Saberes docentes - Dom Bosco
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19 a 21 de julho de 2006<br />
<strong>Saberes</strong> <strong>docentes</strong><br />
Da teoria à prática, da ação à reflexão
Logomarca: Opusmultipla — Comunicação Integrada S.A.<br />
Capa: Gilberto Soares dos Santos<br />
Planejamento gráfico: Gilberto Soares dos Santos<br />
Análise lingüística: Bernadete Monteiro<br />
João Daniel Bervique<br />
Yara Wojslaw Pereira Dias<br />
Revisão: Tatiane Valéria R. de Carvalho<br />
Diagramação: Marline Meurer<br />
Impressão: Gráfica <strong>Dom</strong> <strong>Bosco</strong><br />
Tiragem: 1 300 exemplares<br />
“As informações contidas nos artigos são de inteira responsabilidade dos respectivos autores”.
II CONGRESSO DE EDUCAÇÃO<br />
DOM BOSCO<br />
19 a 21 de julho de 2006<br />
SABERES DOCENTES<br />
DA TEORIA À PRÁTICA, DA AÇÃO À REFLEXÃO
II CONGRESSO DE EDUCAÇÃO<br />
DOM BOSCO<br />
19 a 21 de julho de 2006<br />
SABERES DOCENTES<br />
DA TEORIA À PRÁTICA, DA AÇÃO À REFLEXÃO<br />
Comissão Organizadora<br />
Anneliese Alcoba Ruiz<br />
Cristiane Sliva<br />
Laurilea Mafra de Souza Galdi<br />
Luciane Lipmann<br />
Maria Lúcia Castellano<br />
Marineide Look Azevedo<br />
Marta Helena Terra<br />
Patricia Silva<br />
Samira Dib<br />
Silvana P. Vaz<br />
Comissão de Programação e Avaliação Científica<br />
Comissão de Comunicação<br />
Nair Lobo Pacheco<br />
Rosane de Mello Santo Nicola<br />
Samira Dib<br />
Edson José de Oliveira Santos<br />
Polyana Burko Krelling
Sumário<br />
Apresentação 9<br />
I<br />
Diversidades de ações sociais e de representações: diversidade de<br />
gêneros e em gêneros — Angela Paiva Dionísio 11<br />
II<br />
Aspectos semânticos e discursivos no texto jornalístico — Sandra Batista<br />
da Costa 31<br />
III<br />
Reflexibilidade: alternativas de intervenção na prática pedagógica — Joana<br />
Paulin Romanowski 47<br />
IV<br />
Projetos, currículo e aprendizagem na Educação Básica e Superior — Marcos<br />
Cordiolli 55<br />
V<br />
Planejando e analisando as atividades didáticas em sala de aula —<br />
Marielda Ferreira Pryjma 81<br />
VI<br />
O relevante papel do professor no ensino de Matemática — Ângela<br />
Ferreira Pires da Trindade 89<br />
VII<br />
Qualidade de vida, subjetividade e interação — Fernanda Pires Bertuol<br />
VIII<br />
Gestão de pessoas: formação de uma equipe bem-sucedida — Marilda<br />
Corbelini 103<br />
95
Apresentação<br />
Os professores são os criadores da sua atividade profissional,<br />
mas também são criações de seu local de trabalho.<br />
Hargreaves (2002)<br />
O Colégio <strong>Dom</strong> <strong>Bosco</strong>, reunindo as unidades Ahú, Batel e Mercês, tem<br />
promovido, nos últimos anos, seminários de Educação, objetivando viabilizar<br />
aos gestores, professores e equipe administrativa da instituição, programas de<br />
formação continuada, proporcionando aperfeiçoamento educacional.<br />
Os eventos se ampliaram, adquirindo caráter de Congresso em 2005 e,<br />
neste ano, consolida-se como o II Congresso de Educação <strong>Dom</strong> <strong>Bosco</strong>, intitulado<br />
SABERES DOCENTES — da teoria à prática, da ação à reflexão.<br />
Este livro é resultado do esforço conjugado de profissionais de educação<br />
que, em parceria com o Colégio e o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em<br />
Educação (CPDE) da Editora <strong>Dom</strong> <strong>Bosco</strong>, socializam experiências de docência<br />
e gestão na Educação Básica e no Ensino Superior, por meio desta publicação<br />
e de sua participação no evento sediado na unidade Batel, no período de 19 a<br />
21 de julho de 2006.<br />
A temática geral da práxis pedagógica desdobra-se em três eixos: letramento<br />
e gêneros textuais; planejamento, metodologia de ensino-aprendizagem<br />
e reflexão sobre a ação docente; e gestão de pessoas.<br />
No eixo letramento e gêneros textuais, expõe-se o conhecimento dinâmico<br />
da língua, fornecendo aos <strong>docentes</strong> das diversas áreas e fases de ensino<br />
básico um aperfeiçoamento de sua educação lingüística, para que tenham instrumental<br />
científico em sua atuação profissional, uma vez que suas práticas<br />
são de natureza sociocomunicativa e contribuem no letramento dos alunos.<br />
No eixo planejamento, metodologia e reflexão sobre a ação docente,<br />
estabelece-se uma espiral com pontos convergentes e divergentes, tal qual o<br />
percurso da sociedade contemporânea, admitindo novas visões e novas estruturas<br />
sociais, discutindo princípios da vida cidadã que perpassam a ciência, a<br />
tecnologia e a pluralidade cultural, imbricados na organização do trabalho docente,<br />
nas atividades didáticas e na atitude reflexiva desse profissional.<br />
Finalmente, no eixo de gestão de pessoas, compartilham-se as inquietações<br />
da atual sociedade, vivendo num paradoxal processo de gestão de vida<br />
pessoal e profissional, entre o individual e o coletivo, o público e o privado,<br />
a qualidade de vida das organizações sociais e a deterioração da dimensão<br />
humana.
10<br />
Agradecemos de modo especial aos autores que prontamente nos enviaram<br />
seus textos inéditos, em tempo hábil para a publicação. Todo esse movimento<br />
representa a gestão integrada de diversas ações desenvolvidas dentro<br />
e fora da escola, pois a docência na educação básica não pode ocorrer isolada.<br />
Não só os professores e a equipe administrativa estão envolvidos na execução<br />
da proposta pedagógica, mas também os alunos, as famílias e as comunidades<br />
leiga e científica.<br />
Antônio Nóvoa, em conferência intitulada “Avaliação das escolas e<br />
dos professores”, no 4 o Congresso Internacional de Avaliação, em São Paulo<br />
(12/7/2006), declarou a extrema necessidade de que a escola lute por sua<br />
credibilidade na sociedade, cuide de sua imagem pública, pois uma grande<br />
desconfiança paira sobre ela advinda das demais instituições nesta sociedade<br />
do conhecimento.<br />
Esse alerta tem relação direta com iniciativas como a produção deste<br />
livro, que significa o registro, a permanência de um tempo de reflexão e formação<br />
continuada de profissionais da educação. Por meio dele, materializamse<br />
discursos de diferentes áreas de conhecimento, buscando contribuir para o<br />
processo de reflexão coletiva sobre o trabalho docente.<br />
Curitiba, 19 de julho de 2006.<br />
Rosane de Mello Santo Nicola,<br />
Comissão de Programação e Avaliação Científica<br />
do II Congresso de Educação <strong>Dom</strong> <strong>Bosco</strong> e<br />
Coordenadora Científica do<br />
Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Educação
Diversidades de ações sociais e<br />
de representações: diversidade de<br />
gêneros e em gêneros<br />
Angela Paiva Dionísio 1<br />
Introdução<br />
Parece-me essencial começar este texto esclarecendo que toda a discussão<br />
se dará em torno de dois conceitos básicos, que são gêneros textuais e letramento.<br />
Devido à própria amplidão de tais conceitos, devo antecipar que priorizei<br />
alguns aspectos para sistematizar minha exposição. Estes aspectos são:<br />
1. Distinção entre tipo textual, gênero textual e domínio discursivo;<br />
2. Concepção de gênero textual como ação sociorretórica;<br />
3. A relação gêneros textuais, intertextualidade e letramento;<br />
4. Diversidade na forma de representar, diversidade de letramentos. Na<br />
realidade, multiletramento!<br />
5. Lendo mais sobre o tema.<br />
1. Distinção entre tipo textual, gênero textual e domínio<br />
discursivo<br />
I<br />
A distinção entre os três termos tipo textual, gênero textual, e domínio<br />
discursivo se justifica essencialmente por razões didáticas para o professor,<br />
mas não deve consistir numa preocupação basilar a ser tratada nas salas de<br />
1 Professora da Universidade Federal de Pernambuco (Recife), com Pós-doutorado pela Universidade da Califórnia<br />
(EUA) e Doutorado pela UFPE.<br />
11
12<br />
aula do ensino fundamental e médio. Seguindo Marcuschi (2002:22-25), os<br />
tipos textuais são designações teóricas dos tipos: narrativo, argumentativo,<br />
descritivo, injuntivo, explicativo e dialogal, que se caracterizam como (i)<br />
“constructos teóricos definidos por propriedades lingüísticas intrínsecas”, (ii)<br />
“seqüências lingüísticas ou seqüências de enunciados no interior dos gêneros e<br />
não são textos empíricos”, bem como apresentam uma nomeação que “abrange<br />
um conjunto limitado de categorias teóricas determinadas por aspectos lexicais,<br />
sintáticos, relações lógicas, tempo verbal”. Por sua vez, os gêneros podem ser<br />
definidos, como (i) “realizações lingüísticas concretas definidas por propriedades<br />
sociocomunicativas”, (ii) “textos empiricamente realizados cumprindo funções<br />
em situações comunicativas”, cuja “nomeação abrange um conjunto aberto e<br />
praticamente ilimitado de designações concretas determinadas pelo canal, estilo,<br />
conteúdo, composição e função”, como, por exemplo, parecer médico, laudo<br />
técnico, palestra, telefonema, sermão, carta pessoal, romance, bilhete, reportagem<br />
jornalística, notícia jornalística, horóscopo, piada, conferência, e-mail, batepapo<br />
por computador, etc. Já o termo domínio discursivo se refere às instâncias<br />
discursivas (discurso jurídico, discurso jornalístico, discurso religioso, discurso<br />
educacional, etc.) dos gêneros, ou seja, sinaliza a origem discursiva deles, “já<br />
que os gêneros são institucionalmente marcados. Um domínio constitui práticas<br />
discursivas dentro das quais podemos identificar um conjunto de gêneros que às<br />
vezes lhe são próprios como práticas ou rotinas comunicativas institucionalizadas”<br />
(Marcuschi, 2002:22-25).<br />
Vejamos a título de ilustração o texto (1).<br />
Você não quer contar esta história para seus filhos, quer?<br />
(1)
Trata-se de uma propaganda do Greenpeace que focaliza a luta pela preservação<br />
do meio ambiente, pela não-poluição dos rios, por exemplo. A história<br />
de um patinho que era feio, por ser o único patinho negro da ninhada, faz parte<br />
do elenco das histórias que ouvimos na infância e contamos aos nossos filhos:<br />
O Patinho Feio, conto de Hans Christian Andersen. A retomada dessa história na<br />
propaganda se dá predominantemente pela imagem, com destaque para a camada<br />
de óleo que cobre a penugem da ave. Notem-se também as manchas de<br />
óleo no rio e nas pegadas do patinho. A estrutura “Você não quer contar esta<br />
história para seus filhos, quer?” que se dirige diretamente ao leitor, associada<br />
às relações intertextuais sugeridas funcionam como recursos argumentativos.<br />
Enfim, o texto (01) é do tipo argumentativo, o gênero textual é uma propaganda,<br />
e o domínio discursivo é o publicitário.<br />
2. Concepção de gênero textual como ação sociorretórica<br />
A noção de gênero como ação sociorretórica tem por base a escola<br />
americana, influenciada por Bakhtin, mas com forte contribuição de antropólogos,<br />
sociólogos e etnógrafos, que se preocupam com a organização social<br />
e as relações de poder que os gêneros encapsulam. Carolyn Miller e Charles<br />
Bazerman são dois grandes representantes dessa escola. Para Miller (1994),<br />
gêneros textuais são ações tipificadas que os indivíduos realizam em respostas<br />
a situações também tipificadas socialmente. Por sua vez, Bazerman (2005:23)<br />
salienta que “os fatos sociais consistem em ações sociais significativamente<br />
realizadas pela linguagem, ou atos de fala. Esses atos são realizados através de<br />
formas textuais padronizadas, típicas e, portanto, inteligíveis, ou gêneros, que<br />
estão relacionados a outros textos e gêneros que ocorrem em circunstâncias<br />
relacionadas”.<br />
Vejamos a situação-exemplo apresentada por Bazerman.<br />
Quando invocamos um gênero, tal como um editorial de jornal, estamos<br />
invocando não apenas um modelo de um tema oportuno, palavras avaliativas e<br />
emocionais, e recomendações políticas. Estamos invocando o papel do jornalismo<br />
e do comentário na política contemporânea, o poder cívico e econômico de de-<br />
terminado jornal, a reputação pública dos seus jornalistas e a influência de seus<br />
leitores. Estamos invocando eventos nos quais participam muitos jogadores, uma<br />
topologia que evolui com o tempo e um habilidoso senso de timing necessário<br />
para o sucesso de qualquer editorial. Estamos invocando os padrões de crítica e<br />
de bom gosto dentro de uma comunidade, as atitudes correntes com respeito a<br />
figuras políticas e os temas mais polêmicos do momento. É nesse ambiente com-<br />
plexo que o editorial tem que agir (Bazerman, 2006).<br />
Gêneros são, portanto, concebidos como tipos de enunciados que estão<br />
associados a um tipo de situação retórica, ou seja, “com os tipos de atividades<br />
que as pessoas dizem, fazem e pensam como partes dos enunciados” (Bazerman,<br />
2006).<br />
13
14<br />
Como “os gêneros são espaços familiares aonde vamos para criar uma<br />
ação comunicativa inteligível uns com os outros e são os guias que nós usamos<br />
para explorar o não-familiar” (Bazerman, 2006), o escritor pode jogar com<br />
uma variedade de formas em diferentes situações sociais e com diferentes<br />
objetivos. Os avanços tecnológicos têm colaborado e muito para esse jogo de<br />
experimentação de arranjos no processamento textual. Podemos afirmar com<br />
segurança que a maior liberdade na manipulação dos gêneros textuais tem<br />
relação direta com a audiência e com o meio físico que transmite o gênero.<br />
Basta pensarmos, por exemplo, nas charges animadas, nos infográficos ou nos<br />
diagramas em movimento.<br />
Essa noção de padrão não-familiar de apresentação dos gêneros textuais<br />
deve constituir um aspecto de fundamental interesse para os professores de<br />
todas as linguagens, uma vez que o padrão inesperado de disposição gráfica<br />
provoca diferentes reações nos leitores, desde fascinação até rejeição. Dionisio<br />
(2006:138), com o intuito de observar os movimentos oculares de leitores<br />
no processamento de gêneros com diferentes graus de informatividade visual,<br />
conceito que é retomado ao longo deste artigo, realizou uma pesquisa com 10<br />
leitores (3 crianças, entre 7 e 10 anos; 2 adolescentes, 18 anos; e 5 adultos,<br />
entre 21 e 55 anos, dentre eles, 3 professores de língua portuguesa), na qual foi<br />
constatado que os adolescentes e os adultos tendem a rejeitar textos que têm<br />
uma orientação de escrita diferente do Mundo Ocidental, como, por exemplo, o<br />
trecho Paradas Desastrosas do texto Como Funciona o Pit Stop de Fórmula 1?,<br />
extraído da seção Perguntas dos Leitores, da revista Superinteressante (2).<br />
Localizado no canto direito, na parte debaixo, da segunda página, o trecho Paradas<br />
Desastrosas está escrito em linhas diagonais, progressivamente inclinadas<br />
de cima para baixo. “Eu achei um pouco desorganizado. As informações em “Parada<br />
Desastrosas” são difíceis de ler, porque ele não está na posição vertical”,<br />
“Eu não gostei do lugar das “Paradas Desastrosas”. Parece que não havia mais<br />
espaço, então ele (o jornalista) jogou lá. Foi necessário eu quebrar o pescoço<br />
para ler. Isso não estimula a leitura”, são alguns dos depoimentos colhidos.<br />
As alterações no processo de construção dos gêneros provocam, conseqüentemente,<br />
uma mudança também na forma de ler os textos. O dinamismo<br />
da imagem do filme passou para a charge virtual, para um pôster interativo; a<br />
disposição do texto na página oscila entre os moldes ocidentais e orientais de<br />
escrita. Esses são alguns exemplos que deixam transparecer a necessidade<br />
de revisão do conceito de leitura e de suas estratégias que utilizamos em nossas<br />
aulas. Conseqüentemente, se os gêneros se materializam em formas de<br />
representação multimodal (linguagem alfabética, disposição gráfica na página<br />
ou na tela, cores, figuras geométricas, etc.) que se integram na construção<br />
do sentido, o conceito de letramento também precisa ir além do meramente<br />
alfabético. Precisamos falar em multiletramento! Um exemplo? Basta uma visita<br />
ao site http://revistaescola.abril.uol.com.br/especiais/posteres para uma
(2)<br />
15
16<br />
breve demonstração da visualidade da escrita com fins didáticos. O pôster “A<br />
Formação da Cárie” lido aqui neste artigo e lido diretamente na tela de um<br />
computador, no site acima indicado, requer estratégias de leituras distintas,<br />
exige o domínio técnico de uso dos suportes envolvidos, além do conhecimento<br />
do complexo, mas fantástico, conjunto de linguagens e formas de representação<br />
do conhecimento. Como desafio, convido o meu leitor a ler este pôster<br />
também na versão infográfico animado.<br />
3. A relação gêneros textuais, intertextualidade e letramento<br />
Ao processarmos um texto verbal ou pictorial, sempre recorremos a outros<br />
textos, fazendo referência, por exemplo, ao seu conteúdo, ao seu estilo, à<br />
sua forma estrutural, com os mais variados propósitos discursivos. Compactuando<br />
com Bazerman (2006) ao afirmar que “nossa originalidade e nossa habilidade<br />
como escritores advêm das novas maneiras como juntamos essas palavras para<br />
se adequarem às situações específicas, às nossas necessidades e aos nossos<br />
propósitos específicos”, saliento a importância de se investigar como se manifesta<br />
a intertextualidade entre gêneros verbais e pictoriais em materiais didáticos<br />
de diferentes áreas de conhecimentos para o ensino fundamental e médio.<br />
A intertextualidade, portanto, deve se configurar como um dos grandes<br />
temas de interesse dos professores de todas as disciplinas, nas situações de leitura<br />
e de escrita, em que se queira perceber como os alunos se apropriam das<br />
várias fontes de pesquisa e as transpõem para a produção de seus textos. Cabe<br />
aos professores de todas as áreas preocupar-se com a atividade de análise de<br />
(3)
intertextualidade. Com isso, amplia-se o campo de investigação das relações<br />
intertextuais, rompendo-se as fronteiras do texto literário e das paredes das<br />
salas de aula de língua portuguesa. Como assegura Bazerman (2004:84), “nós<br />
criamos os nossos textos a partir do oceano de textos anteriores que estão à<br />
nossa volta e do oceano de linguagem em que vivemos. E compreendemos os<br />
textos dos outros dentro desse mesmo oceano”.<br />
Numa rápida consulta a alguns manuais didáticos, observamos diferentes<br />
usos do princípio da intertextualidade tanto na construção dos capítulos em<br />
si como na construção dos exercícios de verificação de aprendizagem. Vejamos<br />
alguns casos.<br />
No exemplo (4), para introduzir o conceito de estatística são utilizados<br />
fragmentos de uma matéria jornalística que demonstram os indicadores sociais<br />
do Brasil nos anos 90 em forma de gráficos. Louvável é a atitude de trazer<br />
para o texto didático vozes de outras instâncias sociais, porém observa-se que<br />
não há uma só menção aos gráficos ali apresentados. Apenas uma referência<br />
é feita à manchete do jornal, numa estrutura pouco esclarecedora. A intertextualidade<br />
aqui com o IBGE e com a Folha de S. Paulo parece ter meramente<br />
um cunho figurativo, se o professor não tomar para si a tarefa de explorar tais<br />
vozes.<br />
Já em (5), na seção Atividades, o exercício 3 recorre a uma notícia publicada<br />
na revista Época sobre o derramamento de óleo, que serve de base<br />
para a construção de um problema matemático. Diferentemente da situação<br />
anterior, o intertexto aqui estabelece uma função discursiva com a disciplina e<br />
com o conteúdo explicitada na proposição da tarefa.<br />
Uma outra situação discursiva encontrada que apresento para reflexão<br />
consiste nos casos de materiais didáticos que selecionam alguns termos dos<br />
enunciados dos exercícios e apresentam um intertexto sobre eles, na maioria<br />
das vezes, escrito pelo próprio autor do livro, como se verifica em (6). A justificativa<br />
apresentada pelos manuais se sustenta no favorecimento da interdisciplinaridade.<br />
Em tais casos, geralmente, o texto original não é do autor do livro; no<br />
exemplo em análise, uma questão de vestibular da PUC—SP, o termo MAPA é<br />
destacado pelo autor do LD com um link para dois blocos de textos, visualmente<br />
salientes na página sobre o tema Cartografia. Cerca de 50% da página é<br />
ocupada por tais informações. Será que tal intertexto realmente está, quanto à<br />
localidade, coerente? Será que a informação sobre o curso de cartografia, dada<br />
no início da primeiro oração do problema proposto, não desviará a atenção do<br />
aluno do assunto em si?<br />
17
18<br />
(4)
(6)<br />
(5)<br />
19
20<br />
Intertextualidade entre imagens<br />
Um outro aspecto interessante quanto à intertextualidade reside no fato de<br />
esse recurso não se constituir uma particularidade do texto verbal. Arbex (2000)<br />
sugere que “nos mesmos termos que o conceito de intertextualidade, ou seja,<br />
como processo de produtividade de uma imagem que se constrói como absorção<br />
ou transformação de outras imagens”, deve-se usar o termo intericonicidade. A<br />
relação entre o texto-fonte (telas originais) e a releitura (telas produzidas por<br />
Maurício de Sousa, por exemplo) é de intericonicidade explícita, uma vez que<br />
as telas recriadas e as originais aparecem lado a lado nas diversas situações<br />
em que é apresentada a incursão do famoso quadrinista nas artes plásticas,<br />
seja na exposição que percorreu todo o Brasil, dirigida ao grande público; nas<br />
páginas do livro ou na tela do computador (CD), mídias em que foram publicadas<br />
esses novos quadros. Importante lembrar que ler com proficiência requer<br />
também imergir nas relações intertextuais.<br />
Vaz, Mozdzenski e Silva (2004:05), em Da Obra-Prima ao Pastiche:<br />
Intertextualidade e Intericonicidade nos “Quadrões”, de Maurício de<br />
Sousa, consideram essa relação estabelecida entre as telas de Maurício de<br />
Sousa e as obras-primas uma pastichização. Pastiche é<br />
uma prática de imitação que se distingue da subversão paródica por seu objetivo<br />
lúdico, mas não militante. (...) o pastichador deixa indícios do objetivo prag-<br />
mático de seu enunciado por uma indicação no paratexto ou dando um caráter<br />
caricatural aos conteúdos ou às marcas estilísticas (Charaudeau e Mainguenau,<br />
2004:371).<br />
Em outras palavras, o pastiche deixa claro para o leitor que se trata de<br />
uma brincadeira com o texto-fonte, marcando o novo texto com pistas que<br />
conduzem a essa compreensão. A reprodução do fundo da Mona Lisa em Mônica<br />
Lisa é uma dessas marcas.<br />
(7)<br />
(7)
É importante que não se veja a pastichização realizada por Maurício de<br />
Sousa como uma dessacralização das obras-primas, mas como uma ampliação<br />
das relações discursivas na linguagem visual, assegurando também a conversa<br />
entre textos visuais. No caso dos Quadrões, parece-me constituir uma boa trilha<br />
em direção às obras-primas da pintura.<br />
Propaganda, infográfico, gráfico, notícia, exercício escolar, tela de pintura,<br />
verbete foram alguns dos gêneros textuais que já utilizei com intertexto<br />
nesse gênero que construo: artigo científico. Há, portanto, uma variedade de<br />
gêneros que se entrecruzam e tecem um outro gênero. Todo o processo de<br />
construção exige de mim, como autora, e de você, como leitor, uma competência<br />
metagenérica, na terminologia de Koch (2006). Revelam também muitas<br />
de nossas experiências sociais mediadas por textos, ou seja, nossas práticas<br />
de letramento.<br />
Letramento é um processo social que permeia nossas rotinas diárias (da<br />
embalagem do xampu que usamos no banho ao levantar, às caixas de cereal e de<br />
leite do café da manhã ou ao display do celular, daí os sms 1 que recebemos durante<br />
todo o dia). Tudo está encravado de documentos e práticas de letramento.<br />
4. Diversidade na forma de representar, diversidade de<br />
letramentos. Na realidade, multiletramento!<br />
Neste artigo, vou brevemente tratar da visualidade de textos escritos.<br />
O discurso científico, geralmente, comporta, no interior de sua escrita, textos<br />
visuais, fórmulas matemáticas, por exemplo. Tais textos não funcionam como<br />
mera ilustração, mas sim, no mínimo, como complementos do texto verbal.<br />
Não são raros os casos em que os textos visuais são responsáveis pela sistematização<br />
de informações não-contidas no texto escrito ou pelo menos superficialmente<br />
mencionadas no texto escrito.<br />
Rowley-Jolivet (2002:22) salienta que o “fato de as ciências terem, ao longo<br />
dos tempos, desenvolvido seus próprios e específicos modos visuais de concepção<br />
e comunicação indica claramente a inabilidade de os modos lingüísticos<br />
sozinhos satisfazerem plenamente as necessidades cognitivas e comunicativas<br />
das ciências”. Dessa forma, letramento científico significa familiaridade com<br />
fatos e concepções científicos básicos, bem como habilidade para ler e escrever<br />
representações complexas de descobertas científicas. Na representação dessas<br />
concepções e desses fatos, a noção de contínuo da informatividade visual dos<br />
textos, de Berhardt (2004), é de extrema relevância, uma vez que gêneros<br />
visualmente informativos, como diagramas, tabelas, gráficos, desenhos anatômicos,<br />
mapas, entre outros, levam em consideração no seu processamento<br />
várias estratégias de controle retórico. Em outras palavras, pode-se falar na<br />
existência de um contínuo informativo visual dos gêneros textuais escritos, que<br />
vai do menos visualmente informativo ao mais visualmente informativo.<br />
1 Short message service — serviço de mensagens curtas (disponível pelo celular)<br />
21
22<br />
Gráfico 1: Contínuo da informatividade visual da escrita proposto por Berhardt<br />
Textos<br />
visualmente<br />
pouco<br />
informativos<br />
+ verbal<br />
– visual<br />
– verbal<br />
+ visual<br />
Textos<br />
visualmente<br />
muito<br />
informativos<br />
Analisando notícias científicas, Spinks (2001:160) ressalta que gráficos<br />
e fotografias podem “influenciar decisões sobre onde e quanto proeminentemente<br />
as histórias científicas se tornam. (...) Também o uso de gráficos bem<br />
elaborados e dinâmicos pode assegurar que a ciência atinja as manchetes”.<br />
Dionísio (2005:194) destaca que a edição de janeiro de 1997 da Superinteressante<br />
traz o tema cosméticos como assunto de capa. “Por não ser um<br />
tópico tradicionalmente considerado científico, para manter o perfil da revista<br />
de abordar cientificamente as matérias apresentadas e para cumprir com a função<br />
jornalística de divulgação imediata dos fatos, o tom de cientificidade é dado<br />
na montagem da capa tanto no plano verbal (manchete, lide) como no pictorial<br />
(fotografia e gráfico). Na manchete nominal — Cosméticos Científicos — e no<br />
lide — Agora a beleza virou assunto de cientistas — o qualificador científicos e<br />
o verbo indicador de estado permanente virar atestam o novo status do tema:<br />
de tópico inerentemente ligado à beleza, a assunto feminino, cosméticos, foi<br />
inserido no âmbito das pesquisas científicas, uma vez que as autoridades sociais<br />
responsáveis por tais pesquisas,<br />
ou seja, os cientistas, ao estudarem<br />
o tema, atribuem-lhe novo enfoque<br />
e, conseqüentemente, novo valor<br />
social. A imagem se compõe de uma<br />
fotografia, um close de uma mulher,<br />
à qual se sobrepõem imagens científicas<br />
— ilustrações científicas — que<br />
demonstram, por meio de desenhos<br />
das células que simbolizam uma visão<br />
microscópica da ação dos novos cosméticos<br />
na pele. O vocabulário visual,<br />
no interior do gráfico, indica as partes<br />
do corpo humano (células e pele) e a<br />
ação das cápsulas e dos filtros solares,<br />
como agentes de rejuvenescimento e<br />
de proteção da pele. O novo nessa<br />
matéria de capa, isto é, a abordagem<br />
científica do tema fica evidente verbal<br />
e visualmente.”<br />
(8)
Nascimento (2006:9) em pesquisa realizada comigo no projeto “Multimodalidade<br />
Discursiva: Orquestrando Palavras e Imagens”, desenvolvido no Nelfe (Núcleo<br />
de Estudos Lingüísticos da Fala e Escrita — UFPE), analisou gêneros predominantemente<br />
visuais em livros didáticos de ciências exatas (Matemática, Física e Química)<br />
e biológicas (Biologia) e seus usos na sala de aula. Segundo o autor, “muitos alunos<br />
têm bastantes dificuldades ao tentar entender um gráfico ou diagrama, pois essas<br />
representações não fazem parte do seu cotidiano. Os professores equivocam-se ao<br />
pensar que, só porque as compreendem, os alunos também lêem com rapidez<br />
tais imagens técnicas. Sabe-se que tal leitura não é tão simples assim, visto<br />
que os diagramas e outras ilustrações técnicas projetam seu conteúdo através<br />
de uma série de convenções gráficas especializadas. As convenções são inúmeras<br />
e variam de uma disciplina para outra, por isso se fazer necessário o<br />
letramento visual. Depende, então, dos <strong>docentes</strong> que os alunos desenvolvam a<br />
capacidade de entender e interpretar corretamente as representações técnicas<br />
e científicas. Lowe (2001) ainda sugere que o ensino dessas habilidades deve<br />
ter início desde a pré-escola, instruindo as crianças a realizar desenhos simples<br />
e, paulatinamente, chegar à imagem técnica. Não é aconselhável dar já pronta<br />
a representação especializada ao estudante. O letramento visual é um componente<br />
essencial na educação científica e tecnológica de hoje.”<br />
Wysoki (2004) afirma que a imagem de um texto constitui um forte<br />
indício para identificação do gênero textual. Tal afirmação se torna facilmente<br />
verificável em textos com maior observância das normas padronizadas, mas,<br />
com as facilidades de manipulação gráfica em computadores, atreladas ao espírito<br />
criativo dos produtores textuais, muitas vezes a imagem visual do texto<br />
não garante de imediato a identificação do gênero. Vejamos um exemplo em<br />
que a utilização do recurso da infografia despista o leitor.<br />
(9)<br />
23
24<br />
Minha primeira reação ao me deparar com essas duas páginas no interior<br />
da Superinteressante (dez. 2000) foi uma mistura de encantamento e curiosidade.<br />
Encantamento pela beleza visual do que naquele momento me parecia<br />
a fotografia de uma estante repleta de livros usados (veja que, como leitora<br />
não-especialista em Comunicação, achei que seria uma fotografia! O gênero<br />
textual para mim, à primeira vista, era uma fotografia!). Curiosidade, porque<br />
bem sei que, se “aquilo” fosse uma fotografia, teria um propósito comunicativo<br />
maior ali, pois a fotografia como texto começava e terminava naquelas páginas<br />
duplas. Não estava associada a nenhum outro texto. Então, certamente, não<br />
seria uma mera fotografia. Após essa leitura de mera identificação do visual,<br />
resolvi ler o verbal, ou seja, fui ao início do texto, que se encontra no dorso do<br />
primeiro livro, à esquerda da estante, na primeira prateleira, com a seguinte<br />
indagação: que gênero textual estará emoldurado nessa estante?<br />
A leitura do dorso do primeiro livro me situou em relação ao que seria<br />
aquele texto: uma “estante de conhecimentos” que contém a história da História<br />
das Idéias, como afirma o título. A íntima relação entre os textos visual<br />
e verbal se consagra já no sobretítulo: Biblioteca Básica. As imagens dos<br />
livros aqui se fundem como ilustrações das obras dos pensadores da história<br />
da humanidade e como espaço físico para a escrita do texto do jornalista. A<br />
palavra não é simplesmente posta numa folha de papel, mas sim sob a imagem<br />
de dorsos de livros.<br />
A escrita está centralizada, exigindo uma<br />
leitura de cima para baixo.
O texto verbal está hospedado no dorso dos livros, alinhados diacronimamente<br />
na estante. Assim, proceder à leitura consiste em ler os dorsos. Naquele<br />
momento, deparei-me como outra exigência proveniente da disposição<br />
gráfica do texto: para continuar a leitura precisaria mudar a posição da revista,<br />
porque a posição da escrita não é mais a convencional no mundo ocidental, isto<br />
é, da esquerda para a direita em linhas horizontais.<br />
A escrita está no dorso dos livros, exigindo uma leitura da coluna / estante da direita<br />
para a esquerda.<br />
A leitura desse texto requer uma postura diferente: o leitor deverá lê-lo, a<br />
partir do segundo dorso, de cima para baixo e da coluna / estante da direita para<br />
a coluna / estante da esquerda, como predomina na escrita do mundo oriental.<br />
Posso sistematizar as orientações de leitura desse texto em quatro etapas:<br />
a) Direcionamento da leitura global do texto: horizontalmente, da esquerda<br />
para a direita;<br />
b) Direcionamento da leitura do texto verbal, primeiro dorso: verticalmente,<br />
de cima para baixo;<br />
25
26<br />
c) Direcionamento da leitura do texto verbal, demais dorsos: verticalmente,<br />
de cima para baixo e da esquerda para a direita;<br />
d) Direcionamento da leitura do texto verbal e visual entre as prateleiras:<br />
de cima para baixo e da direita para a esquerda.<br />
Para melhor visualização, vou tomar um fragmento do texto em estudo<br />
nas duas posições: na vertical, posição original, e na horizontal, posição escolhida<br />
para leitura. Interessante verificar que, após inverter a posição da revista, a<br />
leitura dos dorsos, a partir do segundo, enquadra-se na norma-padrão de escrita<br />
nas sociedades ocidentais. A forma de disposição da escrita se altera, mas o<br />
leitor busca, através do manuseio do suporte do texto, adequar a disposição<br />
gráfica ao seu método original de ler.<br />
Interessante também observar como se dá a ocupação do espaço<br />
consagrado para indicação de autor e título nos dorsos dos livros, os quais,<br />
numa comparação grosseira, equivaleriam a blocos de parágrafos. No espaço<br />
do autor, isto é, na parte inferior do dorso, estão localizados (i) os grandes<br />
pensadores, ou seja, os próprios autores, como, por exemplo, Platão, e (ii) as<br />
escolas filosóficas, como em PRÉ-SOCRÁTICOS. Já no espaço consagrado ao<br />
título, estão inseridas as informações sobre (i) as contribuições dos grandes<br />
pensadores, quando estes já ocupam visualmente o lugar destinado aos autores,<br />
(ii) as características de determinada escola e a citação dos representantes<br />
das escolas filosóficas, quando estas se encontram no espaço normalmente<br />
destinado aos autores. Merece que se destaque ainda a utilização dos dorsos
em cor preta para separar, diacronicamente, as idéias filosóficas no decorrer<br />
dos séculos, desde VI–IV a.C. até os SÉCULOS XX–XXI.<br />
27
28<br />
Do ponto de vista lingüístico-textual, parece-me interessante observar<br />
como a disposição gráfica interage com a progressão informacional, ou seja,<br />
como se estabelecem as relações entre os segmentos textuais. Há o aproveitamento<br />
do espaço, tradicionalmente destinado à identificação do autor, no dorso<br />
do livro, para situar o início dos enunciados que constituem o texto verbal, responsáveis<br />
pela explicitação da evolução histórica das idéias da humanidade.<br />
O termo ARISTÓTELES funciona, visualmente, como identificação do<br />
autor do livro e, sintaticamente, como sujeito da estrutura lingüística “FOI<br />
DISCÍPULO DE PLATÃO, MAS NÃO CONCORDAVA COM A EXISTÊNCIA DE UM<br />
MUNDO SUPERIOR, VOLTANDO SUA ATENÇÃO PARA A REALIDADE SENSÍVEL<br />
E PARA AS CIÊNCIAS DA NATUREZA”. Há, portanto, uma progressão linear<br />
temática e visual.<br />
Como afirma Lemke (2000:269), multiletramentos e gêneros multimodais<br />
podem ser ensinados, mas é necessário que “professores e alunos estejam<br />
plenamente conscientes da existência de tais aspectos: o que eles são, para<br />
que eles são usados, que recursos empregam, como eles podem ser integrados<br />
um ao outro, como eles são tipicamente formatados, quais seus valores e<br />
limitações”. De forma bastante incisiva, Kress e Van Leeuwen (1996:15) asseveram<br />
que em “termos de letramento visual da nova mídia, a escola produz<br />
iletrados”.<br />
5. Lendo mais sobre o tema<br />
Como os temas abordados neste artigo nem de longe se esgostaram,<br />
vou finalizar com uma sugestão de leituras que possibilitam, a meu ver, a continuação<br />
dessa conversa. Por onde recomeçar a conversa é uma decisão de cada<br />
leitor. Se quiser variar na língua, também é possível.<br />
— BAZERMAN, C. Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez,<br />
2005.<br />
— ______. Gênero, agência e escrita. São Paulo: Cortez, 2006. (a sair em<br />
agosto)<br />
— DIONÍSIO, A. P.; MACHADO, A. R.; BEZERRA M. A. (Orgs.). Gêneros textuais<br />
& ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.<br />
— HANDA, C. Visual rhetoric in a digital world: a critical sourcebook. New York:<br />
Bedford / ST.Martin’s, 2004.<br />
— KARWOSKI, A. M.; GAYDECZKA, B.; BRITO, K. S. (Orgs.). Gêneros textuais<br />
reflexões e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2006.
— KLEIMAN, A. (Org.). Os significados do letramento. Campinas: Mercado de<br />
Letras, 2000.<br />
— KOCH, I. V.; ELIAS, V. M. Ler e compreender. São Paulo: Contexto, 2006.<br />
— KRESS, G.; VAN LEEUWEN, T. Reading images: the grammar of visual design.<br />
New York: Routledge, 1996.<br />
— MARCUSCHI, L. A.; DIONISIO. A. (Orgs.). Fala e escrita. Belo Horizonte: Autêntica.<br />
— MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Orgs.). Gêneros teorias,<br />
métodos, debates. São Paulo: Parábola, 2005.<br />
— MAYER, R. Multimedia learning. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.<br />
— SCHNEUWLY, B.; DOLZ, J. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas:<br />
Mercado de Letras, 2004.<br />
— WYSOCKI, A. The multiple media of texts: how onscreen and paper texts incorporate<br />
words, imagens, and other media. In: BAZERMAN, C.; PRIOR, P. What<br />
writing does and how it does it: an introduction to analyzing texts and textual<br />
practices. New York: Lawrence Erlbaum Associates, 2004.<br />
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e intericonicidade nos “quadrões”, de Maurício de Sousa. UFPE:<br />
Programa de pós-graduação em Letras, 2004. (mimeo)<br />
Recife, julho de 2006.
Introdução<br />
II<br />
Aspectos semânticos e discursivos<br />
no texto jornalístico<br />
Sandra Batista da Costa 1<br />
Neste trabalho, temos por objetivo mostrar que algumas noções semânticas<br />
2 e discursivas podem ser abordadas no ensino fundamental e médio a fim<br />
de que se amplie a prática reflexiva sobre o funcionamento de procedimentos<br />
que atuam na constituição do sentido do texto. A compreensão desses recursos<br />
é essencial, porquanto constituem competências lingüísticas e discursivas<br />
fundamentais para formar sujeitos leitores e autores de textos. Analisaremos<br />
dois recursos semânticos: a pressuposição e o acarretamento, mas também<br />
recorreremos à noção de formação discursiva e memória discursiva para indicar<br />
o efeito de sentido decorrente do processo discursivo.<br />
Desde a década de 70, o enfoque no ensino de língua vem alterando-se<br />
sensivelmente. Observamos, cada vez mais, um afastamento de uma relação<br />
pedagógica mecânica com a língua em direção a um trabalho reflexivo sobre<br />
a linguagem. Essa transformação desencadeou outras: a reelaboração de<br />
propostas curriculares, de materiais didáticos e a atualização permanente dos<br />
educadores. Entre tantas outras mudanças, destacamos a crescente preocupação<br />
com a transposição didática de pressupostos que, embora sejam objeto de<br />
pesquisas acadêmicas, não penetram ainda no ensino fundamental e médio.<br />
1 Doutoranda em Lingüística (UNICAMP), Mestre em Lingüística (UFPR), professora do curso de Letras da PUC-PR.<br />
2 Duas obras de Rodolfo Ilari procuram estender a semântica para a sala de aula: Introdução à semântica: brincando<br />
com a gramática e Introdução ao estudo do léxico: brincando com as palavras. A primeira aborda a construção do<br />
sentido especificamente da sintaxe e a outra enfoca as palavras.<br />
31
32<br />
Para que o professor de língua materna possa efetivar o que se tem denominado<br />
reflexão lingüística, ele precisa assimilar aspectos teóricos bem como saber<br />
aplicá-los. Colocamo-nos aqui diante do desafio de fazer que algumas noções<br />
semânticas e discursivas sejam objeto de reflexão, assim como transpostas,<br />
após algumas adequações, para a sala de aula.<br />
Os recursos semânticos<br />
A atualização do sentido de alguns enunciados decorre geralmente de<br />
elementos que estão implícitos nos textos, ou seja, informações que, embora<br />
não tenham sido enunciadas explicitamente, podem ser inferidas pelo leitor<br />
por meio de um raciocínio que parte da própria sentença. A pressuposição<br />
e o acarretamento são recursos semânticos que caracterizam esse trabalho<br />
lingüístico.<br />
Para constituir o sentido dos enunciados, o leitor recorre intuitivamente<br />
aos conteúdos implícitos, embora não tenha, muitas vezes, a consciência dos<br />
recursos lingüísticos que acessa. O papel do professor é fazer que o aluno<br />
perceba esses recursos e compreenda o funcionamento à constituição do sentido.<br />
Frege, filósofo alemão que viveu no final do século XIX, observou que<br />
há um tipo de conteúdo que se pressupõe de certas sentenças 3 , ainda que elas<br />
sejam negadas, colocadas em forma interrogativa ou mesmo na forma condicional.<br />
Se um promotor, por exemplo, encarregado de provar que um réu é culpado,<br />
indaga-lhe:<br />
(1) — Você parou de vender cocaína? 4<br />
O advogado de defesa pode alegar que a pergunta está induzindo o<br />
cliente a assumir uma culpa, pois, caso o réu responda “sim” ou “não”, compromete-se,<br />
isto é, há a pressuposição de que ele vendia cocaína. A sentença<br />
(1) pressupõe:<br />
(2) Você vendia cocaína.<br />
Se foi possível pressupor a sentença (2), é porque (1) sugere que o conteúdo<br />
pressuposto em (2) seja verdadeiro. Mesmo que o enunciado seja negado,<br />
o pressuposto não se altera. Vejamos a sentença que segue:<br />
(3) Você não parou de vender cocaína.<br />
Ainda que a sentença (1) passe para a forma negativa, o pressuposto<br />
(2) permanece. Por conseguinte, uma informação é pressuposta quando ela se<br />
mantém, mesmo que neguemos a sentença que a veicula.<br />
3 Algumas sentenças apresentam recursos que desencadeiam a pressuposição, por exemplo, verbos de mudança de<br />
estado: deixar, começar, parar; verbos implicativos: conseguir, esquecer. Para maiores informações consultar MOU-<br />
RA, Heronides; MELO, Maurílio de. Significação e contexto: uma introdução a questões de semântica e pragmática.<br />
Florianópolis: Insular, 1999; CANÇADO, Márcia. Manual de semântica: noções básicas e exercícios. Belo Horizonte:<br />
UFMG, 2005.<br />
4 Exemplo tirado de OLIVEIRA, Roberta Pires de. Semântica formal: uma breve introdução. Campinas, SP: Mercado<br />
de Letras, 2001, p. 84.
Selecionamos duas notícias para caracterizar os conteúdos pressupostos.<br />
Extinta a pena de morte<br />
Manila — A presidente das Filipinas, Gloria Macapagal Arroyo, assinou ontem<br />
uma lei extinguindo a pena de morte no país. Foi o primeiro ato da presidente após sair do<br />
hospital em que foi internada na quinta-feira com problemas intestinais.<br />
A lei, adotada por unanimidade no início do mês pelo Senado, substitui a pena<br />
de morte pela prisão perpétua. Para a presidente, a mudança “marca o fim de uma era de<br />
justiça vingativa”.<br />
A lei comuta de maneira automática as condenações à morte de cerca de 1.200<br />
presos. Sete execuções aconteceram no país entre 1999 e 2000.<br />
Só faltava a assinatura de Arroyo para as Filipinas se unirem ao grupo de três nações da<br />
região da Ásia — Austrália, Nova Zelândia e Timor Leste — onde não existe a pena capital.<br />
A presidente enfrentou uma forte oposição de setores da sociedade filipina favoráveis<br />
à pena de morte.<br />
Gazeta do povo, 25 de junho de 2006.<br />
Pode-se pressupor da primeira sentença do texto:<br />
a) Uma mulher ocupa a presidência das Filipinas.<br />
b) Nas Filipinas há leis.<br />
c) Umas das funções do presidente é assinar leis.<br />
d) Nas Filipinas havia a pena de morte.<br />
Para checar os pressupostos faremos um dos testes, o da negação:<br />
A presidente das Filipinas, Gloria Macapagal Arroyo, não assinou ontem<br />
uma lei extinguindo a pena de morte no país.<br />
Mesmo que a lei não tivesse sido assinada, infere-se os conteúdos pressupostos<br />
em a, b, c e d.<br />
Vejamos a segunda notícia:<br />
Imposto<br />
R$ 1 mil<br />
é o novo valor que o PCC cobra de pedágio dos criminosos em liberdade que roubam e<br />
traficam drogas no estado de São Paulo. O dinheiro é usado para manter mordomias dos<br />
líderes da facção.<br />
6<br />
bandidos foram mortos porque não quitaram a mensalidade com o grupo.<br />
Gazeta do Povo, 9 de julho de 2006.<br />
É possível pressupor a partir do conteúdo posto que:<br />
a) o PCC exige que criminosos paguem tarifas ao grupo.<br />
b) o valor da tarifa é atualizado.<br />
c) os líderes da facção desfrutam de mordomias.<br />
33
34<br />
d) há criminosos que não pagam suas dívidas.<br />
e) alguns bandidos foram mortos.<br />
f) as taxas devem ser pagas mensalmente.<br />
Para checar os pressupostos, recorreremos, mais uma vez, ao teste da<br />
negação:<br />
R$ 1 mil não é o novo valor que o PCC cobra de pedágio dos criminosos<br />
em liberdade que roubam e traficam drogas no estado de São Paulo.<br />
O dinheiro não é usado para manter mordomias dos líderes da facção.<br />
Seis bandidos não foram mortos porque não quitaram a mensalidade<br />
com o grupo.<br />
Ainda que as sentenças destacadas acima sejam negadas, os pressupostos<br />
a, b, c, d, e devem ser conservados.<br />
Um outro procedimento de inferência é o acarretamento. Esse recurso<br />
semântico decorre de uma relação entre sentenças. Toda vez que a verdade de<br />
uma sentença (a) implica a verdade da sentença (b) ocorre acarretamento 5 .<br />
Se dissermos que:<br />
(4) A Itália ganhou a Copa.<br />
Podemos concluir que:<br />
(5) A Itália participou da Copa.<br />
Mas algo diferente se processa nos exemplos a seguir:<br />
(6) Hoje o sol está brilhando 6 .<br />
Não acarreta:<br />
(7) Hoje está quente.<br />
Ter sol não é condição para estar quente.<br />
Recorremos à chamada a seguir para analisar casos de acarretamento.<br />
Brasileiro volta à Terra<br />
A nave Soyuz TMA-7 com o astronauta Marcos César Pontes, primeiro brasileiro<br />
a ir ao espaço, pousou ontem, às 20h48, perto de Akralyk, no Cazaquistão. A nave russa foi<br />
desacoplada da Estação Espacial Internacional às 17h28. Pontes ficou dez dias em órbita.<br />
A missão custou ao Brasil US$10 milhões. Pontes retornou com o russo Valery<br />
Tocarev e o norte-americano William McArthur, que estavam há seis meses no espaço.<br />
Eles foram levados a Moscou, onde ficarão sob cuidados médicos. Pontes deve se recuperar<br />
em oito dias.<br />
Folha de São Paulo, 9 de abril de 2006.<br />
5 Procuramos sintetizar a noção de acarretamento. Para maiores detalhes ler CANÇADO, Márcia. Manual de semântica:<br />
noções básicas e exercícios. Belo Horizonte: UFMG, 2005 e CHIERCHIA, Gennaro. Semântica. Campinas, SP:<br />
UNICAMP; Londrina, PR: EDUEL, 2003.<br />
6 Esse exemplo foi retirado de Cançado (2005).
A partir do texto, são possíveis os seguintes acarretamentos:<br />
a) Um brasileiro foi para o espaço.<br />
b) Antes de Marcos Pontes, nenhum brasileiro tinha ido ao espaço.<br />
c) A nave pousou na Ásia.<br />
d) Pontes ficou 10 dias distante do planeta Terra.<br />
e) O Brasil pagou pela viagem de Marcos Pontes.<br />
f) Valery Tocarev e William McArthur ficaram seis meses longe da Terra.<br />
g) Pontes volta à Terra em companhia de um russo e de um americano.<br />
Mas há inferências que não são possíveis:<br />
a) A nave brasileira levou Marcos Pontes para o espaço.<br />
b) A nave pousou na Rússia.<br />
c) O Brasil pagou à Rússia US$ 10 milhões.<br />
d) O Brasil tem deixado de investir em Educação para gastar com viagens<br />
ao espaço.<br />
e) Pontes foi para o espaço em companhia de Valery Tocarev e William<br />
McArthur.<br />
A leitura é uma atividade que requer um trabalho de reflexão acerca de<br />
procedimentos de constituição do sentido. Saber ler é apropriar-se de recursos<br />
que compõem a nossa competência textual. O leitor proficiente deve, pois, ser<br />
capaz de efetuar uma série de operações, entre elas perceber, por meio da<br />
inferência, informações implícitas.<br />
O trabalho com a leitura envolve o ensino de várias habilidades lingüísticas.<br />
KLEIMAN (2004) cita algumas dessas capacidades: “apreender o tema e a<br />
estrutura global do texto, para inferir o tom, a intenção e atitude do autor, para<br />
reconstruir relações lógicas e temporais, bem como para realizar atividades de<br />
apropriação da voz do autor, resumindo, recontando, respondendo perguntas<br />
sobre o texto”.<br />
Destacamos nesse trabalho a capacidade específica de inferir. O ensino<br />
dessa habilidade deve desenvolver no aluno a capacidade para usar seu conhecimento<br />
de regras gramaticais implícitas, ou seja, procedimentos sintáticos<br />
e semânticos inerentes ao funcionamento da língua, esses recursos não têm<br />
a ver com as regras normativas. Quem tem competências à constituição do<br />
sentido do texto deve ser um bom leitor ou, talvez, seja um bom leitor por ter<br />
esse conjunto de habilidades.<br />
A seguir, apresentaremos alguns elementos que indicam o efeito de sentido.<br />
Ao apontar esse efeito, não vamos descrever o significado, mas indicar os<br />
sentidos possíveis.<br />
35
36<br />
Os elementos discursivos<br />
Analisaremos o deslocamento de sentido que decorre no processo contra-argumentativo.<br />
Para tanto, recorreremos a dois conceitos que são considerados<br />
pela Análise do Discurso (AD) como constitutivos do sentido: a formação<br />
discursiva e a memória discursiva.<br />
Tomaremos como objeto de análise dois artigos publicados na Folha de<br />
São Paulo no mês de março deste ano: “Carta ao MST”, elaborada pelo senador<br />
Eduardo Suplicy, e a resposta de Plínio Arruda Sampaio na “Carta aberta<br />
ao senador Eduardo Suplicy”.<br />
Buscaremos expor por meio da análise que a reformulação do discurso<br />
do outro demarca a fronteira entre formações discursivas (FDs). Em outras<br />
palavras, tanto Suplicy quanto Sampaio, no processo argumentativo, deixam<br />
marcas do espaço ideológico de onde enunciam.<br />
Na segunda semana de março deste ano, algumas militantes do Movimento<br />
de Mulheres Camponesas e da Via Campesina destruíram mudas de<br />
eucalipto e instalações do laboratório do centro de pesquisa da Aracruz Celulose<br />
no Rio Grande do Sul. O protesto foi uma resposta à destruição da aldeia<br />
indígena dos guaranis, no Espírito Santo, pelos tratores da Aracruz; e também<br />
um manifesto contra o agronegócio que prejudica a biodiversidade.<br />
O fato teve uma grande repercussão na imprensa. O senador Eduardo<br />
Suplicy posicionou-se sobre o acontecimento em carta publicado no jornal Folha<br />
de São Paulo. Na semana seguinte, o ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio<br />
assume uma atitude responsiva e elabora uma réplica à carta do senador.<br />
O acontecimento discursivo relatado produziu “dizeres” cujo sentido se<br />
constitui por condições históricas de produção e também pela compreensão<br />
das posições ideológicas com as quais os enunciadores se identificam, bem<br />
como a relação que estabelecem com outros discursos.<br />
Para PECHÊUX e FUCHS (1975), a produção do sentido se dá quando o<br />
enunciado é concebido dentro de uma FD, definida pelos autores como “o que<br />
pode e deve ser dito a partir de uma posição dada”. Um mesmo enunciado pode<br />
produzir diferentes efeitos de sentido de acordo com a FD em que é concebido.<br />
Com efeito, uma formulação discursiva pode sempre se tornar outra se for inserida<br />
em outro texto, ou seja, em outra FD.<br />
O espaço aberto à réplica, seja a carta do senador ou do ex-deputado<br />
federal, promove o aparecimento do interdiscurso, uma vez que se incorporam<br />
dizeres de outras FDs a fim de redefini-los, negá-los, mas também permite<br />
retomar elementos próprios à FD com o intuito de organizá-los, provocar o<br />
desaparecimento, o esquecimento, assim como a denegação.<br />
A noção de memória discursiva diz respeito à ocorrência histórica de<br />
enunciados regulados por aparelhos ideológicos. A existência de uma memória<br />
discursiva remete à reformulação, à retomada de discursos. Embora essas formulações<br />
já tenham sido ditas, ainda estão por se repetir.
Todo o trabalho de negociação do dizer é regulado por elementos ideológicos.<br />
Por conseguinte, a memória discursiva permite, de acordo com a conjuntura,<br />
a retomada, a repetição, a refutação e o apagamento de elementos<br />
discursivos.<br />
Mostraremos que Suplicy retoma pressupostos dos pacifistas Martin<br />
Luther King e Mahatma Gandhi para estabelecer relações com ações do MST.<br />
Quer com essa estratégia argumentativa defender que as lutas pacifistas são<br />
mais adequadas e contam com apoio da população. Selecionamos primeiramente<br />
alguns trechos da “Carta ao MST”, elaborada por Suplicy, para mostrar<br />
como o senador caracteriza a forma de ação do MST.<br />
(1) Acredito que o MST consegue obter mais apoio do povo brasileiro para sua<br />
causa sempre que utiliza meios pacíficos, não-violentos, e de respeito aos<br />
seres humanos e ao que tiver sido construído honestamente por outros.<br />
(2) O MST tem sido muitas vezes criativo. Assim, granjeou forte apoio do<br />
povo para a justa causa da reforma agrária quando, por exemplo, organizou<br />
as marchas para Brasília em memória das vítimas do massacre de Eldorado do<br />
Carajás ou em memória da irmã Dorothy Stang, morta no ano passado pelos<br />
interesses do latifúndio.<br />
Forma de ação do MST<br />
Pacífica<br />
Não-violenta<br />
Respeitosa<br />
Criativa<br />
Seguem trechos que caracterizam a forma de ação dos pacifistas Luther<br />
King e Gandhi:<br />
(3) Foi então que Martin Luther King Jr. conclamou seus compatriotas a seguir os<br />
exemplos históricos de Mahatma Gandhi e outros, que realizaram movimentos<br />
assertivos não-violentos para alcançar objetivos importantes e difíceis, como<br />
o da independência da Índia, em 1947.<br />
(4) Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo do cálice da amargura<br />
e do ódio. Precisamos sempre conduzir nossa luta no plano alto da dignidade e<br />
da disciplina. Nós não podemos deixar nosso protesto criativo degenerar<br />
em violência física.<br />
Forma de ação de Martin Luther King e<br />
Mahatma Gandhi<br />
Movimentos assertivos<br />
Não-violentos<br />
Criativos<br />
37
38<br />
O pronunciamento pacifista de Luther King é trazido, na forma do discurso<br />
citado, para o interior da FD onde o MST é inserido, o que significa dizer que<br />
há elementos pré-construídos, produzidos em um exterior, que são trazidos<br />
para o interior de uma FD. Promove-se, pois, um deslocamento de fronteiras da<br />
FD, porquanto se aproxima o movimento pacifista de Luther King e de Gandhi<br />
do MST.<br />
A negação é um outro recurso utilizado para demarcar fronteiras discursivas.<br />
Ao enunciar que o “... o MST [...] utiliza meios pacíficos, não-violentos...”,<br />
o enunciador leva o interlocutor a pressupor que deve haver ações violentas. Por<br />
meio da denegação, mostra-se a identificação do sujeito enunciador com uma<br />
FD, ou seja, rejeita-se a violência, demarcando o espaço da não-violência.<br />
Na constituição do processo enunciativo, os sujeitos selecionam elementos<br />
que lhes são autorizados. Por outro lado, há elementos que são rejeitados,<br />
ocultados pelo sujeito.<br />
PÊCHEUX e FUCHS (1975) denominam o efeito da ocultação de esquecimento<br />
n o 2. Esse é um processo de enunciação cujo funcionamento é da ordem<br />
do pré-consciente e do consciente, o sujeito indica o que quer dizer. “Constatase,<br />
com efeito, que o sujeito pode penetrar conscientemente na zona do n o 2 e<br />
que ele o faz em realidade constantemente por um retorno de seu discurso sobre<br />
si, uma antecipação de seu efeito, e pela consideração da defasagem que aí<br />
introduz o discurso do outro” 7 . Ao dizer que a forma de ação do MST é pacífica,<br />
criativa, respeitosa e não-violenta, o sujeito indica que há algo que não deve ser<br />
dito: a destruição das mudas de eucalipto foi uma ação violenta.<br />
O discurso tem uma memória, é constituído por um trabalho de reformulação<br />
e repetição discursiva. Há elementos que convêm dizer, retomar, contudo<br />
há os que não convêm dizer em virtude de uma dada conjuntura política. O<br />
MST e o PT, partido do senador Eduardo Suplicy, estiveram muitas vezes do<br />
mesmo lado em embates políticos, por conta disso foram considerados por<br />
muitos como única entidade política.<br />
O ex-deputado Plínio Arruda Sampaio apresenta duas objeções à carta<br />
do senador. A primeira está destacada a seguir:<br />
(5) A primeira é a invocação das ações de Gandhi e Martin Luther King Jr. como<br />
exemplos de ações não violentas que o MST deveria seguir. No entanto, a ação<br />
das mulheres do MST, na Aracruz, se enquadra perfeitamente na tradi-<br />
ção das lutas desses dois mártires dos oprimidos. O que elas praticaram<br />
foi um ato de desobediência civil — ação que desafia a lei, a medida ou a<br />
omissão injustas sem incitar agressão a pessoas.<br />
7 PÊCHEUX, M.; FUCHS. A propósito da análise automática do discurso, atualização e perspectivas (1975). In: GA-<br />
DET, Françoise; HAK, T. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Pêcheux. Campinas, SP:<br />
UNICAMP, 1990, p.177.
Seguem argumentos que justificam a objeção apresentada pelo ex-deputado:<br />
(6) Em seus respectivos contextos, os atos de desobediência civil coman-<br />
dados por esses dois grandes líderes foram considerados inaceitáveis e<br />
escandalizaram as pessoas sérias, honestas, cumpridoras das leis.<br />
(7) A não-violência de Gandhi e Luther King não diz respeito às coisas,<br />
mas, sim, às pessoas. Repare bem no próprio texto transcrito na sua carta<br />
aberta: Luther King diz que o protesto “não pode degenerar em violência física”.<br />
Não há menção a causar prejuízos ao capital.<br />
(8) Violência física não houve no ato das mulheres. Houve a destruição de<br />
mudas destinadas a implantar a monocultura florestal no Rio Grande do<br />
Sul. Sem falar nos danos que esse tipo de agricultura causa ao meio ambiente, é<br />
preciso que todos saibam que se trata de uma forma de agricultura extremamen-<br />
te nociva à pequena agricultura.<br />
Forma de ação de Martin Luther King,<br />
Mahatma Gandhi e das Mulheres do MST<br />
Lutas dos mártires oprimidos<br />
Ato de desobediência civil<br />
↓<br />
Escandaliza<br />
Não há violência contra pessoas<br />
Sampaio compatibiliza as ações do Luther King e Gandhi com as das Mulheres<br />
do MST, mas faz isso para mostrar que são atos de desobediência civil. Observamos<br />
o processo de deslocamento de sentido, porquanto as ações não-violentas<br />
deixam de ser somente um ato pacifista e passam a ser um ato político.<br />
Sampaio apresenta um segundo contra-argumento com relação ao texto<br />
de Suplicy:<br />
(9) Minha segunda objeção a sua carta aberta se refere à falta de uma ou-<br />
tra carta aberta: aquela que teria de ser enviada à Aracruz, reclamando da<br />
destruição da aldeia indígena dos guaranis no estado do Espírito Santo<br />
e falando sobre a ameaça que representa atualmente a monocultura da celulose<br />
para os pequenos agricultores.<br />
(10) Essa forma de violência, sim, se volta contra a existência física das<br />
pessoas, na medida em que destrói o ambiente em que essas pequenas<br />
unidades familiares podem sobreviver. No entanto, isso se faz daquela forma<br />
disfarçada, asséptica, que o capitalismo usa para dar uma aparência de racionali-<br />
dade à destruição dos grupos humanos que perturbam o “progresso” — o outro<br />
nome da sua fome insaciável de lucro e de acumulação de capital.<br />
39
40<br />
A partir da carta de Plínio, tecemos um contraponto entre a ação praticada<br />
pela Aracruz e a pelas militantes.<br />
Destruição da aldeia Destruição das mudas<br />
Violência Desobediência civil<br />
Forma disfarçada Desafia a lei<br />
Agride pessoas Não agride pessoas<br />
Destrói o meio ambiente Escandaliza<br />
Busca o lucro, o progresso Causa prejuízo ao capitalismo<br />
Ao retomar o discurso do senador, o ex-deputado desloca o sentido da<br />
ação violenta. Aproxima os atos de Luther King e Gandhi das ações das mulheres<br />
do MST. A luta de ambos é denominada “desobediência civil”, pois desafiam<br />
as leis, mas não agridem pessoas. Já a destruição da aldeia dos guaranis é compreendida<br />
como atitude violenta, atinge pessoas. A violência praticada contra os<br />
índios é legitimada pelo capitalismo em nome do progresso, enquanto a desobediência<br />
civil não é legitimada pelo poder do capital, pois inibe o progresso.<br />
Para analisarmos o deslocamento de sentido, que parte do discurso da<br />
violência à desobediência civil, foi necessário percorrer uma rede de formulações<br />
discursivas. Buscamos caracterizar a retomada do discurso pacifista,<br />
como um discurso pré-construído, a fim de demarcar o espaço da FD do MST<br />
feita pelo senador Suplicy. Vimos que, embora Plínio Arruda Sampaio invoque,<br />
também, as ações de Luther King e Mahatma Gandhi, elas são trazidas para<br />
que se reconfigure a fronteira da FD do MST, isto é, esse não é um movimento<br />
pacífico, mas sim político. A ressignificação da violência é vista do prisma da desobediência<br />
civil, por conseguinte se reconfigura o acontecimento discursivo.<br />
Para os autores das cartas, o episódio da destruição das mudas caracteriza<br />
acontecimentos diferentes, pois desencadeiam efeitos de sentidos distintos.<br />
Conclusão<br />
Procuramos no decorrer desse trabalho transpor alguns conceitos que<br />
circulam no universo acadêmico para o âmbito do ensino fundamental e médio<br />
a fim de estabelecer uma ponte entre ensino e pesquisa.<br />
Supomos que algumas noções semânticas e discursivas sirvam de ferramentas<br />
interessantes à leitura de textos, porquanto contam com elementoschave,<br />
que podem abrir o texto, isto é, indicam as possibilidades de constituição<br />
do sentido.<br />
A pressuposição e o acarretamento levam aos implícitos, o que está nas<br />
entrelinhas do texto. Já as noções de formação discursiva e a memória discursiva<br />
podem indicar o que está além das linhas do texto, pois um discurso não<br />
está inserido num só texto, seu sentido está disperso por muitos textos.
Como o discurso não trabalha a transmissão de informação, não definimos<br />
o sentido com precisão. Consideramos que ele se constitui no jogo<br />
discursivo, no embate entre os efeitos de sentido que emanam dos processos<br />
discursivos.<br />
Referências<br />
CANÇADO, M. Manual de semântica: noções básicas e exercícios. Belo Horizonte:<br />
UFMG, 2005.<br />
CHIERCHIA, G. Semântica. Campinas, SP: UNICAMP; Londrina, PR: EDUEL,<br />
2003.<br />
GADET, F.; HAK, T. Por uma análise automática do discurso: uma introdução<br />
à obra de Pêcheux. Campinas, SP: UNICAMP, 1990.<br />
ILARI, R. Introdução à semântica: brincando com a gramática. São Paulo:<br />
Contexto, 2001.<br />
______. Introdução ao estudo do léxico: brincando com as palavras. São<br />
Paulo: Contexto, 2002.<br />
MOURA, H.; MELO, M. Significação e contexto: uma introdução a questões<br />
de semântica e pragmática. Florianópolis: Insular, 1999.<br />
OLIVEIRA, R. P. de. Semântica formal: uma breve introdução. Campinas, SP:<br />
Mercado de Letras, 2001.<br />
SAMPAIO, P. de A. Carta aberta ao senador Eduardo Suplicy. Folha de São<br />
Paulo, São Paulo, 24 mar. 2006.<br />
SUPLICY, E. M. Carta ao MST. Folha de São Paulo, São Paulo, 17 mar. 2006.<br />
41
42<br />
Anexos<br />
TENDÊNCIAS / DEBATES<br />
Carta ao MST<br />
EDUARDO MATARAZZO SUPLICY<br />
Meu caro João Pedro Stédile, da Coordenação Nacional do MST (Movimento<br />
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra):<br />
Com o sentimento de quem tem sido solidário ao MST desde a sua<br />
fundação, como amigo da causa da reforma agrária e da realização de<br />
maior justiça em nosso país, gostaria de externar minha sincera opinião<br />
sobre os últimos acontecimentos em Porto Alegre (RS). Acredito que o MST<br />
consegue obter muito mais apoio do povo brasileiro para sua causa sempre<br />
que utiliza meios pacíficos, não-violentos, e de respeito aos seres humanos<br />
e ao que tiver sido construído honestamente por outros.<br />
Acredito que o MST obtém muito mais apoio do povo brasileiro<br />
para sua causa sempre que utiliza meios pacíficos, não-violentos,<br />
Falo isso por causa do episódio ocorrido na semana passada, quando<br />
as companheiras do Movimento de Mulheres Camponesas e da Via Campesina<br />
destruíram as mudas de eucaliptos e as instalações do laboratório da<br />
Aracruz Celulose, no Rio Grande do Sul.<br />
Bem sei que elas desejavam protestar contra um modelo de agronegócio<br />
que o MST tem criticado, uma vez que florestas homogêneas de<br />
eucaliptos para a produção de celulose podem prejudicar a biodiversidade.<br />
Também sei que essa atitude foi uma reação à destruição da aldeia indígena<br />
dos guaranis por tratores da Aracruz no Espírito Santo, ou seja, agiram<br />
em solidariedade aos índios guaranis.<br />
Reitero, entretanto, a recomendação que fiz quando, convidado pelo<br />
MST, em 10 de julho de 1999, administrei uma aula na Unicamp (Universidade<br />
Estadual de Campinas) para mais de mil jovens — de quase todos os Estados<br />
brasileiros — pertencentes ao movimento.<br />
Dei de presente àqueles jovens a tradução que eu mesmo fiz de uma<br />
das mais belas orações da história da humanidade: “Eu tenho um sonho”, de<br />
Martin Luther King Jr., feita em 28 de agosto de 1963, em Washington, no dia<br />
em que foram comemorados os cem anos da abolição da escravidão nos EUA.<br />
Naquela época, Luther King Jr. se preocupava com a necessidade premente<br />
da aprovação da Lei dos Direitos Civis e da Lei dos Direitos Iguais de<br />
Votação. Em muitos Estados do Sul dos EUA, não era permitido aos negros<br />
freqüentar os mesmos hotéis, restaurantes, escolas e banheiros ou usar os
mesmos ônibus e calçadas que os brancos. Os negros nem sequer eram<br />
considerados cidadãos americanos, pois, em diversos Estados, não tinham<br />
o direito de votar, o que gerou movimentos de revolta, quebra-quebras e<br />
incêndios em inúmeras cidades.<br />
Foi então que Martin Luther King Jr. conclamou seus compatriotas<br />
a seguirem os exemplos históricos de Mahatma Gandhi e outros, que realizaram<br />
movimentos assertivos não-violentos para alcançar objetivos importantes<br />
e difíceis, como o da independência da Índia, em 1947. Naquele<br />
dia, perante mais de 200 mil pessoas, disse Martin Luther King Jr.: “Esse<br />
não é o tempo de nos darmos ao luxo de nos acalmarmos ou de tomar a<br />
droga tranqüilizadora do gradualismo. Agora é a hora de tornar reais as<br />
promessas da democracia (...) agora é o momento de fazer da justiça uma<br />
realidade para todas as crianças de Deus. Seria fatal para a nação não perceber<br />
a urgência do momento”.<br />
E, adiante, disse: “Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo<br />
do cálice da amargura e do ódio. Precisamos sempre conduzir nossa<br />
luta no plano alto da dignidade e da disciplina. Nós não podemos deixar<br />
nosso protesto criativo degenerar em violência física. Todas às vezes — e<br />
a cada vez —, precisamos alcançar as alturas majestosas de confrontar a<br />
força física com a força da alma”.<br />
Pouco tempo depois desse discurso, o Congresso norte-americano<br />
aprovou — e o presidente Lyndon Johnson sancionou — as Leis dos Direitos<br />
Civis e dos Direitos Iguais de Votação.<br />
O MST tem sido muitas vezes criativo. Assim, granjeou forte apoio<br />
do povo para a justa causa da reforma agrária — quando, por exemplo,<br />
organizou as marchas para Brasília em memória das vítimas do massacre<br />
de Eldorado do Carajás ou em memória da irmã Dorothy Stang, morta no<br />
ano passado pelos interesses do latifúndio.<br />
Para mostrar sua solidariedade aos índios guaranis, tenho a convicção<br />
de que as mulheres da Via Campesina poderiam — e podem ainda — escolher<br />
uma forma pacífica, criativa, utilizando muito mais a força da alma do que a<br />
força física. De outra forma, daremos razão aos que, em pleno século XXI,<br />
preferem utilizar os instrumentos bélicos em vez dos instrumentos civilizatórios<br />
do bom senso e da inteligência.<br />
Eduardo Matarazzo Suplicy, 64, doutor em economia pela Universidade Estadual de Michigan<br />
(EUA), professor da EAESP–FGV, é senador da República pelo PT–SP. É autor do livro<br />
“Renda de Cidadania — A Saída é pela Porta” (Cortez Editora e Fundação Perseu Abramo).<br />
FOLHA DE SÃO PAULO, 17 de março de 2006.<br />
43
44<br />
Carta aberta ao senador Eduardo Suplicy<br />
PLÍNIO DE ARRUDA SAMPAIO<br />
Meu caro Eduardo Suplicy: Temos uma longa amizade e um longo<br />
companheirismo político. Não me esqueço — e aproveito para agradecer<br />
publicamente — do corajoso apoio que você deu a minha candidatura a<br />
presidente do PT, numa hora em que isso iria lhe custar — como está custando<br />
agora — dificuldades com a oligarquia dirigente do partido.<br />
A desobediência civil é gesto extremo para despertar uma sociedade anestesiada,<br />
incapaz de ouvir os clamores do povo<br />
Por isso mesmo sei que você receberá estas palavras como uma<br />
contribuição sincera de um velho companheiro.<br />
Levanto duas objeções à carta aberta que você enviou ao MST (Movimento<br />
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), publicada neste mesmo espaço<br />
na última sexta-feira, a propósito da destruição de mudas de espécies<br />
florestais em um centro de pesquisas da Aracruz, no Rio Grande do Sul. A<br />
primeira é a invocação das ações de Gandhi e Martin Luther King Jr. como<br />
exemplos de ações não-violentas que o MST deveria seguir. No entanto, a<br />
ação das mulheres do MST, na Aracruz, se enquadra perfeitamente na tradição<br />
das lutas desses dois mártires dos oprimidos. O que elas praticaram<br />
foi um ato de desobediência civil — uma ação que desafia a lei, a medida<br />
ou a omissão injustas sem incitar agressão a pessoas.<br />
Em seus respectivos contextos, os atos de desobediência civil comandados<br />
por esses dois grandes líderes foram considerados inaceitáveis<br />
e escandalizaram as pessoas sérias, honestas, cumpridoras das leis. Ora,<br />
o objetivo das ações de desobediência civil é precisamente este: desassossegar<br />
consciências tranqüilas, como um meio de fazê-las ver a responsabilidade<br />
que têm na manutenção de situações inaceitáveis, porém admitidas<br />
como normais e corretas. Trata-se de um gesto extremo para despertar sociedades<br />
anestesiadas, incapazes de ouvir os clamores do povo. Vejamos,<br />
por exemplo, em que deu a marcha pacífica que os sem-terra realizaram<br />
em Brasília, no ano passado, a fim de pedir, de forma respeitosa e ordeira,<br />
a reforma agrária. Que resposta obtiveram do governo? Que solidariedade<br />
receberam da sociedade? Que noticiário deram os jornais?<br />
A não-violência de Gandhi e Luther King não diz respeito às coisas,<br />
mas, sim, às pessoas. Repare bem no próprio texto transcrito na sua carta<br />
aberta: Luther King diz que o protesto “não pode degenerar em violência física”.<br />
Não há menção a causar prejuízos ao capital. Por acaso, o boicote do sal<br />
e do tecido inglês na Índia, o dos ônibus segregacionista no Sul dos Estados
Unidos e tantos outros movimentos de desobediência civil em todo o mundo<br />
deixaram de causar enormes prejuízos materiais aos capitalistas?<br />
Violência física não houve no ato das mulheres. Houve a destruição<br />
de mudas destinadas a implantar a monocultura florestal no Rio Grande<br />
do Sul. Sem falar nos danos que esse tipo de agricultura causa ao meio<br />
ambiente, é preciso que todos saibam que se trata de uma forma de agricultura<br />
extremamente nociva à pequena agricultura. Poucos sabiam disso.<br />
Agora, com a cobertura que a imprensa deu ao episódio, todos ficaram sabendo.<br />
Nisso consiste a desobediência civil. É selvagem porque a realidade<br />
é selvagem. Minha segunda objeção a sua carta aberta se refere à falta de<br />
uma outra carta aberta: aquela que teria de ser enviada à Aracruz, reclamando<br />
da destruição da aldeia indígena dos guaranis no Estado do Espírito<br />
Santo e falando sobre a ameaça que representa atualmente a monocultura<br />
da celulose para os pequenos agricultores.<br />
Essa forma de violência, sim, se volta contra a existência física das<br />
pessoas, na medida em que destrói o ambiente em que essas pequenas<br />
unidades familiares podem sobreviver. No entanto, isso se faz daquela forma<br />
disfarçada, asséptica, que o capitalismo usa para dar uma aparência<br />
de racionalidade à destruição dos grupos humanos que perturbam o “progresso”<br />
o outro nome da sua fome insaciável de lucro e de acumulação de<br />
capital. Prezado Eduardo, o MST vive uma hora dificílima, porque o governo<br />
depositário de suas esperanças não tem coragem de realizar a reforma<br />
agrária nem de enfrentar as forças políticas que tentam criminalizá-lo,<br />
como estamos vendo com a CPI da Terra.<br />
Sei o quanto você já fez pelo movimento e sei também o apreço e<br />
o respeito que os sem-terra têm por você. Seu artigo, contudo, embora<br />
obviamente contra sua vontade, fornece munição aos adversários. Peço<br />
que o reconsidere e que venha somar conosco na defesa incondicional dos<br />
legítimos interesses dos trabalhadores rurais sem terra.<br />
Por que não enviar uma carta aberta ao governo, a fim de exigir a<br />
publicação dos índices atualizados de produtividade da terra? Isso permitiria<br />
acelerar a reforma. Caso a reforma fosse acelerada — você o sabe<br />
tão bem quanto eu —, as pacíficas e extraordinárias mulheres do MST não<br />
seriam compelidas — como estão sendo — a realizar gestos extremos a<br />
fim de chamar a atenção da sociedade para o drama que vivem há muito<br />
tempo.<br />
Plínio Arruda Sampaio, 75, advogado, é presidente da Abra (Associação Brasileira de Reforma<br />
Agrária) e diretor do “Correio da Cidadania”. Foi deputado federal pelo PT–SP (1985–91) e<br />
consultor da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação).<br />
FOLHA DE SÃO PAULO, 24 de março de 2006.<br />
45
Reflexibilidade: alternativas de<br />
intervenção na prática pedagógica<br />
Joana Paulin Romanowski 1<br />
Este texto constitui-se em uma contribuição ao debate das possibilidades<br />
da reflexão para a proposição de alternativas para a prática pedagógica.<br />
Focaliza a reflexão como uma das possibilidades de análise dos problemas da<br />
prática e, a partir dessa análise, a construção de possíveis alternativas de intervenção<br />
nessa prática.<br />
Estudos sobre práticas reflexivas realizadas por professores direcionam<br />
a organização deste texto. Desse modo, primeiro se focalizam essas pesquisas,<br />
especialmente as realizadas em nosso meio, tais como as de Martins (1993,<br />
2000); Romanowski, Wachowicz e Martins (2005); Pimenta (2005); Souza<br />
(2005). O exame das pesquisas realizadas tem por finalidade verificar quais<br />
são os problemas relevantes da prática, indicados pelos professores, e compreender<br />
os processos reflexivos que norteiam essas pesquisas. Destaca-se que<br />
as pesquisas sobre a prática pedagógica dos professores, iniciadas em 1982<br />
com o movimento Didática em Questão, ampliam-se a partir dos anos de 1990,<br />
pela valorização dos saberes da prática docente. O movimento Didática em<br />
Questão colocou em cheque a perspectiva da racionalidade técnica na prática<br />
e na formação dos professores 2 . Finalizam o texto indicações e delineamentos<br />
1 Doutora em Educação (USP) e professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade<br />
Católica do Paraná e Consultora Pedagógica da Faculdade Internacional de Curitiba.<br />
2 Sobre este movimento consultar Martins (1998).<br />
III<br />
47
48<br />
das possibilidades de desenvolvimento de programa institucional para realização<br />
de reflexão sobre a prática pedagógica, construído coletivamente na direção<br />
de indicativos de alternativas de melhoria dessa prática.<br />
Práticas reflexivas dos professores<br />
A pesquisa realizada por Souza (2005) com professores do Ensino Superior<br />
baseia-se em entrevistas que focalizaram o que os professores realizam<br />
e como refletem sobre sua prática docente. Destaca-se que os professores<br />
dizem refletir sobre sua prática constantemente. Esse processo ocorre antes<br />
das aulas, no sentido de sistematizar, ainda que não sejam registrados, quais<br />
temas serão trabalhados em aula e quais atividades serão propostas para os<br />
alunos. Indicam também a realização da reflexão em aula quando algum fato<br />
não previsto ocorre e exige algum encaminhamento. E fazem reflexão após a<br />
aula, muitas vezes imediatamente ao término da atividade, no caminho para<br />
casa. Relatam os professores que esses exames sobre a ação experienciada<br />
contribuem para buscar novas alternativas para a melhoria dessa prática.<br />
Evidencia-se na pesquisa de Souza (2005) que o foco das preocupações<br />
dos professores diferencia-se ao longo da carreira. Professores iniciantes têm<br />
preocupação mais intensa com os conteúdos a serem ensinados e com as técnicas<br />
de ensino a serem utilizadas durante as aulas; professores mais experientes<br />
intensificam suas reflexões para a aprendizagem dos alunos. Destacase<br />
que tanto os professores iniciantes como os experientes são interessados<br />
em seus alunos e procuram conhecê-los, saber sua escolarização anterior, seus<br />
interesses. No entanto, os professores mais experientes localizam as dificuldades<br />
de aprendizagem dos alunos e procuram fazer algo para minorá-las.<br />
Na pesquisa realizada por Romanowski et al (2005), foram analisadas<br />
monografias desenvolvidas por professores da educação básica para identificar<br />
as preocupações desses professores de Ensino Fundamental. Os problemas<br />
focalizados pelos professores nas monografias voltam-se para dificuldades e<br />
distúrbios de aprendizagem dos alunos; práticas de inclusão de portadores de<br />
necessidades especiais; questões de afetividade, de ludicidade e de disciplina<br />
escolar. A subjetividade do aluno tem sua importância ressaltada pela freqüência<br />
desses temas, que parecem indicar as categorias pelas quais é possível captar<br />
e analisar as representações que os professores de Ensino Fundamental fazem<br />
de seu trabalho profissional.<br />
O estudo monográfico é feito mediante indicação de tema, problema de<br />
pesquisa e objeto de estudo, ou seja, antecede a realização do estudo o projeto<br />
de pesquisa, que é analisado e orientado por professores do referido curso.<br />
Durante o estudo monográfico, também é realizada orientação por professores<br />
do curso. Depois de concluído o estudo, realiza-se defesa junto a uma banca<br />
composta por dois professores do curso. Cabe destacar que a maioria das monografias<br />
constitui-se de pesquisa bibliográfica relacionada ao tema proposto pelo
cursista, que chamaremos professor-aluno. O levantamento dessas temáticas<br />
aponta para preocupações como dificuldades e distúrbios de aprendizagem,<br />
inclusão, ludicidade, metodologias e conteúdos curriculares e disciplina escolar,<br />
em maior número. Em menor número, alfabetização, avaliação, afetividade, interdisciplinaridade,<br />
questões de aprendizagem da leitura, projeto pedagógico,<br />
carreira e profissionalização docente, e estudo sobre a formação do professor.<br />
Destacam-se os pedagogos escolares, que vêm indicando como tema de estudo<br />
a gestão escolar.<br />
Para a sistematização das monografias, evidencia-se que os alunos-professores<br />
tomam como ponto de partida os problemas da prática docente, mas<br />
o estudo é sistematizado a partir do referencial teórico do tema selecionado.<br />
Os autores consultados geralmente são os indicados nas referências dos programas<br />
das disciplinas do curso. Além disso, observa-se consulta às páginas<br />
da internet.<br />
A organização da monografia toma por base a teoria, na perspectiva conceitual,<br />
para dizer o que é o fenômeno observado e escolher o objeto de estudo<br />
monográfico. O texto constitui-se de um arrolado de definições dos diferentes<br />
autores consultados. Nas considerações finais, há indicações do que foi compreendido<br />
e direcionado aos conceitos, como, por exemplo: “Esta monografia<br />
permitiu compreender o que são as dificuldades dos alunos, ampliando nosso<br />
conhecimento sobre o tema”. A inclusão de proposições para intervenção foi<br />
observada em poucos estudos. Quer dizer: os estudos monográficos que se poderiam<br />
constituir em indicativos de alternativas para a prática pedagógica configuram-se<br />
na perspectiva da busca de modelos teóricos sobre os problemas<br />
da prática. Estudos que incluem sugestões de atividades expressam-nas como<br />
desvinculadas da fundamentação desenvolvida no referencial de estudo.<br />
Nas monografias analisadas, percebe-se que a exigência do curso está<br />
em jogo, bem mais do que a possibilidade de intervenção na prática pedagógica<br />
do professor. Denota-se essa preocupação pela fundamentação direcionada<br />
à ênfase no aspecto formal do estudo e não no aprofundamento do questionamento<br />
das problemáticas da prática, anunciadas na introdução.<br />
As pesquisas de Pimenta (2005) apontam implicações da organização<br />
pedagógico-administrativa das escolas na atividade docente. Quer dizer: o<br />
modo como a escola organiza as atividades pedagógicas, as exigências e solicitações<br />
institucionais constituem interferentes no modo como o professor<br />
organiza sua prática de ensino. Além disso, os conhecimentos disponibilizados<br />
na sociedade contemporânea somam-se nos processos de organização da prática<br />
docente.<br />
Os estudos de Pimenta indicam que os professores não têm o hábito de<br />
registrar sistematicamente acontecimentos vivenciados durante suas aulas.<br />
Nenhum dos participantes havia realizado gravação ou filmagem de suas aulas<br />
49
50<br />
antes de participar da pesquisa. Segundo a autora, os professores, ao participarem<br />
de programas de pesquisa-ação, passam a realizar esse registro. A<br />
inserção nesses programas provoca o desenvolvimento da reflexão para compreender<br />
os “porquês” de atitudes e decisões realizadas em aula. Ao realizar a<br />
reflexão sobre a prática, a sala de aula transforma-se num espaço investigativo,<br />
favorecendo a análise crítica e permitindo tomar consciência das ações e suas<br />
implicações, bem como constituir o saber docente. Ao realizar a pesquisa-ação,<br />
o professor estabelece um método de registro e análise de suas aulas, percebendo<br />
limites e avanços de sua própria prática.<br />
Esse processo, segundo Pimenta (2005), permite ao professor a possibilidade<br />
de compreender sua condição de trabalhador e os limites de seu trabalho,<br />
mas amplia a compreensão do compromisso e da identidade profissional<br />
e de seu significado.<br />
Salienta-se que em pesquisas anteriores Martins (1993) destaca as implicações<br />
da organização pedagógica no processo de ensino e aprendizagem.<br />
Nas palavras da autora, “a escola educa mais pela forma como organiza o processo<br />
de ensino do que pelos conteúdos ideológicos que veicula através desse<br />
processo, isto é, o que se experimenta na prática tem muito mais significado e<br />
é mais duradouro do que o que se ouve no nível de discurso” (MARTINS, 1993,<br />
p. 24).<br />
Na perspectiva crítica, segundo Martins (1993), o processo de reflexão<br />
assume as categorias da dialética como direcionadoras da análise da prática.<br />
O processo está em assumir a teoria como expressão da prática, tomando a<br />
prática como ponto de partida. Importa explicitar as implicações das ações dos<br />
professores no enfrentamento dos problemas do cotidiano frente às contradições<br />
sociais, quer dizer, compreender os determinantes da ação docente. A<br />
prática contextualiza-se historicamente e está em movimento pela permanente<br />
relação estabelecida entre sujeitos, grupos, classes sociais e condições de realização<br />
do trabalho.<br />
Num primeiro momento, procura-se caracterizar e problematizar a prática<br />
pedagógica, em grupos, descrever como ela é e não como deveria ser. A<br />
partir dessa caracterização da prática dos participantes, procura-se descrever<br />
em termos de totalidade. A prática é uma síntese de múltiplas determinações.<br />
O segundo é o momento da análise. Consiste no debate, na discussão e<br />
na procura no referencial teórico de indicativos que contribuam para o processo<br />
de explicitação daquela prática. Os professores, eles mesmos, coletivamente,<br />
procuram compreender os determinantes da prática.<br />
No terceiro momento a busca dos determinantes acentua-se. Os professores<br />
constroem a contextualização histórica, social e política e, a partir<br />
dessa explicitação, apontam indicativos para propor alternativas àquela prática.<br />
Nesse processo, a contribuição de um professor-coordenador pode ajudar
na sistematização dos momentos e na indicação de referências, mas ele não<br />
aponta alternativas e explicações. É mediador do processo, propicia condições<br />
para o debate. Trata-se de um processo coletivo de análise crítica da prática,<br />
com vistas à teoria, a partir da explicitação da prática (MARTINS, 1993).<br />
Essas pesquisas indicam que a sistematização programada, contínua e<br />
coletiva, na perspectiva de comprometimento institucional e com a intervenção<br />
de programas de pesquisa do tipo pesquisa-ação, proporciona maior envolvimento<br />
e possibilidade de indicações de alternativas para a melhoria da prática<br />
pedagógica do que os processos individualizados, ainda que esses processos<br />
individualizados resultem em produções teóricas.<br />
Implicações dos processos reflexivos na prática docente<br />
As observações de Souza (2005) e Pimenta (2005) indicam a pouca sistematização<br />
realizada pelos professores nas reflexões espontâneas e individualizadas,<br />
embora constituam um processo que contribui na prática docente.<br />
Sobre esse modo de pensar reflexivo, Dewey (1959, p. 13) refere-se<br />
como “a espécie de pensamento que consiste em examinar mentalmente o<br />
assunto e dar-lhe considerações séria e consecutiva”.<br />
Segundo esse autor, durante todo o dia, mesmo dormindo, pensamos,<br />
mas de modo desordenado. São idéias que nos passam pela cabeça caoticamente,<br />
são imagens e recordações soltas e mesmo idealizações e crenças.<br />
Quando efetivamente realizamos a reflexão, há um encadeamento lógico e<br />
objetivo entre as idéias, em que elevamos à consciência as experiências e<br />
crenças para examiná-las. Uma idéia é encadeada em outra e fazem sentido<br />
entre si, além da busca de explicação dos motivos e bases que lhes originam.<br />
Esse modo de pensar, que advém da observação e percepção de um fato,<br />
constituindo-se em operações, “é problematizado a partir de duas situações:<br />
a primeira é um estado de dúvida, de perplexidade, impondo uma solução; a<br />
segunda é um estado de procura, investigação, que esclareça a perplexidade”<br />
(LIMA, 2000, p. 73).<br />
Segundo Martins (1998), o método de Dewey fundamenta-se em cinco<br />
momentos: a) uma necessidade sentida definida num problema; b) a análise<br />
desse problema; c) a verificação das alternativas de solução; d) a realização<br />
da experimentação para exame do problema; e) a sistematização desses resultados<br />
de modo científico. A experiência vivenciada é o ponto de partida e ao<br />
mesmo tempo a possibilidade de reelaboração. 3<br />
Na realização dos processos reflexivos ocorre o desenvolvimento de<br />
habilidades empíricas, analíticas, estratégicas e avaliativas. As empíricas consistem<br />
na capacidade de diagnosticar e registrar dados, para posterior análise.<br />
Esses dados constituem fatos básicos, experiências, descrições das medidas e<br />
3 Aprofundamento a respeito de implicações críticas a esse processo podem ser consultadas em Lima (2000).<br />
51
52<br />
atitudes empregadas durante as aulas. As habilidades estratégicas implicam<br />
agir de acordo com a situação, pensar durante e sobre a ação. Nesse caso,<br />
o professor, ao verificar que uma atividade proposta aos alunos não está sendo<br />
realizada corretamente, imediatamente precisa realizar os ajustes necessários. As<br />
habilidades analíticas são as direcionadas, com capacidade de relacionar a prática<br />
e a teoria já existente, inferindo explicações possíveis aos meios utilizados com<br />
os fins pretendidos. Trata-se de esforço para examinar e categorizar os dados<br />
levantados para inferir as explicações possíveis e a elaboração da teoria a partir<br />
da prática. As habilidades avaliativas direcionam a elaboração de julgamentos da<br />
importância dos resultados obtidos concomitantes ao processo de análise.<br />
Cabe destacar que os processos reflexivos exigem atitudes e disposição.<br />
Entre as atitudes identificadas por diversos autores estão: mentalidade aberta,<br />
responsabilidade e entusiasmo. Nesse modelo a prática é o eixo central,<br />
o ponto de partida da reflexão. A clássica separação entre teoria e prática é<br />
substituída por uma relação permanente entre elas.<br />
Segundo Libâneo (2002), as formas de reflexão podem ser por:<br />
1. Introspecção, que é interiorizada e realizada por meio de análises<br />
de biografias da vida de professores, em que cada professor reflete<br />
sobre sua história de vida, sua profissão e sua prática. Os diários de<br />
classe podem ser utilizados como material de reflexão.<br />
2. Exame realizado após a ação docente, em que o professor examina<br />
sua ação prática individualmente ou em grupo; cada professor relata<br />
sua prática, seus diários e gravações das aulas para serem discutidos.<br />
3. Indagação, que procura desvendar as situações que não podem<br />
ser inferidas pelo relato das ações. Nesse caso as aulas podem ser<br />
gravadas em vídeo, ou outro professor assiste às aulas e registra as<br />
situações para depois serem analisadas.<br />
4. Processo crítico coletivo de explicitação e proposição de alternativas para<br />
a prática, a partir de uma rigorosa análise de seus determinantes.<br />
Cabe ainda, destacar que as tendências dos processos reflexivos incorporam<br />
a perspectiva crítica, entendendo os professores como intelectuais críticos,<br />
pesquisadores. A crítica inclui a compreensão da educação em seu contexto<br />
amplo e incorpora uma reflexibilidade de cunho político em oposição às posturas neoliberais.<br />
A concepção crítica pressupõe o desenvolvimento de uma reflexão que<br />
realiza o distanciamento da prática para vê-la, entendê-la, avaliá-la, explicitá-la<br />
em seus determinantes sociohistóricos, em oposição à concepção neoliberal, que<br />
se direciona para uma racionalidade instrumental. A perspectiva crítica entende<br />
a atividade como necessidade de sobrevivência, de reação, de resistência. O<br />
professor em sala de aula necessariamente terá uma ação — a consciência sobre<br />
essa ação é que a qualifica para além dela — que permite perceber seu significado,<br />
no conjunto das relações sociais.
Referências<br />
DEWEY, J. Como pensamos: como se relaciona o pensamento reflexivo com o<br />
processo educativo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959.<br />
LIBÂNEO, J. C. Reflexibilidade e formação de professores: outra oscilação do<br />
pensamento pedagógico brasileiro? In: PIMENTA, S. G.; GHEDIN, E. (Orgs.).<br />
Professor reflexivo no Brasil: gênese e crítica de um conceito. São Paulo:<br />
Cortez, 2002.<br />
LIMA, M. A. C. Escola nova, pragmatismo deweyano e formação de professores:<br />
algumas (des)considerações. In: Diálogo educacional. Curitiba: PUC—PR, v. 4.<br />
n. 10, set./dez. 2000.<br />
MARTINS, P. L. O. Didática: um aprendizado crítico dentro da própria prática.<br />
In: Revista Ande, v. 12, n. 19, 1993.<br />
______. A didática e as contradições da prática. Campinas: Papirus,<br />
1998.<br />
PIMENTA, S. G. Pesquisa-ação crítico colaborativa: construindo seu significado<br />
a partir de experiências com a formação docente. In: Educação e pesquisa.<br />
São Paulo: USP, v. 31, n. 3, set./dez. 2005.<br />
ROMANOWSKI, J. P.; WACHOWICZ, L. A.; MARTINS, P. L. O. As preocupações<br />
dos professores do ensino fundamental sobre o seu trabalho. In: Anais<br />
Congresso Internacional Educação e Trabalho. Portugal, Universidade de<br />
Aveiro, 2005.<br />
SOUZA, G. M. R. de; Professor reflexivo no ensino superior: intervenção<br />
na prática pedagógica. 2005. 148 f. Dissertação (Mestrado em Educação). Pontifícia<br />
Universidade Católica do Paraná.<br />
53
Projetos, Currículo e<br />
Aprendizagem na Educação Básica<br />
e Superior 1<br />
Marcos Cordiolli 2<br />
1 Parte deste ensaio foi apresentado no III Seminário Internacional de Educação — 2002, nas edições de São Paulo,<br />
Belo Horizonte e Uberlândia. A versão deste ensaio, publicada anteriormente, foi dedicada a Vivian e Viviane<br />
Barletta e Andréia Bini; e às alunas do terceiro ano de Pedagogia do UnicenP (Curitiba, PR), em 2002. De todas<br />
vale a lembrança e apreço pela forma como interagiram e se dispuseram a buscar, com autonomia, os caminhos do<br />
conhecimento, numa bela demonstração de que uma outra educação é possível.<br />
2 Mestre em Educação (PUC-SP) e graduado em História (UFPR); professor da graduação do curso de Pedagogia<br />
(UniBrasil).<br />
O educando que exercita sua liberdade ficará tão mais livre quanto mais<br />
eticamente vá assumindo a responsabilidade de suas ações. Sua autonomia se<br />
funda na responsabilidade que vai sendo assumida.<br />
Paulo Freire<br />
A cultura é uma noite escura em que dormem as revoluções de há pouco,<br />
invisíveis, encerradas nas práticas, mas pirilampos, e por vezes grandes pássaros<br />
noturnos, atravessam-na, aparecimentos e criações que delineiam a chance de<br />
um outro dia.<br />
IV<br />
Michel de Certeau<br />
55
56<br />
A educação brasileira vive importante fase de busca de caminhos alternativos.<br />
Um sem-número de possibilidades para organização curricular do<br />
trabalho pedagógico é apresentada, debatida e experimentada em situações<br />
distintas, em diversas instituições escolares de todas as partes do Brasil. A<br />
organização do trabalho pedagógico na forma de projetos é uma dessas possibilidades,<br />
mas está entre aquelas mais enfatizadas e admiradas pelos educadores.<br />
Neste ensaio, tentei sistematizar algumas experiências que conheci,<br />
acompanhei e que apresento em forma de teoria — que não pretendo absoluta,<br />
nem tampouco excludente ou contraposta à de outros autores. Espero contribuir<br />
na busca de respostas a necessidades pedagógicas que se apresentam<br />
no cotidiano das instituições escolares.<br />
Inicialmente procurei recuperar, brevemente, a concepção da proposição<br />
de projetos como forma de organização do trabalho pedagógico e apresentar<br />
algumas das principais vertentes da educação brasileira contemporânea. Num<br />
segundo momento me dispus a examinar práticas de projetos que tenho visto<br />
nas instituições escolares. Num terceiro momento busco elementos que seriam<br />
referências para definição de projeto como uma das formas de organização do<br />
trabalho pedagógico. Por último procurei teorizar sobre o impacto dos projetos<br />
na forma de organizar o currículo e os conteúdos nas instituições escolares.<br />
Não pretendo em hipótese alguma constituir tribunal para qualificar projetos<br />
ou determinar aqueles que seriam ou não dignos dessa nomenclatura, mas<br />
considerar elementos que proporcionem práticas de aprendizagem, (a) fundadas<br />
na colaboratividade e compartilhamento; (b) problematizadas a partir das<br />
demandas dos estudantes e suas comunidades; (c) organizadas como trabalho<br />
coletivo que possam superar as fragmentações dos saberes e dos processos<br />
de constituição do conhecimento, seja na forma de disciplinas, de séries ou de<br />
pré-requisitos; e (d) propiciar situações para a formação do caráter em processo<br />
de interação. Esses elementos, acredito, são fundamentais para constituir a<br />
educação na qual os estudantes sejam efetivamente sujeitos, em instituições<br />
escolares que respeitem sua condição de criança, adolescente, jovens e adultos,<br />
permitindo-lhes a realização de experiências humanistas e democráticas<br />
no sentido da constituição da autonomia.<br />
...<br />
Projeto, na tradição pedagógica, revestiu-se do sentido de desenvolvimento<br />
de processos envolvendo várias pessoas, desdobrando-se em diversas<br />
etapas e requerendo momentos de planejamento e avaliação 3 . As teorias da<br />
administração têm desenvolvido metodologias e ferramentas de projetos para<br />
aplicação em gestão empresarial, enquanto instituições escolares empreendem<br />
3 Talvez a melhor definição seja a de Lück (2003) que associa projeto com planejamento-ação, para situações que<br />
demandem “(...) um processo de análise, decisão e planejamento ágil e versátil, que possibilite concentrar e canalizar<br />
esforços, apropriar e disponibilizar recursos adequados, objetivar e clarificar idéias e propósitos, direcionar e<br />
concentrar energia, a partir de uma compreensão clara e objetiva da situação, do seu contexto e do que se pretende,<br />
associada ao processo de tomada de decisão e visão de empreendimento orientador da ação” (p. 10).
esforços para construir projetos educacionais 4 , nos quais consigam expressar<br />
sua identidade pedagógica e orientar a ação coletiva dos diversos agentes envolvidos<br />
no processo escolar. A referência mais corrente ao termo projeto é o da<br />
palavra latina projectu, uma das conjugações do verbo projicere, com o sentido<br />
de atirar-se para frente 5 , reforçando, portanto, a idéia de ação, de desenvolvimento<br />
e de processo.<br />
Os esforços para alterar as formas tradicionais de organização curricular<br />
e do trabalho pedagógico, que tradicionalmente está centrado no professor e<br />
na forma expositiva de conteúdos, fomentaram a idéia de associar projetos<br />
aos processos de ensino e aprendizagem, gestando as práticas pedagógicas<br />
nomeadas genericamente de “projetos de trabalho”, “trabalho por projetos”,<br />
“metodologia de projetos”, “projetos de ensino-aprendizagem” e “pedagogia<br />
de projetos”. Projetos, embora com experiências tão amplas e diversificadas, é<br />
uma das escolhas num campo mais amplo que incluiria, entre outras, os temas<br />
geradores; ações inter, trans e multidisciplinares; práticas contextualizadoras;<br />
construções de núcleos de complexidade; desenvolvimento de competência;<br />
elaboração de mapas conceituais. O trabalho em sala de aula pode ser organizado<br />
por uma dessas formas e pela combinação de duas ou mais delas (Cordiolli,<br />
2002). Portanto vamos tomar, no presente ensaio, projetos como uma<br />
das formas de organização do trabalho pedagógico.<br />
1. Situando a problemática<br />
Os projetos, como forma de organização do trabalho pedagógico, têm<br />
longa trajetória na tradição pedagógica, tendo as primeiras elaborações ocorrido<br />
ainda no final do século XIX e encontrado expressão mais elaborada na<br />
obra do educador John Dewey, na década de 1920. No Brasil, os projetos foram<br />
propostos na década de 1930 por Lourenço Filho 6 e Anísio Teixeira, importantes<br />
interlocutores de Dewey no país.<br />
Apesar de, a cada década, novos autores retomarem os projetos e acrescentarem<br />
novas e importantes contribuições, no Brasil, no entanto, apesar de<br />
importantes e variadas experiências, o debate em torno do tema é precário e,<br />
por vezes, tratado como novidade.<br />
Esse tema foi reintroduzido no debate pedagógico brasileiro na década<br />
de 1990, incluindo-se entre as vertentes principais de modelos de organização<br />
curricular e do trabalho pedagógico que, então, questionavam o modelo diretivista<br />
7 da educação brasileira. Na prática, não se constituiu numa “pedagogia<br />
4 Geralmente denominados de projetos políticos pedagógicos.<br />
5 Almeida afirma que “(...) projeto, quando desenvolvido para além da fase do plano” não seria uma formulação adequada<br />
para o vocábulo em português, mas realizada em função da transposição de project do inglês (Ver: ALMEIDA,<br />
Napoleão Mendes. Dicionário de questões de vernácula. 3 ed. São Paulo: Ática, 1996. p. 443).<br />
6 Ver, em particular, o capítulo sobre projetos em Lourenço Filho (1952).<br />
7 Por modelo diretivista estamos compreendendo a forma de organização curricular e do trabalho pedagógico na<br />
qual a seleção de conteúdos, os procedimentos didáticos e de avaliação são elaborados previamente à realização das<br />
aulas, cabendo ao professor/a conduzir os ritmos, processos e seleção de tema das aulas.<br />
57
58<br />
de projeto”, mas se instituiu como uma das formas de organização do trabalho<br />
pedagógico, sendo incorporado por diferentes concepções pedagógicas — desde<br />
aquelas fundadas num individualismo meritocrático 8 , por construtivismos<br />
vários, passando seguramente por todos aqueles que desejavam que a educação<br />
se deslocasse do foco do ensino para o da aprendizagem e, em particular,<br />
daqueles que desejavam que o educando se colocasse na condição de protagonista<br />
de seu processo de constituição do conhecimento.<br />
No Brasil, algumas vertentes construtivistas e sociointeracionistas, procurando<br />
caminhos para que os educandos assumissem postura mais ativa na<br />
constituição do conhecimento, adotaram, em alguma medida, formas de projetos<br />
que alteravam o ordenamento prévio de conteúdos e respeitavam ritmos<br />
distintos de aprendizagem. A pedagogia freiriana, nesse mesmo período, ampliou<br />
seu espaço na educação escolar, em particular com a implementação de<br />
temas geradores, o que impulsionou diversas experiências com a organização<br />
do trabalho pedagógico na forma de projetos 9 . Também nesse mesmo processo,<br />
diversas administrações populares implementaram as propostas de ciclos<br />
de formação em redes municipais de ensino, num movimento conhecido como<br />
Escola Cidadã, com a redefinição dos marcos pedagógicos da escola pública, e<br />
em diversas dessas administrações também houve a implementação de experiências<br />
pedagógicas orientadas por projetos.<br />
É importante constatar a presença, no Brasil, de importantes experiências<br />
do método denominado Problem Based Learning (PBL), também conhecido<br />
por Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP), principalmente na educação<br />
superior. Nesse método, as propostas curriculares são organizadas a partir de<br />
linha articuladora de módulos temáticos que se desdobram em problemas a<br />
serem examinados, pesquisados e resolvidos pelos alunos em grupos e sob<br />
tutoria dos professores. No PBL/ABP compete ao aluno organizar o seu tempo,<br />
desenvolver métodos próprios de estudo e empreender esforço nas situações<br />
de aprendizagem e de busca de informações.<br />
Por último, ainda é importante constatar que as propostas de utilização<br />
das mídias interativas assim como as práticas de Educação a Distância (EaD)<br />
criaram entrelaçamento de metodologias de aprendizagem colaborativas, geralmente<br />
com a organização do trabalho pedagógico por meio de projetos.<br />
Dentre as referências teóricas, seguramente a principal fonte de consulta<br />
sobre o tema nas escolas de educação básica foi a obra de Fernando Hernandez<br />
que tem a produção teórica inspirada em experiências escolares da Espanha.<br />
8 São denominados de pedagogia ou concepção meritocrática aquelas que acreditam que o sucesso na aprendizagem<br />
depende exclusivamente dos esforços do educando, sendo que a promoção seria resultado de seus méritos.<br />
9 Um importante marco deste processo é a obra “Contribuições da interdisciplinaridade para a ciência, a escola e o<br />
movimento sindical” (Nogueira, 1995).
2. O modelo pedagógico brasileiro e os projetos<br />
O modelo pedagógico brasileiro está organizado para o atendimentopadrão<br />
de grupos numerosos e heterogêneos de estudantes, pois é possível:<br />
(a) unificar e homogeneizar as práticas educativas e os materiais escolares;<br />
(b) uniformizar a linguagem escolar; (c) ordenar as seqüências de conteúdos;<br />
e (d) padronizar os instrumentos de avaliação, promoção e certificação<br />
de estudantes (Sampaio, 1997, cf. p. 63). A lógica desse formato pedagógico<br />
é articulada pela proposta curricular baseada na segmentação das disciplinas,<br />
dos processos de ensino e modelação das práticas escolares dos estudantes,<br />
regulando os padrões de conduta, linguagem e pensamento. As mudanças na<br />
sociedade e na cultura humana fizeram com que os resultados pedagógicos<br />
desse modelo fossem cada vez mais reduzidos e questionáveis, mas ele continuou<br />
a ser reproduzido nas instituições escolares por tradição. Atualmente,<br />
poucas propostas curriculares justificam com fundamentos claros e objetivos<br />
o ordenamento dos conteúdos e as formas de avaliar a aquisição destes pelos<br />
estudantes 10 .<br />
A forma expositiva parece ainda ser predominante entre os educadores,<br />
principalmente a partir do quinto ano do Ensino Fundamental. Apesar de muito<br />
criticada pelos educadores, essa forma é mantida, geralmente sob alegações:<br />
(a) do suposto baixo comprometimento dos educandos com a aprendizagem;<br />
(b) das turmas numerosas; e (c) da extensão da jornada de trabalho dos<br />
educadores, que reduzem o tempo de preparação e avaliação de atividades<br />
diversificadas. As aulas, portanto, são preparadas e ministradas para educandos<br />
abstratos e padronizados, formuladas num discurso único e homogêneo,<br />
estabelecendo a dissociação entre ensino e aprendizagem, num processo em<br />
que o educador, supostamente, exerce sua tarefa de ensino e em que caberia<br />
ao educando a responsabilidade e os esforços para a aprendizagem...<br />
No modelo pedagógico denominado tradicional, encontramos, no entanto,<br />
experiências e proposições da organização do trabalho pedagógico na<br />
forma de projetos, que se constituem num conjunto de atividades planejadas<br />
minuciosamente e a priori. Portanto projeto, nessa concepção, seria o processo<br />
organizado a partir de objetivos e temas prefixados, que se desdobrariam em<br />
atividades, previamente justificadas e preparadas com a diversidade de tecnologias<br />
e recursos didáticos necessários e, geralmente, ordenadas em cronogramas<br />
fixos. A ênfase, portanto, está no planejamento prévio da organização do<br />
trabalho pedagógico, sendo que a rigor não se constatam grandes mudanças<br />
nos processos de ensino e aprendizagem, mas apenas na forma de planejá-los<br />
e executá-los.<br />
Uma parte das proposições desse modelo pedagógico incorporou diversos<br />
aspectos das teorias empresariais de Gestão por Projetos, que, numa<br />
10 Argumentos como os de “ordem natural dos conteúdos” ou “da forma como está presente na maioria dos materiais<br />
escolares” são freqüentemente manifestos por educadores/as que defendem e praticam esse modelo pedagógico.<br />
59
60<br />
visão matricial, define os objetivos e, a partir destes, determina as pessoas<br />
responsáveis e os recursos necessários para executar as tarefas. A forma de<br />
organização é semelhante à dos cases — ferramentas utilizadas nos programas<br />
de gestão de recursos humanos e qualidade no mundo do trabalho 11 . Essas<br />
tendências, no entanto, efetivamente mantêm o modelo pedagógico mesmo<br />
com a inclusão de dispositivos pedagógicos diversificados.<br />
Há, porém, outro bloco de tendências pedagógicas, das quais trata o presente,<br />
constituído pelas proposições de educadores que procuram: (a) romper<br />
com a linearidade de planejamento e desenvolvimento de conteúdos, comumente<br />
definidos a priori; (b) buscar a superação da fragmentação de saberes<br />
em disciplinas, da formação atomizada de professores e das grades temporais<br />
fixas (de aulas semanais, avaliações bimestrais ou trimestrais e sistemas de<br />
promoção anuais); (c) contextualizar, problematizar e criticar efetivamente os<br />
temas em estudo; (d) desenvolver instrumentos de avaliação processuais e superar<br />
as ferramentas tradicionais de avaliação centrados apenas em resultados<br />
do ensino; (e) promover situações de aprendizagem interativas, contrapondoas<br />
à hegemonia das formas expositivas de saberes nas aulas; (f) conquistar o<br />
envolvimento efetivo dos educandos no processo pedagógico e na constituição<br />
de aprendizagens significativas, como alternativa ao modelo enciclopedista<br />
de aquisição passiva de saberes (formalizados em informações e conceitos) e<br />
procedimentos isolados e sem vínculo concreto com as práticas culturais dos<br />
estudantes; (g) estimular procedimentos de pesquisa como forma de superar<br />
o uso passivo da tecnologia da informação e a oferta reduzida de materiais<br />
pedagógicos flexíveis e interativos; (h) “desformalizar” e desburocratizar os<br />
procedimentos pedagógicos e administrativos das instituições escolares. Enfim,<br />
procuram a superação da pedagogia decorrente do modelo fordista de<br />
organização do trabalho e da produção capitalista de mercadorias e serviços.<br />
Estas proposições também levam a constatar que os objetivos da atividade<br />
escolar, em suas diversas formas, não podem ser reduzidos a conteúdos<br />
e métodos a serem apreendidos pelos educandos, mas, como aponta Giroux,<br />
expressam o processo de introdução de determinado modo de vida (Moreira,<br />
1995). Para Silva (1995), as instituições escolares funcionam para “(...) organizar<br />
as experiências de conhecimento de crianças e jovens, com o objetivo de<br />
produzir determinada identidade” (Silva, 1995, p. 184).<br />
Podemos ainda constatar que<br />
(...) as narrativas contidas no currículo corporificam noções particulares<br />
sobre conhecimento, sobre formas de organização da sociedade, sobre os dife-<br />
rentes grupos sociais, explícita ou implicitamente. Elas dizem qual conhecimento<br />
é legítimo e qual é ilegítimo, quais formas de conhecer são válidas e quais não o<br />
11 As proposições desses projetos ganharam um novo impulso a partir da década de 1980 por influência da adoção<br />
das “técnicas e metodologia de gestão por projetos” adotadas nas empresas, que derivam das concepções de administração<br />
da Escola de Relações Humanas (Vermelho, 1998) integrada ao modelo de regulação capitalista conhecido<br />
como Toyotismo ou ainda como Empresa Integrada e Flexível (Harvey, 1985).
são, o que é certo e o que é errado, o que é moral e o que é imoral, o que é bom<br />
e o que é mau, o que é belo e o que é feio, quais vozes são autorizadas e quais<br />
não o são (Silva, 1995, p. 4).<br />
Assim, o conteúdo dos currículos e do trabalho pedagógico envolve os<br />
bens culturais da humanidade, forma saberes (entre estes os acadêmicos e os<br />
populares) e trata das diversas manifestações de arte, valores, padrões de conduta<br />
e experiência de sentimentos. A escola, no entanto, reconhece oficialmente<br />
como conteúdo apenas o que está inscrito no currículo oficial (aquele que é<br />
formalizado e por isso denominado, também, de currículo legal ou explícito).<br />
O currículo em ação reúne todas as práticas e ocorrências pedagógicas, com<br />
as tentativas, os sucessos e os erros nos processos de aplicação do currículo<br />
formal. No cotidiano escolar, é fácil constatar a existência de currículos ocultos<br />
compostos por conteúdos incluídos pelo professor por sua própria conta, às<br />
vezes até de forma clandestina, omitindo-os dos registros escolares. Incluemse<br />
aqui, também, as experiências vividas no espaço da escola pelo aluno, que<br />
implicam a regulação de comportamento e promoção de capacidades (Forquin,<br />
1993). Também podem ser identificados currículos invisíveis, compostos por<br />
práticas culturais na escola, mas que não são explícitos nem aos olhos dos próprios<br />
professores (Moura, 2003), como aquelas de ressignificação de valores,<br />
referendando ou deslegitimando determinadas condutas (como, por exemplo,<br />
o reforço de condutas racistas, sexistas, elitistas, etc.; a domesticação de emoções,<br />
a sublimação de desejos, a regulação das situações e as possibilidades de<br />
afeto). Essas diferentes dimensões comporiam o currículo concreto, resultante<br />
de diferentes formas de planejamento e organização do trabalho pedagógico.<br />
Essas proposições implicam superar, pelo menos, duas tradições importantes<br />
na educação brasileira: (a) a da linearidade na forma de expor temas<br />
de estudo, sistemas de conceitos e domínio de procedimentos e (b) do caráter<br />
eminentemente expositivo de conteúdos pelos educadores e/ou materiais didáticos.<br />
E compreender as práticas pedagógicas como processos de aprendizagem<br />
e de interação formativa entre professores e alunos e de alunos com<br />
alunos, que visam tanto ao aprimoramento intelectual, como à formação do<br />
caráter e à experiência de sentimentos dos e pelos educandos no espaço escolar<br />
(Cordiolli, 2001b).<br />
Os meios, as condições, as ferramentas e os instrumentos pedagógicos<br />
podem ser e o são configurados de maneiras distintas nas diferentes experiências<br />
de organização do trabalho pedagógico na forma de projetos. Mas,<br />
a principal busca (e conquista) parece ser a constituição de formas de lidar<br />
efetivamente com a diversidade cultural, de estágios diferenciados de domínio<br />
de saberes, com distintos interesses, necessidades, ritmos e processos<br />
de aprendizagem. Isso implica na alteração da relação entre educadores e<br />
educandos, para que estes ocupem a posição de protagonistas dos processos<br />
de aprendizagem e o educador a de organizador de situações pedagógicas nas<br />
quais ocorram esses processos.<br />
61
62<br />
3. Os projetos mobilizadores e compartilhados<br />
Podemos agrupar os projetos como forma de organizar o trabalho pedagógico<br />
em dois tipos básicos: os mobilizadores e os compartilhados. Os projetos<br />
mobilizadores, aqui definidos como sendo aqueles cujos temas e objetivos<br />
são propostos pela instituição escolar e/ou educador e implementados em conjunto<br />
com os educandos. Esses tipos de projeto são denominados projetos de<br />
ensino por Hernandez (1998).<br />
O segundo grupo, denominado de projetos compartilhados, porque seus<br />
processos devem ser construídos a partir de problemáticas e questões apresentadas<br />
pelos estudantes e mediadas pela instituição escolar — educador. A<br />
esses Hernandez (1998) propõe a denominação projetos de aprendizagem.<br />
Os projetos mais eficazes na perspectiva da aprendizagem, na opinião<br />
de Hernandez (com a qual concordo), seriam os compartilhados, mas, creio ser<br />
importante reconhecer que a implementação dessa forma de organização do trabalho<br />
pedagógico — tanto por parte de educadores como de educandos 12 — requer<br />
o aprendizado coletivo, assim como romper com elementos da cultura<br />
escolar que depõem contra essa proposição. Penso que os projetos devem ser<br />
experienciados por educadores e educandos, buscando mensurar adequadamente<br />
suas necessidades, constituindo assim as mediações necessárias no<br />
ritmo possível e nas condições concretas. Também é importante reconhecer<br />
a necessidade de educadores poderem efetivar projetos em parte — e não na<br />
totalidade — de seus cursos, utilizando-os, portanto, como recurso didático.<br />
Assim como é possível optar por projetos mobilizadores e compartilhados para<br />
momentos e temas diferentes do mesmo processo de aprendizagem.<br />
Nessa perspectiva, proponho que os projetos sejam tomados como possibilidade,<br />
e não como imposição, podendo ser desenvolvidos com combinações<br />
variadas para atender às necessidades dos estudantes e dos educadores,<br />
assim como para possibilitar diferentes articulações com os temas geradores,<br />
práticas de inter, trans e multidisciplinaridade e estabelecer procedimentos de<br />
problematização e contextualização.<br />
Os projetos podem ser variados e implementados em toda a educação<br />
básica e superior. Por exemplo, uma instituição escolar com oferta de Educação<br />
Infantil ao Ensino Médio pode estar desenvolvendo um projeto com todos os alunos,<br />
sob o tema reciclagem e aproveitamento adequado de papel, no qual cada<br />
turma ocuparia um espaço de tempo mensal para a realização de tarefas específicas<br />
a elas delegadas. Em outros projetos simultâneos, as turmas de Educação<br />
Infantil poderiam ser chamadas a organizar uma horta comunitária, utilizada para<br />
realizar estudos sobre plantas; nos anos iniciais do Ensino Fundamental (1 a a 4 a<br />
séries ou 1 o e 2 o ciclos) se poderia examinar o consumo de gêneros alimentícios<br />
industrializados e sua implicação sobre a saúde humana; nos anos finais do<br />
12 E mesmo alteração nas formas de regulação educacional, assim como reconhecimento e legitimação desta forma<br />
de organização curricular e do trabalho pedagógico pela sociedade e pelos pais em particular.
Ensino Fundamental (5 a a 8 a série ou 3 o e 4 o ciclos), outro projeto poderia ser<br />
organizado com temas ligados à sexualidade; no Ensino Médio, pode-se constituir<br />
um projeto para problematizar as relações entre profissão e mercado de<br />
trabalho. Assim, diferentes projetos com objetivos distintos poderiam coexistir<br />
no mesmo período, articulando interesses e temáticas variadas.<br />
Essas iniciativas podem ser simultâneas a outros projetos decorrentes<br />
das necessidades de aprendizagem de cada disciplina ou turma. Assim, as<br />
turmas do primeiro ano do Ensino Médio poderiam estudar as diferentes formas<br />
de cálculos do sistema de crédito; as turmas dos anos iniciais do Ensino<br />
Fundamental podem desenvolver projetos utilizando jogos para aprendizagem<br />
da geometria. O professor de Ciências do sétimo ano do Ensino Fundamental<br />
poderia propor a identificação de elementos químicos em rochas e plantas, recolhidos<br />
no espaço físico da instituição escolar ou do bairro. Enfim, os temas de<br />
projetos podem ser amplos e variados, ser realizados por uma ou mais turmas<br />
e, ainda, contar com a contribuição de um ou mais educadores, adotar temas<br />
do currículo formal ou de fora dele. Vários projetos podem estar intercalados,<br />
envolvendo uma ou mais turmas, integrando diversas disciplinas, envolvendo<br />
diferentes professores. São muitas as possibilidades de organização de projetos<br />
e maiores ainda as combinações entre eles.<br />
Seria possível transpor esse modelo, resguardando as devidas proporções<br />
para a educação superior; por exemplo, podendo implementar projetos<br />
em educação ambiental e desenvolvimento de procedimentos acadêmicos para<br />
todos os estudantes da instituição, combinados a projetos por setores, cursos<br />
e turmas. Os projetos relacionados, neste exemplo, promovem tanto processos<br />
de aprendizagem como de formação interativa, respeitando questões próprias<br />
às respectivas faixas etárias e/ou aos cursos da educação superior.<br />
4. Elementos para uma identidade dos projetos<br />
A identificação de alguns elementos e fundamentos para a definição de<br />
um campo dos projetos na organização do trabalho pedagógico é importante<br />
para a construção da identidade desse procedimento didático. As duas definições<br />
primeiras seriam as de que projetos (a) não se manifestam apenas no<br />
planejamento detalhado de aulas e (b) nem tampouco numa seqüência de<br />
conteúdo previamente ordenada. Para definir o campo de projetos estamos<br />
propondo os seguintes eixos: (a) compartilhamento; (b) ação coletiva e práticas<br />
colaborativas; (c) aprendizagem com pesquisa e diversidade de fontes;<br />
(d) produção de sínteses distintas: a forma, a linguagem e o conteúdo da<br />
produção docente; e (e) a socialização dos resultados com retorno à comunidade.<br />
Esses eixos correspondem a uma estrutura básica para a realização<br />
de projetos que, dentre as várias vertentes, recomendamos a proposição de<br />
Vasconcelos 13 (2002): “definição do(s) tema(s)-problema, constituição dos<br />
13 Para um aprofundamento desta estrutura recomendamos a leitura de Vasconcelos (2001).<br />
63
64<br />
grupos de trabalho, planejamento do trabalho, trabalho de campo, pesquisa<br />
e teorização, produção de registros, apresentação, globalização e avaliação”<br />
(Vasconcelos, 2002, p. 161).<br />
4.1. O compartilhamento<br />
O compartilhar se constitui no conjunto de práticas de planejamento,<br />
ações e decisões coletivas, que implicam processo de interação com responsabilidade<br />
e companheirismo, de maneira que os envolvidos se sintam parte do<br />
todo, possuam identidade com o coletivo e com o processo.<br />
Nesse sentido, o compartilhamento significa o envolvimento dos educandos<br />
com os processos de organização das atividades pedagógicas, que se<br />
justificam pelas descobertas peculiares (Hernandez, 1998), únicas e pessoais,<br />
estabelecendo dinâmicas de tempo próprias e processos adequados para cada<br />
situação de aprendizagem. Desse modo, seria possível organizar as atividades<br />
escolares a partir de questões e problemáticas formuladas pelos próprios<br />
educandos, que constituiriam espaços de aprendizagem mais significativa e<br />
socialmente mais importante. O trabalho compartilhado possibilita o estabelecimento<br />
de relações entre educadores e estudantes, o que permite reorientar<br />
os projetos em seu fazer-se, podendo alterar suas atividades, sua orientação<br />
e mesmo sua programação. Assim, compartilhar é também promover a gestão<br />
coletiva dos processos de aprendizagem.<br />
Nessa perspectiva, por exemplo, o objetivo de projeto, inicialmente<br />
centrado no funcionamento do aparelho digestivo, pode ser deslocado para o<br />
consumo de produtos saudáveis, caso isso capitalize mais o interesse dos alunos.<br />
A programação inicial para três meses pode ser ampliada, caso a turma<br />
mantenha a empolgação e o interesse, podendo, por outro lado, ser o tempo<br />
reduzido e até abortado, caso ocorra a produção significativa do envolvimento<br />
antes do prazo prefixado para a sua realização. Um outro projeto, como a<br />
previsão inicial de elaboração de um jornal para a instituição escolar, pode ser<br />
convertido em site da internet ou vice-versa. Portanto, temas e atividades podem<br />
ser reorientados durante os processos de desenvolvimento dos projetos,<br />
para atender aos interesses e às necessidades dos alunos.<br />
Uma instituição escolar adotou o tema Olimpíadas de Sidney que, evidentemente,<br />
foi escolhido em função da grande pressão da mídia, particularmente<br />
a televisiva. Os estudantes (e, creio, os educadores também) “embarcaram<br />
na onda”, mas com os resultados negativos dos atletas brasileiros na<br />
competição, os alunos começaram a se desmotivar, mas os educadores se<br />
sentiam obrigados a continuar “carregando aquele cadáver”. Muito transtorno<br />
poderia ter sido evitado, caso os educadores discutissem abertamente a situação<br />
do projeto com os educandos. Isso poderia inclusive servir para determinar<br />
melhor os critérios de escolha de novos temas.
Um curso de Ciências Contábeis implementou diversos projetos a partir<br />
do tema Ponto de equilíbrio entre receitas e despesas, mas saturou os educandos<br />
que, depois de certo tempo, não agüentavam mais tocar no tema. Embora<br />
os educadores considerassem o tema como importante, era necessária a<br />
percepção de que há momentos de interesse e empolgação assim como os de<br />
refluxo e esgotamento.<br />
4.2. A ação coletiva e as práticas colaborativas<br />
A ação coletiva com práticas colaborativas parece ser questão central<br />
na organização do trabalho pedagógico na forma de projetos, mas não aquela<br />
atividade em que a turma se divide em equipes, o educador determina tarefas<br />
para cada grupo, as quais são fatiadas entre os membros da equipe para<br />
depois ser costuradas sem integração ou interação 14 . Não é a essas atividades<br />
coletivas que nos referimos, mas a outra forma, na qual os grupos sejam organizados,<br />
considerando pelo menos as possibilidades que se seguem.<br />
Na primeira, consideram-se para a formação dos grupos os educandos<br />
com potencialidades e dificuldades distintas, quanto a procedimentos escolares<br />
e domínio de saberes; nesse caso, a ação colaborativa permite o processo de<br />
aprendizagem em grupo. Um estudante, por exemplo, que possua boa capacidade<br />
de exposição oral, mas cuja produção de escrita seja insuficiente, pode<br />
aprender com os colegas ao presenciar o tratamento escrito coletivo resultante<br />
da sua verbalização sobre o tema. Também é possível que o estudante com<br />
dificuldade em expor idéias na forma oral possa verificar suas limitações (e<br />
perceber a possibilidade de superá-las) ao redigir as falas de colegas. Assim,<br />
alunos com domínio de procedimentos distintos ou saberes diferentes podem<br />
se ensinar e aprender mutuamente.<br />
Numa segunda, as equipes podem reunir os estudantes com potencialidades<br />
e dificuldades semelhantes. Por exemplo, educandos tímidos ou com<br />
dificuldades em exposição oral podem ser reunidos numa mesma equipe para<br />
que colaborativamente se disponham a buscar soluções possíveis, a partir da<br />
convergência do que cada aluno já sabe (ou consegue fazer) e do esforço coletivo<br />
para superar as necessidades. Pois não há ninguém que não saiba nada,<br />
mas, sim, há aqueles que sabem menos e os que sabem pouco; ainda assim,<br />
todos eles sabem algo de forma diferente. Reunindo o conhecimento específico<br />
de cada estudante, somando-os ao esforço colaborativo, o grupo saberá encontrar<br />
caminhos e com isso realizar processos efetivos de aprendizagem sobre<br />
os temas em estudo.<br />
Numa terceira, as equipes podem reunir alunos que desejam investigar<br />
a mesma abordagem ou trabalhar com as mesmas fontes, em relação ao tema<br />
14 Um caso comum é do estudo de um texto, que geralmente é dividido e os/as alunos/as não lêem os trechos<br />
anteriores ou posteriores à parte que lhes cabe, mesmo que iniciem com uma separação de sílaba... É a chamada<br />
pedagogia Frankstein, do recorte e cola, do corte e costura, do recolhe e junta, no qual a soma das partes não<br />
produz uma síntese e, às vezes, nem sentido.<br />
65
66<br />
investigado. Nesta situação, alunos que pertencem a diferentes grupos de relacionamento<br />
interno, nos quais se dividem as turmas escolares, podem vir a<br />
se interessar pelos mesmos temas, trazendo as contribuições de seus saberes<br />
peculiares e visões particulares de mundo.<br />
As práticas escolares atuais, geralmente restringem as atividades coletivas,<br />
minimizando-as como processos avaliativos, com medo de que “uns sejam<br />
levados nas costas por outros”, pois “um estudante que não participou de maneira<br />
adequada do grupo recebe a mesma nota”. O educador ou instituição escolar<br />
que se recuse ou limite as atividades coletivas, temendo perder o controle<br />
e os mecanismos de vigilância sobre os educandos, repete os pressupostos da<br />
pedagogia tradicional e conservadora fundada em princípios (a) meritocráticos,<br />
em que apenas os supostamente bons, eficientes e esforçados deveriam<br />
chegar ao final dos cursos; (b) individualistas, pois dificultam a aprendizagem<br />
coletiva, mantendo os pressupostos de que cada aluno seria responsável por si<br />
e, por conseqüência, não construiria princípios de responsabilidade e cooperação<br />
coletivas; e (c) concorrencialistas, pois estimulam, mesmo indiretamente,<br />
que educandos se comparem e se posicionem diante do olhar do educadoravaliador,<br />
através de processos classificatórios que hierarquizam as turmas em<br />
função dos resultados de ensino e não dos processos de aprendizagem.<br />
Nessas atividades, os educandos têm a possibilidade de redefinir o padrão<br />
de relacionamento entre eles; de trabalhar em equipe; de organizar processos<br />
de estudo, de pesquisa, de reflexão e de produção coletiva. Os temas<br />
de estudo podem propiciar tanto o desenvolvimento de procedimentos tecnológicos<br />
como metodológicos. Também constituem espaços formativos de valores<br />
e condutas, como os de respeito mútuo, solidariedade, de diálogo, de justiça e<br />
de experiência: as de emoções, como as frustrações, de conquistas, de desejos<br />
e de afetos (Cordiolli, 2001 e 2001 b).<br />
Pode-se possibilitar aos educandos, ao vivenciarem experiências de socialização<br />
e interação, no contexto da relação individualidade-coletividade, se<br />
reconhecerem como sujeitos de processos coletivos. Os estudantes precisam<br />
de oportunidades, pedagogicamente organizadas, para constituir sua autonomia,<br />
para assumir suas responsabilidades e se posicionar perante o coletivo.<br />
Assim, “(...) o educando que exercita sua liberdade ficará tão mais livre quanto<br />
mais eticamente vá assumindo a responsabilidade de suas ações. Sua autonomia<br />
se funda na responsabilidade que vai sendo assumida” (Freire,1996, p. 13).<br />
Há várias teorias que fundamentam a ação pedagógica de trabalho coletivo,<br />
como as das assembléias de turma (ver Aquino, 2003) e comunidade de investigação<br />
(Sharp & Splitter, 1999).<br />
Ferraz, no relato de uma experiência no Ensino Médio, observou que<br />
a falta de organização e de responsabilidade para com os trabalhos escolares é<br />
geral, ocorrendo em todas as disciplinas. Por isso, a mudança de comportamento
dos alunos, ao longo de três anos de aplicação do Projeto Ambiente em Foco, per-<br />
mite indicar que o exemplo de organização e responsabilidade é capaz de alterar<br />
uma postura inadequada (Ferraz, 2002, p. 69).<br />
Enfim, o trabalho coletivo e a aprendizagem colaborativa são também a<br />
base para a formação humanista, democrática, cidadã, como pressuposto para<br />
a constituição da autonomia. Nessa perspectiva, é fundamental possibilitar<br />
diversos tipos de ações colaborativas em diferentes níveis, tais como entre os<br />
colegas de equipe, com outros colegas da turma e a interlocução com outros<br />
interessados pelo tema, utilizando desde o correio convencional até as possibilidades<br />
da internet como e-mails, salas de bate-papo e grupos de discussão.<br />
A educação superior manifesta o desconforto com as atividades em grupo,<br />
uma vez que, geralmente, as equipes de trabalho são constituídas nos primeiros<br />
meses de cursos e se mantêm com pouca alteração quase até a formatura.<br />
Os educandos criam vícios como o da divisão prévia de tarefas (há os que<br />
lêem os textos, os que redigem e os apresentam) e, por vezes, até constituem<br />
consórcio nos quais partes das equipes se responsabilizem por atividades de<br />
diferentes disciplinas. De certa forma, apenas parte dos educandos produzem<br />
as atividades e ainda assim de forma fragmentada. Isso gera desconfiança por<br />
parte de educadores que temem que educandos recebam notas “sem méritos”<br />
e que outros se sintam injustiçados por ter “carregado colegas sem méritos”<br />
na atividade.<br />
As proposições apresentadas neste ensaio implicam reconhecer que a<br />
questão principal é ética: a instituição que compactua com isso reforça diferentes<br />
formas de deformação de valores. Mas, por outro lado, isso é responsabilidade<br />
de educadores que não permitem espaços para o trabalho coletivo, pois<br />
avaliam apenas os produto (os textos escritos ou apresentações orais), sem<br />
acompanhar os processos nos quais os diversos educandos interagem. Ele — o<br />
educador como propiciador de situações de aprendizagem e interação — pode<br />
intervir constituindo as equipes e formulando atividades que remetam a formas<br />
coletivas de estudo e aprendizagem.<br />
Também é necessário estimular e permitir aos educandos o desenvolvimento<br />
de métodos de estudo que utilizem adequadamente os recursos disponíveis.<br />
E que, coletivamente, identifiquem os objetivos de estudo, promovam a<br />
problematização, a crítica e a contextualização, em ações metacognitivas e na<br />
perspectiva metadisciplinar. A organização do trabalho coletivo também implica<br />
dividir adequadamente as tarefas e buscar a integração com coerência dos dados<br />
coletados, como base para a formulação de sínteses significativas.<br />
4.3. A aprendizagem com pesquisa e a diversidade de fontes<br />
A aprendizagem com pesquisa e a diversidade de fontes são elementos<br />
fundamentais na organização do trabalho pedagógico na forma de projetos. Mas,<br />
assim como as atividades escolares coletivas, também estão desacreditadas por<br />
67
68<br />
parcela de educadores e instituições, pois às vezes se apresentam resultados<br />
ruins como cópias de livros 15 ou compra de atividades prontas. Mas a superficialidade<br />
e fragilidade parecem também estar presente em grande parte das<br />
pesquisas realizadas com algum grau de seriedade pelos estudantes.<br />
Alguns professores afirmam, com base em experiências desse tipo, que<br />
os estudantes não estariam interessados nessa forma de atividade ou não saberiam<br />
produzi-las. Por outro lado, todos conhecemos experiências ou depoimentos<br />
que afirmam que a aprendizagem com pesquisa, quando realizada com<br />
sucesso, estimula e mobiliza os estudantes com resultados surpreendentes.<br />
As instituições escolares, em particular os professores, devem estimular<br />
os alunos com o compartilhamento de temas, envolvendo-se com as problemáticas,<br />
identificando-se com as necessidades e possibilidades de aprendizagem<br />
do tema em estudo.<br />
Mas a falta de estímulo dos estudantes, muitas vezes, também decorre<br />
de temas pouco instigantes (que podem até o ser para o professor, mas não<br />
se constituem em tal aos olhos dos alunos), de objetivos maldelineados e de<br />
procedimentos obscuros. Pesquisar é antes de tudo a disposição de caminhar<br />
por saberes, por disciplinas, por especialidades e também por distintas formas<br />
de disponibilização de dados. Porém a pesquisa também pode assumir o levantamento<br />
de dados na produção de novos saberes, como elemento central dos<br />
processos escolares. Assim, partimos do pressuposto de que não basta apenas<br />
diversificar autores ou a bibliografia sugerida; se faz importante ir mais além,<br />
a ponto de compartilhar saberes acessados em diferentes locais ou produzidos<br />
a partir de investigação de fontes disponíveis e explicitar contrates entre distintas<br />
linguagens e interlocutores.<br />
Isso implica três ações distintas: (a) a realização de pesquisa em fontes<br />
disponíveis; (b) a coleta de depoimentos de familiares, pessoas da comunidade,<br />
personalidades locais, profissionais e especialistas em diversas áreas; (c)<br />
o acesso e a análise das mídias disponíveis. Essas ações devem ser articuladas<br />
ao acesso, contraste e diálogo com os saberes reconhecidos e sancionados<br />
pelas instituições escolares.<br />
A realização de pesquisa em fontes disponíveis implica ação de investigação<br />
— com instrumentos adequados de pesquisa e tratamento de dados — de<br />
comunidades e da natureza para os estudantes da educação básica. Diferentes<br />
comunidades, empresas e profissionais de um ramo da economia, de uma<br />
mesma profissão, objeto de determinada área do conhecimento podem se<br />
constituir em temas de pesquisas para os estudantes da educação superior e<br />
do ensino profissionalizante de nível técnico (EPNT).<br />
15 O que gestou uma verdadeira indústria de confecção de trabalhos, algumas delas com propagandas explícitas em<br />
algumas escolas e campi. A situação se agravou nos últimos anos, em função da proliferação de sites na Internet<br />
que disponibilizam textos prontos para as diferentes disciplinas e etapas escolares, em particular na Educação<br />
Superior.
Na educação básica, as atividades de levantamento de dados sobre a<br />
comunidade e as famílias podem reunir dados sobre aspectos da vida da comunidade<br />
— como a procedência geográfica das famílias, hábitos alimentares,<br />
fontes de renda, modos de lazer, etc. — em projetos que sucedem por vários<br />
anos, assumidos por diferentes gerações de alunos, produzindo seqüências<br />
históricas de dados ricos e originais. Esses dados também podem vir a ser examinados<br />
e confrontados por novos levantamentos e por diferentes formas de<br />
crítica, construindo referências para a contextualização da realidade dos alunos<br />
e das comunidades no entorno da instituição escolar.<br />
Na educação superior e no ensino profissionalizante, a aprendizagem<br />
com pesquisa pode se constituir em atividade sistemática e permanente, articulada<br />
e articulando diversas disciplinas em diferentes anos, para compor base<br />
de dados produzida com instrumentos acadêmicos de investigação empírica,<br />
e ampliada constantemente pelas gerações de estudantes que se sucedem.<br />
Essas bases de dados servem tanto como matéria-prima para os processos de<br />
aprendizagem mais contextualizados e problematizadores, como para a produção<br />
de pesquisas e artigos acadêmicos dos <strong>docentes</strong>. Nos cursos da área de<br />
saúde, por exemplo, os dados podem compor o perfil de grupos populacionais,<br />
comportando diferentes investigações de estudantes e <strong>docentes</strong> dos vários<br />
cursos. Nos cursos de Ciências Sociais Aplicadas, atividades diversificadas podem<br />
ser realizadas, por exemplo, com banco de dados levantados com pesquisas<br />
em microempresas de um mesmo ramo de atividade econômica, etc.<br />
A coleta de depoimentos de familiares, pessoas da comunidade, personalidades<br />
locais, profissionais e especialistas em diversas áreas é distinta<br />
das pesquisas descritas no item anterior, pois não requerem a utilização de<br />
instrumentos rigorosos de pesquisa e tratamento de dados. Mas se constituem<br />
em questionários de entrevistas promovidos por alunos com os pais e as pessoas<br />
do seu círculo de convívio, sobre os mais diversos temas. Assim como os<br />
professores, as turmas e as equipes podem convidar familiares, pessoas da<br />
comunidade, personalidades locais, profissionais e especialistas em diversas<br />
áreas para prestar depoimentos ou debater os temas em estudo. A função<br />
dessas atividades, além de ampliar a variedade de opinião e de saberes sobre<br />
os temas em estudo, é o de permitir a manifestação de vozes e exposição de<br />
saberes e valores que não são disponibilizados na escola.<br />
O acesso e a análise das mídias disponíveis implicam verificar sua diversidade<br />
e tipologias. Poderíamos classificar as mídias, em função das necessidades<br />
pedagógicas, em diretivas e interativas. As mídias diretivas são de emissão<br />
magnética, sejam abertas ou pagas (os canais de televisão e as estações de<br />
rádios); as impressas em meio gráfico (os jornais, os livros, os folhetos e as<br />
revistas); as impressas em meio magnético (discos de vinil, audiocassete, videocassete,<br />
CD, DVD, CDV, CD-ROM e cartuchos de jogos eletrônicos); os expositores<br />
de peças de propaganda (como os cartazes e outdoors); e os sites de<br />
69
70<br />
informação disponíveis na internet. O grupo das mídias interativas é composto<br />
por telefone; programas com participação dos assistentes em rádio e televisão;<br />
sistemas de vídeo e teleconferência; e sistemas da internet como canais<br />
de bate-papo, listas de discussão, grupos de e-mail, homepages interativas e<br />
programas de comunicação instantânea. Nessa perspectiva os educandos podem<br />
pesquisar um mesmo tema, utilizando diferentes tipos de mídia como a<br />
leitura de jornais, revistas e livros didáticos; análise de programas de rádio e<br />
TV; visita a sites da internet; exame de folhetos e outdoors, etc.<br />
A utilização pedagógica da mídia requer a compreensão longitudinal e<br />
latitudinal dos temas nos diversos tipos de mídia. Na perspectiva longitudinal,<br />
um tema pode ser examinado em diferentes tipos de mídia — jornais, revistas,<br />
telejornais, sites acadêmicos; e na latitudinal, o tema pode ser examinado<br />
num mesmo tipo de mídia, mas de mantenedores diferentes — em telejornais<br />
de vários canais ou revistas de diferentes editoras, por exemplo. Os exames<br />
por contraste das diversas fontes se constituem num importante processo<br />
cognitivo que possibilita a percepção das diferenças na forma de disponibilizar<br />
informações e saberes, despertando para a produção de análises críticas das<br />
mídias, sobre seus fundamentos, estratégias discursivas, intencionalidade,<br />
mantenedores, informações disponibilizadas, etc.<br />
O acesso, contraste e diálogo com os saberes reconhecidos e sancionados<br />
pelas instituições escolares implicam redimensionar a função do professor,<br />
pois este não precisa ser a única fonte de informação e saberes e de escolha de<br />
materiais didáticos. No entanto, se fazem necessárias a preparação de instrumentos<br />
de pesquisas e a preparação dos estudantes na seleção das fontes utilizadas.<br />
A proliferação de sites e de publicações impressas permite a circulação<br />
de toda sorte de texto: com conteúdos paradisciplinares produzidos sem o rigor<br />
ou com instrumentos inadequados, com reducionismos, com fundamentos<br />
impróprios, com compilações, traduções e referências indevidas, etc.<br />
O professor, nesse processo, além de ser o propiciador de situações de<br />
aprendizagem, funciona como o balizador das fontes de pesquisas e pólo crítico<br />
de seus conteúdos. Cabe aos professores e às instituições escolares organizar<br />
conjuntos referenciais de materiais pedagógicos, como livros didáticos e paradidáticos,<br />
publicações de divulgação científica e sites educacionais especializados<br />
que funcionem como balizas para os estudantes. No entanto os materiais<br />
selecionados pela escola não podem ser os únicos utilizados pelos alunos nem<br />
ser o sancionador formal das pesquisas e tampouco o silenciador de vozes que<br />
expressem opiniões, saberes e valores, mas se constituir contraponto pedagógico<br />
e possibilitar a organização de referenciais de contraste e checagem para<br />
as ações de pesquisas.
4.4. A produção de sínteses distintas: a forma, a linguagem e o<br />
conteúdo da produção docente<br />
Os processos de aprendizagem dos estudantes ocorrem em diferentes<br />
momentos, como os de acessar saberes diversos, interagir com discursos<br />
variados, promover reflexões e debates com várias pessoas e em situação<br />
distintas. Portanto o processo de sistematização e reelaboração cobra posturas<br />
ativas dos educandos. Mas a nossa tradição escolar está permeada por práticas<br />
de educandos cujas atividades se reduzem, geralmente, à produção e à<br />
reprodução de textos didáticos ou de discursos dos educadores. A produção<br />
escrita de nossos alunos, comumente, constitui-se de processos formais e burocráticos,<br />
negando parte da vitalidade dos processos educativos. Mesmo em<br />
situações escolares mais abertas e flexíveis, os estudantes, geralmente, escrevem<br />
tendo como interlocutor apenas o educador, por isso é preciso estimular<br />
a diversidade de formas de produção estudantil como parte dos processos de<br />
constituição do conhecimento, superando o formalismo das atividades escolares<br />
e vinculando-as a situações concretas da vida humana. Nesse sentido, nos<br />
processos de aprendizagem, é importante organizar os saberes em diferentes<br />
formas discursivas, variando os interlocutores, os meios e os temas, mas é<br />
fundamental que essa produção seja avaliada pelo crivo da eficiência discursiva,<br />
do rigor, da precisão e da coerência de conceitos, pela fidelidade às fontes<br />
e pela qualidade dos argumentos, das críticas e das generalizações.<br />
As sínteses podem expressar resultados diferentes, pois grupos de educandos<br />
podem: (a) atingir o mesmo objetivo partindo de subtemas diferentes;<br />
(b) atingir o mesmo objetivo, mas chegando a pontos de vista distintos e até<br />
contraditórios; e (c) atingir objetivos específicos distintos, mas que se complementam<br />
no mesmo objetivo geral.<br />
Os caminhos para atingir esse objetivo também são amplos e variados.<br />
Neste texto, pretendo apontar alguns dos que considero mais significativos.<br />
O primeiro bloco pode ser a organização de resultados de projetos em<br />
formas discursivas diferentes, tais como: (a) na forma de boletins para públicos<br />
definidos, tais como, grupo de amigos, moradores de um mesmo bairro,<br />
freqüentadores de determinados espaços, como centros de comércio, cinemas,<br />
feiras, igrejas, etc.; (b) na forma de jornal, que pode ser distribuído pelos educandos<br />
ou, então, organizado como mural para ser afixado nos locais desejados<br />
pela turma, como salas de aula, pátios, paradas de ônibus, igrejas, pontos comerciais,<br />
etc.; (c) na forma de cartazes, que também podem ser afixados em<br />
espaços públicos; (d) na forma de textos escolares, que podem ser distribuídos<br />
para outras turmas, inclusive de que estão em estágios anteriores, como, por<br />
exemplo, educandos do Ensino Médio podem produzir textos didáticos sobre<br />
temas diversos para os colegas dos anos iniciais do Ensino Fundamental; (e) na<br />
forma de cartas, que podem ser trocadas via e-mail ou correio convencional com<br />
amigos, parentes e, até mesmo, com turmas de outras instituições escolares de<br />
71
72<br />
regiões diferentes do país e do mundo; também podemos introduzir entre os<br />
estudantes de instituições que tenham recursos tecnológicos; (f) a produção<br />
para a internet de materiais sobre o tema estudado, organizando homepages 16 ,<br />
e a participação de canais de bate-papo, listas de discussão, grupos de e-mail,<br />
etc., que tratem do tema estudado; (h) a produção de vídeos e áudios, similares<br />
a programas de rádio e TV (hoje diversas instituições escolares já dispõem<br />
de equipamentos necessários para a produção dessas mídias).<br />
O segundo bloco, que desejo ressaltar, refere-se à linguagem, pois cada<br />
uma das formas enunciadas anteriormente requer linguagens distintas, produzidas<br />
de formas específicas e articuladas com os respectivos interlocutores.<br />
Portanto podemos apontar, pelo menos, as seguintes linguagens requeridas<br />
pelas formas já enunciadas: (a) linguagem escolar, tanto para trabalhos formais<br />
voltados aos educadores como a educandos de outras turmas e instituições;<br />
(b) para diferentes interlocutores de convívio pessoal como colegas<br />
maiores ou menores, familiares, vizinhos, etc.; (c) para mídias distintas como<br />
a jornalística, de propaganda (para cartazes), de sites da internet; e (d) para<br />
atividades formais como cartas reivindicatórias endereçadas a autoridades,<br />
comunidades, etc.<br />
4.5. A socialização dos resultados com retorno à comunidade<br />
Os projetos compartilhados, tanto por suas práticas como pelos resultados,<br />
podem e devem extrapolar as turmas, incluindo outros grupos da mesma<br />
ou de outra instituição escolar e as comunidades ou segmentos específicos da<br />
sociedade, por isso é fundamental que os resultados sejam disponibilizados em<br />
sites, jornais, cartazes, folhetos, áudios, vídeos, etc.<br />
Por outro lado, as turmas podem intervir diretamente para transformar<br />
situações de sua realidade, seja propondo formas de intervenção dos<br />
estudantes, seja organizando canais de reflexão com as comunidades. No<br />
primeiro caso, os materiais de divulgação de resultados e sínteses, propostos<br />
anteriormente neste ensaio, tais como, cartazes, jornais, folhetos e sites, são<br />
contribuições importantes. O problema é que nem sempre esse material é<br />
disponibilizado para as comunidades, ficando restrito à sala de aula e quando<br />
muito à instituição escolar.<br />
Numa segunda perspectiva, os estudantes podem ser mobilizados para<br />
promover ações que tenham por objetivo solucionar os problemas levantados,<br />
como, por exemplo, propondo a organização de patrulhas para caçar focos<br />
de mosquitos da dengue; de brigadas para orientar pais e vizinhos a calcular<br />
corretamente juros, multas e similares; de grupos de trabalho para encontrar<br />
solução para a depredação de ambientes e poluição de rios; de publicações de<br />
16 A viabilidade das homepages pode variar, mas é importante constatar que várias instituições têm os seus próprios<br />
sites, diversos portais especializados possibilitam disponibilizar a produção estudantil e também há uma série de<br />
provedores que oferecem espaços de hospedagem gratuitos. O problema seria basicamente de disponibilidade de<br />
tecnologia como os computadores e domínio dos procedimentos de produção de homepages.
livretos com a história dos bairros, com brincadeiras de outras épocas, com<br />
orientações nutricionais; de palestras para a comunidade (em igrejas, associações<br />
comunitárias, sindicatos, escolas, etc.).<br />
Assim, estudantes do Ensino Médio ou do curso de Direito, por exemplo,<br />
podem elaborar manuais ou sites na internet sobre os direitos do consumidor;<br />
os de Ciências Contábeis e de Matemática nos anos finais do Ensino Fundamental<br />
podem promover atividades de organização das finanças familiares ou<br />
sobre procedimentos do sistema de crédito no comércio. Estudantes dos cursos<br />
de Administração, Desenho Industrial e Informática podem produzir softwares<br />
gratuitos para pequenas e médias empresas ou ONGs. Enfim, detendo saberes<br />
sobre um tema e conhecendo alguns procedimentos decorrentes deles, os<br />
educandos podem produzir diferentes formas de ação junto aos colegas da<br />
instituição escolar e às suas comunidades.<br />
Essas atividades permitem que as produções de saberes por educandos<br />
se voltem para a realidade concreta, possibilitando a mediação necessária entre<br />
o teorizar e o agir. Mas também requerem que o professor construa com<br />
os alunos espaços para a busca das respostas e satisfação das necessidades<br />
despertadas nesses processos de aprendizagem.<br />
5. O impacto da forma de projetos e do trabalho pedagógico<br />
na organização curricular<br />
Refletir sobre a organização do trabalho pedagógico na forma de projetos<br />
implica perceber que ela pode ampliar horizontes da educação, como também<br />
pode mantê-los nos marcos regulatórios atuais. Como Popkewitz (1995) nos<br />
alerta, as formas de organizar o conhecimento como currículo “(...) corporificam<br />
formas particulares de agir, sentir, falar e «ver» o mundo e o «eu»” (p. 175).<br />
Nesse sentido, gostaria de problematizar algumas questões diretamente implicadas<br />
nas escolhas promovidas no processo da organização curricular e do<br />
trabalho pedagógico.<br />
1. O modelo de organização do trabalho pedagógico na forma de projetos<br />
tende a se deslocar da ênfase no ensino para a ênfase na aprendizagem,<br />
pelo reconhecimento que o ato de “(...) ensinar não é «transmitir conhecimento»,<br />
mas criar possibilidades para a sua produção ou a sua construção”<br />
(Freire, 1996, p. 24-25). Isso implica priorização das relações horizontais entre<br />
educandos, pressupondo que dispõem dos mesmos códigos de comunicação e<br />
compartilham interesses e necessidades, o que permitiria que diferentes maneiras<br />
de aprendizagem se interconectassem em sua diversidade de interesses,<br />
necessidades, ritmos e processos.<br />
Os educandos, nesse processo, passam a compartilhar os conhecimentos<br />
constituídos, permitindo o dialogo entre diferentes grupos e percepções culturais,<br />
de maneira que “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina<br />
ao aprender” (Freire, 1996, p. 25). Isso pode possibilitar práticas dialógicas<br />
73
74<br />
fundadas no estágio de desenvolvimento humano dos educandos e no compartilhamento<br />
de seus códigos culturais comuns. As práticas dialógicas e a aprendizagem<br />
colaborativa poderiam contribuir na superação dos instrumentos segregacionistas,<br />
promovido pelas diversidades sociais e culturais (sejam elas de<br />
ordem de geração, de formação escolar, de status social, de orientação sexual,<br />
religiosa e política e de toda teia de discriminação e segregação), existentes<br />
entre educadores e educandos.<br />
Os instrumentos e procedimentos utilizados, nessa situação, são aqueles<br />
que possibilitariam aos educandos a condição de protagonistas no processo de<br />
constituição do conhecimento, e o educador passaria à condição de organizador<br />
de situações de aprendizagem e interação humana.<br />
2. A instituição escolar pode se constituir em espaço de mediação entre<br />
saberes. De um lado estão os saberes reconhecidos como importantes pelas<br />
instituições escolares, em particular os classificados como científicos, estruturados<br />
em modelos formais e estabelecidos por processos que respeitem regras de<br />
procedimentos de produção pelas corporações acadêmicas. Do outro lado estão<br />
os saberes dos educandos, nas formas organizadas em seus meios e códigos culturais<br />
e aqueles acessados nas diversas mídias que tenham em disponibilidade.<br />
Essa perspectiva não representa o abandono de conteúdos clássicos e/ou<br />
considerados importantes como temem muitos educadores, mas representaria<br />
a ruptura com a supremacia deles nos processos escolares. Romperia também<br />
com as maneiras formalistas, estáticas e inflexíveis como esses saberes são<br />
tratados na instituição escolar. Essas mudanças na forma de abordagem dos saberes<br />
possibilitariam o diálogo entre os saberes já constituídos pelos educandos<br />
e aqueles propostos pela instituição escolar, que seriam acessados conforme as<br />
necessidades e situações de aprendizagem, determinadas pelos ritmos e processos<br />
coletivos de educandos. O que seguramente ocorreria seria a ruptura<br />
no ordenamento linear e predeterminado dos saberes da maioria das propostas<br />
curriculares e práticas pedagógicas diretivas. Isso implica sejam os currículos<br />
organizados em objetivos e não apenas no arrolamento de saberes escolares.<br />
Os educandos, mesmo os de pouca idade, já trazem saberes: alguns de<br />
origem mítica, outros fundados em crenças familiares, outros sistematizados<br />
pelos códigos culturais dos seus respectivos meios (o que muitas vezes destoa<br />
na forma e nas concepções valorizadas pela instituição escolar), e há ainda<br />
aqueles que foram acessados em algum ponto da teia composta pelas diferentes<br />
mídias. Esses saberes são produtores de sentido de suas vidas, mas são,<br />
geralmente, desconhecidos ou desqualificados pelas instituições escolares e,<br />
por conseqüência, desprezados por elas. Os saberes dos educandos, muitas<br />
vezes, convivem com os saberes escolares, como se habitassem campos distintos,<br />
pois a instituição escolar tem dificuldade em dialogar com eles.<br />
O que efetivamente os educandos praticam na instituição escolar é o<br />
dialogo entre o que já sabem com os novos saberes que estão acessando.
Dessa forma, o processo escolar, em parte das vezes, não constitui «saberes<br />
novos», mas passa-se a «saber de outra forma». A prática dialógica efetiva<br />
pressupõe reconhecer que ninguém sabe tudo e que o que se sabe não se<br />
aprende de uma só vez. O conhecimento constitui-se por retomadas, por novas<br />
problematizações, por ampliações em processos permanentes de maturação<br />
do conhecimento.<br />
Os saberes dos educandos, sendo cotejados com outros saberes (apresentados<br />
pelas instituições escolares ou acessados por meio de pesquisa),<br />
promoveriam processos de ressignificação, com (a) a revisão de saberes já<br />
conhecidos, (b) a produção de novos saberes, (c) a apreensão de saberes importantes<br />
(mas ainda desconhecidos pelos educandos) e (e) o conhecimento<br />
de outra forma daquilo que já era conhecido.<br />
Esse processo, para alcançar os objetivos pretendidos, precisa estar<br />
vinculado às necessidades e aos interesses dos educando, cabendo à instituição<br />
escolar, e ao educador em particular, estimular, provocar e criar situações<br />
de aprendizagem impulsionadas pelo reconhecimento das necessidades dos<br />
educandos. Num segundo momento, é fundamental construir o desejo pelo<br />
conhecimento que transcende as necessidades imediatas do presente, que não<br />
se constrói pela coerção, mas por estímulos que respeitem interesses, necessidades,<br />
ritmos e processos de cada indivíduo. Os saberes e a arte compõem<br />
experiências que dão sentido à vida, associados ao prazer.<br />
Nessa perspectiva os educandos passariam a protagonizar o processo e<br />
organizar os conteúdos disponibilizados nas instituições escolares. Aos professores<br />
cabe buscar o equilíbrio entre “não-diretividade” e disponibilização dos<br />
bens culturais.<br />
Na educação superior e no ensino profissionalizante de nível técnico<br />
(EPNT), por sua vez, o educando é tencionado a dominar conjuntos de saberes<br />
e procedimentos que compõem perfis delimitados pelas tendências conjunturais<br />
do mercado de trabalho. Portanto é importante que as instituições escolares<br />
e o educador articulem essas demandas de forma aberta, numa visão<br />
efetiva de qualificação profissional, no sentido de que o educando compreenda<br />
os fundamentos e processos de sua área de atuação profissional. Para isso, se<br />
faz necessário romper modelos rigidamente disciplinares e fragmentados que<br />
visam fundamentalmente à acumulação de técnicas de trabalho.<br />
3. A implementação dos projetos (como outras formas não-diretivas)<br />
implica mudanças significativas nas relações de poder no interior das instituições<br />
escolares, em particular dos processos de avaliação e dos padrões de disciplina,<br />
que se constituem nos dois principais processos de regulação docente.<br />
Altera também as instâncias de definição e o que é definido como válido, o que<br />
deve ser produzido, qual e de quem é o saber a ser estudado, assim como “(…)<br />
produz e reproduz diferentes momentos, regras e práticas particulares” (Gore,<br />
1995, p. 14).<br />
75
76<br />
Moreira (1995) aponta, a partir de Giroux, a escola “(...) como uma arena<br />
política e cultural na qual formas de experiências e subjetividades são contestadas,<br />
mas também ativamente produzidas, o que o torna poderoso agente da luta<br />
a favor da transformação de condições de dominação e opressão” (p. 9).<br />
A alteração na forma como os currículos é elaborado e o trabalho pedagógico<br />
organizado permite criar as possibilidades de que os educandos possam<br />
constituir-se em protagonistas da constituição do seu conhecimento, implicando<br />
também que eles passem a influir de forma decisiva nos instrumentos<br />
regulatórios da vida escolar e da produção de cultura e identidade, pois<br />
(...) aquilo que está no currículo não é apenas informação — a organização<br />
do conhecimento corporifica formas particulares de agir, sentir, falar e «ver» o<br />
mundo e o «eu» (Popkewitz, 1995, p. 175).<br />
A tradição curricular oficial no Brasil sempre privilegiou os saberes,<br />
sendo poucas e recentes as iniciativas de rompê-la. Uma das mudanças pode<br />
ser constatada nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para Ensino Fundamental,<br />
que no Art. 3 o inciso IV dispõem que a “(...) base comum nacional<br />
e sua parte diversificada (das propostas curriculares) deverão integrar-se em<br />
torno do paradigma curricular, que vise a estabelecer a relação entre a educação<br />
fundamental e a (a) vida cidadã através da articulação entre vários dos<br />
seus aspectos 17 (...) e (b) as áreas de conhecimento 18 (...)” (Brasil, 1998). Os<br />
Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para Ensino Fundamental articularam<br />
esses dois grupos de objetivos propondo blocos de conteúdos para as áreas<br />
do conhecimento e os temas transversais para tratar dos aspectos da vida cidadã.<br />
Esse modelo curricular é importante constar, pois representa alterações na<br />
tradição brasileira ao propor um programa de formação de valores e condutas<br />
num mesmo plano que as áreas do conhecimento, em que pesem as críticas,<br />
tanto no formato como nos conteúdos dessas propostas (Cordiolli, 2001).<br />
Mas, ainda assim, os projetos pedagógicos e as propostas curriculares<br />
não tratam explicitamente da formação de valores e condutas, que são apresentadas<br />
de maneira genérica como a disposição ou intenção das instituições<br />
escolares de “preparação para a cidadania”, de “formação de valores humanistas<br />
ou cristãos”, “visão crítica do mundo”, etc. As práticas pedagógicas para<br />
a formação do caráter se dão a partir da ação individual dos educadores sem<br />
capacitação específica e, geralmente, destituídas de fundamentação teórica.<br />
Essas ações normalmente se expressam em práticas idealistas, mas educadores<br />
expressam a intenção da formação dos valores com os quais se identificam<br />
17 As DCNs para o Ensino Fundamental indicam como aspectos da vida cidadã os seguintes: (a) a saúde; (b) a sexualidade;<br />
(c) a vida familiar e social; (d) o meio ambiente; (e) o trabalho; (f) a ciência e a tecnologia; (g) a cultura; e<br />
(h) as linguagens.<br />
18 As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para o Ensino Fundamental definem as seguintes áreas do conhecimento:<br />
(a) Língua Portuguesa; (b) Língua Materna, para populações indígenas e migrantes; (c) Matemática; (d)<br />
Ciências; (e) Geografia; (f) História; (g) Língua Estrangeira (a partir do quinto ano); (h) Educação Artística; (i)<br />
Educação Física; e (j) Educação Religiosa, na forma do art. 33 da Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996.
ou que são propostos pelas instituições escolares, mas não concebem articulações<br />
pedagógicas específicas para atingir esse objetivo. Assim, os alunos são<br />
submetidos à regulação moral e aos processos de produção de sentidos sobre<br />
os quais não são consultados.<br />
Os estudos e estudiosos brasileiros se ocupam pouco desse tema. No<br />
entanto, alguns colegas vêm propondo a essência de currículos invisíveis de<br />
regulação moral (Moura, 2003), que não estariam explicitados nem seriam percebidos<br />
pelos próprios educadores. Esse currículo seguramente está fundado<br />
nas concepções majoritárias de nossa sociedade, reproduzindo os pressupostos<br />
fundamentais de nossa cultura, sem promover a reflexão e a crítica sobre eles.<br />
Esse debate coloca no “(...) centro do mapa — educacional e curricular — uma<br />
política de identidade” (Silva, 1995, p. 186).<br />
A organização do trabalho pedagógico na forma de projetos pode abrir a<br />
possibilidade de recolocar o educando na condição de protagonista e refletir sobre<br />
a regulação moral de seu ambiente cultural, de sua história de vida e suas histórias<br />
pessoais. Porém Silva afirma que não se trata de promover a inversão, supostamente<br />
priorizando uma cultura dominada em detrimento de outra dominante, mas<br />
(...) trata-se, ao contrário, de encarar as culturas dos grupos dominados<br />
de uma forma antropológica, como uma manifestação e expressão de formas de<br />
organizar a vida social que existem ao lado de outras, igualmente válidas. Nessa<br />
perspectiva, não se trata de «partir da cultura dominada», mas de interrogá-la,<br />
questioná-la, historiá-la, da mesma forma que se deve fazer com a cultura do-<br />
minante. Não é uma questão de superá-la, para entrar em outra, mas de colocar<br />
questões que revelem sua história que produziu as presentes identidades sociais e<br />
as colocou em relação subordinada na configuração social (Silva, 1995, p. 197).<br />
Nessa situação, educandos e educadores passam a construir propostas<br />
pedagógicas que redimensionam as relações de poder e de regulação moral<br />
nas instituições escolares.<br />
6. Um processo de transição e algumas considerações finais<br />
A educação brasileira parece estar “contaminada pela febre do novo” e da<br />
renovação, e os educadores e as coordenações parecem ter pressa em “fazer e<br />
acontecer”. Mas nenhum processo de mudança educacional efetiva — em direção<br />
a uma educação mais aberta e menos diretiva — vai ser alcançado pela imposição,<br />
pois mesmo a adesão formal dos educadores às proposições das direções não<br />
garante os esforços plenos para a sua implementação, e esta vai seguramente se<br />
defrontar com resistências de todo tipo. É importante reconhecer que<br />
(...) a cultura de um estabelecimento escolar é ativamente construída<br />
pelos atores, mesmo que essa construção permaneça, em grande parte, incons-<br />
ciente. Trata-se, afinal, de um processo dinâmico e evolutivo de um processo de<br />
aprendizagem (Gather Thurler, 2001, p. 90).<br />
77
78<br />
A cultura escolar, ainda segundo Gather Thurler,<br />
(...) estabiliza-se como um conjunto de regras do jogo que organiza a coo-<br />
peração, a comunicação, as relações de poder, a divisão do trabalho, os modos de<br />
decisão, as maneiras de agir e interagir, a relação com o tempo, a abertura para<br />
fora, o estatuto da diferença e da divergência (Gather Thurler, 2001, p. 90).<br />
As instituições escolares, ao pretenderem organizar o trabalho pedagógico,<br />
a partir da interação e da aprendizagem colaborativa, vêem-se diante da<br />
necessidade de que as relações entre os membros das equipes pedagógicas se<br />
constituam a partir dessa mesma perspectiva. Assim, é importante destacar<br />
dentre os elementos arrolados por Gather Thuler, citados anteriormente, o<br />
“estatuto da diferença e da divergência” que possa garantir a cada professor a<br />
possibilidade de começar do patamar em que se sinta seguro e de organizar os<br />
processos e ritmos de trabalho em função de suas condições. Para isso é importante<br />
não definir regras ou modelos rígidos, mas apostar nas aprendizagens<br />
coletivas e situações de interação docente na implementação de projetos.<br />
Há, no entanto, elementos da cultura escolar e curricular brasileira que<br />
precisam ser dimensionados adequadamente.<br />
A primeira é a nossa forte tradição disciplinar. O problema é bastante<br />
forte nos anos finais do Ensino Fundamental, no Ensino Médio e na educação<br />
superior, nas quais a instituições escolares dividem as atividades pedagógicas<br />
em disciplinas, que são ministradas por professores especialistas. Mas, nas<br />
etapas na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, em que<br />
a maioria das instituições escolares mantém a unidocência, a capacitação de<br />
educadores, as propostas curriculares, os sistemas de avaliação e a contabilização<br />
de carga horária se fazem a partir de uma grade disciplinar.<br />
Essa situação se constitui numa dificuldade significativa na implementação<br />
de projetos, mas penso que é possível encontrar soluções a partir de experiências<br />
concretas, vinculadas à cultura escolar de cada instituição. Os projetos<br />
podem nascer inicialmente restritos às práticas de turmas isoladas, talvez até<br />
na forma de projetos propostos e depois criar as possibilidades para os compartilhados.<br />
As coordenações pedagógicas podem propor algumas experiências-piloto,<br />
cujos resultados podem ser analisados e compartilhados por todos.<br />
Os projetos, às vezes, podem surgir do acaso, de situações surgidas na sala de<br />
aula ou de conversas informais com os colegas na sala dos educadores.<br />
Os projetos também podem nascer como pequenas experiências e ampliando<br />
o seu alcance a partir de balanço dos resultados e da aprendizagem<br />
com a prática. Enfim, temos diversas situações, e nenhuma regra impositiva a<br />
priori, como sempre diz Ana Bergaman: “faça sempre da forma que você acha<br />
correto, depois se disponha a refletir, organizar, estudar, procurando sempre<br />
melhorar, que você seguramente chega lá”.
A atividade pedagógica implica sempre fazer escolhas, e estas nem sempre<br />
são simples. Mas penso que os caminhos para a organização curricular e<br />
o trabalho pedagógico permitem diversas perspectivas que, se não são tomadas<br />
de maneira dogmática, podem articular formas diferentes como projetos,<br />
temas geradores, contextualização, problematização, constituição de mapas<br />
conceituais e ações inter, trans e multidisciplinares (também não-formalizadas<br />
previamente). Penso que a experiência de diferentes caminhos pode permitir,<br />
como já afirmei, questionar o que se faz por tradição e ampliar os limites de<br />
nossas possibilidades. A organização do trabalho pedagógico na forma de projetos<br />
permite, pelo menos em princípio, questionar as grades de tempos, de<br />
grupos e de saberes na sua essência, rearticulando-os aos processos de construção<br />
/ emancipação dos sujeitos. A ação dos educadores não seria, penso<br />
eu, a de apontar, a partir da posição de adulto 19 , os melhores caminhos para<br />
os educandos, mas de propiciar espaços para que eles construam o próprio<br />
caminho.<br />
É preciso também o esforço coletivo para alterar alguns cânones da<br />
cultura escolar brasileira. Logo a importância de: (a) combater a regulação padronizadora<br />
e o nivelamento dos educandos através das atividades de seleção,<br />
promoção e avaliação; (b) combater a segmentação dos processos de aprendizagem<br />
em disciplinas, etapas e modalidades, assim como romper com a linearidade<br />
de currículos e sistemáticas de avaliação; e (c) combater o formalismo e<br />
a burocracia, com regulação extremada dos tempos e espaços escolares.<br />
...<br />
Que este ensaio seja uma pequena contribuição para os que fazem e<br />
para os que desejem fazer, pois os nossos estudantes merecem formas de<br />
organização do trabalho pedagógico que lhes permitam olhar de frente para<br />
a vida como complexa, mas grávida de possibilidades, que se constrói com<br />
autonomia e ação cidadã. A organização do trabalho pedagógico na forma de<br />
projetos, penso eu, seria uma contribuição decisiva, embora não suficiente,<br />
para atingir esse objetivo.<br />
19 Na Educação Superior e no Ensino Profissionalizante de Nível Técnico (EPNT) seria a relação entre o profissional<br />
e/ou experiente diante do formando ou pouco experiente.<br />
79
80<br />
Referências<br />
AQUINO, J. G. Indisciplina: o contraponto das escolas democráticas. São Paulo: Moderna, 2003.<br />
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução CNE/CEB 02/98. Diário<br />
Oficial da União, Brasília, 15 abr. 1998. Seção 1, p. 31. Institui as diretrizes curriculares nacionais<br />
para o ensino fundamental.<br />
CERTEAU, M. de. A cultura no plural. Campinas: Papirus, 1995.<br />
CORDIOLLI, M. A transversalidade na formação de valores e padrões de conduta: algumas<br />
problematizações a partir e para além dos PCNs. I Jornada Internacional de Educação da Bahia. Livro<br />
da Jornada. Curitiba: Futuro, 2001.<br />
. A transversalidade na formação de valores e padrões de conduta: notas para um<br />
debate conceitual. III Jornada de Educação do Norte-Nordeste: Livro da Jornada. Curitiba: Futuro,<br />
2001b.<br />
. O currículo e as relações de inter, multi, trans, pluri e polidisciplinaridade na escola:<br />
notas para debate conceitual. Curitiba: Futuro, 2002. p. 303-314. (Temas em educação I. s.l.).<br />
FORQUIN, J. C. Escola e cultura. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.<br />
FERRAZ, M. F. Educação para o ambiente: uma experiência no ensino médio. São Carlos (SP):<br />
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2003.<br />
MOURA, G. O direito à diferença. Gestão em rede, ago. 2003. n. 46, p. 8-15.<br />
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POPKEWITZ, T. S. História do currículo, regulação social e poder. In: SILVA, T. T. da (Org.). O sujeito<br />
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VASCONCELOS, C. S. Coordenação do trabalho pedagógico: do projeto político-pedagógico ao<br />
cotidiano da sala de aula. São Paulo: Libertad, 2002.<br />
. Planejamento: projeto de ensino aprendizagem e projeto político-pedagógico. 8. ed.<br />
São Paulo: Libertad, 2001.<br />
VERMELHO, S. C. A subjetividade do trabalhador no contexto da produção integrada e flexível.<br />
São Paulo: PUC, 1997. (Dissertação de mestrado).
V<br />
Planejando e analisando as<br />
atividades didáticas em sala de aula<br />
Marielda Ferreira Pryjma 1<br />
Escrever um texto para contribuir com a prática docente dos professores<br />
da Educação Básica foi solicitado, pela equipe organizadora do Congresso de<br />
Educação, para sistematizar algumas temáticas vistas, presenciadas, assistidas<br />
durante o transcorrer do evento.<br />
Como vivenciei por muitos anos o cotidiano da Educação Básica, fiquei preocupada<br />
em retomar questões que pudessem, de fato, colaborar com o dia-a-dia<br />
escolar. Passei várias horas relembrando a rotina do colégio e tentei selecionar<br />
assuntos que conversávamos, problemas que enfrentávamos, sugestões de ações<br />
que encontrávamos para superar e melhorar a prática pedagógica. Espero que<br />
este texto possibilite reflexões sobre o processo de ensino. Tomei a liberdade de<br />
escrever o texto em primeira pessoa, porque tive a sensação que, assim, poderíamos<br />
estar conversando, como nos “velhos tempos” da rotina escolar.<br />
Todos nós sofremos as conseqüências advindas da crise ocorrida na década<br />
de 80 nos países industrializados. O grande desafio escolar passou a ser o<br />
atendimento de uma nova lógica: os saberes escolares propostos não atendiam<br />
mais os saberes necessários para as novas funções técnicas, sociais e econômicas,<br />
isto é, os saberes não correspondiam mais aos saberes solicitados pelo<br />
mercado de trabalho (Tardif, p. 45).<br />
1 Doutoranda em Educação (USP) e mestre em Educação (UFPR); professora da Faculdade <strong>Dom</strong> <strong>Bosco</strong> e da UNICEMP.<br />
81
82<br />
E a nossa profissão? De um momento para outro, o meio escolar começou<br />
todo um processo de revitalização, transformação e, por que não dizer,<br />
modernização. Contudo, nós, os <strong>docentes</strong>, sentimo-nos, neste contexto, totalmente<br />
perdidos em relação aos rumos a seguir.<br />
No Brasil, essa situação se agravou em função do andamento das<br />
políticas voltadas para a educação pública. Essa crise gerou uma migração,<br />
significativa, dos alunos para o ensino privado. A educação passou a ser o<br />
caminho para o ingresso profissional nas atividades desejadas e reconhecidas<br />
socialmente, para uma população maior que em outros momentos históricos<br />
(a profissão nem sempre esteve atrelada à educação formal). Sob essa ótica,<br />
o reconhecimento profissional, que deveria ser adquirido a partir dos conhecimentos<br />
escolares, passou a ser uma nova ordem social vigente, tornando os<br />
saberes escolares distantes desse mercado.<br />
O modelo capitalista, em que o consumo predomina, apesar de ser uma<br />
constatação frustrante, definiu os rumos dos conteúdos e saberes escolares.<br />
Paulatinamente, a escola deixou de ser um lugar de formação do indivíduo para<br />
se transformar numa formação de cunho mercadológico.<br />
De alunos, passamos a ter clientes, consumidores. Nossa prática docente<br />
precisou ser adequada para instrumentalizar os educandos. Sob outro olhar,<br />
está a comunidade escolar, também clientes, cobrando, exigindo e solicitando<br />
da escola um atendimentos a funções e atribuições que nem sempre eram tarefas<br />
dela. A aparência, conseqüência dessa nova lógica de consumo, envolveu<br />
o cotidiano escolar, redirecionando o trabalho docente para outras atividades<br />
que apresentassem “resultados” (festas, eventos), com vistas a manter o educando<br />
na escola.<br />
Nesse contexto, reinicia, sistematicamente, o processo de desvalorização<br />
dos professores e, por conseqüência, dos saberes escolares (a profissão<br />
docente tem um histórico que vale um aprofundamento teórico). O docente e<br />
a escola passaram a ser vistos como “ultrapassados”, com conteúdos escolares<br />
desnecessários para o futuro do aluno e os saberes tornaram-se saberes-instrumento,<br />
saberes-meio, um capital de informações mais ou menos úteis para<br />
o futuro do discente (Tardif, 2002, p.48).<br />
Obviamente, o trabalho docente, como o da maioria dos profissionais da<br />
educação, passou a sujeitar-se às solicitações sociais e do mercado de trabalho<br />
em nome do “bom atendimento” às novas exigências. Aqui se concretiza a desvalorização<br />
do professor como profissional: que estaria cumprindo seu papel ao<br />
informar ou transmitir o que seria considerado “útil” pelos novos consumidores.<br />
Concomitantemente a essa situação surgiu o acesso, quase em massa, aos<br />
computadores, e era comum ouvir que seríamos substituídos por eles.<br />
A maioria de nós, educadores, vivenciamos essa situação. Atualmente<br />
tenho total autonomia para confessar: tive a nítida impressão, nesse momento,
que teria escolhido a profissão errada e que teria que aprender a desempenhar<br />
um outro “ofício”, porque o magistério não teria futuro algum. Além dessa<br />
situação profissional, tínhamos os “fantasmas” que assombravam as escolas<br />
privadas: a manutenção dos alunos-clientes para a manutenção dos nossos<br />
empregos.<br />
A valorização da categoria docente está, vagarosamente, se processando.<br />
Os alunos formados a partir do que foi relatado, chegaram ao ensino<br />
superior e ao mercado de trabalho. Uma nova crise surgiu: este novo profissional<br />
“não sabe pensar”, “não tem iniciativa”, “não consegue utilizar os conteúdos<br />
aprendidos nos bancos escolares para solucionar as questões surgidas<br />
no cotidiano de trabalho. Novamente os olhares se voltam para a escola e<br />
surge a percepção de que a educação poderia suprir tal deficiência. Aparece,<br />
novamente, a figura do professor, necessária para alcançar os novos objetivos.<br />
Neste contexto, a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB<br />
9394/96) emerge solicitando, formalmente, o resgate da formação integral do<br />
indivíduo.<br />
Apesar da lei, a cultura do “cliente” permaneceu na sociedade e mudar<br />
este quadro tem gerado, por parte dos educadores, grande dedicação, empenho<br />
e profissionalização.<br />
Chegamos aonde, a meu ver, está a fragilidade do processo e a razão de<br />
estarmos discutindo o papel do professor em relação ao ensino e à aprendizagem.<br />
O que estou fazendo de errado? Por que meus alunos aparentam tanta<br />
desmotivação? Que caminhos poderei seguir? Como me tornar um bom profissional?<br />
Que aspectos melhorariam a minha prática docente?<br />
É possível perceber que existe, num contexto nacional, um descontentamento,<br />
um senso de fracasso, um sentimento de impotência por parte do<br />
professorado. No outro lado existem os alunos, desmotivados, envolvidos com<br />
todas as tecnologias que surgem dia-a-dia, obrigados a ir para a escola. O que<br />
está acontecendo? O que tem gerado essa falta de sintonia? Será que a nossa<br />
missão é algo “impossível”?<br />
Calma! Esse contexto foi apresentado para que possamos nos situar e<br />
entender que a condição que permeia o trabalho docente não é algo isolado, ela<br />
está histórica e socialmente situada. O cerne da questão está em compreender<br />
esse processo, posicionar-se e reagir para transformar, definitivamente, a educação.<br />
Aqui o ditado “uma andorinha não faz verão” não se aplica, ocorre justamente<br />
o contrário: se cada um fizer a sua parte, o todo terá sua melhoria.<br />
Para formar integralmente o indivíduo, o professor deve lançar um novo<br />
olhar sobre sua profissão. Aqui está a principal decisão a ser tomada: você quer,<br />
verdadeiramente, seguir esta caminhada? Se a sua resposta for sim, prepare-se<br />
para dar o primeiro passo: não basta somente dominar o conteúdo específico da<br />
sua disciplina ou área do conhecimento, agora o papel do professor necessita<br />
83
84<br />
uma nova configuração. Na verdade, esta situação, a profissionalização do professor,<br />
acompanhou uma tendência mundial que propôs a qualificação de todas<br />
as áreas profissionais, como uma condição básica para acompanhar as inovações<br />
tecnológicas, superar os desafios sociais, solucionar as crises de violência,<br />
entre outros fatores. Então, não se sinta “cobrado” profissionalmente, sinta-se<br />
orgulhoso em fazer parte de uma equipe que está considerando essencial o<br />
desenvolvimento e aprimoramento do profissional da educação para a melhoria<br />
do país como um todo.<br />
Para formar um aluno crítico e autônomo, é fundamental um professor<br />
crítico e autônomo. Professor Demo afirma que a aprendizagem dos alunos é<br />
proporcional à aprendizagem dos professores. Para que a aprendizagem se<br />
efetive é necessário que esse processo seja bom para os dois lados: aluno e<br />
professor (Demo, 2000, p.42).<br />
Os <strong>docentes</strong> rumam para uma autonomia profissional, esta é a expectativa<br />
do meio educacional. Contudo, o que separa o professor da tão sonhada<br />
autonomia é, justamente, a ausência de teoria. Explicando melhor: em sua formação<br />
inicial (graduação) o docente teve uma grande ênfase na área específica<br />
de conhecimento escolhido (língua, matemática, história, geografia, ciências<br />
biológicas, química, física, artes, música, educação física, etc.). A formação<br />
para atuar enquanto docente não teve a mesma prioridade (exceto para quem<br />
se formou para atuar na educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental),<br />
desencadeando essa ausência de autonomia. Além disso, a “forma”<br />
como os temas relacionados à docência eram trabalhados, cerceavam toda a<br />
criatividade do futuro professor (Nóvoa, 1994).<br />
O professor é um profissional do conhecimento e não combina com ele<br />
a busca por soluções temporárias para os seus problemas enfrentados no cotidiano<br />
escolar. Por muito tempo a “profissionalização” dos professores esteve<br />
atrelada a modelos de aulas, exemplos de procedimentos, “receitas prontas”<br />
para complementar a sua formação. Esse professor buscava nesta “pseudo”<br />
profissionalização a solução para todas as angústias.<br />
Porém, o enfrentamento da realidade escolar, as desigualdades sociais e<br />
a dinâmica da realidade social se configuravam das mais diversas formas. Para<br />
que nós possamos enfrentar tantos desafios, precisamos considerar nossas condições<br />
reais de atuação para podermos construir a nossa história profissional.<br />
Retornemos um pouco o texto e resgatemos a questão da desvalorização<br />
do professor. Ele, como profissional, é criticado pela atuação em diferentes instâncias<br />
e a crítica a sua atuação acaba se configurando como crítica à pessoa<br />
do professor. Separemos os fatos: o indivíduo e o que atua como docente. O<br />
indivíduo, a pessoa que exerce optar pela carreira docente já tem suficientes<br />
problemas para superar em sua vida.
Enquanto profissional ele precisa retomar alguns aspectos que permeiam<br />
sua atuação. Por isso, as críticas ao trabalho do professor não são infundadas<br />
e cabe aqui melhor explicação. Ele precisa retomar a condição de intelectual<br />
perante a sociedade, carece elucidar seu pensamento crítico, reconstruir sua<br />
função social, sublimar as dificuldades e dar novo sentido para sua profissão.<br />
A carreira docente só existe se existir o aluno, isto implica numa relação ambígua,<br />
essencial e vamos considerar aluno e professor peças-chave neste processo,<br />
um necessita do outro para existir.<br />
Para resolver seus problemas, o docente e o aluno precisam saber problematizar<br />
(problematizar algo é muito mais complexo que resolver um problema<br />
isolado). Sabe-se que nem tudo tem solução, e o segredo na resolução<br />
dos problemas é administrá-los com inteligência para entender a realidade de<br />
forma sistêmica (Demo, 2002, p.48).<br />
Educar para o desenvolvimento integral do indivíduo é levá-lo a perceber<br />
que os problemas da vida são infinitos, mas as soluções não. Saber problematizar,<br />
“desproblematizar”, pensar criticamente fazem parte do processo de<br />
aprendizagem inteligente que busca saber administrar esses problemas. Nessa<br />
aprendizagem, aluno e professor devem almejar construir novas conexões, novos<br />
padrões, novas interpretações para o conhecimento buscando aprofundar<br />
essa aprendizagem.<br />
Em alguns momentos o professor precisará “desaprender”, reconstruir<br />
os conhecimentos existentes em prol da superação de limites e desafios. Isso<br />
significa afirmar que a aprendizagem é parceira da dúvida, do questionamento:<br />
conhecimento solucionará problemas; conhecimento desenvolve conhecimento;<br />
dúvidas desencadeiam soluções; soluções geram novos problemas. A dinâmica<br />
escolar envolve diferentes condições, saberes, soluções, complexidades.<br />
Para o reconhecimento profissional, o professor precisa ter conhecimento<br />
específico de sua área e conhecimento da ação docente. O seu saber só é<br />
posto em prática, em evidência, quando se manifesta a partir das relações com<br />
o outro (aluno), com o coletivo (turma).<br />
O conhecimento do professor se constrói num processo longo e progressivo.<br />
Saber é “essencialmente social e é, ao mesmo tempo, o saber dos atores<br />
individuais que o possuem e o incorporam à sua prática profissional para a ela<br />
adaptá-lo e para transformá-lo” (Tardif, 2002, p.15).<br />
Os saberes do professor são múltiplos e começam na sua experiência<br />
escolar enquanto aluno e essa situação é muito marcante, sendo relembrada<br />
frequentemente em seu dia-a-dia, ora por repetir as ações de seus professores,<br />
ora por negá-las. Ensinar é um processo de aprendizagem que o professor<br />
dominará paralelamente para a realização do seu trabalho. A sua carreira é<br />
construída e marcada pelo saber profissional.<br />
85
86<br />
Para construir a nossa carreira, cabe considerarmos alguns aspectos<br />
que estruturam a nossa prática educativa. Todos os saberes e/ou conteúdos<br />
curriculares são informações externas, temas pesquisados e produzidos em<br />
outras instâncias, fora da educação básica. O professor não os controla, não os<br />
produz, e o cuidado que se deve ter é evitar uma relação alienada com esses<br />
saberes. Os saberes <strong>docentes</strong> precisam ser construídos pelo professor de uma<br />
base teórica (relações interpessoais, didática, metodologias de ensino, processos<br />
de avaliação, teorias de ensino, filosofia, sociologia, legislação educacional)<br />
para buscar sua profissionalização. Isso significa afirmar que para ser “bom<br />
professor”, “bom profissional”, é necessário o domínio, compreensão, construção,<br />
atualização de duas situações: o saber específico da sua área de atuação<br />
e o saber docente.<br />
A partir dessas considerações, afirmar que aprender, durante o processo<br />
de ensinar, é muito mais significativo do que o fato de saber propriamente o<br />
conteúdo escolar.<br />
“Ser um eterno aprendiz” (parte da letra da música “O que é o que é”<br />
de Gonzaguinha) é a essência da profissionalização docente. Tardif é enfático<br />
ao afirmar que:<br />
Quanto menos utilizável no trabalho é um saber, menos valor profissional<br />
parece ter. Nessa ótica, os saberes oriundos da experiência de trabalho cotidiano<br />
parecem constituir o alicerce da prática e da competência profissionais, pois essa<br />
experiência é, para o professor, a condição para aquisição e produção de seus<br />
próprios saberes profissionais. A experiência de trabalho é, portanto, apenas um<br />
espaço onde o professor aplica saberes, sendo ela mesma saber do trabalho sobre<br />
saberes, em suma: reflexividade, retomada, reprodução, reiteração daquilo que<br />
se sabe naquilo que se sabe fazer, a fim de produzir sua própria prática profissio-<br />
nal (Tardif, 2002, p. 21).<br />
Construir sua carreira profissional não pode ter um tom de pesar. Ser<br />
professor é uma grande oportunidade que temos para contribuir com a melhoria<br />
e transformação social. Isso não é uma utopia, é um valor profissional que<br />
acompanha a carreira de muitos educadores: acreditamos no magistério, gostamos<br />
de superar desafios, buscamos ajuda sempre que necessário, discutimos<br />
nossas angústias e, creiam, compartilhamos nossas falhas.<br />
Gostaria que soubessem que na minha área de pesquisa, formação de<br />
professores, encontro situações muito similares, em grupos diferentes. Os<br />
professores, de modo geral, querem acertar, adorariam ter reconhecimento<br />
profissional, gostariam de trocar experiências (é importante encontrar no outro<br />
o apoio de que precisam), dividem frustrações e erros. Não quero expor a<br />
fragilidade da categoria, minha intenção é que percebam que muito dos nossos<br />
problemas educacionais poderiam ser solucionados por nós mesmos, com a<br />
ajuda teórica de outros <strong>docentes</strong>.
Enfrentar problemas é uma situação corriqueira no dia-a-dia da sala<br />
de aula. Solucioná-los de forma adequada é onde está o grande desafio, mas<br />
acreditem, praticamente todas ou quase todas as situações adversas vividas<br />
em sala de aula, já foram objetos de estudo. Então, vamos aos livros: lê-los,<br />
discuti-los, entendê-los e buscar na experiência do outro a solução para o<br />
nosso problema. Na minha solução pode estar a solução para o problema do<br />
outro professor. É assim que ocorrem as pesquisas na área de educação: uma<br />
experiência relatada e analisada teoricamente é o ponto de partida para uma<br />
nova investigação, pesquisa bibliográfica e assim, sucessivamente.<br />
Sinto que, muitas vezes, o professor não acredita em si mesmo, na sua<br />
atuação, que ela poderia ser considerada “inovadora”, que atenderia aos anseios<br />
sociais e que possibilitariam a melhoria da prática educativa. Se esse professor<br />
tivesse o hábito de acompanhar as novas produções do conhecimento na<br />
área educacional, poderia despertar nele o espírito investigativo, possibilitando<br />
construir sua carreira profissional sobre novos alicerces. Isso é que chamamos<br />
de autonomia: o domínio do conteúdo associado ao domínio do processo de<br />
ensino e aprendizagem que darão ao professor liberdade para criar, alterar e<br />
transformar, de fato, a educação.<br />
Eu não sei se você já teve a oportunidade de ouvir a música “Tente outra<br />
vez”, do Raul Seixas. Possivelmente já a tenha ouvido. Entretanto, se você<br />
estiver precisando de uma “injeção de ânimo” e ouvi-la num momento em que<br />
possa perceber a profundidade de sua letra, refletir sobre sua mensagem, com<br />
certeza a entenderá de uma forma diferente das outras vezes que a ouviu,<br />
como se fosse algo especial, único, escrito para você.<br />
Para pensar em sua carreira docente: o que faria se pudesse começá-la<br />
novamente com a experiência atual? Teria mais paciência? Mudaria sua postura?<br />
Relevaria alguns acontecimentos? Agiria diferente? Seria um melhor profissional?<br />
Valls (1996) indica procedimentos de ensino para os conteúdos escolares,<br />
mas toda a sua solicitação está em redescobrir o significado e o sentido do<br />
conjunto das atividades escolares propostas aos alunos). Zabala (1999, 2000)<br />
parte do mesmo pressuposto, todo o currículo escolar deve ser adequado à<br />
compreensão e ao sentido do aprendizado.<br />
Compartilhar com os nossos pares o cotidiano escolar é outro caminho<br />
simples. Garcia elaborou um programa para professores iniciantes, no intuito de<br />
contribuir com o desenvolvimento desses profissionais. Para ele, um professor<br />
de apoio é essencial, isto é, “um professor com experiência que apóia o novo<br />
professor e o ajuda a compreender a cultura da escola. O professor de apoio ou<br />
professor mentor desempenha um papel de grande importância, pois é a pessoa<br />
que ajuda e dá orientações ao professor principiante (Garcia, 2002. p. 124).<br />
A partir da experiência apresentada é possível utilizarmos a sua idéia para<br />
dar um novo sentido ao papel do professor: ser um docente de apoio ou mentor,<br />
87
88<br />
não precisaria se restringir ao início da carreira, isso poderia ser uma condição<br />
permanente, coletiva, dialógica e criativa. Isso é essencial, cada turma tem uma<br />
característica própria e o planejamento diário deve considerar esse pressuposto.<br />
Retomando as questões propostas inicialmente, proponho que o corpo<br />
docente busque, em sua experiência profissional, uma nova alternativa de atuação,<br />
compartilhando essas situações com seus colegas e tendo como pano de<br />
fundo, constantemente, a teoria que fundamenta a educação.<br />
Quando ouço essa música renovo minhas perspectivas. Ela não é uma<br />
música nova, mas a cada situação, contexto, experiência, necessidade, ela se<br />
torna totalmente original para mim, é como se a minha vida e a minha profissão<br />
pudessem ser revitalizadas. A originalidade, para mim, está aí, no “novo” olhar<br />
que despendo para algo “velho”, para uma letra de música já conhecida, por<br />
exemplo. Na nova sensação, que permito ter a cada revitalização, tenho novas<br />
esperanças, expectativas, credibilidade, confiança ou, quem sabe, ilusão de que<br />
estaria contribuindo significativamente para a educação do meu país. Ser original,<br />
um bom professor, é ter um novo olhar sobre a nossa atuação profissional, é<br />
reescrever nossa trajetória, é uma releitura das experiências que já vivemos.<br />
Inovar na educação pode ser uma atitude que está próxima de nós: a transmissão<br />
dos conhecimentos por si só não tem valor algum, mas tornar esse conhecimento<br />
útil, contextualizado, histórica e socialmente situado, poderá dar sentido<br />
à formação e ao desenvolvimento intelectual do educando. Parece uma atitude<br />
simples? Pois, de fato, é e a sabedoria traz em sua essência a simplicidade.<br />
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Artes Médicas Sul, 2000.<br />
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IMBERNÓN, F. (Org.). A educação no século XXI: os desafios do futuro imediato.<br />
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TARDIF, M. <strong>Saberes</strong> <strong>docentes</strong> e formação profissional. Petrópolis, RJ: Vozes,<br />
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VALLS, E. Os procedimentos educacionais: aprendizagem, ensino e avaliação.<br />
Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1996.<br />
ZABALA, A. (Org.). Como trabalhar os conteúdos procedimentais em<br />
aula. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.<br />
ZABALA, A. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: Artes Médicas<br />
Sul, 1998.
VI<br />
O relevante papel do professor no<br />
ensino de Matemática Ângela Ferreira Pires da Trindade 1<br />
Se perguntarmos aos professores por que a matemática deve ser ensinada<br />
nas escola, certamente teremos como resposta o fato de que a matemática<br />
está presente em tudo na vida, ou porque desenvolve o raciocínio. Se,<br />
porém, perguntarmos a esses mesmos professores sobre as dificuldades que<br />
enfrentam ao ensinar matemática, ou mesmo da antipatia de muitos alunos<br />
por essa área do conhecimento, ouviremos que a matemática está distante da<br />
realidade, ou que é muito abstrata, ou ainda que não serve para nada a maioria<br />
dos conteúdos de matemática ensinados na escola.<br />
Esses possíveis posicionamentos, tão contraditórios e que têm afligido<br />
grandemente esses profissionais da educação, podem ser comprovados através<br />
de inúmeras pesquisas feitas dentro do contexto escolar, tanto no Brasil<br />
como fora dele.<br />
Observando esses mesmos professores e analisando a sua concepção de<br />
matemática, notamos que são basicamente duas as visões que os professores<br />
têm da matemática.<br />
a) Visão formalista: Consiste em estruturar o assunto a ser estudado<br />
seqüencialmente, ou seja, primeiro se definem os conceitos básicos;<br />
em seguida, novos conceitos são definidos a partir dos básicos; e,<br />
1 Mestranda em Educação (UFPR), professora do Colégio <strong>Dom</strong> <strong>Bosco</strong> e dos Cursos de Pedagogia e Administração da<br />
Faculdade Presidente Kennedy (PR).<br />
89
90<br />
posteriormente, novas proposições são descobertas e justificadas a<br />
partir dos conceitos já definidos. Um exemplo simples seria a idéia<br />
de que para dividir é necessário saber multiplicar e subtrair, ou seja,<br />
uma seqüência de pré-requisitos. Sabemos, no entanto, que as idéias<br />
envolvidas nas operações não dependem umas das outras. A própria<br />
Matemática não evoluiu de forma linear e logicamente organizada.<br />
Desenvolveu-se com movimentos de idas e vindas, com rupturas de<br />
paradigmas e seguindo caminhos diferentes em cada civilização. Fazse<br />
necessária essa colocação por ser uma preocupação que angustia<br />
muito os professores e os aprisiona, impedindo assim maior leveza e<br />
aproveitamento das situações que ocorrem em sala de aula ou fora<br />
dela. Quando se propõe aproveitar situações, não é no sentido de<br />
improviso, tal como um ator que age em função de um argumento ou<br />
da trama, mas de liberdade e criatividade no exercício de sua ação.<br />
b) Visão platônica: Esta visão está centrada na idéia de que a Matemática<br />
é assunto para mentes sobre-humanas, gênios, extra-terrestres,<br />
que somente pessoas com poderes especiais são capazes de criá-la<br />
e desenvolvê-la. Essa visão leva muitos a crerem que a Matemática<br />
não tem história, não é construção humana, e que apenas tem relação<br />
com a própria matemática. Essa postura é evidente quando o<br />
professor justifica a necessidade de aprender determinado conteúdo<br />
colocando-o como pré-requisito para a série seguinte. Parece mostrar<br />
que a Matemática se desenvolve atendendo às solicitações da própria<br />
ciência, sem que haja qualquer ligação com a prática.<br />
A escola, embora não seja a única instância de transmissão do conhecimento<br />
científico, é por excelência a instituição incumbida disso. A posse desses<br />
conhecimentos historicamente acumulados proporciona outras formas de ver e<br />
compreender o mundo, abrindo possibilidades de mudanças na ação cotidiana<br />
das pessoas.<br />
Cabe à escola proporcionar a reflexão a respeito da colaboração que a<br />
Matemática tem a oferecer com vistas à formação da cidadania, desenvolvendo<br />
metodologias que enfatizem a construção de estratégias, a comprovação e<br />
justificação de resultados, a criatividade, a iniciativa pessoal, o trabalho coletivo<br />
e a autonomia resultante da confiança na própria capacidade de enfrentar<br />
desafios.<br />
A missão dos educadores é preparar as novas gerações para o mundo<br />
em que terão que viver. Isso quer dizer proporcionar-lhes o ensino necessário<br />
para adquirirem as destrezas e habilidades que vão necessitar para seu desempenho,<br />
com comodidade e eficiência, no seio da sociedade que enfrentarão ao<br />
concluir sua escolaridade. Além de todos esses fatores citados, que parecem<br />
ser conquistas a longo prazo, não podemos perder de vista o fato de que as<br />
crianças, sem domínio da matemática, ficarão desconfortáveis não apenas na
escola, mas em grande parte de suas atividades cotidianas: quando compartilham<br />
bens com seus amigos, planejam gastar sua mesada, discutem sobre velocidade<br />
e distância, viajam e têm que lidar com moedas diferentes e quando,<br />
finalmente, começam a entender o mundo do dinheiro. Para isso, a escola deve<br />
estar em contínuo estado de alerta para adaptar seu ensino.<br />
O mais intrigante, no entanto, é o fato de que os pais e professores que<br />
têm consciência da utilidade da matemática em todos os âmbitos da vida — o<br />
trabalho, o acadêmico, o esportivo, o artístico — não têm conseguido transmitir<br />
às crianças essa utilidade da matemática que alguns deles percebem<br />
claramente.<br />
É especialmente surpreendente o que acontece com algumas crianças<br />
que, embora não tenham tomado consciência dessa utilização extra-escolar<br />
da matemática, têm experiências muito ricas nesse sentido. Cabe ao professor<br />
fazer um esforço para que as crianças descubram, desde o princípio, que a<br />
utilidade da matemática ultrapassa os muros da escola.<br />
Além do valor utilitário da Matemática como ferramenta que serve para<br />
a atuação diária e para muitas atividades específicas de quase todas as atividades<br />
laborais, não podemos nos esquecer que a matemática tem um valor<br />
formativo, que ajuda a estruturar todo o pensamento e a agilizar o raciocínio<br />
dedutivo. O ensino da Matemática deve ser um constante equilíbrio entre a<br />
matemática formativa e a informativa, ou seja, podemos “formar informando”<br />
ou “informar formando”.<br />
O cientista matemático não comunica os resultados de suas pesquisas<br />
tal como obteve, mas reorganiza, atribui-lhes uma forma mais geral possível,<br />
descontextualizada e fora de um contexto temporal. Ao professor cabe o trabalho<br />
inverso, ou seja, uma recontextualização do saber: procura situações que<br />
dêem sentido aos conhecimentos a serem ensinados.<br />
O papel do professor passa a ter duas faces que parecem contraditórias,<br />
pois primeiramente faz viver o conhecimento, que ele seja produzido por parte<br />
dos alunos como resposta a uma situação familiar, e depois deve transformar<br />
essa “resposta razoável” em objeto cultural. O professor é muitas vezes tentado<br />
a pular essas etapas e ir direto ao saber como objeto cultural, deixando<br />
a cargo do aluno a apropriação do saber, que acontecerá como este conseguir<br />
fazê-lo.<br />
O maior desafio e mais difícil papel do professor, ao ensinar matemática,<br />
é o de dar um sentido aos conhecimentos e, sobretudo, reconhecê-los. Muito<br />
difundida é a idéia de que os conhecimentos podem ser ensinados, mas a<br />
compreensão e o significado são responsabilidade dos alunos. Isso se deve ao<br />
fato de que é possível institucionalizar o conhecimento, e aparentemente não<br />
se pode fazer o mesmo com o sentido.<br />
91
92<br />
Para desempenhar seu papel de mediador entre o conhecimento matemático<br />
e o aluno, o professor precisa ter um sólido conhecimento dos conceitos<br />
e procedimentos dessa área, e a concepção da Matemática não como uma ciência<br />
de verdades infalíveis e imutáveis, mas sempre aberta à incorporação de<br />
novos conhecimentos. Só assim terá flexibilidade e sensibilidade para discutir<br />
e promover discussões sobre as diferentes maneiras de se construir o conhecimento<br />
matemático, e para compreender as diferentes formas de pensamento<br />
e estratégias utilizadas pelos alunos. Reconhecemos que não é uma tarefa fácil<br />
e que não existem receitas mágicas a serem seguidas.<br />
Piaget, em um dos poucos artigos que aborda a Educação Matemática,<br />
discute três princípios gerais que devem ser discutidos:<br />
a) A compreensão real de uma noção ou teoria implica na re-invenção<br />
dessa teoria pelo sujeito. O papel do professor é o de organizar situações<br />
que provoquem curiosidade e busca de solução por parte da<br />
criança.<br />
b) Em todos os níveis, a criança é sempre mais capaz de fazer e compreender<br />
na ação do que na verbalização dos princípios nos quais se<br />
baseiam suas ações. Discussões com os colegas e professores favorecem<br />
a verbalização e a conscientização.<br />
c) As representações ou modelos matemáticos devem corresponder à<br />
lógica da criança e a formalização não precisa se dar imediatamente,<br />
mas posteriormente, como sistematização das noções adquiridas.<br />
Não é apenas o uso de material concreto, mas sim o significado da situação,<br />
as ações da criança e sua reflexão que contribuirão para apreensão dos<br />
conceitos matemáticos. O ensino de regras destituídas de significado pode ser<br />
a causa das dificuldades que muitas crianças encontram ao tentar utilizar os<br />
algoritmos, enquanto que outras crianças os utilizam porque mecanizaram e os<br />
exercícios nos quais estão inseridos muitas vezes fornecem pistas sobre quais<br />
algoritmos devem ser utilizados.<br />
O primeiro trabalho da professora na escola é criar situações bastante interessantes,<br />
envolventes, que permitam desenvolver ações físicas ou mentais<br />
e refletir sobre essas ações, descobrindo as propriedades lógico-matemáticas<br />
subjacentes a essa ação. Não basta, porém, criar situações, utilizar materiais<br />
concretos ou jogos e deixar que as crianças passem por essas atividades como<br />
se fossem rituais. Cabe ao professor participar o tempo todo das atividades,<br />
dando pistas, conduzindo as crianças às descobertas, explorando os diferentes<br />
aspectos das situações que podem constituir problemas interessantes que permitam<br />
ao aluno fazer novas descobertas.<br />
Da mesma forma, o professor pode produzir novas compreensões e conseqüentemente<br />
novos conhecimentos sobre o processo de ensinar e aprender matemática<br />
através da criação de um espaço colaborativo onde as crianças tenham
oportunidade de discutir coletivamente suas ações através de momentos distintos<br />
de reflexão:<br />
a) Antes da ação: momento em que os professores discutem seus encaminhamentos<br />
e propostas de atividades.<br />
b) Durante a ação: são as reflexões produzidas pelos professores durante<br />
a realização das aulas; é o momento em que se discutem as<br />
dificuldades encontradas, os dilemas.<br />
c) Após a ação: momento em que se discutem e avaliam os procedimentos,<br />
os avanços, além de projetar novas ações para as aulas<br />
seguintes.<br />
Esse processo colaborativo pode ser chamado de pesquisa-ação, pois<br />
embora cada professor tenha a sua própria prática todos colaboram com reflexões,<br />
análises e sugestões, tanto para a investigação quanto para o desenvolvimento<br />
do trabalho pedagógico do outro.<br />
Esses momentos de reflexão, em que o professor avalia a sua própria<br />
prática, são de suma importância para que haja mudança de postura e atitudes<br />
quando necessário, pois o papel fundamental do professor de matemática de<br />
qualquer nível é o de educador e seu foco é promover uma educação pela matemática,<br />
não perdendo de vista a relação professor-aluno-aprendizagem.<br />
Embora tanto os matemáticos como os educadores matemáticos tenham<br />
em comum a matemática, olham para esse campo do saber de forma<br />
distinta. Diferentemente do matemático, que tende a conceber a matemática<br />
como um fim em si mesmo, preocupado em produzir, por meio de processos<br />
hipotético-dedutivos, novos conhecimentos e métodos que possibilitem o desenvolvimento<br />
da matemática pura e aplicada, o educador matemático realiza<br />
seus estudos tendo como perspectiva o desenvolvimento de conhecimentos<br />
matemáticos e práticas pedagógicas que contribuam para uma formação mais<br />
integral, humana e crítica do aluno e do professor, colocando a matemática a<br />
serviço da educação.<br />
93
94<br />
Referências<br />
ALENCAR, E. S. Novas concepções da psicologia aos processos de ensino<br />
e aprendizagem. São Paulo: Cortez, 1995.<br />
FIORENTINI, D. Por trás da porta, que matemática acontece? Campinas:<br />
Gráfica FE/Unicamp, 2001.<br />
_____; LORENZATO, S. Investigação em educação matemática: percursos<br />
teóricos e metodológicos. Campinas, SP: Autores Associados, 2006. (Coleção<br />
Formação de Professores).<br />
NUNES, T.; BRYANT, P. Crianças fazendo matemática. Tradução de: Sandra<br />
Costa. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.<br />
Parâmetros Curriculares Nacionais. Matemática. Secretaria de Educação<br />
Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998.<br />
PARRA, C.; SAIZ, I. et. al. Didática da matemática: reflexões psicopedagógicas.<br />
Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.<br />
REVISTA DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA. N. 27, 1 o quadrimestre de 1995.<br />
ZUNINO, D. L. de. A matemática na escola: aqui e agora. Porto Alegre: Artes<br />
Médicas, 1995.
Qualidade de vida, subjetividade e<br />
interação<br />
Fernanda Pires Bertuol 1<br />
Qualidade de Vida deve ser objeto de preocupação no tempo de trabalho e<br />
de não-trabalho, pois, caso contrário, teremos um tempo de não-trabalho apenas<br />
compensando a falta de qualidade do tempo de trabalho, numa função de mera<br />
reposição de energias perdidas ou desperdiçadas.<br />
Subjetividade e cultura<br />
VII<br />
Moreira, 2001<br />
A cultura, fomentada pela sociedade ao longo dos acontecimentos históricos,<br />
conduz a própria sociedade a uma visão de mundo, bem influente no<br />
estilo de vida das pessoas, o qual se apresenta caótico, ao nos reportarmos:<br />
à relação consumista do homem com o meio ambiente; ao que representa o<br />
tempo na vida das pessoas; às exigências e ao significado do trabalho; à falta<br />
de alternativas de lazer e à má administração do tempo livre; aos conflitos<br />
de relacionamento intra e interpessoal; aos problemas de saúde, geralmente,<br />
psicossomáticos; à dificuldade de solucionar problemas e administrar conflitos;<br />
1 Mestranda em Educação na PUC-PR, especialista em Modalidades de Intervenção no Processo de Aprendizagem<br />
(PUC—PR), administradora responsável pela empresa Movimento Temático: Educação para a Qualidade de Vida<br />
Ltda., sediada em Curitiba (PR).<br />
95
96<br />
ao fácil acesso à informação em contraposição à dificuldade de aprender e de,<br />
principalmente, aplicar o conhecimento; e à falta de motivação, criatividade,<br />
interesse e iniciativa no que refere às atividades cotidianas.<br />
Na luta pela vida, o homem busca tanto assegurar sua existência, no<br />
aspecto mais natural, quanto satisfazer suas necessidades e desejos. Porém o<br />
que permite apreender a relação do homem existente com sua existência são<br />
sua objetividade e intencionalidade na interação com o meio e consigo mesmo,<br />
ao passo que pertence, ou seja, se torna existente à existência, na luta consciente<br />
pela vida, e não somente na luta pela existência (Levinás, 1998).<br />
A subjetividade humana é construída na interação do homem com o<br />
mundo, segundo sua percepção de si mesmo nas situações de aprendizagem.<br />
Como “toda situação tem uma significação imediatamente perceptível, a<br />
partir da qual se esboça um plano de ação, um projeto, um pensamento determinante<br />
em relação a ela” (Fonseca, 1998, p. 200), a subjetividade encontrase<br />
imersa nos condicionamentos dos meios.<br />
Ao mesmo tempo, se constrói a subjetividade na interação do sujeito com<br />
o mundo e constrói o mundo. Ela se expressa e manifesta pelos sentidos do<br />
corpo, os quais realizam a comunicação do indivíduo com o mundo e nos quais a<br />
linguagem imprime seu papel fundamental: o movimento intencional que permite<br />
ao homem pertencer a dado tempo e espaço, tornando-se sujeito histórico.<br />
Tavares (2003, p. 110) afirma que:<br />
a experiência de subjetividade introduz a experiência de objetividade. A primeira<br />
imagem procede do corpo. As imagens do mundo se formam de modificações no<br />
corpo que podem ser, assim, decodificadas em imagens. Partindo da diferencia-<br />
ção do que são imagens do ‘eu’ e do ‘não-eu’, teremos consolidados a represen-<br />
tação interna acurada do corpo e o senso de identidade. Torna-se possível um<br />
espaço temporal entre o impulso e a ação, possível graças ao desenvolvimento da<br />
consciência e do pensamento.<br />
A subjetividade realiza-se na objetividade e realiza a objetividade. Ela<br />
contém duas dimensões inter-relacionadas, cuja comunicação mobiliza atitudes,<br />
sentimentos, pensamentos e posturas, que se desdobram e influenciam<br />
no mundo, definindo este ou aquele sujeito, tal como é e pode ser percebido.<br />
No entanto o cenário da subjetividade é composto de todos os aspectos relacionados<br />
anteriormente que, atualmente, se apresentam caóticos.<br />
Contexto da qualidade de vida e educadores nesse contexto<br />
A subjetividade está condicionada aos hábitos e é determinante da rotina,<br />
porque consolida a perspectiva pessoal de mundo e, assim, a própria<br />
qualidade de vida.
É por isso que tanto a qualidade de vida quanto a sua concepção diferem<br />
de uma pessoa para outra.<br />
Qualidade de vida não é sinônimo de saúde. Ela abrange a saúde. Seu<br />
conceito não abarca somente o bem-estar biopsicossocial, mas a prática do<br />
ser; prática desdobrada em posturas, atitudes, atividades, hábitos e costumes,<br />
relativos a uma determinada fase de desenvolvimento humano.<br />
Qualidade de vida é a cultura, adotada ou construída por uma pessoa,<br />
que orienta sua prática de ser em relação à sua saúde. Boa qualidade de vida<br />
para uma pessoa adulta é verificada pelo maior grau de proximidade entre o<br />
bem-estar biopsicossocial e a prática consciente do ser saudável, pois, nessa<br />
fase, é sua a responsabilidade pelo próprio bem-estar.<br />
Um dos maiores agravantes para a qualidade de vida do adulto é o tra-<br />
balho, pela forma como é realizado e por suas condições, quando expressas na<br />
escassez de recursos materiais e humanos, na sobrecarga e na fragmentação<br />
de tarefas, nas relações interpessoais superficiais durante sua realização, na<br />
baixa remuneração, na falta de incentivo e reconhecimento a quem o realiza e<br />
no excesso de exigências e cobranças.<br />
Esses agravantes são muito comuns em algumas profissões, dentre elas<br />
as de licenciatura.<br />
Os professores, apesar da autonomia característica da sua atuação indi-<br />
vidual em sala de aula, deparam-se com obstáculos colocados por seu trabalho<br />
que, como todos os outros, ao acontecer na sociedade moderna, limita suas<br />
ações, submetendo sua formação humana à informação e à reprodução: o corpo<br />
é “domesticado” para a execução do trabalho, refletindo dificuldades de atuação<br />
e intervenção educativas, conforme a demanda social, ou seja, de acordo com<br />
as necessidades dos alunos, os objetivos da educação e os propósitos da pró-<br />
pria instituição de ensino onde trabalha.<br />
O trabalho em educação, quando nas condições relacionadas, torna-se<br />
um agravante para a qualidade de vida do professor, ao passo que sua repre-<br />
sentação e significação têm fundamental função na construção da identidade<br />
profissional, que se transpõe à pessoal e, conseqüentemente, à personalidade,<br />
pois o sujeito se humaniza no momento que se relaciona com o mundo, me-<br />
diante seu próprio corpo, onde, utilizando a expressão de Merleau-Ponty, reina<br />
uma intencionalidade operante.<br />
Em razão de o produto da educação não ser material e sim forte contribuinte<br />
à formação humana, é que as exigências à prática pedagógica diferem de<br />
outras profissões, principalmente pela autonomia essencial à ação do professor<br />
97
98<br />
(Pimenta, 1999). O que, por um lado, valoriza o profissional docente pela sua<br />
prática social, por outro lhe exige habilidades diversas e, muitas vezes, lhe<br />
toma energia no ‘tempo-espaço’ de não-trabalho.<br />
Assim, para Zuin (1997, p.196-197):<br />
o trabalho (sem deixar de ser entendido como processo de autogeração huma-<br />
na e processo objetivo de existência da espécie) continua ocupando o lugar de<br />
figura central da teoria educacional dialética. Mas interpretá-lo como condição e<br />
realização do ser humano exige a associação da teoria do trabalho a uma teoria<br />
do indivíduo e do sujeito. Isso significa que o trabalho (prática social) deve deixar<br />
de ser uma condição determinante e unilateral e passar a ser estudado como um<br />
problema de uma dialética de objeto e sujeito. Por outro lado, a formação torna-<br />
se indissociável do sujeito. Discutir como um se estabelece exige a presença da<br />
outra, e vice-versa.<br />
A qualidade de vida dos educadores é reflexo da qualidade de sua interação<br />
nos ambientes pessoal e profissional e reflete diretamente nessa qualidade.<br />
Esse fator recíproco denota a relevância da preocupação e do investimento<br />
das instituições de educação com a qualidade de vida dos seus profissionais.<br />
Qualidade das interações para a qualidade de vida<br />
As dimensões individual e social são o universo da subjetividade humana,<br />
com base na qual se concebe a qualidade de vida. No entanto, nesse universo,<br />
são visualizadas e questionadas algumas barreiras significativas para a<br />
conquista da boa qualidade de vida. Barreiras significativas porque se trata de<br />
problemas e conflitos na base da qualidade de vida: na qualidade das relações<br />
intra e interpessoal.<br />
Para discutir ou resolver tais questões, tendo em vista a iniciativa de<br />
reconstrução das condutas pessoal e profissional para uma vida saudável e<br />
produtiva, é primordial a emersão visual de mundo da rotina, ou seja, o desapego<br />
ao hábito de realizar atividades de determinadas formas e não de outras,<br />
mediante diferentes perspectivas de percepção de si, do meio e das situações<br />
de conflito, mediadas pelo pensamento complexo, partindo para a vivência de<br />
construção de novas propostas de ação e interação frente aos problemas tidos<br />
como barreiras à qualidade de vida.<br />
O educador, primeiramente, ao entender-se como ser complexo e ao<br />
dedicar ‘tempo-espaço’ para seu autodesenvolvimento, torna-se apto a mediar,<br />
comunicar, perceber o contexto, entender a diversidade, relacionar e interagir,<br />
contando com recursos primordialmente próprios na estruturação de processos<br />
favoráveis à aprendizagem significativa, tanto sua quanto de seus alunos.
Esses recursos próprios são as condições pessoais para a vida e o trabalho;<br />
são as condições construídas pela cultura pessoal, que designa hábitos,<br />
costumes, crenças, atitudes, posturas e atividades, ou seja, são aspectos da<br />
sua qualidade de vida que, por sua vez, vão interagir com aspectos da qualidade<br />
de vida dos outros.<br />
No entanto a qualidade das interações consigo mesmo, com os outros<br />
ou com os objetos do conhecimento designa a qualidade de vida e é designada<br />
pela qualidade de vida, numa constante dialética da vida, a qual sempre parte<br />
de cada pessoa para o mundo, gerando sentimentos de realização ou insatisfação.<br />
O autoconhecimento, exercitado de forma a contextualizar interesses,<br />
necessidades e desejos pessoais, é o primeiro passo para identificar na<br />
subjetividade tanto os objetivos de vida quanto o potencial individual para<br />
conquistá-los.<br />
O segundo passo é alimentar um paradigma qualitativo, por meio de<br />
uma postura que combine reflexão e ação, gerando a motivação das capacidades<br />
de valorizar e administrar o que foi identificado; e essa valorização<br />
compete à filosofia pessoal, construída e trabalhada espontaneamente, e não a<br />
receitas que ditem passo-a-passo atitudes predefinidas e detalhadas por outras<br />
pessoas.<br />
O terceiro passo é a administração daquilo que nos é importante, mediante<br />
o planejamento e a realização de atividades favoráveis ao desenvolvimento<br />
dos nossos objetivos de vida, fomentados em conjunto à<br />
reavaliação de questões prementes e atuais, como a relação entre o homem e o<br />
meio ambiente, o fator tempo na vida humana, as exigências e o significado do<br />
trabalho, a administração do tempo livre, as relações interpessoais, a saúde como<br />
bem-estar biopsicossocial, as dimensões dos diversos tipos de problema para soluções<br />
adequadas, a motivação e a criatividade nas atividades cotidianas.<br />
Uma qualidade de vida satisfatória não pode ser adquirida em locais ou<br />
situações específicas; ela é uma construção consciente do sujeito que aproveita<br />
a qualidade das interações, ou seja, que se autoconhece, que valoriza e administra<br />
socialmente os aspectos de sua vida e que toma decisões conscientes,<br />
seguidas de iniciativas éticas.<br />
Conclusão<br />
A qualidade de vida requer a compreensão complexa da vida que vivemos<br />
intensamente, e não, simplesmente, da vida que temos ou levamos quase<br />
como espectadores. Deve ser o exercício automotivado da aprendizagem aplicada<br />
à emancipação humana, em que o conhecimento das coisas mais simples<br />
é transposto para situações complexas, tendo como princípio a ética e designando<br />
um estilo de vida saudável.<br />
99
“... A complexidade é concebida como uma reforma profunda do pensamento,<br />
uma tomada de posição epistemológica que, em si mesma, é desígnio<br />
e método educativos” (Morin, 2003, p. 557).<br />
A melhoria da qualidade de vida começa com o conhecimento sobre<br />
seus aspectos e se realiza com o saber, fundamental à prática consciente do<br />
ser saudável. A melhoria da qualidade de vida dos professores requer propostas<br />
específicas para o trabalho do assunto junto aos professores, partindo do<br />
interesse das instituições de ensino em utilizar o tempo e o espaço de trabalho<br />
voltados à reconstrução de práticas pessoais e profissionais ineficazes, já que<br />
ambas interagem e se transformam mutuamente.<br />
100<br />
No próprio instante que me dedico aos meus projetos, a minhas ocupa-<br />
ções, a meus amigos, a minhas recordações, posso fechar os olhos, estirar-me,<br />
escutar meu sangue que pulsa nos ouvidos, fundir-me a um prazer ou a uma<br />
dor, encerrar-me nesta vida anônima que submete minha vida pessoal. Mas<br />
justamente porque pode fechar-se ao mundo, meu corpo é também aquilo que<br />
me abre ao mundo e nele me põe em situação. O movimento da existência em<br />
direção ao outro, em direção ao futuro, em direção ao mundo pode recomeçar,<br />
assim como um rio degela (Merleau-Ponty, 1999, p. 227-228).<br />
Referências<br />
ARENDT, H. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária,<br />
2001.<br />
CASTRO, A. P. de. Motivação: como desenvolver e utilizar esta energia. Rio de<br />
Janeiro: Campus, 1998.<br />
DAVEL, E.; VERGARA, S. C. (Orgs.). Gestão de pessoas e subjetividade.<br />
São Paulo: Atlas, 2001.<br />
DEMO, P. Complexidade e aprendizagem: a dinâmica não-linear do conhecimento.<br />
São Paulo: Atlas, 2002.<br />
FONSECA, V. da. Psicomotricidade: filogênese, ontogênese e retrogênese. 2. ed.<br />
Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.<br />
HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro:<br />
Tempo Brasileiro, 1989.<br />
LÉVINAS, E. Da existência ao existente. Campinas: Papirus, 1998.<br />
LORIGGIO, A. De onde vêm os problemas: método para um diagnóstico<br />
eficaz. São Paulo: Negócio, 2002.<br />
MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. 2. ed. São Paulo: Martins<br />
Fontes, 1999.
MOREIRA, W. W. Qualidade de vida: complexidade e educação. Campinas:<br />
Papirus, 2001.<br />
MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 8. ed. São<br />
Paulo: Cortez / Brasília: Unesco, 2003.<br />
MOSCOVICI, F. Desenvolvimento interpessoal. 13. ed. Rio de Janeiro: José<br />
Olympio, 2003.<br />
PIMENTA, S. G. (Org.). <strong>Saberes</strong> pedagógicos e atividade docente. São<br />
Paulo: Cortez, 1999.<br />
SCHNITMAN, D. F. (Org.). Novos paradigmas, cultura e subjetividade.<br />
Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.<br />
TAVARES, M. da C. F. Imagem corporal: conceito e desenvolvimento. Barueri:<br />
Manole, 2003.<br />
VÀZQUEZ, A. S. Ética. 13. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.<br />
101
102
Gestão de pessoas: formação de<br />
uma equipe bem sucedida Marilda Corbelini 1<br />
Novos tempos, velhos desafios<br />
Os desafios presentes no novo milênio trazem a cena profundas mudanças<br />
para o cotidiano da gestão das organizações.<br />
No meio das turbulências de valores, da instabilidade e imprevisibilidade<br />
dos fatos, a tradicional questão se apresenta, mas cada vez mais emergente,<br />
importante e necessária de se enfrentar:<br />
Quais as competências ou, mais precisamente, que capacidades, conhecimentos,<br />
aptidões e experiências são necessários para lidar com pessoas, de<br />
forma construtiva, de maneira que as diferenças possam ser administradas e<br />
equacionadas em uma relação de interdependência?<br />
De acordo com Peter Drucker 2 ,em seu livro Desafios Gerenciais para<br />
o Século XXI, o autogerenciamento constitui uma competência fundamental<br />
para avaliar posicionamentos, decisões, visão de mundo, possibilitando conhecer<br />
a si mesmo em um contexto em que a consciência da interdependência,<br />
de trabalho em equipe são condições para definir nossa inclusão no mundo da<br />
vida pessoal e profissional.<br />
1 Doutora em Serviço Social, consultora para programas de gestão de pessoas nas organizações e professora dos cursos<br />
de pós-graduação (FAE / CDE, FGV, IBMEC). Coordenadora do Programa de Projetos Comunitários da PUC-PR.<br />
2 DRUCKER, Peter. Desafios gerenciais para o século XXI.<br />
VIII<br />
103
No cotidiano da vida profissional, no mundo do trabalho globalizado,<br />
verificamos a ausência de participação, colaboração e relacionamentos éticos,<br />
saudáveis e gratificantes. As empresas, necessariamente, terão de investir na<br />
gestão da consciência de si e do outro, na capacidade de administrar conflitos,<br />
diferenças de interesses, buscando uma forma construtiva e cooperativa de<br />
relacionamento.<br />
Velhos desafios, já denunciados por Karl Manheim em 1930 3 , “se o desequilíbrio<br />
no desenvolvimento total é perigoso para o individuo, a nível da<br />
sociedade poderá levar, mais cedo ou mais tarde, à catástrofe”.<br />
Nessas turbulências, constantemente reevidenciadas, estão presentes as<br />
contradições das transformações do desenvolvimento tecnológico, a qualidade<br />
de vida das organizações sociais e a deteriorização da dimensão humana.<br />
Nossos conflitos e problemas são de desacordos, antagonismos sociais,<br />
frustrações sociais e não de condições materiais de vida e equipamentos concretos<br />
das organizações 4 .<br />
O radicalismo e o antagonismo continuam presentes nos cenários empresariais,<br />
como marca histórica dos desentendimentos dos conflitos entre capital<br />
e trabalho, atrasando o processo de inovação, qualidade e competitividade<br />
organizacional. De acordo com Kerridje 5 , citado por Jensem, as doenças organizacionais<br />
(complexidade, caos, confusão, conflito e custos) limitam a sintonia<br />
das tarefas, distorcendo a qualidade das ações organizacionais e impedindo a<br />
consecução dos processos de mudança social.<br />
104<br />
Novos tempos e o resultado através das pessoas<br />
Toda e qualquer empresa (não importa seu tempo de existência, sua estrutura<br />
e finalidade) tem um grande desafio neste milênio: lidar com a extrema<br />
agressividade e pressão de mercado, com a competitividade, emergência de<br />
capacidade de renovação e, principalmente, enfrentar o desafio de atrair e reter,<br />
internamente, profissionais comprometidos, parceiros que compartilhem objetivos,<br />
expectativas, valores pessoais e organizacionais, comunicando e administrando<br />
suas diferenças de natureza pessoal, interpessoal, intergrupal e coletiva.<br />
Em qualquer organização, independente de sua natureza, tamanho ou<br />
ramo de atividade, o comportamento individual e coletivo é fruto de experiências<br />
e idiossincrasias pessoais, dos processos interativos que ocorrem na situação<br />
de trabalho, das características da cultura organizacional e dos papéis / funções<br />
que cada um representa no contexto da empresa. São as pessoas, através de<br />
suas ações, relacionamentos e formas de participação, que transformam essa<br />
entidade abstrata, a empresa, em um organismo vivo, atuante e com características<br />
próprias, capaz de interagir com o meio ambiente.<br />
3 MANHEIN, Karl. Man and Society in an age of reconstruction. New York.<br />
4 RIESMAN, D. A multidão solitária. S. P. 1971.<br />
5 JENSEN, B. O desafio da simplicidade. HSM Management, n o 9, 1998.
Dentro de uma organização, um dos sistemas mais importantes é o grupo<br />
de trabalho, contudo, pelas contingências não só externas como observamos,<br />
mas principalmente internas, não é fácil trabalhar nesse coletivo. Por que<br />
então continuamos a insistir em discutir a relevância do trabalho em equipe e<br />
a alta da sinergia por ela produzida?<br />
A razão mais importante talvez seja a de que poucas tarefas podem<br />
ser feitas individualmente. Na medida em que as organizações se tornam<br />
mais complexas do ponto de vista tecnológico, é preciso mais do que energia,<br />
conhecimento, habilidades e o tempo de uma única pessoa para realizar as<br />
tarefas. É importante referenciar, no mundo do trabalho em qualquer complexidade,<br />
o uso mais sistemático e o aproveitamento dos diferentes talentos e<br />
habilidade das pessoas.<br />
Entretanto, encontramos, na maioria das organizações, a ausência de<br />
efetividade no trabalho grupal. Vale a pena pensar, caso você pertença a alguns<br />
desses grupos, como está ocorrendo esta relação. Outros questionamentos<br />
também merecem ser feitos: como se organizaram? Você se sente útil dentro<br />
deles? Você confia nas pessoas? Os objetivos estão bem claros? Há comprometimento?<br />
Enfim, você sente que faz parte desse grupo de pessoas? Você é<br />
feliz?<br />
A proposta de construção e manutenção de equipes dos autores Sibbet /<br />
Drexler 6 interessa a quem quer compreender o funcionamento dos grupos de<br />
trabalho e melhorar o autoconhecimento / autogerenciamento, como também<br />
aprimorar a habilidade de obter o que se deseja dos grupos dos quais se participa.<br />
Liderança de equipes: um modelo (Sibbet / Drexler)<br />
O que é uma equipe?<br />
É um conjunto de pessoas interdependentes, trabalhando em direção a<br />
um objetivo comum.<br />
Mais especificamente:<br />
— Eles têm uma razão ou propósito para trabalharem juntos.<br />
— Eles precisam da experiência uns dos outros, assim como da habilidade<br />
e do compromisso mútuo para atingirem objetivos. Esta é a sua<br />
interdependência.<br />
— Eles acreditam que trabalhar em uma equipe leva a resultados mais<br />
eficazes do que trabalhar sozinho.<br />
— Eles contam com um contexto organizacional mais amplo.<br />
6 SIBBET; DREXLER, Alan. Team Building. NTL/Ed, Washington USA, 1990.<br />
105
106<br />
Trabalho em equipe: os sete estágios<br />
Os elementos que compõem este modelo são interdependentes: a progressão<br />
do primeiro ao sétimo estágio não é cronológica. Todas as situações<br />
representadas no modelo estão em constante acontecimento, ainda que a sobreexcelência<br />
de uma sobre a outra, em um certo momento, varie de equipe<br />
para equipe. A progressão pelos estágios acontece, de maneira geral, de forma<br />
dependente da resolução dos tópicos concernentes aos últimos estágios. Esta<br />
dependência não é absoluta, pode acontecer, para uma dada equipe, que o<br />
processo seja bem-sucedido, ainda que exclua a realização de um ou mais estágios.<br />
Em geral, entretanto, a resolução de um estágio faz que seja preferível<br />
resolver o outro estágio sucessivo.<br />
O nível de resolução para qualquer uma das questões descritas no modelo<br />
varia na maioria das equipes em dois aspectos. Primeiramente, as diferenças<br />
usualmente ocorrem na maneira individual de cada um dos membros<br />
resolver suas questões. Em muitas equipes, entretanto, os membros partilham<br />
uma idéia de como o grupo está lidando com um dado conjunto de questões,<br />
isto é, todos percebem uma espécie de “centro de gravidade”. Em segundo<br />
lugar, o nível de resolução de um dado conjunto de questões varia, conforme o<br />
momento, para a maioria das equipes. Conclusões que tenham sido acertadas<br />
podem ser rediscutidas em função de um querer da equipe ou das circunstâncias.<br />
O mau funcionamento de uma área pode ter efeitos irreversíveis em<br />
outras.<br />
O modelo simplifica esta realidade. Para facilitar a discussão, debateremos<br />
cada estágio separadamente.<br />
Estágio de construção de trabalho em equipes<br />
1. ORIENTAÇÃO: Eu pertenço a este lugar? Eu quero estar aqui?<br />
Quando as equipes estão em construção, os componentes estão tentando<br />
imaginar POR QUE estão ali, se seu potencial será aproveitado<br />
e se os outros vão aceitá-los. As pessoas sempre precisam de algum<br />
tipo de resposta para poderem prosseguir.<br />
2. CONSTRUINDO CONFIANÇA: Quem é você? O que você espera de<br />
mim?<br />
Em seguida, as pessoas querem saber COM QUEM vão trabalhar, suas<br />
expectativas, agendas e competências. A informação adequada ajuda<br />
a construir confiança e um livre intercâmbio entre os membros da<br />
equipe.<br />
3. CLARIFICANDO OBJETIVOS / PAPÉIS: O que a equipe deve fazer?<br />
O trabalho de equipe começa a acontecer mais concretamente com a<br />
clarificação dos objetivos da equipe, bem como do papel de cada membro.<br />
Termos e definições vêm à discussão: QUAIS são as prioridades?
4. TOMADA DE DECISÃO E COPROMISSO: Para onde?<br />
Em certo momento, as discussões precisam ser encerradas e as<br />
decisões devem ser tomadas sobre COMO os recursos, o tempo, o<br />
pessoal de apoio, todas as contingências, a nível de suporte, serão<br />
administradas.<br />
Estágios de manutenção do trabalho em equipes<br />
5. IMPLEMENTAÇÃO: Como as coisas são feitas?<br />
As equipes ganham impulso quando começam a seqüenciar o trabalho<br />
e se concentrar em QUEM faz o QUE, QUANDO e ONDE na ação.<br />
Controles sobre o tempo e a organização dominam esse estágio.<br />
6. ALTO DESEMPENHO: Sinergia!<br />
Quando a metodologia é assimilada, uma equipe pode começar a<br />
mudar seus objetivos e responder de forma flexível (A equipe pode,<br />
então, exclamar “UAU!”).<br />
7. RENOVAÇÃO: Questionar a continuidade<br />
As equipes são dinâmicas. As pessoas ficam cansadas, há mudanças<br />
de membros. As pessoas imaginam “POR QUE continuar”. É hora de<br />
colher os resultados do que foi ensinado e preparar-se para um novo<br />
ciclo de ação.<br />
107
NÃO<br />
RESOLVIDO<br />
* Incerteza<br />
* Medo<br />
NÃO<br />
RESOLVIDO<br />
* Precaução<br />
* Falta de<br />
confiança<br />
NÃO<br />
RESOLVIDO<br />
* Apatia<br />
* Competição<br />
irrelevante<br />
108<br />
DESENVOLVIMENTO DE EQUIPES<br />
ESTÁGIOS DE CRIAÇÃO ESTÁGIOS DE SUSTENTAÇÃO<br />
1.<br />
ORIENTAÇÃO:<br />
POR QUE<br />
ESTOU AQUI?<br />
2.<br />
CONSTRUINDO<br />
CONFIANÇA:<br />
QUEM SÃO<br />
VOCÊS?<br />
3.<br />
CLARIFICAÇÃO<br />
DOS<br />
OBJETIVOS: O<br />
QUE ESTAMOS<br />
FAZENDO?<br />
RESOLVIDO<br />
* Visão partilhada<br />
* Decisões<br />
RESOLVIDO<br />
* Determinação<br />
* Companheirismo<br />
RESOLVIDO<br />
* Estima mútua<br />
* Interação espontânea<br />
RESOLVIDO<br />
* Clareza de objetivos<br />
* Papéis identificados<br />
RESOLVIDO<br />
* Reconhecimento<br />
* <strong>Dom</strong>ínio das<br />
mudanças<br />
* Poder duradouro<br />
4.<br />
COMPROMISSO:<br />
COMO<br />
FAREMOS?<br />
RESOLVIDO<br />
* Sinergia<br />
* Comunicação<br />
* Equipes<br />
NÃO<br />
RESOLVIDO<br />
* Conflito<br />
* Prazos Perdidos<br />
* Desmotivação<br />
NÃO RESOLVIDO<br />
* Dependência<br />
7.<br />
RENOVAÇÃO:<br />
POR QUE<br />
CONTINUAR?<br />
6.<br />
ALTO<br />
DESEMPENHO<br />
UAU!<br />
5.<br />
IMPLEMEN-<br />
TAÇÃO<br />
NÃO<br />
RESOLVIDO<br />
* Frustração<br />
* Esfacelamento<br />
do grupo<br />
NÃO<br />
RESOLVIDO<br />
* Desarmonia<br />
RESOLVIDO<br />
* Processo claro<br />
* Execução<br />
disciplinada
Anotações<br />
109
Anotações<br />
110
Anotações<br />
111
SERIEDADE | COMPETÊNCIA | CONSCIÊNCIA | DEDICAÇÃO