbal. Arbex (2000)<br />

sugere que “nos mesmos termos que o conceito de intertextualidade, ou seja,<br />

como processo de produtividade de uma imagem que se constrói como absorção<br />

ou transformação de outras imagens”, deve-se usar o termo intericonicidade. A<br />

relação entre o texto-fonte (telas originais) e a releitura (telas produzidas por<br />

Maurício de Sousa, por exemplo) é de intericonicidade explícita, uma vez que<br />

as telas recriadas e as originais aparecem lado a lado nas diversas situações<br />

em que é apresentada a incursão do famoso quadrinista nas artes plásticas,<br />

seja na exposição que percorreu todo o Brasil, dirigida ao grande público; nas<br />

páginas do livro ou na tela do computador (CD), mídias em que foram publicadas<br />

esses novos quadros. Importante lembrar que ler com proficiência requer<br />

também imergir nas relações intertextuais.<br />

Vaz, Mozdzenski e Silva (2004:05), em Da Obra-Prima ao Pastiche:<br />

Intertextualidade e Intericonicidade nos “Quadrões”, de Maurício de<br />

Sousa, consideram essa relação estabelecida entre as telas de Maurício de<br />

Sousa e as obras-primas uma pastichização. Pastiche é<br />

uma prática de imitação que se distingue da subversão paródica por seu objetivo<br />

lúdico, mas não militante. (...) o pastichador deixa indícios do objetivo prag-<br />

mático de seu enunciado por uma indicação no paratexto ou dando um caráter<br />

caricatural aos conteúdos ou às marcas estilísticas (Charaudeau e Mainguenau,<br />

2004:371).<br />

Em outras palavras, o pastiche deixa claro para o leitor que se trata de<br />

uma brincadeira com o texto-fonte, marcando o novo texto com pistas que<br />

conduzem a essa compreensão. A reprodução do fundo da Mona Lisa em Mônica<br />

Lisa é uma dessas marcas.<br />

(7)<br />

(7)


É importante que não se veja a pastichização realizada por Maurício de<br />

Sousa como uma dessacralização das obras-primas, mas como uma ampliação<br />

das relações discursivas na linguagem visual, assegurando também a conversa<br />

entre textos visuais. No caso dos Quadrões, parece-me constituir uma boa trilha<br />

em direção às obras-primas da pintura.<br />

Propaganda, infográfico, gráfico, notícia, exercício escolar, tela de pintura,<br />

verbete foram alguns dos gêneros textuais que já utilizei com intertexto<br />

nesse gênero que construo: artigo científico. Há, portanto, uma variedade de<br />

gêneros que se entrecruzam e tecem um outro gênero. Todo o processo de<br />

construção exige de mim, como autora, e de você, como leitor, uma competência<br />

metagenérica, na terminologia de Koch (2006). Revelam também muitas<br />

de nossas experiências sociais mediadas por textos, ou seja, nossas práticas<br />

de letramento.<br />

Letramento é um processo social que permeia nossas rotinas diárias (da<br />

embalagem do xampu que usamos no banho ao levantar, às caixas de cereal e de<br />

leite do café da manhã ou ao display do celular, daí os sms 1 que recebemos durante<br />

todo o dia). Tudo está encravado de documentos e práticas de letramento.<br />

4. Diversidade na forma de representar, diversidade de<br />

letramentos. Na realidade, multiletramento!<br />

Neste artigo, vou brevemente tratar da visualidade de textos escritos.<br />

O discurso científico, geralmente, comporta, no interior de sua escrita, textos<br />

visuais, fórmulas matemáticas, por exemplo. Tais textos não funcionam como<br />

mera ilustração, mas sim, no mínimo, como complementos do texto verbal.<br />

Não são raros os casos em que os textos visuais são responsáveis pela sistematização<br />

de informações não-contidas no texto escrito ou pelo menos superficialmente<br />

mencionadas no texto escrito.<br />

Rowley-Jolivet (2002:22) salienta que o “fato de as ciências terem, ao longo<br />

dos tempos, desenvolvido seus próprios e específicos modos visuais de concepção<br />

e comunicação indica claramente a inabilidade de os modos lingüísticos<br />

sozinhos satisfazerem plenamente as necessidades cognitivas e comunicativas<br />

das ciências”. Dessa forma, letramento científico significa familiaridade com<br />

fatos e concepções científicos básicos, bem como habilidade para ler e escrever<br />

representações complexas de descobertas científicas. Na representação dessas<br />

concepções e desses fatos, a noção de contínuo da informatividade visual dos<br />

textos, de Berhardt (2004), é de extrema relevância, uma vez que gêneros<br />

visualmente informativos, como diagramas, tabelas, gráficos, desenhos anatômicos,<br />

mapas, entre outros, levam em consideração no seu processamento<br />

várias estratégias de controle retórico. Em outras palavras, pode-se falar na<br />

existência de um contínuo informativo visual dos gêneros textuais escritos, que<br />

vai do menos visualmente informativo ao mais visualmente informativo.<br />

1 Short message service — serviço de mensagens curtas (disponível pelo celular)<br />

21


22<br />

Gráfico 1: Contínuo da informatividade visual da escrita proposto por Berhardt<br />

Textos<br />

visualmente<br />

pouco<br />

informativos<br />

+ verbal<br />

– visual<br />

– verbal<br />

+ visual<br />

Textos<br />

visualmente<br />

muito<br />

informativos<br />

Analisando notícias científicas, Spinks (2001:160) ressalta que gráficos<br />

e fotografias podem “influenciar decisões sobre onde e quanto proeminentemente<br />

as histórias científicas se tornam. (...) Também o uso de gráficos bem<br />

elaborados e dinâmicos pode assegurar que a ciência atinja as manchetes”.<br />

Dionísio (2005:194) destaca que a edição de janeiro de 1997 da Superinteressante<br />

traz o tema cosméticos como assunto de capa. “Por não ser um<br />

tópico tradicionalmente considerado científico, para manter o perfil da revista<br />

de abordar cientificamente as matérias apresentadas e para cumprir com a função<br />

jornalística de divulgação imediata dos fatos, o tom de cientificidade é dado<br />

na montagem da capa tanto no plano verbal (manchete, lide) como no pictorial<br />

(fotografia e gráfico). Na manchete nominal — Cosméticos Científicos — e no<br />

lide — Agora a beleza virou assunto de cientistas — o qualificador científicos e<br />

o verbo indicador de estado permanente virar atestam o novo status do tema:<br />

de tópico inerentemente ligado à beleza, a assunto feminino, cosméticos, foi<br />

inserido no âmbito das pesquisas científicas, uma vez que as autoridades sociais<br />

responsáveis por tais pesquisas,<br />

ou seja, os cientistas, ao estudarem<br />

o tema, atribuem-lhe novo enfoque<br />

e, conseqüentemente, novo valor<br />

social. A imagem se compõe de uma<br />

fotografia, um close de uma mulher,<br />

à qual se sobrepõem imagens científicas<br />

— ilustrações científicas — que<br />

demonstram, por meio de desenhos<br />

das células que simbolizam uma visão<br />

microscópica da ação dos novos cosméticos<br />

na pele. O vocabulário visual,<br />

no interior do gráfico, indica as partes<br />

do corpo humano (células e pele) e a<br />

ação das cápsulas e dos filtros solares,<br />

como agentes de rejuvenescimento e<br />

de proteção da pele. O novo nessa<br />

matéria de capa, isto é, a abordagem<br />

científica do tema fica evidente verbal<br />

e visualmente.”<br />

(8)


Nascimento (2006:9) em pesquisa realizada comigo no projeto “Multimodalidade<br />

Discursiva: Orquestrando Palavras e Imagens”, desenvolvido no Nelfe (Núcleo<br />

de Estudos Lingüísticos da Fala e Escrita — UFPE), analisou gêneros predominantemente<br />

visuais em livros didáticos de ciências exatas (Matemática, Física e Química)<br />

e biológicas (Biologia) e seus usos na sala de aula. Segundo o autor, “muitos alunos<br />

têm bastantes dificuldades ao tentar entender um gráfico ou diagrama, pois essas<br />

representações não fazem parte do seu cotidiano. Os professores equivocam-se ao<br />

pensar que, só porque as compreendem, os alunos também lêem com rapidez<br />

tais imagens técnicas. Sabe-se que tal leitura não é tão simples assim, visto<br />

que os diagramas e outras ilustrações técnicas projetam seu conteúdo através<br />

de uma série de convenções gráficas especializadas. As convenções são inúmeras<br />

e variam de uma disciplina para outra, por isso se fazer necessário o<br />

letramento visual. Depende, então, dos <strong>docentes</strong> que os alunos desenvolvam a<br />

capacidade de entender e interpretar corretamente as representações técnicas<br />

e científicas. Lowe (2001) ainda sugere que o ensino dessas habilidades deve<br />

ter início desde a pré-escola, instruindo as crianças a realizar desenhos simples<br />

e, paulatinamente, chegar à imagem técnica. Não é aconselhável dar já pronta<br />

a representação especializada ao estudante. O letramento visual é um componente<br />

essencial na educação científica e tecnológica de hoje.”<br />

Wysoki (2004) afirma que a imagem de um texto constitui um forte<br />

indício para identificação do gênero textual. Tal afirmação se torna facilmente<br />

verificável em textos com maior observância das normas padronizadas, mas,<br />

com as facilidades de manipulação gráfica em computadores, atreladas ao espírito<br />

criativo dos produtores textuais, muitas vezes a imagem visual do texto<br />

não garante de imediato a identificação do gênero. Vejamos um exemplo em<br />

que a utilização do recurso da infografia despista o leitor.<br />

(9)<br />

23


24<br />

Minha primeira reação ao me deparar com essas duas páginas no interior<br />

da Superinteressante (dez. 2000) foi uma mistura de encantamento e curiosidade.<br />

Encantamento pela beleza visual do que naquele momento me parecia<br />

a fotografia de uma estante repleta de livros usados (veja que, como leitora<br />

não-especialista em Comunicação, achei que seria uma fotografia! O gênero<br />

textual para mim, à primeira vista, era uma fotografia!). Curiosidade, porque<br />

bem sei que, se “aquilo” fosse uma fotografia, teria um propósito comunicativo<br />

maior ali, pois a fotografia como texto começava e terminava naquelas páginas<br />

duplas. Não estava associada a nenhum outro texto. Então, certamente, não<br />

seria uma mera fotografia. Após essa leitura de mera identificação do visual,<br />

resolvi ler o verbal, ou seja, fui ao início do texto, que se encontra no dorso do<br />

primeiro livro, à esquerda da estante, na primeira prateleira, com a seguinte<br />

indagação: que gênero textual estará emoldurado nessa estante?<br />

A leitura do dorso do primeiro livro me situou em relação ao que seria<br />

aquele texto: uma “estante de conhecimentos” que contém a história da História<br />

das Idéias, como afirma o título. A íntima relação entre os textos visual<br />

e verbal se consagra já no sobretítulo: Biblioteca Básica. As imagens dos<br />

livros aqui se fundem como ilustrações das obras dos pensadores da história<br />

da humanidade e como espaço físico para a escrita do texto do jornalista. A<br />

palavra não é simplesmente posta numa folha de papel, mas sim sob a imagem<br />

de dorsos de livros.<br />

A escrita está centralizada, exigindo uma<br />

leitura de cima para baixo.


O texto verbal está hospedado no dorso dos livros, alinhados diacronimamente<br />

na estante. Assim, proceder à leitura consiste em ler os dorsos. Naquele<br />

momento, deparei-me como outra exigência proveniente da disposição<br />

gráfica do texto: para continuar a leitura precisaria mudar a posição da revista,<br />

porque a posição da escrita não é mais a convencional no mundo ocidental, isto<br />

é, da esquerda para a direita em linhas horizontais.<br />

A escrita está no dorso dos livros, exigindo uma leitura da coluna / estante da direita<br />

para a esquerda.<br />

A leitura desse texto requer uma postura diferente: o leitor deverá lê-lo, a<br />

partir do segundo dorso, de cima para baixo e da coluna / estante da direita para<br />

a coluna / estante da esquerda, como predomina na escrita do mundo oriental.<br />

Posso sistematizar as orientações de leitura desse texto em quatro etapas:<br />

a) Direcionamento da leitura global do texto: horizontalmente, da esquerda<br />

para a direita;<br />

b) Direcionamento da leitura do texto verbal, primeiro dorso: verticalmente,<br />

de cima para baixo;<br />

25


26<br />

c) Direcionamento da leitura do texto verbal, demais dorsos: verticalmente,<br />

de cima para baixo e da esquerda para a direita;<br />

d) Direcionamento da leitura do texto verbal e visual entre as prateleiras:<br />

de cima para baixo e da direita para a esquerda.<br />

Para melhor visualização, vou tomar um fragmento do texto em estudo<br />

nas duas posições: na vertical, posição original, e na horizontal, posição escolhida<br />

para leitura. Interessante verificar que, após inverter a posição da revista, a<br />

leitura dos dorsos, a partir do segundo, enquadra-se na norma-padrão de escrita<br />

nas sociedades ocidentais. A forma de disposição da escrita se altera, mas o<br />

leitor busca, através do manuseio do suporte do texto, adequar a disposição<br />

gráfica ao seu método original de ler.<br />

Interessante também observar como se dá a ocupação do espaço<br />

consagrado para indicação de autor e título nos dorsos dos livros, os quais,<br />

numa comparação grosseira, equivaleriam a blocos de parágrafos. No espaço<br />

do autor, isto é, na parte inferior do dorso, estão localizados (i) os grandes<br />

pensadores, ou seja, os próprios autores, como, por exemplo, Platão, e (ii) as<br />

escolas filosóficas, como em PRÉ-SOCRÁTICOS. Já no espaço consagrado ao<br />

título, estão inseridas as informações sobre (i) as contribuições dos grandes<br />

pensadores, quando estes já ocupam visualmente o lugar destinado aos autores,<br />

(ii) as características de determinada escola e a citação dos representantes<br />

das escolas filosóficas, quando estas se encontram no espaço normalmente<br />

destinado aos autores. Merece que se destaque ainda a utilização dos dorsos


em cor preta para separar, diacronicamente, as idéias filosóficas no decorrer<br />

dos séculos, desde VI–IV a.C. até os SÉCULOS XX–XXI.<br />

27


28<br />

Do ponto de vista lingüístico-textual, parece-me interessante observar<br />

como a disposição gráfica interage com a progressão informacional, ou seja,<br />

como se estabelecem as relações entre os segmentos textuais. Há o aproveitamento<br />

do espaço, tradicionalmente destinado à identificação do autor, no dorso<br />

do livro, para situar o início dos enunciados que constituem o texto verbal, responsáveis<br />

pela explicitação da evolução histórica das idéias da humanidade.<br />

O termo ARISTÓTELES funciona, visualmente, como identificação do<br />

autor do livro e, sintaticamente, como sujeito da estrutura lingüística “FOI<br />

DISCÍPULO DE PLATÃO, MAS NÃO CONCORDAVA COM A EXISTÊNCIA DE UM<br />

MUNDO SUPERIOR, VOLTANDO SUA ATENÇÃO PARA A REALIDADE SENSÍVEL<br />

E PARA AS CIÊNCIAS DA NATUREZA”. Há, portanto, uma progressão linear<br />

temática e visual.<br />

Como afirma Lemke (2000:269), multiletramentos e gêneros multimodais<br />

podem ser ensinados, mas é necessário que “professores e alunos estejam<br />

plenamente conscientes da existência de tais aspectos: o que eles são, para<br />

que eles são usados, que recursos empregam, como eles podem ser integrados<br />

um ao outro, como eles são tipicamente formatados, quais seus valores e<br />

limitações”. De forma bastante incisiva, Kress e Van Leeuwen (1996:15) asseveram<br />

que em “termos de letramento visual da nova mídia, a escola produz<br />

iletrados”.<br />

5. Lendo mais sobre o tema<br />

Como os temas abordados neste artigo nem de longe se esgostaram,<br />

vou finalizar com uma sugestão de leituras que possibilitam, a meu ver, a continuação<br />

dessa conversa. Por onde recomeçar a conversa é uma decisão de cada<br />

leitor. Se quiser variar na língua, também é possível.<br />

— BAZERMAN, C. Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez,<br />

2005.<br />

— ______. Gênero, agência e escrita. São Paulo: Cortez, 2006. (a sair em<br />

agosto)<br />

— DIONÍSIO, A. P.; MACHADO, A. R.; BEZERRA M. A. (Orgs.). Gêneros textuais<br />

& ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.<br />

— HANDA, C. Visual rhetoric in a digital world: a critical sourcebook. New York:<br />

Bedford / ST.Martin’s, 2004.<br />

— KARWOSKI, A. M.; GAYDECZKA, B.; BRITO, K. S. (Orgs.). Gêneros textuais<br />

reflexões e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2006.


— KLEIMAN, A. (Org.). Os significados do letramento. Campinas: Mercado de<br />

Letras, 2000.<br />

— KOCH, I. V.; ELIAS, V. M. Ler e compreender. São Paulo: Contexto, 2006.<br />

— KRESS, G.; VAN LEEUWEN, T. Reading images: the grammar of visual design.<br />

New York: Routledge, 1996.<br />

— MARCUSCHI, L. A.; DIONISIO. A. (Orgs.). Fala e escrita. Belo Horizonte: Autêntica.<br />

— MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Orgs.). Gêneros teorias,<br />

métodos, debates. São Paulo: Parábola, 2005.<br />

— MAYER, R. Multimedia learning. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.<br />

— SCHNEUWLY, B.; DOLZ, J. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas:<br />

Mercado de Letras, 2004.<br />

— WYSOCKI, A. The multiple media of texts: how onscreen and paper texts incorporate<br />

words, imagens, and other media. In: BAZERMAN, C.; PRIOR, P. What<br />

writing does and how it does it: an introduction to analyzing texts and textual<br />

practices. New York: Lawrence Erlbaum Associates, 2004.<br />

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Gêneros do discurso na escola. São Paulo: Cortez, 2000. v. 5. p.17-45.<br />

CHARAUDEAU, P.; MAINGUENEAU, D. Dicionário de análise do discurso. São<br />

Paulo: Contexto, 2004.<br />

DIONISIO, A. Gêneros multimodais e multiletramento. In: KARWOSKI, A. M.;<br />

GAYDECZKA, B.; BRITO, K. S. (Orgs.). Gêneros textuais reflexões e ensino.<br />

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DIONISIO, A. A multimodalidade discursiva na atividade oral e escrita. In:<br />

MARCUSCHI, L. A.; DIONISIO, A. (Orgs.). Fala e escrita. Belo Horizonte:<br />

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DIONÍSIO, A. P.; BESERRA, N. (Orgs.). Tecendo textos, construindo experiências.<br />

Rio de Janeiro: Lucerna, 2003.<br />

DIONÍSIO, A. P. Multimodal genres and multiliteracy: some theoretical and<br />

methodological reflections. 2004, a. (manuscrito)<br />

29


30<br />

______. Multimodal genres in the Brazilian popular scientific magazines:<br />

how do the readers “walk” and “feel” though the texts? 2004, b. (manuscrito)<br />

JEWITT, C.; KRESS, G. Multimodal literacy. New York: Peter Lang.<br />

KLEIMAN, B. A.; SIGNORINI, I. O ensino e a formação do professor. Porto<br />

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KRESS, G. Literacy in the new media age. New York: Routledge, 2003.<br />

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MEURER, J. L.; MOTTA-ROTH, D. (Orgs.). Gêneros textuais. São Paulo:<br />

Edusc, 2002.<br />

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discourse analysis. Georgetown: Georgetown University Press, 2004.<br />

VAZ, A.; MOZDZENSKI, L.; SILVA, M. da C. Da obra-prima ao pastiche: intertextualidade<br />

e intericonicidade nos “quadrões”, de Maurício de Sousa. UFPE:<br />

Programa de pós-graduação em Letras, 2004. (mimeo)<br />

Recife, julho de 2006.


Introdução<br />

II<br />

Aspectos semânticos e discursivos<br />

no texto jornalístico<br />

Sandra Batista da Costa 1<br />

Neste trabalho, temos por objetivo mostrar que algumas noções semânticas<br />

2 e discursivas podem ser abordadas no ensino fundamental e médio a fim<br />

de que se amplie a prática reflexiva sobre o funcionamento de procedimentos<br />

que atuam na constituição do sentido do texto. A compreensão desses recursos<br />

é essencial, porquanto constituem competências lingüísticas e discursivas<br />

fundamentais para formar sujeitos leitores e autores de textos. Analisaremos<br />

dois recursos semânticos: a pressuposição e o acarretamento, mas também<br />

recorreremos à noção de formação discursiva e memória discursiva para indicar<br />

o efeito de sentido decorrente do processo discursivo.<br />

Desde a década de 70, o enfoque no ensino de língua vem alterando-se<br />

sensivelmente. Observamos, cada vez mais, um afastamento de uma relação<br />

pedagógica mecânica com a língua em direção a um trabalho reflexivo sobre<br />

a linguagem. Essa transformação desencadeou outras: a reelaboração de<br />

propostas curriculares, de materiais didáticos e a atualização permanente dos<br />

educadores. Entre tantas outras mudanças, destacamos a crescente preocupação<br />

com a transposição didática de pressupostos que, embora sejam objeto de<br />

pesquisas acadêmicas, não penetram ainda no ensino fundamental e médio.<br />

1 Doutoranda em Lingüística (UNICAMP), Mestre em Lingüística (UFPR), professora do curso de Letras da PUC-PR.<br />

2 Duas obras de Rodolfo Ilari procuram estender a semântica para a sala de aula: Introdução à semântica: brincando<br />

com a gramática e Introdução ao estudo do léxico: brincando com as palavras. A primeira aborda a construção do<br />

sentido especificamente da sintaxe e a outra enfoca as palavras.<br />

31


32<br />

Para que o professor de língua materna possa efetivar o que se tem denominado<br />

reflexão lingüística, ele precisa assimilar aspectos teóricos bem como saber<br />

aplicá-los. Colocamo-nos aqui diante do desafio de fazer que algumas noções<br />

semânticas e discursivas sejam objeto de reflexão, assim como transpostas,<br />

após algumas adequações, para a sala de aula.<br />

Os recursos semânticos<br />

A atualização do sentido de alguns enunciados decorre geralmente de<br />

elementos que estão implícitos nos textos, ou seja, informações que, embora<br />

não tenham sido enunciadas explicitamente, podem ser inferidas pelo leitor<br />

por meio de um raciocínio que parte da própria sentença. A pressuposição<br />

e o acarretamento são recursos semânticos que caracterizam esse trabalho<br />

lingüístico.<br />

Para constituir o sentido dos enunciados, o leitor recorre intuitivamente<br />

aos conteúdos implícitos, embora não tenha, muitas vezes, a consciência dos<br />

recursos lingüísticos que acessa. O papel do professor é fazer que o aluno<br />

perceba esses recursos e compreenda o funcionamento à constituição do sentido.<br />

Frege, filósofo alemão que viveu no final do século XIX, observou que<br />

há um tipo de conteúdo que se pressupõe de certas sentenças 3 , ainda que elas<br />

sejam negadas, colocadas em forma interrogativa ou mesmo na forma condicional.<br />

Se um promotor, por exemplo, encarregado de provar que um réu é culpado,<br />

indaga-lhe:<br />

(1) — Você parou de vender cocaína? 4<br />

O advogado de defesa pode alegar que a pergunta está induzindo o<br />

cliente a assumir uma culpa, pois, caso o réu responda “sim” ou “não”, compromete-se,<br />

isto é, há a pressuposição de que ele vendia cocaína. A sentença<br />

(1) pressupõe:<br />

(2) Você vendia cocaína.<br />

Se foi possível pressupor a sentença (2), é porque (1) sugere que o conteúdo<br />

pressuposto em (2) seja verdadeiro. Mesmo que o enunciado seja negado,<br />

o pressuposto não se altera. Vejamos a sentença que segue:<br />

(3) Você não parou de vender cocaína.<br />

Ainda que a sentença (1) passe para a forma negativa, o pressuposto<br />

(2) permanece. Por conseguinte, uma informação é pressuposta quando ela se<br />

mantém, mesmo que neguemos a sentença que a veicula.<br />

3 Algumas sentenças apresentam recursos que desencadeiam a pressuposição, por exemplo, verbos de mudança de<br />

estado: deixar, começar, parar; verbos implicativos: conseguir, esquecer. Para maiores informações consultar MOU-<br />

RA, Heronides; MELO, Maurílio de. Significação e contexto: uma introdução a questões de semântica e pragmática.<br />

Florianópolis: Insular, 1999; CANÇADO, Márcia. Manual de semântica: noções básicas e exercícios. Belo Horizonte:<br />

UFMG, 2005.<br />

4 Exemplo tirado de OLIVEIRA, Roberta Pires de. Semântica formal: uma breve introdução. Campinas, SP: Mercado<br />

de Letras, 2001, p. 84.


Selecionamos duas notícias para caracterizar os conteúdos pressupostos.<br />

Extinta a pena de morte<br />

Manila — A presidente das Filipinas, Gloria Macapagal Arroyo, assinou ontem<br />

uma lei extinguindo a pena de morte no país. Foi o primeiro ato da presidente após sair do<br />

hospital em que foi internada na quinta-feira com problemas intestinais.<br />

A lei, adotada por unanimidade no início do mês pelo Senado, substitui a pena<br />

de morte pela prisão perpétua. Para a presidente, a mudança “marca o fim de uma era de<br />

justiça vingativa”.<br />

A lei comuta de maneira automática as condenações à morte de cerca de 1.200<br />

presos. Sete execuções aconteceram no país entre 1999 e 2000.<br />

Só faltava a assinatura de Arroyo para as Filipinas se unirem ao grupo de três nações da<br />

região da Ásia — Austrália, Nova Zelândia e Timor Leste — onde não existe a pena capital.<br />

A presidente enfrentou uma forte oposição de setores da sociedade filipina favoráveis<br />

à pena de morte.<br />

Gazeta do povo, 25 de junho de 2006.<br />

Pode-se pressupor da primeira sentença do texto:<br />

a) Uma mulher ocupa a presidência das Filipinas.<br />

b) Nas Filipinas há leis.<br />

c) Umas das funções do presidente é assinar leis.<br />

d) Nas Filipinas havia a pena de morte.<br />

Para checar os pressupostos faremos um dos testes, o da negação:<br />

A presidente das Filipinas, Gloria Macapagal Arroyo, não assinou ontem<br />

uma lei extinguindo a pena de morte no país.<br />

Mesmo que a lei não tivesse sido assinada, infere-se os conteúdos pressupostos<br />

em a, b, c e d.<br />

Vejamos a segunda notícia:<br />

Imposto<br />

R$ 1 mil<br />

é o novo valor que o PCC cobra de pedágio dos criminosos em liberdade que roubam e<br />

traficam drogas no estado de São Paulo. O dinheiro é usado para manter mordomias dos<br />

líderes da facção.<br />

6<br />

bandidos foram mortos porque não quitaram a mensalidade com o grupo.<br />

Gazeta do Povo, 9 de julho de 2006.<br />

É possível pressupor a partir do conteúdo posto que:<br />

a) o PCC exige que criminosos paguem tarifas ao grupo.<br />

b) o valor da tarifa é atualizado.<br />

c) os líderes da facção desfrutam de mordomias.<br />

33


34<br />

d) há criminosos que não pagam suas dívidas.<br />

e) alguns bandidos foram mortos.<br />

f) as taxas devem ser pagas mensalmente.<br />

Para checar os pressupostos, recorreremos, mais uma vez, ao teste da<br />

negação:<br />

R$ 1 mil não é o novo valor que o PCC cobra de pedágio dos criminosos<br />

em liberdade que roubam e traficam drogas no estado de São Paulo.<br />

O dinheiro não é usado para manter mordomias dos líderes da facção.<br />

Seis bandidos não foram mortos porque não quitaram a mensalidade<br />

com o grupo.<br />

Ainda que as sentenças destacadas acima sejam negadas, os pressupostos<br />

a, b, c, d, e devem ser conservados.<br />

Um outro procedimento de inferência é o acarretamento. Esse recurso<br />

semântico decorre de uma relação entre sentenças. Toda vez que a verdade de<br />

uma sentença (a) implica a verdade da sentença (b) ocorre acarretamento 5 .<br />

Se dissermos que:<br />

(4) A Itália ganhou a Copa.<br />

Podemos concluir que:<br />

(5) A Itália participou da Copa.<br />

Mas algo diferente se processa nos exemplos a seguir:<br />

(6) Hoje o sol está brilhando 6 .<br />

Não acarreta:<br />

(7) Hoje está quente.<br />

Ter sol não é condição para estar quente.<br />

Recorremos à chamada a seguir para analisar casos de acarretamento.<br />

Brasileiro volta à Terra<br />

A nave Soyuz TMA-7 com o astronauta Marcos César Pontes, primeiro brasileiro<br />

a ir ao espaço, pousou ontem, às 20h48, perto de Akralyk, no Cazaquistão. A nave russa foi<br />

desacoplada da Estação Espacial Internacional às 17h28. Pontes ficou dez dias em órbita.<br />

A missão custou ao Brasil US$10 milhões. Pontes retornou com o russo Valery<br />

Tocarev e o norte-americano William McArthur, que estavam há seis meses no espaço.<br />

Eles foram levados a Moscou, onde ficarão sob cuidados médicos. Pontes deve se recuperar<br />

em oito dias.<br />

Folha de São Paulo, 9 de abril de 2006.<br />

5 Procuramos sintetizar a noção de acarretamento. Para maiores detalhes ler CANÇADO, Márcia. Manual de semântica:<br />

noções básicas e exercícios. Belo Horizonte: UFMG, 2005 e CHIERCHIA, Gennaro. Semântica. Campinas, SP:<br />

UNICAMP; Londrina, PR: EDUEL, 2003.<br />

6 Esse exemplo foi retirado de Cançado (2005).


A partir do texto, são possíveis os seguintes acarretamentos:<br />

a) Um brasileiro foi para o espaço.<br />

b) Antes de Marcos Pontes, nenhum brasileiro tinha ido ao espaço.<br />

c) A nave pousou na Ásia.<br />

d) Pontes ficou 10 dias distante do planeta Terra.<br />

e) O Brasil pagou pela viagem de Marcos Pontes.<br />

f) Valery Tocarev e William McArthur ficaram seis meses longe da Terra.<br />

g) Pontes volta à Terra em companhia de um russo e de um americano.<br />

Mas há inferências que não são possíveis:<br />

a) A nave brasileira levou Marcos Pontes para o espaço.<br />

b) A nave pousou na Rússia.<br />

c) O Brasil pagou à Rússia US$ 10 milhões.<br />

d) O Brasil tem deixado de investir em Educação para gastar com viagens<br />

ao espaço.<br />

e) Pontes foi para o espaço em companhia de Valery Tocarev e William<br />

McArthur.<br />

A leitura é uma atividade que requer um trabalho de reflexão acerca de<br />

procedimentos de constituição do sentido. Saber ler é apropriar-se de recursos<br />

que compõem a nossa competência textual. O leitor proficiente deve, pois, ser<br />

capaz de efetuar uma série de operações, entre elas perceber, por meio da<br />

inferência, informações implícitas.<br />

O trabalho com a leitura envolve o ensino de várias habilidades lingüísticas.<br />

KLEIMAN (2004) cita algumas dessas capacidades: “apreender o tema e a<br />

estrutura global do texto, para inferir o tom, a intenção e atitude do autor, para<br />

reconstruir relações lógicas e temporais, bem como para realizar atividades de<br />

apropriação da voz do autor, resumindo, recontando, respondendo perguntas<br />

sobre o texto”.<br />

Destacamos nesse trabalho a capacidade específica de inferir. O ensino<br />

dessa habilidade deve desenvolver no aluno a capacidade para usar seu conhecimento<br />

de regras gramaticais implícitas, ou seja, procedimentos sintáticos<br />

e semânticos inerentes ao funcionamento da língua, esses recursos não têm<br />

a ver com as regras normativas. Quem tem competências à constituição do<br />

sentido do texto deve ser um bom leitor ou, talvez, seja um bom leitor por ter<br />

esse conjunto de habilidades.<br />

A seguir, apresentaremos alguns elementos que indicam o efeito de sentido.<br />

Ao apontar esse efeito, não vamos descrever o significado, mas indicar os<br />

sentidos possíveis.<br />

35


36<br />

Os elementos discursivos<br />

Analisaremos o deslocamento de sentido que decorre no processo contra-argumentativo.<br />

Para tanto, recorreremos a dois conceitos que são considerados<br />

pela Análise do Discurso (AD) como constitutivos do sentido: a formação<br />

discursiva e a memória discursiva.<br />

Tomaremos como objeto de análise dois artigos publicados na Folha de<br />

São Paulo no mês de março deste ano: “Carta ao MST”, elaborada pelo senador<br />

Eduardo Suplicy, e a resposta de Plínio Arruda Sampaio na “Carta aberta<br />

ao senador Eduardo Suplicy”.<br />

Buscaremos expor por meio da análise que a reformulação do discurso<br />

do outro demarca a fronteira entre formações discursivas (FDs). Em outras<br />

palavras, tanto Suplicy quanto Sampaio, no processo argumentativo, deixam<br />

marcas do espaço ideológico de onde enunciam.<br />

Na segunda semana de março deste ano, algumas militantes do Movimento<br />

de Mulheres Camponesas e da Via Campesina destruíram mudas de<br />

eucalipto e instalações do laboratório do centro de pesquisa da Aracruz Celulose<br />

no Rio Grande do Sul. O protesto foi uma resposta à destruição da aldeia<br />

indígena dos guaranis, no Espírito Santo, pelos tratores da Aracruz; e também<br />

um manifesto contra o agronegócio que prejudica a biodiversidade.<br />

O fato teve uma grande repercussão na imprensa. O senador Eduardo<br />

Suplicy posicionou-se sobre o acontecimento em carta publicado no jornal Folha<br />

de São Paulo. Na semana seguinte, o ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio<br />

assume uma atitude responsiva e elabora uma réplica à carta do senador.<br />

O acontecimento discursivo relatado produziu “dizeres” cujo sentido se<br />

constitui por condições históricas de produção e também pela compreensão<br />

das posições ideológicas com as quais os enunciadores se identificam, bem<br />

como a relação que estabelecem com outros discursos.<br />

Para PECHÊUX e FUCHS (1975), a produção do sentido se dá quando o<br />

enunciado é concebido dentro de uma FD, definida pelos autores como “o que<br />

pode e deve ser dito a partir de uma posição dada”. Um mesmo enunciado pode<br />

produzir diferentes efeitos de sentido de acordo com a FD em que é concebido.<br />

Com efeito, uma formulação discursiva pode sempre se tornar outra se for inserida<br />

em outro texto, ou seja, em outra FD.<br />

O espaço aberto à réplica, seja a carta do senador ou do ex-deputado<br />

federal, promove o aparecimento do interdiscurso, uma vez que se incorporam<br />

dizeres de outras FDs a fim de redefini-los, negá-los, mas também permite<br />

retomar elementos próprios à FD com o intuito de organizá-los, provocar o<br />

desaparecimento, o esquecimento, assim como a denegação.<br />

A noção de memória discursiva diz respeito à ocorrência histórica de<br />

enunciados regulados por aparelhos ideológicos. A existência de uma memória<br />

discursiva remete à reformulação, à retomada de discursos. Embora essas formulações<br />

já tenham sido ditas, ainda estão por se repetir.


Todo o trabalho de negociação do dizer é regulado por elementos ideológicos.<br />

Por conseguinte, a memória discursiva permite, de acordo com a conjuntura,<br />

a retomada, a repetição, a refutação e o apagamento de elementos<br />

discursivos.<br />

Mostraremos que Suplicy retoma pressupostos dos pacifistas Martin<br />

Luther King e Mahatma Gandhi para estabelecer relações com ações do MST.<br />

Quer com essa estratégia argumentativa defender que as lutas pacifistas são<br />

mais adequadas e contam com apoio da população. Selecionamos primeiramente<br />

alguns trechos da “Carta ao MST”, elaborada por Suplicy, para mostrar<br />

como o senador caracteriza a forma de ação do MST.<br />

(1) Acredito que o MST consegue obter mais apoio do povo brasileiro para sua<br />

causa sempre que utiliza meios pacíficos, não-violentos, e de respeito aos<br />

seres humanos e ao que tiver sido construído honestamente por outros.<br />

(2) O MST tem sido muitas vezes criativo. Assim, granjeou forte apoio do<br />

povo para a justa causa da reforma agrária quando, por exemplo, organizou<br />

as marchas para Brasília em memória das vítimas do massacre de Eldorado do<br />

Carajás ou em memória da irmã Dorothy Stang, morta no ano passado pelos<br />

interesses do latifúndio.<br />

Forma de ação do MST<br />

Pacífica<br />

Não-violenta<br />

Respeitosa<br />

Criativa<br />

Seguem trechos que caracterizam a forma de ação dos pacifistas Luther<br />

King e Gandhi:<br />

(3) Foi então que Martin Luther King Jr. conclamou seus compatriotas a seguir os<br />

exemplos históricos de Mahatma Gandhi e outros, que realizaram movimentos<br />

assertivos não-violentos para alcançar objetivos importantes e difíceis, como<br />

o da independência da Índia, em 1947.<br />

(4) Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo do cálice da amargura<br />

e do ódio. Precisamos sempre conduzir nossa luta no plano alto da dignidade e<br />

da disciplina. Nós não podemos deixar nosso protesto criativo degenerar<br />

em violência física.<br />

Forma de ação de Martin Luther King e<br />

Mahatma Gandhi<br />

Movimentos assertivos<br />

Não-violentos<br />

Criativos<br />

37


38<br />

O pronunciamento pacifista de Luther King é trazido, na forma do discurso<br />

citado, para o interior da FD onde o MST é inserido, o que significa dizer que<br />

há elementos pré-construídos, produzidos em um exterior, que são trazidos<br />

para o interior de uma FD. Promove-se, pois, um deslocamento de fronteiras da<br />

FD, porquanto se aproxima o movimento pacifista de Luther King e de Gandhi<br />

do MST.<br />

A negação é um outro recurso utilizado para demarcar fronteiras discursivas.<br />

Ao enunciar que o “... o MST [...] utiliza meios pacíficos, não-violentos...”,<br />

o enunciador leva o interlocutor a pressupor que deve haver ações violentas. Por<br />

meio da denegação, mostra-se a identificação do sujeito enunciador com uma<br />

FD, ou seja, rejeita-se a violência, demarcando o espaço da não-violência.<br />

Na constituição do processo enunciativo, os sujeitos selecionam elementos<br />

que lhes são autorizados. Por outro lado, há elementos que são rejeitados,<br />

ocultados pelo sujeito.<br />

PÊCHEUX e FUCHS (1975) denominam o efeito da ocultação de esquecimento<br />

n o 2. Esse é um processo de enunciação cujo funcionamento é da ordem<br />

do pré-consciente e do consciente, o sujeito indica o que quer dizer. “Constatase,<br />

com efeito, que o sujeito pode penetrar conscientemente na zona do n o 2 e<br />

que ele o faz em realidade constantemente por um retorno de seu discurso sobre<br />

si, uma antecipação de seu efeito, e pela consideração da defasagem que aí<br />

introduz o discurso do outro” 7 . Ao dizer que a forma de ação do MST é pacífica,<br />

criativa, respeitosa e não-violenta, o sujeito indica que há algo que não deve ser<br />

dito: a destruição das mudas de eucalipto foi uma ação violenta.<br />

O discurso tem uma memória, é constituído por um trabalho de reformulação<br />

e repetição discursiva. Há elementos que convêm dizer, retomar, contudo<br />

há os que não convêm dizer em virtude de uma dada conjuntura política. O<br />

MST e o PT, partido do senador Eduardo Suplicy, estiveram muitas vezes do<br />

mesmo lado em embates políticos, por conta disso foram considerados por<br />

muitos como única entidade política.<br />

O ex-deputado Plínio Arruda Sampaio apresenta duas objeções à carta<br />

do senador. A primeira está destacada a seguir:<br />

(5) A primeira é a invocação das ações de Gandhi e Martin Luther King Jr. como<br />

exemplos de ações não violentas que o MST deveria seguir. No entanto, a ação<br />

das mulheres do MST, na Aracruz, se enquadra perfeitamente na tradi-<br />

ção das lutas desses dois mártires dos oprimidos. O que elas praticaram<br />

foi um ato de desobediência civil — ação que desafia a lei, a medida ou a<br />

omissão injustas sem incitar agressão a pessoas.<br />

7 PÊCHEUX, M.; FUCHS. A propósito da análise automática do discurso, atualização e perspectivas (1975). In: GA-<br />

DET, Françoise; HAK, T. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Pêcheux. Campinas, SP:<br />

UNICAMP, 1990, p.177.


Seguem argumentos que justificam a objeção apresentada pelo ex-deputado:<br />

(6) Em seus respectivos contextos, os atos de desobediência civil coman-<br />

dados por esses dois grandes líderes foram considerados inaceitáveis e<br />

escandalizaram as pessoas sérias, honestas, cumpridoras das leis.<br />

(7) A não-violência de Gandhi e Luther King não diz respeito às coisas,<br />

mas, sim, às pessoas. Repare bem no próprio texto transcrito na sua carta<br />

aberta: Luther King diz que o protesto “não pode degenerar em violência física”.<br />

Não há menção a causar prejuízos ao capital.<br />

(8) Violência física não houve no ato das mulheres. Houve a destruição de<br />

mudas destinadas a implantar a monocultura florestal no Rio Grande do<br />

Sul. Sem falar nos danos que esse tipo de agricultura causa ao meio ambiente, é<br />

preciso que todos saibam que se trata de uma forma de agricultura extremamen-<br />

te nociva à pequena agricultura.<br />

Forma de ação de Martin Luther King,<br />

Mahatma Gandhi e das Mulheres do MST<br />

Lutas dos mártires oprimidos<br />

Ato de desobediência civil<br />

↓<br />

Escandaliza<br />

Não há violência contra pessoas<br />

Sampaio compatibiliza as ações do Luther King e Gandhi com as das Mulheres<br />

do MST, mas faz isso para mostrar que são atos de desobediência civil. Observamos<br />

o processo de deslocamento de sentido, porquanto as ações não-violentas<br />

deixam de ser somente um ato pacifista e passam a ser um ato político.<br />

Sampaio apresenta um segundo contra-argumento com relação ao texto<br />

de Suplicy:<br />

(9) Minha segunda objeção a sua carta aberta se refere à falta de uma ou-<br />

tra carta aberta: aquela que teria de ser enviada à Aracruz, reclamando da<br />

destruição da aldeia indígena dos guaranis no estado do Espírito Santo<br />

e falando sobre a ameaça que representa atualmente a monocultura da celulose<br />

para os pequenos agricultores.<br />

(10) Essa forma de violência, sim, se volta contra a existência física das<br />

pessoas, na medida em que destrói o ambiente em que essas pequenas<br />

unidades familiares podem sobreviver. No entanto, isso se faz daquela forma<br />

disfarçada, asséptica, que o capitalismo usa para dar uma aparência de racionali-<br />

dade à destruição dos grupos humanos que perturbam o “progresso” — o outro<br />

nome da sua fome insaciável de lucro e de acumulação de capital.<br />

39


40<br />

A partir da carta de Plínio, tecemos um contraponto entre a ação praticada<br />

pela Aracruz e a pelas militantes.<br />

Destruição da aldeia Destruição das mudas<br />

Violência Desobediência civil<br />

Forma disfarçada Desafia a lei<br />

Agride pessoas Não agride pessoas<br />

Destrói o meio ambiente Escandaliza<br />

Busca o lucro, o progresso Causa prejuízo ao capitalismo<br />

Ao retomar o discurso do senador, o ex-deputado desloca o sentido da<br />

ação violenta. Aproxima os atos de Luther King e Gandhi das ações das mulheres<br />

do MST. A luta de ambos é denominada “desobediência civil”, pois desafiam<br />

as leis, mas não agridem pessoas. Já a destruição da aldeia dos guaranis é compreendida<br />

como atitude violenta, atinge pessoas. A violência praticada contra os<br />

índios é legitimada pelo capitalismo em nome do progresso, enquanto a desobediência<br />

civil não é legitimada pelo poder do capital, pois inibe o progresso.<br />

Para analisarmos o deslocamento de sentido, que parte do discurso da<br />

violência à desobediência civil, foi necessário percorrer uma rede de formulações<br />

discursivas. Buscamos caracterizar a retomada do discurso pacifista,<br />

como um discurso pré-construído, a fim de demarcar o espaço da FD do MST<br />

feita pelo senador Suplicy. Vimos que, embora Plínio Arruda Sampaio invoque,<br />

também, as ações de Luther King e Mahatma Gandhi, elas são trazidas para<br />

que se reconfigure a fronteira da FD do MST, isto é, esse não é um movimento<br />

pacífico, mas sim político. A ressignificação da violência é vista do prisma da desobediência<br />

civil, por conseguinte se reconfigura o acontecimento discursivo.<br />

Para os autores das cartas, o episódio da destruição das mudas caracteriza<br />

acontecimentos diferentes, pois desencadeiam efeitos de sentidos distintos.<br />

Conclusão<br />

Procuramos no decorrer desse trabalho transpor alguns conceitos que<br />

circulam no universo acadêmico para o âmbito do ensino fundamental e médio<br />

a fim de estabelecer uma ponte entre ensino e pesquisa.<br />

Supomos que algumas noções semânticas e discursivas sirvam de ferramentas<br />

interessantes à leitura de textos, porquanto contam com elementoschave,<br />

que podem abrir o texto, isto é, indicam as possibilidades de constituição<br />

do sentido.<br />

A pressuposição e o acarretamento levam aos implícitos, o que está nas<br />

entrelinhas do texto. Já as noções de formação discursiva e a memória discursiva<br />

podem indicar o que está além das linhas do texto, pois um discurso não<br />

está inserido num só texto, seu sentido está disperso por muitos textos.


Como o discurso não trabalha a transmissão de informação, não definimos<br />

o sentido com precisão. Consideramos que ele se constitui no jogo<br />

discursivo, no embate entre os efeitos de sentido que emanam dos processos<br />

discursivos.<br />

Referências<br />

CANÇADO, M. Manual de semântica: noções básicas e exercícios. Belo Horizonte:<br />

UFMG, 2005.<br />

CHIERCHIA, G. Semântica. Campinas, SP: UNICAMP; Londrina, PR: EDUEL,<br />

2003.<br />

GADET, F.; HAK, T. Por uma análise automática do discurso: uma introdução<br />

à obra de Pêcheux. Campinas, SP: UNICAMP, 1990.<br />

ILARI, R. Introdução à semântica: brincando com a gramática. São Paulo:<br />

Contexto, 2001.<br />

______. Introdução ao estudo do léxico: brincando com as palavras. São<br />

Paulo: Contexto, 2002.<br />

MOURA, H.; MELO, M. Significação e contexto: uma introdução a questões<br />

de semântica e pragmática. Florianópolis: Insular, 1999.<br />

OLIVEIRA, R. P. de. Semântica formal: uma breve introdução. Campinas, SP:<br />

Mercado de Letras, 2001.<br />

SAMPAIO, P. de A. Carta aberta ao senador Eduardo Suplicy. Folha de São<br />

Paulo, São Paulo, 24 mar. 2006.<br />

SUPLICY, E. M. Carta ao MST. Folha de São Paulo, São Paulo, 17 mar. 2006.<br />

41


42<br />

Anexos<br />

TENDÊNCIAS / DEBATES<br />

Carta ao MST<br />

EDUARDO MATARAZZO SUPLICY<br />

Meu caro João Pedro Stédile, da Coordenação Nacional do MST (Movimento<br />

dos Trabalhadores Rurais Sem Terra):<br />

Com o sentimento de quem tem sido solidário ao MST desde a sua<br />

fundação, como amigo da causa da reforma agrária e da realização de<br />

maior justiça em nosso país, gostaria de externar minha sincera opinião<br />

sobre os últimos acontecimentos em Porto Alegre (RS). Acredito que o MST<br />

consegue obter muito mais apoio do povo brasileiro para sua causa sempre<br />

que utiliza meios pacíficos, não-violentos, e de respeito aos seres humanos<br />

e ao que tiver sido construído honestamente por outros.<br />

Acredito que o MST obtém muito mais apoio do povo brasileiro<br />

para sua causa sempre que utiliza meios pacíficos, não-violentos,<br />

Falo isso por causa do episódio ocorrido na semana passada, quando<br />

as companheiras do Movimento de Mulheres Camponesas e da Via Campesina<br />

destruíram as mudas de eucaliptos e as instalações do laboratório da<br />

Aracruz Celulose, no Rio Grande do Sul.<br />

Bem sei que elas desejavam protestar contra um modelo de agronegócio<br />

que o MST tem criticado, uma vez que florestas homogêneas de<br />

eucaliptos para a produção de celulose podem prejudicar a biodiversidade.<br />

Também sei que essa atitude foi uma reação à destruição da aldeia indígena<br />

dos guaranis por tratores da Aracruz no Espírito Santo, ou seja, agiram<br />

em solidariedade aos índios guaranis.<br />

Reitero, entretanto, a recomendação que fiz quando, convidado pelo<br />

MST, em 10 de julho de 1999, administrei uma aula na Unicamp (Universidade<br />

Estadual de Campinas) para mais de mil jovens — de quase todos os Estados<br />

brasileiros — pertencentes ao movimento.<br />

Dei de presente àqueles jovens a tradução que eu mesmo fiz de uma<br />

das mais belas orações da história da humanidade: “Eu tenho um sonho”, de<br />

Martin Luther King Jr., feita em 28 de agosto de 1963, em Washington, no dia<br />

em que foram comemorados os cem anos da abolição da escravidão nos EUA.<br />

Naquela época, Luther King Jr. se preocupava com a necessidade premente<br />

da aprovação da Lei dos Direitos Civis e da Lei dos Direitos Iguais de<br />

Votação. Em muitos Estados do Sul dos EUA, não era permitido aos negros<br />

freqüentar os mesmos hotéis, restaurantes, escolas e banheiros ou usar os


mesmos ônibus e calçadas que os brancos. Os negros nem sequer eram<br />

considerados cidadãos americanos, pois, em diversos Estados, não tinham<br />

o direito de votar, o que gerou movimentos de revolta, quebra-quebras e<br />

incêndios em inúmeras cidades.<br />

Foi então que Martin Luther King Jr. conclamou seus compatriotas<br />

a seguirem os exemplos históricos de Mahatma Gandhi e outros, que realizaram<br />

movimentos assertivos não-violentos para alcançar objetivos importantes<br />

e difíceis, como o da independência da Índia, em 1947. Naquele<br />

dia, perante mais de 200 mil pessoas, disse Martin Luther King Jr.: “Esse<br />

não é o tempo de nos darmos ao luxo de nos acalmarmos ou de tomar a<br />

droga tranqüilizadora do gradualismo. Agora é a hora de tornar reais as<br />

promessas da democracia (...) agora é o momento de fazer da justiça uma<br />

realidade para todas as crianças de Deus. Seria fatal para a nação não perceber<br />

a urgência do momento”.<br />

E, adiante, disse: “Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo<br />

do cálice da amargura e do ódio. Precisamos sempre conduzir nossa<br />

luta no plano alto da dignidade e da disciplina. Nós não podemos deixar<br />

nosso protesto criativo degenerar em violência física. Todas às vezes — e<br />

a cada vez —, precisamos alcançar as alturas majestosas de confrontar a<br />

força física com a força da alma”.<br />

Pouco tempo depois desse discurso, o Congresso norte-americano<br />

aprovou — e o presidente Lyndon Johnson sancionou — as Leis dos Direitos<br />

Civis e dos Direitos Iguais de Votação.<br />

O MST tem sido muitas vezes criativo. Assim, granjeou forte apoio<br />

do povo para a justa causa da reforma agrária — quando, por exemplo,<br />

organizou as marchas para Brasília em memória das vítimas do massacre<br />

de Eldorado do Carajás ou em memória da irmã Dorothy Stang, morta no<br />

ano passado pelos interesses do latifúndio.<br />

Para mostrar sua solidariedade aos índios guaranis, tenho a convicção<br />

de que as mulheres da Via Campesina poderiam — e podem ainda — escolher<br />

uma forma pacífica, criativa, utilizando muito mais a força da alma do que a<br />

força física. De outra forma, daremos razão aos que, em pleno século XXI,<br />

preferem utilizar os instrumentos bélicos em vez dos instrumentos civilizatórios<br />

do bom senso e da inteligência.<br />

Eduardo Matarazzo Suplicy, 64, doutor em economia pela Universidade Estadual de Michigan<br />

(EUA), professor da EAESP–FGV, é senador da República pelo PT–SP. É autor do livro<br />

“Renda de Cidadania — A Saída é pela Porta” (Cortez Editora e Fundação Perseu Abramo).<br />

FOLHA DE SÃO PAULO, 17 de março de 2006.<br />

43


44<br />

Carta aberta ao senador Eduardo Suplicy<br />

PLÍNIO DE ARRUDA SAMPAIO<br />

Meu caro Eduardo Suplicy: Temos uma longa amizade e um longo<br />

companheirismo político. Não me esqueço — e aproveito para agradecer<br />

publicamente — do corajoso apoio que você deu a minha candidatura a<br />

presidente do PT, numa hora em que isso iria lhe custar — como está custando<br />

agora — dificuldades com a oligarquia dirigente do partido.<br />

A desobediência civil é gesto extremo para despertar uma sociedade anestesiada,<br />

incapaz de ouvir os clamores do povo<br />

Por isso mesmo sei que você receberá estas palavras como uma<br />

contribuição sincera de um velho companheiro.<br />

Levanto duas objeções à carta aberta que você enviou ao MST (Movimento<br />

dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), publicada neste mesmo espaço<br />

na última sexta-feira, a propósito da destruição de mudas de espécies<br />

florestais em um centro de pesquisas da Aracruz, no Rio Grande do Sul. A<br />

primeira é a invocação das ações de Gandhi e Martin Luther King Jr. como<br />

exemplos de ações não-violentas que o MST deveria seguir. No entanto, a<br />

ação das mulheres do MST, na Aracruz, se enquadra perfeitamente na tradição<br />

das lutas desses dois mártires dos oprimidos. O que elas praticaram<br />

foi um ato de desobediência civil — uma ação que desafia a lei, a medida<br />

ou a omissão injustas sem incitar agressão a pessoas.<br />

Em seus respectivos contextos, os atos de desobediência civil comandados<br />

por esses dois grandes líderes foram considerados inaceitáveis<br />

e escandalizaram as pessoas sérias, honestas, cumpridoras das leis. Ora,<br />

o objetivo das ações de desobediência civil é precisamente este: desassossegar<br />

consciências tranqüilas, como um meio de fazê-las ver a responsabilidade<br />

que têm na manutenção de situações inaceitáveis, porém admitidas<br />

como normais e corretas. Trata-se de um gesto extremo para despertar sociedades<br />

anestesiadas, incapazes de ouvir os clamores do povo. Vejamos,<br />

por exemplo, em que deu a marcha pacífica que os sem-terra realizaram<br />

em Brasília, no ano passado, a fim de pedir, de forma respeitosa e ordeira,<br />

a reforma agrária. Que resposta obtiveram do governo? Que solidariedade<br />

receberam da sociedade? Que noticiário deram os jornais?<br />

A não-violência de Gandhi e Luther King não diz respeito às coisas,<br />

mas, sim, às pessoas. Repare bem no próprio texto transcrito na sua carta<br />

aberta: Luther King diz que o protesto “não pode degenerar em violência física”.<br />

Não há menção a causar prejuízos ao capital. Por acaso, o boicote do sal<br />

e do tecido inglês na Índia, o dos ônibus segregacionista no Sul dos Estados


Unidos e tantos outros movimentos de desobediência civil em todo o mundo<br />

deixaram de causar enormes prejuízos materiais aos capitalistas?<br />

Violência física não houve no ato das mulheres. Houve a destruição<br />

de mudas destinadas a implantar a monocultura florestal no Rio Grande<br />

do Sul. Sem falar nos danos que esse tipo de agricultura causa ao meio<br />

ambiente, é preciso que todos saibam que se trata de uma forma de agricultura<br />

extremamente nociva à pequena agricultura. Poucos sabiam disso.<br />

Agora, com a cobertura que a imprensa deu ao episódio, todos ficaram sabendo.<br />

Nisso consiste a desobediência civil. É selvagem porque a realidade<br />

é selvagem. Minha segunda objeção a sua carta aberta se refere à falta de<br />

uma outra carta aberta: aquela que teria de ser enviada à Aracruz, reclamando<br />

da destruição da aldeia indígena dos guaranis no Estado do Espírito<br />

Santo e falando sobre a ameaça que representa atualmente a monocultura<br />

da celulose para os pequenos agricultores.<br />

Essa forma de violência, sim, se volta contra a existência física das<br />

pessoas, na medida em que destrói o ambiente em que essas pequenas<br />

unidades familiares podem sobreviver. No entanto, isso se faz daquela forma<br />

disfarçada, asséptica, que o capitalismo usa para dar uma aparência<br />

de racionalidade à destruição dos grupos humanos que perturbam o “progresso”<br />

o outro nome da sua fome insaciável de lucro e de acumulação de<br />

capital. Prezado Eduardo, o MST vive uma hora dificílima, porque o governo<br />

depositário de suas esperanças não tem coragem de realizar a reforma<br />

agrária nem de enfrentar as forças políticas que tentam criminalizá-lo,<br />

como estamos vendo com a CPI da Terra.<br />

Sei o quanto você já fez pelo movimento e sei também o apreço e<br />

o respeito que os sem-terra têm por você. Seu artigo, contudo, embora<br />

obviamente contra sua vontade, fornece munição aos adversários. Peço<br />

que o reconsidere e que venha somar conosco na defesa incondicional dos<br />

legítimos interesses dos trabalhadores rurais sem terra.<br />

Por que não enviar uma carta aberta ao governo, a fim de exigir a<br />

publicação dos índices atualizados de produtividade da terra? Isso permitiria<br />

acelerar a reforma. Caso a reforma fosse acelerada — você o sabe<br />

tão bem quanto eu —, as pacíficas e extraordinárias mulheres do MST não<br />

seriam compelidas — como estão sendo — a realizar gestos extremos a<br />

fim de chamar a atenção da sociedade para o drama que vivem há muito<br />

tempo.<br />

Plínio Arruda Sampaio, 75, advogado, é presidente da Abra (Associação Brasileira de Reforma<br />

Agrária) e diretor do “Correio da Cidadania”. Foi deputado federal pelo PT–SP (1985–91) e<br />

consultor da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação).<br />

FOLHA DE SÃO PAULO, 24 de março de 2006.<br />

45


Reflexibilidade: alternativas de<br />

intervenção na prática pedagógica<br />

Joana Paulin Romanowski 1<br />

Este texto constitui-se em uma contribuição ao debate das possibilidades<br />

da reflexão para a proposição de alternativas para a prática pedagógica.<br />

Focaliza a reflexão como uma das possibilidades de análise dos problemas da<br />

prática e, a partir dessa análise, a construção de possíveis alternativas de intervenção<br />

nessa prática.<br />

Estudos sobre práticas reflexivas realizadas por professores direcionam<br />

a organização deste texto. Desse modo, primeiro se focalizam essas pesquisas,<br />

especialmente as realizadas em nosso meio, tais como as de Martins (1993,<br />

2000); Romanowski, Wachowicz e Martins (2005); Pimenta (2005); Souza<br />

(2005). O exame das pesquisas realizadas tem por finalidade verificar quais<br />

são os problemas relevantes da prática, indicados pelos professores, e compreender<br />

os processos reflexivos que norteiam essas pesquisas. Destaca-se que<br />

as pesquisas sobre a prática pedagógica dos professores, iniciadas em 1982<br />

com o movimento Didática em Questão, ampliam-se a partir dos anos de 1990,<br />

pela valorização dos saberes da prática docente. O movimento Didática em<br />

Questão colocou em cheque a perspectiva da racionalidade técnica na prática<br />

e na formação dos professores 2 . Finalizam o texto indicações e delineamentos<br />

1 Doutora em Educação (USP) e professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade<br />

Católica do Paraná e Consultora Pedagógica da Faculdade Internacional de Curitiba.<br />

2 Sobre este movimento consultar Martins (1998).<br />

III<br />

47


48<br />

das possibilidades de desenvolvimento de programa institucional para realização<br />

de reflexão sobre a prática pedagógica, construído coletivamente na direção<br />

de indicativos de alternativas de melhoria dessa prática.<br />

Práticas reflexivas dos professores<br />

A pesquisa realizada por Souza (2005) com professores do Ensino Superior<br />

baseia-se em entrevistas que focalizaram o que os professores realizam<br />

e como refletem sobre sua prática docente. Destaca-se que os professores<br />

dizem refletir sobre sua prática constantemente. Esse processo ocorre antes<br />

das aulas, no sentido de sistematizar, ainda que não sejam registrados, quais<br />

temas serão trabalhados em aula e quais atividades serão propostas para os<br />

alunos. Indicam também a realização da reflexão em aula quando algum fato<br />

não previsto ocorre e exige algum encaminhamento. E fazem reflexão após a<br />

aula, muitas vezes imediatamente ao término da atividade, no caminho para<br />

casa. Relatam os professores que esses exames sobre a ação experienciada<br />

contribuem para buscar novas alternativas para a melhoria dessa prática.<br />

Evidencia-se na pesquisa de Souza (2005) que o foco das preocupações<br />

dos professores diferencia-se ao longo da carreira. Professores iniciantes têm<br />

preocupação mais intensa com os conteúdos a serem ensinados e com as técnicas<br />

de ensino a serem utilizadas durante as aulas; professores mais experientes<br />

intensificam suas reflexões para a aprendizagem dos alunos. Destacase<br />

que tanto os professores iniciantes como os experientes são interessados<br />

em seus alunos e procuram conhecê-los, saber sua escolarização anterior, seus<br />

interesses. No entanto, os professores mais experientes localizam as dificuldades<br />

de aprendizagem dos alunos e procuram fazer algo para minorá-las.<br />

Na pesquisa realizada por Romanowski et al (2005), foram analisadas<br />

monografias desenvolvidas por professores da educação básica para identificar<br />

as preocupações desses professores de Ensino Fundamental. Os problemas<br />

focalizados pelos professores nas monografias voltam-se para dificuldades e<br />

distúrbios de aprendizagem dos alunos; práticas de inclusão de portadores de<br />

necessidades especiais; questões de afetividade, de ludicidade e de disciplina<br />

escolar. A subjetividade do aluno tem sua importância ressaltada pela freqüência<br />

desses temas, que parecem indicar as categorias pelas quais é possível captar<br />

e analisar as representações que os professores de Ensino Fundamental fazem<br />

de seu trabalho profissional.<br />

O estudo monográfico é feito mediante indicação de tema, problema de<br />

pesquisa e objeto de estudo, ou seja, antecede a realização do estudo o projeto<br />

de pesquisa, que é analisado e orientado por professores do referido curso.<br />

Durante o estudo monográfico, também é realizada orientação por professores<br />

do curso. Depois de concluído o estudo, realiza-se defesa junto a uma banca<br />

composta por dois professores do curso. Cabe destacar que a maioria das monografias<br />

constitui-se de pesquisa bibliográfica relacionada ao tema proposto pelo


cursista, que chamaremos professor-aluno. O levantamento dessas temáticas<br />

aponta para preocupações como dificuldades e distúrbios de aprendizagem,<br />

inclusão, ludicidade, metodologias e conteúdos curriculares e disciplina escolar,<br />

em maior número. Em menor número, alfabetização, avaliação, afetividade, interdisciplinaridade,<br />

questões de aprendizagem da leitura, projeto pedagógico,<br />

carreira e profissionalização docente, e estudo sobre a formação do professor.<br />

Destacam-se os pedagogos escolares, que vêm indicando como tema de estudo<br />

a gestão escolar.<br />

Para a sistematização das monografias, evidencia-se que os alunos-professores<br />

tomam como ponto de partida os problemas da prática docente, mas<br />

o estudo é sistematizado a partir do referencial teórico do tema selecionado.<br />

Os autores consultados geralmente são os indicados nas referências dos programas<br />

das disciplinas do curso. Além disso, observa-se consulta às páginas<br />

da internet.<br />

A organização da monografia toma por base a teoria, na perspectiva conceitual,<br />

para dizer o que é o fenômeno observado e escolher o objeto de estudo<br />

monográfico. O texto constitui-se de um arrolado de definições dos diferentes<br />

autores consultados. Nas considerações finais, há indicações do que foi compreendido<br />

e direcionado aos conceitos, como, por exemplo: “Esta monografia<br />

permitiu compreender o que são as dificuldades dos alunos, ampliando nosso<br />

conhecimento sobre o tema”. A inclusão de proposições para intervenção foi<br />

observada em poucos estudos. Quer dizer: os estudos monográficos que se poderiam<br />

constituir em indicativos de alternativas para a prática pedagógica configuram-se<br />

na perspectiva da busca de modelos teóricos sobre os problemas<br />

da prática. Estudos que incluem sugestões de atividades expressam-nas como<br />

desvinculadas da fundamentação desenvolvida no referencial de estudo.<br />

Nas monografias analisadas, percebe-se que a exigência do curso está<br />

em jogo, bem mais do que a possibilidade de intervenção na prática pedagógica<br />

do professor. Denota-se essa preocupação pela fundamentação direcionada<br />

à ênfase no aspecto formal do estudo e não no aprofundamento do questionamento<br />

das problemáticas da prática, anunciadas na introdução.<br />

As pesquisas de Pimenta (2005) apontam implicações da organização<br />

pedagógico-administrativa das escolas na atividade docente. Quer dizer: o<br />

modo como a escola organiza as atividades pedagógicas, as exigências e solicitações<br />

institucionais constituem interferentes no modo como o professor<br />

organiza sua prática de ensino. Além disso, os conhecimentos disponibilizados<br />

na sociedade contemporânea somam-se nos processos de organização da prática<br />

docente.<br />

Os estudos de Pimenta indicam que os professores não têm o hábito de<br />

registrar sistematicamente acontecimentos vivenciados durante suas aulas.<br />

Nenhum dos participantes havia realizado gravação ou filmagem de suas aulas<br />

49


50<br />

antes de participar da pesquisa. Segundo a autora, os professores, ao participarem<br />

de programas de pesquisa-ação, passam a realizar esse registro. A<br />

inserção nesses programas provoca o desenvolvimento da reflexão para compreender<br />

os “porquês” de atitudes e decisões realizadas em aula. Ao realizar a<br />

reflexão sobre a prática, a sala de aula transforma-se num espaço investigativo,<br />

favorecendo a análise crítica e permitindo tomar consciência das ações e suas<br />

implicações, bem como constituir o saber docente. Ao realizar a pesquisa-ação,<br />

o professor estabelece um método de registro e análise de suas aulas, percebendo<br />

limites e avanços de sua própria prática.<br />

Esse processo, segundo Pimenta (2005), permite ao professor a possibilidade<br />

de compreender sua condição de trabalhador e os limites de seu trabalho,<br />

mas amplia a compreensão do compromisso e da identidade profissional<br />

e de seu significado.<br />

Salienta-se que em pesquisas anteriores Martins (1993) destaca as implicações<br />

da organização pedagógica no processo de ensino e aprendizagem.<br />

Nas palavras da autora, “a escola educa mais pela forma como organiza o processo<br />

de ensino do que pelos conteúdos ideológicos que veicula através desse<br />

processo, isto é, o que se experimenta na prática tem muito mais significado e<br />

é mais duradouro do que o que se ouve no nível de discurso” (MARTINS, 1993,<br />

p. 24).<br />

Na perspectiva crítica, segundo Martins (1993), o processo de reflexão<br />

assume as categorias da dialética como direcionadoras da análise da prática.<br />

O processo está em assumir a teoria como expressão da prática, tomando a<br />

prática como ponto de partida. Importa explicitar as implicações das ações dos<br />

professores no enfrentamento dos problemas do cotidiano frente às contradições<br />

sociais, quer dizer, compreender os determinantes da ação docente. A<br />

prática contextualiza-se historicamente e está em movimento pela permanente<br />

relação estabelecida entre sujeitos, grupos, classes sociais e condições de realização<br />

do trabalho.<br />

Num primeiro momento, procura-se caracterizar e problematizar a prática<br />

pedagógica, em grupos, descrever como ela é e não como deveria ser. A<br />

partir dessa caracterização da prática dos participantes, procura-se descrever<br />

em termos de totalidade. A prática é uma síntese de múltiplas determinações.<br />

O segundo é o momento da análise. Consiste no debate, na discussão e<br />

na procura no referencial teórico de indicativos que contribuam para o processo<br />

de explicitação daquela prática. Os professores, eles mesmos, coletivamente,<br />

procuram compreender os determinantes da prática.<br />

No terceiro momento a busca dos determinantes acentua-se. Os professores<br />

constroem a contextualização histórica, social e política e, a partir<br />

dessa explicitação, apontam indicativos para propor alternativas àquela prática.<br />

Nesse processo, a contribuição de um professor-coordenador pode ajudar


na sistematização dos momentos e na indicação de referências, mas ele não<br />

aponta alternativas e explicações. É mediador do processo, propicia condições<br />

para o debate. Trata-se de um processo coletivo de análise crítica da prática,<br />

com vistas à teoria, a partir da explicitação da prática (MARTINS, 1993).<br />

Essas pesquisas indicam que a sistematização programada, contínua e<br />

coletiva, na perspectiva de comprometimento institucional e com a intervenção<br />

de programas de pesquisa do tipo pesquisa-ação, proporciona maior envolvimento<br />

e possibilidade de indicações de alternativas para a melhoria da prática<br />

pedagógica do que os processos individualizados, ainda que esses processos<br />

individualizados resultem em produções teóricas.<br />

Implicações dos processos reflexivos na prática docente<br />

As observações de Souza (2005) e Pimenta (2005) indicam a pouca sistematização<br />

realizada pelos professores nas reflexões espontâneas e individualizadas,<br />

embora constituam um processo que contribui na prática docente.<br />

Sobre esse modo de pensar reflexivo, Dewey (1959, p. 13) refere-se<br />

como “a espécie de pensamento que consiste em examinar mentalmente o<br />

assunto e dar-lhe considerações séria e consecutiva”.<br />

Segundo esse autor, durante todo o dia, mesmo dormindo, pensamos,<br />

mas de modo desordenado. São idéias que nos passam pela cabeça caoticamente,<br />

são imagens e recordações soltas e mesmo idealizações e crenças.<br />

Quando efetivamente realizamos a reflexão, há um encadeamento lógico e<br />

objetivo entre as idéias, em que elevamos à consciência as experiências e<br />

crenças para examiná-las. Uma idéia é encadeada em outra e fazem sentido<br />

entre si, além da busca de explicação dos motivos e bases que lhes originam.<br />

Esse modo de pensar, que advém da observação e percepção de um fato,<br />

constituindo-se em operações, “é problematizado a partir de duas situações:<br />

a primeira é um estado de dúvida, de perplexidade, impondo uma solução; a<br />

segunda é um estado de procura, investigação, que esclareça a perplexidade”<br />

(LIMA, 2000, p. 73).<br />

Segundo Martins (1998), o método de Dewey fundamenta-se em cinco<br />

momentos: a) uma necessidade sentida definida num problema; b) a análise<br />

desse problema; c) a verificação das alternativas de solução; d) a realização<br />

da experimentação para exame do problema; e) a sistematização desses resultados<br />

de modo científico. A experiência vivenciada é o ponto de partida e ao<br />

mesmo tempo a possibilidade de reelaboração. 3<br />

Na realização dos processos reflexivos ocorre o desenvolvimento de<br />

habilidades empíricas, analíticas, estratégicas e avaliativas. As empíricas consistem<br />

na capacidade de diagnosticar e registrar dados, para posterior análise.<br />

Esses dados constituem fatos básicos, experiências, descrições das medidas e<br />

3 Aprofundamento a respeito de implicações críticas a esse processo podem ser consultadas em Lima (2000).<br />

51


52<br />

atitudes empregadas durante as aulas. As habilidades estratégicas implicam<br />

agir de acordo com a situação, pensar durante e sobre a ação. Nesse caso,<br />

o professor, ao verificar que uma atividade proposta aos alunos não está sendo<br />

realizada corretamente, imediatamente precisa realizar os ajustes necessários. As<br />

habilidades analíticas são as direcionadas, com capacidade de relacionar a prática<br />

e a teoria já existente, inferindo explicações possíveis aos meios utilizados com<br />

os fins pretendidos. Trata-se de esforço para examinar e categorizar os dados<br />

levantados para inferir as explicações possíveis e a elaboração da teoria a partir<br />

da prática. As habilidades avaliativas direcionam a elaboração de julgamentos da<br />

importância dos resultados obtidos concomitantes ao processo de análise.<br />

Cabe destacar que os processos reflexivos exigem atitudes e disposição.<br />

Entre as atitudes identificadas por diversos autores estão: mentalidade aberta,<br />

responsabilidade e entusiasmo. Nesse modelo a prática é o eixo central,<br />

o ponto de partida da reflexão. A clássica separação entre teoria e prática é<br />

substituída por uma relação permanente entre elas.<br />

Segundo Libâneo (2002), as formas de reflexão podem ser por:<br />

1. Introspecção, que é interiorizada e realizada por meio de análises<br />

de biografias da vida de professores, em que cada professor reflete<br />

sobre sua história de vida, sua profissão e sua prática. Os diários de<br />

classe podem ser utilizados como material de reflexão.<br />

2. Exame realizado após a ação docente, em que o professor examina<br />

sua ação prática individualmente ou em grupo; cada professor relata<br />

sua prática, seus diários e gravações das aulas para serem discutidos.<br />

3. Indagação, que procura desvendar as situações que não podem<br />

ser inferidas pelo relato das ações. Nesse caso as aulas podem ser<br />

gravadas em vídeo, ou outro professor assiste às aulas e registra as<br />

situações para depois serem analisadas.<br />

4. Processo crítico coletivo de explicitação e proposição de alternativas para<br />

a prática, a partir de uma rigorosa análise de seus determinantes.<br />

Cabe ainda, destacar que as tendências dos processos reflexivos incorporam<br />

a perspectiva crítica, entendendo os professores como intelectuais críticos,<br />

pesquisadores. A crítica inclui a compreensão da educação em seu contexto<br />

amplo e incorpora uma reflexibilidade de cunho político em oposição às posturas neoliberais.<br />

A concepção crítica pressupõe o desenvolvimento de uma reflexão que<br />

realiza o distanciamento da prática para vê-la, entendê-la, avaliá-la, explicitá-la<br />

em seus determinantes sociohistóricos, em oposição à concepção neoliberal, que<br />

se direciona para uma racionalidade instrumental. A perspectiva crítica entende<br />

a atividade como necessidade de sobrevivência, de reação, de resistência. O<br />

professor em sala de aula necessariamente terá uma ação — a consciência sobre<br />

essa ação é que a qualifica para além dela — que permite perceber seu significado,<br />

no conjunto das relações sociais.


Referências<br />

DEWEY, J. Como pensamos: como se relaciona o pensamento reflexivo com o<br />

processo educativo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959.<br />

LIBÂNEO, J. C. Reflexibilidade e formação de professores: outra oscilação do<br />

pensamento pedagógico brasileiro? In: PIMENTA, S. G.; GHEDIN, E. (Orgs.).<br />

Professor reflexivo no Brasil: gênese e crítica de um conceito. São Paulo:<br />

Cortez, 2002.<br />

LIMA, M. A. C. Escola nova, pragmatismo deweyano e formação de professores:<br />

algumas (des)considerações. In: Diálogo educacional. Curitiba: PUC—PR, v. 4.<br />

n. 10, set./dez. 2000.<br />

MARTINS, P. L. O. Didática: um aprendizado crítico dentro da própria prática.<br />

In: Revista Ande, v. 12, n. 19, 1993.<br />

______. A didática e as contradições da prática. Campinas: Papirus,<br />

1998.<br />

PIMENTA, S. G. Pesquisa-ação crítico colaborativa: construindo seu significado<br />

a partir de experiências com a formação docente. In: Educação e pesquisa.<br />

São Paulo: USP, v. 31, n. 3, set./dez. 2005.<br />

ROMANOWSKI, J. P.; WACHOWICZ, L. A.; MARTINS, P. L. O. As preocupações<br />

dos professores do ensino fundamental sobre o seu trabalho. In: Anais<br />

Congresso Internacional Educação e Trabalho. Portugal, Universidade de<br />

Aveiro, 2005.<br />

SOUZA, G. M. R. de; Professor reflexivo no ensino superior: intervenção<br />

na prática pedagógica. 2005. 148 f. Dissertação (Mestrado em Educação). Pontifícia<br />

Universidade Católica do Paraná.<br />

53


Projetos, Currículo e<br />

Aprendizagem na Educação Básica<br />

e Superior 1<br />

Marcos Cordiolli 2<br />

1 Parte deste ensaio foi apresentado no III Seminário Internacional de Educação — 2002, nas edições de São Paulo,<br />

Belo Horizonte e Uberlândia. A versão deste ensaio, publicada anteriormente, foi dedicada a Vivian e Viviane<br />

Barletta e Andréia Bini; e às alunas do terceiro ano de Pedagogia do UnicenP (Curitiba, PR), em 2002. De todas<br />

vale a lembrança e apreço pela forma como interagiram e se dispuseram a buscar, com autonomia, os caminhos do<br />

conhecimento, numa bela demonstração de que uma outra educação é possível.<br />

2 Mestre em Educação (PUC-SP) e graduado em História (UFPR); professor da graduação do curso de Pedagogia<br />

(UniBrasil).<br />

O educando que exercita sua liberdade ficará tão mais livre quanto mais<br />

eticamente vá assumindo a responsabilidade de suas ações. Sua autonomia se<br />

funda na responsabilidade que vai sendo assumida.<br />

Paulo Freire<br />

A cultura é uma noite escura em que dormem as revoluções de há pouco,<br />

invisíveis, encerradas nas práticas, mas pirilampos, e por vezes grandes pássaros<br />

noturnos, atravessam-na, aparecimentos e criações que delineiam a chance de<br />

um outro dia.<br />

IV<br />

Michel de Certeau<br />

55


56<br />

A educação brasileira vive importante fase de busca de caminhos alternativos.<br />

Um sem-número de possibilidades para organização curricular do<br />

trabalho pedagógico é apresentada, debatida e experimentada em situações<br />

distintas, em diversas instituições escolares de todas as partes do Brasil. A<br />

organização do trabalho pedagógico na forma de projetos é uma dessas possibilidades,<br />

mas está entre aquelas mais enfatizadas e admiradas pelos educadores.<br />

Neste ensaio, tentei sistematizar algumas experiências que conheci,<br />

acompanhei e que apresento em forma de teoria — que não pretendo absoluta,<br />

nem tampouco excludente ou contraposta à de outros autores. Espero contribuir<br />

na busca de respostas a necessidades pedagógicas que se apresentam<br />

no cotidiano das instituições escolares.<br />

Inicialmente procurei recuperar, brevemente, a concepção da proposição<br />

de projetos como forma de organização do trabalho pedagógico e apresentar<br />

algumas das principais vertentes da educação brasileira contemporânea. Num<br />

segundo momento me dispus a examinar práticas de projetos que tenho visto<br />

nas instituições escolares. Num terceiro momento busco elementos que seriam<br />

referências para definição de projeto como uma das formas de organização do<br />

trabalho pedagógico. Por último procurei teorizar sobre o impacto dos projetos<br />

na forma de organizar o currículo e os conteúdos nas instituições escolares.<br />

Não pretendo em hipótese alguma constituir tribunal para qualificar projetos<br />

ou determinar aqueles que seriam ou não dignos dessa nomenclatura, mas<br />

considerar elementos que proporcionem práticas de aprendizagem, (a) fundadas<br />

na colaboratividade e compartilhamento; (b) problematizadas a partir das<br />

demandas dos estudantes e suas comunidades; (c) organizadas como trabalho<br />

coletivo que possam superar as fragmentações dos saberes e dos processos<br />

de constituição do conhecimento, seja na forma de disciplinas, de séries ou de<br />

pré-requisitos; e (d) propiciar situações para a formação do caráter em processo<br />

de interação. Esses elementos, acredito, são fundamentais para constituir a<br />

educação na qual os estudantes sejam efetivamente sujeitos, em instituições<br />

escolares que respeitem sua condição de criança, adolescente, jovens e adultos,<br />

permitindo-lhes a realização de experiências humanistas e democráticas<br />

no sentido da constituição da autonomia.<br />

...<br />

Projeto, na tradição pedagógica, revestiu-se do sentido de desenvolvimento<br />

de processos envolvendo várias pessoas, desdobrando-se em diversas<br />

etapas e requerendo momentos de planejamento e avaliação 3 . As teorias da<br />

administração têm desenvolvido metodologias e ferramentas de projetos para<br />

aplicação em gestão empresarial, enquanto instituições escolares empreendem<br />

3 Talvez a melhor definição seja a de Lück (2003) que associa projeto com planejamento-ação, para situações que<br />

demandem “(...) um processo de análise, decisão e planejamento ágil e versátil, que possibilite concentrar e canalizar<br />

esforços, apropriar e disponibilizar recursos adequados, objetivar e clarificar idéias e propósitos, direcionar e<br />

concentrar energia, a partir de uma compreensão clara e objetiva da situação, do seu contexto e do que se pretende,<br />

associada ao processo de tomada de decisão e visão de empreendimento orientador da ação” (p. 10).


esforços para construir projetos educacionais 4 , nos quais consigam expressar<br />

sua identidade pedagógica e orientar a ação coletiva dos diversos agentes envolvidos<br />

no processo escolar. A referência mais corrente ao termo projeto é o da<br />

palavra latina projectu, uma das conjugações do verbo projicere, com o sentido<br />

de atirar-se para frente 5 , reforçando, portanto, a idéia de ação, de desenvolvimento<br />

e de processo.<br />

Os esforços para alterar as formas tradicionais de organização curricular<br />

e do trabalho pedagógico, que tradicionalmente está centrado no professor e<br />

na forma expositiva de conteúdos, fomentaram a idéia de associar projetos<br />

aos processos de ensino e aprendizagem, gestando as práticas pedagógicas<br />

nomeadas genericamente de “projetos de trabalho”, “trabalho por projetos”,<br />

“metodologia de projetos”, “projetos de ensino-aprendizagem” e “pedagogia<br />

de projetos”. Projetos, embora com experiências tão amplas e diversificadas, é<br />

uma das escolhas num campo mais amplo que incluiria, entre outras, os temas<br />

geradores; ações inter, trans e multidisciplinares; práticas contextualizadoras;<br />

construções de núcleos de complexidade; desenvolvimento de competência;<br />

elaboração de mapas conceituais. O trabalho em sala de aula pode ser organizado<br />

por uma dessas formas e pela combinação de duas ou mais delas (Cordiolli,<br />

2002). Portanto vamos tomar, no presente ensaio, projetos como uma<br />

das formas de organização do trabalho pedagógico.<br />

1. Situando a problemática<br />

Os projetos, como forma de organização do trabalho pedagógico, têm<br />

longa trajetória na tradição pedagógica, tendo as primeiras elaborações ocorrido<br />

ainda no final do século XIX e encontrado expressão mais elaborada na<br />

obra do educador John Dewey, na década de 1920. No Brasil, os projetos foram<br />

propostos na década de 1930 por Lourenço Filho 6 e Anísio Teixeira, importantes<br />

interlocutores de Dewey no país.<br />

Apesar de, a cada década, novos autores retomarem os projetos e acrescentarem<br />

novas e importantes contribuições, no Brasil, no entanto, apesar de<br />

importantes e variadas experiências, o debate em torno do tema é precário e,<br />

por vezes, tratado como novidade.<br />

Esse tema foi reintroduzido no debate pedagógico brasileiro na década<br />

de 1990, incluindo-se entre as vertentes principais de modelos de organização<br />

curricular e do trabalho pedagógico que, então, questionavam o modelo diretivista<br />

7 da educação brasileira. Na prática, não se constituiu numa “pedagogia<br />

4 Geralmente denominados de projetos políticos pedagógicos.<br />

5 Almeida afirma que “(...) projeto, quando desenvolvido para além da fase do plano” não seria uma formulação adequada<br />

para o vocábulo em português, mas realizada em função da transposição de project do inglês (Ver: ALMEIDA,<br />

Napoleão Mendes. Dicionário de questões de vernácula. 3 ed. São Paulo: Ática, 1996. p. 443).<br />

6 Ver, em particular, o capítulo sobre projetos em Lourenço Filho (1952).<br />

7 Por modelo diretivista estamos compreendendo a forma de organização curricular e do trabalho pedagógico na<br />

qual a seleção de conteúdos, os procedimentos didáticos e de avaliação são elaborados previamente à realização das<br />

aulas, cabendo ao professor/a conduzir os ritmos, processos e seleção de tema das aulas.<br />

57


58<br />

de projeto”, mas se instituiu como uma das formas de organização do trabalho<br />

pedagógico, sendo incorporado por diferentes concepções pedagógicas — desde<br />

aquelas fundadas num individualismo meritocrático 8 , por construtivismos<br />

vários, passando seguramente por todos aqueles que desejavam que a educação<br />

se deslocasse do foco do ensino para o da aprendizagem e, em particular,<br />

daqueles que desejavam que o educando se colocasse na condição de protagonista<br />

de seu processo de constituição do conhecimento.<br />

No Brasil, algumas vertentes construtivistas e sociointeracionistas, procurando<br />

caminhos para que os educandos assumissem postura mais ativa na<br />

constituição do conhecimento, adotaram, em alguma medida, formas de projetos<br />

que alteravam o ordenamento prévio de conteúdos e respeitavam ritmos<br />

distintos de aprendizagem. A pedagogia freiriana, nesse mesmo período, ampliou<br />

seu espaço na educação escolar, em particular com a implementação de<br />

temas geradores, o que impulsionou diversas experiências com a organização<br />

do trabalho pedagógico na forma de projetos 9 . Também nesse mesmo processo,<br />

diversas administrações populares implementaram as propostas de ciclos<br />

de formação em redes municipais de ensino, num movimento conhecido como<br />

Escola Cidadã, com a redefinição dos marcos pedagógicos da escola pública, e<br />

em diversas dessas administrações também houve a implementação de experiências<br />

pedagógicas orientadas por projetos.<br />

É importante constatar a presença, no Brasil, de importantes experiências<br />

do método denominado Problem Based Learning (PBL), também conhecido<br />

por Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP), principalmente na educação<br />

superior. Nesse método, as propostas curriculares são organizadas a partir de<br />

linha articuladora de módulos temáticos que se desdobram em problemas a<br />

serem examinados, pesquisados e resolvidos pelos alunos em grupos e sob<br />

tutoria dos professores. No PBL/ABP compete ao aluno organizar o seu tempo,<br />

desenvolver métodos próprios de estudo e empreender esforço nas situações<br />

de aprendizagem e de busca de informações.<br />

Por último, ainda é importante constatar que as propostas de utilização<br />

das mídias interativas assim como as práticas de Educação a Distância (EaD)<br />

criaram entrelaçamento de metodologias de aprendizagem colaborativas, geralmente<br />

com a organização do trabalho pedagógico por meio de projetos.<br />

Dentre as referências teóricas, seguramente a principal fonte de consulta<br />

sobre o tema nas escolas de educação básica foi a obra de Fernando Hernandez<br />

que tem a produção teórica inspirada em experiências escolares da Espanha.<br />

8 São denominados de pedagogia ou concepção meritocrática aquelas que acreditam que o sucesso na aprendizagem<br />

depende exclusivamente dos esforços do educando, sendo que a promoção seria resultado de seus méritos.<br />

9 Um importante marco deste processo é a obra “Contribuições da interdisciplinaridade para a ciência, a escola e o<br />

movimento sindical” (Nogueira, 1995).


2. O modelo pedagógico brasileiro e os projetos<br />

O modelo pedagógico brasileiro está organizado para o atendimentopadrão<br />

de grupos numerosos e heterogêneos de estudantes, pois é possível:<br />

(a) unificar e homogeneizar as práticas educativas e os materiais escolares;<br />

(b) uniformizar a linguagem escolar; (c) ordenar as seqüências de conteúdos;<br />

e (d) padronizar os instrumentos de avaliação, promoção e certificação<br />

de estudantes (Sampaio, 1997, cf. p. 63). A lógica desse formato pedagógico<br />

é articulada pela proposta curricular baseada na segmentação das disciplinas,<br />

dos processos de ensino e modelação das práticas escolares dos estudantes,<br />

regulando os padrões de conduta, linguagem e pensamento. As mudanças na<br />

sociedade e na cultura humana fizeram com que os resultados pedagógicos<br />

desse modelo fossem cada vez mais reduzidos e questionáveis, mas ele continuou<br />

a ser reproduzido nas instituições escolares por tradição. Atualmente,<br />

poucas propostas curriculares justificam com fundamentos claros e objetivos<br />

o ordenamento dos conteúdos e as formas de avaliar a aquisição destes pelos<br />

estudantes 10 .<br />

A forma expositiva parece ainda ser predominante entre os educadores,<br />

principalmente a partir do quinto ano do Ensino Fundamental. Apesar de muito<br />

criticada pelos educadores, essa forma é mantida, geralmente sob alegações:<br />

(a) do suposto baixo comprometimento dos educandos com a aprendizagem;<br />

(b) das turmas numerosas; e (c) da extensão da jornada de trabalho dos<br />

educadores, que reduzem o tempo de preparação e avaliação de atividades<br />

diversificadas. As aulas, portanto, são preparadas e ministradas para educandos<br />

abstratos e padronizados, formuladas num discurso único e homogêneo,<br />

estabelecendo a dissociação entre ensino e aprendizagem, num processo em<br />

que o educador, supostamente, exerce sua tarefa de ensino e em que caberia<br />

ao educando a responsabilidade e os esforços para a aprendizagem...<br />

No modelo pedagógico denominado tradicional, encontramos, no entanto,<br />

experiências e proposições da organização do trabalho pedagógico na<br />

forma de projetos, que se constituem num conjunto de atividades planejadas<br />

minuciosamente e a priori. Portanto projeto, nessa concepção, seria o processo<br />

organizado a partir de objetivos e temas prefixados, que se desdobrariam em<br />

atividades, previamente justificadas e preparadas com a diversidade de tecnologias<br />

e recursos didáticos necessários e, geralmente, ordenadas em cronogramas<br />

fixos. A ênfase, portanto, está no planejamento prévio da organização do<br />

trabalho pedagógico, sendo que a rigor não se constatam grandes mudanças<br />

nos processos de ensino e aprendizagem, mas apenas na forma de planejá-los<br />

e executá-los.<br />

Uma parte das proposições desse modelo pedagógico incorporou diversos<br />

aspectos das teorias empresariais de Gestão por Projetos, que, numa<br />

10 Argumentos como os de “ordem natural dos conteúdos” ou “da forma como está presente na maioria dos materiais<br />

escolares” são freqüentemente manifestos por educadores/as que defendem e praticam esse modelo pedagógico.<br />

59


60<br />

visão matricial, define os objetivos e, a partir destes, determina as pessoas<br />

responsáveis e os recursos necessários para executar as tarefas. A forma de<br />

organização é semelhante à dos cases — ferramentas utilizadas nos programas<br />

de gestão de recursos humanos e qualidade no mundo do trabalho 11 . Essas<br />

tendências, no entanto, efetivamente mantêm o modelo pedagógico mesmo<br />

com a inclusão de dispositivos pedagógicos diversificados.<br />

Há, porém, outro bloco de tendências pedagógicas, das quais trata o presente,<br />

constituído pelas proposições de educadores que procuram: (a) romper<br />

com a linearidade de planejamento e desenvolvimento de conteúdos, comumente<br />

definidos a priori; (b) buscar a superação da fragmentação de saberes<br />

em disciplinas, da formação atomizada de professores e das grades temporais<br />

fixas (de aulas semanais, avaliações bimestrais ou trimestrais e sistemas de<br />

promoção anuais); (c) contextualizar, problematizar e criticar efetivamente os<br />

temas em estudo; (d) desenvolver instrumentos de avaliação processuais e superar<br />

as ferramentas tradicionais de avaliação centrados apenas em resultados<br />

do ensino; (e) promover situações de aprendizagem interativas, contrapondoas<br />

à hegemonia das formas expositivas de saberes nas aulas; (f) conquistar o<br />

envolvimento efetivo dos educandos no processo pedagógico e na constituição<br />

de aprendizagens significativas, como alternativa ao modelo enciclopedista<br />

de aquisição passiva de saberes (formalizados em informações e conceitos) e<br />

procedimentos isolados e sem vínculo concreto com as práticas culturais dos<br />

estudantes; (g) estimular procedimentos de pesquisa como forma de superar<br />

o uso passivo da tecnologia da informação e a oferta reduzida de materiais<br />

pedagógicos flexíveis e interativos; (h) “desformalizar” e desburocratizar os<br />

procedimentos pedagógicos e administrativos das instituições escolares. Enfim,<br />

procuram a superação da pedagogia decorrente do modelo fordista de<br />

organização do trabalho e da produção capitalista de mercadorias e serviços.<br />

Estas proposições também levam a constatar que os objetivos da atividade<br />

escolar, em suas diversas formas, não podem ser reduzidos a conteúdos<br />

e métodos a serem apreendidos pelos educandos, mas, como aponta Giroux,<br />

expressam o processo de introdução de determinado modo de vida (Moreira,<br />

1995). Para Silva (1995), as instituições escolares funcionam para “(...) organizar<br />

as experiências de conhecimento de crianças e jovens, com o objetivo de<br />

produzir determinada identidade” (Silva, 1995, p. 184).<br />

Podemos ainda constatar que<br />

(...) as narrativas contidas no currículo corporificam noções particulares<br />

sobre conhecimento, sobre formas de organização da sociedade, sobre os dife-<br />

rentes grupos sociais, explícita ou implicitamente. Elas dizem qual conhecimento<br />

é legítimo e qual é ilegítimo, quais formas de conhecer são válidas e quais não o<br />

11 As proposições desses projetos ganharam um novo impulso a partir da década de 1980 por influência da adoção<br />

das “técnicas e metodologia de gestão por projetos” adotadas nas empresas, que derivam das concepções de administração<br />

da Escola de Relações Humanas (Vermelho, 1998) integrada ao modelo de regulação capitalista conhecido<br />

como Toyotismo ou ainda como Empresa Integrada e Flexível (Harvey, 1985).


são, o que é certo e o que é errado, o que é moral e o que é imoral, o que é bom<br />

e o que é mau, o que é belo e o que é feio, quais vozes são autorizadas e quais<br />

não o são (Silva, 1995, p. 4).<br />

Assim, o conteúdo dos currículos e do trabalho pedagógico envolve os<br />

bens culturais da humanidade, forma saberes (entre estes os acadêmicos e os<br />

populares) e trata das diversas manifestações de arte, valores, padrões de conduta<br />

e experiência de sentimentos. A escola, no entanto, reconhece oficialmente<br />

como conteúdo apenas o que está inscrito no currículo oficial (aquele que é<br />

formalizado e por isso denominado, também, de currículo legal ou explícito).<br />

O currículo em ação reúne todas as práticas e ocorrências pedagógicas, com<br />

as tentativas, os sucessos e os erros nos processos de aplicação do currículo<br />

formal. No cotidiano escolar, é fácil constatar a existência de currículos ocultos<br />

compostos por conteúdos incluídos pelo professor por sua própria conta, às<br />

vezes até de forma clandestina, omitindo-os dos registros escolares. Incluemse<br />

aqui, também, as experiências vividas no espaço da escola pelo aluno, que<br />

implicam a regulação de comportamento e promoção de capacidades (Forquin,<br />

1993). Também podem ser identificados currículos invisíveis, compostos por<br />

práticas culturais na escola, mas que não são explícitos nem aos olhos dos próprios<br />

professores (Moura, 2003), como aquelas de ressignificação de valores,<br />

referendando ou deslegitimando determinadas condutas (como, por exemplo,<br />

o reforço de condutas racistas, sexistas, elitistas, etc.; a domesticação de emoções,<br />

a sublimação de desejos, a regulação das situações e as possibilidades de<br />

afeto). Essas diferentes dimensões comporiam o currículo concreto, resultante<br />

de diferentes formas de planejamento e organização do trabalho pedagógico.<br />

Essas proposições implicam superar, pelo menos, duas tradições importantes<br />

na educação brasileira: (a) a da linearidade na forma de expor temas<br />

de estudo, sistemas de conceitos e domínio de procedimentos e (b) do caráter<br />

eminentemente expositivo de conteúdos pelos educadores e/ou materiais didáticos.<br />

E compreender as práticas pedagógicas como processos de aprendizagem<br />

e de interação formativa entre professores e alunos e de alunos com<br />

alunos, que visam tanto ao aprimoramento intelectual, como à formação do<br />

caráter e à experiência de sentimentos dos e pelos educandos no espaço escolar<br />

(Cordiolli, 2001b).<br />

Os meios, as condições, as ferramentas e os instrumentos pedagógicos<br />

podem ser e o são configurados de maneiras distintas nas diferentes experiências<br />

de organização do trabalho pedagógico na forma de projetos. Mas,<br />

a principal busca (e conquista) parece ser a constituição de formas de lidar<br />

efetivamente com a diversidade cultural, de estágios diferenciados de domínio<br />

de saberes, com distintos interesses, necessidades, ritmos e processos<br />

de aprendizagem. Isso implica na alteração da relação entre educadores e<br />

educandos, para que estes ocupem a posição de protagonistas dos processos<br />

de aprendizagem e o educador a de organizador de situações pedagógicas nas<br />

quais ocorram esses processos.<br />

61


62<br />

3. Os projetos mobilizadores e compartilhados<br />

Podemos agrupar os projetos como forma de organizar o trabalho pedagógico<br />

em dois tipos básicos: os mobilizadores e os compartilhados. Os projetos<br />

mobilizadores, aqui definidos como sendo aqueles cujos temas e objetivos<br />

são propostos pela instituição escolar e/ou educador e implementados em conjunto<br />

com os educandos. Esses tipos de projeto são denominados projetos de<br />

ensino por Hernandez (1998).<br />

O segundo grupo, denominado de projetos compartilhados, porque seus<br />

processos devem ser construídos a partir de problemáticas e questões apresentadas<br />

pelos estudantes e mediadas pela instituição escolar — educador. A<br />

esses Hernandez (1998) propõe a denominação projetos de aprendizagem.<br />

Os projetos mais eficazes na perspectiva da aprendizagem, na opinião<br />

de Hernandez (com a qual concordo), seriam os compartilhados, mas, creio ser<br />

importante reconhecer que a implementação dessa forma de organização do trabalho<br />

pedagógico — tanto por parte de educadores como de educandos 12 — requer<br />

o aprendizado coletivo, assim como romper com elementos da cultura<br />

escolar que depõem contra essa proposição. Penso que os projetos devem ser<br />

experienciados por educadores e educandos, buscando mensurar adequadamente<br />

suas necessidades, constituindo assim as mediações necessárias no<br />

ritmo possível e nas condições concretas. Também é importante reconhecer<br />

a necessidade de educadores poderem efetivar projetos em parte — e não na<br />

totalidade — de seus cursos, utilizando-os, portanto, como recurso didático.<br />

Assim como é possível optar por projetos mobilizadores e compartilhados para<br />

momentos e temas diferentes do mesmo processo de aprendizagem.<br />

Nessa perspectiva, proponho que os projetos sejam tomados como possibilidade,<br />

e não como imposição, podendo ser desenvolvidos com combinações<br />

variadas para atender às necessidades dos estudantes e dos educadores,<br />

assim como para possibilitar diferentes articulações com os temas geradores,<br />

práticas de inter, trans e multidisciplinaridade e estabelecer procedimentos de<br />

problematização e contextualização.<br />

Os projetos podem ser variados e implementados em toda a educação<br />

básica e superior. Por exemplo, uma instituição escolar com oferta de Educação<br />

Infantil ao Ensino Médio pode estar desenvolvendo um projeto com todos os alunos,<br />

sob o tema reciclagem e aproveitamento adequado de papel, no qual cada<br />

turma ocuparia um espaço de tempo mensal para a realização de tarefas específicas<br />

a elas delegadas. Em outros projetos simultâneos, as turmas de Educação<br />

Infantil poderiam ser chamadas a organizar uma horta comunitária, utilizada para<br />

realizar estudos sobre plantas; nos anos iniciais do Ensino Fundamental (1 a a 4 a<br />

séries ou 1 o e 2 o ciclos) se poderia examinar o consumo de gêneros alimentícios<br />

industrializados e sua implicação sobre a saúde humana; nos anos finais do<br />

12 E mesmo alteração nas formas de regulação educacional, assim como reconhecimento e legitimação desta forma<br />

de organização curricular e do trabalho pedagógico pela sociedade e pelos pais em particular.


Ensino Fundamental (5 a a 8 a série ou 3 o e 4 o ciclos), outro projeto poderia ser<br />

organizado com temas ligados à sexualidade; no Ensino Médio, pode-se constituir<br />

um projeto para problematizar as relações entre profissão e mercado de<br />

trabalho. Assim, diferentes projetos com objetivos distintos poderiam coexistir<br />

no mesmo período, articulando interesses e temáticas variadas.<br />

Essas iniciativas podem ser simultâneas a outros projetos decorrentes<br />

das necessidades de aprendizagem de cada disciplina ou turma. Assim, as<br />

turmas do primeiro ano do Ensino Médio poderiam estudar as diferentes formas<br />

de cálculos do sistema de crédito; as turmas dos anos iniciais do Ensino<br />

Fundamental podem desenvolver projetos utilizando jogos para aprendizagem<br />

da geometria. O professor de Ciências do sétimo ano do Ensino Fundamental<br />

poderia propor a identificação de elementos químicos em rochas e plantas, recolhidos<br />

no espaço físico da instituição escolar ou do bairro. Enfim, os temas de<br />

projetos podem ser amplos e variados, ser realizados por uma ou mais turmas<br />

e, ainda, contar com a contribuição de um ou mais educadores, adotar temas<br />

do currículo formal ou de fora dele. Vários projetos podem estar intercalados,<br />

envolvendo uma ou mais turmas, integrando diversas disciplinas, envolvendo<br />

diferentes professores. São muitas as possibilidades de organização de projetos<br />

e maiores ainda as combinações entre eles.<br />

Seria possível transpor esse modelo, resguardando as devidas proporções<br />

para a educação superior; por exemplo, podendo implementar projetos<br />

em educação ambiental e desenvolvimento de procedimentos acadêmicos para<br />

todos os estudantes da instituição, combinados a projetos por setores, cursos<br />

e turmas. Os projetos relacionados, neste exemplo, promovem tanto processos<br />

de aprendizagem como de formação interativa, respeitando questões próprias<br />

às respectivas faixas etárias e/ou aos cursos da educação superior.<br />

4. Elementos para uma identidade dos projetos<br />

A identificação de alguns elementos e fundamentos para a definição de<br />

um campo dos projetos na organização do trabalho pedagógico é importante<br />

para a construção da identidade desse procedimento didático. As duas definições<br />

primeiras seriam as de que projetos (a) não se manifestam apenas no<br />

planejamento detalhado de aulas e (b) nem tampouco numa seqüência de<br />

conteúdo previamente ordenada. Para definir o campo de projetos estamos<br />

propondo os seguintes eixos: (a) compartilhamento; (b) ação coletiva e práticas<br />

colaborativas; (c) aprendizagem com pesquisa e diversidade de fontes;<br />

(d) produção de sínteses distintas: a forma, a linguagem e o conteúdo da<br />

produção docente; e (e) a socialização dos resultados com retorno à comunidade.<br />

Esses eixos correspondem a uma estrutura básica para a realização<br />

de projetos que, dentre as várias vertentes, recomendamos a proposição de<br />

Vasconcelos 13 (2002): “definição do(s) tema(s)-problema, constituição dos<br />

13 Para um aprofundamento desta estrutura recomendamos a leitura de Vasconcelos (2001).<br />

63


64<br />

grupos de trabalho, planejamento do trabalho, trabalho de campo, pesquisa<br />

e teorização, produção de registros, apresentação, globalização e avaliação”<br />

(Vasconcelos, 2002, p. 161).<br />

4.1. O compartilhamento<br />

O compartilhar se constitui no conjunto de práticas de planejamento,<br />

ações e decisões coletivas, que implicam processo de interação com responsabilidade<br />

e companheirismo, de maneira que os envolvidos se sintam parte do<br />

todo, possuam identidade com o coletivo e com o processo.<br />

Nesse sentido, o compartilhamento significa o envolvimento dos educandos<br />

com os processos de organização das atividades pedagógicas, que se<br />

justificam pelas descobertas peculiares (Hernandez, 1998), únicas e pessoais,<br />

estabelecendo dinâmicas de tempo próprias e processos adequados para cada<br />

situação de aprendizagem. Desse modo, seria possível organizar as atividades<br />

escolares a partir de questões e problemáticas formuladas pelos próprios<br />

educandos, que constituiriam espaços de aprendizagem mais significativa e<br />

socialmente mais importante. O trabalho compartilhado possibilita o estabelecimento<br />

de relações entre educadores e estudantes, o que permite reorientar<br />

os projetos em seu fazer-se, podendo alterar suas atividades, sua orientação<br />

e mesmo sua programação. Assim, compartilhar é também promover a gestão<br />

coletiva dos processos de aprendizagem.<br />

Nessa perspectiva, por exemplo, o objetivo de projeto, inicialmente<br />

centrado no funcionamento do aparelho digestivo, pode ser deslocado para o<br />

consumo de produtos saudáveis, caso isso capitalize mais o interesse dos alunos.<br />

A programação inicial para três meses pode ser ampliada, caso a turma<br />

mantenha a empolgação e o interesse, podendo, por outro lado, ser o tempo<br />

reduzido e até abortado, caso ocorra a produção significativa do envolvimento<br />

antes do prazo prefixado para a sua realização. Um outro projeto, como a<br />

previsão inicial de elaboração de um jornal para a instituição escolar, pode ser<br />

convertido em site da internet ou vice-versa. Portanto, temas e atividades podem<br />

ser reorientados durante os processos de desenvolvimento dos projetos,<br />

para atender aos interesses e às necessidades dos alunos.<br />

Uma instituição escolar adotou o tema Olimpíadas de Sidney que, evidentemente,<br />

foi escolhido em função da grande pressão da mídia, particularmente<br />

a televisiva. Os estudantes (e, creio, os educadores também) “embarcaram<br />

na onda”, mas com os resultados negativos dos atletas brasileiros na<br />

competição, os alunos começaram a se desmotivar, mas os educadores se<br />

sentiam obrigados a continuar “carregando aquele cadáver”. Muito transtorno<br />

poderia ter sido evitado, caso os educadores discutissem abertamente a situação<br />

do projeto com os educandos. Isso poderia inclusive servir para determinar<br />

melhor os critérios de escolha de novos temas.


Um curso de Ciências Contábeis implementou diversos projetos a partir<br />

do tema Ponto de equilíbrio entre receitas e despesas, mas saturou os educandos<br />

que, depois de certo tempo, não agüentavam mais tocar no tema. Embora<br />

os educadores considerassem o tema como importante, era necessária a<br />

percepção de que há momentos de interesse e empolgação assim como os de<br />

refluxo e esgotamento.<br />

4.2. A ação coletiva e as práticas colaborativas<br />

A ação coletiva com práticas colaborativas parece ser questão central<br />

na organização do trabalho pedagógico na forma de projetos, mas não aquela<br />

atividade em que a turma se divide em equipes, o educador determina tarefas<br />

para cada grupo, as quais são fatiadas entre os membros da equipe para<br />

depois ser costuradas sem integração ou interação 14 . Não é a essas atividades<br />

coletivas que nos referimos, mas a outra forma, na qual os grupos sejam organizados,<br />

considerando pelo menos as possibilidades que se seguem.<br />

Na primeira, consideram-se para a formação dos grupos os educandos<br />

com potencialidades e dificuldades distintas, quanto a procedimentos escolares<br />

e domínio de saberes; nesse caso, a ação colaborativa permite o processo de<br />

aprendizagem em grupo. Um estudante, por exemplo, que possua boa capacidade<br />

de exposição oral, mas cuja produção de escrita seja insuficiente, pode<br />

aprender com os colegas ao presenciar o tratamento escrito coletivo resultante<br />

da sua verbalização sobre o tema. Também é possível que o estudante com<br />

dificuldade em expor idéias na forma oral possa verificar suas limitações (e<br />

perceber a possibilidade de superá-las) ao redigir as falas de colegas. Assim,<br />

alunos com domínio de procedimentos distintos ou saberes diferentes podem<br />

se ensinar e aprender mutuamente.<br />

Numa segunda, as equipes podem reunir os estudantes com potencialidades<br />

e dificuldades semelhantes. Por exemplo, educandos tímidos ou com<br />

dificuldades em exposição oral podem ser reunidos numa mesma equipe para<br />

que colaborativamente se disponham a buscar soluções possíveis, a partir da<br />

convergência do que cada aluno já sabe (ou consegue fazer) e do esforço coletivo<br />

para superar as necessidades. Pois não há ninguém que não saiba nada,<br />

mas, sim, há aqueles que sabem menos e os que sabem pouco; ainda assim,<br />

todos eles sabem algo de forma diferente. Reunindo o conhecimento específico<br />

de cada estudante, somando-os ao esforço colaborativo, o grupo saberá encontrar<br />

caminhos e com isso realizar processos efetivos de aprendizagem sobre<br />

os temas em estudo.<br />

Numa terceira, as equipes podem reunir alunos que desejam investigar<br />

a mesma abordagem ou trabalhar com as mesmas fontes, em relação ao tema<br />

14 Um caso comum é do estudo de um texto, que geralmente é dividido e os/as alunos/as não lêem os trechos<br />

anteriores ou posteriores à parte que lhes cabe, mesmo que iniciem com uma separação de sílaba... É a chamada<br />

pedagogia Frankstein, do recorte e cola, do corte e costura, do recolhe e junta, no qual a soma das partes não<br />

produz uma síntese e, às vezes, nem sentido.<br />

65


66<br />

investigado. Nesta situação, alunos que pertencem a diferentes grupos de relacionamento<br />

interno, nos quais se dividem as turmas escolares, podem vir a<br />

se interessar pelos mesmos temas, trazendo as contribuições de seus saberes<br />

peculiares e visões particulares de mundo.<br />

As práticas escolares atuais, geralmente restringem as atividades coletivas,<br />

minimizando-as como processos avaliativos, com medo de que “uns sejam<br />

levados nas costas por outros”, pois “um estudante que não participou de maneira<br />

adequada do grupo recebe a mesma nota”. O educador ou instituição escolar<br />

que se recuse ou limite as atividades coletivas, temendo perder o controle<br />

e os mecanismos de vigilância sobre os educandos, repete os pressupostos da<br />

pedagogia tradicional e conservadora fundada em princípios (a) meritocráticos,<br />

em que apenas os supostamente bons, eficientes e esforçados deveriam<br />

chegar ao final dos cursos; (b) individualistas, pois dificultam a aprendizagem<br />

coletiva, mantendo os pressupostos de que cada aluno seria responsável por si<br />

e, por conseqüência, não construiria princípios de responsabilidade e cooperação<br />

coletivas; e (c) concorrencialistas, pois estimulam, mesmo indiretamente,<br />

que educandos se comparem e se posicionem diante do olhar do educadoravaliador,<br />

através de processos classificatórios que hierarquizam as turmas em<br />

função dos resultados de ensino e não dos processos de aprendizagem.<br />

Nessas atividades, os educandos têm a possibilidade de redefinir o padrão<br />

de relacionamento entre eles; de trabalhar em equipe; de organizar processos<br />

de estudo, de pesquisa, de reflexão e de produção coletiva. Os temas<br />

de estudo podem propiciar tanto o desenvolvimento de procedimentos tecnológicos<br />

como metodológicos. Também constituem espaços formativos de valores<br />

e condutas, como os de respeito mútuo, solidariedade, de diálogo, de justiça e<br />

de experiência: as de emoções, como as frustrações, de conquistas, de desejos<br />

e de afetos (Cordiolli, 2001 e 2001 b).<br />

Pode-se possibilitar aos educandos, ao vivenciarem experiências de socialização<br />

e interação, no contexto da relação individualidade-coletividade, se<br />

reconhecerem como sujeitos de processos coletivos. Os estudantes precisam<br />

de oportunidades, pedagogicamente organizadas, para constituir sua autonomia,<br />

para assumir suas responsabilidades e se posicionar perante o coletivo.<br />

Assim, “(...) o educando que exercita sua liberdade ficará tão mais livre quanto<br />

mais eticamente vá assumindo a responsabilidade de suas ações. Sua autonomia<br />

se funda na responsabilidade que vai sendo assumida” (Freire,1996, p. 13).<br />

Há várias teorias que fundamentam a ação pedagógica de trabalho coletivo,<br />

como as das assembléias de turma (ver Aquino, 2003) e comunidade de investigação<br />

(Sharp & Splitter, 1999).<br />

Ferraz, no relato de uma experiência no Ensino Médio, observou que<br />

a falta de organização e de responsabilidade para com os trabalhos escolares é<br />

geral, ocorrendo em todas as disciplinas. Por isso, a mudança de comportamento


dos alunos, ao longo de três anos de aplicação do Projeto Ambiente em Foco, per-<br />

mite indicar que o exemplo de organização e responsabilidade é capaz de alterar<br />

uma postura inadequada (Ferraz, 2002, p. 69).<br />

Enfim, o trabalho coletivo e a aprendizagem colaborativa são também a<br />

base para a formação humanista, democrática, cidadã, como pressuposto para<br />

a constituição da autonomia. Nessa perspectiva, é fundamental possibilitar<br />

diversos tipos de ações colaborativas em diferentes níveis, tais como entre os<br />

colegas de equipe, com outros colegas da turma e a interlocução com outros<br />

interessados pelo tema, utilizando desde o correio convencional até as possibilidades<br />

da internet como e-mails, salas de bate-papo e grupos de discussão.<br />

A educação superior manifesta o desconforto com as atividades em grupo,<br />

uma vez que, geralmente, as equipes de trabalho são constituídas nos primeiros<br />

meses de cursos e se mantêm com pouca alteração quase até a formatura.<br />

Os educandos criam vícios como o da divisão prévia de tarefas (há os que<br />

lêem os textos, os que redigem e os apresentam) e, por vezes, até constituem<br />

consórcio nos quais partes das equipes se responsabilizem por atividades de<br />

diferentes disciplinas. De certa forma, apenas parte dos educandos produzem<br />

as atividades e ainda assim de forma fragmentada. Isso gera desconfiança por<br />

parte de educadores que temem que educandos recebam notas “sem méritos”<br />

e que outros se sintam injustiçados por ter “carregado colegas sem méritos”<br />

na atividade.<br />

As proposições apresentadas neste ensaio implicam reconhecer que a<br />

questão principal é ética: a instituição que compactua com isso reforça diferentes<br />

formas de deformação de valores. Mas, por outro lado, isso é responsabilidade<br />

de educadores que não permitem espaços para o trabalho coletivo, pois<br />

avaliam apenas os produto (os textos escritos ou apresentações orais), sem<br />

acompanhar os processos nos quais os diversos educandos interagem. Ele — o<br />

educador como propiciador de situações de aprendizagem e interação — pode<br />

intervir constituindo as equipes e formulando atividades que remetam a formas<br />

coletivas de estudo e aprendizagem.<br />

Também é necessário estimular e permitir aos educandos o desenvolvimento<br />

de métodos de estudo que utilizem adequadamente os recursos disponíveis.<br />

E que, coletivamente, identifiquem os objetivos de estudo, promovam a<br />

problematização, a crítica e a contextualização, em ações metacognitivas e na<br />

perspectiva metadisciplinar. A organização do trabalho coletivo também implica<br />

dividir adequadamente as tarefas e buscar a integração com coerência dos dados<br />

coletados, como base para a formulação de sínteses significativas.<br />

4.3. A aprendizagem com pesquisa e a diversidade de fontes<br />

A aprendizagem com pesquisa e a diversidade de fontes são elementos<br />

fundamentais na organização do trabalho pedagógico na forma de projetos. Mas,<br />

assim como as atividades escolares coletivas, também estão desacreditadas por<br />

67


68<br />

parcela de educadores e instituições, pois às vezes se apresentam resultados<br />

ruins como cópias de livros 15 ou compra de atividades prontas. Mas a superficialidade<br />

e fragilidade parecem também estar presente em grande parte das<br />

pesquisas realizadas com algum grau de seriedade pelos estudantes.<br />

Alguns professores afirmam, com base em experiências desse tipo, que<br />

os estudantes não estariam interessados nessa forma de atividade ou não saberiam<br />

produzi-las. Por outro lado, todos conhecemos experiências ou depoimentos<br />

que afirmam que a aprendizagem com pesquisa, quando realizada com<br />

sucesso, estimula e mobiliza os estudantes com resultados surpreendentes.<br />

As instituições escolares, em particular os professores, devem estimular<br />

os alunos com o compartilhamento de temas, envolvendo-se com as problemáticas,<br />

identificando-se com as necessidades e possibilidades de aprendizagem<br />

do tema em estudo.<br />

Mas a falta de estímulo dos estudantes, muitas vezes, também decorre<br />

de temas pouco instigantes (que podem até o ser para o professor, mas não<br />

se constituem em tal aos olhos dos alunos), de objetivos maldelineados e de<br />

procedimentos obscuros. Pesquisar é antes de tudo a disposição de caminhar<br />

por saberes, por disciplinas, por especialidades e também por distintas formas<br />

de disponibilização de dados. Porém a pesquisa também pode assumir o levantamento<br />

de dados na produção de novos saberes, como elemento central dos<br />

processos escolares. Assim, partimos do pressuposto de que não basta apenas<br />

diversificar autores ou a bibliografia sugerida; se faz importante ir mais além,<br />

a ponto de compartilhar saberes acessados em diferentes locais ou produzidos<br />

a partir de investigação de fontes disponíveis e explicitar contrates entre distintas<br />

linguagens e interlocutores.<br />

Isso implica três ações distintas: (a) a realização de pesquisa em fontes<br />

disponíveis; (b) a coleta de depoimentos de familiares, pessoas da comunidade,<br />

personalidades locais, profissionais e especialistas em diversas áreas; (c)<br />

o acesso e a análise das mídias disponíveis. Essas ações devem ser articuladas<br />

ao acesso, contraste e diálogo com os saberes reconhecidos e sancionados<br />

pelas instituições escolares.<br />

A realização de pesquisa em fontes disponíveis implica ação de investigação<br />

— com instrumentos adequados de pesquisa e tratamento de dados — de<br />

comunidades e da natureza para os estudantes da educação básica. Diferentes<br />

comunidades, empresas e profissionais de um ramo da economia, de uma<br />

mesma profissão, objeto de determinada área do conhecimento podem se<br />

constituir em temas de pesquisas para os estudantes da educação superior e<br />

do ensino profissionalizante de nível técnico (EPNT).<br />

15 O que gestou uma verdadeira indústria de confecção de trabalhos, algumas delas com propagandas explícitas em<br />

algumas escolas e campi. A situação se agravou nos últimos anos, em função da proliferação de sites na Internet<br />

que disponibilizam textos prontos para as diferentes disciplinas e etapas escolares, em particular na Educação<br />

Superior.


Na educação básica, as atividades de levantamento de dados sobre a<br />

comunidade e as famílias podem reunir dados sobre aspectos da vida da comunidade<br />

— como a procedência geográfica das famílias, hábitos alimentares,<br />

fontes de renda, modos de lazer, etc. — em projetos que sucedem por vários<br />

anos, assumidos por diferentes gerações de alunos, produzindo seqüências<br />

históricas de dados ricos e originais. Esses dados também podem vir a ser examinados<br />

e confrontados por novos levantamentos e por diferentes formas de<br />

crítica, construindo referências para a contextualização da realidade dos alunos<br />

e das comunidades no entorno da instituição escolar.<br />

Na educação superior e no ensino profissionalizante, a aprendizagem<br />

com pesquisa pode se constituir em atividade sistemática e permanente, articulada<br />

e articulando diversas disciplinas em diferentes anos, para compor base<br />

de dados produzida com instrumentos acadêmicos de investigação empírica,<br />

e ampliada constantemente pelas gerações de estudantes que se sucedem.<br />

Essas bases de dados servem tanto como matéria-prima para os processos de<br />

aprendizagem mais contextualizados e problematizadores, como para a produção<br />

de pesquisas e artigos acadêmicos dos <strong>docentes</strong>. Nos cursos da área de<br />

saúde, por exemplo, os dados podem compor o perfil de grupos populacionais,<br />

comportando diferentes investigações de estudantes e <strong>docentes</strong> dos vários<br />

cursos. Nos cursos de Ciências Sociais Aplicadas, atividades diversificadas podem<br />

ser realizadas, por exemplo, com banco de dados levantados com pesquisas<br />

em microempresas de um mesmo ramo de atividade econômica, etc.<br />

A coleta de depoimentos de familiares, pessoas da comunidade, personalidades<br />

locais, profissionais e especialistas em diversas áreas é distinta<br />

das pesquisas descritas no item anterior, pois não requerem a utilização de<br />

instrumentos rigorosos de pesquisa e tratamento de dados. Mas se constituem<br />

em questionários de entrevistas promovidos por alunos com os pais e as pessoas<br />

do seu círculo de convívio, sobre os mais diversos temas. Assim como os<br />

professores, as turmas e as equipes podem convidar familiares, pessoas da<br />

comunidade, personalidades locais, profissionais e especialistas em diversas<br />

áreas para prestar depoimentos ou debater os temas em estudo. A função<br />

dessas atividades, além de ampliar a variedade de opinião e de saberes sobre<br />

os temas em estudo, é o de permitir a manifestação de vozes e exposição de<br />

saberes e valores que não são disponibilizados na escola.<br />

O acesso e a análise das mídias disponíveis implicam verificar sua diversidade<br />

e tipologias. Poderíamos classificar as mídias, em função das necessidades<br />

pedagógicas, em diretivas e interativas. As mídias diretivas são de emissão<br />

magnética, sejam abertas ou pagas (os canais de televisão e as estações de<br />

rádios); as impressas em meio gráfico (os jornais, os livros, os folhetos e as<br />

revistas); as impressas em meio magnético (discos de vinil, audiocassete, videocassete,<br />

CD, DVD, CDV, CD-ROM e cartuchos de jogos eletrônicos); os expositores<br />

de peças de propaganda (como os cartazes e outdoors); e os sites de<br />

69


70<br />

informação disponíveis na internet. O grupo das mídias interativas é composto<br />

por telefone; programas com participação dos assistentes em rádio e televisão;<br />

sistemas de vídeo e teleconferência; e sistemas da internet como canais<br />

de bate-papo, listas de discussão, grupos de e-mail, homepages interativas e<br />

programas de comunicação instantânea. Nessa perspectiva os educandos podem<br />

pesquisar um mesmo tema, utilizando diferentes tipos de mídia como a<br />

leitura de jornais, revistas e livros didáticos; análise de programas de rádio e<br />

TV; visita a sites da internet; exame de folhetos e outdoors, etc.<br />

A utilização pedagógica da mídia requer a compreensão longitudinal e<br />

latitudinal dos temas nos diversos tipos de mídia. Na perspectiva longitudinal,<br />

um tema pode ser examinado em diferentes tipos de mídia — jornais, revistas,<br />

telejornais, sites acadêmicos; e na latitudinal, o tema pode ser examinado<br />

num mesmo tipo de mídia, mas de mantenedores diferentes — em telejornais<br />

de vários canais ou revistas de diferentes editoras, por exemplo. Os exames<br />

por contraste das diversas fontes se constituem num importante processo<br />

cognitivo que possibilita a percepção das diferenças na forma de disponibilizar<br />

informações e saberes, despertando para a produção de análises críticas das<br />

mídias, sobre seus fundamentos, estratégias discursivas, intencionalidade,<br />

mantenedores, informações disponibilizadas, etc.<br />

O acesso, contraste e diálogo com os saberes reconhecidos e sancionados<br />

pelas instituições escolares implicam redimensionar a função do professor,<br />

pois este não precisa ser a única fonte de informação e saberes e de escolha de<br />

materiais didáticos. No entanto, se fazem necessárias a preparação de instrumentos<br />

de pesquisas e a preparação dos estudantes na seleção das fontes utilizadas.<br />

A proliferação de sites e de publicações impressas permite a circulação<br />

de toda sorte de texto: com conteúdos paradisciplinares produzidos sem o rigor<br />

ou com instrumentos inadequados, com reducionismos, com fundamentos<br />

impróprios, com compilações, traduções e referências indevidas, etc.<br />

O professor, nesse processo, além de ser o propiciador de situações de<br />

aprendizagem, funciona como o balizador das fontes de pesquisas e pólo crítico<br />

de seus conteúdos. Cabe aos professores e às instituições escolares organizar<br />

conjuntos referenciais de materiais pedagógicos, como livros didáticos e paradidáticos,<br />

publicações de divulgação científica e sites educacionais especializados<br />

que funcionem como balizas para os estudantes. No entanto os materiais<br />

selecionados pela escola não podem ser os únicos utilizados pelos alunos nem<br />

ser o sancionador formal das pesquisas e tampouco o silenciador de vozes que<br />

expressem opiniões, saberes e valores, mas se constituir contraponto pedagógico<br />

e possibilitar a organização de referenciais de contraste e checagem para<br />

as ações de pesquisas.


4.4. A produção de sínteses distintas: a forma, a linguagem e o<br />

conteúdo da produção docente<br />

Os processos de aprendizagem dos estudantes ocorrem em diferentes<br />

momentos, como os de acessar saberes diversos, interagir com discursos<br />

variados, promover reflexões e debates com várias pessoas e em situação<br />

distintas. Portanto o processo de sistematização e reelaboração cobra posturas<br />

ativas dos educandos. Mas a nossa tradição escolar está permeada por práticas<br />

de educandos cujas atividades se reduzem, geralmente, à produção e à<br />

reprodução de textos didáticos ou de discursos dos educadores. A produção<br />

escrita de nossos alunos, comumente, constitui-se de processos formais e burocráticos,<br />

negando parte da vitalidade dos processos educativos. Mesmo em<br />

situações escolares mais abertas e flexíveis, os estudantes, geralmente, escrevem<br />

tendo como interlocutor apenas o educador, por isso é preciso estimular<br />

a diversidade de formas de produção estudantil como parte dos processos de<br />

constituição do conhecimento, superando o formalismo das atividades escolares<br />

e vinculando-as a situações concretas da vida humana. Nesse sentido, nos<br />

processos de aprendizagem, é importante organizar os saberes em diferentes<br />

formas discursivas, variando os interlocutores, os meios e os temas, mas é<br />

fundamental que essa produção seja avaliada pelo crivo da eficiência discursiva,<br />

do rigor, da precisão e da coerência de conceitos, pela fidelidade às fontes<br />

e pela qualidade dos argumentos, das críticas e das generalizações.<br />

As sínteses podem expressar resultados diferentes, pois grupos de educandos<br />

podem: (a) atingir o mesmo objetivo partindo de subtemas diferentes;<br />

(b) atingir o mesmo objetivo, mas chegando a pontos de vista distintos e até<br />

contraditórios; e (c) atingir objetivos específicos distintos, mas que se complementam<br />

no mesmo objetivo geral.<br />

Os caminhos para atingir esse objetivo também são amplos e variados.<br />

Neste texto, pretendo apontar alguns dos que considero mais significativos.<br />

O primeiro bloco pode ser a organização de resultados de projetos em<br />

formas discursivas diferentes, tais como: (a) na forma de boletins para públicos<br />

definidos, tais como, grupo de amigos, moradores de um mesmo bairro,<br />

freqüentadores de determinados espaços, como centros de comércio, cinemas,<br />

feiras, igrejas, etc.; (b) na forma de jornal, que pode ser distribuído pelos educandos<br />

ou, então, organizado como mural para ser afixado nos locais desejados<br />

pela turma, como salas de aula, pátios, paradas de ônibus, igrejas, pontos comerciais,<br />

etc.; (c) na forma de cartazes, que também podem ser afixados em<br />

espaços públicos; (d) na forma de textos escolares, que podem ser distribuídos<br />

para outras turmas, inclusive de que estão em estágios anteriores, como, por<br />

exemplo, educandos do Ensino Médio podem produzir textos didáticos sobre<br />

temas diversos para os colegas dos anos iniciais do Ensino Fundamental; (e) na<br />

forma de cartas, que podem ser trocadas via e-mail ou correio convencional com<br />

amigos, parentes e, até mesmo, com turmas de outras instituições escolares de<br />

71


72<br />

regiões diferentes do país e do mundo; também podemos introduzir entre os<br />

estudantes de instituições que tenham recursos tecnológicos; (f) a produção<br />

para a internet de materiais sobre o tema estudado, organizando homepages 16 ,<br />

e a participação de canais de bate-papo, listas de discussão, grupos de e-mail,<br />

etc., que tratem do tema estudado; (h) a produção de vídeos e áudios, similares<br />

a programas de rádio e TV (hoje diversas instituições escolares já dispõem<br />

de equipamentos necessários para a produção dessas mídias).<br />

O segundo bloco, que desejo ressaltar, refere-se à linguagem, pois cada<br />

uma das formas enunciadas anteriormente requer linguagens distintas, produzidas<br />

de formas específicas e articuladas com os respectivos interlocutores.<br />

Portanto podemos apontar, pelo menos, as seguintes linguagens requeridas<br />

pelas formas já enunciadas: (a) linguagem escolar, tanto para trabalhos formais<br />

voltados aos educadores como a educandos de outras turmas e instituições;<br />

(b) para diferentes interlocutores de convívio pessoal como colegas<br />

maiores ou menores, familiares, vizinhos, etc.; (c) para mídias distintas como<br />

a jornalística, de propaganda (para cartazes), de sites da internet; e (d) para<br />

atividades formais como cartas reivindicatórias endereçadas a autoridades,<br />

comunidades, etc.<br />

4.5. A socialização dos resultados com retorno à comunidade<br />

Os projetos compartilhados, tanto por suas práticas como pelos resultados,<br />

podem e devem extrapolar as turmas, incluindo outros grupos da mesma<br />

ou de outra instituição escolar e as comunidades ou segmentos específicos da<br />

sociedade, por isso é fundamental que os resultados sejam disponibilizados em<br />

sites, jornais, cartazes, folhetos, áudios, vídeos, etc.<br />

Por outro lado, as turmas podem intervir diretamente para transformar<br />

situações de sua realidade, seja propondo formas de intervenção dos<br />

estudantes, seja organizando canais de reflexão com as comunidades. No<br />

primeiro caso, os materiais de divulgação de resultados e sínteses, propostos<br />

anteriormente neste ensaio, tais como, cartazes, jornais, folhetos e sites, são<br />

contribuições importantes. O problema é que nem sempre esse material é<br />

disponibilizado para as comunidades, ficando restrito à sala de aula e quando<br />

muito à instituição escolar.<br />

Numa segunda perspectiva, os estudantes podem ser mobilizados para<br />

promover ações que tenham por objetivo solucionar os problemas levantados,<br />

como, por exemplo, propondo a organização de patrulhas para caçar focos<br />

de mosquitos da dengue; de brigadas para orientar pais e vizinhos a calcular<br />

corretamente juros, multas e similares; de grupos de trabalho para encontrar<br />

solução para a depredação de ambientes e poluição de rios; de publicações de<br />

16 A viabilidade das homepages pode variar, mas é importante constatar que várias instituições têm os seus próprios<br />

sites, diversos portais especializados possibilitam disponibilizar a produção estudantil e também há uma série de<br />

provedores que oferecem espaços de hospedagem gratuitos. O problema seria basicamente de disponibilidade de<br />

tecnologia como os computadores e domínio dos procedimentos de produção de homepages.


livretos com a história dos bairros, com brincadeiras de outras épocas, com<br />

orientações nutricionais; de palestras para a comunidade (em igrejas, associações<br />

comunitárias, sindicatos, escolas, etc.).<br />

Assim, estudantes do Ensino Médio ou do curso de Direito, por exemplo,<br />

podem elaborar manuais ou sites na internet sobre os direitos do consumidor;<br />

os de Ciências Contábeis e de Matemática nos anos finais do Ensino Fundamental<br />

podem promover atividades de organização das finanças familiares ou<br />

sobre procedimentos do sistema de crédito no comércio. Estudantes dos cursos<br />

de Administração, Desenho Industrial e Informática podem produzir softwares<br />

gratuitos para pequenas e médias empresas ou ONGs. Enfim, detendo saberes<br />

sobre um tema e conhecendo alguns procedimentos decorrentes deles, os<br />

educandos podem produzir diferentes formas de ação junto aos colegas da<br />

instituição escolar e às suas comunidades.<br />

Essas atividades permitem que as produções de saberes por educandos<br />

se voltem para a realidade concreta, possibilitando a mediação necessária entre<br />

o teorizar e o agir. Mas também requerem que o professor construa com<br />

os alunos espaços para a busca das respostas e satisfação das necessidades<br />

despertadas nesses processos de aprendizagem.<br />

5. O impacto da forma de projetos e do trabalho pedagógico<br />

na organização curricular<br />

Refletir sobre a organização do trabalho pedagógico na forma de projetos<br />

implica perceber que ela pode ampliar horizontes da educação, como também<br />

pode mantê-los nos marcos regulatórios atuais. Como Popkewitz (1995) nos<br />

alerta, as formas de organizar o conhecimento como currículo “(...) corporificam<br />

formas particulares de agir, sentir, falar e «ver» o mundo e o «eu»” (p. 175).<br />

Nesse sentido, gostaria de problematizar algumas questões diretamente implicadas<br />

nas escolhas promovidas no processo da organização curricular e do<br />

trabalho pedagógico.<br />

1. O modelo de organização do trabalho pedagógico na forma de projetos<br />

tende a se deslocar da ênfase no ensino para a ênfase na aprendizagem,<br />

pelo reconhecimento que o ato de “(...) ensinar não é «transmitir conhecimento»,<br />

mas criar possibilidades para a sua produção ou a sua construção”<br />

(Freire, 1996, p. 24-25). Isso implica priorização das relações horizontais entre<br />

educandos, pressupondo que dispõem dos mesmos códigos de comunicação e<br />

compartilham interesses e necessidades, o que permitiria que diferentes maneiras<br />

de aprendizagem se interconectassem em sua diversidade de interesses,<br />

necessidades, ritmos e processos.<br />

Os educandos, nesse processo, passam a compartilhar os conhecimentos<br />

constituídos, permitindo o dialogo entre diferentes grupos e percepções culturais,<br />

de maneira que “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina<br />

ao aprender” (Freire, 1996, p. 25). Isso pode possibilitar práticas dialógicas<br />

73


74<br />

fundadas no estágio de desenvolvimento humano dos educandos e no compartilhamento<br />

de seus códigos culturais comuns. As práticas dialógicas e a aprendizagem<br />

colaborativa poderiam contribuir na superação dos instrumentos segregacionistas,<br />

promovido pelas diversidades sociais e culturais (sejam elas de<br />

ordem de geração, de formação escolar, de status social, de orientação sexual,<br />

religiosa e política e de toda teia de discriminação e segregação), existentes<br />

entre educadores e educandos.<br />

Os instrumentos e procedimentos utilizados, nessa situação, são aqueles<br />

que possibilitariam aos educandos a condição de protagonistas no processo de<br />

constituição do conhecimento, e o educador passaria à condição de organizador<br />

de situações de aprendizagem e interação humana.<br />

2. A instituição escolar pode se constituir em espaço de mediação entre<br />

saberes. De um lado estão os saberes reconhecidos como importantes pelas<br />

instituições escolares, em particular os classificados como científicos, estruturados<br />

em modelos formais e estabelecidos por processos que respeitem regras de<br />

procedimentos de produção pelas corporações acadêmicas. Do outro lado estão<br />

os saberes dos educandos, nas formas organizadas em seus meios e códigos culturais<br />

e aqueles acessados nas diversas mídias que tenham em disponibilidade.<br />

Essa perspectiva não representa o abandono de conteúdos clássicos e/ou<br />

considerados importantes como temem muitos educadores, mas representaria<br />

a ruptura com a supremacia deles nos processos escolares. Romperia também<br />

com as maneiras formalistas, estáticas e inflexíveis como esses saberes são<br />

tratados na instituição escolar. Essas mudanças na forma de abordagem dos saberes<br />

possibilitariam o diálogo entre os saberes já constituídos pelos educandos<br />

e aqueles propostos pela instituição escolar, que seriam acessados conforme as<br />

necessidades e situações de aprendizagem, determinadas pelos ritmos e processos<br />

coletivos de educandos. O que seguramente ocorreria seria a ruptura<br />

no ordenamento linear e predeterminado dos saberes da maioria das propostas<br />

curriculares e práticas pedagógicas diretivas. Isso implica sejam os currículos<br />

organizados em objetivos e não apenas no arrolamento de saberes escolares.<br />

Os educandos, mesmo os de pouca idade, já trazem saberes: alguns de<br />

origem mítica, outros fundados em crenças familiares, outros sistematizados<br />

pelos códigos culturais dos seus respectivos meios (o que muitas vezes destoa<br />

na forma e nas concepções valorizadas pela instituição escolar), e há ainda<br />

aqueles que foram acessados em algum ponto da teia composta pelas diferentes<br />

mídias. Esses saberes são produtores de sentido de suas vidas, mas são,<br />

geralmente, desconhecidos ou desqualificados pelas instituições escolares e,<br />

por conseqüência, desprezados por elas. Os saberes dos educandos, muitas<br />

vezes, convivem com os saberes escolares, como se habitassem campos distintos,<br />

pois a instituição escolar tem dificuldade em dialogar com eles.<br />

O que efetivamente os educandos praticam na instituição escolar é o<br />

dialogo entre o que já sabem com os novos saberes que estão acessando.


Dessa forma, o processo escolar, em parte das vezes, não constitui «saberes<br />

novos», mas passa-se a «saber de outra forma». A prática dialógica efetiva<br />

pressupõe reconhecer que ninguém sabe tudo e que o que se sabe não se<br />

aprende de uma só vez. O conhecimento constitui-se por retomadas, por novas<br />

problematizações, por ampliações em processos permanentes de maturação<br />

do conhecimento.<br />

Os saberes dos educandos, sendo cotejados com outros saberes (apresentados<br />

pelas instituições escolares ou acessados por meio de pesquisa),<br />

promoveriam processos de ressignificação, com (a) a revisão de saberes já<br />

conhecidos, (b) a produção de novos saberes, (c) a apreensão de saberes importantes<br />

(mas ainda desconhecidos pelos educandos) e (e) o conhecimento<br />

de outra forma daquilo que já era conhecido.<br />

Esse processo, para alcançar os objetivos pretendidos, precisa estar<br />

vinculado às necessidades e aos interesses dos educando, cabendo à instituição<br />

escolar, e ao educador em particular, estimular, provocar e criar situações<br />

de aprendizagem impulsionadas pelo reconhecimento das necessidades dos<br />

educandos. Num segundo momento, é fundamental construir o desejo pelo<br />

conhecimento que transcende as necessidades imediatas do presente, que não<br />

se constrói pela coerção, mas por estímulos que respeitem interesses, necessidades,<br />

ritmos e processos de cada indivíduo. Os saberes e a arte compõem<br />

experiências que dão sentido à vida, associados ao prazer.<br />

Nessa perspectiva os educandos passariam a protagonizar o processo e<br />

organizar os conteúdos disponibilizados nas instituições escolares. Aos professores<br />

cabe buscar o equilíbrio entre “não-diretividade” e disponibilização dos<br />

bens culturais.<br />

Na educação superior e no ensino profissionalizante de nível técnico<br />

(EPNT), por sua vez, o educando é tencionado a dominar conjuntos de saberes<br />

e procedimentos que compõem perfis delimitados pelas tendências conjunturais<br />

do mercado de trabalho. Portanto é importante que as instituições escolares<br />

e o educador articulem essas demandas de forma aberta, numa visão<br />

efetiva de qualificação profissional, no sentido de que o educando compreenda<br />

os fundamentos e processos de sua área de atuação profissional. Para isso, se<br />

faz necessário romper modelos rigidamente disciplinares e fragmentados que<br />

visam fundamentalmente à acumulação de técnicas de trabalho.<br />

3. A implementação dos projetos (como outras formas não-diretivas)<br />

implica mudanças significativas nas relações de poder no interior das instituições<br />

escolares, em particular dos processos de avaliação e dos padrões de disciplina,<br />

que se constituem nos dois principais processos de regulação docente.<br />

Altera também as instâncias de definição e o que é definido como válido, o que<br />

deve ser produzido, qual e de quem é o saber a ser estudado, assim como “(…)<br />

produz e reproduz diferentes momentos, regras e práticas particulares” (Gore,<br />

1995, p. 14).<br />

75


76<br />

Moreira (1995) aponta, a partir de Giroux, a escola “(...) como uma arena<br />

política e cultural na qual formas de experiências e subjetividades são contestadas,<br />

mas também ativamente produzidas, o que o torna poderoso agente da luta<br />

a favor da transformação de condições de dominação e opressão” (p. 9).<br />

A alteração na forma como os currículos é elaborado e o trabalho pedagógico<br />

organizado permite criar as possibilidades de que os educandos possam<br />

constituir-se em protagonistas da constituição do seu conhecimento, implicando<br />

também que eles passem a influir de forma decisiva nos instrumentos<br />

regulatórios da vida escolar e da produção de cultura e identidade, pois<br />

(...) aquilo que está no currículo não é apenas informação — a organização<br />

do conhecimento corporifica formas particulares de agir, sentir, falar e «ver» o<br />

mundo e o «eu» (Popkewitz, 1995, p. 175).<br />

A tradição curricular oficial no Brasil sempre privilegiou os saberes,<br />

sendo poucas e recentes as iniciativas de rompê-la. Uma das mudanças pode<br />

ser constatada nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para Ensino Fundamental,<br />

que no Art. 3 o inciso IV dispõem que a “(...) base comum nacional<br />

e sua parte diversificada (das propostas curriculares) deverão integrar-se em<br />

torno do paradigma curricular, que vise a estabelecer a relação entre a educação<br />

fundamental e a (a) vida cidadã através da articulação entre vários dos<br />

seus aspectos 17 (...) e (b) as áreas de conhecimento 18 (...)” (Brasil, 1998). Os<br />

Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para Ensino Fundamental articularam<br />

esses dois grupos de objetivos propondo blocos de conteúdos para as áreas<br />

do conhecimento e os temas transversais para tratar dos aspectos da vida cidadã.<br />

Esse modelo curricular é importante constar, pois representa alterações na<br />

tradição brasileira ao propor um programa de formação de valores e condutas<br />

num mesmo plano que as áreas do conhecimento, em que pesem as críticas,<br />

tanto no formato como nos conteúdos dessas propostas (Cordiolli, 2001).<br />

Mas, ainda assim, os projetos pedagógicos e as propostas curriculares<br />

não tratam explicitamente da formação de valores e condutas, que são apresentadas<br />

de maneira genérica como a disposição ou intenção das instituições<br />

escolares de “preparação para a cidadania”, de “formação de valores humanistas<br />

ou cristãos”, “visão crítica do mundo”, etc. As práticas pedagógicas para<br />

a formação do caráter se dão a partir da ação individual dos educadores sem<br />

capacitação específica e, geralmente, destituídas de fundamentação teórica.<br />

Essas ações normalmente se expressam em práticas idealistas, mas educadores<br />

expressam a intenção da formação dos valores com os quais se identificam<br />

17 As DCNs para o Ensino Fundamental indicam como aspectos da vida cidadã os seguintes: (a) a saúde; (b) a sexualidade;<br />

(c) a vida familiar e social; (d) o meio ambiente; (e) o trabalho; (f) a ciência e a tecnologia; (g) a cultura; e<br />

(h) as linguagens.<br />

18 As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para o Ensino Fundamental definem as seguintes áreas do conhecimento:<br />

(a) Língua Portuguesa; (b) Língua Materna, para populações indígenas e migrantes; (c) Matemática; (d)<br />

Ciências; (e) Geografia; (f) História; (g) Língua Estrangeira (a partir do quinto ano); (h) Educação Artística; (i)<br />

Educação Física; e (j) Educação Religiosa, na forma do art. 33 da Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996.


ou que são propostos pelas instituições escolares, mas não concebem articulações<br />

pedagógicas específicas para atingir esse objetivo. Assim, os alunos são<br />

submetidos à regulação moral e aos processos de produção de sentidos sobre<br />

os quais não são consultados.<br />

Os estudos e estudiosos brasileiros se ocupam pouco desse tema. No<br />

entanto, alguns colegas vêm propondo a essência de currículos invisíveis de<br />

regulação moral (Moura, 2003), que não estariam explicitados nem seriam percebidos<br />

pelos próprios educadores. Esse currículo seguramente está fundado<br />

nas concepções majoritárias de nossa sociedade, reproduzindo os pressupostos<br />

fundamentais de nossa cultura, sem promover a reflexão e a crítica sobre eles.<br />

Esse debate coloca no “(...) centro do mapa — educacional e curricular — uma<br />

política de identidade” (Silva, 1995, p. 186).<br />

A organização do trabalho pedagógico na forma de projetos pode abrir a<br />

possibilidade de recolocar o educando na condição de protagonista e refletir sobre<br />

a regulação moral de seu ambiente cultural, de sua história de vida e suas histórias<br />

pessoais. Porém Silva afirma que não se trata de promover a inversão, supostamente<br />

priorizando uma cultura dominada em detrimento de outra dominante, mas<br />

(...) trata-se, ao contrário, de encarar as culturas dos grupos dominados<br />

de uma forma antropológica, como uma manifestação e expressão de formas de<br />

organizar a vida social que existem ao lado de outras, igualmente válidas. Nessa<br />

perspectiva, não se trata de «partir da cultura dominada», mas de interrogá-la,<br />

questioná-la, historiá-la, da mesma forma que se deve fazer com a cultura do-<br />

minante. Não é uma questão de superá-la, para entrar em outra, mas de colocar<br />

questões que revelem sua história que produziu as presentes identidades sociais e<br />

as colocou em relação subordinada na configuração social (Silva, 1995, p. 197).<br />

Nessa situação, educandos e educadores passam a construir propostas<br />

pedagógicas que redimensionam as relações de poder e de regulação moral<br />

nas instituições escolares.<br />

6. Um processo de transição e algumas considerações finais<br />

A educação brasileira parece estar “contaminada pela febre do novo” e da<br />

renovação, e os educadores e as coordenações parecem ter pressa em “fazer e<br />

acontecer”. Mas nenhum processo de mudança educacional efetiva — em direção<br />

a uma educação mais aberta e menos diretiva — vai ser alcançado pela imposição,<br />

pois mesmo a adesão formal dos educadores às proposições das direções não<br />

garante os esforços plenos para a sua implementação, e esta vai seguramente se<br />

defrontar com resistências de todo tipo. É importante reconhecer que<br />

(...) a cultura de um estabelecimento escolar é ativamente construída<br />

pelos atores, mesmo que essa construção permaneça, em grande parte, incons-<br />

ciente. Trata-se, afinal, de um processo dinâmico e evolutivo de um processo de<br />

aprendizagem (Gather Thurler, 2001, p. 90).<br />

77


78<br />

A cultura escolar, ainda segundo Gather Thurler,<br />

(...) estabiliza-se como um conjunto de regras do jogo que organiza a coo-<br />

peração, a comunicação, as relações de poder, a divisão do trabalho, os modos de<br />

decisão, as maneiras de agir e interagir, a relação com o tempo, a abertura para<br />

fora, o estatuto da diferença e da divergência (Gather Thurler, 2001, p. 90).<br />

As instituições escolares, ao pretenderem organizar o trabalho pedagógico,<br />

a partir da interação e da aprendizagem colaborativa, vêem-se diante da<br />

necessidade de que as relações entre os membros das equipes pedagógicas se<br />

constituam a partir dessa mesma perspectiva. Assim, é importante destacar<br />

dentre os elementos arrolados por Gather Thuler, citados anteriormente, o<br />

“estatuto da diferença e da divergência” que possa garantir a cada professor a<br />

possibilidade de começar do patamar em que se sinta seguro e de organizar os<br />

processos e ritmos de trabalho em função de suas condições. Para isso é importante<br />

não definir regras ou modelos rígidos, mas apostar nas aprendizagens<br />

coletivas e situações de interação docente na implementação de projetos.<br />

Há, no entanto, elementos da cultura escolar e curricular brasileira que<br />

precisam ser dimensionados adequadamente.<br />

A primeira é a nossa forte tradição disciplinar. O problema é bastante<br />

forte nos anos finais do Ensino Fundamental, no Ensino Médio e na educação<br />

superior, nas quais a instituições escolares dividem as atividades pedagógicas<br />

em disciplinas, que são ministradas por professores especialistas. Mas, nas<br />

etapas na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, em que<br />

a maioria das instituições escolares mantém a unidocência, a capacitação de<br />

educadores, as propostas curriculares, os sistemas de avaliação e a contabilização<br />

de carga horária se fazem a partir de uma grade disciplinar.<br />

Essa situação se constitui numa dificuldade significativa na implementação<br />

de projetos, mas penso que é possível encontrar soluções a partir de experiências<br />

concretas, vinculadas à cultura escolar de cada instituição. Os projetos<br />

podem nascer inicialmente restritos às práticas de turmas isoladas, talvez até<br />

na forma de projetos propostos e depois criar as possibilidades para os compartilhados.<br />

As coordenações pedagógicas podem propor algumas experiências-piloto,<br />

cujos resultados podem ser analisados e compartilhados por todos.<br />

Os projetos, às vezes, podem surgir do acaso, de situações surgidas na sala de<br />

aula ou de conversas informais com os colegas na sala dos educadores.<br />

Os projetos também podem nascer como pequenas experiências e ampliando<br />

o seu alcance a partir de balanço dos resultados e da aprendizagem<br />

com a prática. Enfim, temos diversas situações, e nenhuma regra impositiva a<br />

priori, como sempre diz Ana Bergaman: “faça sempre da forma que você acha<br />

correto, depois se disponha a refletir, organizar, estudar, procurando sempre<br />

melhorar, que você seguramente chega lá”.


A atividade pedagógica implica sempre fazer escolhas, e estas nem sempre<br />

são simples. Mas penso que os caminhos para a organização curricular e<br />

o trabalho pedagógico permitem diversas perspectivas que, se não são tomadas<br />

de maneira dogmática, podem articular formas diferentes como projetos,<br />

temas geradores, contextualização, problematização, constituição de mapas<br />

conceituais e ações inter, trans e multidisciplinares (também não-formalizadas<br />

previamente). Penso que a experiência de diferentes caminhos pode permitir,<br />

como já afirmei, questionar o que se faz por tradição e ampliar os limites de<br />

nossas possibilidades. A organização do trabalho pedagógico na forma de projetos<br />

permite, pelo menos em princípio, questionar as grades de tempos, de<br />

grupos e de saberes na sua essência, rearticulando-os aos processos de construção<br />

/ emancipação dos sujeitos. A ação dos educadores não seria, penso<br />

eu, a de apontar, a partir da posição de adulto 19 , os melhores caminhos para<br />

os educandos, mas de propiciar espaços para que eles construam o próprio<br />

caminho.<br />

É preciso também o esforço coletivo para alterar alguns cânones da<br />

cultura escolar brasileira. Logo a importância de: (a) combater a regulação padronizadora<br />

e o nivelamento dos educandos através das atividades de seleção,<br />

promoção e avaliação; (b) combater a segmentação dos processos de aprendizagem<br />

em disciplinas, etapas e modalidades, assim como romper com a linearidade<br />

de currículos e sistemáticas de avaliação; e (c) combater o formalismo e<br />

a burocracia, com regulação extremada dos tempos e espaços escolares.<br />

...<br />

Que este ensaio seja uma pequena contribuição para os que fazem e<br />

para os que desejem fazer, pois os nossos estudantes merecem formas de<br />

organização do trabalho pedagógico que lhes permitam olhar de frente para<br />

a vida como complexa, mas grávida de possibilidades, que se constrói com<br />

autonomia e ação cidadã. A organização do trabalho pedagógico na forma de<br />

projetos, penso eu, seria uma contribuição decisiva, embora não suficiente,<br />

para atingir esse objetivo.<br />

19 Na Educação Superior e no Ensino Profissionalizante de Nível Técnico (EPNT) seria a relação entre o profissional<br />

e/ou experiente diante do formando ou pouco experiente.<br />

79


80<br />

Referências<br />

AQUINO, J. G. Indisciplina: o contraponto das escolas democráticas. São Paulo: Moderna, 2003.<br />

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução CNE/CEB 02/98. Diário<br />

Oficial da União, Brasília, 15 abr. 1998. Seção 1, p. 31. Institui as diretrizes curriculares nacionais<br />

para o ensino fundamental.<br />

CERTEAU, M. de. A cultura no plural. Campinas: Papirus, 1995.<br />

CORDIOLLI, M. A transversalidade na formação de valores e padrões de conduta: algumas<br />

problematizações a partir e para além dos PCNs. I Jornada Internacional de Educação da Bahia. Livro<br />

da Jornada. Curitiba: Futuro, 2001.<br />

. A transversalidade na formação de valores e padrões de conduta: notas para um<br />

debate conceitual. III Jornada de Educação do Norte-Nordeste: Livro da Jornada. Curitiba: Futuro,<br />

2001b.<br />

. O currículo e as relações de inter, multi, trans, pluri e polidisciplinaridade na escola:<br />

notas para debate conceitual. Curitiba: Futuro, 2002. p. 303-314. (Temas em educação I. s.l.).<br />

FORQUIN, J. C. Escola e cultura. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.<br />

FERRAZ, M. F. Educação para o ambiente: uma experiência no ensino médio. São Carlos (SP):<br />

Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo, 2002.<br />

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.<br />

THURLER, M. G. Inovar no interior da escola. Porto Alegre: ArtMed, 2001.<br />

GORE, J. M. Foucault e a educação: fascinantes desafios. In: SILVA, T. T. da (Org.). O sujeito da<br />

educação: estudos foucautianos. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1995.<br />

HARVEY, D. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 4. ed. São<br />

Paulo: Loyola, 1994.<br />

HERNANDEZ, F. Transgressões e mudanças na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre:<br />

Artmed, 1998.<br />

LOURENÇO FILHO, M. B. Os fundamentos da escola nova. São Paulo: Nacional, 1952.<br />

LÜCK, H. Metodologia de projetos: uma ferramenta de planejamento e gestão. Petrópolis: Vozes,<br />

2003.<br />

MOURA, G. O direito à diferença. Gestão em rede, ago. 2003. n. 46, p. 8-15.<br />

NOGUEIRA, A. (Org.). Contribuições da interdisciplinaridade para a ciência, a escola e o movimento<br />

sindical. Petrópolis: Vozes / Curitiba: APP-Sindicato, 1993.<br />

POPKEWITZ, T. S. História do currículo, regulação social e poder. In: SILVA, T. T. da (Org.). O sujeito<br />

da educação: estudos foucautianos. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1995. p. 173-210.<br />

SAMPAIO, M. da M. F. Um gosto amargo de escola: relações entre currículo, ensino e fracasso<br />

escolar. São Paulo: PUC, 1997. (Tese de doutorado).<br />

SHARP, A. M.; SPLITTER, L. J. Uma nova educação: a comunidade de educação na sala de aula. São<br />

Paulo: Nova Alexandria, 1999.<br />

SILVA, T. T. Currículo e identidade social: novos olhares. Caxambu (MG), 1995. (XVIII Reunião<br />

Anual da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação).<br />

SILVA, T. T.; MOREIRA, A. F. (Orgs.). Territórios contestados: o currículo e os novos mapas políticos<br />

e culturais. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1998.<br />

VASCONCELOS, C. S. Coordenação do trabalho pedagógico: do projeto político-pedagógico ao<br />

cotidiano da sala de aula. São Paulo: Libertad, 2002.<br />

. Planejamento: projeto de ensino aprendizagem e projeto político-pedagógico. 8. ed.<br />

São Paulo: Libertad, 2001.<br />

VERMELHO, S. C. A subjetividade do trabalhador no contexto da produção integrada e flexível.<br />

São Paulo: PUC, 1997. (Dissertação de mestrado).


V<br />

Planejando e analisando as<br />

atividades didáticas em sala de aula<br />

Marielda Ferreira Pryjma 1<br />

Escrever um texto para contribuir com a prática docente dos professores<br />

da Educação Básica foi solicitado, pela equipe organizadora do Congresso de<br />

Educação, para sistematizar algumas temáticas vistas, presenciadas, assistidas<br />

durante o transcorrer do evento.<br />

Como vivenciei por muitos anos o cotidiano da Educação Básica, fiquei preocupada<br />

em retomar questões que pudessem, de fato, colaborar com o dia-a-dia<br />

escolar. Passei várias horas relembrando a rotina do colégio e tentei selecionar<br />

assuntos que conversávamos, problemas que enfrentávamos, sugestões de ações<br />

que encontrávamos para superar e melhorar a prática pedagógica. Espero que<br />

este texto possibilite reflexões sobre o processo de ensino. Tomei a liberdade de<br />

escrever o texto em primeira pessoa, porque tive a sensação que, assim, poderíamos<br />

estar conversando, como nos “velhos tempos” da rotina escolar.<br />

Todos nós sofremos as conseqüências advindas da crise ocorrida na década<br />

de 80 nos países industrializados. O grande desafio escolar passou a ser o<br />

atendimento de uma nova lógica: os saberes escolares propostos não atendiam<br />

mais os saberes necessários para as novas funções técnicas, sociais e econômicas,<br />

isto é, os saberes não correspondiam mais aos saberes solicitados pelo<br />

mercado de trabalho (Tardif, p. 45).<br />

1 Doutoranda em Educação (USP) e mestre em Educação (UFPR); professora da Faculdade <strong>Dom</strong> <strong>Bosco</strong> e da UNICEMP.<br />

81


82<br />

E a nossa profissão? De um momento para outro, o meio escolar começou<br />

todo um processo de revitalização, transformação e, por que não dizer,<br />

modernização. Contudo, nós, os <strong>docentes</strong>, sentimo-nos, neste contexto, totalmente<br />

perdidos em relação aos rumos a seguir.<br />

No Brasil, essa situação se agravou em função do andamento das<br />

políticas voltadas para a educação pública. Essa crise gerou uma migração,<br />

significativa, dos alunos para o ensino privado. A educação passou a ser o<br />

caminho para o ingresso profissional nas atividades desejadas e reconhecidas<br />

socialmente, para uma população maior que em outros momentos históricos<br />

(a profissão nem sempre esteve atrelada à educação formal). Sob essa ótica,<br />

o reconhecimento profissional, que deveria ser adquirido a partir dos conhecimentos<br />

escolares, passou a ser uma nova ordem social vigente, tornando os<br />

saberes escolares distantes desse mercado.<br />

O modelo capitalista, em que o consumo predomina, apesar de ser uma<br />

constatação frustrante, definiu os rumos dos conteúdos e saberes escolares.<br />

Paulatinamente, a escola deixou de ser um lugar de formação do indivíduo para<br />

se transformar numa formação de cunho mercadológico.<br />

De alunos, passamos a ter clientes, consumidores. Nossa prática docente<br />

precisou ser adequada para instrumentalizar os educandos. Sob outro olhar,<br />

está a comunidade escolar, também clientes, cobrando, exigindo e solicitando<br />

da escola um atendimentos a funções e atribuições que nem sempre eram tarefas<br />

dela. A aparência, conseqüência dessa nova lógica de consumo, envolveu<br />

o cotidiano escolar, redirecionando o trabalho docente para outras atividades<br />

que apresentassem “resultados” (festas, eventos), com vistas a manter o educando<br />

na escola.<br />

Nesse contexto, reinicia, sistematicamente, o processo de desvalorização<br />

dos professores e, por conseqüência, dos saberes escolares (a profissão<br />

docente tem um histórico que vale um aprofundamento teórico). O docente e<br />

a escola passaram a ser vistos como “ultrapassados”, com conteúdos escolares<br />

desnecessários para o futuro do aluno e os saberes tornaram-se saberes-instrumento,<br />

saberes-meio, um capital de informações mais ou menos úteis para<br />

o futuro do discente (Tardif, 2002, p.48).<br />

Obviamente, o trabalho docente, como o da maioria dos profissionais da<br />

educação, passou a sujeitar-se às solicitações sociais e do mercado de trabalho<br />

em nome do “bom atendimento” às novas exigências. Aqui se concretiza a desvalorização<br />

do professor como profissional: que estaria cumprindo seu papel ao<br />

informar ou transmitir o que seria considerado “útil” pelos novos consumidores.<br />

Concomitantemente a essa situação surgiu o acesso, quase em massa, aos<br />

computadores, e era comum ouvir que seríamos substituídos por eles.<br />

A maioria de nós, educadores, vivenciamos essa situação. Atualmente<br />

tenho total autonomia para confessar: tive a nítida impressão, nesse momento,


que teria escolhido a profissão errada e que teria que aprender a desempenhar<br />

um outro “ofício”, porque o magistério não teria futuro algum. Além dessa<br />

situação profissional, tínhamos os “fantasmas” que assombravam as escolas<br />

privadas: a manutenção dos alunos-clientes para a manutenção dos nossos<br />

empregos.<br />

A valorização da categoria docente está, vagarosamente, se processando.<br />

Os alunos formados a partir do que foi relatado, chegaram ao ensino<br />

superior e ao mercado de trabalho. Uma nova crise surgiu: este novo profissional<br />

“não sabe pensar”, “não tem iniciativa”, “não consegue utilizar os conteúdos<br />

aprendidos nos bancos escolares para solucionar as questões surgidas<br />

no cotidiano de trabalho. Novamente os olhares se voltam para a escola e<br />

surge a percepção de que a educação poderia suprir tal deficiência. Aparece,<br />

novamente, a figura do professor, necessária para alcançar os novos objetivos.<br />

Neste contexto, a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB<br />

9394/96) emerge solicitando, formalmente, o resgate da formação integral do<br />

indivíduo.<br />

Apesar da lei, a cultura do “cliente” permaneceu na sociedade e mudar<br />

este quadro tem gerado, por parte dos educadores, grande dedicação, empenho<br />

e profissionalização.<br />

Chegamos aonde, a meu ver, está a fragilidade do processo e a razão de<br />

estarmos discutindo o papel do professor em relação ao ensino e à aprendizagem.<br />

O que estou fazendo de errado? Por que meus alunos aparentam tanta<br />

desmotivação? Que caminhos poderei seguir? Como me tornar um bom profissional?<br />

Que aspectos melhorariam a minha prática docente?<br />

É possível perceber que existe, num contexto nacional, um descontentamento,<br />

um senso de fracasso, um sentimento de impotência por parte do<br />

professorado. No outro lado existem os alunos, desmotivados, envolvidos com<br />

todas as tecnologias que surgem dia-a-dia, obrigados a ir para a escola. O que<br />

está acontecendo? O que tem gerado essa falta de sintonia? Será que a nossa<br />

missão é algo “impossível”?<br />

Calma! Esse contexto foi apresentado para que possamos nos situar e<br />

entender que a condição que permeia o trabalho docente não é algo isolado, ela<br />

está histórica e socialmente situada. O cerne da questão está em compreender<br />

esse processo, posicionar-se e reagir para transformar, definitivamente, a educação.<br />

Aqui o ditado “uma andorinha não faz verão” não se aplica, ocorre justamente<br />

o contrário: se cada um fizer a sua parte, o todo terá sua melhoria.<br />

Para formar integralmente o indivíduo, o professor deve lançar um novo<br />

olhar sobre sua profissão. Aqui está a principal decisão a ser tomada: você quer,<br />

verdadeiramente, seguir esta caminhada? Se a sua resposta for sim, prepare-se<br />

para dar o primeiro passo: não basta somente dominar o conteúdo específico da<br />

sua disciplina ou área do conhecimento, agora o papel do professor necessita<br />

83


84<br />

uma nova configuração. Na verdade, esta situação, a profissionalização do professor,<br />

acompanhou uma tendência mundial que propôs a qualificação de todas<br />

as áreas profissionais, como uma condição básica para acompanhar as inovações<br />

tecnológicas, superar os desafios sociais, solucionar as crises de violência,<br />

entre outros fatores. Então, não se sinta “cobrado” profissionalmente, sinta-se<br />

orgulhoso em fazer parte de uma equipe que está considerando essencial o<br />

desenvolvimento e aprimoramento do profissional da educação para a melhoria<br />

do país como um todo.<br />

Para formar um aluno crítico e autônomo, é fundamental um professor<br />

crítico e autônomo. Professor Demo afirma que a aprendizagem dos alunos é<br />

proporcional à aprendizagem dos professores. Para que a aprendizagem se<br />

efetive é necessário que esse processo seja bom para os dois lados: aluno e<br />

professor (Demo, 2000, p.42).<br />

Os <strong>docentes</strong> rumam para uma autonomia profissional, esta é a expectativa<br />

do meio educacional. Contudo, o que separa o professor da tão sonhada<br />

autonomia é, justamente, a ausência de teoria. Explicando melhor: em sua formação<br />

inicial (graduação) o docente teve uma grande ênfase na área específica<br />

de conhecimento escolhido (língua, matemática, história, geografia, ciências<br />

biológicas, química, física, artes, música, educação física, etc.). A formação<br />

para atuar enquanto docente não teve a mesma prioridade (exceto para quem<br />

se formou para atuar na educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental),<br />

desencadeando essa ausência de autonomia. Além disso, a “forma”<br />

como os temas relacionados à docência eram trabalhados, cerceavam toda a<br />

criatividade do futuro professor (Nóvoa, 1994).<br />

O professor é um profissional do conhecimento e não combina com ele<br />

a busca por soluções temporárias para os seus problemas enfrentados no cotidiano<br />

escolar. Por muito tempo a “profissionalização” dos professores esteve<br />

atrelada a modelos de aulas, exemplos de procedimentos, “receitas prontas”<br />

para complementar a sua formação. Esse professor buscava nesta “pseudo”<br />

profissionalização a solução para todas as angústias.<br />

Porém, o enfrentamento da realidade escolar, as desigualdades sociais e<br />

a dinâmica da realidade social se configuravam das mais diversas formas. Para<br />

que nós possamos enfrentar tantos desafios, precisamos considerar nossas condições<br />

reais de atuação para podermos construir a nossa história profissional.<br />

Retornemos um pouco o texto e resgatemos a questão da desvalorização<br />

do professor. Ele, como profissional, é criticado pela atuação em diferentes instâncias<br />

e a crítica a sua atuação acaba se configurando como crítica à pessoa<br />

do professor. Separemos os fatos: o indivíduo e o que atua como docente. O<br />

indivíduo, a pessoa que exerce optar pela carreira docente já tem suficientes<br />

problemas para superar em sua vida.


Enquanto profissional ele precisa retomar alguns aspectos que permeiam<br />

sua atuação. Por isso, as críticas ao trabalho do professor não são infundadas<br />

e cabe aqui melhor explicação. Ele precisa retomar a condição de intelectual<br />

perante a sociedade, carece elucidar seu pensamento crítico, reconstruir sua<br />

função social, sublimar as dificuldades e dar novo sentido para sua profissão.<br />

A carreira docente só existe se existir o aluno, isto implica numa relação ambígua,<br />

essencial e vamos considerar aluno e professor peças-chave neste processo,<br />

um necessita do outro para existir.<br />

Para resolver seus problemas, o docente e o aluno precisam saber problematizar<br />

(problematizar algo é muito mais complexo que resolver um problema<br />

isolado). Sabe-se que nem tudo tem solução, e o segredo na resolução<br />

dos problemas é administrá-los com inteligência para entender a realidade de<br />

forma sistêmica (Demo, 2002, p.48).<br />

Educar para o desenvolvimento integral do indivíduo é levá-lo a perceber<br />

que os problemas da vida são infinitos, mas as soluções não. Saber problematizar,<br />

“desproblematizar”, pensar criticamente fazem parte do processo de<br />

aprendizagem inteligente que busca saber administrar esses problemas. Nessa<br />

aprendizagem, aluno e professor devem almejar construir novas conexões, novos<br />

padrões, novas interpretações para o conhecimento buscando aprofundar<br />

essa aprendizagem.<br />

Em alguns momentos o professor precisará “desaprender”, reconstruir<br />

os conhecimentos existentes em prol da superação de limites e desafios. Isso<br />

significa afirmar que a aprendizagem é parceira da dúvida, do questionamento:<br />

conhecimento solucionará problemas; conhecimento desenvolve conhecimento;<br />

dúvidas desencadeiam soluções; soluções geram novos problemas. A dinâmica<br />

escolar envolve diferentes condições, saberes, soluções, complexidades.<br />

Para o reconhecimento profissional, o professor precisa ter conhecimento<br />

específico de sua área e conhecimento da ação docente. O seu saber só é<br />

posto em prática, em evidência, quando se manifesta a partir das relações com<br />

o outro (aluno), com o coletivo (turma).<br />

O conhecimento do professor se constrói num processo longo e progressivo.<br />

Saber é “essencialmente social e é, ao mesmo tempo, o saber dos atores<br />

individuais que o possuem e o incorporam à sua prática profissional para a ela<br />

adaptá-lo e para transformá-lo” (Tardif, 2002, p.15).<br />

Os saberes do professor são múltiplos e começam na sua experiência<br />

escolar enquanto aluno e essa situação é muito marcante, sendo relembrada<br />

frequentemente em seu dia-a-dia, ora por repetir as ações de seus professores,<br />

ora por negá-las. Ensinar é um processo de aprendizagem que o professor<br />

dominará paralelamente para a realização do seu trabalho. A sua carreira é<br />

construída e marcada pelo saber profissional.<br />

85


86<br />

Para construir a nossa carreira, cabe considerarmos alguns aspectos<br />

que estruturam a nossa prática educativa. Todos os saberes e/ou conteúdos<br />

curriculares são informações externas, temas pesquisados e produzidos em<br />

outras instâncias, fora da educação básica. O professor não os controla, não os<br />

produz, e o cuidado que se deve ter é evitar uma relação alienada com esses<br />

saberes. Os saberes <strong>docentes</strong> precisam ser construídos pelo professor de uma<br />

base teórica (relações interpessoais, didática, metodologias de ensino, processos<br />

de avaliação, teorias de ensino, filosofia, sociologia, legislação educacional)<br />

para buscar sua profissionalização. Isso significa afirmar que para ser “bom<br />

professor”, “bom profissional”, é necessário o domínio, compreensão, construção,<br />

atualização de duas situações: o saber específico da sua área de atuação<br />

e o saber docente.<br />

A partir dessas considerações, afirmar que aprender, durante o processo<br />

de ensinar, é muito mais significativo do que o fato de saber propriamente o<br />

conteúdo escolar.<br />

“Ser um eterno aprendiz” (parte da letra da música “O que é o que é”<br />

de Gonzaguinha) é a essência da profissionalização docente. Tardif é enfático<br />

ao afirmar que:<br />

Quanto menos utilizável no trabalho é um saber, menos valor profissional<br />

parece ter. Nessa ótica, os saberes oriundos da experiência de trabalho cotidiano<br />

parecem constituir o alicerce da prática e da competência profissionais, pois essa<br />

experiência é, para o professor, a condição para aquisição e produção de seus<br />

próprios saberes profissionais. A experiência de trabalho é, portanto, apenas um<br />

espaço onde o professor aplica saberes, sendo ela mesma saber do trabalho sobre<br />

saberes, em suma: reflexividade, retomada, reprodução, reiteração daquilo que<br />

se sabe naquilo que se sabe fazer, a fim de produzir sua própria prática profissio-<br />

nal (Tardif, 2002, p. 21).<br />

Construir sua carreira profissional não pode ter um tom de pesar. Ser<br />

professor é uma grande oportunidade que temos para contribuir com a melhoria<br />

e transformação social. Isso não é uma utopia, é um valor profissional que<br />

acompanha a carreira de muitos educadores: acreditamos no magistério, gostamos<br />

de superar desafios, buscamos ajuda sempre que necessário, discutimos<br />

nossas angústias e, creiam, compartilhamos nossas falhas.<br />

Gostaria que soubessem que na minha área de pesquisa, formação de<br />

professores, encontro situações muito similares, em grupos diferentes. Os<br />

professores, de modo geral, querem acertar, adorariam ter reconhecimento<br />

profissional, gostariam de trocar experiências (é importante encontrar no outro<br />

o apoio de que precisam), dividem frustrações e erros. Não quero expor a<br />

fragilidade da categoria, minha intenção é que percebam que muito dos nossos<br />

problemas educacionais poderiam ser solucionados por nós mesmos, com a<br />

ajuda teórica de outros <strong>docentes</strong>.


Enfrentar problemas é uma situação corriqueira no dia-a-dia da sala<br />

de aula. Solucioná-los de forma adequada é onde está o grande desafio, mas<br />

acreditem, praticamente todas ou quase todas as situações adversas vividas<br />

em sala de aula, já foram objetos de estudo. Então, vamos aos livros: lê-los,<br />

discuti-los, entendê-los e buscar na experiência do outro a solução para o<br />

nosso problema. Na minha solução pode estar a solução para o problema do<br />

outro professor. É assim que ocorrem as pesquisas na área de educação: uma<br />

experiência relatada e analisada teoricamente é o ponto de partida para uma<br />

nova investigação, pesquisa bibliográfica e assim, sucessivamente.<br />

Sinto que, muitas vezes, o professor não acredita em si mesmo, na sua<br />

atuação, que ela poderia ser considerada “inovadora”, que atenderia aos anseios<br />

sociais e que possibilitariam a melhoria da prática educativa. Se esse professor<br />

tivesse o hábito de acompanhar as novas produções do conhecimento na<br />

área educacional, poderia despertar nele o espírito investigativo, possibilitando<br />

construir sua carreira profissional sobre novos alicerces. Isso é que chamamos<br />

de autonomia: o domínio do conteúdo associado ao domínio do processo de<br />

ensino e aprendizagem que darão ao professor liberdade para criar, alterar e<br />

transformar, de fato, a educação.<br />

Eu não sei se você já teve a oportunidade de ouvir a música “Tente outra<br />

vez”, do Raul Seixas. Possivelmente já a tenha ouvido. Entretanto, se você<br />

estiver precisando de uma “injeção de ânimo” e ouvi-la num momento em que<br />

possa perceber a profundidade de sua letra, refletir sobre sua mensagem, com<br />

certeza a entenderá de uma forma diferente das outras vezes que a ouviu,<br />

como se fosse algo especial, único, escrito para você.<br />

Para pensar em sua carreira docente: o que faria se pudesse começá-la<br />

novamente com a experiência atual? Teria mais paciência? Mudaria sua postura?<br />

Relevaria alguns acontecimentos? Agiria diferente? Seria um melhor profissional?<br />

Valls (1996) indica procedimentos de ensino para os conteúdos escolares,<br />

mas toda a sua solicitação está em redescobrir o significado e o sentido do<br />

conjunto das atividades escolares propostas aos alunos). Zabala (1999, 2000)<br />

parte do mesmo pressuposto, todo o currículo escolar deve ser adequado à<br />

compreensão e ao sentido do aprendizado.<br />

Compartilhar com os nossos pares o cotidiano escolar é outro caminho<br />

simples. Garcia elaborou um programa para professores iniciantes, no intuito de<br />

contribuir com o desenvolvimento desses profissionais. Para ele, um professor<br />

de apoio é essencial, isto é, “um professor com experiência que apóia o novo<br />

professor e o ajuda a compreender a cultura da escola. O professor de apoio ou<br />

professor mentor desempenha um papel de grande importância, pois é a pessoa<br />

que ajuda e dá orientações ao professor principiante (Garcia, 2002. p. 124).<br />

A partir da experiência apresentada é possível utilizarmos a sua idéia para<br />

dar um novo sentido ao papel do professor: ser um docente de apoio ou mentor,<br />

87


88<br />

não precisaria se restringir ao início da carreira, isso poderia ser uma condição<br />

permanente, coletiva, dialógica e criativa. Isso é essencial, cada turma tem uma<br />

característica própria e o planejamento diário deve considerar esse pressuposto.<br />

Retomando as questões propostas inicialmente, proponho que o corpo<br />

docente busque, em sua experiência profissional, uma nova alternativa de atuação,<br />

compartilhando essas situações com seus colegas e tendo como pano de<br />

fundo, constantemente, a teoria que fundamenta a educação.<br />

Quando ouço essa música renovo minhas perspectivas. Ela não é uma<br />

música nova, mas a cada situação, contexto, experiência, necessidade, ela se<br />

torna totalmente original para mim, é como se a minha vida e a minha profissão<br />

pudessem ser revitalizadas. A originalidade, para mim, está aí, no “novo” olhar<br />

que despendo para algo “velho”, para uma letra de música já conhecida, por<br />

exemplo. Na nova sensação, que permito ter a cada revitalização, tenho novas<br />

esperanças, expectativas, credibilidade, confiança ou, quem sabe, ilusão de que<br />

estaria contribuindo significativamente para a educação do meu país. Ser original,<br />

um bom professor, é ter um novo olhar sobre a nossa atuação profissional, é<br />

reescrever nossa trajetória, é uma releitura das experiências que já vivemos.<br />

Inovar na educação pode ser uma atitude que está próxima de nós: a transmissão<br />

dos conhecimentos por si só não tem valor algum, mas tornar esse conhecimento<br />

útil, contextualizado, histórica e socialmente situado, poderá dar sentido<br />

à formação e ao desenvolvimento intelectual do educando. Parece uma atitude<br />

simples? Pois, de fato, é e a sabedoria traz em sua essência a simplicidade.<br />

Referências<br />

DEMO, P. Conhecer e aprender: sabedoria dos limites e desafios. Porto Alegre:<br />

Artes Médicas Sul, 2000.<br />

GARCIA, C. M. Formação de professores: para uma mudança educativa.<br />

Porto, Portugal: Porto Editora, 2002.<br />

IMBERNÓN, F. (Org.). A educação no século XXI: os desafios do futuro imediato.<br />

Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.<br />

SACRISTÁN, J. G.; GÓMEZ, A. I. P. Compreender e transformar o ensino.<br />

Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1998.<br />

TARDIF, M. <strong>Saberes</strong> <strong>docentes</strong> e formação profissional. Petrópolis, RJ: Vozes,<br />

2002.<br />

VALLS, E. Os procedimentos educacionais: aprendizagem, ensino e avaliação.<br />

Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1996.<br />

ZABALA, A. (Org.). Como trabalhar os conteúdos procedimentais em<br />

aula. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.<br />

ZABALA, A. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: Artes Médicas<br />

Sul, 1998.


VI<br />

O relevante papel do professor no<br />

ensino de Matemática Ângela Ferreira Pires da Trindade 1<br />

Se perguntarmos aos professores por que a matemática deve ser ensinada<br />

nas escola, certamente teremos como resposta o fato de que a matemática<br />

está presente em tudo na vida, ou porque desenvolve o raciocínio. Se,<br />

porém, perguntarmos a esses mesmos professores sobre as dificuldades que<br />

enfrentam ao ensinar matemática, ou mesmo da antipatia de muitos alunos<br />

por essa área do conhecimento, ouviremos que a matemática está distante da<br />

realidade, ou que é muito abstrata, ou ainda que não serve para nada a maioria<br />

dos conteúdos de matemática ensinados na escola.<br />

Esses possíveis posicionamentos, tão contraditórios e que têm afligido<br />

grandemente esses profissionais da educação, podem ser comprovados através<br />

de inúmeras pesquisas feitas dentro do contexto escolar, tanto no Brasil<br />

como fora dele.<br />

Observando esses mesmos professores e analisando a sua concepção de<br />

matemática, notamos que são basicamente duas as visões que os professores<br />

têm da matemática.<br />

a) Visão formalista: Consiste em estruturar o assunto a ser estudado<br />

seqüencialmente, ou seja, primeiro se definem os conceitos básicos;<br />

em seguida, novos conceitos são definidos a partir dos básicos; e,<br />

1 Mestranda em Educação (UFPR), professora do Colégio <strong>Dom</strong> <strong>Bosco</strong> e dos Cursos de Pedagogia e Administração da<br />

Faculdade Presidente Kennedy (PR).<br />

89


90<br />

posteriormente, novas proposições são descobertas e justificadas a<br />

partir dos conceitos já definidos. Um exemplo simples seria a idéia<br />

de que para dividir é necessário saber multiplicar e subtrair, ou seja,<br />

uma seqüência de pré-requisitos. Sabemos, no entanto, que as idéias<br />

envolvidas nas operações não dependem umas das outras. A própria<br />

Matemática não evoluiu de forma linear e logicamente organizada.<br />

Desenvolveu-se com movimentos de idas e vindas, com rupturas de<br />

paradigmas e seguindo caminhos diferentes em cada civilização. Fazse<br />

necessária essa colocação por ser uma preocupação que angustia<br />

muito os professores e os aprisiona, impedindo assim maior leveza e<br />

aproveitamento das situações que ocorrem em sala de aula ou fora<br />

dela. Quando se propõe aproveitar situações, não é no sentido de<br />

improviso, tal como um ator que age em função de um argumento ou<br />

da trama, mas de liberdade e criatividade no exercício de sua ação.<br />

b) Visão platônica: Esta visão está centrada na idéia de que a Matemática<br />

é assunto para mentes sobre-humanas, gênios, extra-terrestres,<br />

que somente pessoas com poderes especiais são capazes de criá-la<br />

e desenvolvê-la. Essa visão leva muitos a crerem que a Matemática<br />

não tem história, não é construção humana, e que apenas tem relação<br />

com a própria matemática. Essa postura é evidente quando o<br />

professor justifica a necessidade de aprender determinado conteúdo<br />

colocando-o como pré-requisito para a série seguinte. Parece mostrar<br />

que a Matemática se desenvolve atendendo às solicitações da própria<br />

ciência, sem que haja qualquer ligação com a prática.<br />

A escola, embora não seja a única instância de transmissão do conhecimento<br />

científico, é por excelência a instituição incumbida disso. A posse desses<br />

conhecimentos historicamente acumulados proporciona outras formas de ver e<br />

compreender o mundo, abrindo possibilidades de mudanças na ação cotidiana<br />

das pessoas.<br />

Cabe à escola proporcionar a reflexão a respeito da colaboração que a<br />

Matemática tem a oferecer com vistas à formação da cidadania, desenvolvendo<br />

metodologias que enfatizem a construção de estratégias, a comprovação e<br />

justificação de resultados, a criatividade, a iniciativa pessoal, o trabalho coletivo<br />

e a autonomia resultante da confiança na própria capacidade de enfrentar<br />

desafios.<br />

A missão dos educadores é preparar as novas gerações para o mundo<br />

em que terão que viver. Isso quer dizer proporcionar-lhes o ensino necessário<br />

para adquirirem as destrezas e habilidades que vão necessitar para seu desempenho,<br />

com comodidade e eficiência, no seio da sociedade que enfrentarão ao<br />

concluir sua escolaridade. Além de todos esses fatores citados, que parecem<br />

ser conquistas a longo prazo, não podemos perder de vista o fato de que as<br />

crianças, sem domínio da matemática, ficarão desconfortáveis não apenas na


escola, mas em grande parte de suas atividades cotidianas: quando compartilham<br />

bens com seus amigos, planejam gastar sua mesada, discutem sobre velocidade<br />

e distância, viajam e têm que lidar com moedas diferentes e quando,<br />

finalmente, começam a entender o mundo do dinheiro. Para isso, a escola deve<br />

estar em contínuo estado de alerta para adaptar seu ensino.<br />

O mais intrigante, no entanto, é o fato de que os pais e professores que<br />

têm consciência da utilidade da matemática em todos os âmbitos da vida — o<br />

trabalho, o acadêmico, o esportivo, o artístico — não têm conseguido transmitir<br />

às crianças essa utilidade da matemática que alguns deles percebem<br />

claramente.<br />

É especialmente surpreendente o que acontece com algumas crianças<br />

que, embora não tenham tomado consciência dessa utilização extra-escolar<br />

da matemática, têm experiências muito ricas nesse sentido. Cabe ao professor<br />

fazer um esforço para que as crianças descubram, desde o princípio, que a<br />

utilidade da matemática ultrapassa os muros da escola.<br />

Além do valor utilitário da Matemática como ferramenta que serve para<br />

a atuação diária e para muitas atividades específicas de quase todas as atividades<br />

laborais, não podemos nos esquecer que a matemática tem um valor<br />

formativo, que ajuda a estruturar todo o pensamento e a agilizar o raciocínio<br />

dedutivo. O ensino da Matemática deve ser um constante equilíbrio entre a<br />

matemática formativa e a informativa, ou seja, podemos “formar informando”<br />

ou “informar formando”.<br />

O cientista matemático não comunica os resultados de suas pesquisas<br />

tal como obteve, mas reorganiza, atribui-lhes uma forma mais geral possível,<br />

descontextualizada e fora de um contexto temporal. Ao professor cabe o trabalho<br />

inverso, ou seja, uma recontextualização do saber: procura situações que<br />

dêem sentido aos conhecimentos a serem ensinados.<br />

O papel do professor passa a ter duas faces que parecem contraditórias,<br />

pois primeiramente faz viver o conhecimento, que ele seja produzido por parte<br />

dos alunos como resposta a uma situação familiar, e depois deve transformar<br />

essa “resposta razoável” em objeto cultural. O professor é muitas vezes tentado<br />

a pular essas etapas e ir direto ao saber como objeto cultural, deixando<br />

a cargo do aluno a apropriação do saber, que acontecerá como este conseguir<br />

fazê-lo.<br />

O maior desafio e mais difícil papel do professor, ao ensinar matemática,<br />

é o de dar um sentido aos conhecimentos e, sobretudo, reconhecê-los. Muito<br />

difundida é a idéia de que os conhecimentos podem ser ensinados, mas a<br />

compreensão e o significado são responsabilidade dos alunos. Isso se deve ao<br />

fato de que é possível institucionalizar o conhecimento, e aparentemente não<br />

se pode fazer o mesmo com o sentido.<br />

91


92<br />

Para desempenhar seu papel de mediador entre o conhecimento matemático<br />

e o aluno, o professor precisa ter um sólido conhecimento dos conceitos<br />

e procedimentos dessa área, e a concepção da Matemática não como uma ciência<br />

de verdades infalíveis e imutáveis, mas sempre aberta à incorporação de<br />

novos conhecimentos. Só assim terá flexibilidade e sensibilidade para discutir<br />

e promover discussões sobre as diferentes maneiras de se construir o conhecimento<br />

matemático, e para compreender as diferentes formas de pensamento<br />

e estratégias utilizadas pelos alunos. Reconhecemos que não é uma tarefa fácil<br />

e que não existem receitas mágicas a serem seguidas.<br />

Piaget, em um dos poucos artigos que aborda a Educação Matemática,<br />

discute três princípios gerais que devem ser discutidos:<br />

a) A compreensão real de uma noção ou teoria implica na re-invenção<br />

dessa teoria pelo sujeito. O papel do professor é o de organizar situações<br />

que provoquem curiosidade e busca de solução por parte da<br />

criança.<br />

b) Em todos os níveis, a criança é sempre mais capaz de fazer e compreender<br />

na ação do que na verbalização dos princípios nos quais se<br />

baseiam suas ações. Discussões com os colegas e professores favorecem<br />

a verbalização e a conscientização.<br />

c) As representações ou modelos matemáticos devem corresponder à<br />

lógica da criança e a formalização não precisa se dar imediatamente,<br />

mas posteriormente, como sistematização das noções adquiridas.<br />

Não é apenas o uso de material concreto, mas sim o significado da situação,<br />

as ações da criança e sua reflexão que contribuirão para apreensão dos<br />

conceitos matemáticos. O ensino de regras destituídas de significado pode ser<br />

a causa das dificuldades que muitas crianças encontram ao tentar utilizar os<br />

algoritmos, enquanto que outras crianças os utilizam porque mecanizaram e os<br />

exercícios nos quais estão inseridos muitas vezes fornecem pistas sobre quais<br />

algoritmos devem ser utilizados.<br />

O primeiro trabalho da professora na escola é criar situações bastante interessantes,<br />

envolventes, que permitam desenvolver ações físicas ou mentais<br />

e refletir sobre essas ações, descobrindo as propriedades lógico-matemáticas<br />

subjacentes a essa ação. Não basta, porém, criar situações, utilizar materiais<br />

concretos ou jogos e deixar que as crianças passem por essas atividades como<br />

se fossem rituais. Cabe ao professor participar o tempo todo das atividades,<br />

dando pistas, conduzindo as crianças às descobertas, explorando os diferentes<br />

aspectos das situações que podem constituir problemas interessantes que permitam<br />

ao aluno fazer novas descobertas.<br />

Da mesma forma, o professor pode produzir novas compreensões e conseqüentemente<br />

novos conhecimentos sobre o processo de ensinar e aprender matemática<br />

através da criação de um espaço colaborativo onde as crianças tenham


oportunidade de discutir coletivamente suas ações através de momentos distintos<br />

de reflexão:<br />

a) Antes da ação: momento em que os professores discutem seus encaminhamentos<br />

e propostas de atividades.<br />

b) Durante a ação: são as reflexões produzidas pelos professores durante<br />

a realização das aulas; é o momento em que se discutem as<br />

dificuldades encontradas, os dilemas.<br />

c) Após a ação: momento em que se discutem e avaliam os procedimentos,<br />

os avanços, além de projetar novas ações para as aulas<br />

seguintes.<br />

Esse processo colaborativo pode ser chamado de pesquisa-ação, pois<br />

embora cada professor tenha a sua própria prática todos colaboram com reflexões,<br />

análises e sugestões, tanto para a investigação quanto para o desenvolvimento<br />

do trabalho pedagógico do outro.<br />

Esses momentos de reflexão, em que o professor avalia a sua própria<br />

prática, são de suma importância para que haja mudança de postura e atitudes<br />

quando necessário, pois o papel fundamental do professor de matemática de<br />

qualquer nível é o de educador e seu foco é promover uma educação pela matemática,<br />

não perdendo de vista a relação professor-aluno-aprendizagem.<br />

Embora tanto os matemáticos como os educadores matemáticos tenham<br />

em comum a matemática, olham para esse campo do saber de forma<br />

distinta. Diferentemente do matemático, que tende a conceber a matemática<br />

como um fim em si mesmo, preocupado em produzir, por meio de processos<br />

hipotético-dedutivos, novos conhecimentos e métodos que possibilitem o desenvolvimento<br />

da matemática pura e aplicada, o educador matemático realiza<br />

seus estudos tendo como perspectiva o desenvolvimento de conhecimentos<br />

matemáticos e práticas pedagógicas que contribuam para uma formação mais<br />

integral, humana e crítica do aluno e do professor, colocando a matemática a<br />

serviço da educação.<br />

93


94<br />

Referências<br />

ALENCAR, E. S. Novas concepções da psicologia aos processos de ensino<br />

e aprendizagem. São Paulo: Cortez, 1995.<br />

FIORENTINI, D. Por trás da porta, que matemática acontece? Campinas:<br />

Gráfica FE/Unicamp, 2001.<br />

_____; LORENZATO, S. Investigação em educação matemática: percursos<br />

teóricos e metodológicos. Campinas, SP: Autores Associados, 2006. (Coleção<br />

Formação de Professores).<br />

NUNES, T.; BRYANT, P. Crianças fazendo matemática. Tradução de: Sandra<br />

Costa. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.<br />

Parâmetros Curriculares Nacionais. Matemática. Secretaria de Educação<br />

Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998.<br />

PARRA, C.; SAIZ, I. et. al. Didática da matemática: reflexões psicopedagógicas.<br />

Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.<br />

REVISTA DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA. N. 27, 1 o quadrimestre de 1995.<br />

ZUNINO, D. L. de. A matemática na escola: aqui e agora. Porto Alegre: Artes<br />

Médicas, 1995.


Qualidade de vida, subjetividade e<br />

interação<br />

Fernanda Pires Bertuol 1<br />

Qualidade de Vida deve ser objeto de preocupação no tempo de trabalho e<br />

de não-trabalho, pois, caso contrário, teremos um tempo de não-trabalho apenas<br />

compensando a falta de qualidade do tempo de trabalho, numa função de mera<br />

reposição de energias perdidas ou desperdiçadas.<br />

Subjetividade e cultura<br />

VII<br />

Moreira, 2001<br />

A cultura, fomentada pela sociedade ao longo dos acontecimentos históricos,<br />

conduz a própria sociedade a uma visão de mundo, bem influente no<br />

estilo de vida das pessoas, o qual se apresenta caótico, ao nos reportarmos:<br />

à relação consumista do homem com o meio ambiente; ao que representa o<br />

tempo na vida das pessoas; às exigências e ao significado do trabalho; à falta<br />

de alternativas de lazer e à má administração do tempo livre; aos conflitos<br />

de relacionamento intra e interpessoal; aos problemas de saúde, geralmente,<br />

psicossomáticos; à dificuldade de solucionar problemas e administrar conflitos;<br />

1 Mestranda em Educação na PUC-PR, especialista em Modalidades de Intervenção no Processo de Aprendizagem<br />

(PUC—PR), administradora responsável pela empresa Movimento Temático: Educação para a Qualidade de Vida<br />

Ltda., sediada em Curitiba (PR).<br />

95


96<br />

ao fácil acesso à informação em contraposição à dificuldade de aprender e de,<br />

principalmente, aplicar o conhecimento; e à falta de motivação, criatividade,<br />

interesse e iniciativa no que refere às atividades cotidianas.<br />

Na luta pela vida, o homem busca tanto assegurar sua existência, no<br />

aspecto mais natural, quanto satisfazer suas necessidades e desejos. Porém o<br />

que permite apreender a relação do homem existente com sua existência são<br />

sua objetividade e intencionalidade na interação com o meio e consigo mesmo,<br />

ao passo que pertence, ou seja, se torna existente à existência, na luta consciente<br />

pela vida, e não somente na luta pela existência (Levinás, 1998).<br />

A subjetividade humana é construída na interação do homem com o<br />

mundo, segundo sua percepção de si mesmo nas situações de aprendizagem.<br />

Como “toda situação tem uma significação imediatamente perceptível, a<br />

partir da qual se esboça um plano de ação, um projeto, um pensamento determinante<br />

em relação a ela” (Fonseca, 1998, p. 200), a subjetividade encontrase<br />

imersa nos condicionamentos dos meios.<br />

Ao mesmo tempo, se constrói a subjetividade na interação do sujeito com<br />

o mundo e constrói o mundo. Ela se expressa e manifesta pelos sentidos do<br />

corpo, os quais realizam a comunicação do indivíduo com o mundo e nos quais a<br />

linguagem imprime seu papel fundamental: o movimento intencional que permite<br />

ao homem pertencer a dado tempo e espaço, tornando-se sujeito histórico.<br />

Tavares (2003, p. 110) afirma que:<br />

a experiência de subjetividade introduz a experiência de objetividade. A primeira<br />

imagem procede do corpo. As imagens do mundo se formam de modificações no<br />

corpo que podem ser, assim, decodificadas em imagens. Partindo da diferencia-<br />

ção do que são imagens do ‘eu’ e do ‘não-eu’, teremos consolidados a represen-<br />

tação interna acurada do corpo e o senso de identidade. Torna-se possível um<br />

espaço temporal entre o impulso e a ação, possível graças ao desenvolvimento da<br />

consciência e do pensamento.<br />

A subjetividade realiza-se na objetividade e realiza a objetividade. Ela<br />

contém duas dimensões inter-relacionadas, cuja comunicação mobiliza atitudes,<br />

sentimentos, pensamentos e posturas, que se desdobram e influenciam<br />

no mundo, definindo este ou aquele sujeito, tal como é e pode ser percebido.<br />

No entanto o cenário da subjetividade é composto de todos os aspectos relacionados<br />

anteriormente que, atualmente, se apresentam caóticos.<br />

Contexto da qualidade de vida e educadores nesse contexto<br />

A subjetividade está condicionada aos hábitos e é determinante da rotina,<br />

porque consolida a perspectiva pessoal de mundo e, assim, a própria<br />

qualidade de vida.


É por isso que tanto a qualidade de vida quanto a sua concepção diferem<br />

de uma pessoa para outra.<br />

Qualidade de vida não é sinônimo de saúde. Ela abrange a saúde. Seu<br />

conceito não abarca somente o bem-estar biopsicossocial, mas a prática do<br />

ser; prática desdobrada em posturas, atitudes, atividades, hábitos e costumes,<br />

relativos a uma determinada fase de desenvolvimento humano.<br />

Qualidade de vida é a cultura, adotada ou construída por uma pessoa,<br />

que orienta sua prática de ser em relação à sua saúde. Boa qualidade de vida<br />

para uma pessoa adulta é verificada pelo maior grau de proximidade entre o<br />

bem-estar biopsicossocial e a prática consciente do ser saudável, pois, nessa<br />

fase, é sua a responsabilidade pelo próprio bem-estar.<br />

Um dos maiores agravantes para a qualidade de vida do adulto é o tra-<br />

balho, pela forma como é realizado e por suas condições, quando expressas na<br />

escassez de recursos materiais e humanos, na sobrecarga e na fragmentação<br />

de tarefas, nas relações interpessoais superficiais durante sua realização, na<br />

baixa remuneração, na falta de incentivo e reconhecimento a quem o realiza e<br />

no excesso de exigências e cobranças.<br />

Esses agravantes são muito comuns em algumas profissões, dentre elas<br />

as de licenciatura.<br />

Os professores, apesar da autonomia característica da sua atuação indi-<br />

vidual em sala de aula, deparam-se com obstáculos colocados por seu trabalho<br />

que, como todos os outros, ao acontecer na sociedade moderna, limita suas<br />

ações, submetendo sua formação humana à informação e à reprodução: o corpo<br />

é “domesticado” para a execução do trabalho, refletindo dificuldades de atuação<br />

e intervenção educativas, conforme a demanda social, ou seja, de acordo com<br />

as necessidades dos alunos, os objetivos da educação e os propósitos da pró-<br />

pria instituição de ensino onde trabalha.<br />

O trabalho em educação, quando nas condições relacionadas, torna-se<br />

um agravante para a qualidade de vida do professor, ao passo que sua repre-<br />

sentação e significação têm fundamental função na construção da identidade<br />

profissional, que se transpõe à pessoal e, conseqüentemente, à personalidade,<br />

pois o sujeito se humaniza no momento que se relaciona com o mundo, me-<br />

diante seu próprio corpo, onde, utilizando a expressão de Merleau-Ponty, reina<br />

uma intencionalidade operante.<br />

Em razão de o produto da educação não ser material e sim forte contribuinte<br />

à formação humana, é que as exigências à prática pedagógica diferem de<br />

outras profissões, principalmente pela autonomia essencial à ação do professor<br />

97


98<br />

(Pimenta, 1999). O que, por um lado, valoriza o profissional docente pela sua<br />

prática social, por outro lhe exige habilidades diversas e, muitas vezes, lhe<br />

toma energia no ‘tempo-espaço’ de não-trabalho.<br />

Assim, para Zuin (1997, p.196-197):<br />

o trabalho (sem deixar de ser entendido como processo de autogeração huma-<br />

na e processo objetivo de existência da espécie) continua ocupando o lugar de<br />

figura central da teoria educacional dialética. Mas interpretá-lo como condição e<br />

realização do ser humano exige a associação da teoria do trabalho a uma teoria<br />

do indivíduo e do sujeito. Isso significa que o trabalho (prática social) deve deixar<br />

de ser uma condição determinante e unilateral e passar a ser estudado como um<br />

problema de uma dialética de objeto e sujeito. Por outro lado, a formação torna-<br />

se indissociável do sujeito. Discutir como um se estabelece exige a presença da<br />

outra, e vice-versa.<br />

A qualidade de vida dos educadores é reflexo da qualidade de sua interação<br />

nos ambientes pessoal e profissional e reflete diretamente nessa qualidade.<br />

Esse fator recíproco denota a relevância da preocupação e do investimento<br />

das instituições de educação com a qualidade de vida dos seus profissionais.<br />

Qualidade das interações para a qualidade de vida<br />

As dimensões individual e social são o universo da subjetividade humana,<br />

com base na qual se concebe a qualidade de vida. No entanto, nesse universo,<br />

são visualizadas e questionadas algumas barreiras significativas para a<br />

conquista da boa qualidade de vida. Barreiras significativas porque se trata de<br />

problemas e conflitos na base da qualidade de vida: na qualidade das relações<br />

intra e interpessoal.<br />

Para discutir ou resolver tais questões, tendo em vista a iniciativa de<br />

reconstrução das condutas pessoal e profissional para uma vida saudável e<br />

produtiva, é primordial a emersão visual de mundo da rotina, ou seja, o desapego<br />

ao hábito de realizar atividades de determinadas formas e não de outras,<br />

mediante diferentes perspectivas de percepção de si, do meio e das situações<br />

de conflito, mediadas pelo pensamento complexo, partindo para a vivência de<br />

construção de novas propostas de ação e interação frente aos problemas tidos<br />

como barreiras à qualidade de vida.<br />

O educador, primeiramente, ao entender-se como ser complexo e ao<br />

dedicar ‘tempo-espaço’ para seu autodesenvolvimento, torna-se apto a mediar,<br />

comunicar, perceber o contexto, entender a diversidade, relacionar e interagir,<br />

contando com recursos primordialmente próprios na estruturação de processos<br />

favoráveis à aprendizagem significativa, tanto sua quanto de seus alunos.


Esses recursos próprios são as condições pessoais para a vida e o trabalho;<br />

são as condições construídas pela cultura pessoal, que designa hábitos,<br />

costumes, crenças, atitudes, posturas e atividades, ou seja, são aspectos da<br />

sua qualidade de vida que, por sua vez, vão interagir com aspectos da qualidade<br />

de vida dos outros.<br />

No entanto a qualidade das interações consigo mesmo, com os outros<br />

ou com os objetos do conhecimento designa a qualidade de vida e é designada<br />

pela qualidade de vida, numa constante dialética da vida, a qual sempre parte<br />

de cada pessoa para o mundo, gerando sentimentos de realização ou insatisfação.<br />

O autoconhecimento, exercitado de forma a contextualizar interesses,<br />

necessidades e desejos pessoais, é o primeiro passo para identificar na<br />

subjetividade tanto os objetivos de vida quanto o potencial individual para<br />

conquistá-los.<br />

O segundo passo é alimentar um paradigma qualitativo, por meio de<br />

uma postura que combine reflexão e ação, gerando a motivação das capacidades<br />

de valorizar e administrar o que foi identificado; e essa valorização<br />

compete à filosofia pessoal, construída e trabalhada espontaneamente, e não a<br />

receitas que ditem passo-a-passo atitudes predefinidas e detalhadas por outras<br />

pessoas.<br />

O terceiro passo é a administração daquilo que nos é importante, mediante<br />

o planejamento e a realização de atividades favoráveis ao desenvolvimento<br />

dos nossos objetivos de vida, fomentados em conjunto à<br />

reavaliação de questões prementes e atuais, como a relação entre o homem e o<br />

meio ambiente, o fator tempo na vida humana, as exigências e o significado do<br />

trabalho, a administração do tempo livre, as relações interpessoais, a saúde como<br />

bem-estar biopsicossocial, as dimensões dos diversos tipos de problema para soluções<br />

adequadas, a motivação e a criatividade nas atividades cotidianas.<br />

Uma qualidade de vida satisfatória não pode ser adquirida em locais ou<br />

situações específicas; ela é uma construção consciente do sujeito que aproveita<br />

a qualidade das interações, ou seja, que se autoconhece, que valoriza e administra<br />

socialmente os aspectos de sua vida e que toma decisões conscientes,<br />

seguidas de iniciativas éticas.<br />

Conclusão<br />

A qualidade de vida requer a compreensão complexa da vida que vivemos<br />

intensamente, e não, simplesmente, da vida que temos ou levamos quase<br />

como espectadores. Deve ser o exercício automotivado da aprendizagem aplicada<br />

à emancipação humana, em que o conhecimento das coisas mais simples<br />

é transposto para situações complexas, tendo como princípio a ética e designando<br />

um estilo de vida saudável.<br />

99


“... A complexidade é concebida como uma reforma profunda do pensamento,<br />

uma tomada de posição epistemológica que, em si mesma, é desígnio<br />

e método educativos” (Morin, 2003, p. 557).<br />

A melhoria da qualidade de vida começa com o conhecimento sobre<br />

seus aspectos e se realiza com o saber, fundamental à prática consciente do<br />

ser saudável. A melhoria da qualidade de vida dos professores requer propostas<br />

específicas para o trabalho do assunto junto aos professores, partindo do<br />

interesse das instituições de ensino em utilizar o tempo e o espaço de trabalho<br />

voltados à reconstrução de práticas pessoais e profissionais ineficazes, já que<br />

ambas interagem e se transformam mutuamente.<br />

100<br />

No próprio instante que me dedico aos meus projetos, a minhas ocupa-<br />

ções, a meus amigos, a minhas recordações, posso fechar os olhos, estirar-me,<br />

escutar meu sangue que pulsa nos ouvidos, fundir-me a um prazer ou a uma<br />

dor, encerrar-me nesta vida anônima que submete minha vida pessoal. Mas<br />

justamente porque pode fechar-se ao mundo, meu corpo é também aquilo que<br />

me abre ao mundo e nele me põe em situação. O movimento da existência em<br />

direção ao outro, em direção ao futuro, em direção ao mundo pode recomeçar,<br />

assim como um rio degela (Merleau-Ponty, 1999, p. 227-228).<br />

Referências<br />

ARENDT, H. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária,<br />

2001.<br />

CASTRO, A. P. de. Motivação: como desenvolver e utilizar esta energia. Rio de<br />

Janeiro: Campus, 1998.<br />

DAVEL, E.; VERGARA, S. C. (Orgs.). Gestão de pessoas e subjetividade.<br />

São Paulo: Atlas, 2001.<br />

DEMO, P. Complexidade e aprendizagem: a dinâmica não-linear do conhecimento.<br />

São Paulo: Atlas, 2002.<br />

FONSECA, V. da. Psicomotricidade: filogênese, ontogênese e retrogênese. 2. ed.<br />

Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.<br />

HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro:<br />

Tempo Brasileiro, 1989.<br />

LÉVINAS, E. Da existência ao existente. Campinas: Papirus, 1998.<br />

LORIGGIO, A. De onde vêm os problemas: método para um diagnóstico<br />

eficaz. São Paulo: Negócio, 2002.<br />

MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. 2. ed. São Paulo: Martins<br />

Fontes, 1999.


MOREIRA, W. W. Qualidade de vida: complexidade e educação. Campinas:<br />

Papirus, 2001.<br />

MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 8. ed. São<br />

Paulo: Cortez / Brasília: Unesco, 2003.<br />

MOSCOVICI, F. Desenvolvimento interpessoal. 13. ed. Rio de Janeiro: José<br />

Olympio, 2003.<br />

PIMENTA, S. G. (Org.). <strong>Saberes</strong> pedagógicos e atividade docente. São<br />

Paulo: Cortez, 1999.<br />

SCHNITMAN, D. F. (Org.). Novos paradigmas, cultura e subjetividade.<br />

Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.<br />

TAVARES, M. da C. F. Imagem corporal: conceito e desenvolvimento. Barueri:<br />

Manole, 2003.<br />

VÀZQUEZ, A. S. Ética. 13. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.<br />

101


102


Gestão de pessoas: formação de<br />

uma equipe bem sucedida Marilda Corbelini 1<br />

Novos tempos, velhos desafios<br />

Os desafios presentes no novo milênio trazem a cena profundas mudanças<br />

para o cotidiano da gestão das organizações.<br />

No meio das turbulências de valores, da instabilidade e imprevisibilidade<br />

dos fatos, a tradicional questão se apresenta, mas cada vez mais emergente,<br />

importante e necessária de se enfrentar:<br />

Quais as competências ou, mais precisamente, que capacidades, conhecimentos,<br />

aptidões e experiências são necessários para lidar com pessoas, de<br />

forma construtiva, de maneira que as diferenças possam ser administradas e<br />

equacionadas em uma relação de interdependência?<br />

De acordo com Peter Drucker 2 ,em seu livro Desafios Gerenciais para<br />

o Século XXI, o autogerenciamento constitui uma competência fundamental<br />

para avaliar posicionamentos, decisões, visão de mundo, possibilitando conhecer<br />

a si mesmo em um contexto em que a consciência da interdependência,<br />

de trabalho em equipe são condições para definir nossa inclusão no mundo da<br />

vida pessoal e profissional.<br />

1 Doutora em Serviço Social, consultora para programas de gestão de pessoas nas organizações e professora dos cursos<br />

de pós-graduação (FAE / CDE, FGV, IBMEC). Coordenadora do Programa de Projetos Comunitários da PUC-PR.<br />

2 DRUCKER, Peter. Desafios gerenciais para o século XXI.<br />

VIII<br />

103


No cotidiano da vida profissional, no mundo do trabalho globalizado,<br />

verificamos a ausência de participação, colaboração e relacionamentos éticos,<br />

saudáveis e gratificantes. As empresas, necessariamente, terão de investir na<br />

gestão da consciência de si e do outro, na capacidade de administrar conflitos,<br />

diferenças de interesses, buscando uma forma construtiva e cooperativa de<br />

relacionamento.<br />

Velhos desafios, já denunciados por Karl Manheim em 1930 3 , “se o desequilíbrio<br />

no desenvolvimento total é perigoso para o individuo, a nível da<br />

sociedade poderá levar, mais cedo ou mais tarde, à catástrofe”.<br />

Nessas turbulências, constantemente reevidenciadas, estão presentes as<br />

contradições das transformações do desenvolvimento tecnológico, a qualidade<br />

de vida das organizações sociais e a deteriorização da dimensão humana.<br />

Nossos conflitos e problemas são de desacordos, antagonismos sociais,<br />

frustrações sociais e não de condições materiais de vida e equipamentos concretos<br />

das organizações 4 .<br />

O radicalismo e o antagonismo continuam presentes nos cenários empresariais,<br />

como marca histórica dos desentendimentos dos conflitos entre capital<br />

e trabalho, atrasando o processo de inovação, qualidade e competitividade<br />

organizacional. De acordo com Kerridje 5 , citado por Jensem, as doenças organizacionais<br />

(complexidade, caos, confusão, conflito e custos) limitam a sintonia<br />

das tarefas, distorcendo a qualidade das ações organizacionais e impedindo a<br />

consecução dos processos de mudança social.<br />

104<br />

Novos tempos e o resultado através das pessoas<br />

Toda e qualquer empresa (não importa seu tempo de existência, sua estrutura<br />

e finalidade) tem um grande desafio neste milênio: lidar com a extrema<br />

agressividade e pressão de mercado, com a competitividade, emergência de<br />

capacidade de renovação e, principalmente, enfrentar o desafio de atrair e reter,<br />

internamente, profissionais comprometidos, parceiros que compartilhem objetivos,<br />

expectativas, valores pessoais e organizacionais, comunicando e administrando<br />

suas diferenças de natureza pessoal, interpessoal, intergrupal e coletiva.<br />

Em qualquer organização, independente de sua natureza, tamanho ou<br />

ramo de atividade, o comportamento individual e coletivo é fruto de experiências<br />

e idiossincrasias pessoais, dos processos interativos que ocorrem na situação<br />

de trabalho, das características da cultura organizacional e dos papéis / funções<br />

que cada um representa no contexto da empresa. São as pessoas, através de<br />

suas ações, relacionamentos e formas de participação, que transformam essa<br />

entidade abstrata, a empresa, em um organismo vivo, atuante e com características<br />

próprias, capaz de interagir com o meio ambiente.<br />

3 MANHEIN, Karl. Man and Society in an age of reconstruction. New York.<br />

4 RIESMAN, D. A multidão solitária. S. P. 1971.<br />

5 JENSEN, B. O desafio da simplicidade. HSM Management, n o 9, 1998.


Dentro de uma organização, um dos sistemas mais importantes é o grupo<br />

de trabalho, contudo, pelas contingências não só externas como observamos,<br />

mas principalmente internas, não é fácil trabalhar nesse coletivo. Por que<br />

então continuamos a insistir em discutir a relevância do trabalho em equipe e<br />

a alta da sinergia por ela produzida?<br />

A razão mais importante talvez seja a de que poucas tarefas podem<br />

ser feitas individualmente. Na medida em que as organizações se tornam<br />

mais complexas do ponto de vista tecnológico, é preciso mais do que energia,<br />

conhecimento, habilidades e o tempo de uma única pessoa para realizar as<br />

tarefas. É importante referenciar, no mundo do trabalho em qualquer complexidade,<br />

o uso mais sistemático e o aproveitamento dos diferentes talentos e<br />

habilidade das pessoas.<br />

Entretanto, encontramos, na maioria das organizações, a ausência de<br />

efetividade no trabalho grupal. Vale a pena pensar, caso você pertença a alguns<br />

desses grupos, como está ocorrendo esta relação. Outros questionamentos<br />

também merecem ser feitos: como se organizaram? Você se sente útil dentro<br />

deles? Você confia nas pessoas? Os objetivos estão bem claros? Há comprometimento?<br />

Enfim, você sente que faz parte desse grupo de pessoas? Você é<br />

feliz?<br />

A proposta de construção e manutenção de equipes dos autores Sibbet /<br />

Drexler 6 interessa a quem quer compreender o funcionamento dos grupos de<br />

trabalho e melhorar o autoconhecimento / autogerenciamento, como também<br />

aprimorar a habilidade de obter o que se deseja dos grupos dos quais se participa.<br />

Liderança de equipes: um modelo (Sibbet / Drexler)<br />

O que é uma equipe?<br />

É um conjunto de pessoas interdependentes, trabalhando em direção a<br />

um objetivo comum.<br />

Mais especificamente:<br />

— Eles têm uma razão ou propósito para trabalharem juntos.<br />

— Eles precisam da experiência uns dos outros, assim como da habilidade<br />

e do compromisso mútuo para atingirem objetivos. Esta é a sua<br />

interdependência.<br />

— Eles acreditam que trabalhar em uma equipe leva a resultados mais<br />

eficazes do que trabalhar sozinho.<br />

— Eles contam com um contexto organizacional mais amplo.<br />

6 SIBBET; DREXLER, Alan. Team Building. NTL/Ed, Washington USA, 1990.<br />

105


106<br />

Trabalho em equipe: os sete estágios<br />

Os elementos que compõem este modelo são interdependentes: a progressão<br />

do primeiro ao sétimo estágio não é cronológica. Todas as situações<br />

representadas no modelo estão em constante acontecimento, ainda que a sobreexcelência<br />

de uma sobre a outra, em um certo momento, varie de equipe<br />

para equipe. A progressão pelos estágios acontece, de maneira geral, de forma<br />

dependente da resolução dos tópicos concernentes aos últimos estágios. Esta<br />

dependência não é absoluta, pode acontecer, para uma dada equipe, que o<br />

processo seja bem-sucedido, ainda que exclua a realização de um ou mais estágios.<br />

Em geral, entretanto, a resolução de um estágio faz que seja preferível<br />

resolver o outro estágio sucessivo.<br />

O nível de resolução para qualquer uma das questões descritas no modelo<br />

varia na maioria das equipes em dois aspectos. Primeiramente, as diferenças<br />

usualmente ocorrem na maneira individual de cada um dos membros<br />

resolver suas questões. Em muitas equipes, entretanto, os membros partilham<br />

uma idéia de como o grupo está lidando com um dado conjunto de questões,<br />

isto é, todos percebem uma espécie de “centro de gravidade”. Em segundo<br />

lugar, o nível de resolução de um dado conjunto de questões varia, conforme o<br />

momento, para a maioria das equipes. Conclusões que tenham sido acertadas<br />

podem ser rediscutidas em função de um querer da equipe ou das circunstâncias.<br />

O mau funcionamento de uma área pode ter efeitos irreversíveis em<br />

outras.<br />

O modelo simplifica esta realidade. Para facilitar a discussão, debateremos<br />

cada estágio separadamente.<br />

Estágio de construção de trabalho em equipes<br />

1. ORIENTAÇÃO: Eu pertenço a este lugar? Eu quero estar aqui?<br />

Quando as equipes estão em construção, os componentes estão tentando<br />

imaginar POR QUE estão ali, se seu potencial será aproveitado<br />

e se os outros vão aceitá-los. As pessoas sempre precisam de algum<br />

tipo de resposta para poderem prosseguir.<br />

2. CONSTRUINDO CONFIANÇA: Quem é você? O que você espera de<br />

mim?<br />

Em seguida, as pessoas querem saber COM QUEM vão trabalhar, suas<br />

expectativas, agendas e competências. A informação adequada ajuda<br />

a construir confiança e um livre intercâmbio entre os membros da<br />

equipe.<br />

3. CLARIFICANDO OBJETIVOS / PAPÉIS: O que a equipe deve fazer?<br />

O trabalho de equipe começa a acontecer mais concretamente com a<br />

clarificação dos objetivos da equipe, bem como do papel de cada membro.<br />

Termos e definições vêm à discussão: QUAIS são as prioridades?


4. TOMADA DE DECISÃO E COPROMISSO: Para onde?<br />

Em certo momento, as discussões precisam ser encerradas e as<br />

decisões devem ser tomadas sobre COMO os recursos, o tempo, o<br />

pessoal de apoio, todas as contingências, a nível de suporte, serão<br />

administradas.<br />

Estágios de manutenção do trabalho em equipes<br />

5. IMPLEMENTAÇÃO: Como as coisas são feitas?<br />

As equipes ganham impulso quando começam a seqüenciar o trabalho<br />

e se concentrar em QUEM faz o QUE, QUANDO e ONDE na ação.<br />

Controles sobre o tempo e a organização dominam esse estágio.<br />

6. ALTO DESEMPENHO: Sinergia!<br />

Quando a metodologia é assimilada, uma equipe pode começar a<br />

mudar seus objetivos e responder de forma flexível (A equipe pode,<br />

então, exclamar “UAU!”).<br />

7. RENOVAÇÃO: Questionar a continuidade<br />

As equipes são dinâmicas. As pessoas ficam cansadas, há mudanças<br />

de membros. As pessoas imaginam “POR QUE continuar”. É hora de<br />

colher os resultados do que foi ensinado e preparar-se para um novo<br />

ciclo de ação.<br />

107


NÃO<br />

RESOLVIDO<br />

* Incerteza<br />

* Medo<br />

NÃO<br />

RESOLVIDO<br />

* Precaução<br />

* Falta de<br />

confiança<br />

NÃO<br />

RESOLVIDO<br />

* Apatia<br />

* Competição<br />

irrelevante<br />

108<br />

DESENVOLVIMENTO DE EQUIPES<br />

ESTÁGIOS DE CRIAÇÃO ESTÁGIOS DE SUSTENTAÇÃO<br />

1.<br />

ORIENTAÇÃO:<br />

POR QUE<br />

ESTOU AQUI?<br />

2.<br />

CONSTRUINDO<br />

CONFIANÇA:<br />

QUEM SÃO<br />

VOCÊS?<br />

3.<br />

CLARIFICAÇÃO<br />

DOS<br />

OBJETIVOS: O<br />

QUE ESTAMOS<br />

FAZENDO?<br />

RESOLVIDO<br />

* Visão partilhada<br />

* Decisões<br />

RESOLVIDO<br />

* Determinação<br />

* Companheirismo<br />

RESOLVIDO<br />

* Estima mútua<br />

* Interação espontânea<br />

RESOLVIDO<br />

* Clareza de objetivos<br />

* Papéis identificados<br />

RESOLVIDO<br />

* Reconhecimento<br />

* <strong>Dom</strong>ínio das<br />

mudanças<br />

* Poder duradouro<br />

4.<br />

COMPROMISSO:<br />

COMO<br />

FAREMOS?<br />

RESOLVIDO<br />

* Sinergia<br />

* Comunicação<br />

* Equipes<br />

NÃO<br />

RESOLVIDO<br />

* Conflito<br />

* Prazos Perdidos<br />

* Desmotivação<br />

NÃO RESOLVIDO<br />

* Dependência<br />

7.<br />

RENOVAÇÃO:<br />

POR QUE<br />

CONTINUAR?<br />

6.<br />

ALTO<br />

DESEMPENHO<br />

UAU!<br />

5.<br />

IMPLEMEN-<br />

TAÇÃO<br />

NÃO<br />

RESOLVIDO<br />

* Frustração<br />

* Esfacelamento<br />

do grupo<br />

NÃO<br />

RESOLVIDO<br />

* Desarmonia<br />

RESOLVIDO<br />

* Processo claro<br />

* Execução<br />

disciplinada


Anotações<br />

109


Anotações<br />

110


Anotações<br />

111


SERIEDADE | COMPETÊNCIA | CONSCIÊNCIA | DEDICAÇÃO

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