NESTA -EDÍÇAO - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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NESTA -EDÍÇAO - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

/

CONSCIÊNCIA

NE&M

Grupo de União e Consciência Negra

Ano I Maio / Jnnho de 1987 - n' 1

Centidls Mm

28 SUW

.«TO» W OOCUMeNfAgAg

mm

NESTA -EDÍÇAO

DEMOCRACIA

RACIAL??!!

Leia no Editorial - Pág.

2

ROSA NEGRA DO SUL

Pág. 3

JOSIMO: UM NEGRO

OÜE TOMBOU

NA LUTA PELA

TERRA

Pág. 4

VISITA DE DESMOND

TUTU

Pág. 5

POLICIA MATA

OPERÁRIO NEGRO

"POR ENGANO"

Pág. 6

RAÇA NEGRA.

OBJETO DE

ANEDOTA NAS

ESCOLAS

Pág. 6

O POVO NEGRO NA

HISTÓRIA

DO BRASIL

. Pág.8


EDITORIAL

Voltamos aqui com uma nova edição de Consciência Negra

e estamos contentes com a repercussão e a boa acolhida que o nosso

n* 0 obteve entre os companheiros de diversos estados. Estamos

contentes, sobretudo, porque neste numero já contamos com uma

maior participação. Artigos e cartas tem chegado de várias pessoas

e grupos, e vamos publicá-las na medida do possível.

E preciso mais ainda: mais participação e luta. O fato é que,

do nosso primeiro número para cá, as coisas não melhoraram muito

neste país - pelo contrário, infelizmente.

Em maio recebemos a visita ilustre de Desmond Tutu,

Arcebispo do Cabo, África do Sul. Sua estadia em nosso país, serviu

pelo menos para trazer à tona um assunto que na imprensa nacional

sempre foi tabu: a questão racial no Brasil. Não que a grande

imprensa tenha feito um "mea culpa" e mudado, de repente, a sua

conduta. E que o grito de protesto do movimento negro ficou tão

forte, que não houve como ser abafado.

Protestos como os que se seguiram às declarações do Ministro

das Relações Exteriores quando este afirmou, na maior "cara de

pau", que no Brasil não há problema racial algum. Que aqui, todos

convivem pacífica e harmoniosamente, sem conflitos e formando

a mais perfeita democracia racial. Ou protestos como os que se

levantaram contra o tri-presidente Ulisses Guimarães por ter

afirmado ao Nobel da Paz que o problema brasileiro não é racial

e se resume à fome e à miséria. Ora, Dr. Ulisses... fome e miséria,

de quem? Qual é a cor da maioria das pessoas que estão jogadas

nas favelas, viadutos e sarjetas das cidades? Será que é mero acaso

o fato de quase todos serem negros?

Democracia racial??!! E o extermínio físico gradual e

sistemático de pessoas de cor negra, que sempre se efetuou neste

país e que continua até hoje? Basta ler os jornais para ver que

os vinte corpos que no último fim de semana apareceram mortos

na Baixada Fluminense eram negros. Por que?

Uma publicação de rcspomabili-

dade do Grupo de União e Cons-

ciência Negra.

Caixa Postal 866

74.001 - Goiânia - GO.

Consciência Negra se propõe a ser

um núcleo independente, de denúncia

e discussão das contradições raciais

de nossa sociedade e quer ser uma

ferramenta útil ã transformação dessa

sociedade.

PREÇO DAS ASSINATURAS

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Para as bases 60,00

Colaboração 200,00

Exterior U$ 10.00

Atenção!

Quem conseguir 5 assinaturas de

Consciência Negra , receberá uma

de graça.

CONSCIÊNCIA NEGRA Maio/Junho

Democracia Racial?

Quatro dias antes de Tutu desembarcar no Brasil, o operário

negro Júlio César de Melo Pinto, casado, 30 anos, era preso e

barbaramente assassinado, "por engano", pela Brigada Militar de

Pedro Simon, no Rio Grande do Sul. E, ainda, vem o Comandante

da Brigada justificar, dizendo que "só ocorrem incidentes com quem

trabalha".

Mas, não é só à bala que nos matam, não. Existem formas mais

sofisticadas e sutis de minar nossas forças. Os saques que são feitos

aos nossos salários pelos sucessivos pacotes do governo, constituem

um bom exemplo. Agora mesmo, estamos sofrendo os efeitos de

mais um deles: o plano Bresser-Sarney, que, a um só tempo, acabou

com o gatilho, congelou os salários, aumentou os preços, acelerou

as demissões e manobrou os índices da inflação. Tudo isso nos atinge

de forma vital, pois, segundo dados do próprio IBGE, somos nós

que recebemos os salários mais baixos no país, - agora, mais

defasados ainda.

A Educação e a Saúde, já não temos acesso há muito tempo.

Enquanto isso, os movimentos populares e sindicais não

conseguem se articular em alianças fortes e capazes de responder

à altura, às agressões que a classe dominante pratica contra o povo.

O movimento negro não foge à regra: não conseguimos sequer sair

às ruas com uma proposta popular de emenda à Constituição, que

encampasse nossas reivindicações mínimas. Mais uma vez, vamos

ficar de fora do jogo...

Porém, precisamos saber que, reconhecer esta grave realidade,

não deve ser motivo para esmorecimento ou conformismo. Pelo

contrário: a situação exige mais luta, mais interessp e participação

de todos. Isso significa buscar meios concretos para ampliar e

melhorar o nível de consciência e de organização dos trabalhadores,

em geral, e articular de forma mais séria e intensa, a organização

dos trabalhadores negros.

Conselho e Diretoria fazem encontro em Brasília

Durante tfes dias, na última

semana santa, houve em Brasília,

um Encontro entre O Conselho e

a Diretoria do Grupo de União e

Consciência Negra. A reunião

contou com a presença de compa-

nheiros vindos de nove estados e

logo no primeiro dia, esgotou-se a

pauta elaborada por todos. O res-

tante do tempo foi aproveitado para

o 2° Curso de Formação Política,

assessorado por Romnaldo Dias,

do CEPIS.

Entre os assuntos discutidos,

destacamos alguns de fundamental

importância para o grupo, como:

instalação de uma Secretaria Exe-

cutiva, em Goiânia, encarregada de

fazer os encaminhamentos e as arti-

culações necessárias e possíveis.

Debateu-se também o Centenário da

Abolição, o próximo 20 de Novem-

bro, a Assembléia Nacional Consti-

tuinte, a publicação do "Cons-

ciência Negra"e um calendário de

atividades.

Aprofundou-se uma discussão

sobre os cursos de formação, fican-

do indicado que os mesmos, daqui

para frente, deverão ser publicados

em forma de cartilha, facilitando

sua reprodução para as bases. Os

próximos cursos deverão ser sobre

os cultos afro-brasileiros e Forma-

ção Política, incluindo um estudo

mais sério sobre etnia e classe so-

cial. Com essas constantes ativida-

des de formação, pretende-se um

melhor preparo de nossos militan-

tes para suas intervenções e o seu

trabalho no dia a dia.

O lado triste ficou por conta

da morte, que nos visitou na ma-

drugada de Páscoa e levou uma

companheira que participava da

reunião. Rosa Lena Doarte, 45

anos, veio do Rio Grande do Sul.

Ela teve uma parada cardíaca, fale-

cendo em seguida. A morte de Rosa

chocou-nos profundamente. Ela

participava de uma confraterniza-

ção, falava das lutas, da família,

ouvia samba e foi dançar. Assim ela

se foi. Dançando e rindo numa roda

de samba e irmãos negros.

Leia mais sobre a vida e as ati-

vidades de Rosa, na matéria desta

edição "Rosa Negra do Sul", no-

me que a companheira Cristina

Vilar deu a seu poema, escrito em

homenagem a Rosa e que também

publicamos aqui.


Maio/Junho CONSCIÊNCIA NEGRA Pág. 3

Encontro do Grupo de União e Consciência Negra do Ceará

No dia 29 de março passado,

reuniu-se em Fortaleza, o Grupo de

União e Consciência Negra do Cea-

rá, para discutir várias questões de

interesse do Grupo, especialmente

as que se seguem:

. Avaliação do Grupo no ano

de 1986;

. Campanha da Fraternidade de

1988;

. Elaboração do Calendário de

1987;

. Articulação e visitas aos bair-

ros de Fortaleza;

. Levantamento das comunida-

des negras do Ceará.

Foi lembrada a Semana do ín-

dio, de 19 a 23 de abril, em que

nós, negros, nos solidarizamos e

nos irmanamos com os índios, na

busca de seu direito à identidade,

enquanto povo e na luta pela posse

da terra e pela intocabilidade de

suas reservas naturais.

No decorrer da avaliação das

atividades do grupo, percebeu-se

várias falhas na caminhada dificul-

dades em levar adiante o trabalho

do grupo, omissões diversas e pou-

ca atuação da coordenação. Cons-

tantou-se a necessidade de maior

continuidade e compromisso no

trabalho.

A união precisa ser fortalecida

para poder irradiar o grupo e a ca-

minhada.

MOMENTO DE CONSTRUÇÃO

Os participantes, divididos em

4 grupos, refletiram sobre os obje-

tivos gerais do Grupo e as metas

a serem atingidas ainda neste ano

Dono Mozé:

70 anos de negritude

Aconteceu a 30 de abril de

1987, na Igreja de Jardim Iracema,

em Fortaleza, missa em ação de gra-

ças pelos 70 anos de existência de

Dona Maria José de Jesus Simão,

popularmente conhecida pela comu-

nidade como Dona Mazé.

A missa foi celebrada pelo Pe.

José Santana e concelebrada pelo Pe.

Fernando, missionário comboniano.

Vários representantes de movimen-

tos populares fizeram-se presentes,

congratulando-se com essa pessoa

tão querida.

Participante ativa dos movi-

mentos da Paróquia do Jardim Ira-

cema e Pe. Andrade, coordenadora

do Grupo de Evangelização, mem-

bro do Conselho Pastoral, vice-pre-

sidente do Círculo de Trabalhado-

res Cristãos de Padre Andrade, mi-

nistra da Eucaristia e militante do

Grupo de União e Consciência Ne-

gra.

Para nós, negros, esse evento

foi uma vitória para a nossa raça,

no Ceará, pois agrupamos nessa

noite /estiva inúmeros negros, ami-

gos e participantes do grupo.

Dona Mazé, uma das pioneiras

do Grupo, que o viu desabrochar

e crescer, é uma das pedras funda-

mentais da caminhada do negro no

Ceará. Seus depoimentos, como mu-

lher negra, nos faz sentir a riqueza

de conteúdo e experiências de mu-

lher vivida e forte.

Nascida no município de Aqui-

raz, cidade litorânea, logo cedo per-

deu os seus pais, ficando sob a res-

ponsabilidade de uma tia. Hoje, po-

rém, passados 70 anos, continua jo-

.vem, alegre, disponível e fraterna.

Sentimos prazer em conhecê-la. Ela

nos fala de negro de maneira suave

e segura, transbordando a alegria

de sua negritude e nos dando ânimo

para assumirmos, de verdade, a

nossa raça. Ela nos ensina a não

sentirmos vergonha dessa raça e

que, quem deveria envergonhar-se

são os brancos que nos discrimi-

nam.

e procurarem a melhor forma de se

organizarem concretamente para

colocar em prática essas metas.

Várias propostas foram levan-

tadas, como por exemplo, a elabora-

ção de documentos para a Campanha

da Fraternidade / 88. Pensou-se

também em recolher depoimentos

de negros no Ceará, assim como fa-

zer um levantamento estatístico da

realidade dos negros no Ceará e no

Brasil.

Os grupos sugeriram a forma-

ção de equipes de estudo, princi-

palmente para aprofundar a histó-

ria das raízes negras e o conheci-

mento de cânticos e outras manifes-

tações culturais da raça. Foi pro-

posta a criação de uma equipe de

articulação social e a divulgação do

Grupo nos municípios. Saiu também

a proposta de se criar um jornal

para divulgação da luta e busca de

meios diversos para divulgar nos-

sos valores culturais.

Para tornar possível a realiza-

ção desses objetivos, viu-se a ne-

cessidade de ser dar passos concre-

tos, tais como: garantir a presença

negra nas Comunidades Eclesiais de

Base (CEB's) e em outros movimen-

tos populares; manter conversas

"ao né de orelha" de negro para ne-

gro; visitar as famílias negras.

Os participantes concluíram

que, em cima da realidade que vive-

mos, é grande a necessidade de criar

e desenvolver meios para organi-

zar e conscientizar o povo negro.

Uma das importantes decisões

do Encontro, foi a formação de 4

Equipes: de visitas, para contatos

e articulações; de comunicação.

com a tarefa de editar um jornal,

fornecer subsídios e manter contato

com os meios de divulgação; de es-

tudos, para aperfeiçoamento da

formação dos militantes: além des-

sas, foi formada ainda uma equipe

de artes.

Os companheiros do Ceará

lembram que o ingresso dos inte-

ressados, em qualquer uma dessas

equipes, é fundamental para que o

Grupo possa se enriquecer e cami-

nhar firme.

Eles avisam que as reuniões

serão realizadas, sempre no último

domingo de cada mês, no Instituto

São José, na Av. Imperador, centro

de Fortaleza, às 8 horas da manhã.

Participem!

Roso Negro do Sul

Quem era Rosa:

Rosa Lena Duarte nasceu há 45 anos em Canguçu, no Rio Grande

do Sul, local para onde foi levada a primeira leva de escravos da

região. Filha de João Pedro Duarte Lena e Conceição Duarte Lena,

Rosa era casada há 26 anos com Saulo Saraiva Duarte e criou 7

filhos: Daizi, Bilson, Saula, Genildo, João Carlos, Pedro Luiz e Davi.

O último, Davi de 3 anos, cor branca. Rosa encontrou jogado na

porta de sua casa, recolheu-o, adotou-o e criou-o como se fosse

seu filho verdadeiro.

Rosa tinha uma participação ativa em sua comunidade de base, no

Bairro de Terras Alatas, Comunidade Nossa Senhora das Graças.

Trabalhava na pastoral da saúde, na pastoral operária e fazia parte

da APED - Associação das Empregadas Domésticas.

Como se vê, Rosa era uma mulher inteiramente dedicada ao trabalho

comunitário, cheia de vida e de interesse pela causa de seu povo.

Uma vida de compromisso e uma morte num momento em que

procurava aprofundar ainda mais esse compromisso.

Deixamos aqui nossa reconhecida homenagem a Rosa. Que sua vida

de lutas ajude a alimentar e fortalecer a caminhada de seus familiares

e de todos nós.

ROSA NEGRA DO SUL

Em homenagem

Brasília, Sobradinho, 19/04/87

Negra Rosa

te ocultaste de nós

antes de te veres oculta

A noite que pensei

cálida

calada

foi

cálida

e não

calada

Até que

a Rosa Negra do Sul

se foi

Havia

samba

risos

encantos

rodas de nós

rosa do sul

entre nós

viçosa rosa

real

mágica

mas de madrugada

se fecha

sorrindo

A Rosa Negra do Sul

se vai.

(Cristina Vilar - Própria, SE)


Pág. 4 CONSCIÊNCIA Ni

Josimo: um negro que tombou no luta pela terra

No dia 10 de maio passado, em

São Sebastião do Tocantins, Goiás,

e em Imperatriz, Maranhão, milha-

res de pessoas, entre lavradores,

agentes de pastoral, bispos e mili-

tantes do movimento popular, lem-

braram emocionalmente o assassi-

nato do padre Josimo Tavares,

ocorrido um ano antes, a mando de

latifundiários.

O boletim Consciência Ne-

gra presta, também, sua homena-

gem a Josimo, que foi um negro

que deu a sua vida e a sua morte

por essa luta travada pela classe

trabalhadora e os marginalizados

em geral, por terra, justiça,

igualdade, participação, enfim,

pela sobrevivência como seres hu-

manos.

Josimo tinha 33 anos, era vigá-

rio da Paróquia de São Sebastião do

Tocatins, em Goiás e coordenador

diocesano da Comissão Pastoral da

Terra no Bico do Papagaio, ao Norte

do estado. Essa é uma das regiões

onde os conflitos de terra são mais

violentos e onde os latifundiários

e grileiros, normalmente com o

apoio da polícia e polficos locais,

manifestam maior ferocidade em

sua perseguição contra os sem-ter-

ra e sfeus aliados.

Nesse contexto, Josimo sempre

foi firme, testemunha e militante

das lutas, sofrimento e esperança

de seu povo. Por causa dessa atitude

estava sendo ameaçado há muito

tempo. A 15 de abril de 1986, sofreu

um atentado e conseguiu escapar.

Porém, a 10 de maio, os pistoleiros

PASCOA-PAZ

(Josimo)

Páscoa-Paz!

Paz de lavrador sem terra,

Entre fogo e sangue,

E calosas horas.

Forjando o Direito de revolver a terra,'

Para semear em movimentos de fecundação

As sementes orvalhadas.

Os mistérios das madrugadas insones.

Páscoa-Paz!

Paz de crianças negras e famintas.

Pobres e apodrecidas.

Cujos olhos de luz.

Fixados,

Vislumbram os caminhos da liberdade;

Cujos lábios ressequidos ecoam os gemidos da Morte;

Cujos braços incertos abraçam o Reino da Vida!

Crianças em ossos e peles.

Glória, glória das provetas da opulência!

Paz do negro que não se faz branco!

Que incorpora seu Orixá

Que se deixa embriagar pelo Axé,

A energia vital, sempre Vida,

Do além e da Terra

Do que pensar e do sentir,

Do que poder e do que fazer.

Vida enérgica, em transe.

Gravada na negritude universal

De cada homem e cada mulher.

(Março de 1986)

consumaram o ato ordenado e pago

pelos latifundiários, com um tiro

que o matou e feriu profundamente

a todos nós.

Josimo (Centro, de Óculos) com seus amigos do Bico do Papagaio.

LEVANTA JOSIMO,

É OUTRO TEMPO AGORA

íTaulo Gabriel)

Para melhor lembrar Josimo,

sacerdote, negro e militante,

mostraremos os fragmentos de seu

poema "Páscoa-Paz", e dos poe-

Eram 12 horas

em todos os relógios do povo.

A terra cuardava no seu ventre

o segredo da vida e da morte nas sementes

preparada

esperava teu sangue negro como adubo

impossível esconder agora a violência do fruto.

Incontrolável

o Tocantins invade as margens

não é mais o tempo de segurar o grito.

Lavradores

com estrelas na garganta e foice nas entranhas

decepam séculos.

Agora não é mais a hora de Brasília

o povo fará justiça para sempre.

Repartida

a terra se enche de arrozais

os lavradores planejam seus destinos

o poder nas mãos de todos

sem algemas

a vida virou festa e poesia.

Páscoa!

Levanta os olhos, Josimo

Vamos celebrar tanta alegria no samba e com cachaça

sem camisa

o corpo nú

para não esquecer as ciacatrizes das feridas no teu peito.

Foi preciso derramar o sangue para adiantar a aurora

e ver este dia amanhecendo.

mas escritos em sua homenagem,

logo após sua morte.

A morte anunciada de

Josimo Tavares

(Pedro Tierra)

Ouem é esse menino negro

que desafia limites?

Apenas um homem.

Sandálias surradas.

Paciência e indignação.

Riso alvo.

Mel noturno.

Sonho irrecusável.

Lutou contra cercas.

Todas as cercas.

As cercas do medo.

As cercas do ódio.

As cercas da terra.

As cercas da fome.

As cercas do corpo.

As cercas do latifúndio.

Trago na palma da mão

um punhado de terra

que te cobriu.

Está fresca.

É morena, mas ainda não é livre

como querias.

Sei aqui dentro

que não queres apenas lágrimas.

Tua terra sobre a mesa


NEGRA Maio/Junho Pág. 5

Visita de Desmond Tutu

Convidado pelo governo brasi-

leiro pára uma visita oficial de 5

dias, chegou ao nosso país, dia 18

de maio último, o arcebispo angli-

cano da cidade do Cabo (África do

Sul) e primaz para a África Austral,

Desmond Tato, acompanhado de

sua esposa Leah.

Em seu roteiro, que incluía vi-

sitas às cidades de Recife, Salvador,

Brasília, São Paulo, Belo Horizonte

e Rio de Janeiro, o Prêmio Nobel

da Paz de 1984 denunciou as atroci-

dades que são cometidas pelo regi-

me de minoria branca da África do

Sul. que na base da expoliação, do

Benedita,

negra,

favelada,

constituinte

BENEDITA DA SILVA foi

eleita deputada federal pelo PT, no

Rio de Janeiro. Ela veio da favela

e sempre foi participante ativa dos

movimentos populares no Rio.

Logo após tomar posse na As-

sembléia Nacional Constituinte, co-

mo a única mulher negra e favelada

entre os 559 parlamentares, Bene-

dita da Silva concedeu uma entre-

vista ao "New York Times", o

maior jornal dos Estados Unidos,

revelando seus planos de abrir no

Congresso, uma discussão sobre as

relações raciais - "assunto que ra-

ramente é levado ao público no Bra-

sil, embora quase a metade dos 138

milhões de habitantes do país, tenha

algum sangue africano".

Com a palavra, Benedita:

"Eu sei a posição dos negros

neste país. Quando eu era pequena,

fui preparada para ocupar o meu

lugar. Aprendi a entrar pela porta

de trás. Foi-me dito que eu era feia,

porque tinha os cabelos encrespa-

dos e a pele preta. Entretanto, este

é um país onde os negros sempre

escutam que não existe discrimina-

ção racial. E uma questão de ati-

tudes".

me diz com seu silêncio agudo

- Meu sangue se levantará

como um rio acorrentado

e romperá as cercas do mundo.

Um rio de sangue covocados

atravessará tua camisa

e ela será bandeira

sobre a cabeça dos rebelados!

(Maio de 1986)

cinismo e da violência, domina os

mais de 25 milhões de negros que

compõem a população do país.

HTPOCRÍSIA

Nos seus encontros com o pre-

sidente Sarney e o ministro das Re-

lações Exteriores, Abreu Sodré,

Tutu exigiu energicamente o rom-

pimento de relaçoões diplomáticas

entre o Brasil e a Pretória, como

forma não-violenta de pressão an-

ti-apartheid. Sua decepção, contu-

do, não tardou: tanto Sarney como

Sodré, foram categóricos em afir-

mar que "está descartada essa al-

ternativa, pois uma vez mantidos

os laços, o Brasil teria mais condi-

ções de prestar algum tipo de apoio

à população negra, caso seja neces-

sário".

Na realidade, o que os dois não

quiseram reconhecer, é que há

çrandes interesses econômicos, in-

tocáveis para o governo brasileiro

e daí a necessidade de se manter

as relações Brasil-África do Sul.

Recentemente, a deputada fe-

deral carioca Benedita da Silva (PT-

RJ) denunciou no Plenário da Cons-

tituinte que a A frica do Sul contro-

la o setor mineral brasileiro e in-

veste cada vez mais em outros seto-

res, como o bancário e o de explo-

sivos.

Apesar da retórica utilizada

pelo governo brasileiro para de-

monstar que o Brasil desincentiva

o intercâmbio entre os dois países,

os dados do próprio Itamaraty mos-

tram que, só no primeiro semestre

de 1986, o comércio entre Brasil e

África do Sul aumentou 28%. É

preciso ressaltar que, enquanto em

1985, o comércio atingiu a soma de

50 milhões de dólares, no ano pas-

sado, só entre os meses de janeiro

e agosto, esse comércio superou o

montante de 64 milhões de dólares.

Um dos pontos polêmicos da

vinda de Tutu ao Brasil, foi o rotei-

ro da viagem. Antes mesmo que

Desmond Tutu deixasse a África,

o bispo da Igreja Anglicana no Nor-

deste, numa atitude estreita, anti-

ecumênica e racista, telefonou-lhe,

alertando-o para a inconveniência

de participar de uma cerimônia re-

ligiosa em Salvador, na Bahia,''com

ritos de camdohlé e vodu', comple-

tando com a afirmação de que ele

não conceleHraria com umbandistas.

Por isso, o culto que seria rea-

lizado na Colina do Bonfim, ao lado

da Igreja que é símbolo da religião

afro-brasileira, foi transferido pa-

ra o Largo do Pelourinho e trans-

formado em Ato Público sem cará-

ter religioso. Causou protestos,

também, o fato de Desmond Tutu

não ter visitado nenhuma favele não

ter tido chance de constatar, de

perto, o que são as contradições ra-

ciais da sociedade brasileira, que

não tem seu apartheid oficial, mas

na prática segrega a imensa maioria

da população (que é negra), nos

enormes bolsões de miséria do país.

Governo de Botho prende,

tortura e assassina crianças

Enquanto vários países auto

denominados "democráticos", como

o Bras'1, se recusam a cortar rela-

ções diplomáticas com o governo

branco e criminoso da África do

Sol, milhares de crianças negras

estão sendo presas, torturadas e as-

sassinadas naquele país.

O Grupo Independente de

Apoio às Famílias dos Presos, da

A música

africana chega

ao Brasil

Paul Simon (ex-Simon and

Garfunkel), depois de andar meio

sumido das paradas, foi à África

do Sul procurar, junto aos grupos

musicais de lá, inspiração para seu

novo e lindíssimo disco, que chegou

recentemente às lojas.

Agora, o que está chamando

mesmo a atenção, é o lançamento,

no Brasil, de três discos inéditos

para nós, de artistas da Nigéria,

Senegal e Zimbahwe. O Projeto

Afro é uma iniciativa da Wea e

pretende trazer até nós, a música

contemporânea da África, que não

é só folclórica, mas, misturada às

novas técnicas ocidentais, produz

um som esperto, mágico, que não

deixa ninguém parado.

Os três músicos, responsáveis

por este lançamento são:

Youssou N'Donr, cujo LP é

uma homenagem a Nelson Mandela

e leva o nome do líder sul-africano;

Thomas Mapfumo, que canta

todo o seu disco "Chimurenga

For Justice" no dialeto shona, é

um tarimbado miltante na luta que

levou seu país, o Zimbahwe,'a inde-

pendência.

King Sunny Ade, da Nigéria,

chega com o seu "Aara", acompa-

nhado por ninguém menos que Ste-

vie Wonder.

É isso aí! quem quiser se ini-

ciar na boa músièa africana, que é

de luta, resistência e muito embalo,

não pode perder a oportunidade de

conferir.

África do Sul, calculou, no início

do ano, que mais de 25.000 pessoas

estão presas por motivos políticos

no país, e entre elas, 10.000 contam

com menos de 18 anos.

Em Genebra, na Suíça, uma re-

presentante do Grupo denunciou à

Comissão de Direitos Humanos da

ONU, que os pais não têm o direito

de visitar as crianças presas e a po-

lícia não é obrigada a informar so-

bre as detenções de menores. As

crianças têm sido vítimas de todo

o tipo de violência, inclusive es-

trupros.

A organização "Frere des Ho-

mes", com filiais em vários países

da Europa, iniciou uma campanha

de mobilização pela libertação de

crianças aprisionadas na África do

Sul. Muitas vezes, essas crianças

são presas ao acaso, na rua, na esco-

la ou em casa, sem qualquer acusa-

ção. Há um número considerável de

meninos com idade inferior a 11

anos na prisão. Até uma criança de

2 anos chegou a ficar detida, junto

com a mãe, durante 9 meses. Uma

menina de 12 anos permaneceu lon-

go período na solitária.

Um membro da seção de mu-

lheres do Congresso Nacional Afri-

cano, em Lusaka, disse que, "3 a

4 mil crianças estão sendo presas

e submetidas a lavagem cerebral pa-

ra se tornarem informantes". Algu-

mas delas, com apenas 11 anos, fo-

ram submetidas à tortura.

A Comissão de Direitos Huma-

nos da ONU denunciou que muitas

crianças morreram em conseqüência

de ferimentos à bala e muitas víti-

mas traziam sinais físicos e mentais

de sua prisão, várias tendo sido mo-

lestadas sexualmente.

A resposta do governo da

África do Sul e essas denúncias, foi

a anulação das demandas para a li-

bertação das crianças detidas, por

determinação do famigerado Minis-

tro da "Lei e da Ordem", Adeisan

VIock.

Acreditamos que esses fatos e

esses números dispensam maiores

comentários. Eles falam por si.

Os leitores só precisam imagi-

nar um país, onde as pessoas são

mortas nas ruas e torturadas nas

prisões por serem negras. Um país

de negros, governado por alguns

brancos psicopatas. Um país, onde

sequer se espera que as crianças

cresçam para serem massacradas.

E, em nome do desenvolvimen-

to econômico, governos "democrá-

ticos", como o do Brasil, continuam

em boas relações diplomáticas com

os celebrantes dirigentes sul afri-

canos, responsáveis por esse mas-

sacre.

Será que já não passa da hora

de se pensar seriamente, numa in-

tensa mobilização nacional, exigin-

do que o Brasil rompa relações com

o governo de Botha?


Pág. 6 CONSCIÊNCIA NEGRA Maio/Junho

DISCRIMINAÇÃO RACIAL

Polícia mata operário negro

A 14 de maio naio passado, dois ho ho- //

por engano

7 5 Isso nos põe francamente fra conmens

foram assassinados pela pol:

tra a "solução" encontrada pelo gocia,

durante um assalto no super-

verno Simon, com a entrega da inmercado

Dosul, de Porto Alegre,

vestigação a um Inquérito Policial

Rio Grande do Sul. Um deles, Júlio

Militar (IPM), medida burocrática

César de Melo Pinto, era operário,

inventada pela ditadura militar panegro,

e não tinha nada a ver com

ra acobertar seus crimes. Como dio

assalto. O outro, Cléber Leal

zia o antigo MDB de Simon e Waldir

Goulart, coincidentemente era tes-

Walter, "polícia não investiga polítemunha

num inquérito que apura-

cia". Estamos diante do assassinato

va torturas praticadas pela polícia

de um cidadão civil. Exigimos a incontra

Antônio Cióvis dos Santos,

vestigação do crime pelas leis co-

"Doge", também morto, poucos dias

muns, perante a fiscalização de auantes

de prestar depoimento sobre

toridade e entidades civis.

o caso.

Tampouco nos satisfaz a even-

Júlio César de Melo, morava

tual condenação de soldado ou cabo

nas proximidades do supermercado

Fulano e Mengano. A entrega nomie

ao ouvir tiros, correu para ver

nal de um e de outro, como se foso

que estava acontecendo. Segundo

sem "maus elementos de uma instiparentes

e pessoas que testemunha-

tuição democrática", serviria soram

o crime, ele teve um ataque epi-

mente para acobertar a realidade:

lético naquele momento. Os poli-

há uma máquina policial montada

ciais levaram-no para a viatura, de-

e educada para a eliminação física

baixo de espancamentos. Ele entrou

de criminosos ou azarados "suspeivivo

na viatura e chegou morto ao

tos", como Júlio César. Há a notória

Pronto Socorro, com duas balas,

impaciência do aparelho policial

uma no fígado, outra no coração.

com os ritmos da lei. Há uma mal

A respeito deste crime, a Co-

acobertada ideologia de "esquadrão

missão do Negro do Partido dos

da morte".

Trabalhadores do Rio Grande do

Para nós, não é suficiente uma

Sul, duvulgou uma nota à popula-

hipotética punição de dois ou três

ção, que reproduzimos na íntegra:

culpados. Eles foram treinados para

NOTA À SOCIEDADE E À

COMUNIDADE NEGRA SOBRE O

ASSASSINATO DE

JÚLIO CÉSAR DE MELO

PINTO.

O assassinato de Júlio César

isso. Exigimos é o desmonte dessa

ideologia. Exigimos é a demissão de

seus formuladores e responsáveis.

Numa instituição de "acaso" ou

"deslize" ao assassinato evidente

de um homem algemado, subjugado

no banco traseiro de um carro ofide

Melo Pinto, pela Brigada Mili-

cial, por três soldados em serviço,

tar, repõe à sociedade, dois antigos,

fardados. Não apenas eles são premas

sempre presentes assuntos que

sumíveis culpados, mas a instituinos

violentam: o racismo e a violên-

ção, antes deles, é responsável pela

cia policial.

ro, com dois tiros no corpo. execução de Júlio César de Melo

Repetiu-se, na noite de 14 de Poucas vezes se pôde chegar Pinto.

maio, aquilo que diariamente en- tão rapidamente à conclusão de que Para lutar pela justiça complefrentamos

nas ruas. Diante da polí- alguém - inocente ou culpado - foi ta e para impedir que a sociedade

cia, um negro é sempre culpado, assassinado, estando soh a guarda em geral e os negros, em particular,

ainda que não haja do que incrimi- da Brigada Militar. Este caso, so- continuem sendo vitimados pelo

ná-lo. Júlio César foi executado por mado a dezenas de outros que ocor- aparelho policial, chamamos a Coser

negro que estava próximo de rem quase diariamente, indicam que munidade Negra a se organizar no

onde ocorrera um assalto. Logo, era continuam perfeitamente em fun- Movimento Negro, nas entidades de

"suspeito". Foi pr eso vivo, sem cionamento, intactas e impunes, as direitos civis e nos partidos polítiqualquer

ferimento à bala, às 19:00. "máquinas de matar" dentro da cos comprometidos com a mudança

Meia hora depois, foi entregue Brigada Militar e da polícia civil, social.

morto no Hospital do Pronto Socor- acima dos tribunais e das leis. Porto Alegre, 20 de maio de 1987.

Querem "embranquecer" a Capoeira

O jornal "A Tarde", de Salva-

dor, Bahia, em sua edição de

30/04/87, traz uma matéria em que

o professor Renê Bittenconrt, do

Grupo de Capoeira Anjos de An-

gola, do mestre Paulo dos Anjos,

protesta contra a exigência que as

Academias de Salvador têm feito

aos instrutores de Capoeira: pos-

suir diploma universitário de Edu-

cação Física.

Renê Bittencourt lembra que

"é o negro oprimido que luta ca-

poeira, mais como uma forma de au-

todefesa, de sobrevivência, do que

qualquer outra coisa". E o prof.

Renê diz mais: "Quem quiser

aprender capoeira terá que entrar

numa roda de negros e com estes

negros tomar suas lições. Quem for

atrás de branco diplomado em uni-

versidade, vai aprender a dançar,

nunca a jogar, lutar capoeira".

Reforçando a origem histórica

da capoeira, o professor Renê, lem-

bra que "a capoeira é uma defesa

do negro na época em que o branco

o oprimia mais diretamente".

A respeito dessa estranha exi-

gência, levantamos dois pontos para

reflexão:

1. Os brancos que tudo fazem

para desvalorizar a cultura negra,

resolvem, de repente, incorporar,

"embranquecendo", a capoeira, um

dos mais expressivos elementos

dessa cultura. Tirando-a das tradi-

cionais academias de capoeiras, dos

bairros pobres, das rodas de negros

trabalhadores e transportando-a

para a Universidade, com o fim de

exigir diploma de capoeirista, estão

roubando do povo negro uma de

suas mais importantes tradições de

luta e resistência.

2. Sabemos que apenas uma pe-

quena minoria entre os negros e

brancos pobres, podem freqüentar

a Universidade. Isso significa que,

com tal exigência, a capoeira passa-

ria a figurar entre as muitas coisas

que vão se tornando, cada vez mais,

privilégio das elites.

Raça negra

objeto de

anedota

nas escolas

Os companheiros do Rio de Ja-

neiro enviaram carta, notas e recor-

tes de jornais denunciando um fato

que, aparentemente não tem gran-

des conseqüências: um professor de

história de uma escola particular,

no Rio demonstrou seu racismo, em

sala de aula freqüentada por ado-

lescentes, fazendo piadas sobre a

raça negra.

Ora, isso é muito mais sério

do que parece. A escola é um dos

fatores de mais peso para "fazer

a cabeça" das pessoas, principal-

mente crianças e adolescentes. Se

na sala de aula, os meninos apren-

dem, mesmo por meio de anedotas,

a desprezar a raça negra, só pode-

mos esperar que no futuro, tenham

todas as chances de se tornarem

mulheres e homens brancos, pre-

tensiosos e racistas, com uma visão

deformada da história ou então,

mulheres e homens negros, humi-

lhados, frustados pela cor, desco-

nhecendo e negando as raízes e os

valores de sua raça. Além disso,

atitudes como a desse professor,

reproduzem e eternizam nessa so-

ciedade, já meia cega e imebeciliza-

da pela ideologia dominante, os fal-

sos valores raciais que, há séculos,

contaminam a formação de nosso

povo.

O FATO

O professor de História Antô-

nio Carlos Almeida Concellos, da

Escola Santa Marta, no bairro do

Fonseca, no Rio, durante uma aula,

contou piadas sobre a raça negra.

Quando foi questionado pela aluna

Michelle Ivana dos Santos, filha

da professora Regina Coeli dos

Santos (militante do Movimento

Negro), chamou-a de "racista com-

plexada". A mãe da garota levou o

fato ao conhecimento da Diretoria

da escola, que não deu muita impor-

tância ao caso. Então, representan-

tes do Movimento Negroe estudan-

tes, realizaram uma manifestação

de protesto em frente à escola. A

Direção solicitou a presença de po-

liciais do 12° Batalhão de Caçadores

da PM para dissolver a passeata. O

professor A. Carlos disse em sua

defesa, que foi apenas "uma brin-

cadeira".

O IPCN (Instituto de Pesquisa

das Culturas Negras), juntamente

com outras entidades, lançou uma

nota de protesto em que diz, a certa

altura: "Os esteriótipos raciais, as

piadinhas "inocentes" sobre ne-

gros, são as formas populares que

servem ao racismo e à discrimina-

ção racial." Exigimos igualdade

e respeito à nossa raça!


Maio/Junho CONSCIÊNCIA NEGRA Pág.7

A partir desta edição, coloca-

mos este espaço à disposição dos

companheiros que queiram enviar

cartas ao nosso boletim, ou que

queiram, por meio dele, fazer co-

mentários, denúncias, trocas de no-

tícias e experiências.

Começamos por publicar tre-

chos das cartas que temos recebido

de diversos estados. Agradecemos

aos que nos escreveram, seu apoio

e as palavra de estímulo.

"Caros companheiros,

Meu desejo sincero é que tudo

esteja caminhando muito bem, a

partir das exigências que estão sen-

do emergentes ao grupo.

Neste sentido, gostaria de re-

ceber o jornal "Cojisciência Ne-

gra", que tive oportunidade de ler

numa exposição de jornais, recen-

temente.

(...) Agradecido pelo seu auxí-

lio no compromisso mais eficaz,

junto e comprometido à causa ne-

gra, felicito pela iniciativa de co-

municação".

Marcos Rodrigues da Silva - São

Paulo - SP

"Prezado amigo,

Li o n° zero de "Consciência

Negra"e me empolguei porque co-

loca a realidade e fala claro dos que

fizeram este Brasil crescer, foram

pisados ... mas, sempre é hora de

se libertar.

(...) Faço votos que o jornal al-

cance seus objetivos".

Racso Rnf - Altamira -PA

"Sou uma voluntária italiana e re-

cebi de uma outra colega de Goiânia

o n° 0 de "Consciência Negra".

Gostei muito! estou pedindo cinco

assinaturas para as bases.

Aproveito para perguntar o se-

guinte: Há grupos de Consciência

Negra em Salvador ou redondezas?

Vocês poderiam enviar-me um en-

dereço? Agradeço, esperando en-

contrar vocês um dia".

Augnstina Dori Marchetti - Sal-

vador BA

R: Estamos respondendo sua sim-

pática e animada carta. Aguarde!

"Sr. Diretor

peço-lhe o favor de mandar

por escrito o que devo fazer para

assinar o jornal "Consciência Ne-

gra". Sou religiosa e me interesso

muito de saber a história de nossas

raízes. Sou negra e bisneta de afri-

cana".

Tereza de Assis Poveno - Campi-

nas - SP

"Companheiros!

Agradeço pelo envio de

"Consciência Negra", em seu

primeiro número. A publicação é

muito oportuna. Peço assinatura.

Milton Schwantes- São Leopoldo

- RS

"Caros companheiros!

Foi uma grande alegria receber

o jornalzinho do grupo. Pela pri-

meira vez estamos vendo uma coisa

nossa e feita por nós. A luta conti-

nua, aqui e ali! Vamos em frente!

(...) Espero que vocês, com este

jornal, possam atingir por todos os

cantos e recantos como aqui. (...)

Esta cidade não se encontra no ma-

pa, mas estão aqui centenas de ir-

mãos negros se consumindo nas

carvoeiras dos grandes proprietá-

rios da UDR.

Gostaria de assinar o jornal e

dividir com eles a luta de tantos,

como eles, em busca da libertação

que nos cabe".

Maria Júlia Pires - Águas Verme-

lhas - MG

HUMOR HUMOR

Q verdadeiro

rosto

(William Augusto Pereira,

do Grupo de União e

Consciência Negra do Ceará).

Acorda negro!

Ergue-se,

Levanta a cabeça e caminha.

Não esmorece

Luta.

Teu povo te espera

confiante.

Não te acovarde

Luta.

Acorda negro!

Assume a tua negritude

Destrói essa máscara

que cobre o teu rosto.

Mostra-o a todos.

Deixa que a brisa

deslize nesta face crua.

Nua, verdadeira, real.

Acorda negro!

É hora de lutar.

Desfaz esse disfarce

de branco

Dessa fantasia

que te corrói

que destrói tua identidade

que te marginaliza.

Assume a tua negritude.

Es um negro.

Assume essa realidade.

E verás a felicidade

rodear teu corpo límpido.

Sentir-te-ás um ser

completo.

Um homem, enfim.

QmmÂlthíàLtá

u^amjcil ounopeju-/ OJ&OSLCU

Pintor Daltônico Desmoraliza Diferença Racial

-Vol. 5 / n" 25 CIÊNCIA HOJE

Para você ler

Consciência Negra recomenda:

EM PEDAÇOS

de Vera Cristina Santa-

na Vilar

Poeta sergipana, de Própria,

negra, ela mesma fala de seu livro

de poemas: "EM PEDAÇOS é um

conjunto de experiências vividas e

observações do cotidiano.

EM PEDAÇOS é isso: a recons-

tituição escrita de várias vidas, in-

clusive a sua".

Pedidos à autora, por meio do

Grupo de União e Consciência Ne-

gra.

UM POUCO DA RAÇA

de Luiz Ferreira

Lima

Poeta negro, cearense. Na apresentação

deste livro, William Augusto

Pereira destaca que "este trabalho

vem nos enriquecer, pois conta,

de maneira simples e verdadeira,

um pouco da história do nosso povo

negro. E um subsídio valioso para

todos nós; e mais precioso ainda para

os "Quilombos alevantados".

Pedido ao autor, por meio do

Grupo de União e Consciência Negra.

AS RAÍZES DA ESCRAVIDÃO

N° 2 da Série Caminhos da

Escravidão, uma publicação do Ce-

hila.

Cordel narrando as origens da

escravidão e as condições de vida

dos escravos negros no período co-

lonial do Brasil.

PALMARES DE LIBERDA-

DE E ENGENHOS DE ESCRA-

VIDÃO

N" 1 da Série Caminhos de

Libertação, do Cehila.

Um relato, em versos, da vi-

brante história dos levantes dos es-

cravos negros, da criação e resis-

tência dos Quilombos.

QUANDO OS ATABAQUES

BATEM

N" 2 da Série Caminhos de

Libertação, do Cehila.

Um trabalho crítico, que le-

vanta importantíssimas reflexões

sobre a realidade do negro e fornece

subsídios para avaliar a situação de

hoje e confrontá-la com o passado

do povo negro.

Pedidos ao Cehila

NEGRO TEM VALOR

Uma publicação das Edições

Paulinas, em apresentação bastante

didática; um valioso auxílio para

negros e não negros aprofundarem

na questão do racismo, como um dos

pilares desta sociedade de classes

e selvageria institucionalizada.

Pedidos a Edições Paulinas


Pág. 8 CONSCIÊNCIA NEGRA Maio/Junho

Conforme o que prometemos

no n" 0 de Consciência Negra, re-

tomamos a "História da Escravidão

no Brasil".

Já vimos como era a situação

da Europa e de suas colônias na

época dos descobrimentos, e o que

levou as "metrópoles" a criarem o

sistema de escravidão para o traba-

lho nas plantações das colônias.

Veremos agora como se reali-

zava o aprisionamento de escravos

na África, as tentativas de escravi-

zar o índio e a opção definitiva pelo

braço negro.

TRAFICO NEGREIRO:

NEGÓCIO RENDOSO

0 Povo negro no história do Brasil

UM

O enriquecimento das "metró-

poles" às custas das colônias re-

cém-descobertas influenciou a ar-

rancada capitalista nos países euro-

peus e, conseqüentemente, o apare-

cimento de duas classes sociais: os

patrões e os operários.

Portugal só tinha interesse em

povoar o Brasil, na medida em que

isso produzisse mais riquezas para

o governo e as camadas privilegia-

das do país. No Brasil, as condições

para o trabalho livre não eram favo-

ráveis aos portugueses. Com as ter-

ras desocupadas que havia então,

ninguém queria, de livre vontade,

trabalhar nas plantações de cana em

troca de salário.

Nisso, os portugueses concluí-

ram que o trabalho de plantar cana

teria que ser realizado pelos escra-

vos. Na época, Portugal já fazia trá-

fico de negros, da África para a Eu-

ropa e era um negócio rendoso. O

tráfico negreiro para o Brasil, abri-

ria um novo espaço para o comércio

e seria uma nova fonte de lucros

para os comerciantes e para o go-

verno portugês.

A ESCRAVIZAÇÃO DO ÍN-

DIO

Durante o período colonial, os

índios foram caçados, vendidos e

obrigados a trabalhar para os por-

tugueses. As tribos eram massacra-

das e os portugueses estimulavam

as guerras entre elas para conseguir

mais escravos.

Porém, não era muito fácil

manter os índios no eng enho, por-

que eles conheciam bem a terra, es-

tavam em sua casa, com sua gente

e tinham mais facilidade em fugir

do que o negro.

Além disso, o lucro por índio

vendido, ficava dentro do Brasil,

não ia para Portugal. Portanto, a co-

roa portuguesa interessava-se mais

pelo tráfico africano.

Na perseguição contra os ín-

dios, quem mais se destacou foram

os bandeirantes paulistas, aqueles

mesmos que n? escolas, aprendemos

a venerar como "heróis". Na verda-

de, eram aventureiros em busca de

lucros, a serviço dos portugueses,

roubando, prendendo e perseguindo

os índios e mais tarde, os negros

fugitivos.

OS NEGROS NA ÁFRICA

MflJMBÜT-LL.AC" Vil

Os africanos que vieram para

o Brasil saíram de regiões diferen-

tes, de tribos diversas, cada uma

com seus próprios costumes, sua

própria língua e diferentes níveis

de desenvolvimento econômico.

De maneira geral, os negros

trazidos para o Brasil vieram de

dois grandes grupos: Sudaneses e

Santos.

Entre os Bantos, vieram os Ca-

bindas, do Congo; os Bengnelas,

de Angola; os Mnxcongose Reho-

los, também de Angola; os Macoase

os Angicos, de Moçambique.

Entre os Sudaneses, vieram os

lonrubas ou Nagôs, da Nigéria; os

Geges ou Ewes, do Daomé; havia

sudaneses de influência muçulma-

na, como os Hançase os Mandigas.

Como já dissemos, esses povos

tinham culturas diferentes. Os lo-

rubas, por exemplo, tinham aper-

feiçoado o técnica de uso dos me-

tais. Na África, tinham sociedades

baseadas no uso comum da terra,

onde trabalhavam em conjunto.

Quando os portugueses chega-

ram na África, encontraram civili-

zações avançadas e ricas, que eles

destruíram para transformá-las em

fonte de mão de obra escrava.

PORTUGAL NA ÁFRICA

Até 1448, muitos negros afri-

canos já tinham sido levados como

escravos para Portugal. Em 1551,

em Lisboa, de cada 100 habitantes,

10 eram escravos negros.

O rei português ganhava 10%

na venda de escravos e a Ordem de

Cristo (dos padres Jesuítas) ganha-

va 5%. Portugal vendia também,

muitos escravos para as colônias

espanholas, nas ilhas da América

Central.

O negro era vendido a metro e a

tonelada, como mercadoria. Um ne-

gro adulto, com 1,75 m, correspon-

dia a uma peça. Três peças faziam

uma tonelada. Duas crianças, de 4

a 8 anos, correspondiam a uma peça.

Três meninos, de 8 a 15 anos, duas

peças. Dos 36 anos aos 40 anos, dois

negros, uma peça.

O tráfico negreiro ganhou mais

peso para o Brasil, a partir de 1550,

com o crescimento da cultura cana-

vieira. Para caçar os negros na

África, Portugal estimulava as

guerras entre as tribos. Faziam

alianças com os chefes, que perse-

guiam outras tribos e embarcavam

os vencidos como escravos.

Os negros que eram presos e

entregues aos portugueses, eram

marcados com ferro em brasa e fica-

vam trabalhando perto do porto, em

roças de mandioca até serem embar-

cados nos navios negreiros, com

destino a Portugal, América do

Norte, Cuba, Antilhas, Jamaica,

Haiti, Brasil e Guianas.

Mais de cem milhões de afri-

canos foram mortos naquele tempo,

entre os que eram vitimados pela

guerra e os que eram escravizados.

Na Ilha de São Tome, na África,

- onde os portugueses tinham plan-

tação de cana - houve várias revol-

tas que ficaram na História, como

as de 1574 e 1595.

A miséria atual dos povos afri-

canos é uma das mais graves conse-

qüências da escravidão e das guer-

ras.

No próximo número, veremos

como se dava o tráfico de negros,

as características da produção no

tempo colonial e as condições de vi-

da dos escravos negros nos enge-

nhos de cana-de-açucar.

Da série Humor (anti)

Negro, de Pestana publicada

no Correio Brazileiense

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