01 - Café de Ontem

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01 - Café de Ontem

1000

Universos

Número 01 – Janeiro de 2011

Organização: Junior Cazeri

Capa: Rodrigo Martins

http://cafedeontem.wordpress.com/


Prefácio

1000 Universos

O que é o fantástico? Mundos, criaturas e aventuras que

estão além do nosso cotidiano modesto? O calafrio do horror, o

encanto diante da fantasia e o assombro contemplando um futuro

distante?

Definir o fantástico é aprisioná-lo. E isso é um tanto injusto,

dadas as possibilidades infinitas que ele nos oferece. Eu descobri o

fantástico nos desenhos animados, depois nos quadrinhos, cinema e

literatura. Como em uma viagem sem fim, estou sempre a

redescobri-lo, em palavras e imagens.

Hoje, eu lhe convido a participar desta busca, deixando-se

guiar pelas palavras hábeis e imaginação fértil dos escritores aqui

presentes que, tão gentilmente, cederam seus trabalhos para que

nós, juntos, pudéssemos mais uma vez descobrir o fantástico e suas

vastidões. São universos sem fim, arrepiantes, encantadores e

assombrosos. Sente-se confortavelmente, tome fôlego, relaxe e

aprecie. Permita-se sonhar e, sonhando, crie o seu próprio universo.

Junior Cazeri

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Quimera das Cinzas Douradas

de Georgette Silen

Sangue em Suas Mãos

de Marcelo Paschoalim

Amazônia Underground

de Romeu Martins

Índice

Aquela Garota de Olhos Brilhantes

de Miguel Carqueija

Ouvir Estrelas

de Ana Cristina Rodrigues

Adam

de M. D. Amado

Sonho Ruim

de Marcelo Galvão

Ars Nova

de Ana Lúcia Merege

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Quimera das

Cinzas

Douradas

Georgette Silen

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..., porque Moisés havia dito: “Tornei-me hóspede em terra estrangeira;...”

Êxodo, 18:3-27

O céu era ferruginoso à leste, ao amanhecer, confundindo-se

com as cores tórridas do deserto do Sinai. Terra e céu era uma só

massa avermelhada, que parecia arder nas brasas constantes de um

fogareiro sempre alimentado. Um rugido distante se fez ouvir, como

trovões de uma tempestade furiosa. Moisés olhou para a grande

montanha que se elevava a sua frente, como uma verruga

deformada na pele lisa do solo. Cada pedra que compunha o monte

fumegava lentamente, o calor elevando-se em vapores de fumaça

semelhantes aos das baterias das máquinas que, nesse mesmo

momento, acabaram de produzir o maná para o sustento do dia.

Moisés seguia o movimento dos homens e mulheres que retiravam

as crostas brancas de maná de entre as finas tubulações e esteiras

de entretelas metálicas, que recolhiam o orvalho da noite para

convertê-lo na ração diária esterilizada, e o acondicionamento

ligeiro que faziam do produto nos receptáculos de conservação

refrigerada.

Preciso mandar que chequem todas as baterias iônicas dos

equipamentos de sustentação, pensou, preocupado com a

manutenção dos suportes vitais. O maná era muito sensível ao calor

da região, apenas sendo produzido quando as temperaturas caíam

durante a madrugada, e se não fosse devidamente preservado toda

a produção da noite estaria perdida; passariam fome e a

desintoxicação seria prejudicada. E mesmo com todos esses

cuidados a validade de utilização do alimento era curta, não

podendo ser consumido além do pôr-do-sol, tornando-se intragável.

Por isso, todas as instruções de produção e armazenamento,

enviadas dias antes junto com os aparelhos de coleta e conversão

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de alimentos quando uma janela de teletransporte mínima permitiu

tal contato, eram seguidas à risca.

Moisés suspirou, mirando os vapores que subiam em espirais

delicadas enquanto a intensidade dos estrondos tornava-se maior,

escurecendo o céu aos poucos, trazendo uma nova noite

prematura. A massa negra, como uma sombra invertida do monte

Sinai, se deslocava sem pressa pelo céu negro-alaranjado agora,

repleto de nuvens um pouco mais claras nesse mesmo tom,

buscando refletir com precisão os contornos da montanha. O

comboio de transporte-colônia da Êxodus finalmente chegara e

procurava ajustar sua posição no quadrante determinado. Era uma

manobra arriscada e delicada, e se não fosse feita com precisão

junto a maior janela de abertura na estratosfera colocaria em

cheque toda a missão de resgate dos descendentes dos primeiros

exploradores do mundo de Javé.

— Aarão, venha até aqui. — o som baixo da voz de Moisés

era transportado pelo comunicador do efod dourado, conectado ao

peitoral que usava desde Madiã, cuja transmissão viajava em

segundos, atingindo o comunicador-receptor no peitoral do

primeiro comandante do acampamento.

Os passos de Aarão foram rápidos, assim como suas ordens

para que deixassem os encaixes dos terminais de conexão

devidamente atrelados aos conversores de energia quântica da

Arca. Era um total de vinte e oito armações que formavam uma

impressionante estrutura convergente para o ocidente, norte-sul,

ao longo do acampamento; uma espécie de corredor ladeado por

postes de cerca de cinco metros de altura e setenta e cinco

centímetros de largura, distantes uns dos outros em cerca de

oitenta centímetros, totalmente revestidos de um material

dourado, que os nativos daquele mundo chamavam de ouro, e que

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os exploradores de Javé descobriram ser o condutor ideal para

suportar um repuxo de transporte subatômico de partículas. No

final desse corredor, em posição oposta à montanha, a cápsula do

Tabernáculo aguardava, enquanto era abastecida pela energia que

captava do atrito da Êxodus com a atmosfera do planeta,

revertendo esse fluxo para o painel das baterias da Arca

posicionada em seu interior. Fagulhas esporádicas de sobrecargas

mínimas espocavam do topo de cada armação, como relâmpagos

estáticos, deixando o ar com o aroma do ozônio pungente.

Moisés conferia o alinhamento à distância, admirado pela

simplicidade complexa necessária a tal arranjo. Cada centímetro

teria que ser preciso ou o teletransporte não funcionaria no

momento certo e os herdeiros de José, um dos primeiros

exploradores das estrelas, sucessor em linha direta do comandante

Abraão, continuariam presos naquela terra incapazes de exercerem

seu potencial devido às limitações impostas pela atmosfera daquele

planeta. Os contornos da Êxodus estavam cada vez mais próximos

do monte. Moisés sentia o peito queimar e as luzes do efod

brilhavam com mais intensidade. As nuvens ao redor nublaram para

um cinza-negro carregado, como uma tempestade magnética

repleta de auroras boreais.

— Já é hora? — Aarão perguntava, vendo o semblante de seu

der naquela jornada refletir o lusco-fusco dos comandos luminosos

do peitoral. Uma aura de força reluzia na face de Moisés, e mesmo

o efod de Aarão, segundo no comando, faiscava e emitia ruídos de

baixa frequência a aproximação do momento de contato.

— Ainda não. A conexão deve ser precisa. — Moisés

permanecia atento a massa escura nos céus, cuja sombra criava um

paredão ao redor do Sinai, isolando-o da paisagem estéril — Os

homens devem continuar ajustando os equipamentos que os

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comandantes de Javé puderam nos enviar na última janela de

teletransporte mínimo, conforme as instruções que me foram

passadas, adaptando os recursos desse planeta aos materiais. Eu

devo subir ao monte e esperar as novas ordens para ativar o Portal

do Encontro. — Moisés tocou seu efod, alisando os comandos —

Cuide para que ninguém se acerque da montanha em minha

ausência, Aarão. Sem proteção — e apontou para os peitorais —

nenhum deles pode sobreviver à força da radiação. Somente

quando o Portal for ativado todos poderão cruzar com segurança os

limites do Sinai e ascender à terra de Javé... Finalmente!

Os olhos castanhos de Moisés sorriram diante da expectativa

e sua figura mediana parecia crescer e expandir além dos limites de

seu traje púrpura, como se dominado pela crescente euforia. Aarão

meneou a cabeça em afirmação, sem reação aparente semelhante.

— Não se preocupe. Creio que todos se lembram da última

ocorrência quando a janela mínima se abriu. — Aarão estremeceu

levemente. A lembrança dos corpos desfigurados e parcialmente

queimados daqueles que, em desespero, tentaram subir a

montanha na ânsia de deixarem logo esse mundo o assombraria

pelo resto de seus dias — A lição foi bem aprendida. Mas... — Aarão

o encarou — me preocupa saber que, de geração em geração,

desde José e seus exploradores, esses conhecimentos têm sido

esquecidos, Moisés. Os séculos de escravidão aos nativos desse

mundo, e aos seus deuses transmorfos, fizeram com que cada vez

menos a sabedoria dos primeiros chegasse a todos. Em

circunstâncias diferentes, não seria necessário alertar para um

perigo tão óbvio, um ato imprudente...

— Você se esqueceu de considerar os efeitos dessa atmosfera

estranha, e que nos afeta. — Moisés pontuou, entre impaciente e

condescendente aos comentários de Aarão — Não estamos em

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nosso mundo, aqui tudo consome muito mais energia de nossos

corpos e mentes, suga a força dos filhos de Javé, nos impedindo de

lutar. Viver nesse planeta é como um caminhar sonâmbulo pela

existência. Não havia como saber ou impedir, a princípio, que

nossas memórias e forças fossem drenadas e danificadas pela

intoxicação dos gases dessa biosfera, e que nos enfraquecia

sensivelmente. Os anciãos fizeram o melhor possível, nas

circunstâncias que nos cercam, preservando nossa cultura e ritos,

guardando os efods, registrando nos antigos diários de bordo, até

que viessem nos resgatar... — encarou a massa escura novamente

— e se não fosse por isso, pelo seu esforço, talvez Javé nunca

tivesse nos encontrado.

Aarão olhou timidamente para o céu. A glória de Javé ainda o

assustava, mesmo tendo sido escolhido como co-capitão da

jornada, desde a saída do Egito. Um gosto amargo insistia em

inundar sua saliva, obrigando-o a cuspir fora como se fosse uma

peçonha corrosiva.

— Acho que Javé esqueceu-se de nós por muito tempo. — o

ressentimento antigo inundou o peito de Aarão — 430 anos,

Moisés. 430 anos! — fechou os punhos — Por que não procuraram

por José e os exploradores quando seu transporte ficou preso em

Canaã, depois da aterrissagem forçada? Por que não ativaram os

localizadores e rastrearam desde sua última posição nesse

quadrante do Universo? Eles poderiam ter feito isso, Moisés, e

nosso povo não teria sido subjugado por tanto tempo...

— E acredita que não o fizeram? — Moisés erguia a fronte

descrente para Aarão — Eu já contei essa mesma história milhares

de vezes! Irmão, eles me mostraram tudo! Jamais deixaram de

procurar pela Gênesis, a nave dos exploradores do comandante

José. Nunca abandonam os membros de seu povo em suas jornadas

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de colonização e estudos pelas estrelas. A Gênesis sofreu danos

muito sérios ao cruzar as passagens dimensionais de salto no

hiperespaço, e teve de realizar uma manobra de emergência sem as

proteções necessárias de entrada nessa atmosfera. Mesmo tendo o

experiente comandante Jacó entre seus tripulantes, foi impossível

evitar o desastre do transporte-colônia. Com a destruição dos

equipamentos de comunicação e rastreamento, eles ficaram

isolados em Canaã, desconhecendo o uso dos recursos desse

mundo no reparo dos aparelhos. — a sombra negra movia-se mais,

quase os alcançando — Esse é um mundo muito diferente Aarão, e

suas surpresas são muitas. Deve entender, também, que a relação

espaço/tempo é muito diversa a de Javé. Os 430 anos que vivemos

aqui foram bem menos em nosso planeta natal. Mas o importante é

que: eles nos acharam! — seus olhos negros brilharam saudosos —

Jamais me esquecerei quando Javé se apresentou a mim, em Madiã,

pela primeira vez. Um contato holográfico simples, de busca

exploratória, uma luz em forma de chamas que envolveram um

arbusto de sarça nos pastos montanhosos. — mirou o céu — Sabia

que era um chamado de casa, Aarão, como sempre nos disseram

que sentiríamos quando voltassem para nos buscar, para nos

conduzir a terra que emana leite e mel. Iremos para casa, meu

irmão — tocou os ombros fortes de um Aarão ainda sisudo — Javé

veio em nosso socorro, como sempre afirmaram nossos ancestrais

mesmo diante das memórias nubladas. Devolveram-nos o

conhecimento perdido, nos deram o maná que nos alimenta e ajuda

a superar os males dessa atmosfera em nosso organismo, e nos

ensinaram como nos livrar de nossos inimigos no Egito. — mostrou

o bastão que trazia como símbolo de seu primeiro contato com os

habitantes de Javé em Madiã — Deram-nos as armas que nos

libertaram, e agora estão aqui. — apontou a Êxodus ainda oculta

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nos céus — Moveram-se por distâncias imensas no Universo apenas

para nos resgatar. Não pode dizer que os líderes de Javé não se

importam Aarão, nunca mais diga isso.

Um grande estrondo repicava as palavras de Moisés e seus

olhos adquiriram um brilho dourado, o mesmo que Aarão e outros

já haviam visto. O brilho daqueles que estiveram com Javé, cara a

cara.

— E Séfora? — Aarão perguntou, e a luz cessou nos olhos de

Moisés — Como fará em relação a ela? E aos seus filhos? Seguirá o

que os comandantes disseram? Que nenhum nativo ou seus

híbridos poderão adentrar nossa terra?

Uma grossa coluna de bruma cinzenta desceu, de súbito,

como um tornado dos céus e engoliu a montanha num abraço

possessivo e ciumento. Todo o povo parou para ver. Os cabelos de

Moisés se agitaram pela ventania que se iniciara e lampejos de

energia rasgavam os céus sobre a montanha, formando mais faíscas

que brilharam nos condutores no chão. Ele não respondeu a Aarão.

— Foi por isso que chamou Jetro? — Aarão continuou

impassível — Vai devolver-lhe a filha e pedir que cuide dos netos

quando se for? — Moisés deu-lhe as costas — Por que não ouviu

nossos conselhos e desposou alguém de nosso povo, Moisés? Teria

poupado esse sofrimento a você e a outros...

— Será como Javé quiser... — Moisés pontuou, voltando-se

para Aarão — Não devo pensar nisso agora, temos assuntos mais

urgentes. Devo subir o Sinai e lá permanecer até que as

coordenadas sejam passadas. — o manto púrpura de Moisés

sacudia-se de encontro ao peitoral que brilhava — Deixo-o no

comando de nosso povo, meu irmão. Cuide para que tudo esteja

pronto e para que a fé de todos não esmoreça. E não esqueça: a

Arca do Tabernáculo deve estar na posição correta, no início do

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Portal do Encontro, posicionada bem em frente ao lado ocidental da

montanha. — segurou mais uma vez os ombros de Aarão — Iremos

para casa, eu prometo! — apertou-o num abraço forte.

Aarão viu a figura mediana de Moisés postar-se diante do

paredão de energia e radiação que cobria a montanha do Sinai, e

que girava como um cone de fumaça de um violento incêndio.

Relâmpagos brilhavam entre as espirais cinzentas, como areia

escura, que se contorciam feito cobras em um ninho. Moisés tocou

uma série de botões em seu efod. Ao final da sequência, um halo

recobriu sua figura, refletindo no rubro da vestimenta como um sol

crepuscular. Aarão desviou o olhar, temeroso pela descarga de

força, e não viu Moisés apontar o bastão para a parede escura, que

se abriu como um corte de adaga feito sobre a carne. Também não

acompanhou o passo firme do irmão penetrando a bruma.

Quando Aarão se atreveu a olhar, apenas as muralhas de

nuvens estampavam-se diante dele, fechando-se como uma cicatriz

regenerada.

f

Havia um silêncio total e completo. A única cor era o cinza,

até onde a vista podia alcançar. E não era longe. A neblina beijava e

aderia a tudo, escorrendo e subindo num contínuo movimento. O

tempo, ali, não tinha a menor referência de existir.

Moisés... Moisés... Moises...

O emaranhado de vozes assomou, de repente, no

comunicador do efod. A estática era baixa, mas intermitente,

criando a sensação de se ouvirem abelhas presas numa colmeia em

chamas, rasgando o oco sonoro.

— Eis-me aqui. — Moisés respondeu, mantendo a mão no

peitoral — Vim como foi orientado. Seu povo está concluindo os

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preparativos para seu resgate desse planeta. Apenas aguardam por

suas ordens para adentrar a Êxodus.

O zumbido elevou-se e depois esmaeceu, quase por

completo.

Fez um ótimo trabalho, herdeiro do explorador José. — uma

cadência de várias vozes sobrepunha-se no comunicador. Para

Moisés, era como se falassem em meio às sombras onde se

encontrava, isolado do restante do mundo — O povo tem seguido

todos os procedimentos que recomendamos, estudado nossas leis

máximas, retomando sua cultura e tradição puras, eliminando as

toxinas desse mundo com o maná curativo e com isso adquirindo

força para a travessia. Fez do povo escravo dos nativos uma nação,

Moisés, e quando as coordenadas se ajustarem, entregaremos o

comando para o catalisador da Arca. — a voz continuava, fazendo a

neblina dançar a cada palavra como se vibrasse com o som — O

catalisador irá gerar um campo quântico de dobra temporal, que

percorrerá os condutores instalados na estrutura do Portal do

Encontro. Avise a todos para que tenham objetos no corpo forjados

com o metal dourado que abunda nesse planeta. Eles servirão como

bio-condutores e estabilizadores de partículas e garantirão que a

travessia será segura para o povo de Javé. Mantenha o

transmutador diante de você — Moisés tocou o bastão em sua

cintura — como fez no Egito, para transmutar os elementos e

dominar os animais inferiores, e no mar, para que o povo pudesse

escapar dos nativos dominadores. Isso trará estabilidade durante a

passagem, Moisés. Depois que todos passarem, entra no portal. E

então destruiremos o catalisador e todas as máquinas que não

pertencem a essa terra alienígena.

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Moisés ouvia, contrito, sentindo a eletricidade dos

relâmpagos em sua pele, mesmo envolta pelo traje protetor do

efod.

— Todas as recomendações serão seguidas — devolveu sua

voz aos ecos que sopravam — O povo aguarda feliz e ansioso pelo

reencontro com os seus. — e titubeou, a garganta contraída —

Mas... E quanto ao pedido que fiz em nosso último encontro? — sua

voz elevou-se sem que percebesse — Minha esposa e filhos

poderão seguir comigo para a terra de Javé?

A estática aumentava e diminuía em intervalos regulares,

como pulsos de um coração, enquanto a massa cinzenta ficava mais

compacta.

Os nativos e seus híbridos não podem vir — sentenciou a voz,

cravando pregos na alma de Moisés — Nossa biosfera seria letal

para eles, muito mais do que a deles é para nosso povo. Não teriam

chances de sobreviver. — e continuou, indiferente ao olhar que

clamava por misericórdia — Permanece preparado e alerta, herdeiro

de José; o tempo corre aqui diferentemente do tempo que corre com

nosso povo fora do monte. E terá de ser rápido e preciso, pois se

perdermos a janela transcorrerão muitas outras gerações nesse

planeta para que uma nova abertura permita o acesso a um portal

de transporte.

E a voz da transmissão silenciou.

Moisés arfou e gemeu, sozinho. Duas lágrimas grossas

rolaram de seus olhos e perderam-se no chão de brumas. Sem

conseguir sustentar a tristeza em seus músculos, desabou no chão,

estendendo os braços ao longo do corpo, consumindo-se no próprio

sofrimento por um tempo sem medidas. Pensou nos cabelos

castanhos de Séfora, no cheiro dos assados que fazia. Pensou nos

filhos, Gérson e Eliezer, e sufocou um gorgulho na garganta.

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Quando a dor tornou-se suportável para um líder com

deveres, como ele, raciocinou que fizera bem ao mandar buscar

Jetro. Séfora e seus filhos iriam precisar da ajuda dele. Fechou os

olhos, desejando esquecer por alguns instantes o fardo de sua

missão, o peso que carregava com sua origem...

Eu posso lhe oferecer isso, filho de José... E muito mais... — a

voz límpida respondeu diretamente a seus pensamentos

angustiados.

Pôs-se em alerta imediato, abrindo os olhos. A bruma havia

desaparecido e os contornos das rochas estéreis do monte Sinai

mostravam-se ao redor. Um aroma de leite pairava no ar, junto a

uma brisa que trazia notas de um riso melódico com ela.

— Você me lembra José. — uma cândida profusão de

palavras ressoava — Mesmos olhos, mesmo queixo. Até a mesma

capacidade de tentar lutar contra o que é inevitável, tsc... tsc... tsc...

A herança dos nativos de Javé é mesmo muito espessa em seu

sangue.

E Moisés a viu: deitada languidamente sobre o platô liso de

uma rocha avermelhada. O corpo esguio, coberto até o umbigo com

uma saia dourada, um corte na lateral do tecido que deixava uma

das pernas à mostra; seminua da cintura para cima, braços cruzados

na nuca, pele do corpo levemente banhada em uma poeira de ouro

que se elevava em pequenas nuvens quando se movia. Um

verdadeiro espetáculo bucólico, uma cena fugida de sonhos

paradisíacos.

— Quem é você? — perguntou, sentindo-se um tolo ao fazêlo.

Ela não respondeu; espreguiçando-se, os seios saltitando

enquanto punha-se de lado, encarou Moisés. O rosto, uma joia

entalhada pela beleza, mirava-o com olhos de ônix negra, cujas

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pupilas exibiam a ausência de globos oculares esbranquiçados.

Lembrava os olhos de um bovino, tal a forma e profundidade, e,

semelhante a eles, trazia na testa duas protuberâncias córneas

ricamente adornadas por ouro e pedras preciosas nativas. Os

cabelos negros e lisos eram cobertos por um lenço tecido em

material dourado, com franjas tremeluzentes. Seus lábios rosados

exibiam um sorriso estonteante, que fez Moisés engolir em seco.

— Vejo que nem todo o conhecimento voltou a você. — o

sorriso constante no rosto era emoldurado pelos cabelos que

flutuavam em uma gravidade própria, diferente — Imaginei que

seria diferente, já que está usando o mesmo efod de José e dos

primeiros. Não achei que Javé ainda os procurasse, depois de tanto

tempo. Fiquei realmente surpresa quando soube da saída de seu

povo do Egito. — abriu ainda mais o sorriso, meneando os braços

em gestos suaves, envoltos pela poeira dourada — Gostaria de têlos

visitado mais vezes depois que seus ancestrais deixaram Canaã,

iludidos por falsas promessas, mas não foi possível como desejei.

Especialmente porque os malditos deuses transmorfos daquele

povo de adoradores de pirâmides nunca apreciaram as visitas de

seus pares. — seu olhar negro queimou em faíscas avermelhadas,

como mariposas que se incendiavam em óleo de lamparinas —

Sempre me perguntei... por que agiam assim? — e riu, sufocando o

ambiente com esse som.

Ela pôs-se de pé. Era a perfeição da beleza maldosa,

corruptível. As ondulações de seu caminhar, um passo diante do

outro, criavam uma harmonia hipnotizante de movimentos

cadenciados e sensuais. O cheiro adocicado de leite que vinha dela

alcançou Moisés, nublando momentaneamente seus sentidos. O

colear de sua cabeça era ritmado, deslizando pelo pescoço flexível.

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Tudo nela era belo... e perigoso, alcançando os sentidos embotados

dele, enquanto o encarava.

Moisés tremeu, de súbito. Imagens começaram a inundar sua

mente; cenas passadas em épocas diferentes, muito anteriores a

seu nascimento, e mesmo ao nascimento de seus ancestrais

naquele planeta, e entendeu que tais visões eram projeções que

partiam da mente dela, conectada a sua. Percebeu tratar-se, então,

de uma das criaturas místicas que povoavam esse mundo, das quais

seu povo sempre ouvira histórias e lendas e que, a exemplo dos

deuses do Egito, possuía poderes diferentes do que conhecia, e que

nesse planeta chamavam de magia. Viu que ela exultava com suas

descobertas, divertindo-se com a expressão confusa dele, e retesou

o corpo ao compreender que eram esses mesmos poderes que

permitiam que ela estivesse ali, a despeito de todo o cuidado

necessário.

— Quem é você? — perguntou mais uma vez.

— Já tive muitos nomes: Hadad... Bel... Baal... Baalath...

Balaoth... Tantos deles... Tantas formas... Mas se deseja nomearme,

se isso é necessário para sua compreensão, pode me chamar de

Anat.

— Anat... — o nome passeou pela boca de Moisés, junto com

novas imagens em sua cabeça. Uma sincronia nem sempre precisa

— O que faz aqui, deusa nativa? Está longe de seus domínios, em

terras impróprias.

Ela riu de forma encantadora, cada nota reverberando pelo

espaço estático causando distorções que iam e vinham nas imagens

do cenário.

— Vago conforme meus desejos, filho de Javé — respondeu

sem demonstrar irritação — E eles são muitos, e, às vezes,

requerem percorrer distâncias e mover montanhas para serem

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satisfeitos — empoleirou-se numa rocha que se projetava do solo

como a unha de uma garra. A névoa dourada a seguia como um

rastro que deseja exibir seu autor — E não meço nem um, nem o

outro.

A estranha estagnação ao redor incomodava os sentidos. Para

onde foi a Êxodus? E as muralhas de energia? Nada sugeria que

Moisés ainda estivesse no mesmo lugar que adentrara; entretanto,

sentia que ainda era o mesmo, de alguma forma.

— Ainda não me disse o que deseja, Anat?

— E o que você deseja, Moisés? — a nova pergunta o fez

redobrar a atenção embotada — Será mesmo que a terra de Javé é

a maior ambição de seu coração? Clama à alma que habita sua

casca? — o sorriso de olhos bovinos invadia sua mente, como água

em solo seco — Pense Moisés, mostre-me o que realmente está

vendo. Deixe-me compartilhar de seus anseios, vislumbrar aquilo

que o deixa inquieto nas noites insones que tem enfrentado. — e

aproximou-se. Os bicos dos seios intumescidos deixavam rolar gotas

de um líquido branco, que sulcava o pó dourado da pele, criando

uma geografia líquida que convergia ao fundo de seu umbigo —

Aqui... — e recolheu gotas do leite entre seus dedos esguios —

encontra-se a solução para seus tormentos, e pode dar-lhe a paz

que não sente, o conforto que busca — as gotas rolavam como

pérolas em sua mão, brincando zombeteiras em meio ao pó

reluzente.

— Eu anseio levar o povo de Javé para casa. — retrucou,

afastando-se — Minha missão é levar nossos irmãos de volta. Nada

mais me motiva.

— Tem mesmo certeza? — a boca rosada abriu-se como uma

flor do deserto, rara e única, e soprou o pó e o leite, agora dourado,

ao redor. Algo como um sereno manso atingiu a face de Moisés; um

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formigamento dominou-o, começando pelo rosto e escorregando

como chuva por seus membros. Seus olhos ficaram desfocados por

instantes, e quando recuperou o controle da visão todo o cenário

havia mudado.

Estava em uma tenda colorida, ricamente enfeitada com

fazendas e bordados, com ânforas e objetos em bronze e ouro. O

incenso subia como rios de curso invertido e as almofadas e tapetes

estavam espalhadas com capricho. O cheiro adocicado da mirra e do

sândalo alcançou seu olfato, juntamente com os sons de uma

canção que ele conhecia bem, e que estavam do lado de fora: os

cânticos de uma cerimônia de casamento. Podia ouvir as danças e

os votos aos recém-casados no idioma de Madiã, e não se

surpreendeu quando a entrada da tenda se abriu, revelando a

passagem de um jovem casal.

— Séfora... — murmurou, sentindo-se derrotado e fraco

diante da visão de seu próprio passado.

O casamento é um momento mágico! — a voz, sem forma,

estava com ele — Unidos para sempre em comunhão, vocês

juraram. E agora terá de deixá-la para guiar seu povo... É isso

mesmo que deseja, Moisés?

O casal diante dele estacou, congelado no tempo. Então, só a

mulher moveu-se, caminhando. Séfora parou diante de seu corpo,

tomando-lhe as mãos e olhando-o nos olhos. Mas seus olhos eram

estranhos, como olhos de um boi... Chegou os lábios aos lábios de

Moisés.

— É isso mesmo que deseja, Moisés? — e beijou-o.

A força do desejo que o dominou poderia, por si só, criar

portais que o levariam para qualquer lugar em qualquer quadrante

do Universo que desejasse. Mas naquele momento tudo o que

queria era permanecer ali, com ela. Esse pensamento fez o cenário

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mudar outra vez. Via os filhos brincando entre as ovelhas nos

montes de Madiã. Viu Séfora grávida, exibindo o ventre com

orgulho. Contemplou a paz e a serenidade de uma existência

almejada e utópica agora e chorou, deixando as lágrimas o lavarem

por completo das culpas que o afligiam. As gotas que se

precipitavam de seus olhos formavam arbustos no chão, que

nasciam e cresciam em abundância ao seu redor. As cabras vinham

comer as folhas tenras e Séfora aproximou-se, tomando as lágrimas

entre os dedos, levando-as aos lábios. Os estranhos olhos bovinos

refletiam o semblante de Moisés como espelhos. Ele reconheceu o

rosto de um homem feliz.

Esse é seu desejo, Moisés. — a voz de Anat parecia

transbordar daqueles olhos — Está diante dele, peregrino das

estrelas de Javé. Se partir, deixará para trás o verdadeiro motivo de

sua jornada: a esperança de poder viver ao lado de sua família. Tudo

o que fez até aqui, desde Madiã, foi motivado pela confiança de que

poderia mudar o que lhe foi dito. Que os comandantes da nave

permitiriam a ascensão de Séfora e seus filhos, que eles o seguiriam

para a terra prometida. — uma nova mudança de cenário se operou

diante dele — Mas isso é o que acontecerá depois que se for — o

interior de uma nova tenda escurecida pelas sombras apareceu —

Veja você mesmo.

Um corpo era preparado por anciãs. Bandagens de linho

claro, não tingido, recobriam o cadáver envelhecido, o semblante

sulcado, os cabelos brancos aparentes quase no mesmo tom da

mortalha que a envolvia. Mas mesmo carcomido pelo tempo, o

rosto sem vida de Séfora era belo, imaculadamente belo. Moisés

aproximou-se, ajoelhando. As anciãs desapareceram, deixando o

trabalho incompleto. Tocou o rosto frio, macio... e chorou lágrimas

de desespero.

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A tristeza consumirá seus dias, levando-a a um fim solitário,

enquanto você caminhará pelos céus além desse céu. — a voz de

Anat estava em todo e nenhum lugar — A mulher que jurou amar e

nunca abandonar será a morada da desesperança e ressentimento,

e o fim será tão amargo quanto a vida que ela teve.

Os olhos bovinos de Séfora se abriram e o encararam,

lacrimosos.

— É isso mesmo que deseja, Moisés?

O primeiro cenário retornou. Apenas as rochas da montanha

estavam ao redor dele e de Anat. Moisés, ainda de joelhos, buscava

forças para se erguer, sem sucesso algum. O peso da dor de uma

alma dobrava sua espinha. Anat acocorou-se diante dele, coleando

o movimento do pescoço. De seus seios mais leite escorria,

molhando a poeira vermelha do chão.

— Conheço seu povo desde que aqui chegaram, Moisés. —

acariciou-lhe a barba em um toque maternal — Achei-os belos,

fortes, diferentes dos nativos. Eu nunca lhes negaria nada do que

me pedissem. Nada. Diferente de Javé. Viu o que posso lhe dar;

posso satisfazer o desejo de cada um, os mais ocultos. — o leite

esguichava como uma nascente de oásis — Se seu povo quiser ser o

meu povo, seguindo-me e adorando-me, não há limites para o que

posso lhes oferecer. — e pegou novas gotas de leite, deslizando-as

pelas unhas nos lábios de Moisés — Nenhum limite. Tudo será

como quiserem que seja, sempre.

Moisés estava de volta ao lugar onde nasceram arbustos de

suas lágrimas. Séfora sorria com seus olhos peculiares. Gérson e

Eliezer tocavam as ovelhas. Estava em paz.

Diga ao povo para me seguirem, filho de José. — Anat incitava

— Não cometa o mesmo erro de seu ancestral, ao me renegar.

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Sejam meus súditos, e serei o ventre que protegerá e o seio que

nutrirá.

Rios de leite corriam em filetes grossos por entre as pedras

do chão, borbulhando em fontes e cascatas, criando um ambiente

bucólico. Séfora estendeu-lhe os braços, junto com seus filhos, e

Moisés levantou-se, dando um passo adiante.

Moisés... Moisés... Moisés...

A voz envolta em estáticas o alcançava, envolvendo-o com

imagens esporádicas de neblina fumarenta. O cenário nublava-se e

voltava, ao toque daquele som, como uma imagem holográfica mal

feita, com interferências.

Moisés... Moisés... Moisés...

Estacou, indeciso. Algo importante precisava ser feito, mas

que ele esquecera. Séfora o encarava, sorrindo maliciosamente.

— É isso mesmo que deseja, Moisés?

Os arbustos pegaram fogo em sequencia em volta dele, e as

vozes que o chamavam pareciam vir das chamas azuladas nas

folhagens.

Moisés... Responda... Moisés... Chegou o momento...

Responda...

Algo na aflição metálica daquele chamado o fez encarar os

arbustos, e lembranças de uma sarça ardente em Madiã

subitamente se fizeram reais, assim como toda a trajetória

percorrida por ele desde então. Um impacto, como um soco, atingiu

seu estômago, e um surto de lucidez sem tamanho alcançou a

mente embotada pelo sonho. Olhou para frente. Séfora

desaparecera, seus filhos também. Apenas Anat o encarava num

misto de frustração e zombaria.

— Maldita criatura nativa! — vociferou, arrancando risadas

agudas dela — Meus ancestrais fizeram bem em deixar Canaã e

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agora sei o porquê! — endireitou o corpo, em desafio — Maldita

criadora de ilusões e farsas! Oferece seu veneno alucinógeno em

troca de nossas vidas! Cria escravos para servirem-na, aprisionando

suas almas em seus desejos, tornando-os fracos, dependentes! Mas

não serei um desses escravos de sua luxúria onírica — apontou o

punho, resoluto — Sei de meus deveres e vou cumpri-los, mesmo

que isso destroce meu coração. — a voz metálica continuava seu

chamado insistente — Conduzirei meu povo de volta a Javé,

demônia. Você perdeu, mais uma vez!

Anat deslizou até ele, sem temores ou receios, postando-se

como um felino que eriça os pelos do corpo.

— Você é forte, Moisés, posso ver. Mas mesmo essa força

não me impediu de entrar em sua mente e procurar convencê-lo. E

quase consegui, admita isso! Eu não vim até a montanha, Moisés,

ela veio até mim. Você resistiu e admiro essa qualidade. — o leite

jorrou mais forte dos seios dela — Mas poderá dizer o mesmo de

seu povo?

E sumiu, dissolvendo-se em poeira reluzente, ensurdecendo o

ar com sua risada.

Os paredões cinzentos que o receberam estavam novamente

ali, sempre estiveram. Entendia agora que travara uma batalha

mental e não física. Tudo acontecera em um plano de consciência

manipulado pelas criaturas místicas nativas. Mas a sensação tátil

daquele encontro ainda formigava nos dedos de Moisés.

Moisés... Moisés... Moisés...

O efod brilhava intensamente. Tons de urgência refletiam-se

nas névoas ao redor.

— Sim... Estou aqui Êxodus — a boca seca tentava proferir

palavras audíveis.

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Moisés... É chegada a hora... Apresse-se... O tempo está

contra nós agora...

De entre os paredões, uma luz esbranquiçada e maciça, forte

como um sol que nasce no leste, obrigou Moisés a fechar os olhos,

como havia sido orientado a fazê-lo na presença de qualquer um

deles, antes de ascender ao interior da nave. Não deveria encarálos,

com risco de ter corpo e mente consumidos pela energia. O

calor da radiação o invadiu por completo. Cego pela situação sentiu

o breve toque de uma mão em seu ombro, o aperto firme e

amigável, enquanto dois objetos planos e retangulares eram

colocados em suas mãos pela figura que não podia ver.

Aqui tem as novas tablets de instruções. — a voz sem corpo

proferia os vocábulos — Os comandos estão nelas. Volte rápido e

acione o painel do Tabernáculo. Nos veremos logo, meu irmão. —

sentiu o abraço fugaz, como o beijo de uma borboleta, e percebeu

que a presença se fora, com a luz.

f

— Aarão! Aarão! — o efod brilhava de forma alucinada, mas

os únicos sons que Moisés recebia como resposta a seu chamado

eram de estáticas, e, às vezes, um ou outro ruído estranho e

indefinido. Descia os contornos do Sinai tentando se equilibrar com

apenas uma das mãos. Na outra trazia a esperança de um povo. —

Responda Aarão!

Alcançou o chão plano, vendo a montanha vibrar com a

energia desprendida da Êxodus. Disparou para o acampamento,

atravessando o último dos véus de grossa neblina, desativando o

traje de proteção. Risos e cânticos o alcançaram e antes que

pudesse visualizar o cenário total, sua cabeça girou e um enjoo

pungente tomou conta de sua alma. As tablets caíram de suas mãos

inertes.

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Uma grande fogueira primitiva brilhava no centro do

acampamento, entre o Tabernáculo e a passagem do portal.

Retorcia-se como uma serpente belicosa, lambendo os céus acima.

Ao seu redor, o povo comia, bebia e levantava-se para dançar e se

divertir, entoando canções. Grandes jarras serviam os presentes,

despejando um líquido branco, semelhante a leite, mas que brilhava

como ouro líquido. Eram passadas de mão em mão, respingando

seu conteúdo no solo seco e sedento nesse trajeto.

— Aarão! Aarão! — Moisés tentava atravessar a multidão

histérica, trombando com mãos que queriam tocá-lo e braços que

queriam abraçá-lo. Os olhos de todos exibiam o mesmo tom leitoso

dourado da bebida. Moisés desvencilhava-se, aos trancos, lutando

para manter a cabeça acima deles, procurando um rosto entre

todos ali — Aarão!!!

Encontrou-o quase no centro do acampamento, em frente ao

Tabernáculo. Aarão dançava e conclamava os presentes a

acompanhá-lo, enquanto enchia um cálice de ouro diretamente na

fonte produtora da estranha bebida, sorvendo eufórico seu

conteúdo. E, em meio a um profundo desespero, Moisés viu uma

gloriosa estátua de ouro, de quase meio metro de altura, sendo

ovacionada por seus irmãos. Uma figura conhecida, meio

mulher/meio vaca, de cujos seios um jorro de leite corria

incessantemente, projetando-se adiante como uma fonte, e dele

todos bebiam: homens, mulheres e crianças.

O estrondo mais potente que o de mil trovões iluminou o alto

do Sinai nesse momento e Moisés viu o facho de tração de luz que

descia da Êxodus, parcialmente descoberta no céu; uma esfera

prateada e luminosa que se estendia por léguas acima e ao redor da

montanha. O facho veio em direção ao solo, procurando pelo ponto

de contato.

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— Aarão! — agarrou o irmão, que o abraçava em meio às

lágrimas de riso desenfreado.

—Moisés! Você voltou!!! — a voz empastada de Aarão

elevava-se acima da multidão, que agora batia palmas e clamava

pelo nome de Moisés — Resolveu voltar!! Soube das boas novas,

não foi? Por isso decidiu retornar para os seus!! — e sorveu mais

um gole, tentando aproximar a taça dos lábios do irmão. O cheiro

adocicado e pungente enojou Moisés.

— Aarão, o que é isso? — apontou para a estátua, que

brilhava nas chamas profanas — De onde isso veio?

— Ahhhh!!! A bela deusa de ouro!!! — Aarão rejubilava-se

em meio ao êxtase de um devaneio — Eu a fiz, Moish — falou com

orgulho — Essas mãos... — e colocou-as diante da face de Moisés —

essas mãos criaram uma deusa para nosso povo. Ela veio em meus

sonhos, e nos sonhos dos capitães, e nos sonhos daqueles que

aguardavam... — Aarão girava o corpo de Moisés, agarrando-o pelo

pescoço, apontando a taça para a estátua — E eu a fiz em ouro, o

ouro dos nativos, como todos me pediram, e ela nos concedeu seus

favores, como disse que faria... — bebeu sofregamente — Temos

uma deusa agora, Moisés! Ela nos dará o que queremos, e não nos

abandonará como Javé fez... Ou como você fez...

— Abandonar? Como assim? — Moisés desvencilhava-se do

abraço com um tranco — Eu não os abandonei, Aarão; apenas subi

o monte para pegar as últimas instruções...

— Subiu e não voltou!!! — Aarão acusava, seu timbre raivoso

subindo em meio ao caos — Você foi embora há 40 dias Moisés! —

o sangue dele gelou — Todos pensaram que partira sozinho para

Javé e esquecera-se de nós. Jetro levou Séfora e seus filhos embora,

para Madiã, achando que havia se esquecido deles, de nós!! —

soluçou, chorando e agarrando-se ao irmão, a raiva antiga cedendo

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lugar rapidamente para uma alegria esfuziante, arrastando-o até a

estátua — O povo me pediu, então, alguém para guiá-lo. E ela veio!

E foi tão boa que nos trouxe você de volta, meu querido irmão!

Moisés voltou!! — incentivava o povo a conclamar a notícia —

Moisés voltou!!!

Com mais um tranco violento, Moisés soltou-se do abraço de

Aarão, em meio ao coro das pessoas embriagadas. Ele tornou a

encher a taça, bebendo-a, esquecendo-se completamente dele.

Moisés varreu o cenário em volta. Todos se entregavam as suas

fugas oníricas. Olhou para a estátua. O pescoço da demônia de

Canaã moveu-se em sua direção e sorriu, os olhos bovinos

faiscantes.

Você é forte, Moisés... Mas poderia dizer o mesmo de seu

povo?

Cerrou os punhos, ouvindo a risada que reverberava em sua

mente. Viu a luz cada vez mais forte que vinha do raio tração

projetado pela Êxodus, e que buscava por uma conexão. Procurou

entre os seus por algum sinal de sanidade: apenas a multidão

enlouquecida o encontrou. Uma crescente dor o fez ficar cego pela

raiva. Alcançou o bastão preso a sua cintura. Com outro gesto o fez

se distender, tomando a forma de um cajado longo, levemente

arredondado nas pontas, como uma elipse, cujo olho único faiscou

intensamente, assim como os olhos de Moisés adquiriam um brilho

dourado. Sentiu a mesma energia que usara no Egito e no mar que

abriu acumulando-se em seu corpo, a força dos filhos de Javé, e

apontou o cajado para a estátua dourada, o efod vibrando.

Como quimera, a forma da estátua começou a crescer a olhos

vistos, dobrando e triplicando de tamanho em poucos segundos.

Garras em forma de cascos sugiram de suas mãos e pés e os chifres

se alongaram, enquanto os olhos rescenderam em brasas. Um

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mugido feroz veio dos lábios tomados por um focinho animalesco e

espirais de fogo e fumaça escapavam em baforadas de suas narinas.

Ela saltou. Moisés disparou.

O feixe azulado atingiu Anat no peito, atirando-a contra a

estrutura do Tabernáculo. Uma esfera de energia engoliu sua forma

que se contorcia, sem, contudo, conseguir escapar. A esfera a

envolveu como uma bolha, elevando-se no céu noturno, girando em

seu eixo até tornar-se uma bola incandescente. A vibração percorria

o ar e as estruturas do portal tremeram, começando a ruir,

partindo-se como gravetos secos no deserto, tombando com um

baque estridente na areia. A esfera alcançou velocidades

vertiginosas e um brilho ofuscante iluminou a noite no deserto. Por

fim, explodiu. O som de um grito moribundo ecoou pelo ar,

enquanto o povo de Javé lentamente saía de sua letargia eufórica.

Uma poeira dourada descia dos céus como pequenas brasas

tórridas, moldando-se aos grãos de areia do solo e aderindo as

vestes de todos.

Moisés dobrou um joelho, apoiando-se com firmeza no

cajado. O ataque custou muita energia de seu corpo, e o efod estava

totalmente apagado, alguns comandos chamuscados, inoperantes.

— Moisés! — a voz de Aarão, assim como seus passos, o

alcançou.

Aarão olhou para o irmão, surpreso pelos tufos de cabelos

brancos que agora abundavam sobre sua cabeça, e pelas rugas

profundas na testa e ao redor dos olhos. Mas Moisés via além dele;

vislumbrava o raio tração da Êxodus que se recolhia como uma vela

apagada pela brisa, diminuindo de intensidade até, finalmente,

desaparecer. Os cones de neblina fumarenta se dissiparam como

espectros fugidios da noite e o monte Sinai se fez visível, outra vez.

A gigantesca Êxodus afastava-se a olhos vistos, repicando cores de

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um prisma multicolorido na insinuação de um amanhecer. Então,

sumiu. A paisagem do planeta voltava ao normal.

Apoiado no cajado, Moisés levantou-se e caminhou até onde

estavam as tablets no chão. Uma delas funcionava, exibindo os

caracteres luminosos na tela plana de cristal, mas a outra estava

avariada. Olhou para o Tabernáculo parcialmente destruído e

voltou-se para o povo assustado, cujos olhos iam dele para os céus.

Javé se fora. Estavam sós, outra vez...

f

Quando os primeiros raios de um sol ferruginoso queimaram

os grãos de areia do deserto, encontraram o povo de Javé em

marcha. Animais nativos arrastavam as máquinas produtoras de

maná, assim como todos os equipamentos, as armações e o

Tabernáculo desmontados, poupando a energia dos propulsores

anti-gravitacionais usados no transporte das máquinas. Não sabiam

quanto tempo caminhariam até encontrar outro Portal de Encontro,

outra coordenada favorável, uma nova chance de poder partir, e

aguardavam que Javé fizesse contato. Até que isso acontecesse, o

deserto seria sua morada nesse planeta.

No acampamento nada restou; apenas os objetos e adornos

de ouro que teriam usado na travessia para alcançar a Êxodus

permaneceram lá. Abandonados, eram uma amarga lembrança que

ninguém queria guardar. Moisés mirou a carroça da Arca. As tablets

estavam seguramente acondicionados nela; uma delas com um

vazamento radioativo perigoso, e todos tinham ordens para não se

aproximarem até que chegassem novas instruções ou poderia ser

fatal. Viu as cabeças baixas pela vergonha e o sol.

Moisés suspirou. Seu povo caminhava.

Agora seria como Javé quisesse... e apoiou o cajado no chão

arenoso, seguindo sempre adiante. A areia do deserto subia a cada

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passo, envolvendo-os, e suas silhuetas eram como uma miragem

que ia e vinha. Na esteira dessa jornada, uma insinuante e insistente

poeira dourada seguia, ao longe, o mesmo rumo incerto dos

viajantes.

E seu brilho reluzia a luz do sol...

A Rober Pinheiro, pela inspiração.

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Sangue em

Suas Mãos

Marcelo Paschoalin

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Marcelo Paschoalin | Sangue em Suas Mãos

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—Mãos para cima! Eu quero ver essas mãos para o alto

agora!

A arma estava apontada, o suor escorria por sua face, sua

testa estava mais franzida que de costume. Em outros tempos

talvez ele jamais tivesse se colocado naquela situação, mas ele não

vivia no passado... O que era irônico, uma vez que estava num

museu.

—Eu não vou pedir de novo!

Era para ser apenas uma distração no fim de tarde, um

simples passeio. Ele estava à paisana, desejando somente voltar

para casa. Mas não, ele tinha de ver as peças novas que tinham

chegado à ala renascentista... Sua paixão por história o guiando

para aquele lugar...

...levando-o a encontrar os três corpos no chão, poças de

sangue sob cada um deles, pescoços rasgados. Um deles era

segurança patrimonial, ainda segurando uma lanterna de cabo

comprido, olhos vidrados como se não esperasse o ataque. E foi

quando ele examinava o corpo que ele notou a sombra se mexendo.

—Eu não tenho razão para fugir – ela ergueu as mãos com

certa graça, tão lentamente quanto possível, deixando que a luz de

um dos quadros incidisse sobre seu rosto.

Ele estava acostumado com aquelas cenas – os calos da

profissão tinham sido feitos ao longo dos oito anos como

investigador – mas preferia mentir para si mesmo. Aquela mulher

envolta num vestido arroxeado tinha um sorriso leve e talvez

irônico, mas o sangue em suas mãos era uma confissão inaudita

daquele triplo homicídio. Ele procurou os olhos de carvão que o

fitavam, já sabendo que a mulher não o evitaria – de alguma forma,

ele pressentiu que ela sentia orgulho do que tinha feito. Mas, por

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mais que o enigma estivesse diante de si, ele sabia que era apenas

questão de tempo agora...

—Qual o seu nome?

Aquela sala acinzentada era sua velha conhecida, embora ele

preferisse o trabalho nas ruas. Ainda assim, ele queria resolver

aquilo. Era fácil demais para deixar na mão de algum outro.

—Nomes não me servem para nada – ela sorriu, seus olhos

negros e sem brilho realmente se parecendo com dois pequenos

carvões.

Ele parou de andar de um lado para o outro e se sentou na

beirada na mesa, segurando as fotos tiradas pela equipe forense nas

mãos. O segurança patrimonial tinha sido o primeiro a ser morto,

seguido pela curadora da ala e de uma visitante casual – hora

errada, lugar errado. A perícia tinha já comparado o sangue nas

unhas com os corpos... o resultado era claro.

—Identidades falsas não são difíceis de conseguir – ele a

olhava de perfil agora, tentando imaginar o que poderia levá-la a ter

cometido tal ato. Suas digitais não batem com nada que temos aqui,

mas você me parece estranhamente familiar.

Ela o encarou enquanto deixava que o sorriso se expandisse,

lábios ligeiramente afastados enquanto mordia a ponta da língua.

Ela estava gostando daquilo.

—Podemos nos familiarizar melhor se é o que quer... – ela

pôs as mãos sobre a mesa, acariciando uma contra a outra apesar

das algemas que impediam que se movimentasse muito.

—O que eu quero saber – ele pôs as fotos diante dela,

espalhadas sobre a mesa – é a razão de ter feito isso. Já sabemos

que foi você.

Ela passou os olhos pelas fotos, longamente se demorando

em cada uma delas. Como se tocasse um relicário, ela levou as mãos

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à foto da curadora, deitada de costas, olhos fechados e pescoço

aberto. Era mais que uma reverência, ela...

—A verdade é que tentei ajudá-los – a voz dela parecia mais

aveludada. Tentei estancar o sangue, mas era tarde.

Mais que depressa ele recolheu as fotos. Ele tinha percebido

o olhar dela... Fascinação? Deleite?... O que havia naquilo a

fascinava, talvez como um troféu para ela... um mórbido prêmio por

seu ato selvagem.

—Você quer que eu acredite nisso? – ele agora se sentava na

cadeira de metal diante dela, as fotos empilhadas com a face para

baixo.

—Eu os encontrei daquele jeito – ela juntou as mãos como

numa prece. O sangue ainda pulsava, ainda estava quente, e ainda

assim eu tentei ajudar a cada um deles. Quando você apareceu eu

não fugi porque não tinha feito nada errado – ela abaixou a cabeça

um pouco sem desviar o olhar dele. E, mesmo assim, você me

algemou e me prendeu. Eu suportei tudo isso, mas não sou culpada

de nada.

De certa maneira ela estava correta. Tinha meios, tinha

oportunidade, mas faltava a peça chave da tríade: motivo. Ele podia

mantê-la ali até o dia seguinte, mas de nada adiantaria se não

descobrisse algo mais. O que era simples poderia escapar por seus

dedos...

—O que você estava fazendo no museu? – ele tentou

esconder seu descontentamento aumentando o tom de sua voz.

—O que pessoas fazem em museus – ela jogou o corpo para

trás na cadeira, deixando os cabelos caírem sobre o ombro. Eu

estava passeando. E você? O que fazia lá? Até onde sei ninguém

gritou por socorro.

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—Ninguém? – ele deixou que o canto da boca formasse um

sorriso sutil. Quando você viu aquelas pessoas caídas não quis pedir

ajuda?

—Não iria adiantar – ela balançou a cabeça em negativa. Eu

senti... eu percebi que não havia nada mais a ser feito. Mesmo

minha tentativa de salvá-los era nada mais que vã esperança minha.

—Você é médica?

—Não.

—Então como pode ter tanta certeza que pedir por auxílio

médico não bastaria para salvá-los? – ele se sentia mais confiante

agora, acreditando que podia encurralá-la.

—Quantas pessoas com pescoços rasgados você viu serem

salvas? E quanto tempo demoraria para uma ambulância chegar?

Três minutos? Três minutos com sangue jorrando é o bastante para

secar alguém.

—Secar? – ele ergueu as sobrancelhas.

—É um modo de dizer – ela parou por um instante, como se

tentasse colocar as idéias em ordem. Se eu tivesse conseguido

salvá-los eu seria uma heroína. Agora, só porque não consegui eu

sou a culpada? Isso é absurdo.

—Eu... – três batidas no vidro espelhado o interromperam. Se

puder me dar licença...

Ela tinha a nítida impressão de que ele bufara enquanto saía,

como se aquela interrupção fosse a última coisa que ele desejava

naquele instante. E isso fez com que ela relaxasse, apoiando os

cotovelos sobre a mesa e descansando a cabeça em seus braços...

...até que ela viu a pilha de fotos ao alcance de sua mão. Sua

pupila dilatou de imediato enquanto alcançava cada um dos

instantâneos, segurando-os com prazer enquanto desvelava cada

imagem com seus olhos, envolvendo-se com as fotografias como se

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elas a completassem. Ela até mesmo chegou a abrir a boca

lentamente, como se sorvesse a emoção daqueles momentos...

—Desculpe-me – a porta abriu novamente e ele entrou, cara

fechada, olhos semicerrados. Eu... – ele a viu com as fotos nas

mãos. O que você está fazendo?

Ela deixou que as fotos caíssem sobre a mesa de forma

natural, embora levemente espalhadas. A reação tinha ocorrido um

segundo depois do que se poderia classificar como genuína

surpresa.

—Eu... – ela abaixou os olhos, talvez por vergonha, ou talvez

para continuar a olhar as fotos – só queria ter um último contato

com essas pessoas que tiveram suas vidas ceifadas tão cedo.

Ele sabia que tinha algo errado, mas não podia fazer nada.

Havia o limite legal de sua atuação, e ele tinha sido atingido. Foi por

isso que ele não disse mais nada. Recolheu as fotos, abriu as

algemas e ficou ali, em pé, olhando para ela.

—Estou livre para sair? – ela massageou os pulsos um pouco.

—Sim, está – ele deu um passo para o lado. Talvez

conversemos mais para frente, mas por enquanto você pode ir.

—Obrigada – ela se ergueu e ajeitou o vestido, caminhando

em direção à porta. Será que alguém poderia me levar até em casa?

Ele estava pronto para dizer não, mas percebeu aquilo como

uma oportunidade. Mais do que ter um registro escrito de onde ela

morava, ele saberia realmente se ela vivia ali – e poderia encontrar

algo que lhe mostrasse o caminho a seguir caso ela fosse realmente

culpada... E ela tinha de ser responsável por aquelas mortes!

—Como forma de me desculpar pelo incômodo – ele deixou

que suas chaves tilintassem –, eu mesmo a levarei.

Não havia trânsito algum naquela hora, apesar da chuva leve

que caía. Estavam no carro dele – por algum motivo ele nunca

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gostou de usar viaturas oficiais, mas havia colocado uma grade

interna típica das encontradas em camburões – e a rádio que tocava

teimava em fazer propaganda de algum tipo de revista semanal ou

invés do habitual jazz melódico... e aquilo não contribuía para a

melhora de seu humor.

—Você sempre é assim? – ela estava no banco de trás,

olhando para as luzes da cidade ao longe enquanto seguiam pela

estrada estreita.

—Assim como?

—Quieto, taciturno, vivendo num mundo só seu? – ela olhou

para ele. Eu não sou o inimigo. Eu disse...

—...que tentou ajudá-los, eu sei. Eu ouvi. Eu estava lá –

grunhiu ele enquanto mudava de estação, deixando que uma balada

preenchesse o ambiente. Olha, não é nada contra você eu...

Ele teve de segurar o volante com mais força enquanto o

carro derrapava de lado e as faíscas saíam: o pneu traseiro direito

tinha estourado, talvez por causa de um buraco ou de algo na pista.

O carro ainda andou por quase uma centena de metros devido ao

asfalto molhado até parar junto ao acostamento da pista contrária.

—Você está bem? – perguntou ele, sua respiração um pouco

ofegante.

—Mas claro – ela ria. Isso foi divertido...

—Divertido porque estávamos com o cinto... aquele pneu não

devia ter estourado...

—Você fala como se a culpa fosse sua...

—Não é culpa minha – interrompeu ele. Estamos muito longe

ainda?

Ela olhou ao redor e balançou a cabeça.

—Um quilômetro, talvez menos. De noite é difícil dizer...

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1000 Universos

Ele abriu a porta do carro, mais uma vez resmungando por

causa da chuva e do frio, e deu a volta para ver o estrago: uma das

faixas de borracha ainda estava presa e tinha batido repetidamente

contra a lataria, deixando uma marca escura e feia. Ele ergueu as

mãos para o alto e chutou a roda danificada, praguejando como

nunca antes o fizera.

Ela bateu no vidro, chamando a atenção dele. Dando de

ombros ele abriu a porta e deixou que saísse.

—Eu posso ir andando – a chuva em sua fronte acumulava

num filete que escorria pela bochecha. Você não precisa se

preocupar comigo...

—Não... – ele não deixaria que ela seguisse sozinha,

querendo saber mais sobre a suspeita. Não vou deixá-la andar

sozinha nessa chuva.

—Não estamos muito longe – ela apontou para algumas

árvores. Se seguirmos direto por ali, poupamos quase metade do

tempo. Já fiz esse caminho uma dúzia de vezes...

—Ainda assim, não acho certo não acompanhá-la. Só que não

tenho um guarda-chuva no carro.

—Não há problema algum! – ela seguiu na frente, a chuva já

moldando seu vestido junto ao corpo. Vamos!

Ele apertou o botão junto à chave e trancou o carro, seguindo

junto dela. Algo tinha mudado – e isso ele tinha certeza –, pois ela

estava mais ativa, mais... amigável, talvez. Ou talvez tudo tivesse

sido paranoia sua e a suspeita fosse realmente inocente... apesar da

maneira como as vítimas tinham sido mortas. Ou talvez...

—Eu me lembro desta árvore aqui – ela pôs as duas mãos

sobre o grosso tronco, quase como se a abraçasse.

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Marcelo Paschoalin | Sangue em Suas Mãos

1000 Universos

—É um carvalho? – ele se aproximou, um pouco curioso,

evitando as poças formadas pela chuva. Nunca vi carvalhos por

aqui...

—É sim – ela ficou de lado, deixando-o de frente para a

árvore. Como reconheceu?

—Pelas folhas... – ele sentiu a casca, molhada pela chuva,

imaginando que acasos poderiam ter sido responsáveis pela árvore

ter nascido ali.

Ele não reparara, mas havia um largo sorriso na face dela. Um

sorriso parecido com o que emoldurou sua face enquanto

observava as fotos da cena do crime.

—Veja, um ninho de pássaros! – ela apontou para o alto,

indicando uma bifurcação em um galho grosso. Está vendo?

—Onde? – ele olhou para cima.

Foi a última coisa que disse. O pescoço à mostra, nu, diante

dela, era um alvo fácil demais para ser ignorado. Ela nem precisou

pensar.

As unhas, antes retraídas, estenderam-se por quase um

centímetro inteiro. O pulso, antes relaxado, flexionou-se de tal

maneira que a mão se tornou uma garra. Seus olhos, antes plácidos,

agora estavam totalmente negros.

Um único movimento, tão rápido quanto um piscar de olhos,

e o pescoço havia sido aberto. O sangue quente nas mãos delas era

quase extasiante, inebriante até. Ela se sentia viva, seu âmago

tomado por uma lascívia que poucos podiam imaginar existir...

Ele nem teve tempo de levar a mão ao seu pescoço ou a sua

arma. Ele simplesmente tombara.

Quanto tempo tinha se passado? Três minutos? Talvez mais.

Foi só então que ela se agachou junto ao corpo e banhou ambas as

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Marcelo Paschoalin | Sangue em Suas Mãos

1000 Universos

mãos em seu sangue, sentindo aquela essência vital a completar. Só

que sangue ainda pulsava, ainda estava quente.

E das mãos o sangue passou aos braços. Ela rapidamente

removeu o vestido que a cobria e deixou que o sangue fluísse sobre

si, cobrindo seu peito, descendo para suas pernas, ungindo sua

cabeça. Não havia pele ou cabelo mais: tudo o que ela se tornara

era uma massa pulsante de sangue quente.

Num idioma antigo ela exaltou. Outros seis anos haviam se

passado e ela precisava desesperadamente de um novo corpo, um

que pudesse nutri-la e prolongasse sua eternidade... Ela sorriu,

revelando dentes rubros enquanto olhava para o corpo aos seus

pés, uma infeliz vítima das circunstâncias...

Afinal, se ele não tivesse intervindo, ele estaria vivo ainda... e

ela teria a opção de se manter como mulher.

Mas não, o destino lhe havia sido cruel desta vez. Ela

imaginara que ninguém notaria a falta daquela visitante no museu,

mas logo em seguida a curadora daquela ala e um segurança

patrimonial surgiram... e depois aquele investigador – só que ele

estava armado, e ela prezava demais sua vida eterna para que fosse

tola o bastante para atacá-lo ali.

Ela soube esperar. Ele era seu agora.

Pelos próximos seis anos, ela se manteria viva. Transformada

naquele que cedeu seu corpo a ela, mas viva.

E era isso o que realmente importava.

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1000 Universos

Amazônia

Underground

Romeu Martins

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Romeu Martins | Amazônia Underground

1000 Universos

Johnny me disse que sentia que ainda morreria na Amazônia.

Caso eu não encontrasse um meio de ajudá-lo, aquele seria o dia: o

jovem explorador seria fatiado pelo homem contratado para guiá-lo

naquela floresta. Torres tinha sido um caçador de negros até 15

anos atrás, no período anterior à abolição da escravatura no Brasil,

em 1855. Depois disso, passou a viver da exploração do trabalho

dos indígenas da região. Nunca confiei nele, com suas cicatrizes de

cortes espalhadas por todo o corpo, mas não esperava que o

desgraçado fosse provocar a explosão do túnel, logo depois de

deixar a caverna, me deixando desarmado e isolado aqui dentro.

Sobrevivi porque o capacete que estava usando protegeu minha

cabeça do deslizamento.

As pedras barravam a passagem, deixando só uma fresta por

onde eu enxergava o traidor ameaçar o garoto no lado de fora.

Maldita hora em que J. Neil Gibson inventou aquela expedição! O

americano ficou rico ao descobrir ouro na Amazônia, mas ele queria

mais. Construiu um pólo de indústrias aqui, em Manaus, em

sociedade com o recentemente nomeado Conde de Mauá, para

produzir armamento na guerra que nós e o Paraguai travamos

contra a Espanha pelo controle de Cuba. Com a volta dos tempos de

paz, ele usou dinheiro para convencer esse aventureiro inglês a

buscar novas riquezas debaixo desta mata. O ambicioso escravista

brasileiro fazia o mesmo, mas para isso usava a força, na forma de

um facão de lâmina larga, chamado machete: obrigava o rapaz a lhe

contar a localização de um veio de diamantes descoberto na

véspera.

Como me meti nisso? Por sorte ou azar, conheci Gibson

quatro anos atrás. Eu tinha acabado de entrar para a Polícia dos

Caminhos de Ferro e salvei a vida dele na capital do Império. Pouco

mais tarde, ele me convidou para seu casamento com uma mestiça

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Romeu Martins | Amazônia Underground

1000 Universos

que conhecera nesta floresta, e voltei a lhe salvar a pele. Minha

recompensa veio agora: o milionário fez questão que eu

participasse desta empreitada. Como ele acabou de ser eleito

senador nos EUA e tem sua influência junto à corte do brasileira,

virei voluntário contra a vontade. Todos me chamam de João

Fumaça. Não é meu nome verdadeiro, por óbvio: minha mãe me

deu à luz em um trem a vapor na Inglaterra, daí nunca mais larguei

este apelido. Sou conterrâneo de John, sendo que ele nasceu entre

a aristocracia rural daquela ilha e resolveu viver algumas aventuras

antes de a barba nascer e de seus pais o alistarem no exército

britânico. Eu vim de um vilarejo chamado Wold Newton, cujo único

acontecimento memorável foi uma pedra que despencou dos céus

por lá, 45 anos antes de meu nascimento.

Pensar no meteorito me deu uma ideia. Como eu disse, a

explosão me desarmara, por completo. Tirando a peça que me

salvou a vida – um capacete de exploração subterrânea inspirado na

desventura científica que o doutor Lidenbrock liderou no início da

década passada na Islândia –, só me restava uma pequena picareta.

Ela não seria suficiente para abrir caminho pelas pedras, porém,

como sempre digo, tenho meus truques. Os engenheiros

contratados por Gibson para projetar este capacete instalaram um

tanque de oxigênio nele, de modo que eu pudesse respirar em

ambientes fechados. Não era o caso daquela galeria, já que havia ar

suficiente entrando pelos desvãos dos pedregulhos, mesmo assim o

cilindro seria útil. Eu o tirei das costas, desatei da mangueira que o

prendia à máscara e o posicionei no buraco por onde eu podia ver o

ex-capitão do mato ameaçar meu conterrâneo.

Sem aquela abertura, eu ficaria na escuridão, não fosse outra

engenhosidade: a vela elétrica embutida no capacete, alimentada

com pilhas galvânicas. Graças ao brilho artificial vindo do alto de

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Romeu Martins | Amazônia Underground

1000 Universos

minha testa, pude erguer a picareta e golpear a válvula de

segurança do cilindro. Não foi o bastante. Provoquei faíscas e fiz

saltar lascas que, não fossem os óculos de proteção, teriam

perfurado meus olhos. Torres certamente ouvira o badalo,

parecendo o de um sino a anunciar a morte de algum cristão. Meu

segundo golpe teria que ser certeiro, do contrário os cristãos a

morrerem naquele inferno verde seria eu e meu colega de

empreitada.

Por sorte ou desespero, a nova tentativa foi mesmo no ponto.

A ponta da picareta abriu o lacre e libertou o oxigênio ali

comprimido. O assobio lembrava o som de um furacão. Como se

fosse um foguete chinês, o tubo alçou voo, livrando-se daquele

buraco apertado mais rápido que meus olhos poderiam

acompanhar. Meu projétil improvisado só parou depois de quebrar

a coluna do assassino, metros adiante daquela gruta onde eu me

encontrava. Foi assim que John Roxton sobreviveu à sua primeira

aventura amazônica, pronto para retornar a essa floresta que tanto

o maravilhava muitas vezes ainda.

Notas de referência:

Este texto foi originalmente escrito para participar de uma competição de textos

steampunk organizada pelo artista plástico californiano Tom Banwell. Uma versão

anterior e em inglês foi publicada no blog dele:

http://tombanwell.blogspot.com/2009/06/steampunk-writing-competitionother.html

John Roxton é um personagem criado por Arthur Conan Doyle (1859 – 1930) para

seu livro Lost world, de 1912, ambientado na Amazônia uns poucos anos antes de

sua publicação.

Torres é um personagem criado por Jules Verne (1828 – 1905) para o livro La

Jangada - huit cents lieues sur l'Amazone, publicado em 1880, mas ambientado em

1852.

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Romeu Martins | Amazônia Underground

1000 Universos

J. Neil Gibson é outro personagem de Conan Doyle que surgiu no conto “The

problem of Thor Bridge”, de 1922, mas que se passa em 1900.

Otto Lidenbrock também é uma criação de Verne para o livro Voyage au centre de

la Terre, de 1864, com ambientação no ano anterior.

Wold Newton é o nome de uma cidade real da Inglaterra onde de fato caiu um

meteoro em 1795. O acontecimento foi usado pelo escritor americano Philip José

Farmer (1918 – 2009) para escrever suas biografias fictícias Tarzan alive, de 1972, e

Doc Savage – His apocalyptic life, do ano seguinte.

João Fumaça é um personagem meu criado para a noveleta “Cidade Phantástica”,

publicada na antologia Steampunk – Histórias de um passado extraordinário, em

2009, mas cuja trama se passa no ano de 1866.

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1000 Universos

Aquela

Garota de

Olhos

Brilhantes

Miguel Carqueija

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Miguel Carqueija | Aquela Garota de Olhos Brilhantes

1000 Universos

“Eis o que diz o Senhor: invoca-me, e te responderei, revelando-te

grandes coisas misteriosas que ignoras.” (Jer 33,3)

Rugas de expressão se formaram na testa do Detetive

Parmenas, quando ele se aproximou dos bancos do jardim e avistou

a mulher gorda e de vestido berrante, sentada junto às

samambaias. Conhecia a peça e sua presença no local não parecia

prefigurar boa coisa.

Parmenas era um homem discreto e reservado e, com seu

terno sóbrio, não era o tipo de pessoa que chamasse muita atenção.

Perto dele, a espalhafatosa Duquesa Matilda Skinner representava

um grande contraste. Havia outras pessoas sentadas em roda,

sendo servidas por uma garçonete, e Matilda acenou vivamente

para Parmenas, pedindo que se aproximasse.

— Parmenas, meu velho! Venha participar! Estamos tendo

uma grande discussão filosófica!

E assim dizendo ela fez as apresentações. O Coronel Ivan

Ismirnoff, a Doutora Érika Matheus III, Marina Castañeda, o casal

Hardy e seu filho de doze anos, o senhor Galhano Torres, uma

garota chamada Naira, o conhecido pintor Toshiro Yuzuke...

Parmenas já conhecia Ismirnoff, de uma missão detetivesca

em Calisto. Eles se cumprimentaram amavelmente e em seguida o

policial volveu o olhar para Naira. Enquanto o militar ostentava

grossas papadas e já ultrapassara os setenta anos, a garota, com

uma calça azul e os cabelos soltos, era a imagem da juventude.

Parmenas focalizou aqueles olhos azuis brilhantes, e lembrou-se

dela. Em algum lugar, no passado, encontrara aquela moça. Ela

também o reconheceu, sorriu para ele.

Parecia a Parmenas que já a conhecia há muito, muito tempo.

Mas isso era impossível, dada a mocidade de Naira. Parmenas

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Miguel Carqueija | Aquela Garota de Olhos Brilhantes

1000 Universos

lembrava-se vagamente de algum episódio nebuloso em que aquela

moça aparecera, desempenhara algum papel importante... e se

afastara de sua vida.

Érika era uma médica infectologista e sanitarista, e ficara

conhecida, dez anos atrás, por sua intensa participação no Grande

Mutirão da África, quando os conhecimentos obtidos no Projeto

Genoma III foram pela primeira vez utilizados em escala continental

para erradicar as terríveis enfermidades que devastavam aqueles

povos. Pessoalmente era gorda, de olhos apertados sem ser

asiática, com braços flácidos e rosto anódino.

Marina Castañeda por sua vez era uma moça alta e esguia, de

olhar triste e pele azeitonada, aparentando uma calma sobrehumana.

Vestia-se de forma simples, quase displicente. Era uma

representante comercial, o que explicava a sua pobreza.

Já o casal Hardy era composto por um homem corpulento,

bonachão e superficial, e uma mulher de gestos nervosos e

sobrancelhas grossas, um penteado horrível, e portando um colar

de pedras talvez preciosas. Eram empresários de mineração,

burgueses típicos e um tipo humano muito difícil de encontrar em

satélites-cidades. O garoto, Peter, parecia uma criança normal.

Galhano era um empresário artístico ligado a conjuntos de

rock cósmico. No mais, um homem de terno, cara quadrada à Dick

Tracy, um cigarro nervoso entre os dedos, um dos quais ostentava

um anel de formatura, de ouro. Um homem de talvez 40 anos,

bastante vigoroso.

Quanto a Toshiro, era magro, elétrico, gaiato, contador de

anedotas nem sempre engraçadas. Para Parmenas seus quadros

eram simplesmente teratológicos, cheios de tornados, tsunamis,

abismos, naves espaciais em chamas e até dragões cuspidores de

fogo.

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Miguel Carqueija | Aquela Garota de Olhos Brilhantes

1000 Universos

Toshiro tivera uma infância terrivelmente pobre e

desenvolvera uma personalidade ferina, misógina e sinistra,

sorumbática, além de irreverente; era uma figura discutida e

polêmica, de caráter contraditório.

Foi ele, em suma, quem introduziu Parmenas na discussão:

— Nós estamos discutindo algo realmente sério: a liceidade

do ato de matar. O homicídio. O senhor, que é policial, nos diga: em

que circunstâncias o assassinato deixa de ser lícito?

— Como assim? — Parmenas admirou-se. — O assassinato

nunca é lícito. É sempre um crime.

— Mesmo a legítima defesa? — Eugene Compostella Hardy

agitou-se. — A lei reconhece...

— Matar em legítima defesa não é assassinar — apressou-se

Parmenas a corrigir. — O termo “assassinato” já pressupõe a

intenção criminosa.

— Querido, você não vai contar o que nós constatamos? —

disse Sylvie.

— Ah, sim, senão ele não vai entender nada! — e

Compostella riu às gargalhadas, aparentemente sem motivo algum.

— Francamente, acho de mau gosto lembrarmos isto... —

frisou Galhano Torres.

Parmenas Sandoval não estava entendendo “lhufas” do que

se dizia. Percorrendo os demais com o olhar, ele que se sentara em

frente à matrona que o chamara — os bancos rodeavam uma mesa

de ferro, fixa — constatou que Marina mantinha o olhar baixo e as

mãos no colo, a esquerda aberta sobre a direita, apertava os pés um

no outro, parecia aflita, enquanto Naira sustentava uma atenção de

coruja a tudo o que se falava.

E foi nesse ponto que ela interferiu:

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Miguel Carqueija | Aquela Garota de Olhos Brilhantes

1000 Universos

— Por que, Senhor Galhano? Somente o Sr. Parmenas ainda

não está a par das coincidências que nós constatamos... e é bom

que ele fique a par.

— Espicaçou a minha curiosidade — admitiu Parmenas,

abrindo a sua caixinha de rapé e cheirando uma pitada. — Quero

saber que coincidências são essas.

— Muito simples — disse a duquesa. — Há cinco anos atrás

ocorreu uma festa de gala no Rio de Janeiro, e nessa festa estiveram

presentes todos os que aqui se encontram.

— Isto seria incrível — disse Parmenas, espirrando. — Tem

certeza disso?

— Na verdade — intrometeu-se Peter — essa garota não

esteve — e indicou a Naira.

— Uma coincidência realmente extraordinária, reconheço.

Toshiro bateu com as palmas, sem motivo aparente, e

acrescentou:

— É verdade, senhor “Sherlock”. Mas o mais extraordinário é

que nessa festa ocorreu um crime de morte!

— Como diz? — Parmenas sentiu-se estranhamente inquieto.

— Isso mesmo! — e Toshiro deu um pulo ridículo, igualmente

sem razão aparente. — Foi tudo gravado em holograma

estereográfico! Você deve ter ouvido falar no assassinato de um

homem de fama sinistra, um homem que espalhava ódio e despeito

por onde passava...

— Quem?

— Jean-François Barjavel, em suma! — gritou Peter,

apontando para o policial, como se este fosse o nomeado. — Você é

um tira, deve estar a par disso!

Parmenas sentiu-se chocado. O caso tivera ampla

repercussão na mídia. Afinal, Barjavel era um conhecido homem de

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Miguel Carqueija | Aquela Garota de Olhos Brilhantes

1000 Universos

negócios, um homem muito rico e até muito popular, apesar do que

Toshiro havia dito. É possível ter muitos amigos e inimigos ao

mesmo tempo, e isso é o que sucedia com ele. Várias vezes

divorciado, execrado por filhos, homem de várias amantes e de

aduladores fiéis, Barjavel elevara uns e arruinara outros;

incursionara pela política e traficara influência, até provocar ódios

inconciliáveis.

Entretanto um homem fora preso e condenado pelo

homicídio. Esse homem, Alarico, era um venezuelano radicado no

Brasil, um pianista de medíocre carreira que um dia acreditara em

Barjavel e fora por este extremamente prejudicado. O tribunal

aceitara a tese da acusação, de que o móvel do crime havia sido a

vingança mesquinha. Alarico tentara o suicídio na prisão mas, tanto

quanto Parmenas sabia, ainda continuava preso e assim

permaneceria pelos próximos vinte e cinco anos. A Lei agira com

grande severidade naquele caso, deixando uma esposa na miséria,

com uma filha adolescente.

— E vocês todos estavam no local? — quis saber Parmenas,

incrédulo.

Ivan anuiu, enquanto acendia o seu charuto:

— Eu falei com Barjavel pouco antes do crime. Foi uma coisa

chocante.

— E todos... menos Naira... estavam lá? O que fazia cada um

de vocês?

A robota-garçonete veio trazer os canapés encomendados e

logo se afastou rodando; Parmenas serviu-se de um refresco de

umbu e continuou escutando as explanações. Ivan, por ser seu

amigo de longa data, tomou a frente das explicações:

— Os Hardy moravam no Rio na ocasião e frequentavam o

palacete flutuante de Gil Penafiel, o ministro que gostava de

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Miguel Carqueija | Aquela Garota de Olhos Brilhantes

1000 Universos

promover festas suntuosas. Gil era o ministro de finanças do Sul da

América, e um dos homens de maior prestígio dos Países Unidos...

antes que o deletassem, é claro.

— A política é uma areia movediça. Há! Há! Há! — expandiuse

Toshiro, com falta de educação. Ivan procurou ignorá-lo:

— Galhano, por sua vez, estava empresariando o conjunto

Tapa-na-cara, que fazia grande sucesso em sua excursão pelo Brasil,

e por isso foi convidado.

— Eu próprio e minha saudosa esposa éramos amigos de Gil,

que habitualmente nos convidava.

— Toshiro foi convidado porque realizava uma exposição no

Rio, estava na berlinda.

— A doutora dispensa apresentação, era Prêmio Nobel da Paz

e não poderia ser esquecida, estando na cidade.

— Assim se explica a presença de todos nós — concluiu o

coronel.

— E Marina?

Após fazer a pergunta, Parmenas percebeu que a jovem

baixara o olhar. Da posição em que estava, pareceu ao detetive que

a garota apresentava um ligeiro tremor nas mãos, além disso a sua

testa porejava gotinhas de suor.

— Ah, amigo! Você é observador! Eu não conhecia a senhora

Marina, e não me lembro dela na festa!

— Mas então...

— Eu me lembro dela — disse Peter. — Era bem diferente, e

me deu um beijo! Nunca esqueci!

— Peter!

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1000 Universos

Era a mãe ralhando. Parmenas, que detestava esses

patrulhamentos com que certos pais inibem seus filhos sem motivo

razoável, interferiu:

— A senhora deve deixá-lo falar, ele só disse a verdade.

— Mas, detetive, eu sou a mãe dele! — falou ela com

rispidez.

— Eu quero supor que estamos tratando de um assunto sério

e que eu estou tentando entender o que houve, e o testemunho do

menino é importante.

— Por que diz isso? — indagou Eugene, irritado. — O caso já

foi esclarecido!

— Estamos discutindo intelectualmente a presença de quase

todos aqui, na aludida festa. Mas e você, duquesa? Ninguém falou o

seu nome!

Ivan voltou-se para ela:

— Não precisava nem mencioná-la. A Duquesa Matilde está

em todas, difícil será encontrar um convescote da “high society” em

que ela não esteja presente.

— Bobalhão! Exagerado! — berrou a duquesa.

— De qualquer forma — prosseguiu Eugene, entre risadas

estúpidas — não resta a menor dúvida que o criminoso foi Alarico!

Era de se esperar. Um sujeito sinistro, medíocre, cheio de

ressentimento, e que revelou ali a sua face cruel e vingativa... a

cadeia ainda é pouco para patifes dessa laia!

— Isto é mentira! Ele não matou ninguém!

Todos os olhares se voltaram para Marina. A jovem hispanoamericana

se ergueu de súbito, o olhar dardejando chispas de

áscua, a sua fisionomia repentinamente alterada pela cólera.

— Que deu em você? — disse Toshiro, que até deixou cair

uma empadinha de legumes.

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1000 Universos

— Senhor Parmenas, sei que o senhor é da polícia. E antes

que esse salafrário diga mais sandices, quero que o senhor saiba

que meu pai é inocente e eu tenho comigo a prova que incriminará

o verdadeiro culpado!

Vários dos circunstantes falaram ao mesmo tempo, e

Parmenas fez o possível para fazer baixar o tumulto. Então Naira,

que até então se conservara calada, observou taxativamente:

— Escutem com atenção o que ela tem a dizer.

Marina fitou-a meio espantada, e às várias perguntas e

observações de curiosidade (Galhano, os Hardy, Toshiro, Matilda)

esclareceu:

— Sim, Alarico Mendes é meu pai. A sua condenação colocou

mamãe e eu na miséria, e até hoje lutamos com muita dificuldade

para sobreviver. Detetive Parmenas, eu estou com o holograma

multi-plano que mostra o crime e a sua cuidadosa análise mostra

que meu pai é inocente, e mostra também o culpado, que por sinal

está aqui presente.

Parmenas olhou-a com admiração mas não pôde deixar de

olhar também para aquela outra garota, a Naira, que estava ao lado

da primeira; e os olhos daquela Naira pareciam mais brilhantes do

que nunca.

Toshiro, num gesto vulgar, veio dar um tapinha no ombro de

Parmenas:

— É, meu chapa! De vez em quando a gente depara com

chantagistas... ainda mais eu, que desperto invejas pelo meu

talento... mas asseguro que essa guria não vai conseguir nada, a não

ser um bom processo por calúnia...

Naira deu um passo á frente, até encostar na mesa:

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Miguel Carqueija | Aquela Garota de Olhos Brilhantes

1000 Universos

— Senhor Toshiro, vou pedir que não tumultue o assunto.

Ninguém o acusou, portanto o senhor ainda não precisa se declarar

inocente. Não seja exibicionista.

— O que é que você tem com isso?

— Senhor Toshiro! — Parmenas foi enfático e severo. —

Permita que eu conduza esse assunto!

— Está bem, meu camaradinha...

— Basta! A senhora pretende passar o holo-estereográfico?

— É claro — respondeu Marina.

— Mas como sabia que nos encontraria aqui? — indagou

Ivan, perplexo.

— É simples. Eu apenas segui a pista do criminoso. Jamais

imaginaria que o acaso iria reunir outros integrantes da festa.

— Deduzo — disse Galhano — que você não está usando o

sobrenome de seu pai.

— É claro que não. Papai é Mendes, eu troquei de sobrenome

para não ter mais problemas... ou você achava que ter um pai

trancafiado como assassino perigoso iria me facilitar a vida nos

próximos anos?

O coronel, homem prático à maneira militar, observou:

— Teremos meio, aqui, de passar o holograma?

— Eu tenho — falou Naira.

Houve um espanto geral e, às várias observações, a garota

apenas explicou com frieza:

— Um desses novos aparelhos portáteis e desdobráveis. Está

aqui, na minha mochila.

Ato contínuo ela foi retirando o objeto e montando-o sobre a

mesa.

— Vocês duas já se conheciam? — indagou Parmenas,

admirado.

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Miguel Carqueija | Aquela Garota de Olhos Brilhantes

1000 Universos

— Eu nunca vi essa menina antes — admitiu Marina, que

parecia tão espantada quanto os demais.

Parmenas achegou-se à pequena, enquanto ela ainda

calibrava o aparelho, e confidenciou-lhe:

— Diga... você e eu já nos vimos antes, não é mesmo?

Ela sorriu, mostrando lindos caninos e incisivos:

— É possível, Parmenas. Nós sempre encontramos muita

gente no mundo.

— Quem é você, afinal?

— Isso agora não é importante. Realmente importante é

livrar um inocente da cadeia.

Parmenas observou a destreza da garota e recordou aqueles

acontecimentos do passado, que tanta repercussão haviam

provocado.

Barjavel fora apunhalado. A arma assassina atravessara sua

pleura, seu pulmão esquerdo, e penetrara no coração. Durante o

julgamento o holograma apresentado tinha sido exaustivamente

analisado quadro-a-quadro e, apesar do ajuntamento, Alarico

acabara sendo condenado porque a referida análise mostrava uma

grande possibilidade de ter sido ele o assassino. Aliás, Alarico

minutos antes batera boca com a vítima, e quase havia ocorrido

uma cena de pugilato, apenas evitada pela habitual turma do deixadisso.

Afinal Naira aprontou o projetor e observou:

— Para obtermos uma visão ideal devemos projetar sobre um

fundo mais escuro... como aquela cerca viva que tem mais adiante.

Sugiro que a gente se desloque para lá.

— Se me permite, eu levarei o conjunto aparelho-filme.

— Pois não, Senhor Parmenas.

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Miguel Carqueija | Aquela Garota de Olhos Brilhantes

1000 Universos

O detetive, no íntimo, temia algum atentado que visasse

destruir a alegada prova. Mas ninguém ousou fazer nada e logo o

pessoal todo se encontrava diante da escura cerca viva. Parmenas,

então, novamente se dirigiu à estranha garota:

— Pois bem, Naira. Você conhece o aparelho, faça a projeção.

— É pra já.

Parmenas era um “expert” nesses aparelhos. Enquanto o

ajustava na mesa também transportada, buscava ao menos

identificar a origem racial de Naira. Diferentemente de quase todos

os presentes, ela falava o Inglês Planetário com desenvoltura e sem

qualquer sotaque reconhecível; mas a morenice da garota não dava

a entender que fosse inglesa, australiana ou norte-americana.

Yuzuke se aproximou:

— Vamos lá, irmão! Mostre a famosa cena do crime!

Assim dizendo ele deu um suposto tapa amistoso no ombro

direito de Parmenas, no momento em que este tentava fixar o

quadripé. O suporte desequilibrou-se e o hologramógrafo voou

longe, arrancando um grito angustiado de Marina; porém Naira, que

por mero acaso (?) se encontrava bem em frente, apanhou o objeto

com a classe de uma goleira.

Eugene Hardy apanhou o japonês pelos ombros e sacudiu-o:

— Começo a achar que você é o assassino! Por que fez isso?

— Eu não tive a intenção, eu juro!

— Basta — disse Naira. — Senhor Parmenas, vou em frente.

Parmenas estava com a pulga atrás da orelha, mas passou o

conjunto para a moça, que iniciou a projeção.

A filmagem mostrava o bafafá entre os dois convivas, a

intervenção da “turma do deixa-disso” e, em seguida, Alarico

voltando, como se houvesse esquecido alguma coisa, e quase

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Miguel Carqueija | Aquela Garota de Olhos Brilhantes

1000 Universos

roçando com a vítima; falou-lhe alguma coisa e se afastou

empurrando as pessoas. O próprio Galhano fora empurrado.

— Onde é que nós chegamos? — perguntou a Duquesa

Matilda. — Esse é o mesmíssimo holograma mostrado durante o

julgamento que condenou o Alarico Mendes! Lembro muito bem da

mendacidade com que ele negava o óbvio... desculpe, menina, ele é

seu pai, mas vamos enxergar a verdade...

— Aí é que está, Duquesa. A verdade se encontra nesse

holograma, só que ninguém soube vê-la. Mas eu a vi. E vou mostrar

a vocês.

— Menina, o quadro-a-quadro foi exibido no julgamento.

— Mas não foi acertadamente analisado. Vou provar a vocês.

Ela pôs-se a manipular o hologramógrafo, fazendo retroceder

a cena até a discussão entre os dois homens e um empurrão mútuo.

Algumas pessoas interferiram, evitando uma luta corporal.

— Reparem bem — observou a jovem — o senhor Galhano, o

senhor Hardy, a Doutora Érica, o coronel e o senhor Toshiro

estavam em volta e impediram que houvesse pancadaria. O meu pai

se afasta. Quando ele voltou foi porque não resistiu em falar “Isso

não vai ficar assim, canalha!” a Barjavel. Logo em seguida o senhor

Barjavel caiu.

— Mas vejam, Barjavel foi apunhalado pelas costas. Embora o

ajuntamento impeça ver o golpe, ao se afastar meu pai teria uma

fração de segundo para se voltar e esfaquear o outro. E teria de ser

um golpe enviesado, esquisito, na fração de segundo em que seu

corpo foi totalmente ocultado pelos do pintor e do senhor Galhano.

Mas o exame anatômico diz que o punhal entrou pelos músculos

costais em ângulo de 90 graus e não de 45 graus, digamos.

— O que você quer dizer com isso? – cobrou Parmenas.

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Miguel Carqueija | Aquela Garota de Olhos Brilhantes

1000 Universos

— O senhor é detetive e lida com a ciência da investigação.

Veja, momentos antes... recuarei um pouco... quem aparece

justamente atrás de Jean-François Barjavel. Olhem bem.

Todos olharam — e todos viram a figura de elevada estatura

do Coronel Ismirnoff, falando qualquer coisa rápida e fazendo algum

gesto quase totalmente oculto, aparentemente um afago

conciliatório do tipo “Calma, não esquente a cabeça!”.

Marina congelou rapidamente o holofotograma:

— Vejam, a vítima faz um esgar de dor ou incômodo. A

lâmina de aço atravessou rapidamente os tecidos epiteliais e

musculares, entre as costelas, e penetrou no pulmão esquerdo. Para

o coronel, que vinha pelo lado direito das costas de Barjavel, era

fácil fazer isso. Para meu pai é que não. O coronel é destro, meu pai

idem. Só que papai passou pelo lado esquerdo de Barjavel e não

cruzou as suas costas, afastou-se para a direita. Jamais conseguiria

apunhalar daquele jeito, com a mão esquerda e enviesada ainda por

cima.

— Ora, que absurdo! — exclamou Eugene Hardy, porém o seu

filho manifestou outro parecer:

— Absurdo nada, pai! Ela mostrou por A mais B! Esse homem

é o assassino!

— Peter! Não diga uma coisa dessas do Coronel! — berrou

Sylvie, transtornada.

— Parem! — gritou Parmenas, fazendo calar também ao

pintor nipônico, que iniciara uma algaravia em sua própria língua,

esquecendo-se de falar em inglês. — Coronel Ivan, o que o senhor

tem a dizer sobre o caso?

O militar empalidecera horrivelmente e falou em tom raivoso:

— Eu posso processar esta moça. O holograma foi examinado

pelo tribunal e ninguém o interpretou desse jeito.

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Miguel Carqueija | Aquela Garota de Olhos Brilhantes

1000 Universos

A moça estava preparada para a objeção:

— Papai não pôde pagar advogado. Deram-lhe uma

defensora pública incompetente ou desinteressada. O que o senhor

esperava? A Justiça já tinha um bode expiatório ideal. Para que bulir

com um militar de alta patente?

— Isto é uma calúnia, uma invencionice!

— Não é, e o senhor sabe disso.

Surpreendentemente já não era Marina quem falava. Era

Naira. Ela se adiantou e se dirigiu ao coronel, e naquele momento o

Detetive Parmenas, julgando delirar, teve a nítida impressão de

avistar uma emanação luminosa naqueles olhos azuis:

— Coronel Ivan Ismirnoff, há uma velha história abafada. Sua

filha Nena, que foi seduzida por Barjavel, envolveu-se com ele e por

causa dele pôs fim à vida. Naquele dia o senhor se vingou. E embora

julgasse nobre a sua vingança, o senhor perdeu toda a nobreza

quando permitiu que um inocente e sua família pagassem pelo

crime. O senhor já é um homem velho, coronel. Vai levar isso para a

sepultura? Em cada noite de insônia, Deus o está cobrando pelo seu

crime.

A cena era tão solene que todos estacaram, como

paralisados. Parmenas, perplexo, esperava até que Ivan estapeasse

a atrevida pequena; ao invés ele se pôs a tremer convulsivamente, a

fisionomia derreada, e com voz profundamente aflita exclamou em

voz bem alta, como se precisasse desabafar:

— Como você sabe? Como sabe das minhas noites de insônia,

relembrando aquele fato terrível? O que diz é verdade. Eu matei

Barjavel naquele dia. Foi como esmagar um verme...

— Talvez, coronel. Não discuto que Barjavel não prestava.

Mas e o homem inocente que está apodrecendo na prisão? E a sua

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Miguel Carqueija | Aquela Garota de Olhos Brilhantes

1000 Universos

esposa? E a sua filha aqui presente? Para se desforrar de um

homem culpado o senhor destruiu três vidas inocentes!

— Você tem toda a razão. Eu peço perdão a todos. Soltem

Alarico. Eu confesso tudo, fui eu o culpado. Barjavel não reagiu de

imediato ao fio da lâmina, que era muito fina. Foi por isso que se

passaram vários segundos antes que ele se sentisse mal e eu já

tinha me afastado. Esse fenômeno às vezes acontece, você é

esfaqueado e não percebe de pronto. Foi isso que me salvou da

acusação naquele dia fatídico.

Ismirnoff levou a mão ao peito, o rosto contraído num

repentino ricto de dor. Ao tombar para a frente, Parmenas o

amparou.

— Doutora Érica, me ajude, por favor!

Poucas horas depois Ismirnoff morria num hospital, tendo

antes assinado a sua confissão.

Após as providências tumultuosas que se seguiram e os

cumprimentos a Marina, com as demais pessoas dispersas, tanto a

venezuelana quanto Parmenas procuraram por Naira e não a

encontraram em parte alguma. E nem acharam qualquer registro de

sua passagem nos hotéis e companhias de navegação cósmica.

Parmenas resolveu acompanhar Marina à Terra, para

providenciar a libertação de Alarico. Ao se acomodarem no ônibus

espacial, o detetive ainda observou:

— Que será ela, afinal?

Marina assumiu um ar sonhador;

— Quem sabe a reencontramos algum dia? Um raio de luz

fugaz pode aparecer em qualquer lugar!

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1000 Universos

Ouvir

Estrelas

Ana Cristina Rodrigues

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Ana Cristina Rodrigues | Ouvir Estrelas

1000 Universos

“Ora direis ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto...

Olavo Bilac – Via Láctea

Foi durante a última das Grandes Guerras que ele começou a

ouvir estrelas. Tinha apenas quinze anos e morava em um país

diretamente envolvido nas disputas de poder que dividiam o

planeta. O mundo estava partido em dois. Uma potência dominava

econômica e politicamente metade do mundo, enquanto a outra

metade unira-se para combater a ameaça implícita no crescimento

de um único poder nacional.

O rapaz morava em um dos muitos que combatiam a Grande

Potência. Ao olhar para trás, no final de sua vida, não se lembrava

dos nomes de nenhum dos países combatentes. Aliás, mal

recordava o próprio nome, de como se chamava nessa época tão

apagada e diferente. Era como se não houvesse lembranças, como

se o passado tivesse deixado de existir.

Nas poucas vezes em que tentava recuperar a memória

daquele tempo, apenas duas lembranças persistiam: as explosões

dos milhares de bombas, como aquela que matara seus pais e o

deixara órfão... E as canções que ouvia, vindas do firmamento.

Uma noite, sozinho e triste na cama fria da casa de estranhos,

percebeu que as estrelas entoavam estranhas melodias, odes a

lugares distantes e inatingíveis, como se pertencessem a outras

realidades. Porém, ninguém mais parecia capaz de notar aqueles

sons tão fascinantes.

Os demais deviam estar ofuscados demais pelas bombas e

suas explosões, que brilhavam ao longe como se fossem estrelas.

No entanto, ele não ouvia canções criadas por aqueles clarões

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Ana Cristina Rodrigues | Ouvir Estrelas

1000 Universos

fugazes. No máximo, distinguia uma cacofonia, quase harmônica em

seu caos interno, sinfonia de destruição cantada em uníssono pelos

gritos de quem morria em conjunto com os urros de glória de quem

matava, combinados pelo soturno e sombrio som de casas

soçobrando, escombros de concreto ruindo sobre si, pontuados

pelo ribombar estrondoso dos explosivos.

Por vezes, as bombas ecoavam em seus ouvidos, enchendo

sua cabeça com o som desagradável de morte e destruição,

obscurecendo a canção das estrelas. Quando isso acontecia, deitava

solitário na cama, apertava a cabeça segurando as orelhas com

força e gritava como se fizesse parte do coro de moribundos.

Berrava até sentir gosto de ferro na boca, a garganta ferida e a voz

arranhada. Era nesse momento que as lágrimas começavam a

correr, e aí sim a música suave que descia do firmamento voltava a

alcançá-lo, tranquilizando-o.

Porém, uma vez, no instante em que não conseguia mais

berrar e os olhos encheram-se de lágrimas, escutou algo jamais

ouvido antes por ele. Uma estrela desconhecida começou a entoar

uma melodia diferente das outras que ele ouvira vindas do espaço.

Trazia palavras paternais, embalando o seu desespero de

órfão como em uma canção de ninar. Dizia que os gritos poderiam

parar para sempre. E ele, apenas um garoto, poderia tornar-se o

maestro daquela música de ruínas e mortes, fazendo da melodia

sinistra dos bombardeios apenas mais uma parte da canção das

estrelas.

Aos poucos, seu coração começou a bater no ritmo

compassado da voz, tão serena e suave. Prometendo noites com

notas simples e tranquilas, sem gritos, sem explosões, só as doces

palavras cantadas por aqueles pontos tão brilhantes e tão bonitos

que eram companhia e apoio nas noites solitárias.

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Ana Cristina Rodrigues | Ouvir Estrelas

1000 Universos

Nas noites seguintes, ouviu a mesma melodia, mas agora

cantada por várias vozes. E esse coro abafava os ruídos da Guerra,

que continuava devastando tudo e todos. A canção isolava o garoto,

deixando-o finalmente em paz. Porém, a manhã afastava as estrelas

e trazia a realidade. A triste sombra de destruição e morte fazia com

que ele ansiasse pela noite, quando não escutava mais estrondos,

apenas murmúrios harmônicos que vinham de muito longe.

A voz da estrela diferente, aquela que sussurrou as palavras

pela primeira vez, como se percebendo sua imensa tristeza,

começou a cantar um convite. Chamava-o para juntar-se a elas, no

firmamento. O rapaz chorava, frustrado, pois era impossível atender

ao apelo. Tentava dizer isso à estrela, mas não sabia comunicar-se

naquela estranha maneira.

Até que um dia, cansado de chorar, adormeceu. No sonho, a

canção da estrela tornou-se mais intensa e ganhou tons fortes, que

fizeram seu coração bater apressado. Cores vibrantes giravam em

torvelinho, pulsando no ritmo absurdo que a música começava a

atingir. Uma dor insuportável brilhou por trás de seus olhos

fechados, e o convite foi feito novamente.

“Junte-se a nós.”

“Eu não sei como.”

“É só nos deixar tocar a sua mente. Iremos libertar o seu

mundo da Guerra. Nunca mais terá explosões em seu planeta.”

Entregou-se e soube que naquele momento integrava um

imenso coral, formado por crianças em todo o mundo que também

ouviram as estrelas e tomaram a mesma decisão. O céu escureceu,

e ao redor do planeta as bombas pararam de cair. As máquinas de

guerra simplesmente não funcionavam mais. Soldados caíram

mortos no chão em pleno campo de batalha, enquanto generais e

políticos sufocavam lentamente em seus gabinetes.

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Ana Cristina Rodrigues | Ouvir Estrelas

1000 Universos

Naquele breve instante, o mundo ficou sufocado pela

escuridão que desceu das estrelas e pela música pulsante que

produziam. Quando a noite passou, só sobraram as crianças que se

juntaram às vozes do céu e os estranhos que vieram com a música.

Mas o garoto não ligava. A única coisa que importava era que

o estrondo terrível das bombas tinha parado e só restara a melodia

estelar que tanto amava. Ficava horas deitado, escutando,

ignorando o mundo ao seu redor, que mudava drasticamente.

Pois enquanto ele e os demais garotos escutavam estrelas, os

invasores transformavam o planeta. Continuavam a entoar o

mesmo cântico hipnótico e mantinham as crianças vivas numa

estranha recompensa pela ajuda involuntária que elas deram na

invasão. Em décadas, não sobraria nada, nem uma sombra de

vestígio da presença humana sobre a Terra.

E o único som que se ouviria nos milênios seguintes seria a

melodia ritmada e melancólica que um dia as estrelas cantaram.

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1000 Universos

Adam

M. D. Amado

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M. D. Amado | Adam

1000 Universos

Este registro, feito de modo arcaico, no qual utilizei uma

réplica de uma caneta esferográfica e papel, roubados de um museu

do século XXI, serve como um pedido de socorro, ou quem sabe

como uma despedida. Tenho esperanças que alguém encontre isso

um dia e possa me achar a tempo. Em anexo, deixo um mapa

rabiscado ao estilo antigo, para que você que esteja lendo essas mal

escritas palavras, possa chegar até onde pretendo estar. Não devo

fixar moradia por lá durante todo o tempo, pois preciso continuar

minha busca. Mas tentarei retornar a cada cento e vinte noites na

esperança de encontrar alguém e ficarei por quinze dias.

Houve um acidente. Lembro-me apenas que meu híbrido

perdera altitude rapidamente e seus mecanismos de

amortecimento da queda não funcionaram como deveriam. De

repente tudo ficou branco à minha frente. Depois de girar várias

vezes e bater em uma rocha, finalmente tudo ficou escuro e pesado.

Não consegui sair debaixo de toda aquela neve. Notei que meus

sinais estavam fracos e senti vários espasmos dentro de meu corpo.

Sinal de que algo não funcionava como deveria. Segui então o

procedimento padrão, acionando o programa de desligamento

automático. O objetivo deste procedimento é preservar meus

órgãos principais, no caso de uma pane elétrica. Em poucos

segundos meus movimentos foram cessando. Em menos de um

minuto, me desliguei.

Quando acordei, já não havia gelo, neve e nem escuridão. O

Sol brilhava sobre as montanhas rochosas e eu acordei com o ardor

de uma queimadura em meu braço. O teto da cápsula de comando

acabou funcionando como uma lente de aumento, queimando parte

de minha pele humana. Não tinha ideia de quanto tempo eu tinha

ficado ali. Tentei olhar no painel do computador de bordo, mas ele

estava apagado. Tentei meu registro interno, mas meu visor

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M. D. Amado | Adam

1000 Universos

intraocular também não funcionava. No início não compreendia

porque a equipe de resgate não havia me encontrado, pois em caso

de pane, a central é avisada imediatamente, e teoricamente, teria

recebido inclusive imagens do local da queda.

Com muito cuidado consegui sair de dentro do híbrido, que se

encontrava entre duas pedras pontudas e poderia cair a qualquer

momento. Na verdade, pelo rastro que vi atrás dele, já devíamos ter

escorregado muitos metros até parar ali. Minhas aventuras da

juventude, quando eu ainda era apenas um humano como outro

qualquer, me valeram naquele momento. Consegui descer daquele

rochedo com uma certa facilidade. Acredito que desci cerca de

cento e cinquenta metros.

Já em solo, de onde eu estava conseguia ver ao longe

pequenos moinhos de vento, coletores de energia que margeavam

todo o vale. Caminhei em direção a eles, pois me veio a ideia de que

eu poderia encontrar alguém da equipe de manutenção por lá. No

entanto, andei durante horas até chegar ao primeiro moinho. Talvez

pela desorientação que ainda sentia, me esqueci que na verdade

eles eram enormes, de proporções gigantescas. Me pareceram

pequenos porque estava realmente muito distante. E tão grande

quanto a sua estrutura foi a minha decepção ao constatar depois de

passar por mais de quinze deles – separados por cerca de cem

metros um do outro – que nenhum estava gerando energia. Suas

pás giravam a toda velocidade, mas as centrais eletrônicas estavam

inutilizadas. Como sempre trabalhei nisso, dei uma olhada com a

intenção de tentar consertar, mas nada podia fazer. Pareciam

queimadas. Todas elas.

Ao entrar na torre do sétimo moinho, me deparei com

esqueletos de duas pessoas, enfiados em uniformes da companhia

de energia. A mesma cena se repetiu na penúltima torre que visitei.

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M. D. Amado | Adam

1000 Universos

Um dos híbridos estava parado em frente a essa torre, mas não

ligava. Nenhum controle funcionava. Olhei em seu compartimento

de fluxo de energia e faltavam as baterias. A sensação de fome me

apertava e isso me preocupava bastante. Se essas sensações

humanas estavam reaparecendo, era sinal de que o cérebro

artificial havia parado de funcionar ou sofrido sérios danos, uma vez

que eu aparentemente mantinha minhas memórias e meus

conhecimentos intactos. Talvez eu só tenha acordado porque minha

mente humana havia retomado o controle sobre meu corpo, o que

no meu caso não era nada bom.

Continuei caminhando em direção a um dos raros riachos que

ainda existiam em Terra Nova, que por sorte ficava no final da fileira

direita de moinhos. No caminho cheguei a ponderar se teria sido

água contaminada, o motivo da morte daquelas pessoas. Eu

precisava chegar ao riacho, pois seria mais fácil encontrar o

caminho de volta para a cidade. Durante todo o percurso me

deparei com vários painéis de comunicação externos,

completamente apagados. Não passavam de meros pedaços de

vidro transparente brotando do solo. Nem como obras de arte

serviam, pois desligados não tinham a menor graça. Quando

cheguei à beira do riacho, me sentei. Precisava descansar. Há meses

eu não sabia mais o que era sentir cansaço. Resolvi dormir ali

mesmo, pois eu teria uma longa caminhada até a cidade mais

próxima, sede da empresa onde eu trabalhava. Vinha de lá quando

aconteceu o acidente. Durante a noite pensei ter ouvido ruídos de

pequenos animais e em nome da sobrevivência, pensei em tentar

caçar algum. Mas eu nem saberia como fazer isso. E mais tarde eu

viria a saber que aqueles sons não poderiam ser de animais. Achei

que poderia aguentar mais um pouco sem comer. Peixe, nem

pensar. Terra Nova há muito já não via peixes em suas águas. Fruto

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M. D. Amado | Adam

1000 Universos

da irresponsabilidade desmedida de nossos antepassados, que lá

pelos idos de 2090 já tinham exterminado com todas as espécies.

Com muito trabalho e tecnologia conseguimos despoluir as águas,

mas o trabalho de repovoamento dos rios ainda estava

engatinhando lá pelas bandas do Brasil, um dos poucos lugares

onde ainda se encontram pequenas florestas e uma quantidade

razoável de bichos de quase todas as espécies. Para chegar lá, é

preciso enfrentar as enormes ondas causadas pelo vários

terremotos no fundo do mar e as fortes ventanias no caminho, que

praticamente isolaram essas regiões, antigamente chamadas de

países. É quase impossível voar até lá. Só é possível entre os meses

de julho e setembro. O túnel submerso que ligava nossos

continentes foi destruído há alguns anos, devido ao excesso de

terremotos. Aquele lugar é praticamente um paraíso perdido,

embora tenha tido parte de seu território submerso em 2065

quando vários tsunamis destruíram tudo, inclusive a velha Europa,

hoje chamada de Terra Nova. Ou melhor, o que restou dela é

chamado assim, pois o nível dos oceanos subiu tanto com o

derretimento das geleiras, que sobraram apenas as terras mais

elevadas. Um antigo continente chamado Oceania, praticamente

não existe mais. Foi reduzido a pequenas faixas de terra, onde antes

era conhecida a Austrália. Restaram apenas o monte Kosciuszko,

que agora dá nome ao lugar, e os lugares mais altos do antigo país.

Logo pela manhã parti em direção a cidade. Comi algumas

folhas de árvores, pois também não encontrei frutos pelo caminho.

Mas aquilo não foi realmente uma boa ideia. Enganei a fome, mas

perdi muito tempo de caminhada, passando mal e tendo que me

virar no meio do mato. E durante as seis horas de caminhada eu não

encontrei nenhum ser humano vivo e nenhum tipo de máquina

funcionando. Ninguém. Somente ossos e alguns esqueletos

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M. D. Amado | Adam

1000 Universos

incompletos, inclusive de animais. Na entrada da cidade, híbridos

abandonados e moradias abertas e vazias. Caminhando pelas

antigas vias de tráfego humano, não encontrei muitos esqueletos

dessa vez. Acho que daria pra contar nos dedos os que avistei. Na

via superior, destinada a androides e robôs obsoletos, também não

havia movimento. A impressão que se tinha é que todos haviam

simplesmente sumido. E foi mais ou menos isso que realmente

aconteceu afinal.

Procurei por toda parte por notícias, vestígios do que poderia

estar acontecendo, mas nada encontrei. Comecei a perceber que

talvez eu teria ficado desacordado por mais tempo que poderia

imaginar. Mas não tinha até então a confirmação de que dia

estávamos, pois todos os painéis de informação estavam desligados.

Nada quebrado, nada destruído. Apenas desligados. No meio da

tarde, encontrei finalmente algumas barras energéticas em um

pote, provavelmente esquecido, dentro de um híbrido cargueiro.

Estava no meio de um monte de outros potes vazios. A primeira

pista de uma data não ajudou muito. A data de fabricação remetia

há alguns dias antes do meu acidente: 12 de julho de 2191. Já a data

de validade dizia 2201, o que não dizia muita coisa. Mas eu nem

sequer pensei nisso. Estava com fome e precisava me alimentar. As

barras acabaram há dias. Sigo comendo folhas de árvores e

pequenos frutos, raros inclusive. Parece que agora meu organismo

já está voltando a funcionar como antes.

Agora devo confessar que cometi um pequeno crime, mas

que você ao ler essa minha carta, entenderá que foi por uma boa

causa. Nesse mesmo museu onde roubei essa réplica de

esferográfica, existe um salão com alguns exemplares de antigos

meios de transportes, que lembram nossos híbridos, mas que se

locomoviam apenas no chão e possuíam rodas que lhe permitiam

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M. D. Amado | Adam

1000 Universos

andar pelas ruas e estradas, o que hoje conhecemos como vias de

tráfego humano. Como admirador de coisas antigas, conheço um

pouco a respeito desses rudimentares automóveis – era como eram

chamados. Obviamente eles não se moviam mais, por falta de

combustível e baterias. Mas não são baterias como a de nossos

híbridos. São de uma tecnologia completamente ultrapassada e eu

não conseguiria adaptar nada parecido. Se meu cérebro artificial

estivesse funcionando, eu saberia até como construir outra bateria

idêntica. Porém, lendo alguns escritos antigos, descobri como fazer

que seus motores funcionem sem precisar dessa bateria. Motores

mecânicos inclusive. Cheios de peças estranhas e que não fazem o

menor sentido para mim. O tal combustível que o fazia funcionar

era originalmente feito com óleos vegetais ou algo assim. Não sei

explicar como isso funciona na verdade, mas me lembrei que o

etanol utilizado como fonte de energia desses veículos, eram bem

semelhantes ao álcool das bebidas destiladas. Sabia que não era o

ideal, mas o que eu podia fazer a não ser tentar? Roubei esse

veículo de transporte. O empurrei com muito custo até a rua e

invadi uma loja de bebidas. Depois de alguns minutos para

descobrir por onde eu colocaria aquelas bebidas, enchi seu

recipiente energético e consegui fazer funcionar.

E vou explicar porque fiz todo esse sacrifício. Assim que

quebrei a porta de vidro do museu, depois de achar estranho o

alarme não soar, vi diante de mim uma pequena mesa, com uma

carta presa por uma fita adesiva – essa é uma das poucas invenções

de nossos antepassados que ainda nos é útil – E foi, inclusive, desta

carta, escrita também de forma arcaica, usando papel e caneta

esferográfica que eu tirei a ideia de escrever esse pedido de ajuda.

Também foi através dela que tomei ciência do que aconteceu com

nossa civilização. Transcrevo aqui a carta.

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M. D. Amado | Adam

1000 Universos

“Para o caso de ainda existir, daqui uns anos, algum ser

humano vivo nessa terra, que ainda não saiba o que aconteceu

nesse mundo, deixo uma breve explanação dos fatos. E peço a todo

aquele que encontrar essa carta, que a deixe novamente no mesmo

lugar, para que num futuro distante todos ainda possam ter ciência

do que nos aconteceu.

Embora julgássemos que somos (ou éramos) uma civilização

extremamente avançada, cujos recursos tecnológicos pareciam

nunca ter fim, ainda não conseguimos nos livrar de um mau que

acompanhava nosso planeta desde os seus primórdios: a guerra.

Nas civilizações mais antigas o uso de bombas e mísseis que

explodiam causando destruição material e perdas humanas era até

então o maior medo das pessoas inocentes e regiões pacíficas.

Depois da unificação dos países, muitas pessoas insatisfeitas com

essa união forçada, formaram grupos rebeldes que por muitos anos

continuaram tentando destruir tudo que viam pela frente. As armas

eletromagnéticas se tornaram tão comuns quanto as antigas

bombas até então tradicionais. A tragédia estava anunciada há

anos, mas não houve tempo de se pensar em alguma solução a

curto prazo. Somos totalmente dependentes de tecnologia e isso

acabou se virando contra nós. Há alguns meses o mundo se viu

iluminado por raios em todas as regiões ao mesmo tempo. Os

sistemas de defesa das principais regiões detonaram suas armas

automaticamente e todos nós fomos atingidos. Quase que

imediatamente perdemos o contato externo. Por algumas poucas

horas ainda obtivemos notícias de outras partes do mundo, graças

às baterias que ainda mantinham ligados equipamentos de reserva

das grandes empresas de comunicação, que encaixotados em

invólucros especiais, não foram atingidos pelas ondas de destruição.

De resto, tudo foi inutilizado. Computadores, equipamentos

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M. D. Amado | Adam

1000 Universos

eletrônicos, híbridos, aparelhos de vida artificial e até mesmo nossos

androides foram afetados. E mesmo aqueles equipamentos que

resistiram ao ataque não funcionam mais, pois as baterias

acabaram e não há como recarregá-las. Não há mais comida em

nossa cidade e nem nos arredores. Existem pessoas cometendo

crime ambiental e caçando para sobreviver. Outros estão fazendo

pior: comendo carne humana. A grande maioria está partindo em

direção ao litoral, na esperança de conseguir comida fresca. Frutos

do mar, alimento até então esquecido por nós, arrogantes humanos

do final do século XXII. Eu também estou partindo, mas vou apenas

por teimosia. Sei que não poderemos sobreviver por muito tempo. O

oxigênio em nosso planeta há muito é escasso e pelo que sei, quase

todas as máquinas de purificação foram danificadas. É apenas uma

questão de semanas até que a população seja dizimada. Segundo os

cientistas mais otimistas, com os sistemas de energia solar ligados

aos purificadores mais antigos, e que ainda deverão ser

consertados, seria preciso pelo menos quatro anos para que o ar

necessário para toda essa gente volte a ser totalmente purificado. E

talvez, quando eles tiverem terminado de concluir esse processo,

não restará mais ninguém em Terra Nova e nem em nenhum outro

lugar no mundo.

Espero sinceramente que eu esteja errado. Espero que alguns

seres humanos tenham conseguido resistir e que possam começar

tudo novamente. Boa sorte!”

Então pude entender porque meu híbrido caiu daquela

forma, tão de repente. Por isso também meu cérebro artificial foi

danificado e todos os circuitos de controle de meus órgãos se

desligaram. Foi um milagre eu ter sobrevivido. O ar está respirável

para mim, mas não posso levar isso em consideração, pois no lugar

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M. D. Amado | Adam

1000 Universos

de pulmões, tenho um complexo mecanismo de filtragem do ar, que

independe do funcionamento do cérebro artificial ou de qualquer

um de seus circuitos. É justamente a parte mais importante do

experimento do qual faço parte. Ele utiliza a energia do próprio

corpo para funcionar e acredito que não tenha sido danificado com

as ondas eletromagnéticas, pois não utiliza micro chips.

Mas continuando minha pequena saga, como citei

anteriormente, eu consegui finalmente fazer aquele automóvel

funcionar e voltei até o local onde meu híbrido havia caído. Me

lembrei que dentro do compartimento de bagagens, havia uma

caixa metálica repleta de baterias nunca antes utilizadas e num

invólucro especial. Não foi nada fácil subir aquele rochedo e muito

menos descer com todo aquele peso. Mas consegui e agora estou

com elas em mãos. Com o meu conhecimento em engenharia

elétrica e eletrônica, tenho certeza que posso fazer aqueles

moinhos gerarem energia novamente e a partir daí, posso arrumar

outros equipamentos e fazer máquinas voltarem a funcionar. O

problema é que preciso de ferramentas avançadas para isso e até

mesmo da ajuda de um androide ou quem sabe até de um obsoleto

robô japonês feito em 2030, que encontrei no museu. Preciso de

alguém para o serviço pesado e ele pode ser útil nesse caso. Depois

de um tempo, o tal automóvel parou de funcionar. Realmente

aquele combustível de bebidas destiladas não era o mais

apropriado. E isso tem dificultado minhas buscas por material. Não

quero gastar as baterias nos híbridos, pois não sei ao certo de

quantas baterias vou precisar para consertar as centrais dos

moinhos e da distribuidora de energia. Cheguei a pegar outro

automóvel no museu, mas também não durou muito tempo.

Só espero um dia poder obter êxito nessa empreitada. E

tenho que ser mais rápido, pois sinto que meu corpo começa a

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M. D. Amado | Adam

1000 Universos

rejeitar as placas de circuitos implantadas. O programa instalado no

cérebro artificial é que controlava essa rejeição, injetando

medicamentos e fazendo com que as células se regenerassem

rapidamente. Tenho vomitado com uma certa frequência e sempre

com um pouco de sangue. Uma das primeiras coisas que preciso

conseguir fazer, é ligar o servidor do projeto e tentar me consertar,

digamos assim. É por isso que preciso partir logo. Espero que ainda

exista o depósito de materiais nível 3 em Velha Barcelona. São

equipamentos e ferramentas que teoricamente funcionariam

normalmente. Apenas não passaram pelos rígidos controles de

qualidade do conselho de segurança. Muita coisa não deve estar

prestando, por causa do ataque, mas se me lembro bem, quando

estive lá, uma das salas lacradas estava sendo utilizada para

armazenamento também, por falta de espaço. Posso dizer que

minhas esperanças estão confinadas dentro dessa sala. Se eu puder

ao menos aproveitar algumas ferramentas e quem sabe, por sorte,

encontrar um lote de placas que ainda funcionem, posso colocar

meu plano em prática em poucos meses.

Consegui encontrar alguns frutos na saída norte e isso tem

me sustentado. Mas confesso que me apavora a ideia de talvez ter

que viver para sempre como os primitivos viviam.

Paralelamente a isso, estou procurando uma mulher.

Qualquer mulher. Não por falta de sexo, nem por carência afetiva.

Não sei se aquela pessoa estava exagerando ou não. Acredito até

que em outras regiões existam pessoas vivas. Afinal, se as unidades

purificadoras foram consertadas, a chance de existirem alguns

sobreviventes é boa. Está certo, que depois de montadas, para que

pudessem purificar novamente, seria preciso algumas semanas até

que rodassem com toda sua capacidade de purificação. Não sei se

as pessoas resistiram esse tempo todo respirando nosso ar tóxico,

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M. D. Amado | Adam

1000 Universos

mas também penso por outro lado. Se quase a totalidade da

população faleceu, o ar que supostamente foi sendo purificado com

os equipamentos recuperados (se é que foram recuperados), pode

ter sido suficiente para uns poucos.

De qualquer forma, preciso fazer a minha parte nessa

história. Se essa tragédia realmente aconteceu, de tal forma a

deixar sobreviventes sobre o nosso mundo, preciso encontrar

alguém para que junto comigo, tente começar tudo novamente,

mesmo que seja apenas aqui em Terra Nova.

Em nossa época, fomos educados de tal forma a acreditar

apenas na ciência. Não temos crenças e deuses, salvo em algumas

regiões afastadas e onde habitavam parte daqueles que eram

chamados de tribais. Mas agora, não sei de onde poderia tirar uma

força e uma vontade de lutar por isso tudo, se não for amparado

por algo maior que a própria ciência. Não sei como devo chamá-lo.

Deus? Deusa? Queria poder encontrar um meio de chegar até essas

tribos. Apesar de toda sua inferioridade tecnológica, eles ainda

sobrevivem e mantém suas tradições. Algo de muito bom eles

devem ter para ensinar. Eu poderia aprender a adorar seus deuses...

Aqui mesmo no museu, em outra ocasião, li a respeito da adoração

à natureza e especialmente à Lua. Eu como homem criado no meio

de cientistas céticos, não vejo muito sentido nisso tudo... Mas

agora, eu que sou homem e máquina, preciso acreditar em alguma

coisa. E a Lua está todas as noites comigo. Mal não há de fazer.

Bom, agora eu preciso mesmo ir. Deixo esse registro aqui na

entrada norte da cidade. Não sei o que será de mim nessa aventura.

Sinto que meu corpo está piorando. Na boca, sinto um gosto

amargo. Não sei se é o medo ou se tem algo de errado com meus

circuitos. Meu es ômago arde m ito e...

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M. D. Amado | Adam

A tinta da ca eta est ac band

Rogo a um de s qual uer qu me a ude e me pr tej

As ina o: Ad m.

1000 Universos

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1000 Universos

Sonho Ruim

Marcelo Galvão

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Marcelo Galvão | Sonho Ruim

1000 Universos

O pequeno caixão branco reluzia sob o sol inclemente do

Haiti, enquanto o choro de uma mãe desconsolada quebrava o

silêncio do cortejo fúnebre. Da porta da sua clínica, Marcos Leme

observava a procissão caminhar até o cemitério, repouso final da

quarta criança a morrer naquele mês em Saint-Claire.

- O que tem de errado nesse lugar? - murmurou, passando a

mão pelos cabelos castanhos que começavam a encanecer nas

têmporas; com trinta e dois anos de idade, o médico brasileiro

parecia no momento ter uma década a mais. Em tese, a resposta

era fácil: habitada por cerca de duas mil almas, Saint-Claire tinha os

piores índices sociais do Haiti, o que não era novidade na nação

mais pobre das Américas. Saneamento básico, saúde pública e ruas

asfaltadas eram palavras desconhecidas naquela área rural ao oeste

do país. A situação só piorara após o devastador terremoto do

começo de 2010: com a capital Porto Príncipe devastada, milhares

de sobreviventes ficaram desabrigados, obrigados a sobreviver em

acampamentos ou a se refugiar no interior menos atingido pela

catástrofe.

- Você fez tudo que era possível - disse Nicole Ames, a jovem

haitiana que era a única enfermeira no consultório; tal como

Marcos, ela chegara no mês anterior, vinda da capital.

O médico meneou vagarosamente a cabeça. Sabia do desafio

que tinha desde o momento em que se inscrevera, cinco anos antes,

no programa de ajuda humanitário de uma ONG internacional.

Trabalhando no Brasil, África e Ásia, presenciara todo tipo de morte

infantil.

Mas era a primeira vez que se deparava com óbitos

inexplicáveis.

Fora o caso de Henri, que agora seguia para seu descanso

final. Seus pais procuraram Marcos no dia anterior, trazendo o bebê

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Marcelo Galvão | Sonho Ruim

1000 Universos

de meio ano de vida com um quadro de fraqueza geral.

O médico detectou mais do que isso. Um odor forte

acompanhava o paciente, algo que ele notara nas outras crianças.

Sua origem, ficou sabendo, eram loções de ervas nativas usadas por

muitos curandeiros adeptos do vodu. Não era novidade para

Marcos que aquelas pessoas do interior, supersticiosas e sem

instrução formal, procuravam os sacerdotes em caso de doença. Ali,

onde o vodu fazia parte do dia-a-dia, a medicina era o último

recurso.

Mas a ciência também não conseguira ajudar Henri. Mesmo

apresentando uma melhora horas após dar entrada e ficando em

observação pela noite, a criança falecera pela manhã sem qualquer

explicação.

Assim como acontecera antes com os pequenos Jean-Pierre,

Françoise e Daniele.

Encostado na soleira, Marcos sentiu um calafrio percorrer seu

corpo fatigado; logo pensou que adoeceria, depois do trabalho

incessante em tentar salvar Henri.

Foi quando viu a mulher do outro lado da rua de terra. Era

uma anciã franzina de pele escura, o rosto sulcado por uma teia de

rugas, usando um vestido de chita verde e na cabeça um lenço

vermelho. Seus olhos negros encaravam com firmeza o consultório.

Outro calafrio atingiu o médico.

Não era a primeira vez que via aquela mulher. Na ocasião da

morte de Daniele, dez dias atrás, Madame Solange posicionara-se

na calçada, observando em silêncio a clínica. Nicole explicara que a

anciã era uma mambo, o nome dado às sacerdotisas do vodu que se

comunicavam com seus espíritos protetores, conhecidos como loas;

Madame Solange tinha a fama de ser uma das mambos mais

conceituadas em Saint-Claire.

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Marcelo Galvão | Sonho Ruim

1000 Universos

E agora lá estava a mulher examinando o médico, sozinha

depois que o cortejo dobrou a esquina. A temperatura estava bem

próxima dos quarenta graus, mas Marcos sentia frio. Ele não sabia o

que Madame Solange queria, porém uma coisa era certa: a

presença dela o incomodava.

Ele precisava descobrir o porquê.

Marcos atravessou a rua de terra em direção da mambo. A

mulher continuou a encará-lo, mas assim que ele se aproximou,

passou a tagarelar em creole.

- Sinto muito, senhora, não entendo uma palavra - Marcos

tentou interromper o monólogo, mas em vão: Madame Solange

matraqueava sem parar, os braços finos movendo-se como ramos

de árvore numa ventania.

E sem aviso, ela virou as costas e foi embora, deixando

Marcos sozinho no meio da calçada.

z

- O que Madame Solange tanto disse, docteur ? - Nicole

perguntou, baixando a xícara de café recém-coado por Charlotte

Lambert, a jovem empregada que no momento lavava a louça ali na

cozinha. Assim como Nicole, a moça também era funcionária da

ONG, com a diferença que era nativa da cidade. Com vinte anos, ela

era responsável não só pela limpeza, mas também pelos serviços

gerais, o que incluía manter o gerador a diesel da clínica

funcionando, algo vital em um local onde o fornecimento de

eletricidade era instável.

- Eu realmente não sei. – O médico encolheu os ombros -

Tinha uma palavra que ela não parava de repetir. Parecia ser

“laguru”, “loguru” ou talvez “luguru” –

O ruído de algo se espatifando interrompeu o rapaz.

- Desculpem-me - Charlotte balbuciou, recolhendo os cacos

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Marcelo Galvão | Sonho Ruim

1000 Universos

da xícara que deixara cair.

- Tudo bem - Marcos disse, para em seguida bocejar -

Estamos todos exaustos depois desses últimos dias. É melhor eu ir

para casa e descansar.

O médico morava numa construção simples de alvenaria, um

luxo se comparado com os casebres de madeira tão comuns em

Saint-Claire. Após uma ducha, ele se deitou e esperou por um sono

que nunca chegava; seria muito fácil colocar a culpa no calor

sufocante do Caribe ou no ventilador barulhento que não refrescava

o lugar.

A razão era outra, Marcos bem sabia. Ele nunca havia

enfrentado uma dificuldade daquele tamanho na curta carreira que

tinha, vendo sua confiança ser minada aos poucos a cada morte

infantil. Para muitos dos seus colegas de universidade, Marcos Leme

- nascido numa família rica e graduado no melhor curso do Brasil -

não passava de um idealista por perder seu tempo em países

miseráveis, quando poderia ganhar muito dinheiro como

dermatologista ou cirurgião plástico numa clínica particular do

primeiro mundo; era o mesmo pensamento dos pais e da ex-noiva

que deixara no Brasil.

Mas ele sempre quisera ser um médico de verdade, um que

fizesse diferença no mundo ao trazer alívio aos necessitados com a

ajuda da ciência, resolvendo assim os problemas do mundo. Fosse

uma visão romântica da profissão ou ingenuidade, aquela era uma

certeza na vida que Marcos tinha como norte.

Uma convicção que agora estava sendo posta à prova.

Marcos fechou as pálpebras. A imagem dos olhos negros de

Madame Solange, tão escuros que era impossível distinguir a pupila

da íris, surgiu na sua mente.

O que a mulher tanto dizia?

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Marcelo Galvão | Sonho Ruim

Marcos só descansaria quando falasse com a mambo.

1000 Universos

z

A casa de Solange era localizada ao lado de um riacho, nos

arredores de Saint-Claire. Nos fundos da propriedade ficava o oufò,

o templo onde ela realizava as cerimônias. A noite começava a

surgir quando Marcos atravessou o portão de madeira que dava

acesso ao quintal; após caminhar alguns metros, encontrou o oufò,

um barracão de madeira e telhado de zinco, decorado por

bandeirolas vermelhas e verdes. Imagens de diversos santos

católicos, sincretizados pelo vodu, estavam penduradas nas paredes

pintadas de azul. No centro do chão de terra batida, erguia-se uma

coluna de madeira com um arco-íris e uma serpente desenhadas

nela: era o poteau-mitan, uma espécie de ponte espiritual pela qual

os loas chegavam para possuir e se comunicar com seus

adoradores.

A decoração colorida do oufò desaparecia conforme as

sombras da noite avançavam. O lugar parecia deserto; hoje, pelo

que Marcos soubera, não era dia de culto. Da entrada do barracão,

ele chamou por Madame Solange.

Nenhuma resposta.

Marcos avançou mais alguns passos. Do fundo do templo,

veio um ruído, junto com um cheiro pungente.

- Tem alguém aí? - Marcos fez a pergunta em voz alta.

A resposta foi outro som que agora pareceu aos ouvidos do

rapaz um gemido de dor. Marcos apertou um interruptor de luz

próximo da entrada do oufò e uma única lâmpada incandescente se

acendeu para mostrar Madame Solange em meio a uma poça de

sangue.

O rapaz correu em direção da mambo; palavras em creole

eram debilmente sussurradas por ela.

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Marcelo Galvão | Sonho Ruim

1000 Universos

- Não se mexa, por favor - Marcos disse, vendo a mulher

entrar em estado de choque, sua garganta dilacerada. Solange

continuou a balbuciar:

- L-lu... luga... lugaru...

Era a mesma palavra repetida enfaticamente pela manhã.

Revirando os olhos, Madame Solange soltou seu último suspiro.

- Lugaru - disse uma voz atrás do médico. Marcos voltou-se e

viu Charlotte. - Era o que ela tentava avisar ao senhor.

- O que você está fazendo aqui?

- Eu ajudo a mambo durante os cultos. - A moça aproximouse,

levando na mão uma sacola de plástico azul. - Desde o dia que

Daniele morreu, Madame Solange suspeitou da presença de um

lugaru na cidade.

O médico encolheu os ombros.

- Desculpe, mas não sei do que você está falando.

Charlotte olhou para a mulher estendida no solo sagrado.

- Lugaru é uma pessoa que fez um pacto com um loa maligno

em troca de favores mágicos. Noutras vezes, é alvo da maldição de

um bòkò, um feiticeiro que trabalha com magia negra. De qualquer

modo, a criatura precisa se alimentar de crianças para sobreviver.

Marcos pigarreou.

- Charlotte, não quero ser desrespeitoso com suas crenças,

mas...

- De dia, o monstro anda, bebe e come feito gente, como eu e

você. Mas pela a noite, esfrega uma poção de ervas pelo corpo até a

pele sair. Depois de guardá-la num lugar fresco, está pronto para

caçar, se alimentando aos poucos do sangue dos pequeninos.

Quando eles acordam pela manhã, pensam que foi tudo um sonho

ruim. - Os olhos dela se encheram de lágrimas - Até o dia em que

não acordam mais.

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Marcelo Galvão | Sonho Ruim

1000 Universos

A moça ajoelhou-se perto da sacerdotisa falecida:

- Madame Solange pediu que eu a ajudasse a fazer um

amuleto contra o monstro. - Da sacola que carregava, retirou uma

pequena bola de pano multicolorida, enfeitada com lantejoulas.

Marcos vira objetos como aquele pela cidade: era um wanga,

talismã que protegia contra vários tipos de mal e cujo conteúdo era

feito de ervas, terra e, diziam alguns, restos de cadáveres. - Mas

lugaru foi mais rápido.

Ela voltou-se para o médico.

- Sei que é difícil você acreditar nisso, doutor, mas peço que

retorne para a clínica. Outra criança foi internada.

Charlotte levantou-se e colocou a wanga nas mãos de

Marcos:

- Não deixe que ela morra.

z

A pequena Adele dormia tranquila em um leito da clínica.

Numa cadeira ao lado, Marcos a vigiava.

Duas horas antes, ele chegara correndo para atender a garota

com os mesmos sintomas dos pacientes anteriores. Após aplicar o

tratamento inicial, o médico recomendou o pernoite dela na clínica

para garantir que os remédios fossem devidamente ministrados.

Marcos bem sabia que esta não era a única razão para manter

a criança por perto. As palavras de Charlotte ainda ecoavam em sua

mente; no bolso da calça, a wanga pesava como uma pedra.

Depois de dispensar Nicole, ele sentou-se numa

desconfortável cadeira de metal, ajustou a luminária para não

incomodar a paciente e começou a ler uma revista para manter-se

acordado, as pálpebras cada vez mais pesadas. Lá fora, cigarras

cantavam, uma cacofonia que se misturava com o barulho do motor

da geladeira na cozinha e com a respiração pesada da pequena

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Marcelo Galvão | Sonho Ruim

1000 Universos

criança.

Um ruído despertou o médico.

Levantou-se, o coração acelerado. Na cama de metal branco,

Adele ressonava, o soro preso ao braço fino e delicado.

Consultou o relógio: já era madrugada. Marcos virou a cabeça

de um lado para o outro, procurando por algo diferente.

Um cheiro estranho invadiu suas narinas.

Ele o reconheceu de imediato: era igual ao das loções

empregadas pelos sacerdotes voduístas. Franzindo o nariz,

percebeu que o fedor vinha da cozinha. Lá, o odor não só era mais

forte como também sufocante, uma mistura de suor azedo e esgoto

a céu aberto. Avançou pelo cômodo e verificou que sua origem era

a velha geladeira, usada para proteger vacinas do clima tórrido.

Marcos abriu a porta do eletrodoméstico. Uma nuvem branca

e refrescante o recepcionou, junto com o odor estranho.

Estreitando os olhos, viu uma jarra de vidro fosco e tampada por um

pano; com cuidado, afastou os medicamentos e trouxe o recipiente

para perto.

A jarra não possuía qualquer identificação. Marcos a colocou

na mesa, notando como era pesada. Prendendo a respiração para

evitar o fedor, ele a destampou.

Adele gritou no quarto.

Marcos largou a jarra e disparou para o cômodo.

Algo se virou na direção do rapaz. A iluminação precária do

quarto mostrava a silhueta de uma mulher - quadris largos, cintura

fina, mamas desenvolvidas. Não havia sinal de cabelos, já que

também não possuía pele: músculos vermelhos e viscosos cobriam a

sua estrutura óssea, lembrando ao médico os modelos plásticos de

anatomia que estudara na faculdade.

A semelhança com uma figura humana acabava aí. As mãos

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Marcelo Galvão | Sonho Ruim

1000 Universos

eram garras curvas e afiadas e da boca, atulhada de pequenos

dentes triangulares, projetava-se uma língua comprida, pela qual

um filete de saliva escorria e caía na assustada Adele.

Aquilo era uma lugaru.

E pelo visto, não gostava de ser interrompida nas suas

refeições: com um rosnado, a criatura saltou sobre Marcos.

O rapaz só teve tempo de se jogar no chão para evitar o

ataque. Quando levantou-se, viu o monstro de pernas arqueadas,

preparando-se para um novo bote.

E então a lugaru estancou, pupilas brilhantes fixas no chão.

Marcos seguiu o olhar e viu a wanga, caída do seu bolso no ataque.

A criatura tremia como se tivesse frio.

Ou medo do amuleto.

A lugaru rosnava, mostrando os dentes, procurando passar

pela wanga, mas sempre retrocedendo na tentativa. Na cama,

Adele chorava.

Marcos não teria outra chance para salvar a criança. A única

arma por perto era a cadeira de metal.

Ele a agarrou, ergueu e bateu repetidamente na lugaru,

mirando tronco e cabeça. A criatura recuou, fosse pelos golpes ou

pela wanga, até ficar encurralada no canto do quarto.

- Não me mate - As palavras saíram debilmente da boca sem

lábios da lugaru - Eu não tenho culpa.

Marcos, segurando a cadeira deformada pelos impactos,

mirou aqueles olhos suplicantes por uma fração de segundo.

E então as imagens de Adele, Henri, Daniele, Jean-Pierre e

Françoise sucederam-se em sua mente como relâmpagos em uma

tempestade.

A cadeira de metal desceu uma última vez na direção do

monstro.

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Marcelo Galvão | Sonho Ruim

1000 Universos

z

Um sonho ruim. Foi a explicação que Marcos deu para Adele,

antes de aplicar na criança um sedativo e desejando que ele mesmo

acreditasse naquela história.

Mas o corpo grotesco no chão demonstrava o contrário, ao se

dissolver numa poça avermelhada e exalar um odor de podridão.

Marcos se lembrou da jarra na cozinha; lá, com as mãos trêmulas,

pegou o recipiente e o virou de cabeça para baixo.

O conteúdo escorregou pelo tampo da mesa. Engolindo em

seco, o médico encarou o rosto flácido de Nicole Ames; uma

película pegajosa cobria o resto da pele vazia, reluzindo nos seios

murchos, no púbis de pelos crespos, nos braços e pernas ocos.

Exposta ao ar, secou em instantes até se esfarelar em pequenos

flocos escuros, agora que não tinha mais a quem abrigar.

Adele recebeu alta na manhã seguinte e a vida prosseguiu em

Saint-Claire - segura sem a ameaça do lugaru -, mas não para

Marcos: ele não trabalhava ou dormia direito tentando entender o

que havia acontecido com Nicole. Inquieto, refez os passos da

enfermeira e acabou na aldeia natal dela, no outro lado do país.

Após conversar com amigos e parentes da moça, ele acreditou ter

descoberto algo.

Três meses atrás, Nicole socorrera a filha de um vizinho,

vítima de uma infecção grave, a levando para a clínica onde

trabalhava. O pai da garota, porém, queria que ela fosse tratada por

curandeiros locais; depois de muita discussão, a opinião da

enfermeira prevaleceu.

A criança morreu horas mais tarde. Dali em diante, a história

ficava confusa, mas a versão em comum era que o homem nunca

perdoara Nicole: corria o boato de que vendera tudo que possuía

para um bòkò amaldiçoar a moça.

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Marcelo Galvão | Sonho Ruim

1000 Universos

Agora, um Marcos Leme pálido e com olheiras profundas

encolhia-se no último assento de um ônibus abafado. A cada

quilômetro percorrido com destino a Saint-Claire, ele tentava negar

algo que havia se dado conta naqueles últimos dias.

Mas conforme se aproximava da cidadezinha, a sua convicção

de que resolveria os problemas do mundo, com a ajuda da ciência,

desmoronava.

Um calafrio estremeceu o médico.

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1000 Universos

Ars Nova

Ana Lúcia Merege

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Ana Lúcia Merege | Ars Nova

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Para Vânia Vidal

A arte é mais forte que a fome. Era o que Renzo dizia a si

mesmo quando o Ars Nova saía para tocar. Sob o sol de verão,

tomada por hordas de turistas, San Gimignano cheirava a pizza, uma

tortura para quem tinha de poupar cada centavo. Ao meio-dia eles

voltariam à casa minúscula e preparariam uma refeição com o que

comprassem no mercado. Descansariam durante as horas de maior

calor e à tarde tornariam a sair com os instrumentos. Que, pelo

jeito, não seriam substituídos tão cedo. Era isso ou pagar o aluguel.

O grupo de música antiga existia há seis anos, mas a formação

sofrera várias mudanças. Dos integrantes originais, colegas na

Facoltà di Musicologia em Cremona, restavam apenas Renzo e

Marcello. Os outros eram Jordi, um espanhol de Barcelona, e

Gianluca, napolitano de apenas vinte anos, que tocava de ouvido e

tinha uma bela voz. Fora dele a ideia de usar um chapéu de bobo da

corte, adicionando um toque atemporal aos figurinos do século XIV

que Renzo pesquisara com tanto critério. Os turistas gostavam, e

aquilo rendia uns euros a mais.

Mesmo assim, os últimos tempos vinham sendo difíceis.

Naquela manhã, Renzo se alarmou ao constatar que mal

tinham o suficiente para as compras do almoço. Não que fossem

passar fome, havia opções muito baratas, mas estavam fartos de

salsichas, macarrão e qualquer coisa que viesse em lata. Precisavam

de algo mais substancioso ao menos uma vez por dia.

- Que cara é essa? – indagou Marcello. Renzo fez um sinal em

direção à caixa de contribuições. Gianluca olhou de longe e

suspirou, abanando-se com o chapéu de guizos.

- E os CDs? – perguntou, dirigindo-se a Jordi. – Pensei que

aquela loura tinha levado um.

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Ana Lúcia Merege | Ars Nova

1000 Universos

O espanhol conferia os discos alinhados contra uma parede.

Por 15 euros, podia-se escolher entre 68 minutos de música do

trecento, entre caccias, motetos e saltarellos; ou uma hora de

baladas e madrigais do maior nome da Ars Nova italiana, Francesco

Landini.

- Ela ficou um tempão olhando, mas não levou. –

Desanimado, Jordi começou a guardar os CDs.

- Devia estar dura – opinou Marcello. - De mochila,

almoçando sanduíche...

- Ou então não gosta da nossa música – replicou Jordi.

Renzo franziu a testa, sem saber se o catalão falara a sério,

mas se sentindo atingido mesmo assim. “Nossa música” era a arte

do trecento, era o que faziam juntos - mas era sobretudo a sua

música.

Depois de escolher bastante, eles compraram o necessário

para um bom cozido. Jordi e Marcello foram andando na frente

enquanto Gianluca puxava conversa com a morena da banca de

tomates. Renzo esperou alguns momentos, depois começou a

caminhar pela rua ensolarada.

O cheiro de calzone dominava a Piazza Del Duomo. Renzo

procurou uma mancha de sombra e parou, ajeitando a alça do

estojo a tiracolo. Diante dele, encimado pela Torre Grossa, erguia-se

o Palazzo Del Popolo, antigo palácio dos podestàs que tinham

governado a cidade ao longo da Idade Média. Agora abrigava o

Museu Cívico, ao qual os turistas costumavam acorrer em massa.

Por que hoje havia tão pouca gente?

Intrigado, o rapaz se aproximou da entrada do Palazzo. Só

então viu que estava bloqueada por um biombo, no qual um cartaz

anunciava:

CONCERTO PARA O PODESTÀ

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Ana Lúcia Merege | Ars Nova

1000 Universos

Restrito a convidados

Ali estava a explicação para o desinteresse dos turistas. Renzo

deu de ombros e começava a se afastar quando o biombo se

moveu, abrindo uma fresta na qual pôde entrever o rosto de um

homem.

- Não vá ainda, jovem. – O tom era cortês; o sotaque,

indefinível. – Sua presença é oportuna. Por favor, entre.

Sua figura se revelou à medida que ele afastava o biombo. Era

magro, de rosto fino, vestido com uma túnica vermelha que Renzo

associou aos retratos de Dante.

- Vão fazer um concerto, não é? – perguntou, ao entrar. – O

senhor deve ser um dos organizadores.

- Sim, sou o mestre de cerimônias, por assim dizer. Pode me

chamar de Memmi.

- Renzo Canetti – disse o rapaz, aproveitando para ajuntar: -

Trabalho com Ars Nova, o estilo musical surgido no século XIV.

Principalmente a escola italiana.

- Oh, sim! A arte de Mestre Landini. – Um brilho fugaz passou

pelos olhos de Memmi. – Esta série de concertos é de uma época

anterior. É de quando o podestà de San Gimigniano era Nello

Tolomei. Ouviu falar?

- Tolomei? Acho que não.

- Mas já esteve na Sala do Conselho – tornou Memmi. Renzo

moveu a cabeça em concordância. Só então percebeu que tinham

atravessado o pátio de entrada e se encaminhado justamente

àquela sala: um espaço amplo, outrora usado em reuniões, mas

que, devido a uma visita do escritor no ano 1300, costumava ser

chamada “Sala di Dante”. O interior estava escuro, mas mesmo

assim era visível o famoso afresco mostrando a adoração da Virgem.

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Ana Lúcia Merege | Ars Nova

1000 Universos

- Esta é a Maestà – explicou Memmi. – Entre os que prestam

devoção inclui-se Messire Tolomei. Foi ele quem encomendou o

trabalho.

Apontou para uma figura de manto listrado aos pés da

Virgem. Renzo assentiu e se aproximou, admirando os detalhes. A

pintura era típica do trecento e muito bem-executada, mas o jovem

não reconheceu o autor. Artes plásticas não eram o seu forte.

- Belíssimo, não acha? – perguntou Memmi. – Foi uma época

magnífica para a pintura.

- Para a música também – disse Renzo.

- Sem dúvida. E isso me recorda o porquê de tê-lo convidado.

Temos três concertos marcados, mas um dos músicos não pode

vir. É um solista, apresenta-se com voz e saltério. Estaria

interessado em substitui-lo?

- Está brincando? Claro que sim! – Um sol nasceu dentro de

Renzo, iluminando-lhe o rosto. – Virei com prazer. É hoje mesmo?

- Sim, às onze. E venha com essa roupa. É avançada para o

período, mas serve. Afinal, o podestà sempre foi um homem à

frente de seu tempo.

Sorriu, olhando para o afresco. Renzo também sorria, mas a

euforia começara a ceder diante de algumas preocupações. Como

preparar numa tarde um repertório de Ars Antiqua?

- Não se preocupe. O que costuma tocar não era tão estranho

aos ouvidos de 1317 – tranqüilizou-o Memmi.

- Espero que sim. E outra coisa: participo de um grupo.

Fazemos apresentações solo, conforme a demanda, mas preciso

perguntar se não há trabalho para eles.

- Receio que não – lamentou Memmi. – Com você, o

programa está completo. Sinto muito.

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Ana Lúcia Merege | Ars Nova

1000 Universos

- Não há problema. Já aconteceu outras vezes, com todos

nós. Virei sozinho – disse Renzo, pensando se devia falar em

remuneração. Como se houvesse lido sua mente, Memmi o

convidou a acompanhá-lo até a saída, e lá chegando lhe entregou

um envelope tirado da bolsa em seu cinto.

- Um adiantamento pelo trabalho - disse. - A música é divina,

mas os músicos são humanos. Precisam comer.

- Engraçado. Vivo dizendo que a arte é mais forte que a fome

– comentou Renzo.

- De fato. E é eterna. - Memmi sorriu. - Você vai adorar estar

conosco, meu rapaz.

Às dez da noite, Renzo se dirigiu ao Palazzo del Popolo.

Passara uma tarde tranqüila, praticando com o saltério, que não

tocava com muita frequência. Mais tarde, encontrou-se com os

amigos e pagou-lhes um jantar. Ao sair do restaurante, não

percebeu que a rua estava mais vazia que o habitual, mas o

movimento foi ficando ainda menor à medida que se aproximava da

Piazza Del Duomo. Esta se achava completamente deserta. Era

estranho, mas Renzo não dedicou muito tempo a pensar no

assunto, apenas cruzou a praça e entrou no Palazzo.

- Você chegou! Seja benvindo! – exclamou o mestre de

cerimônias. Os dois passaram pelo pátio, iluminado com archotes

em suportes de ferro, e subiram para a Sala do Conselho, onde um

tablado fora montado para servir como palco.

- Pode se preparar. Volto logo – disse Memmi, e se retirou,

deixando Renzo a arrumar suas coisas no estrado. Este fora

posicionado na parede oposta à do afresco, de modo que o

concerto parecia ser, de fato, dirigido ao podestà. No entanto, o

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espaço intermediário fora preenchido com cadeiras portáteis,

fazendo supor a presença de espectadores de carne e osso.

Renzo acabava de se sentar e dedilhava o saltério quando

Memmi regressou. Tinha um ar solene, que se acentuou quando a

luz diminuiu de intensidade.

- Os convivas chegarão enquanto estiver tocando, mas –

subiu no estrado, pondo-se ao lado do jovem – por favor, não

interrompa a execução de forma alguma. Continue até eu dizer que

pode parar. Promete fazer isso?

Seus olhos brilhavam na semi-escuridão da sala. Isso fez

Renzo estremecer, mas mesmo assim ele prometeu. Era tarde

demais para recuar.

- Muito bem. Que o concerto se inicie! – proferiu Memmi. Sua

mão pousou no ombro de Renzo quando este iniciou a primeira

peça. Era uma balada de Landini, que costumava cantar a duas

vozes com Gianluca, mas cuja versão instrumental se adequava

perfeitamente à sala. Estou na Idade Média, pensou Renzo,

abstraindo a visão das cadeiras dobráveis para se concentrar no

afresco.

Uma sensação agradável correu de seus dedos até o topo da

cabeça, fazendo-o relaxar. Sou um músico do século XIV. A balada

terminou e Renzo começou a tocar outra, que fluiu sem esforço e o

envolveu em suas vibrações. A própria sala parecia ter começado a

vibrar, a atmosfera carregada das emanações que ali tinham ficado

por séculos. Ao som da música, elas se expandiram, agregando-se

em formas que aos poucos se tornariam visíveis.

Foi assim que os convidados começaram a chegar.

No início eram apenas manchas, clarões surgindo aqui e ali

em meio à penumbra da sala. Renzo os tomou por ilusões, reflexos

da luz difusa das lâmpadas, mas a impressão durou apenas um

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instante. Só o tempo necessário para que suas formas se

definissem.

Vultos. De homens e mulheres, ou melhor, de cavalheiros e

damas do trecento, com as túnicas, vestidos e toucados que Renzo

conhecia das pesquisas. Ou seria de um outro lugar – um sonho,

talvez, ou alguma outra vida? Angustiado, ele se voltou para

Memmi, mas tudo que obteve foi uma advertência acompanhada

de um aperto no ombro.

- Não pare. Toque. Você deu sua palavra – sussurrou o mestre

de cerimônias.

Renzo engoliu em seco e prosseguiu. Os vultos se tornavam

cada vez mais nítidos, seus corpos se adensando à medida que os

sons fluíam do saltério. Logo foram capazes de sentar nas cadeiras,

de onde ficaram a fitar e até a sorrir para Renzo. Deus me proteja,

sou eu que estou fazendo isso, pensou o rapaz, para em seguida

corrigir: não era ele e sim a música. Era ela que estava trazendo

aquela gente de volta à vida.

- Bravo, meu jovem! – Emocionado, Memmi ergueu a voz. –

Amigos, eis que chega nosso protetor, Messire Nello Tolomei! Eis o

nosso podestà!

Do fundo da sala, um vulto até então indistinto avançou

devagar, seus contornos se tornando mais visíveis a cada passo. Em

poucos momentos, um rosto de feições regulares sorria para os

convivas, que se curvavam à medida que o homem de manto

listrado passava pelo meio deles.

- Senhor. – Memmi desceu do estrado, fez uma reverência ao

podestà. Este o beijou nas duas faces, depois se acomodou numa

cadeira dobrável, tão majestosamente quanto o faria num trono de

veludo. Memmi regressou para junto de Renzo, a essa altura agindo

como num sonho em que lhe era impossível parar de tocar.

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1000 Universos

Afinal, ele era o músico da corte.

- Foi magnífico – sussurrou Memmi em seu ouvido. – Só duas

baladas mais, é o que lhe peço. Depois, se quiser, responderei a

suas perguntas – acrescentou. Renzo assentiu e continuou a tocar,

sentindo os olhos de Tolomei sobre ele. Talvez por isso cedeu ao

impulso de concluir com uma canção mais antiga, um poema de

Dante musicado pelo trovador Casella; o podestà sorriu ao

reconhecê-lo, e isso fez com que Renzo se sentisse estranhamente

feliz.

- Um viva para o artista! – A voz de Memmi soou em uníssono

com os aplausos. – E agora, amigos, deixemos que ele descanse,

enquanto outra música alegra nossos corações.

A essas palavras, três adolescentes, usando gibões de um azul

vivo, subiram ao estrado carregando vários instrumentos. Os

convidados afastaram as cadeiras, e logo os sons alegres de um

saltarello ecoavam pelo ar. Memmi puxou Renzo pelo braço e abriu

caminho entre os dançarinos, conduzindo-o até um canto da sala.

- Não tenha medo – disse. – Não é o demônio que conduz

suas mãos. Ao contrário, um dom como o seu é abençoado, pois

reanima homens e mulheres que em vida foram piedosos.

- E agora são fantasmas. - Renzo sentiu o tremor em sua

própria voz. – Vai dizer que estou errado?

- Não, mas afirmo que não representam qualquer perigo.

Querem apenas celebrar, como faziam outrora. E têm pouco tempo.

Ao fim destas três noites, quando a Lua se afastar de Vênus,

voltarão ao lugar de onde vieram. Só eu poderei ficar, pois não

preciso, como eles, do alento da música. Basta-me estar em

presença de minha arte.

- Sua arte. – O jovem refletiu por um instante. – Então, o

senhor é...?

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- Lippo Memmi, o pintor da Maestà – respondeu o outro. – E

um modesto estudioso dos astros. São eles que me permitem, de

tempos em tempos, trazer velhos amigos ao Palazzo. A única outra

condição é a presença de um músico de talento.

Renzo balançou a cabeça, sem saber o que pensar. Os

convidados dançavam em roda, brincando e rindo. Nenhum era

monstruoso ou ameaçador. Ao contrário, a alegria parecia irradiar

de seus corpos, enchendo a sala de uma nova e contagiante

vibração.

- Você talvez gostasse de dançar. – Mais uma vez, Memmi

pareceu ter lido seus pensamentos. – Eu disse que nossa companhia

seria agradável.

- É, sim, mas... Tenho que ir – disse o jovem, recuando alguns

passos. Aquelas palavras tinham soado como um alarme dentro

dele. Memmi o percebeu e sorriu, levando a mão ao peito, de onde

retirou um envelope igual ao que lhe dera de manhã.

- O resto do pagamento – disse. - Agradeço sua ajuda em

nome de todos. Principalmente do podestà – acrescentou, sorrindo.

– Ele gostou de ouvir Casella, é claro. Mas, conhecendo-o, afirmo

que gostou ainda mais de apreciar a música que apenas começava a

florescer em nosso tempo.

- Oi, Renzo! Já levantou? Como foi a noite?

Na cozinha apertada, Marcello preparava Nescafé. Gianluca

ainda roncava no sofá e Jordi estava no banho, reclamando da

torneira. Tudo tão familiar, pensou Renzo. Tão simples a vida que

levara até agora. Por que não podia voltar a ela e esquecer o que

vira?

A noite anterior deixara nele marcas profundas. Ao sair do

Palazzo, transtornado com a ideia dos fantasmas, tomara a decisão

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de se afastar, sob pena de um grande mal. No entanto, à medida

que a noite passava e o sono não vinha, seus pensamentos foram se

acalmando, os resquícios do terror se transformando numa

estranha nostalgia. No fim, admitiu que gostaria de voltar lá,

embora a razão o aconselhasse a manter distância. Talvez pudesse

ficar só por uns momentos, disse a si mesmo. Só o suficiente para

sentir de novo aquela atmosfera mágica.

- Bom dia. Chuveiro maldito. – Jordi entrou na cozinha. –

Ainda bem que estamos caindo fora.

- O quê? – fez Renzo, franzindo a testa.

- Ele ainda não sabe – disse Marcello. – Renzo, você lembra

que o aluguel era pra renovar hoje, não lembra?

- Sim, mas ganhei dinheiro. Se precisar...

- Não é isso. O caso é que ontem, depois que você saiu, nós

conversamos e... bom, chegamos à conclusão de que não dá mais

pra ficar em San Gimignano. Decidimos ir pra Florença, o que acha?

Renzo respirou fundo antes de olhar para o amigo. Eu devia

estar zangado, pensou, e pela expressão de Marcello viu que ele

esperava o mesmo. O Renzo que ambos conheciam se sentiria

traído. No entanto, aquela noite mudara muitas coisas – e assim,

em vez de protestar contra a decisão tomada à sua revelia, ele

surpreendeu a si próprio dizendo que estava de acordo.

- Só não posso ir hoje. Fiquei de voltar ao Palazzo – avisou. Na

mesma hora, um calafrio lhe percorreu a espinha. Tinha escolhido,

afinal.

- OK. Eu também não vou – disse Marcello. – O Carlo, da

gelateria, segue hoje pra lá e ofereceu lugar pra dois na pick-up. O

Gianluca e o Jordi vão, levam as bagagens e dormem na casa da

Lívia, prima do Gianluca. Nós vamos amanhã, de ônibus.

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- Combinado – disse Renzo, e se levantou sem tocar na

comida. Gianluca tinha deixado o sofá e arrumava suas coisas,

enquanto Jordi fazia o mesmo com os instrumentos.

- Pode deixar seu bongô? Também arrumei trabalho – disse

Marcello. – Vou tocar com uns americanos.

- Mas... bongô? – estranhou o catalão. – O que eles tocam?

- Bob Dylan, Simon and Garfunkel, essas coisas. Nada de

música antiga hoje, a não ser pro Renzo. Mas amanhã voltamos aos

eixos.

- Claro! Pro público seleto que são os turistas – resmungou

Jordi. Renzo lembrou do rosto nobre e sereno do podestà e fechou

os olhos, uma onda de tristeza o invadindo sem que conseguisse se

manter à tona.

Jordi e Gianluca partiram no fim da tarde, e em seguida

Marcello saiu para encontrar os americanos. Renzo tentou resistir,

mas, após uma hora de inquietude na casa vazia, levantou-se e

rumou a passos largos para a Piazza Del Duomo. Estava cheia, ao

contrário da noite anterior, mas poucas pessoas se aproximavam do

Palazzo. Algumas chegavam até a porta e recuavam, com expressão

confusa. O músico, porém, entrou sem dificuldade, logo chegando

ao pátio, onde Memmi estava na companhia de três rapazes.

Pareciam jovens comuns, vestidos à maneira do trecento, mas

Renzo sabia o que de fato eram. E, estranhamente, não sentia medo

algum.

- Que surpresa! Falávamos de você – Memmi parecia

inseguro, além de muito pálido. – Lembra-se deles? Tocaram depois

que você foi embora.

- E hoje vamos variar o repertório – disse um rapaz moreno. –

Cantaremos as baladas de meu amigo, Francesco Landini.

- Amigo? – Renzo piscou. – Ele só nasceu em 1325.

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- Era mais moço que nós – explicou outro músico. – Você nos

vê como éramos na época da Maestà, mas à exceção de Andrea,

que sucumbiu à Peste Negra 30 anos depois, chegamos a conhecer

e admirar o jovem Landini.

- E queremos cantar suas canções para o podestà –

completou o terceiro, de rosto emoldurado por cachos angelicais. -

Gostaria de se juntar a nós?

Como num sonho, Renzo ouviu sua própria voz dizendo que

sim. Andrea – esse era o nome do querubim – o pegou pela mão e o

conduziu à Sala do Conselho, Pietro e Marco logo atrás, tocando

uma marcha triunfal para tambor e cornamusa.

Dali para a frente, as horas transcorreram como num sonho,

um transe do qual seria impossível despertar. Não que o desejasse.

Ao contrário, sentia-se cada vez mais fascinado, arrastado pela

torrente de música, risos e aplausos dos convivas. Todos se

mostravam alegres como na noite anterior, embora, ao fixar a vista

sobre eles, Renzo tivesse a impressão de que seus corpos estavam

menos sólidos. Ainda assim eram capazes de se maravilhar com

suas canções, com a límpida, vigorosa polifonia da Ars Nova, que

poucos tinham chegado a conhecer em vida. O mais arrebatado era,

porém o próprio Renzo, e além dele o podestà, cuja expressão ao

ouvi-los era de puro deleite.

- Tem minha gratidão, caro jovem – declarou, no intervalo da

apresentação. – E lhe dou minha palavra de que patrocinarei sua

arte se voltar para o último concerto.

Seus olhos mergulharam nos de Renzo, tocando-lhe a alma. O

jovem corou, deliciado, e ia dizer que estava a seu serviço quando,

inesperadamente, Memmi interveio, mal murmurando um pedido

de desculpas antes de afastá-lo de Tolomei.

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- Não deve voltar amanhã – disse, com urgência. – Sua música

animou nossos espíritos, mas a Lua começa a minguar, e com ela a

energia favorável à nossa permanência aqui. Percebe como

estamos?

- Percebo. – Renzo contemplou com angústia alguns rostos

translúcidos. – Mas e se eu tocar mais?

- Seria inútil. Possivelmente até perigoso, dada sua ligação

com o tempo ao qual pertencemos. E as forças que operam sobre

este lugar são poderosas... Não. Você não pode voltar – disse

Memmi, com decisão. – Na verdade, é melhor que regresse agora

mesmo ao seu mundo.

- Agora? Mas o podestà...

- Shhh! Sei o que ele disse. – Memmi levou um dedo aos

lábios. – E sei o que provocou. Por isso lhe digo que vá antes que

seja tarde.

Empurrou-o para a saída. Perplexo, o jovem não resistiu, mas

um olhar para trás lhe revelou os rostos desapontados de Pietro e

Marco. Andrea estava junto ao podestà, e alguma coisa estalou no

peito de Renzo ao pensar que Tolomei faria dele seu protegido.

Como conseguiu chegar a casa, seria impossível dizer. Não se

sentia pertencer a este mundo. Felizmente, San Gimignano pouco

mudara desde o trecento, e ele encontrou seu caminho pelas ruas

escuras. Na sala, demorou a reconhecer os objetos que o cercavam,

embora não o rosto do rapaz que o fitava cheio de preocupação.

- Renzo! – Marcello estendeu a mão, tocou-lhe o ombro. –

Você está com uma cara estranha... Aconteceu alguma coisa?

- Eu acho que... sim, aconteceu – disse Renzo, lutando para se

manter em foco. – No Palazzo. Memmi disse para eu não voltar

amanhã. Mas preciso, Marcello – afirmou, o nome surgindo com

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dificuldade em seus lábios. – Preciso tocar o último concerto para o

podestà. Ele prometeu que depois disso me ajudaria.

- Ele quem? – fez o amigo, franzindo a testa. – Ajudar como?

E depois de quê? A gente vai pra Florença amanhã, esqueceu?

- Florença! Não irei. Estou farto de tocar para viandantes no

Ponte Vecchio – declarou Renzo. Marcello ficou parado, fitando-o,

por um longo momento. Depois, começou a rir.

- Ah, tá bom, Renzo. Quer curtir sua paixão por Idade Média,

tudo bem. Fica até legal você falar assim com os turistas. Mas cai na

real. Aqui não dá mais. Eu já comprei as passagens, vamos no

ônibus das três pra Poggibonsi e de lá pegamos o trem.

- Não. Vou tocar no Palazzo – disse Renzo, obstinado.

Marcello respirou fundo, passou os dedos entre os cabelos. Parecia

pensar no que dizer, embora – pensou Renzo – nada mais houvesse

a ser dito entre eles. Estava decidido, não voltaria à vida de trovador

errante, quando Nello Tolomei lhe prometera sua proteção. Um

homem como ele não faltava à palavra dada.

- OK, Renzo. Melhor irmos dormir – disse Marcello, por fim. –

Amanhã a gente conversa.

Acenou, desejando boa noite, e rumou para o quarto. Renzo

ficou onde estava, esperando pelo sono que não veio. Dedicou-se

então a planejar o dia seguinte, quando diria a Marcello que seus

caminhos iriam se separar. Ou talvez nem dissesse. Ele não

entenderia, e, de uma forma ou de outra, ficaria magoado. Por que,

então, criar mais atrito? Era preferível o silêncio.

No dia seguinte, ele agiu o mais naturalmente que pôde. De

manhã, desocupou a casa e entregou a chave ao senhorio, depois

almoçou com Marcello e os americanos, deixando-os dominar a

conversa com sua língua bárbara. Às três, sob um céu carregado de

nuvens negras, entrou com o amigo no ônibus, parado na saída do

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centro histórico. Esperou anunciarem a partida e desceu

precipitadamente, com o pretexto de ter esquecido uma bolsa no

restaurante. Ainda ouviu a voz de Marcello chamando-o de volta

enquanto atravessava correndo a Porta de San Giovanni. Sem tomar

fôlego, percorreu as ruas até o Palazzo, onde, para sua surpresa, a

corte já dançava ao som das canções de Landini.

- Renzo! – Memmi correu ao seu encontro, o rosto lívido. – O

que faz aqui? A Lua está quase...

- O jovem é benvindo! – trovejou o podestà. Sua expressão,

antes cheia de bonomia, estava contraída pela ira, acentuando a

palidez fantasmagórica das faces.

- Ele veio por sua vontade – afirmou. – Agora, está a meu

serviço... assim como você, Mestre Lippo.

Contrafeito, o pintor se afastou. Renzo subiu ao estrado e

pegou o saltério, pondo-se a acompanhar o grupo de adolescentes.

E, como na noite anterior, a música se apossou dele. Ou mais

que isso: o possuiu. A cada nota do saltério, a cada sílaba entoada, a

sensação era a de mergulhar mais e mais numa espécie de vácuo,

um desvão perdido no tempo, onde a matéria se transmutava em

som e luz. Maravilhado, ele se voltou para os convivas e constatou

que também se transfiguravam, alguns se tornando indistintos

como à chegada, outros conservando definidas as formas que,

contudo, perdiam a densidade. Assim estavam os músicos, bem

como Memmi; assim estava o podestà, cujo manto brilhava envolto

em fosforescência. Seu corpo era tão transparente que se podia ver

através – e foi desse jeito, contemplando seu novo protetor, que

Renzo viu um homem surgir à porta da sala.

- O que está acontecendo? – bradou, avançando por entre os

dançarinos. Renzo precisou piscar para reconhecê-lo. Era Marcello,

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seu antigo companheiro de estrada e também músico. Isso lhe

permitira entrar no Palazzo.

- Quem são essas pessoas? Ou melhor, o que são? –

perguntou ele, o horror crescendo em seus olhos à medida que

compreendia. Os convivas tinham começado a partir, dissolvendose

ora em luz, ora em finíssima névoa. Andrea se esvaneceu entre

duas batidas de tambor, o eco ainda no ar quando Marcello saltou

para o tablado.

- Vamos sair daqui! – Agarrou-lhe os ombros, puxando-o com

urgência para baixo. – Não está vendo? Eles são fantasmas, Renzo!

- Afaste-se! – rugiu Tolomei. – Seu amigo escolheu. Ele me

deve obediência!

- Não! Ele ainda não é um de nós! – gritou Memmi, em

desafio. – A música! Ele precisa parar!

Avançou, precipitando-se para o tablado, mas convivas o

detiveram a um gesto do podestà. Outros correram em direção a

Marcello, mas este foi mais rápido: antes que o alcançassem,

arrancou o saltério das mãos do amigo e o atirou contra uma

parede. Os fantasmas saltaram sobre ele no instante seguinte,

enquanto Renzo, desesperado, se inclinava na tentativa de

recuperar seu instrumento. Estava num canto da sala, não muito

longe, mas suas pernas não lhe obedeciam, obrigando-o a um

esforço enorme para se mover alguns milímetros. Ao seu redor, as

vozes eram um zumbido indistinto, seus olhos enxergando apenas

manchas enquanto alguma coisa dentro dele se torcia e se libertava.

- Acabou – ouviu, indistinta, a voz de Memmi. Depois, um

silêncio – e então o choro alto e descontrolado de Marcello, que

Renzo não compreendeu. Afinal, ele conseguira se mover e pegar o

saltério.

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Embora, reparando bem, tanto o instrumento como suas

mãos parecessem translúcidos.

- Benvindo! – Pietro riu, ajudando-o a subir no estrado. Marco

estava lá, e Andrea empunhava seu tambor. Voltando-se, Renzo viu

então a plateia outra vez reunida, seus corpos nítidos, luminosos,

acercando-se para presenciar o momento em que o podestà beijaria

seu novo favorito.

E antes que o círculo se fechasse à sua volta ele viu Marcello,

os ombros sacudidos por soluços, debruçado sobre a carne e os

ossos inertes de um rapaz. Que nunca mais, nesta vida, tocaria as

baladas de Francesco Landini.

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Autores

Georgette Silen

http://sagalazarus.blogspot.com/

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@georgettesilen

Marcelo Paschoalin

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Café de Ontem

Horror – Fantasia – Ficção Científica

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