DA-LHE MAIORIA!! - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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DA-LHE MAIORIA!! - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

i -

Um serviço de combate ao racismo e à discriminação

Garimpeiros espancam líder

indígena grávida Makuxi,

em plena capital de Roraima,

(p. 3)

ANO II N? 12 Aliril/Mslode 1989

DA-LHE MAIORIA!!

MN do interior realiza no

Rio Vü Encontro com a

perspectiva de organizar o

negro em todo o Estado,

(p. 6)

Diretora fala sobre cultura e

educação nos presídios do

Islado do Rio.

(Educação, p. 9)


PÉfins 2 MAIORIA FALANTE

Dois Anos de Maioria

Falante

Uma constante na luta de combate ao racismo tem

sido as denúncias de discriminação racial nas aborda-

gens da grande imprensa. Tal fato nos levou a uma

conclusão: A liberdade de imprensa é um conceito

conservador e colaboracionista para com as elites do-

minantes. Pois não é suficientemente democrática,

para expressara cosmovisão do pluralismo racial e das

distintas classes sociais, por que nascido com a ascen-

ção burguesa, identifica apenas os seus iguais de ori-

gem, ou seja aqueles brancos privilegiados direta ou

indiretamente com a exploração escravocrata e geno-

cida.

Para Nelson Werneck Sodré, autor de "A História

da Imprensa no Brasil", só existe a mídia eurocentris-

ta. Ê óbvio que ele reflete um determinado tipo de

ideologia, que pela omissão procura anular outras ex-

periências. Segundo aquele autor a "História da Im-

prensa no Brasil" está vinculada ao fim do escravagis-

mo, ao advento da República e ao início do capitalis-

mo.

Será que hoje, às portas de um novo século, com o

avanço da L UTA sindical, do movimento negro, da es-

querda, das organizações comunitárias, com os 101

anos da Abolição e com o Centenário da República,

estes aspectos que pronunciam os novos tempos e

consolidam as organizações que lutam por transfor-

mações sociais, possibilitarão uma nova concepção de

fazer imprensa?

0 Acesso e a produção de mídias, nesta virada de

século, começa a incomodar as oligarquias. Basta no-

tar que os focos de tensão atual, são coincidentemen-

te abordados como tema de campanha da C N B B, ou

não o foram, o Negro (mesmo escamoteado pela Igre-

ja), o Menor e a Mulher? Este ano a campanha da Fra-

ternidade põe em reflexão a Comunicação, será mero

ACASO, ou simples discurso em causa da própria

Igreja?

Enquanto não houver a solidificação econômica da

população negra e para isto acontecer, há que atacar-

se a estrutura social, política e econômica deste país

-e a solidariedade internacional para combater o mo-

delo opressor racial brasileiro, o perfil da Imprensa

combativa e não reformista continuará como o qua-

dro* dado pelo Comunicólogo Ubirajara Damasceno

da Motta - revista Vozes, "Negro, quem te amaldi-

çoou?".(\} - onde se constata que desde o jornal

"Exemplo" publicado em Porto Alegre em 1892 (pre-

curssor da Imprensa Negra) a nossa luta se impõe,

apesar da omissão dos cúmplices da minoria domi-

nante.

Portanto, nestes dois anos de MAIORIA FALAN-

TE, compreendemos não só a luta do negro brasileiro,

como a luta dos índios, bóias frias, dos desemprega-

dos sistemáticos, das comunidades e dos trabalhado-

res forçados da economia subterrânea.

Não, não há o que comemorar, mas denunciarmos

o nosso direito de lutar pelo direito de expressão, in-

dependente da forma artesanal ou industrial, mas co-

mo reconhecimento à nossa historie idade. A luta con-

tinua, para tanto continuaremos contando com o en-

gajamento dos militantes de SC, RS, SP, RJ, ES, MT,

BA, PE, AM, PR PA, MG, dos assinantes, da solida-

riedade da CESE, ASSEAF, NEN, dos leitores e de to-

dos aqueles que direta ou indiretamente contribuem

para a consolidação doJMF.

(!) - Até 1985 lançou-se 81 títulos de joi nais alternativos ne-

gros, sendo:

"De 1892 a 1935- 47 anos - 32 títulos - 0,68 por ano

De 1936 a 1944- 9 anos - 0 título - 0 por ano

De 1945 a 1961 - 17 anos - 15 títulos - 0,88 por ano

De 1962 a 1972- 11 anos - 0 título - 0 por ano

De 1973 a 1985- 13 anos - 34 títulos - 2,62 por ano'

Neste levantamento, não constam os atuais^ Nego (BA), Raça

e Classe (DF), Akumabú (MA) e Chico Rei (MG).

Publicações

Recebidas

JORNAL DO CDP

Publicação do Centro de Docu-

mentação Popular, destinada a

formação e informação dos tra-

balhadores e dos movimentos

populares. Av. Belarmino Cotta

Pacheco, 80 c/02. Bairro Sta.

Mônica, Uberlândia - MG. CEP

38400.

ACONTECEU

Informativo semanal do Centro

Ecumênico de Documentação e

Informação, CEDI, com notícias

comentadas sobre os principais

acontecimentos da semana. Av.

Higienópolis, 983, São Paulo —

SP. CEP 01236.

JORNAL DE ARTES

CÊNICAS

Editado pelo MINC/Fundacen,

notícias e artigos sobre teatro e

cultura em geral. Av. Rio Bran-

co, 257, 139 andar. Rio de Ja-

neiro, RJ. CEP 20040.

PÉROLAS AOSPOUKOS

&ERDEÍROSDOAZAR

Dois livros de Roberto Prado,

Markos Prado, Tadeu e Serjio

Viralobos. Poemas incríveis e da

melhor qualidade que valem a

pena serem lidos. Publicação (ou

publikasão) da LAGARTO Edi-

tores. Rua Ciotário Portugal,

320, Curitiba, PR. CEP 80410.

O tamanduá dos poukos

Abril/Maio

CAMPEONATO DE CAPOEIRA

' A Federação de Capoeira do Estado do Rio de Janeiro, anuncia que no dia

30 de abril, ás 13 horas, no Recreio dos Trabalhadores, em Volta Redonda

(RJ) realizará o V Campeonato Estadual de Capoeira — modalidade conjunto.

Contando com o apoio da Secretaria Estadual de Esportes e Lazer, Secreta-

ria Municipal de Cultura de Volta Redonda e da Siderúrgica Nacional, o evento

espera mobilizar os capoeiristas de todo o estado.

Como se vé a gestão do mestre Touro e do Osvaldo, está com a corda toda.

Pena que a mídia eletrônica não descobriu ainda a importância da capoeira. Ou

será porque ao invés da maioria branca do vôlei, tênis e fórmula 1, a capoeira é

majoritariamente negra e a burguesia racista não vai gostar?

ANDRÉ REBOUÇAS

/ O Grupo de Trabalhos André Rebouças, GTAR, de Niterói, no Rio, convi-

da aos interessados para o IV Ciclo de Palestras e Debates sobre a Vida da Co-

munidade Afro-brasiieira, a realizar-se de 14 de março até 13 de abril, às 19

horas, sempre ás 3 a ? e 5 a ?, no SESC-Niterói, Rua Padre Anchieta n9 56.

O temário inclui "Roda de Samba nos Candomblés: Uma Perspectiva Reli-

giosa", defendida pelo professor Micênio Santos, do ISER. "Medicina Caseira,

Uma Alternativa para a Comunidade", com a Dra. Maria Inés. "Algumas Ques-

tões sobre a (des) Educação do Negro", com Luiz Cláudio Barcelos, pesquisa-

dor do GTAR e do CEAA. "Informação: Como e onde Encontrar", pelo pro-

fessor Alejandro Galván, da UFRJ. E "Saúde Mental: Há Efeitos de Discrimi-

nação Racial?", com o psiquiatra Manuel Faustino.

_, O Grupo de Trabalhos André Rebouças está sob nova direção tendo como

presidente a companheira Claudia Regina Magalhães, Selma Regina G. Pereira,

como secretaria e Ana Claudia Dias, como tesoureira. Axé pra vocês. Estamos

juntos.

NEGRAS EM SANTOS

O Coletivo de Mulheres Negras de Santos completou o seu 3? aniversário

no dia 21 de março p.p, com o seguinte saldo: 2 cartilhas de pesquisas "Mulher

Negra Tem História", bibliografia de 30 negras históricas e, "Mulher Negra,

Uma Perspectiva Histórica", estudo sobre a mulher negra do período colonial

até o presente. Criou, ainda, o Coral Infantil Omó Oyá, com 32 crianças negras

e um repertório de canções em dialeto afro-brasileiro. Foi criado também, nes-

se período o Grupo de Dança Afro Ajaína, com 25 bailarinos e bailarinas. Em

maio, de 11 a 14, promoverão o 1? ENCONTRO DE MULHERES NEGRAS

DA BAIXADA SANTISTA E LITORAL PAULISTA. Do Encontro podem

participar representantes de entidades de outros estados. Maiores Informações

com o, Coletivo de Mulheres Negras da Baixada Santista, a/c Alzira Rufino —

Av. Conselheiro Nébias, 651. Santos, SP CEP 11050. Fone 0132 - 349976.

RELIGIOSOS

Nos dias 21 e 22 de abril, acontecerá no Centro de Formação de Moquetá,

o VI ENCONTRO DE RELIGIOSOS NEGROS DO ESTADO DO RIO DE JA-

NEIRO, cujo tema é "A Espiritualidade do Religioso Negro". Maiores informa-

ções podem ser obtidas na Comissão de Religiosos. Negros, Igreja de São João

Batista, Praça Getúlio Vargas n9 1, São João de Meriti, RJ CEP 25520. Fone

021 -756-0804.

A modelo e manequim VELUMA acaba de implantar na ACM um curso to-

talmente voltado para a mulher. No curso, a mulher aprende ou aprimora seus

conhecimentos de como sentar ã mesa, como cuidar da pele, da alimentação,

maquiar-se e vestir-se adequadamente, dentre outras coisas. As inscrições estão

abertas, mas as vagas são limitadas. Para as interessadas, a Associação Cristã de

Moços situa-se á Rua da Lapa, 86. Maiores informações pelo telefone 221-1397

ou 259-1409.

AVISO AOS ASSINANTES

No máximo em três dias após a

edição do Jornal MAIORIA FA-

LANTE os exemplares dos assi-

rlMIXs^liA FALAmi=i

DIRETOR RESPONSÁVEL -

Bebei Nepomuccno

CONSELHO EDITORIAL - Jú-

lia Teodoro, Éle Semog e Togo

lomba

COORDENAÇÃO DE TEXTOS

E EDIÇÃO - Togo loruba. Éle

Semog, Bebei Nepomuceno, Ue-

linton Farias Alves, Beth Silva

Santos e Tupac

COLABORADORES - Valdete

Lima, Ligia Dabul e Luiz Carlos

Vieira (RJ); Abílio Ferreira, Ar-

naldo Xavier, L ília Ladislau e Mí-

riam Braz (SP); Dora Bertúlio

(MT); Waldir Trindade e Agosti-

nho Benedito (PR); Vera Deyse

Barcelos, Paulo Ricardo Bahia-

no, Jones Lopes e Júlio César

Camisolão (RS) e Luiz Carlos.

CORRESPONDENTES - Môni-

ca Russo e Mike Wiílis.(EUA);

Adriano Botelho de Vasconcelos

(Portugal)

ENDEREÇO: Rua da Lapa, 200

808, Lapa, RJ. CEP 20021.

TEL.: (021) 252-2302 ._

ADMINISTRAÇÃO - Júlia Teo-

doro

SECRETARIA - Márcia V.

Amando

COMPOSIÇÃO - Filme e Papel

Produções Gráficas L tda.

CIRCULAÇÃO -J. Ayrton Mar-

tins

IMPRESSÃO - Tribuna da Im-

prensa

ARTE tWbL-EdvaldoPestana

DIAGRAMAÇÃO - Euclides

Amaral e Max.

FOTO — João Morais

ILUSTRAÇÃO - 7b^o loruba,

Max, Krisnas, Luis Cláudio e Zé

Roberto

REVISÃO - Beth Silva Santose

Éle Semogi

APOIO - Centro de Serviço Ecu-

mênico (CESE), Associação dos

Ex-Alunos da Funabem

(ASSEAF) e Núcleo de Estudos

do Neçiro (NEN).

As matérias assinadas são de in-

teira responsabilidade dos auto-

res.

nantes são remetidos pelos Cor-

reios, através da agência da Rua

das Marrecas, ou da Praça Tira-

dentes, no Rio. Lamentavelmen-

te alguns assinantes não têm re-

cebido o jornal, o que nos preo-

cupa sobremaneira. Enquanto

não resolvemos este poblema

com aquela empresa que detém

o monopólio, escreva ou ligue

para a Redação que providencia-

remos a remessa de outro.

"Agradecemos por nos terem en-

viado o Jornal. Já era tempo da Maio-

ria se manifestar. Gostaríamos de con-

tinuar a recebê-lo. Também planeja-

mos- realizar um Boletim mensal da

nossa turma colitivesca. Ainda não

tem nome. Quando sair. mandamos

um pra vocês. Beijos obi-escuros. " Co-

letivo de Mulheres Negras da Baixada

Santista. Santos, SP.

"Saúdo a Edição Especial desse

bravo Jornal e também o n9 11, com

a presença do Mestre da MPB Pauli-

nho da Viola. É isto a!, lenha na fo-

gueira. Sigamos a estrela do Pasquim

que chegou ao jrtü sem fazer conces-

sões." Fernando Costa Paula. Petró-

polis, RJ.


Abril/Maio

EMPRESÁRIOS

ATENTOS AO LUCRO

São Paulo (AGEN) - 0 empresariado nacional e internacio-

nal com interesses na Amazônia não está parado diante das ges-

tões que estão se desenrolando em defesa do meio ambiente e

das comunidades nativas da região amazônica.

Nos mesmos dias do Encontro de Altamira, os empresários

reunidos na Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fie-

pa) debateram uma estratégia visando "retirar as barreiras ao

desenvolvimento da Amazônia", que estariam sendo^erguidas

pelo movimento ecológico internacional. A elaboração de do-

cumento e montagem de uma campanha publicitária nesse sen-

tido estão nos planos de empresariado paraense.

Igualmente no período de realização do Encontro indígena,

o superintendente da Superintendência do Desenvolvimento da

Amazônia (Sudam), Henry Kayath, esteve reunido, em Brasí-

lia, com uma missão de 30 empresários japoneses, interessados

em investimentos na região. Na capital federal, Kayath tam-

bém manteve contato com parlamentares, visando discutir os

incentivos fiscais destinados para a Amazônia.

N ..L/V

-Tóa°í&t*

MAIORIA FALANTE

Há bem pouco tempo atrás,

eu ainda o considerava um dos

grandes canalhas da história

atual dessa república hereditária

e miserável. Peço-lhe desculpas,

mas mudei de opinião: hoje, ve-

jo-o apenas como um pequeno e

insignificante canalha, incapaz

de qualquer grandiosidade na sua

medíocre e pequena canalhice.

Sintomaticamente, o branco

da cal, da esterilidade, da ausên-

cia de vida, caiado no seu nome,

lembra a suja e doentia branqui-

dão da sua ideologia. Descenden-

te ideológico dos chamados ban-

deirantes - aqueles pequenos ca-

nalhas do passado -, você acre-

dita, como eles, construirá Gran-

de Pátria (com maiúscula, é cla-

ro) assassinando, escravizando,

estuprando e destruindo. Sua

ideologia se limita à pilhagem, à

violência, à força bruta e estúpi-

da.

(Em alguns momentos, você

se revela de corpo inteiro. Nesse

momentos, só conseguimos vê-lo

através de lentes de aumento. De

corpo inteiro, você se faz menor:

é apenas um microscópico cana-

lha, ao qual, para enxergá-lo, te-

mos até que ampliá-lo, dando-lhe

dimensão superior à real).

É triste e enojante observá-lo

com aquele seu ar de gozo Jn-

completo - aquele típico gozo

sem prazer —, ao relembrar os

mortos pobres, assassinados pela

estupidez de pequenos canalhas

da sua marca; é deprimente vê-

lo, raivoso, histérico e insano,

exigindo pena de morte para os

cadáveres; é ultrajante vê-lo, bru-

tal e arrogante, vangloriando-se

de ter derrotado a alguns pobres

miseráveis - sem pão, sem terra,

sem armas.

UM PEQUENO CANALHA

Observe-se o seu discurso: es-

túpido e animalesco, confunde-

se com o mugir das suas vacas e

o cacarejar das suas galinhas; ob-

serve-se os pequenos sub-cana-

Ihas que o endeusam: agachados

atrás do baixo muro das suas pe-

quenas sub-canalhices, acoberta-

dos pelos panos sujos e rotos da

ridícula farsa patriotesca, orgu-

lham-se (com você e como você)

de tudo que envergonharia qual-

quer ser verdadeiramente huma-

no.

Se lhe pergun tarem, por exem-

plo, o que é racismo, certamente

você dirá que isto não existe nes-

sa catitania de fome. E continua-

rá ensinando seus filhos como

VIOLÊNCIA CONTRA MULHER MAKUXI

Boa Vista (AGEN) - Mesmo grávida, Júlia Makuxi não saiu

ilesa da repressão exercida pelos garimpeiros: foi abordada e Jjfci

violentamente agredida, em pleno centro de Boa Vista (Rorai- ^R«

ma), na tarde de 12 de fevereiro. Líder indígena Makuxi, mu- i *

lher de Gilberto Makuxi, foi agredida para contar onde o mari- £

do e o líder Yanomani, Davi Kopenawa, se encontravam. No

dia seguinte, novamente, quase foi estuprada por um taxista,

quando estava voltando para casa em companhia de uma de

suas filhas.

"Fiquei lavada de sangue, no meio da rua, além de ser mui-

to humilhada pelos garimpeiros. Queriam me seqüestrar para

lhes falar onde Gilberto e Davi estavam. Afirmei não conhecer

nenhum dos dois, mas isto não adiantou: foram logo apontan-

do o revólver para minha cabeça e dando empurrões, tentando

fazer com que entrasse num carro. Comecei a sangrar e não me

mataram porque outras pessoas entraram no meio", relatou jú-

lia.

Júlia sofreu forte hemorragia, perdendo a criança. Com 25

anos, mãe de seis filhos, já viu sua filha Jurcelândia sofrer um

atentado na porta de casa, quando pistoleiros a agrediram com

coronhadas na cabeça. Tudo estava certo para a sua ida ao I

Encontro dos Povos Indígenas no Xingu, porém, depois do

ocorrido, ela ficou doente e não pode comparecer.

Davi denunciou, no Encontro, o drama porque Júlia passa-

ra, fato que revoltou todos os presentes. 0 casal Makuxi e Davi

Yanomani estão sendo jurados de morte, pelos fazendeiros e

garimpeiros, em razão da luta pelos direitos dos povos indíge-

nas da região.

A jovem líder indígena é apenas mais uma marcada para

morrer, em razão de seus ideais. "Sei que morreremos. Outro

dia falaram para Gilberto que, caso não saísse daqui, eles mata-

riam todos nós. Estou mu : to triste, mas sei que não podemos

fugir. Nossa luta é justa e ficaremos firmes até quando nos dei-

xarem", finalizou Júlia.

dar ordens aos negros e como

puni-los; como estuprar tapuias e

como assassiná-las; como saquear

os pobres e como humilhá-los;

como fazer-se respeitar - (você

não abre mão do "respeito") - e

como fazer prevalecer os seus

"legítimos interesses".

E é por isso que você é apenas

um pequeno canalha. Um peque-

no e medíocre canalha menor.

Um pequeno canalha que um dia

vai morrer, em paz e com a cons-

ciência tranqüila. E ganhará um

monumentoso mausoléu. Bran-

co. Caiado.

(E aí se descobrirá que, vivo,

você fede mais que depois de

morto). —'—

por Souzalopes

P


Página 4 MAIORIA FALANTE Abril Maio

•M PAfô COM ESTRUTURAS

ONDE A POSIÇÃO OU TITULO DE UM IN-

JO BASÍA PARA QUE ELE ESTEJA ACIMA

iS. ANOVAC ÃO PODERÁ

Hoje no Brasil respira-se

um novo ar. Um ar que

nos dá a agradável sensa-

ção de estarmos vivendo uma no-

va etapa da vida nacional: os par-

tidos políticos estão em pleno

funcionamento, inclusive os co-

munistas, as Forças Armadas es-

tão "imbuídas do cumprimento

de seus deveres constitucionais",

os sindicatos possuem autono-

mia para deflagar greves, etc. En-

fim, parece que, finalmente, en-

tramos na democracia.

No momento ainda tateamos,

às escuras, para ver se, de fato,

isto que estamos vivendo é uma

experiência sólida, ou então mais

uma "diástole", conforme o fati-

cínio do velho bruxo, Golbery

do Couto e Silva.

Então testamos os limites des-

te círculo vicioso, impetrando

centenas de mandatos de injun-

ção, de "habeas-data", para sa-

bermos se o Leviatã brasileiro es-

tá mais manso ou se continua o

velhaco de sempre.. .

Aí surgem as figuras - como

em Macheth de Shakespeare -

tecendo pareceres suspeitos, de-

formando a letra e o espírito da

"Lei Maior" regulando o tabela-

mento dos juros, suspendendo

garantias óbvias no texto consti-

tucional. Sem dúvida, são os in-

divíduos que sempre ganharam

com o nosso "antigo regime".

Interessa a estes "cidadãos" des-

virtuar os avanços, preservar os

retrocessos, para tudo ficar co-

mo está: péssima distribuição de

renda, leis para tudo e menos pa-

ra os que são os "mais iguais en-

tre os iguais". Desde o século

XVI a Europa se debatia para

tentar explicar como era possível

a sociedade política.

Este debate, apesar da "Carta

Magna" não existe no Brasil do

Século para XXI. ..

Não é necessário muitos

exemplos. No Capítulo I da nos-

sa "Constituição" — "Dos Direi-

tos e Deveres Individuais e Cole-

tivos" - teríamos hipotetica-

mente a nossa "Carta dos Direi-

tos Humanos". Acontece, porém

que temos ali leis que nem dá

para inglês ver. Por exemplo, que

autoridade policial, do lapoque a

Chuí, vai cumprir a seguinte

"disposição constitucional":

"ninguém será privado da li-

berdade ou de seus bens sem

o devido processo legal".

Ou então,

"ninguém será preso senão

em flagrante delito ou por or-

dem escrita e fundamentada

de autoridade judiciária com-

petente, salvo nos casos de

transyessão militar, definidos

em lei".

Talvez seja aqui que podbmos

pensar se a Constituição é para

valer.

É no cotidiano dos cidadãos

que se percebe se, de fato, a

Vsnderlei José Maria

Constituição rege as relações en-

tre as instituições e os indivíduos,

entre os Poderes Públicos e os di-

reitos individuais. Será que as

nossas Polícias — militares e mu-

nicipais, as legais ou as "priva-

das" - leram a Constituição? Se-

rá que continuarão a atirar em

jovens estudantes, praticantes de

"dooper dominicais? Ou então

deixarão jovens empresários pa-

ralíticos com tiros nas costas?

Ou continuará sendo alegado

que foi tudo um "acidente de

trabalho"? Para quem pão é jo-

vem estudante ou jovem empre-

sário, o papel truculento das vá-

rias polícias já é por demais co-

nhecido: saem dos ricos Opalas

com revólveres apontados, ren-

dem o "suspeito", revistam-no e

checam todos os seus documen-

tos. Qualquer coisa é motivo de

um "passeio": a costumeira pan-

cadaria de policiais que se dizem

desrespeitados na sua autorida-

de. Sem, obviamente, comunicar

a autoridade competente (sic)."

No Brasil, todo e qualquer

policial tem o nobre sentimento

de estar acima dos cidadãos co-

muns, não tem lei alguma a al-

cançá-los, daí os desmandos, os

"acidentes de trabalho" sempre

mal explicados, e a violência que

já faz parte corrente do nosso

cotidiano.

A Constituição nos protege

da violência e arbítrios policiais?

A rigor, de forma alguma. Assim

como nossas autoridades estão

zelando para driblar o cumpri-

mento do "Habeas-Data", do ta-

belamento de juros e dos direitos

trabalhistas, as nossas polícias

continuarão as mesmas com seus

corriqueiros demandos.

0 Racismo figura como "cri-

me inafiançável", quem vai punir

as Polícias por considerarem to-

do negro como "suspeito em po-

tencial" e detê-los para a famosa

averiguação?

Enquanto o princípio máxi-

mo constitucional seria que to-

dos são iguais perante a lei; no

Brasil, militares e policiais man-

tém previlégios que distam em

muito desta igualdade. São ver-

dadeiras castas a confirmar que a

construção de uma sociedade ci-

vil moderna, é uma quimera.

Os juristas, filósofos políticos

que me desculpem: estamos mais

para o estado de natureza hobbe-

siano — onde o homem é lobo

do próprio homem — do que pa-

ra uma sociedade regida por leis.

Para que isto aconteça é necessá-

rio que o Leviatã tupiniquim se

reeduque, que sua polícia entgn-

da o que são as leis e como deve,

para cumprir com seus objetivos,

respeitá-las. Do contrário conti-

nuaremos vivendo neste estado

de natureza, onde poucos podem

muito e muitos não podem nada.

Voltarei ao tema.

QUE LOMBO por Ele Semog

Há algum tempo venho ex-

pressando nesta coluna

algumas reflexões sobre

o machismo, buscando, talvez,

um entendimento dessa condi-

ção humana, que tanto oprime

as pessoas em processo de for-

mulação de conceitos e de con-

dições revolucionários. Tais re-

flexões, no início, buscavam o

pitoresco, o cômico, o irônico de

ser machista e estar ao mesmo

tempo engajado na luta contra a

discriminação. Mas o que seria

um toque de bom humor meio

sacana e bem carioca, foi se trans-

formando numa coisa angustiada

e aflita. Perdi o controle do jogo

e do texto e eu próprio passei a

ser o experimento, a cobaia de

uma alquimia perversa da qual

jamais me livrarei.

2) Tenho observado a luta das

mulheres. Grandes conquistas de

perfil burguês que se caracteri-

zam pelas vias da legalidade, ou

da institucionalidade, o que de

forma alguma implica em mu-

danças no modo cultural machis-

ta que fundamenta a nossa socie-

dade e a organização do seu acer-

vo social, aqui expresso pela reli-

MACHISMO E SOLIDÃO

gião católica, pela remuneração

através do trabalho, pela relação

familiar. . .

3) Ao buscar os caminhos para

uma sociedade que se fundamen-

te na destruição do princípio de

acúmulo de capital, na auto ges-

tão sócio-política das categorias

produtivas, na exploração popu-

lar da terra e na livre organização

bio-social, compra-se uma guerra

não apenas contra um estado e

uma sociedade sustentados pelo

roubo, pela hipocrisia, pelo des-

caramento. Mas sim, uma guerra

contra um sentimento machista

introjetado nas pessoas, que

cumprem o papel de agentes re-

trógrados, pois só ao machismo

não interessa que o capital pro-

duzido não retome à sociedade

como um bem social, fora das

garras do estado, ou dos conglo-

merados transnacionais. Não in-

teressa, também, que o trabalha-

dor seja o dono do seu trabalho,

ou que as pessoas participem do

complexo social, nos seus diver-

sos níveis, a partir das suas afini-

dades e interações biogenéticas.

4) A solidão tem sido a grande

gestora do ideário machista nes-

ses tempos de busca coletiva, em

que a esquerda e os liberais se

unem, digo, estão no mesmo bar-

co, tentando significados que

possam destruir a miséria. E é lá

de cima dessa solidão que obser-

vo os caminhos e atropelos, que

nós, multidão, temos passado.

Quando as mulheres se poderam

do aborto (cinco milhões em um

ano) como um problema do cor-

po feminino, fico um tanto preo-

cupado, pois é pouco provável

que elas teham conseguido gerar

cinco milhões de filhos sozinhas.

Embora eu saiba que de uns anos

para cá as mulheres vêm se mos-

trando muito competentes em

diversos campos. Mas com certe-

za, o grande culpado desses assas-

sinatos premeditados, cruéis, hu-

milhantes, só comparáveis à tor-

tura política e à dívida externa,

são os homens, que não se empe-

nham ou se organizem para ter

um Conselho Nacional da Con-

duta Masculina, não se preocu-

param em desenvolver uma pílu-

la pra macho, não controlam a

viscosidade ou a temperatura do

pênis, e, ainda por cima furtou

a natureza não menstruando, o

que o toma um incompetente

para o controle da tabela.

5) Surpreendido por mim mes-

mo constato que eu próprio sou

o meu inimigo social. Êpa\ Por

pouco me deixo levar por tal to-

lice, impondo-me uma culpa fra-

gilizante e descabida. Relembro

uma mulher boazuda que vi dia

desses num cartaz de amortece-

dores para carro. . . Rendo-me às

evidências: estou mais para os ci-

garros Tropical.

Venha ao Teatro, de Rua

por Togo loruba

O Teatro de Rua, sem a cobertura da mídja convencional, resiste e apresenta

cada vez mais espetáculos ao alcance do povo. Em maio, a peça "Antígona: O

Calvário da Princesa Alucinada", de Gilson Moura, estará circulando nas praças

do Rio de Janeiro.

Participam do espetáculo Marcélia Cartaxo, Atriz do filme "A Hora do Estre-

la", premiado recentemente em Berlim, Luis Alberto Sanches, Tia Maria, entre

outros.

O conteúdo é uma adaptação de "Antígona" segundo o conflito socio-cultu-

ral moderno, tendo como pano de fundo a luta comunitária. Com esta monta-

gem o público do Largo do Boiadeiro (Rocinha), Praça Quinze, Largo da Cario-

ca, Campo de São Cristóvão e Central do Brasil curtirão o circuito.

O horário, segundo Angélica, divulgadora do Grupo, será sempre no final do

trabalho ou na hora do almoço. Teatro de rua é isso aí.


Abril Maio

MAIORIA FALANTE

Leci: Talento e Negritude

Após uma importante

apresentação no pro-

grama Seis e Meia do

teatro João Caetano, show

que marcou verdadeiramen-

te uma etapa de brilho em

sua carreira, iniciada em

1973, cantora, e composito-

ra Leci Brandão, só pensa

agora nos "seus projetos fu-

turos", os quais estão, todos

eles, voltados "para levar o

canto pelo mundo afora".

Nascida no subúrbio, Le-

ci Brandão é uma partici-

pante ativa da vida social.

No mundo do samba, a Es-

tação Primeira da Manguei-

ra está presente dentro do

seu coração; na política, Le-

ci chegou a se candidatara

vice-prefeita do Rio, nas úl-

timas eleições. Tal postura

a tem colocado bastante à

vontade, a nível profissional

e social. Descoberta em 73

por Sérgio Cabral, Leci gra-

vou em 74 seu primeiro dis-

co "Antes que eu volte a ser

nada", pela Marcus Pereira.

Hoje são oito LPs, o último

"Um beijo no seu coração",

pela Copacabana, é um re-

cordista de vendagem e su-

cesso, o que só faz confir-

mar mais uma vez o grande

talento dessa artista, atual-

mente uma das mais impor-

tantes expressões da música

popular brasileira.

Sobre o mercado do dis-

co, Leci ressente um apoio

maior nesse sentido. Para

ela a música de expressão

genuinamente popular, co-

mo o samba, é uma das mais

alijadas do processo de pro-

dução atual.

"— No momento em que

o sistema sentiu que a rapa-

ziada iria tomar conta das

paradas de sucesso, sobretu-

do nas rádios, eles podaram

na raiz a nossa arte."

À sua coragem e determi-

nação, não falta a sua voz

na defesa da dignidade da

comunidade negra, contra a

discriminação, o racismo e a

liberdade individual. Talvez

seja por isso que ela se inti-

tule "guerreira e agitadora

pra valer", o que de fato,

para quem a conhece no

mundo do samba, e na

MPB, sabe que não é menti-

ra. Política, talentosa e mu-

lher de ideais definidos, Le-

ci quer que o Brasil corte re-

lações com a África do Sul,

acha Pretória a vergonha do

mundo e diz que a política

brasileira está falida há mui-

to.

SEISE MEIA

Com o lançamento do

seu mais recente LP, "Um

beijo no seu coração", Leci

Brandão marcou importante

presença no palco do teatro

João Caetano, que teve a

participação ativa de Zeca

do Trombone. O sucesso

deste espetáculo ocorrido en

tre março/abril, é mais uma

prova da importância dessa

artista para a música brasi-

leira. Com um estilo popu-

lar genuíno, Leci Brandão é

negra em sua música, como

um misto de uma Clementi-

na de Jesus renovada. A mar-

ca de seu êxito musical, não

Leci Brandão: o canto negro assumido

está apenas nas salas cheias,

nos shows superlotados, co-

mo o do teatro João Caeta

no. Seis e Meia, com Zeca

do Trombone, mas sim na

busca de uma identidade

com o popular, com o colo-

quial da massa proletária

brasileira. Sua voz tece mo-

mentos dignos das melhores

notas, sobretudo quando ela

lembra o samba de una es-

cola. É, sem dúvida, um ta-

lento que vai longe.

entrevista a João Mo rais edição de texto Uelinton Farias Alves

Um lugar em

Madureira

Quando você estiver circulan-

do por Madureira e quiser privar

de um ambiente que fale a nossa

linguagem, tomar uma geladinha,

com os mais variados acompanha-

mentos que vão desde testículos

de boi a uma deliciosa sopa de

ervilha, que, convenhamos cai

superbem lá pelas madrugas, apa-

reça no LOLLYPOP

Estou falando do ambiente

superdescontraído que fica na

Rua Carolina Machado, 542 loja

8 no prédio do Cine Show Madu-

reira. Lá você encontra a negritu-

de consciente do Agbara Dudu,

como outros também negros vol-

tados para a mesma temática.

E quem nos proporciona tudo

isto é Vera Maria Mendes, a pre-

sidente do Agbara. Maiora Falan-

te foi saber o que a determinou

ficar, ultimamente, por trás de

um balcão de bar e tomamos co-

nhecimento de mais uma trajeto

ria de nossa raça.

Vera nos contou que a com-

pra do estabelecimento veio de-

vido a uma brusca queda em sua

vida, desde que saiu do BD Rio

há 1 ano e 3 meses. Vera percor-

reu caminhos sinuosos mas em

franca ascensão. Professora pri-

mário durante 10 anos, concur-

sada do Banerj e posteriormente

formada em Ciências Contábeis,

foi indicada por uma amiga para

o BD Rio, onde julgava seria o

patamar de uma carreira promis-

sora e ali se estabilizaria. Quando

houve a saída do banco, a inter-

rogação no ar: e agora? Sempre

fora executiva, longe disso não

havia o que fazer para sobreviver

e aí a idéia do bar.

Quanto à questão da consci-

entização de movimento negro

Vera nos diz para a nossa surpre-

sa, que não era uma coisa de

dentro dela até quando, já pro-

fessora, sua ex-diretora lhe deter-

minou uma turma especial na Es-

cola México, onde ela fizera o

seu curso primário. Seria sua pri-

meira experiência de negritude

com a comunidade do Morro de

Santa Marta. Nossa entrevistada,

rindo, confessa que tomou a

princípio como um castigo, já

que havia sido uma aluna exces-

sivamente levada e a diretora as-

sim lhe dava um prêmio. A tur-

ma era essencialmente negra e

seu trabalho começou já os cons-

cientizando e principalmente às

mães.

Página 5

por Valdete Lima

E a vida continua com a infra-

estrutura da conscientização la-

tente. Eram longas conversas

com a turma de Botafogo, onde

morava entre eles, Jairzinho e

Paulinho da Viola. Vera lembra

que desde a Praia de Botafogo

à Marquês de Olinda a comuni-

dade era essencialmente negra e

por isso havia a necessidade de

reunir. Nesse meio tempo fre-

qüentava Madureira e questiona-

va a falta de um espaço para as

discussões.

Em 1977 ela conhece a Alci-

néia e nasce o embrião do que

seria o Agbara Dudu. A temática

era uma só: a necessidade de se

encontrar. A ideologia nasceu ra-

dical e permanece até hoje. Não

abrir mão dos valores negros e

atingir principalmente os não ne-

gros a níveis de consciência. Che-

gamos a 2 de abril de 1982 e sur-

ge o bloco afro tendo como base

o llê Ayê. Daí para frente foi só

sucesso e este a assustou. 0 gru-

po alcançou projeção internacio-

nal e Vera propôs então um am-

plo debate com as lideranças de

todos os movimentos negros pa-

ra saber se o caminho tomado

pelo Agbara era o certo e depara-

se com opiniões diversas. Mas o

grupo segue mesmo fragmenta-

do, com a mesma postura e ideo-

logia.

Peço-lhe no meio da entrevis-

ta um perfil e ela se autodefine

como "uma mulher negra não-

militante que deu certo". "Me

arrependo de não ter tirado a mi-

nha fatia e a das pessoas que me

eram fiéis". Hoje amargurada,

adia que nesses últimos 10 anos

a questão racial poderia ter avan-

çado mais. E quanto às perspec-

tivas para o futuro espera o Bra-

sil melhor e que os negros ocu-

pem o espaço que lhes é devido.

Politicamente situa-se à esquerda

mas não acredita que esta vença

a direita, infelizmente.

Para lhe dar apoio no atendi-

mento ao público. Vera chamou

Edna Maria de Oliveira Alfredo

— a Dinha —, que é uma militan-

te, com passagens pelo Quilom-

bo, ao lado de Candeia, onde

atuava num grupo de dança e fi-

nalmente no Agbara. Dinha nada

sabia de bar, só de cozinha e de

repente, chamada a socorrer a

companheira, não hesitou e ei-la

a preparar quitutes ajudando a

receber as inúmeras solicitações

que se estendem noite a dentro.

E neste contexto ela nos informa

que o Agbara exportou a dança,

a cultura afro e a cozinha tam-

bém.

Finalizando, Vera Maria Men-

des acredita que, a exemplo do

Brasil, sua vida terá grandes mu-

danças, novos valores serão revis-

tos mas continuará o que sempre

foirBrigando e lutando por aqui-

lo em que acredita. E quanto ao

Brasil, espera que, a exemplo de

Regina Gordilho, hoje represen-

tante de uma renovação, outras

apareçam.

edição de texto Uelinton Farias Alves


NUM! MAIORIA FALANTE Abril Maio

NFGROS- TNJ EM LUTA

Embora pouco divulgado, vem de longa data a resistência do povo negro no interior

estado do Rio de Janeiro. A formação de quilombos e a guerra travada, principal-

mente, contra os donos de escravos, latifundiários, dão um retrato terrífícante dos

anseios de liberdade e persistência na busca da condições dignas de vida, sempre n

gados pelos criminosos brancos ao longo dos séculos. Resquícios dessa opressão, ain-

da hoje, fazem parte do cotidiano do interior e por isso diversas entidades, de dife

rentes cidades, se reuniram nos dias 17, 18 e 19 da março para participarem do VII

Encontro de Entidades Negras do Interior do Estado do Rio de Janeiro, realizado no

município de São Gonçalo,

SOLITÁRIOS SOLIDÁR/OS

Desde a reorganuação do

Movimento Negro, em

meados da década de 70,

uma das maiores dificuldades

que temos observado se refere a

inexistência de fluxo de comuni-

cações que permita o trânsito

das informações pelos diversos

níveis do Movimento. Tal fato é

decorrência evidente da falta de

um projeto político, que se fun-

damente na transformação da so-

ciedade como um todo, e não na

coisa piegas da busca pela igual-

dade de participação e de opor-

tunidades junto és instituições

civis e militares.

Jé faz muito tempo que a

maior parte das entidades do Mo-

vimento Negro, organizadas nos

grandes centros urbanos, se Isola-

ram da perspectiva nacional, atu-

ando de forma instintiva e fisio-

lógica a partir do drama de misé-

ria vivido pela população negra,

não percebendo que o racismo é

apenas um dos atalhos dessa mi

séria generalizada.

Sem contar com os meios dis-

poníveis nos grandes centros,

muito menos com o apoio das

entidades negras da "capital", os

negros residentes no interior do

estado buscaram outras formas

de organização, para imprimir

nova dinâmica na luta contra os

brancos criminosos

Com a realização do Vil En-

contro de Entidades Negras do

Interior do Estado do Rio da Ja-

neiro, pudemos ter uma medida

da importância desse trabalho

que vem sendo desenvolvido há

quase quatro anos, embora so-

mente há um eno e meio tenha

sido criado o Conselho de Enti-

dades Negras do Interior do Es-

tado do Rio da Janeiro, CENIERJ

que já reúne 18 entidades.

NEGRO CALA O NEGRO

0 CENIERJ tem como princi-

pais objetivos estimular o surgi-

mento de grupos organizados e

de entidades negras em todos os

municípios do Rio de Janeiro,

e de articular o Movimento Ne-

gro do interior do estado, através

de encontros semestralSi discu-

tindo e apoiando os programas

dos seus filiados.

Um dos fatores decisivos para

a Implementação dessa alternati-

va - talvez um racha - foi a prá-

tica de discriminação das entida-

des da "capital" em relação às

problemáticas trazidas pelas pes-

soas do interior. "As entidades

da capital têm as suas estrelas a

não dão espaço para o negro do

interior". Muito menos que um

ressentimento, tal afirmativa

caracteriza como uma denúncia

da ignorância do Movimento Ne-

gro urbano sobre questões im-

portantes, ligadas basicamente

ao meio rural.

Os valores sociais fundamen-

tados na estrutura latifundiária «

coronelista - ao contrário do rit-

mo industriai e comercial dos

grandes centros - implica, no in-

terior, numa prática de discrimi-

nação racial que se manifesta.

objetivamente, na ralação negro-

branco, na busca por emprego,

espaço político-partidário, reli-

gioso (nas religiões judaicocris-

tãs). Outro fator de perseguição

que os criminosos brancos desen-

cadeiam contra o povo negro, se

dá quando eles, os criminosos

brancos, descobrem que determi-

nada pessoa está engajada no

Movimento Negro e na luta con-

tra a discriminação racial ê o ca-

so do estudante Raul de Oliveira,

jovem liderança negra, que estu-

dando e atuando na Escola Esta-

dual 10 de Maio, no município

d» Itaparuna, foi reprovado pelo

Conselho de Classe da escola.

MÍDIA E CONTRAMÍDIA

Também as entidades negras

do Interior sofrem um boicote

generalizado da mídia impressa e

eletrônica. A falta de meios de

comunicações modernos e pró

prios, dificultam as ações de mo-

bilização de população negra e

de denúncia contra as práticas

racistas dos criminosos brancos.

A TV Globo, através do Jor-

nal RJ TV dedicou numa de suas

recentes edições um relativo es-

paço às questões ecológicas do

município de São Gonçalo. Mas

um encontro de entidades negras

no mesmo município, reunindo

representações de grande parte

do interior do estado, não rece-

beu a menor divulgação. A mes-

ma indiferença sa constata nos

grandes jornais, à exceção dos

jornais "O Fluminense" e "O

Dia".

A comunicação entre as diver-

sas entidades se dá através de

cartas e ofícios, onde se busca

manter um fluxo de informações

atualizadas, sob a supervisão in-

direta do CENIERJ. É também

estimulada a troca de correspon

dência entre os participantes dos

encontros, e visitas de militantes

entre uma cidade e outra, para a

participação de eventos culturais

e de seminários.

AGÊNCIAS DE

FINANCIAMENTO AUSENTES

O Vil Encontro, em São Gon-

çalo, onde também se realizou o

primeiro (os outros foram em

Cabo Frio, Volta Redonda, Nova

Friburgo. Magé e Itaperuna),

contou com o apoio das entida-

des filiadas ao CENIERJ e de

uma grande dose de trabalho dos

militantes. Os recursos foram

conseguidos no comércio local, o

que exige um certo jogo de cin-

tura, pois um encontro de negros

sempre é objeto de preocupação.

Um fato que merece destaque é

o de que as prefeituras, indepen-

dente dos partidos políticos,

apoiaram de forma irrestrita a

todos os encontros realizados

nas suas sedas, uma ma que o

'próprio CENIERJ estabeleceu

como estratégia uma postura su-

pra-partidárla.

A precariedade de recursos fi-

nanceiros dificulta o processo de

organização e também de avanço

da luta. Segundo informações da

diretoria do CENIERJ, várias

correspondências foram remeti-

das para agências de financiamen-

to nacionais e internacionais,

sem que até o momento tenham

recebido resposta. Independente

das correspondências, o

CENIERJ buscou apoio técnico

junto às entidades da "capital"

para a elaboração a encaminha-

mento de projetos sem que tal

solicitação se concretizasse; o

que nos leva a crer, com um th

quinho de Intriga, que as ques-

tões negras Já foram loteadas e

que cada negro capitão de mato

obedece ao seu dono, tanto em

dólares, quanto em cruzados no-

vos, multo mais por falta de um

planejamento mínimo para as

ações de combate ao racismo, do

que por uma intenção institucio-

nalizada. Mas todo cuidado é

pouco.

JOVENS PELOS JOVENS

A presença do jovem negro na

luta contra a discriminação racial

vem crescendo de forma signifi-

cativa, segundo os participantes

dos encontros. Exultantes com a

descoberta do Modo Negro de

Vida - a própria Força Z. da pro-

fessora Beatriz Nascimento -

eles se Integram ao processo de

reflexão e buscam uma prática

que se expresse na consciência

cultural a estética, afirmando-se

como um agente de ruptura a de

transformação a, ao mesmo tem-

po, buscam os caminhos formais

da promoção humana como é o

caso de jovens universitárias (17

a 18 anos) do Centro de Estudos

Braall-África. Também o Movi

manto Afro-Brasileiro de Itape-

runa, além do trabalho de ruptu-

ra e de transformação, apoia de

diversas formas, inclusive com

ajuda de custo aos jovens que

cursam o pré-vestibular e a um

versidade.

A partir do V Encontro os jo-

vens já tiveram o espaço exclusi-

vo para expor as suas preocupa-

ções e encaminhamentos. Este

VII Encontro termina com a

possibilidades de realização, ain-

da este ano, do I ENCONTRO

DE JOVENS NEGROS DO IN-

TERIOR DO ESTADO DC RIO

DE JANEIRO. Cuidado cabeças

antigas da "capital".

Agradecimentos: Jorge Santa

na, presidente do Conselho de

Entidades Negras do Interior do

Estado do Rio de Janeiro -

CENIERJ; José do Carmo Perei-

ra, conselheiro do Movimento

Cabofriense de Pesquisas das

Culturas Negras, Daniel Ferreira,

diretor-executivo e Marilaia San-

tiago, Tesoureira do Centro de

Estudos Brasil-África - CE BA e,

joié Luiz, diretor do Movimento

Afro-Abrasilelro de Itaperuna -

MOABI.

por ÉltSimoa


Abril/Maio

O que mudou nestes

101 anos de Abolição?

JOÉDIMO GONÇALVES

"Na minha opinião mudou alguma coisa, pois há lül anos

o Negro não tinha poder nenhum Sou negro a presidente de

uma Comunidade composta por diversas famílias brancas. Esta

Comunidade tem um total de 980 famílias".

(39 anos, CQmsfCJantB. Presideme da AMQCRFM Asso-

ciação de Moradores do Conjunto Residencial de Marambaia).

LEXENITA DE OLIVEIRA SOARES

"Nada mudou para o Negro. A discriminação ainc

as dificuldades e oportunidades de emprego continuam. A dis-

cnn, polícia existe; na TV as oportunidades são maio-

res para os brancos do que para os Negros,

Na verdade, continua tudo a mesma coisa."

(27 anos - Aux. Contabilidade e Fotógrafo - Cupanco- Ni-

terói-RJ)

RftC\í»lAO

MAIORIA FALANTE

Desacosiumado a ser opiniio pública ~ a nau ser para

dar "coi lotai" ou condicionar a imagem de "analfabe-

to" pala grande Impn. ladia afrn-brasileiro ain-

da viva n Io com B repn .lar. Anadio à abor-

dagem para emitir a sua opimãü, confunde n direito de expres-

sar-se como tubvenão.

Esta gente é o retrato da p

leira. Pelo que o MAIORIA FALANTE, ouviu a viu, enquanto

o negro luta ainda pelo dirauo a cidadania, a elite branca in-

venta um novo "Status", para se manter, as imunídadai.

RUBINEY MARINS

"Continuam as reprassõas, as discriminações, os espaços não

surguam para o negro ainda, Nada mudou, apesar da festança

do Centenário Acabou o milho, acabou a pipoc

(26 anos, Comerciário - Bairro Jardim Catarina HJ)

CARLOS AUGUSTO CARNEIRO

"Nada. 0 preconceito continua, as opoiuimdades são lestn-

Uvas para as pessoas da cor Datei Clubes e Boates ain-

da banamo negro. Continuamos discuminados em todos os se-

tores do país".

(48 anos, fotógrafo - Pandotiba-Niienói-RJ).

FRANCISCO RIBEIRO

"Na mmha opinião, nío mudou nada. Se mudou foi só na

aparência".

(48 anos, Advogado - Nova Cidade-Sào Gonçalo-RJ)

KARLA RAMOS

"As pessoas negras, um geral, continuam sofrendo a discri-

minação e o racismo. 0 lanei I aparência" na procura

da emprajo, ainda continua.

Q espaço cultural para o Negro está limitado. O Negro ainda

tem na T V, papéis com pouca criatividade e insignificantes.

Sinceramente está tudo na mesma".

(22 anos, Comerciaria - Navas-São Gonçalo-RJ)

Xííi! O aWApõA

Quando nos idos dos anos

70,oGrupoPALMARES

de Porto Alegre (RS) le-

sumiu a insatisfação do Movimen-

lü Negro diante da farsa do 13

de Maio, B propôs o dia 20 de

Neve ^orte de Zumbi -

com- Ia luta contra o ra-

10, abriu uma questão que os

militantes e intelectuais deverão

rever quanto a forma de aborda-

gem que Q movimento deverá ter

em seu contato com as bases. Is-

to porque gerou um divisoi de

compreensãü classista junto a

maioria atra-brasilaira, (por coin-

cidância, nãn reconhecida como

militantai) A verdade é que a

questão trouxe à baila a medida

exata do distanciamento ainda

existente entre a minoria negra

politi/ada e os anseios da massa.

A população negra - majori-

tária - reverencia o 13 de Maio,

compelida pela institucionaliza-

ção da "Compaixão Branca

anta do sofrimento dos pretos, k

ainda, há a superestima ao culto

dos pretns-velhos na Umbanda e

o hábito de se oferecer feijoada

-ibras da Casa Grande A Sen-

zala - estes aspectos, sem dúvi-

da, merecem a atenção dos ideó-

logos do Movimento Negro,

Um outro lado a consideiar á

sobre a freqüente discussão a cer-

ca da aitatiiaçío do 13 de Maio,

oficializado pelos dominantes e

IAO No SLeWPOK

^u

ULAÇ/

MAIO

por baixo dos panos, reconduzi-

da como controlador social

Aliás, nãn diferente da atitude

oportunista do Deputado Cario-

ca JORGE LEITE (PMDB) que

transformou em Lei, o próprio

"20 de Novembro", para frustra-

ção de muitos militantes.

A peocupação sentida com o

protecionismo do Estadn nas

reivindicações pupulaiesr de-

monstra a não identificação do

povo com a historicidade da for-

mação do Estado Brasilairu. O

Estado, construído a partir dos

esses de uma determinada

classe social e delimitado rai

mente às fronteiras do acesso

teve o negro, o índio, mestiço

alijados pelo desenvolvimento in

dustnal, devido à condição ma

quiavélica dos liberais, que não

só esvaziaram o teor da tensão

racial, como deslocaram o foco

para a mera ascenção social de

uma minoria.

De fato, com este passado,

torna-se difícil aceitar-se a alian-

ça do Estado, cujo modelo sem-

pre esteve atrelado aos interesses

anti-populares. A capitulação

dos 13 de Maio é um indício do

que pode sor o futuro do 20 de

Novembro. A não ser que funda-

mentais transformações ocorram

com o lidar e o servir da coisa

pública.

wTofg kKuba


PéginaS MAIORIA FALANTE Abril/Maio

Humor de Negro umor de Negro Humor de negro Humor de negro

f&mí

Luis visto por Max

LUÍS CLÁUDIO SILVA ou

simplesmente LUIS CLÁUDIO,

é Carioca nascido em 30 de Mar-

ço de 1964.

Seu traço é pouco desenvolvi

do mas facilmente reconhecível

Sua produção é basicamente db

Imprensa Alternativa.

Em 84 estreou profissional-

mente ilustrando as páginas do

Jornal HOJE, de Nova Iguaçu. A

partir daí seus desenhos ganha-

ram espaço considerável em ou-

tros informativos iguaçuanos.

Fez de tudo um pouco. Charges,

Ilustrações, Quadrinhos, Cartuns,

Vinhetas, Arte-Final, etc.

JORNAL CALÇADÃO, FO-

LHA DE NOTTCIAS, EDIÇÃO

EXTRA e FALA BAIXADA, são

alguns dos Boletins que publica-

ram seus trabalhos.

Luis Cláudio ilustrou tam-

bém, a obra infantil "Os Livros e

as Traças" do Desenhista e Escri-

tor Pazelli.

Seus trabalhos mais recentes

foram publicados no Semanário

O PASQUIM.

por Zé Roberto

Central, a Tragédia do Brasil

Vejam ilustres passageiros: Conver-

síveis da Zona Sul, a Zona Norte que

tens a teu lado, saibam, morreremos

todos, e a culpa é do novo Cruzado.

Estrada de Ferro Central do Bra-

sil. EFCB é a marca. Marca que inglês

construiu e não quer ver.

Por aqui passam as gentes que fa-

zem esta Cidade Maravilhosa funcio-

nar. São trabalhadores. Paus-de-arara,

pingentes, surfistas, domésticas, ne-

gros, mestiços, loucos, andarilhos,

peões, balconistas, prostitutas, donas-

de-casa, ambulantes, traficantes, bo-

nitos ou feios. Não importa, são o po-

vo desta terra brasileira, carecem do

respeito.

No entanto, são tragados desuma-

namente por esta aorta férrea, Ter-

blinka Garden, Auschwitz à sua ma-

neira.

Central do Brasil. Mortalha de Cor-

pos, sonhos e esperanças. Sempre

mortal. A Central é do Brasil.

Este trem, que vai para Marechal

Deodoro, é de número 13. Sem tro-

cadilhos, é o trem para-dor.

Naquele, um poeta anônimo de-

doma seu mais novo poema: "Meu

amor/Nosso caso/foi como estar na

Central/ e perder o último trem pra

Japeri".

Aquele outro, que tem cachaça

servida em copinhos descartáveis de

café, vai ironicamente à Santa Cruz.

Um outro, saibam, vai até São

Paulo, Capital. Mas todos vem para

lancinante Central do Brasil.

Num abrir de portas, "olha o

amendoim torradinho". O esmoleu

sem pernas, arrasta-se sobre pingos

de suor, sujeira e palitos de picolés,

das muitas fabriquetas de fundo "de

quintal.

A porta fecha com o grito deses-

perado de alguém que ficou sem a

bolsa, carteira ou qualquer outro

bem.

"Deus, onde estais que não res-

ponde" a esta menina, que pede juda

para sustentar uma criança de colo e

diz que o marido está em casa, impos-

sibilidade de trabalhar, pela queda do

andaime.

Central do Brasil. Ao redor, pas-

tores asmáticos prometem no céu o

descanso eterno para suas ovelhas.

Centenas de barraquinhas de camelôs

contornam o pelourinho carioca. Ex-

ploram os explorados, que matam

uma fome secular, envolvidos em va-

pores de amoníaco, ou morrem pela

polícia, na lama.

No alto, bem próximo, as favelas

da Providência e Santo Cristo, "novas

Senzalas", assistem à chegada dos

trens negreiros para um holocausto

bem à brasileira.

por Chico Lino

'K^A^A^

A l-undaçõo Nestlé de Cultura

lançou recentemente o livro de con-

tos "Leite do Peito", de Geni Guima-

rães, como resultado da sua retum-

bante participação no dia negro da

49 Bienal Nestlé de Literatura Bra-

sileira.

A mesma ixmunta enviada a di-

versos integrantes da .mesa durante

os debates revelou a inquietação e o

interesse do público, esmagadora-

mente branco, e como era de se es-

perar: "Onde encontrar o trabalho de

vocês?" A despeito do que escreve o

Diretor-Prcsidente da Fundação. Ira-

ty Ramos, no prefácio do livro - ele

diz que a Nestlé "procurou" Geni e

propôs a publicação , foi a resposta

da escritora àquela pergunta que de-

tonou a iniciativa. Geni. que tem dois

livros de poemas já publicados, res-

pondeu o seguinte: "Tenho um livro

de contos inédito, mas nao tenho di-

nheiro para puhlicar. Se a Nestlé qui-

ser me jazer este presente eu agrade-

ço. " Os aplausos ecoaram, com entu-

siasmo.

A questão é: quem presenteou

quem? "Ela nos chega jéita um pre-

sente", escreve Ricardo Ramos, na

orelha da capo. Não por acaso, a pu-

Leite do Peito

hlkação deste livro contraria a pro-

posta da Fundação de só puhlicar os

ganhadores dos seus prêmios literá-

rios. Acontece que "Leite do Peito" é

um livro importantíssimo na história

deste conjunto polêmico e eclético

chamado Literatura Negra. Porque

aponta para a sofisticação do contra-

ponto negro na literatura através da

inlertextualidade e do tratamento es-

tético, o que não tem nada a ver com

erudição ou rebuscamento. Trata-se

de um texto .enxutoi. com palavras

escolhidas sob medida, que sabe ma-

nipular as emoções do leitor, sem pie-

guismo e sem chororò. Há outros

exemplos virtuosos, mas fiquemos em

Geni.

tia vai narrando, numa seqüência

de contos autobiográficos, a evolução

da vida de uma pessoa com pontos de

vista específicos: infantilidade, femi-

nilidade, singularidade racial, tudo

mexido em panela de barro e aqueci-

do em fogão de lenha - fora. portan-

to, do espaço urbano que impõe as

regras de comportamento e tudo o

mais.

Há aqui o susto e a lição da crian-

ça que. de repente, descobre que dei-

xou de ser o centro das atenções da

Literalmente assim

REVENDO AS REGRAS

A idéia inicial deste espaço é de

comentar livros que tenha a ver

com as áreas de interesse do JMF

e de divulgar notícias do mundo

literário. Acontece que andei

comprando uns livros e fazendo

comentários e recomendações

através desta coluna. Não tem

sentido eu pagar USS 8.00,

15.00, 25.00 por um üvro de

uma super editora para comentá-

lo aqui no nosso espaço depalpe-

rado de recursos. A partir desta

edição só farei referência aos li-

vros que nos forem remetidos

gratuitamente. MUitância tem li-

mites e custa caro.

TEMPO BRASILEIRO

Custou mas saiu o número 92/93

da revista Tempo Brasileiro, que

tem por título O Negro e a Abo-

lição. A edição organizada peto

professor e crítico literário Paulo

Pereira reúne nas suas 194 pági-

nas artigos de vários estudiosos

sobre as questões do negro no

Brasil, bem como alguns dos re-

presentantes do primeiro escalão

da Literatura Afro-Brasileira

contemporânea.

INFANTIL TÃO NOSSO

Arroz e Feijão, é o nome do li-

vro recente da escritora Helena

Rodrigues Barbosa, lançado pela

Editora Vozes. Uma estória gos-

tosa de se ler e de se ouvir, sobre

uma família negra contemporâ-

nea que conquista um espaço so-

cial em meio a nossa sociedade

racista. 0 belo do livro, além da

linguagem coloquial e lúcida é o

LviíaAvt>iü-

por Aoílio Ferreira

mãe: o devastador questionamento

sohre a incompreensão do mundo

adulto: a negação do natal como in-

dústria de necessidades de consumo:

a ironia sohre a onisciência do Deus

cristão: o retrato da violência perpe-

trada pela cultura do hranqueamento.

a valorização da pessoa idosa, tão im-

portante no universo cultural negro,

assim como o respeito á sabedoria

adquirida com a vida e não nos livros:

a sutil denúncia da contribuição dos

educadores no processo que violenta

com tremenda crueldade a formação

de um ser na nossa sociedade.

Só. porém, lendo o livro para cap-

tar o talento e o encanto com que tu-

do isso é veiculado. Um tira-gosto

apenas:

"Foi quando me escapou a emo-

ção, dei um passo comprido e beijei

a barriga da minha mãe. Diante do

gesto incomum. todos ficaram me

olhando meio jeito de espanto.

Fiquei envergonhada e fingi que

tirava, com a unha. uma casquinha de

coisa nenhuma escondida entre os

dentes do fundo "

por Luisinho Gomes

fato dos personagem lembrarem

do passado de forma organizada,

o que permite um caminho críti-

co da fantasia infantil e juvenil,

sem que a narrativa se tome can-

sativa.

TERRA DO OCIDENTE

Apaixonante o livro Martu. Prê-

mio Rio de Literatura-86 de Poe-

sia, concedido pela Fundação

Rio. 0 canto de Elizabeth Hazin

ao (seu) povo palestino nos faz

ainda mais solidários com aquela

luta de liberação, que já põe di-

ante do mundo uma terceira ge-

ração de pessoas que buscando a

paz dormem e acordam sob a fú-

ria dos caças e canhões israelen-

ses Martu - Terra do Ocidente

- deve ser lido não como uma

notícia literária, mas sim como

um chamado de dignidade e luta.


Abril Maio MAIORIA FALANTE

Presos: A Liberdade de Aprender

L

Uma das situações mais conturbadas dos governos estaduais diz respeito ao siste-

ma carcerário. A incompetência, ou o descaso por parte do Estado em relação aos

presidiários, tem mobilizado alguns setores da sociedade em busca de um mínimo de

condições de existência dentro dos presídios. Um dos aspectos críticos desse contex-

to refere-se à educação. 0 Jornal MAIORIA FALANTE esteve com a professora

Vanda Maria de Souza Ferreira, que recentemente foi designada como Diretora da

Divisão de Educação e Cultura, do Departamento do Sistema Penal do Estado do

Rio de Janeiro (DESIPE) porÉi.s*nofl

JMF - Como está estruturado o Sis-

tema da Educação do Complexo Pa-

nitenciàrio?

Vanda Ferreira — O sistema educacio-

nal implementado no Complexo Peni-

tenciário baseia-se em: a) Ensino Su-

pletivo com seis Unidades Escolares

nas penitenciárias Milton Dias Morei-

ra, Lemos de Brito, que formam o

complexo da Frei Caneca; Presídio

Evaristo de Moraes, na Quinta da Boa

Vista; Esmeraldino Bandeira, Muniz

Sodré e Talavera Bruce, que formam

o Complexo de Bangu; b) Cursos pro-

fissionalizantes em convênios com o

SENAC e o SENAI; c) Auto-estudo

em 2° grau, onde os internos partici-

pam dos Exames Supletivos e de Ves-

tibular para as Faculdades; d) Cursos

livres de artesanatos, oficinas de tea-

tro, artes plásticas. . .

JMF — Existe uma relação direta en-

tre o analfabetismo e a criminalida-

de?

Vanda — Sim. Porque o sistema edu-

cacional vigente em nosso país — uma

Educação Dominadora — permite que

o homem comum seja um ser acomo-

dado, sem espirito crítico. E esta

educação só privilegia a classe domi-

nante, impedindo uma transformação

profunda de nossa estrutura sócio-

econômica e cultural. Esta realidade

faz com que grande parte da socieda-

de seja domesticada para ser domina-

da, conseqüentemente dependente,

oprimida e marginalizada e quando

parte para uma reação, obviamente o

caminho e o da criminalidade.

JMF — A educação no Brasil sobrevi-

ve numa crise permanente, como este

fato se reflete no processo educativo

do Sistema Penitenciário?

Vanda — A clienteia presional sendo

parte integrante da sociedade como

um todo, automaticamente toda

crise fora do cárcere reflete imedia-

tamente dentro deste. No caso espe-

cífico da Educação o descaso é total,

pois o Estado do Rio de Janeiro pos-

sui 23 Unidades Prisionais e somente

seis escolas supletivas de 1? grau. As

autoridades que compõem a Secreta-

ria de Estado de Educação e Cultura

parecem esquecer que "A educação

é um direito de todos e dever do Es-

tado".

JMF — A ociosidade dos internos é

um dos problemas para a reintegra-

ção do preso na sociedade. De que

maneira a educação formal pode con-

tribuir para reverter este quadro?

Vanda — A atual direção da Divisão

de Educação e Cultura do Desipe pre-

tende implantar uma pedagogia que

se propõe ser uma Educação Liberta-

dora (método Paulo Freire), destina-

da a propiciar aos internos o papel de

sujeitos criadores do seu próprio pro-

cesso de ensino-aprendizagem, permi-

tindo-lhes que se emancipem através

do diálogo, do pensamento crítico,

da criatividade, da reflexão e ações

autênticas. A reformulação da metq;

dologia pedagógica, a ampliação da

rede escolar supletiva no sistema pe-

* .m>t:?,...-,!):,:. ■■■■■

nitenciário, a implantação do ensino

de 29 grau deverão, juntamente, com

os cursos profissionalizantes e as ati-

vidades artísticas culturais combater

gradativamente a ociosidade dos in-

ternos e conseqüentemente ter uma

ação mais efetiva no campo da resso-

cialização dos mesmos.

JMF — Como se caracterizam o de-

sempenho e o aproveitamento do alu-

no?

Vanda — A educação que é desenvol-

vida no sistema penal não sensibiliza

e nem seduz os internos para a fre-

qüência as aulas na Escola. Sabendo-

se de todas as críticas que se tem á

esta Educação, fatores extra-curricu-

lares que são cotidianos dentro de

um presídio também é fator de eva-

são e baixo rendimento escolar. No

momento o que mais desperta inte-

resse ao interno são as atividades pro-

fissionalizantes e as artísticas-cultu-

rais.

JMF — Como professora a visão, rela-

ção, que você tem com o público in-

fanto-juvenil pode ser comparada de

alguma forma com esta experiência

com os internos?

Vanda — Partindo do princípio que o

meu contato enquanto educadora

com o público infanto-juvenil, foi

com os alunos da rede municipal e da

estadual de ensino em escolas de fave-

la e periferia, existe uma grande iden-

tificação, pois o nosso interno, na sua

grande maioria, é negro e veio da fa-

vela. Cidadão favelado, oprimido que

vai ao cárcere, é comum nas minhas

visitas às Unidades Prisionais encon-

trar atrás das grades um ex-aluno.

JMF - Que tipo de relação é estabe-

lecida entre o Desipe e os presos que

cursam o pré-vestibular e as Universi-

I Encontro de Jovens

Os jovens moradores de

favelas e da periferia da Zo-

na Sul do Rio de Janeiro,

realizarão no próximo dia

30 de abril, o I Encontro de

Jovens Moradores de Fave-

las e Periferia da Zona Sul,

no CIEP Presidente Agosti-

nho Neto, à rua Visconde

Silva, s/nOi no bairro de Hu-

maitá, em Botafogo. A dinâ-

mica do encontro será: tra-

balho de grupo, palestra,

dramatização e o tema em

discussão é o Dia do Traba-

lho, dentro da linha "As

condições de vida do traba-

lhador brasileiro". A realiza-

ção do trabalho é do grupo

afro fíaciso e qualquer in-

formação pode ser obtida

no próprio CIEP Presidente

Agostinho Neto.

dades?

Vanda — A assistência que a Divisão

de Educação e Cultura dá é muito

precária, situação que pretendemos

solucionar se possível ainda neste pri-

meiro semestre. Enviamos ao vestibu-

lando livros, apostilas do Curso Mar-

tins para auto-estudo e apoio assis-

tencial no ato de inscrição e matrícu-

la quando aprovado, cabendo á seção

de Educação Penitenciária um acom-

panhamento do interno junto ás Fa-

culdades.

JMF - Existe um modelo cultural es-

pecífico influindo sobre a proposta

educativa que se procura aplicar aos

alunos do Sistema Penitenciário?

Vanda — Até a presente data o mode-

lo cultural utilizado dentro das esco-

las dos estabelecimentos penais, é o

mesmo utilizado pelas escolas da "so-

ciedade livre".

JMF — A rotatividade dos presos in-

terfere no processo educacional? Qual

a metodologia encontrada para supe-

rar essa dificuldade?

Vanda - Ao ser transferido de uma

Unidade para outra que não tenha es-

cola, o interno interrompe o proces-

so educacional. Problema que deverá

ser solucionado quando for implemen-

tada a linha de ação desta Divisão.

JMF — Existe algum estudo ou proje-

to social visando estender o apoio

educacional aos filhos d os internos?

Vanda — Como ja foi dito a Educa-

ção sendo direito de todos, compete

às Secretarias de Educação o atendi-

mento educacional a todos os cida-

dãos. Cabe à Secretaria de Justiça os

cuidados da infância (creches) aos fi-

lhos das internas da Penitenciária do

Talavera Bruce, bem como matriculá-

los na rede oficial de ensino na idade

prevista em lei.

Congresso

da FNLIJ

Durante 24 a 28 de julho de 1989 a

Fundação Nacional do Livro Infantil

e Juvenil, com o apio da Universidade

Estadual do Rio de Janeiro, realizará

o seu III Congresso.

Buscando um maior aprofunda-

mento nas respostas demandadas pela

clientela mais especializada, o Con-

gresso terá dois temas principais: "A

Crítica de livros de Literatura Infantil

e Juvenil — Como e para que?"e "A

Ilustração de Livros - Funções e Lei-

turas". Maiores informações sobre co-

mo participar podem ser obtidas atra-

vés do telefone 021-220-0790, da

FNLIJ.

Livro Infantil e Juvenil:

Dia Internacional

Página 9

Como parte das comemorações do Dia Internacional do Livro

Infantil e Juvenil (dia 3 de abril), a Fundação Nacional do Li-

vro Infantil e Juvenil está levando a todos a mensagem come-

morativa, de autoria de J. O. de Graft Hanson, um conhecido

autor de literatura infantil de Gana, que sob o tema "Leia e

Passe Adiante", tomou como personagem de sua história a ara-

nha Ananse, figura folclórica da África Ocidental.

o

o Numa noite de lua, vovô se sentou

Q- no canto preferido da sua casa, como

y costumava fazer depois do jantar, e

2 começou a fumar cachimbo, muito

o pensativo. Ele sabia que sua tranquili-

5. dadc ia durar pouco, pois estava na

hora de contar histórias. De fato, os

netos e crianças da vizinhança se aco-

modaram ao seu redor.

"Antes de contar a história de ho-

je", disse, "vou explicar por que vo-

cês gostam tanto de ler. Sabem o que

acontece a quem lê livros?" Olhou

em tomo e viu que as crianças tinham

prestado atenção à sua pergunta, mas

nao sabiam como respondê-la. Ele

não esperava mesmo uma resposta.

Então, explicou que os livros contam

histórias sobre situações que aconte-

cem ou podem acontecer a homens,

mulheres, crianças e animais na vida

real, na imaginação ou até além da

imaginação.

"Agora, crianças", prosseguiu vo-

vô, ajeitando-se na cadeira, "vou con-

tar uma história interessante". As cri-

anças aguçaram os ouvidos.

"Muito tempo atrás, Ananse, a

aranha lendária, decidiu guardar só

para ela a sabedoria do mundo. Reco-

lheu então toda a sabedoria que

achou e guardou-a dentro de um po-

te, certa de que assim não ia restar no

mundo ninguém mais sábio que ela.

Em seguida, amarrou o pote à cintura

e começou a subir numa árvore, para

esconder o pote lá em cima. Aconte-

ce que, sentada ali perto, estava uma

menina çiue tinha visto tudo. Ela per-

guntou à aranha: "Pra que esse esfoi^

ço de subir na árvore com o pote

amarrado na cintura? Não seria mais

fácil e sensato carregá-lo nas costas?"

Ananse achou sábia a sugestão da me-

nina, mas ao mesmo tempo perce-

beu. . . que não era a única no mundo

a saber das coisas. Ficou tão furiosa a

admitir isso, que deixou o pote cair,

espatifando-se em mil pedaços."

As crianças deram uma gargalha-

da e começaram a comentar a história

com euforia. Vovó esperou que se

acalmassem e ontinuou: "Foi assim

que toda a sabedoria que Ananse ten-

tara aprisionar espalhou-se pela Terra.

Por causa disso, todas as pessoas do

mundo possuem alguma sabedoria."

Vovô explicou também gue os li-

vros, quando narram experiências co-

mo esta, despertam curiosidade, esti-

mulam a imaginação e proporcionam

momentos de aventura, perigo e sus-

pense, assim como segurança e alívio.

"Os livros mostram coisas boas e coi-

sas ruins", disse ainda vovô, "e des-

pertam o interesse pela beleza e pela

arte. Da próxima vez, quem vai me

contar uma história são vocês, dizen-

do o que sentiram e o que mais lhes

impressionou quando a leram".

A criançada ficou entusiasmada.

Um penino levantou-se e falou: "Vo-

cê já contou muitas histórias interes-

santes como a de hoje. Por que não

escreve um livro reunindo todas elas,

para que aspessoas do mundo inteiro

possam ler e apreciá-las?"

Vovô mexeu-se na cadeira e, tiran-

do o cachimbo da boca, disse: "Mas

eu já fiz isso, meu filho. "Voltando-se

lentamente, puxou de trás da cadeira

uma caixa, que abriu diante das crian-

Sas. De dentro dela, saíram montes

e livros. "Di, livros", gritaram as cri-

anças. Então, vovô distribuiu entre

elas os livros, dizendo a cada uma:

"Leia... e passe adiante".

Maioria Educação

Eli Gomes - Janete Santos - Azoilda Louretto da Trinidade - Wanda

Mana Souza Ferreira ■ Maria José da Silva Lepes - Eliane Souza - Selma

Maria da Silva.

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«•n.10

MAIORIA FALANTE Abril Maio

O CRITÉRIO DO MÉRITO INDIVIDUAL cn

;por Maria JoséLopes da Silva;

Ao analizarmos os proble-

mas educacionais uma

pergunta logo se levanta:

será a escola uma transmissora

de conhecimentos, ou de ideolo-

gias? Responderíamos que a es-

cola, na verdade, é as duas coi-

sas. Por um lado é uma difusora

dos valores ideológicos da classe

dominante e por outro, tem co-

mo atribuição a transmissão de

conhecimentos. Uma outra ques-

tão, é que muitos pais afirmam

que os seus filhos não conse-

guem aprender nada na escola. É

comum, na vivência dos profes-

sores, perceber que os alunos es-

tudam para determinada prova,

mas se os testamos naqueles mes-

mos conteúdos, alguns dias de-

pois, já esqueceram tudo. Tal es-

quecimento se constata de forma

mais agravante no retorno às au-

las, após as férias.

Numa sociedade dividida em

classes como a nossa, há a classe

dos que trabalham e a dos que se

apropriam do trabalho produzi-

do pelos primeiros. É necessário

que se faça uma análise da verda-

deira função da escola nesse con-

texto, onde a burguesia se apro-

pria dos resultados do trabalho

da classe trabalhadora, dentre os

quais esta o conhecimento. Sen-

do o conhecimento um meio de

produção, a classe dominante o

apropria, reelaborando-o, trans-

formando-o, para transmiti-lo

depois através de uma instituição

adequada, que é, justamente a

escola. Ocorre que para as rela-

ções de exploração se perpetua-

rem na sociedade, é necessária

que ao transmitir o conhecimen-

to para a classe trabalhadora, a

burguesia o faça,primeira de ma-

neira banalizada, medíocre e, se-

gundo, de forma seletiva.

Falando da nossa escola, a es-

cola brasileira, ela mudou bas-

tante nas últimas décadas por vá-

rios fatores, dentre eles, as mis-

turas sociais, de tal forma que

hoje podemos encontrar nos

bancos escolares o filho do ope-

rário, da classe média e filho do

burguês. Tal fato dá a ilusão de

que todos têm as mesmas opor-

tunidades educacionais, mas logo

verificamos a falsidade, sobretu-

do pelos mecanismos ideológicos

que se produzem no interior da

escola, cujo objetivo é perpetuar

as desigualdades. Um destes me-

canismos é o que chamamos de

critério do mérito individual.

A primeira imagem que uma

criança tem de si mesma, geral-

mente, lhe é dada através da es-

cola, nas relações com os cole-

guinhas, com os professores e

outras relações interpessoais, ou

grupais. É lá, então, que freqüen-

temente a imagem do fracasso

ou do sucesso é introjetada pela

criança desde o maternal. A

maioria dos filhos dos trabalha-

dores não está preparada para in-

gressar e se desenvolver nessa es-

cola tal qual é concebida. Ao

passo que os filhos da burguesia,

desde cedo, ainda no contexto

Escola Comemora Dia

Internacional da Mulher

No CIEP Presidente Agostinho

Neto as comemorações ao Dia Inter-

nacional da Mulher - data que faz

parte do calendário cívico da escola

e tem um tratamento pedagógico que

invade a sala de aula - contou com a

participação de vários segmentos da

comunidade escolar entre alunos e

alunas, mães, funcionários (animado

res culturais, serventes, inspetores

professoras e direção).

Através de um encontro informal,

nós do RACISO, passamos às profes-

soras Maria Joaquina e Maria da Gra-

ça, diretoras do CIEP, o convite e a

agenda divulgados pela Divisão Cultu-

ral Afro-Brasileira, da Secretaria Mu-

nicipal de Cultura, contendo as ativi-

dades que seriam realizadas durante

a semana.

Maria da Graça, diretora adjunta,

assumiu a coordenação dos trabalhos,

levando a comunidade escolar a de-

senvolvê-lo dentro de um espírito crí-

tico e reflexivo.

A participação foi tDtal, come-

çando pela ampla divulgr ;ão da data,

hora e local dos eventos, elaboração

de um comunicado aos responsáveis

pedindo a autorização das alunas ins-

critas para irem a passeata, o cuidado-

so preparo dos uniformes das alunas

(elas representavam a conquista à

educação), o convite a toda a comu-

nidade e confecção dos cartazes que

foram divididos em duas séries: os

afetivos e carinhosos e os de consci-

ência política.

Durante as discussões na sala de

aula, a Turma 101, concluiu: "ho-

mem não é o machão que bate na

mulher, que escolhe o serviço para ela

fazer; a mulher ajuda o país; a mulher

defende sua cor (raça); a mulher vai

na passeata". A aluna Rose, da Tur-

ma 202, que levou um cartaz contra a

discriminação racial para a passeata,

escreveu em sua redação: "Eu sou

uma mulher. A minha mãe é muito

feliz porque ela é mulher". Outras co-

leguinhas de Rose também registra-

ram suas emoções em redações. Simo-

ne achou o dia muito importante por-

que teve passeata. Sandra ficou im-

pressionada porque todas as mulheres

cantavam, dançavam com os cartazes

na mão e Caroline escreveu; "Ontem

eu fui na passeata das mulheres lana

cidade. Minha mãe também foi".

A atuação dos funcionários acon-

teceu de forma especial através de Cé-

lia, servente, que se dedicou a acom-

panhar as atividades, inclusive no dia

da passeata; de Belquice, do projetp

"Quanto Vale Uma Criança Negra",

elaborado pelo escritor Joel Rufino,

que está sendo desenvolvido no CIEP;

das professoras Angela e Anete, que

trabalharam exaustivamente o tema

e fecharam a semana com uma bela

avaliação e um mural coletivo; dos

animadores culturais Alberto e Jerõ-

nimo e da Raquel, inspetora de alu-

nos. O CIEP Presidente Agostinho Ne-

to fica localizado no bairro do Humai-

tá, zona sul do Rio, e grande parte

das crianças que ali estudam perten-

cem à comunidade do Morro Santa

Marta, em Botafogo. por Eliane Souza

Maioria Falante

252-2302

5|ofl"W

81

familiar, já entraram em contato,

por exemplo, com o conhecimen-

to abstrato desligado da prática e

já aprenderam a privilegiar a lin-

guagem verbal nas suas comuni-

cações. Essa criança, burguesa, já

se habituou a ser elogiada toda

vez que faz um desenho bonito,

canta uma música ou diz um ver-

sinho de maneira original, en-

quanto o filho do trabalhador vi-

ve em outra realidade e aprende

outras coisas, que a escola não

valoriza. Portanto, essas crianças

de origem de classes diferentes

ao ingressarem no mundo da es-

cola, encontram uma realidade

que privilegia determinados valo-

Cruzadas

1 12 13 16 "

2

4

II 18

15

res, como a competição.

Essa escola tem como código

principal de expressão a palavra

na sua variante culta, ou seja, da

classe dominante. Trabalha o ra-

ciocínio abstrato completamente

desligado da prática da realidade

do aluno, etc. A criança da classe

popular encontra um professor

que valoriza apenas um determi-

nado código de comunicação, de

comportamento e de valores. Vê-

se logo que a escola, que de iní-

cio parecia tão democrática, na

verdade não o é.

Vamos verificar que o profes-

sor, de partida, já forma uma

opinião sobre os seus alunos: ou

ele é "bom", ou é "mau"/ E ra-

ramente esta opinião se modifica

ao longo do tempo. Assim, as

crianças que são mais valorizadas

pela escola tendem a melhor se

adaptarem e alcançarem relativo

sucesso, ao passo que aquelas ou-

tras, que aliás são a maioria, aca-

bam sendo eliminadas brutalmen-

te, nada conseguindo, até serem

definitivamente excluídas. O es-

tigma do fracasso se interioriza

de tal forma na maioria dessas

crianças, que elas passam a se

comportar de acordo com a ex-

pectativa que a instituição tem

em relação a elas, ou seja, a de

crianças de péssimo rendimento,

em uma palavra, incapazes. O

que vai fazer com que se reforce

para essas pessoas, o muito de

que são culpados pelo próprio

fracasso e, no futuro quando in-

gressarem no exército de mão-

de-obra disponível á exploração

capitalista, serão cada vez mais

acomodados, achando que rece-

beram na escola o que deviam re-

ceber mesmo, pois são "inferio-

res" e "incapazes".


■ 19

S

.1

7

S

9 14


10

11

HOMIXONTAIS

1 Questão Étnica

2 Que determina a contagem de tempos

3 Plano de Integração Social

4 Que não envelhece

5 Temível

6 Sigla do Estado onde se formou o

Quilombo dos Palmares

7 Escuro; sombrio.

8 Forma reduzida de "N3o Senhora"

9 LTder africano que luta contra

segregação racial

10

11

IOCO»J05OID-»

3 3 ^ D

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Exprime surpresa; espanto.

Calor intenso.


Abril/Maio /


Página 12 MAIORIA FALANTE Abril/Maio

TU IfTi nuldiiI 1

Cen

Io Partid'

< do BfrJ

Logo no iníi

maioria dos parlam»

temente requereu a instauração de ii- policial para

r* c i ^>l A i/

JMF - Voei comaçou a tua vida 00

Iftlca atravii do ilndicalismo, 011 de

açSat junto às comunidadas?

Edson Ssntoí - Comecei no movi

mento eítudentll, em 1979, >■

I-íMO da UNE. Atuei tatri

politicamente, nos centros academi

coi e na Unlío Estadual dos lltui

te». Depois foi que passei a atu--

comunidades e no Sindicato dos Me-

telOrqlcos.

JMF ~ Essa atuação foi antat ou de

pois do nau ingresso no PC do B?

Edson Santos - A atuaçío foi |

camente junto. Eu comecei a faíer

política em 1979 e em 1980 entrei

no partido.

JMF ~ Ai pastoat qua ta destacam

nos movimentos social e sindiciti

buscado no lagalismo parlamentar

(mandato! o respaldo para as trans

formações da soeledada. Isto nto se-

ria um retrocesso já que o partidaris

mo no Brasil i historicamente fisio-

lógico?

Edson Santos - 0 parlamento, nlo I

lô no Brasil nío, mas de uma formi

geral no mundo, o parlou

gués, historicamente é caduco,

colia ultrapassada. Mas politicamen-

te, diante da sltuaçío que

ve. Inclusive pela consclíncin 0

puleçlo ho|», é Importante a atu

parlamentar. Isto como um In

mento de apoio iss lutas populiiios.

Mas na nossa opiniSo o princlp

que chamamos de extra-parlam'

a luta na M

JWf - Como voei vi a idéia de que

Ot parlamentam» municipais, esta-

duais e federais não devam ser iVmtr

tos por mais da dois mandatos conse

cutivos?

Edson Santos - Isso depende.. acho

que a soluçlo para resolver o descré-

dito dos políticos nío é Impedii que

ele St reeleia, pois quem dá o m

to é o povo. Alguns políticos

ultrapassados na medida em que o

povo for crescendo politicamente

Legalidade Legislativa por

JMF - Algum setores do Movimento

Negro Inteiprataram como um riesllta

racista do PC do B, o apoio privilegia-

do dado à candidata Mareia Araújo

durante a campanha. Oual a sua posi-

çSo a esse respeito'

Ittulro lug

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