Revista Santa Cruz Ano 76 - 2012 - janeiro/março - Franciscanos ...

ofm.org.br

Revista Santa Cruz Ano 76 - 2012 - janeiro/março - Franciscanos ...

Revista Santa Cruz - 1


2 - Revista Santa Cruz


EDITORIAL

Eu fi co com a pureza

da resposta das crianças.

É a vida, é bonita e é bonita!

(Gonzaguinha)

Embalados pelos versos do saudoso poeta,

iniciamos o ano de 2012, trazendo o primeiro número da

Revista Santa Cruz! Com alegria, registramos a presença amiga

do Visitador Geral frei Wanderley Gomes de Figueiredo que

nos ajudará na preparação e celebração de mais um Capítulo

Provincial, em outubro.

“É a vida, é bonita e é bonita!” Este número da Revista Santa

Cruz é, na verdade, um espelho que reproduz um pouco da vida

de nossa querida Província: desde os relatos de celebrações

de Profi ssão Solene, até os “in memoriam” de confrades que já

habitam na “Morada do Altíssimo” e desfrutam da plena vida,

“diante do trono e do Cordeiro”.

Instigados pela Campanha da Fraternidade deste ano que, mais

uma vez, retoma a temática da saúde pública, mais forte se faz o

nosso canto em favor da “vida em abundância” para todos.

Preparemo-nos para a Páscoa, a festa da vida!

Uma boa leitura a todos!

Revista Santa Cruz - 1


2 - Revista Santa Cruz


SUMÁRIO

EDITORIAL.................................................................................................... 01

RECADO DO LEITOR ................................................................................04

DOCUMENTAÇÃO

- Da Cúria Provincial: Mensagem do Visitador Geral da PSC, frei

Wanderley Gomes de Figueiredo ......................................................... 05

VIDA DA PROVÍNCIA

1. Profi ssões solenes

(Freis Arlaton de Oliveira e Luís Fernando N. Leite) ............................ 08

2. III Encontro Internacional de Comissários da Terra Santa

(Frei Francisco Alexandre Viana) ............................................................. 13

3. Entrevista com os freis Ronaldo Zwinkels e Cornélio van Velzen

(Freis Júnio Fernando e Arlaton de Oliveira) ........................................ 15

REFLEXÃO

1. Saúde na perspectiva da ecologia integral

(Ana Maria Vidigal Ribeiro e José Luiz Ribeiro de Carvalho) ............ 30

2. Resistência popular implícita

(Frei Francisco van der Poel, OFM) .......................................................... 33

MEMÓRIA

1. “In memoriam” de frei Frederico Voorvelt

(Frei Celso Márcio Teixeira) ...................................................................... 35

2. “In memoriam” de frei Estanislau Bartholdi

(Frei Hilton Farias) ...................................................................................... 44

UMAS E OUTRAS

- Humor franciscano .................................................................................. 57

Revista Santa Cruz - 3


4 - Revista Santa Cruz

RECADO DO LEITOR

“Eu canto e danço com prazer;

Tu me curaste, me fi zeste reviver! (Is 38)

Graças a Deus, no dia 08 de novembro do ano passado, após ter fi cado

três semanas sedado e entubado, no CTI cardiológico do Hospital Felício

Rocho, acordei vivo, graças também aos intermediários, mediante os quais

Deus me socorreu. Entre outros, o meu guardião frei Gabriel, que não

demorou em me levar para Belo Horizonte, o meu cardiologista doutor

Pedro Roberto Guimarães e outros médicos e enfermeiros do Hospital, a

Sra. Maria do Socorro, mãe de duas enfermeiras de nossa casa, em Carlos

Prates, que me fez companhia, no hospital, durante 15 dias. Muito grato

sou também aos confrades de Carlos Prates que, sob a atenta coordenação

de seu guardião, frei Fabiano, me acolheram durante o longo período de

convalescença, desde o dia 22 de novembro, festa de Santa Cecília.

Muito especialmente quero aqui agradecer as inúmeras e perseverantes

orações com que muitas pessoas, dentro e fora de Santos Dumont, rezaram

pela minha recuperação. Como me valeram essas constantes rezas! O meu

“muito obrigado!” por tudo isto!

Voltando para Santos Dumont, espero poder trabalhar mais uns tempos

a serviço do Reino, se Deus quiser!

Santos Dumont, 15/02/2012

Frei Joel Postma, OFM


DOCUMENTAÇÃO

- DA CÚRIA PROVINCIAL

CARTA DE SAUDAÇÃO À

FRATERNIDADE PROVINCIAL

DO VISITADOR GERAL DA PSC,

FREI WANDERLEY GOMES DE

FIGUEIREDO

Caros confrades,

O Senhor vos dê a Paz!

Com satisfação, damos início à

Visita Canônica nesta Província

Santa Cruz, entidade querida pela

Revista Santa Cruz - 5


Ordem, tão importante para o povo

de Deus no estado de Minas Gerais

e Sul do estado da Bahia.

Estou aqui em nome do Governo da

Ordem e transmito a cada frade e a

cada fraternidade a saudação desse

mesmo Governo. De um modo

especial, transmito a saudação fraterna

do nosso Ministro Geral.

A Visita Canônica é um momento

fraterno e tem como principais

fi nalidades saudar a cada um dos

irmãos com benignidade e familiaridade,

confortar e admoestar

com humildade e caridade (cf.

EE.PP - da Visita Canônica, 3). Enfi m,

é um momento kairótico, momento

de graça para o fortalecimento

da fraternidade local, provincial e

universal.

Espero conhecer a situação em

que se encontram a Província,

as fraternidades e cada frade

em especial, além de estimular

a todos nos diferentes aspectos

da nossa vocação: vida fraterna,

evangelização e missão, formação

e sustento econômico. Faço votos

que consigamos reforçar em nós a

comunhão com a Ordem e com a

Igreja, além de alicerçar a presença

franciscana comprometida com

as exigências do mundo atual (cf.

EPVC, 26-31).

Os guardiães preparem este

momento de encontro e tomem as

seguintes providências:

6 - Revista Santa Cruz

1. organizem uma celebração de

início da Visita Canônica;

2. apresentem os seguintes livros:

visita canônica, crônicas, ata de

capítulo local, missas celebradas

e contabilidade; no caso das

paróquias, apresentar, também, os

livros de crônicas e de tombo;

3. agendem uma visita ao bispo

diocesano;

4. organizem um encontro com os

irmãos e irmãs da OFS, JUFRA e

OSC;

5. agendem um encontro com o

Conselho Paroquial;

6. organizem um Capítulo local

e um recreio para o encerramento

da Visita Canônica em cada

fraternidade.

Segundo os Estatutos Particulares

para a Visita Canônica e Presidência

do Capítulo Provincial, o Visitador

Geral tem como elementos importantes

para a avaliação da vida

fraterna na fraternidade Provincial

e local (cf. EPVC, 26):

a. a participação na vida fraterna,

particularmente no Capítulo local;

b. o cultivo da oração e devoção;

c. a postura de menores e de construtores

da justiça e da paz;

d. a fi delidade e o devotamento ao

trabalho;

e. a vida em pobreza;


f. a promoção do carisma franciscano.

Com o objetivo de possibilitar uma

boa visita às fraternidades, foi feita

uma programação com o tempo

reservado para cada fraternidade,

garantindo, assim, que este seja

um momento de revigoramento,

celebração do dom da vocação e

revisão sincera e esperançosa da

nossa vida e missão.

O Capítulo Provincial terá início

com o jantar do dia 19/10/2012,

em Santos Dumont. Encerrar-se-á

com o almoço do dia 25/10/2012. A

Comissão Preparatória do Capítulo

(CPC) - formada por fr. Gabriel de

Lima Neto, fr. Adilson Corrêa da

Silva, fr. Joaquim Fonseca de Souza

e fr. Jaime Eduardo Ribeiro - esteve

reunida no dia 7/2/2012 comigo e

com o Ministro Provincial para dar

início ao trabalho pré-capitular,

conforme os EEPP da PSC (Art. 83

e 84).

Peço com carinho que cada irmão

dê atenção especial a tudo aquilo

que for solicitado pela CPC, para

que a celebração do Capítulo seja

expressão sincera da fraternidade

provincial. Que cada um se empenhe

da melhor forma possível,

pois será o envolvimento pessoal

que garantirá a consolidação do

bem maior da fraternidade.

Estou à disposição de todos. Meu

endereço postal e eletrônico está

abaixo. Fiquem inteiramente à

vontade para entrar em contato.

Agradeço a acolhida carinhosa e

confi ante de todos. Vou me esforçar

para realizar bem o trabalho

fraterno da visitação. Com certeza,

será uma experiência de renovação

e de enriquecimento para a

minha vida pessoal. Deus abençoe

a todos.

Um abraço fraterno.

Belo Horizonte, 07/02/ 2012

Frei Wanderley Gomes de

Figueiredo, OFM

Visitador Geral

Rua 14 de Julho, 4213

São Francisco

79010-470 Campo Grande – MS

Email: freiwando@bol.com.br

(67) 3356-4509/9644-0348

Revista Santa Cruz - 7


8 - Revista Santa Cruz

VIDA DA

PROVÍNCIA

Nesta seção, encontram-se dois breves relatos sobre a profi ssão

solene de cinco confrades da PSC e de um da Fundação Nossa

Senhora de Fátima. Na sequência, uma crônica sobre o “III

Encontro Internacional dos Comissários da Terra Santa” e

uma entrevista com os confrades jubilares Ronaldo Zwinkels e

Cornélio van Velzen.

1. PROFISSÕES SOLENES

1.1. NA PROVÍNCIA SANTA CRUZ

Frei Arlaton de Oliveira, OFM

Na solenidade da Apresentação

do Senhor, no dia 2 de fevereiro,

na igreja São Francisco das

Chagas, em Belo Horizonte, professaram

solenemente os freis

Irwin Couto Silva, Robério Antunes

Ruas, Rogério Rodrigues, Júnio

Fernandes Marques e Luciano

Lopes.


Da direita para a esquerda: Irwin, Júnio, Luciano, Robério e Rogério.

A celebração foi presidida pelo

ministro provincial frei Francisco

Carvalho Neto e concelebrada

por frei Adilson Corrêa da Silva,

pároco da referida Igreja. Estiveram

presentes confrades de várias

fraternidades da Província Santa

Cruz, postulantes, familiares e

amigos dos frades professandos.

Em sua refl exão, o ministro provincial

ressaltou a importância

de se escolher esse dia para a

realização das profi ssões solenes,

na Província. Ele fez a relação

entre a festa da Apresentação do

menino Jesus no Templo com a

consagração religiosa. Segundo

ele, a consagração é, na realidade,

uma “apresentação”, uma entrega

total ao Senhor. Buscando

estabelecer um paralelo entre os

pais de Jesus, que o trouxeram ao

Templo para ser consagrado ao

Senhor, frei Francisco se referiu aos

pais dos professandos, num tom de

agradecimento, dizendo que, de

alguma forma, eles também, hoje,

entregam seus fi lhos aos cuidados

de Deus, da Igreja e da Ordem.

Em seguida, discorreu sobre a

vocação do papel do religioso

no mundo atual: por meio dos

conselhos evangélicos, o frade

menor torna-se sinal e presença

de Deus e, por isso mesmo, deve

se posicionar e testemunhar o

Evangelho na oração e no serviço

ao reino de Deus.

O Provincial ainda recordou aquilo

que é próprio da Ordem dos

Frades Menores: reconhecer-se

Revista Santa Cruz - 9


como irmão menor que se coloca

disponível para o serviço do Reino,

com humildade e simplicidade.

“Somos uma fraternidade. Somos

irmãos e atuamos em conjunto,

atentos àquilo que o Senhor quer

de nós!”- enfatizou.

Terminada a homilia, procedeu-se o

rito da Profi ssão. Diante do ministro

provincial, os frades afi rmaram

seu desejo de se consagrarem

defi nitivamente na Ordem dos

Frades Menores. Logo após o

canto da “Ladainha dos santos”,

cada um se ajoelhou diante de frei

Francisco e, nas mãos dele, emitiu

seus votos de pobreza, castidade

e obediência. Depois de terem

recebido um exemplar da “Regra

da Ordem dos Frades Menores” e

a bênção, os neoprofessos foram

calorosamente acolhidos pelos

frades e parentes mais próximos

com o abraço da paz.

No fi nal da celebração, frei Luciano

Lopes fez os agradecimentos em

10 - Revista Santa Cruz

nome dos colegas neoprofessos.

Recordou do período de formação

inicial e agradeceu a todos que, de

algum modo, estiveram envolvidos

nessa etapa, especialmente os

confrades formadores e os irmãos

de caminhada. Agradeceu, de

modo especial, a seus familiares

e amigos, bem como a todas as

pessoas que os acolheram em

suas comunidades de origem,

onde foram realizados os “tríduos

vocacionais”. Por fi m, agradeceu a

presença de todos.

Após a celebração, toda a

comunidade se dirigiu ao salão

paroquial para o jantar de

confraternização, preparado pelos

leigos da paróquia São Francisco

das Chagas.

Aos confrades neoprofessos, o

desejo sincero de perseverança,

saúde, ânimo. Possam, a exemplo

do Seráfi co Pai São Francisco, ser

instrumentos da paz e do bem.


1.2. NA FUNDAÇÃO NOSSA

SENHORA DE FÁTIMA

(TRIÂNGULO MINEIRO)

Frei Luís Fernando N. Leite,

OFM

A Fundação Franciscana de Nossa

Senhora de Fátima do Brasil, no

Triângulo Mineiro, esteve em festa

entre os dias 08 a 11 de dezembro

de 2011, em vista da profi ssão

solene na Ordem dos Frades Menores

do confrade frei Emanuel

Fernandes Pereira. Durante esses

dias, recebemos, em nossa região,

os confrades do Convento Santa

Maria dos Anjos, de Betim, e outros

freis da Província Santa Cruz.

Também esteve presente frei Pedro

Silva, de Guaratinguetá (SP), da

Província da Imaculada Conceição,

além de religiosas e leigos que,

com alegria e disponibilidade, colaboraram

na preparação do povo

de Deus para essa grande festa,

durante o tríduo vocacional.

O primeiro dia do tríduo (8/12) foi

celebrado na cidade de Araguari,

na comunidade “Nossa Senhora

Desatadora dos Nós”, dia da festa da

padroeira. Festa bonita, igreja cheia

e muita alegria. Nessa paróquia,

frei Emanuel fez a experiência de

seu “ano franciscano”, em 2010.

Durante o dia, foram visitadas as

escolas do Bairro de Fátima e os

doentes; à noite, a celebração.

No dia seguinte, a equipe missionária

se dirigiu para a cidade

de Uberlândia para o segundo e o

terceiro dia do tríduo, na Paróquia

Nossa Senhora de Fátima. À noite,

a comunidade se reuniu para a

celebração. Era visível a alegria

e a surpresa do povo ao ver tantos

frades reunidos, animados,

celebrando a vida e a vocação, na

paz e no bem.

Revista Santa Cruz - 11


Na manhã do dia 10, às 6h20min, os

frades já estavam na rua, em frente

à casa da fraternidade franciscana

para se dirigirem ao Mosteiro

Monte Alverne das Irmãs Clarissas.

Ali, na alegria e na simplicidade,

com as irmãs, iniciamos o terceiro

dia do tríduo com a celebração

da eucaristia. Rendemos graças

a Deus por Francisco e Clara de

Assis, pela vocação do frei Emanuel

e também pela vida do frei Pedro,

que celebrava seu dia natalício.

Depois da celebração, ganhamos

um delicioso café da manhã,

oferecido pelas irmãs. No início

da noite, às 18h, na Matriz de

Fátima, celebramos junto àquela

comunidade. Depois da celebração,

nos reunimos para um

recreio fraterno na comunidade

franciscana, com todos os frades,

inclusive o ministro provincial frei

Emanuelle que chegara da Itália,

no período da tarde, junto do secretário

provincial frei Martino.

Chegado o grande dia (11/12),

às 10h, deu-se início à celebração.

Uma celebração pautada no anúncio

da vinda do Salvador feito

homem que veio morar no meio

de nós, do Deus que põe em prática

o seu projeto de salvação

dos humildes. Essa humildade

expressa na vida de Francisco que

abraçou o Cristo pobre humilde e

crucifi cado. Durante a celebração,

o ministro Provincial expressava

12 - Revista Santa Cruz

em palavras com ajuda e tradução

do frei Rodrigo de Castro, a

alegria de presidir esse momento

tão importante para a Ordem

Franciscana, para a Igreja e a todos

que amamos Francisco de Assis.

A celebração durou três horas,

mas não nos cansou. O momento

mais emocionante foi quando frei

Emanuel pronunciou a fórmula da

Profi ssão, entregando a Deus Pai

sua vida, fazendo o bom propósito

de viver mais de perto o Santo

Evangelho, à luz dos conselhos

evangélicos de Obediência, Nada

Próprio e Castidade.

Ao fi nal da celebração, feitos

todos os agradecimentos e homenagens

da parte de familiares

e dos confrades do convento Santa

Maria dos Anjos, frei Emanuel

agradeceu a todos aqueles que, de

uma maneira ou de outra, fi zeram

e fazem parte de sua formação.

Depois de participarmos do banquete

eucarístico, todos foram convidados

para um delicioso almoço

nesse dia de alegria.

Que o Deus da vida ajude e dê força

ao frei Emanuel nesse encargo que

ele abraçou com toda a alegria do

coração.


2. III CONGRESSO INTERNACIONAL

DE COMISSÁRIOS DA TERRA

SANTA

Frei Francisco Alexandre Viana,

OFM

Aconteceu, do dia 30 de janeiro

a 05 de fevereiro de 2012, no

convento São Salvador, sede

da Custódia da Terra Santa, em

Jerusalém, o III Congresso Internacional

de Comissários da Terra

Santa. Éramos 116 participantes,

entre comissários da Terra Santa,

vice-comissários, amigos e auxiliadores

dos frades neste serviço.

Iniciamos com a eucaristia presidida

por nosso ministro Geral,

frei José Rodrigues Carbalho.

Na sua homilia, ele destacou a

importância do encontro com o

Senhor, que nestas terras viveu,

anunciou a sua boa-nova, morreu e

ressuscitou. Este mesmo encontro

motivou Francisco de Assis a

enviar seus frades, em 1217, à

Terra Santa e, ele mesmo, fazendo

esse caminho, em 1219.

Desde esse momento em diante,

a presença franciscana nos

“lugares santos” nunca se interrompeu.

Em 1432, foi concedida

aos frades a tarefa de custodiar

esses lugares, em nome da Igreja.

Cada dia do Congresso começava

com a celebração da

eucaristia. Depois tínhamos as

refl exões feitas em plenária para,

em outro momento, refl etirmos

em grupos os diversos assuntos

apresentados. Os temas principais

desse nosso Congresso foram: a

elaboração de um Vade mecum

que sirva de instrumento de

trabalho e orientação entre comissários

e a custódia; a relação

dos comissariados com as dioceses,

províncias e custódias; uma

apresentação dos diversos trabalhos

realizados pela Custódia; a

Revista Santa Cruz - 13


criação de uma revista Terra Santa

em português; a importância do

serviço da Terra Santa como um

campo privilegiado da Ordem dos

Frades Menores; uma prestação

de contas referente à contribuição

dos comissariados e os novos

desafi os frente à diminuição dos

comissariados na Europa.

Foram momentos fortes de vivência

da fraternidade universal,

como desejava nosso Pai São

Francisco. Também foram fortes os

momentos celebrativos. Destaco

aqui a celebração da eucaristia

diária, a celebração de vésperas na

Basílica da Natividade, em Belém,

a Via-Sacra e a eucaristia na Basílica

do Santo Sepulcro.

Desta última, chamou-me a

atenção a homilia de nosso Custódio,

frei Pierbattista Pizaballa,

que enfatizou o acontecimento

14 - Revista Santa Cruz

da Ressurreição como a palavra

de força transformadora de vida.

Palavra capaz de mudar situações

e de transformá-las em situações

de ressurreição. Sendo também

palavra de encorajamento para

nós, no anúncio do evangelho e

do serviço ao povo de Deus nestas

terras.

Por fi m, desejamos que esta

mesma palavra ajude a cada um

de nós frades a viver e praticar

o evangelho no nosso dia a dia.

E que possamos descobrir a importância

deste “quinto evangelho”,

a Terra Santa, com seu valor

histórico de salvação e a sua

beleza na diversidade de povos,

mesmo diante dos desafi os. Que

possamos, como Francisco de Assis,

sermos anunciadores deste serviço

confi ado à nossa Ordem.


3. ENTREVISTA COM OS FREIS

RONALDO ZWINKELS E CORNÉLIO

VAN VELZEN

Neste ano de 2012, os freis Ronaldo

Zwinkels e Cornélio van

Velzen celebram 60 anos de vida

consagrada. Nas páginas que se

seguem, dentre outras coisas, eles

nos falam de sua vocação e missão.

3.1. FREI RONALDO ZWINKELS

RSC: Frei Ronaldo, fale um pouco

sobre você, sua origem e sua família.

Frei Ronaldo: Minha mãe entrou

em trabalho de parto dia 14 de

fevereiro de 1929, durante um dos

invernos mais rigorosos e severos

dos últimos 50 anos. A parteira não

conseguia resultado e meu pai foi,

de bicicleta, buscar o médico da

família, de madrugada, pedalando

2 km sobre gelo e neve, com uma

temperatura de muitos graus

abaixo do zero.

O motor do carro Ford 29 do

médico estava congelado. Eles

foram então à garagem da Vios,

empresa de viação, que mantinha

dois ônibus de motor ligado

durante a noite inteira. A empresa

colocou um ônibus à disposição

e os dois encontraram

minha mãe em situação crítica.

O médico foi competente e logo

nasceram inesperadamente dois

fi lhos: Johannes Paulus e Adrianus

Petrus, a minha pessoa, na garupa.

Surpresa geral e trabalho dobrado

para nos manter aquecidos.

Nasci e fui criado no município de

Wateringen, na Holanda do Sul, na

região Westland, hoje conhecida

como “A Cidade de Vidro”, assim

chamada por causa de um seriado

na TV sobre aquela região típica

que concentra o cultivo de fl ores,

verduras e frutas em sistemas

de estufas de vidro. Região situada

entre as cidades de Haia e

Rotterdam.

Sou de uma família numerosa, de

14 fi lhos, cinco homens e nove

mulheres. Com meu irmão gêmeo,

Revista Santa Cruz - 15


somos o segundo e o terceiro.

Meu pai era horticultor de estufa.

Em apenas dois hectares de terra,

(tamanho médio na época), em

grande parte coberta de estufas,

cultivávamos uvas de mesa como

produto principal, e pêssego, tomate,

pera e maçã, e toda a espécie

de hortaliça que os campos

abertos só conseguiam produzir

em tempo de verão.

Desde cedo, nós, os fi lhos homens,

ajudávamos o pai e os empregados.

Vizinhos davam uma

mão extra em dias de colheita,

assim como nós os ajudávamos

também na hora do aperto. Desta

maneira, atravessavamos o difícil

período da crise econômica que

tinha estourado em 1929, em

nível mundial, afetando também

gravemente a horta e granjacultura.

Apesar das difi culdades fi nanceiras,

nós tivemos uma infância muito

boa. Sem maiores difi culdades

na escola primária. Muita opção para

brincar, apesar das constantes

brigas entre os alunos da escola

protestante e da católica. Havia

dois canais navegáveis para pescar

diversos tipos de peixe. Quando

pegávamos peixe demais, minha

mãe mandava jogar tudo para os

porcos ou galinhas. A criançada

da vizinhança frequentava muito

nossa casa.

16 - Revista Santa Cruz

No dia 10 de maio de 1940,

Alemanha declarou a guerra à

Holanda. Eu estava com 11 anos

de idade. Acordamos às quatro

horas da manhã. Olhamos pela

janela do segundo andar da

nossa casa e fi camos perplexos

pelo cenário que se desenrolava

diante dos olhos: combate aéreo

entre aviões holandeses e ingleses

contra os aviões alemães. Descida

de milhares de paraquedistas

alemães, saltando aos montes

de grandes aviões, aviões atacados

e em chamas. Era um cenário

infernal. Os alemães ocuparam,

de surpresa, o campo de aviação

militar Ypenburg, perto da nossa

casa. A família fi cou abrigada na

adega da casa. As estufas tiveram

grande prejuízo, pois fi caram com

muitos vidros estilhaçados.

Os militares alemães ocuparam

a nossa escola e a vida

mudou. O vigário da nossa paróquia,

que participava de nossas

brincadeiras, foi levado para

o campo de concentração em

Dachau. Foi libertado no fi nal da

guerra. O pároco da paróquia vizinha,

amigo da família, foi prisioneiro

e morto no campo de

concentração em Dachau. Os móveis

e outros bens particulares do

padre fi caram guardados em nossa

casa até o fi nal da guerra.

Um foguete V2 caiu num orfanato


a 1 km de distância, matando uns

vinte meninos e alguns irmãos de

alguma congregação religiosa. Um

irmão sobrevivente do instituto

fi cou hospedado conosco durante

uns quatro meses. Chegou só

com a roupa do corpo. A escola

protestante passou a ser a nossa

escola também. Tivemos aulas em

turnos diferentes, dividindo os

“bodes” das “ovelhas”. Um foguete

V1 pegou a ponta do telhado de

uma estufa nossa e matou um

amigo e colega de escola.

A fome agravou-se, recebíamos

crianças em turno para o almoço.

Muitos moradores da Haia

vinham buscar verduras ou frutas

às escondidas. Vender para o

povo era severamente proibido e

castigado quando descoberto. Eu

tinha que assumir muitas vezes

a responsabilidade, para meu

pai não sofrer as consequências.

Toda a produção tinha que ter a

Alemanha como destino. Entre

eles havia dois judeus que, no

fi nal da guerra, sumiram. Após a

guerra, reapareceram e vieram nos

agradecer. Uma rara foto da família

feita durante a guerra foi tirada por

eles.

Com 15 anos de idade tive que

fazer trabalho forçado, com toda

a população masculina disponível

para construir diques nos pólderes.

Estes pólderes foram depois

inundados sem dó ou piedade

pelos alemães, servindo de defesa

contra uma eventual invasão dos

ingleses.

Um alemão frequentava nossa

casa a pedido do pároco. Era um

padre da congregação dos Crúzios,

padre Fischer. Este foi forçado

a servir exército como enfermeiro

e celebrava a sua missa,

às escondidas, na Casa Paroquial.

Vinha com o pároco ou sozinho

“tirar prosa”.

RSC: Como surgiu a vocação franciscana?

Frei Ronaldo: Minha vocação era

ser missionário, desde criança. A

religiosidade da família, as pregações

de missionários na paróquia,

a frequência dos padres da

paróquia à nossa casa infl uenciaram

a minha vocação. A guerra

parecia ter matado minha vocação,

mas com o término da guerra, meu

antigo desejo de me tornar um

religioso retornou com mais força.

Aspirava ser missionário em Nova

Guiné.

Os franciscanos tinham missões

em Nova Guiné. Daí a vontade de

ser franciscano. Eu os conhecia

pelas pregações que faziam em

nossa Paróquia. Lutei durante um

bom tempo contra. Tinha que

Revista Santa Cruz - 17


decidir entre o seminário ou a

escola técnica agrícola. Gostava

do trabalho nas estufas e o ideal

de muitos fi lhos de cultivadores

em estufas era seguir a tradição

familiar. Meus irmãos e cunhados

todos escolheram de fato o mesmo

ramo.

Depois de muita hesitação e

fervorosa oração, fi nalmente decidi

e isto me causou uma grande

alegria. Falei com meus pais. Estes,

surpresos, acolheram, de bom

grado, a minha decisão. Quem teve

difi culdade de aceitá-la foi meu

irmão gêmeo.

RSC: E sua vinda para o Brasil?

Frei Ronaldo: Cheguei ao Brasil

no dia 1 o de novembro de 1955.

O Brasil não era minha primeira

opção. Quando, em Venraay,

chegou um pedido para que a

Província da Holanada enviasse

dois frades para fazer a teologia

no Paquistão, nosso mestre de

Filosofi a conseguiu convencerme

a aceitar a missão. Hans Baars,

o caçula da nossa turma, também

foi convidado. E aceitou também.

Seríamos, portanto, dois

missionários enviados para a Missão

de Paquistão.

Nesse ínterim, houve uma decisão

tomada em Paquistão de unir

18 - Revista Santa Cruz

a formação superior dos frades

do Paquistão e da Índia, além

de introduzir um terceiro ano

de Filosofi a. Esta decisão tornou

inviável mandar estudantes da

Holanda para lá sem antes terem

estudado teologia.

Logo depois chegou um pedido do

Brasil para mandar dois estudantes.

Nós dois fomos procurados pelo

vice-provincial. Hans Baars, o

caçula, preferiu terminar seus

estudos na Holanda e depois de

ordenado ir ao Paquistão. O que de

fato aconteceu, enquanto que eu

aceitei vir para o Brasil, junto com

Ângelo van Heiningen e Heleno

Smits. E me preparei com muito

entusiasmo.

A chegada de navio ao Rio de Janeiro

de madrugada foi deslumbrante.

Um novo mundo abriu-se

diante dos olhos, país tropical. Fui

encaminhado para Divinópolis,

viajando de trem de segunda classe

(experiência única!) e iniciei o curso

de teologia, em 1956.

Quanto à adaptação, esta se deu

naturalmente. A comida era pouco

variada nas últimas mesas, as

mesas dos novatos. Pelo costume

hierárquico que reinava no convento

o melhor nos pratos era

consumido nas mesas mais acima.


A convivência entre mineiros

e gaúchos (de origem alemã

ou italiana) e holandeses tinha

também suas difi culdades. Na

aprendizagem da língua não tive

professor, fui aprendendo por

conta própria, aos poucos. Às vezes

me sentia um minus habens,

por não conseguir me expressar

direito.

A religiosidade popular continha

forte expressão devocional e era

um elemento novo para assimilar.

Mas o povo aceitava a gente com

grande espontaneidade, o que

facilitava muito o processo de

adaptação.

RSC: Dentre os diversos lugares por

onde o senhor passou, há algum que

mais marcou sua vida?

Frei Ronaldo: Fora os lugares onde

estive por curto período, como em

Teófi lo Otoni, Nanuque, Salinas e

Taiobeiras, a minha vida pastoral

desenvolveu-se basicamente nos

seguintes lugares: Pirapora (7

anos), Medeiros Neto (15 anos),

Teixeira de Freitas (9 anos), Nova

Viçosa, Itabatan e Abaeté-Paineiras

(6 anos), Divinópolis (a partir de

janeiro 2001).

Os lugares mais marcantes foram:

- Pirapora: Em especial, a fundação

do Colégio Estadual Luiz Balbino,

no Serradinho, periferia da cidade.

Esta escola proporcionou o

desenvolvimento de um bairro

distante e de extrema pobreza.

Destaco também a construção

do Santuário Santo Antônio, os

longos giros a cavalo pelo interior

de Pirapora, Buritizeiro, Várzea da

Palma e Lassance; as aulas noturnas

e gostosas dadas à primeira

turma do recém-criado 2 o grau no

Ginásio São João Batista, tendo

o prefeito municipal e o pastor

da Igreja Batista entre os alunos e

muitos outros da “alta” da cidade.

Revista Santa Cruz - 19


Frei Ronaldo junto com o povo no sul da Bahia

- Medeiros Neto: O espírito do

Vaticano II trouxe novos métodos

e ação como, por exemplo: a

criação de comunidades urbanas

e rurais; a formação de lideranças;

a renovação da Catequese. O

religioso e o social se misturaram:

Registro civil das crianças; alfabetização

de adultos; fundação

do sindicato rural; construção

de centros comunitários; igreja e

agrovilas; lar dos idosos; cerâmica

e fi ltros de água. Guardo boas

recordações das viagens longas e

difíceis, de jipe, por estradas muitas

vezes quase intransitáveis e o

contato gostoso com o povo rural.

- Teixeira de Freitas: Foi um tempo

de desafi os: o maior deles foi

atender ao pedido do bispo

dom Antônio Zuqueto para que

organizasse duas paróquias na-

20 - Revista Santa Cruz

quele município que

mais crescia na Bahia.

Outros desafi os:

conciliar as diversas

tendências e linhas de

pastoral; coordenar

a pastoral diocesana,

além de contornar,

durante as assembleias,

tentativas de

manipulação da parte

de grupos de linhas

de pastoral divergentes,

nas decisões

fi nais; acompanhar

o crescimento desordenado

da cidade

formando, a cada ano, novas comunidades,

novas lideranças e

construindo centros de pastoral ou

igrejas nos bairros novos; realizar,

junto com o bispo dom Antônio,

o complicado e demorado processo

da formação da diocese de

Eunápolis.

Itabatan: É um capítulo à parte.

Trata-se de um pequeno distrito

de 1.000 habitantes que, dentro de

pouco tempo, atingiu a casa dos

10.000. Isto devido à implantação

da megaindústria de papel e

celulose Baía Sul. Itabatan não

tinha condições de administrar o

caótico crescimento em nenhum

setor público.

O bispo e o administrador do

distrito pediram minha colaboração

nessa fase explosiva de


expansão do lugar. Ajudei a amenizar

a falta de infraestrutura na

formação de um novo bairro, no

planejamento de um hospital diocesano,

na construção da igreja,

na formação da paróquia e na

projeção de um colégio diocesano.

Todo esse serviço tinha que ser

feito em paralelo com os serviços

existentes na paróquia em Teixeira

de Freitas.

RSC: Celebrando 60 anos de vida

religiosa, como o senhor avalia sua

vocação e missão?

Frei Ronaldo: A minha vida de 83

anos completos é mais abrangente

que a vida religiosa. As experiências

vividas antes dela mantiveram

forte infl uência. Elas continuam

enraizadas na minha vida. Fui

muito abençoado por Deus por

ter nascido e vivido numa família

numerosa que soube trabalhar e

partilhar.

A vida religiosa sustentou-me e me

incentivou na realização da vocação

missionária, daquele espírito

pioneiro que sentia. O governo

provincial me deu oportunidade

de trabalhar em terras pioneiras da

nossa Província. E neste sentido me

sinto realizado na vocação.

Avaliar minha vida é avaliar a mim

próprio, nas diversas fases da vida.

É inevitável fazer uma avaliação

sem olhar no espelho ou fazê-la

a partir da memória benevolente

de um idoso. Deus tem sido bom

e misericordioso comigo, também

nos momentos de crise. Se fui um

instrumento útil, agradeço a Deus.

Quando não pude corresponder

plenamente a minha vocação,

me cabe, agora, pedir perdão

a Deus e às pessoas que tenho

decepcionado.

RSC: Finalizando nossa conversa,

o senhor gostaria ainda de relatar

algo que não foi dito acima, mesmo

que seja um fato pitoresco?

Frei Ronaldo: Aí vai um episódio

curioso, acontecido numa fazenda

do Extremo Sul da Bahia.

Todos os anos, acontecia uma

grande festa de batizado, organizada

pelo gerente de uma

fazenda situada na divisa dos

municípios de Medeiros Neto e

Lagedão. Os agregados e as famílias

vizinhas traziam seus fi lhos

para se tornarem cristãos. O proprietário,

dono de uma usina de

açúcar, em Pernambuco, também

se fazia presente. O ambiente era

bem grosseiro.

Depois da celebração da missa

e do batismo, era servido um

banquete. Mesa copiosa de comida

gostosa. O prato principal dessa

Revista Santa Cruz - 21


vez foi um grande leitão assado,

trazido pelo gerente com muita

pompa e circunstância. O prato

foi colocado no centro da mesa

comprida com uma salva de

palmas! Os convidados esperavam

pelo segundo ato daquela “liturgia

do leitão”, ou seja, degustar a

saborosa iguaria.

Mal o gerente se afastara da mesa,

chegou um homem baixinho e

bêbado. Este pegou o suculento

prato e se dirigiu, às pressas, até o

chiqueiro e jogou o bicho para os

porcos!

Entre gritos e exclamações dos

comensais diante daquela inusitada

cena, apareceu o gerente

que agarrou o infrator e lhe deu

22 - Revista Santa Cruz

uma surra, na presença de todos. A

violência foi tamanha que o pobre

coitado mal podia levantar-se. O

vaqueiro pegou-o, arrastou-o e

trancou-o no depósito das selas e

dos arreios dos cavalos.

Não faltaram comentários da parte

dos presentes que, por um lado,

questionavam o fato em si e, por

outro, ponderavam que o “baixinho

bêbado” costumava aprontar

poucas e boas em ocasiões como

esta. E ainda: o comentário mais

pertinente era o de que aquele

pobre coitado “sabia demais”. Apesar

de tudo, a festa terminou em

paz, ninguém passou fome, comida

não faltou.


3.2. FREI CORNÉLIO VAN VELZEN

RSC: Frei Cornélio, fale-nos sobre sua

origem e vocação.

Frei Cornélio: Não é aconselhável

pincelar em poucas palavras

um tempo de 60 anos. Quem

projeta uma ponte sobre um rio

com pilares gasta muito tempo,

calculando, desenhando. O rio da

vida está cheio de imprevistos.

Quem é capaz de superá-los?

Lá se foram 60 anos de vida

consagrada. Tudo começou quando

eu tinha 21 anos de idade, em

Hoogcrutz, no sul da Holanda.

Além de Hoogcrutz havia mais

um noviciado em Stoutenburg, no

centro da Holanda. O número dois

signifi ca um número expressivo de

candidatos para a vida religiosa.

Muitos jovens se sentiram atraídos

por esse tipo de vida naquele

tempo. Depois entrou em declínio e

diminuiu o número de candidatos.

A aventura para mim começou em

1952.

Antes de entrar naquela ponte

de uma vida nova, houve a

preparação. Passei seis anos no

seminário me-nor, em Megen, na

Brabantia, à beira do rio que corta

Holanda em dois. Megen não era

um seminário comum. Tinha como

especialida-de o sistema de casas

separadas, onde moravam os

seminaristas. Em cada casa morava

um certo número de estudantes. A

gente frequentava o ginásio para

ter aulas, participar das Missas (em

latim), e estudar no salão. Uma

grande parte da vida se passava

ao redor do colégio. Nas casas, a

gente morava, comia, dormia e, de

noite, estudava um pouco. Era um

sistema interessante porque uma

parte da vida fi cava por conta de

um grupo de jovens responsáveis

pelo bom atendimento em casa.

Os freis, morando perto do ginásio,

no convento, tiveram como tarefa

acompanhar os estudantes nas

casas espalhadas na cidade. Essa

vigilância não era severa. O mais

idoso do grupo de estudantes

era, em geral, responsável pela

boa ordem da turma. Este sistema

possibilitou-nos desenvolver o

senso de responsabilidade. Além

de missas diárias, em latim, havia

também o costume de confi ssão

frequente. Tudo isso se passou

entre os anos 1946 até 1952.

Revista Santa Cruz - 23


A guerra mundial terminou em

1945. Marcou a vida de muita

gente. Começou em 1940. Sem

mais nem menos, os alemães

invadiram o pequeno país sob o

motivo de proteger a gente contra

os ingleses. Começou o tempo

de mentira, a opressão. Acabou a

nossa liberdade. Nesse tempo foi

semeada dentro de mim a semente

da resistência.

O tempo de seminário parece um

passo para trás, mas na entrada

de uma ponte a entrada é muito

importante. Quem olha bem vai

notar que chove muito a água

começa a mexer com essas partes.

A entrada é a preparação para o

resto como acontece também na

vida da gente. Por isso é útil essa

comparação.

Um segundo passo para trás é o

tempo na família. Quero descrevêlo

em poucas palavras. Antes da

guerra, a Europa passou por uma

grande crise. A Alemanha nunca

aceitou as condições de paz depois

de 1914 a 1918. Ficou encolhida,

mas era um tempo de alimentar

a reação. Nasci numa família

numerosa de nove, fi cando no

meio, enquanto mamãe cuidava

dos fi lhos, em casa, conforme o

costume daquele tempo. Meu

pai caçava serviço sem encontrálo.

Era o tempo de desemprego

que atingia a população em geral.

O governo procurava sanar tal

24 - Revista Santa Cruz

situação com uma certa ajuda.

A lição de meu pai foi esta: não

quero para meus fi lhos o que está

acontecendo comigo. Os pais

faziam de tudo para que os fi lhos

estudassem na escola. Fora disso,

a gente trabalhava no sustento

da família. O trabalho fazia parte

da vida. Não havia outra saída. Foi

nesse tempo que surgiu, na família,

a minha vocação.

Nesse tempo de guerra, manifestei

a vontade de estudar. O número

de candidatos foi tão grande que

devia esperar um ano para entrar

no seminário. Minha mãe me

acompanhava de perto, dando

tudo de si para realizar o seu sonho.

“Seminário” signifi ca fi car um

certo tempo fora da convivência

da família, voltando na época de

férias. Quanta mudança na vida

da gente! A gente entrava aos

poucos nesse novo ambiente

completamente diferente. Era o

preço que a gente pagava nesta

nova vida. Senti a difi culdade nos

estudos. A pessoa aceita em vista

do ideal que abraçou. Gostava de

estudar as matérias, a formação

acadêmica no ginásio.

No mês de setembro, entramos

no noviciado em Hoogcrutz (22) e

Stoutenburg (20) e em Weert (4),

para ser irmão. Um total de 46. Era

um mundo totalmente diferente

de oração, estudos, trabalhos manuais

e aulas sobre a vida religiosa.


Tínhamos a oração à meia-noite

e fui convidado para acordar o

pessoal na hora certa. Não tinha

contato com as pessoas de fora.

No dia de domingo, vinha gente da

região participar da Missa solene

em que cantávamos em latim.

Poucas vezes a gente saía para

caminhar e conhecer o ambiente

de Limbúrgia. Era mais uma vida

voltada para dentro.

Na época dos estudos de Filosofi

a e Teologia - nos outros

conventos de Wychen, Alverna

e Wert - tínhamos um pouco

mais de liberdade. No período

pós-guerra, fomos convidados

a trabalhar na reconstrução da

Europa. Era um trabalho iniciado

por frei Werenfried Verstraten.

Trabalhamos no período das férias

em vários países como França,

Áustria e Holanda. Foram três anos

seguidos. Uma experiência que

ajudou a abrir um pouco mais a

nossa mente.

O centro de tudo era a formação

religiosa e intelectual. A gente

não saía para outras coisas, foi

muito mais na teoria sem entrar

na prática. Criou-se a impressão

de que tudo aquilo bastasse

para o futuro. Fomos, em certo

sentido, preparados para entrar em

qualquer parte do mundo. Entre

nós havia a separação dos irmãos

leigos dos outros freis. Eles fi cavam

em Weert, um grupo pequeno,

reduzido. A formação deles era

outra.

RSC: Como foi sua nomeação para o

Brasil?

Frei Cornélio: No ano de 1959,

terminamos os estudos e fomos

ordenados em Weert. O número de

sacerdotes era tão grande que uma

parte era destinada para trabalhar

na terra das missões. Senti-me mais

atraído para as missões sem saber

ao certo em qual país. No meu

caso, tudo fi cou no ar. Havia três

possibilidades: Brasil, Nova Guiné e

Paquistão. Não sabia de nada sobre

os três. Na última hora (um colega

foi com atestado médico declarado

apto para Nova Guiné), recebi a

notícia de minha nomeação: Brasil...

Tinha um conhecimento geral a

respeito. A língua não sabia. O jeito

era embarcar e entrar na jogada.

Viajamos de navio e no fi m do

mês de setembro, após umas duas

semanas de viagem, avistamos o

Rio de Janeiro. Durante a viagem,

pude, aos poucos, me dar conta do

que seria um missionário.

RSC: E sua adaptação em nossas

terras?

Frei Cornélio: Lembro-me da chegada

ao Rio. Quem estava lá era

o nosso frei Antônio. Um homem

Revista Santa Cruz - 25


tarimbado para esse trabalho. Fazia

amizade com a alfândega, o que

facilitava a nossa entrada com tantas

malas. Um outro frei holandês tinha

difi culdade com tanto material.

De fato, o número era muito alto.

Aqui descobri a importância do

jeitinho brasileiro. O que para um

era uma impossibilidade, para o

outro um excesso de confi ança.

Tudo entrou com tranquilidade.

Era o fruto de duas culturas. Esses

fatos chamavam a atenção. Passei

em várias cidades para aprender o

português. Descobri muito mais.

O povo, aos poucos, começou a

mudar completamente a minha

vida.

A primeira experiência na pastoral

se deu em Corinto e Pirapora.

Eram as paróquias para aprender

a língua. Custou. Assim mesmo

celebrei Missas em latim e o primeiro

sermão fi z em Corinto, no dia

de Nossa Senhora da Conceição.

Era curtinho... O vigário estava no

fundo da Igreja. Falei duas vezes o

mesmo. A munição era pouca. O

que fazer? Em Pirapora fui chamado

para atender uma senhora doente.

O jeito era ungir e rezar, em holandês.

Uma professora ofereceu o

pão e me lembrando que negar ia

incomodá-la, respondi “sim”. Outros

colegas devem se lembrar destas

histórias. Lembro-me de frei Heleno

entrando no ônibus com guardachuva,

atingindo uma senhora,

26 - Revista Santa Cruz

dizendo e “com licença”. A gente

ainda não entendia o sentido das

palavras. Não havia outro caminho

do que entrar na vida diária.

A primeira nomeação foi para

a paróquia de Muzambinho. Fiquei

pouco tempo lá. Cheirei os

primeiros passos no interior. Andava

com um Fordinho de 1929.

Um colosso para dar dor de cabeça.

Visitava as comunidades rurais.

O batismo verdadeiro foi em Teófi lo

Otoni, no tempo de dom Filipe e

frei Aquino. A roça fi cou por minha

conta. Andei de carro (candango)

com o vigário um quarteirão e

logo em seguida acrescentou: “a

paróquia de Topázio está à sua

disposição”. No início era assim:

dois trabalhavam na cidade e um

na roça. Esse último sobrou para

mim. Era o batismo de fogo. Senti

vontade de trabalhar de dois, neste

caso, com frei Luciano e frei Teipel.

Surgiu o nome a “Equipe Rural”.

Começamos a experimentar.

Em Salinas demorei para levantar

voo. Frei Venâncio animou a turma,

introduzindo o Culto Dominical.

Fiquei mais na retaguarda, na

cidade, acompanhando os casais

no bairro de São Geraldo. Tudo

consistia em “experimentar”

e crescer com o nosso povo. Os

primeiros contatos com o povo de

Teófi lo Otoni foram aprofundados

em Salinas. O contato com o povo

virou diálogo, quebrando o gelo da


distância. Parti contando com os

leigos, aqueles e aquelas que fazem

parte constante do povo. O povo

foi preparado para realizar o Culto

no domingo, através de cursos.

Aprendia a falar, ler e preparar os

encontros semanais. Caratinga se

tornou um ponto de referência

com cursos, grupos de refl exão, de

liderança. Essa caminhada marcou

profundamente o nosso povo. Sou

testemunha disso e essa história

está gravada na caminhada do povo.

Natal e Quaresma tiveram cursos

de três dias. Perguntas e respostas

possibilitavam o aprofundamento

de certos temas que eram depois

utilizados nas comunidades. Depois

a gente recebia cartinhas de

agradecimentos. A satisfação era

dos dois lados.

Num certo momento, o número

de comunidades aumentou, chegando

até a cinquenta. As lideranças

assumiam a sua responsabilidade.

A gente cobrava e eles

aceitavam. O encontro com os

irmãos, em Araçuaí, nos colocou

em contato direto com a equipe

de Caratinga. Quem se esquece do

trabalho de Alypio e João Resende?

Nossos líderes descobriram o

seu potencial, dando cursos em

muitas comunidades nossas e

de paróquias vizinhas. Os leigos

andavam ao lado dos freis e a

gente se entendia muito bem.

Era um ambiente de gente adulta

e ponderada. Juntei o material

daquele tempo como memória

viva da paróquia. O leigo fi ca e o

padre passa. Sem padre ou frei,

mas o leigo está presente. Os freis,

os padres são outros, mas eles

fi caram, estão à disposição.

Sem dúvida, o leigo acordou,

descobriu o seu valor. O padre

também começou a enxergar a

realidade, sobretudo depois do

Concílio Vaticano com as mudanças.

Puebla, Medellín e Santo

Domingo fortaleceram essa

caminhada.

A paróquia de Pirapora, situada

na Arquidiocese de Diamantina,

era constituída de um povo diversifi

cado. Muitos paroquianos

vieram do estado da Bahia por

causa da seca, do desemprego e

outros motivos. Desde o ano de

1915, os franciscanos estiveram

por lá. Eu fazia parte de um grupo

de quatro franciscanos. Frei Teodoro

(pároco), Fortunato, Jerônimo

e Nicolau. Era uma paróquia só,

incluindo a cidade de Buritizeiro.

Eu tomava conta de Buritizeiro,

quero dizer, da cidade. Fiquei 13

anos e procurei adaptar-me a essa

nova realidade.

Lembro-me mais da introdução da

pastoral do Dízimo, tirando uma dor

de cabeça do pároco por causa de

fi nanças. Essa mudança deslocou

a preocupação para outras áreas

mais importantes. O povo ajuda e

Revista Santa Cruz - 27


precisa de esclarecimentos. Poucos

dias atrás, por ocasião da visita à

cidade (Dom Célio foi indicado

para ser cidadão honorário), alguém

da comunidade de “Santa

Cruz” (perto de Bom Jesus) me

procurou e me comunicou que

estão construindo a Capela na

comunidade, no terreno comprado

com uma parte do dinheiro

daquele tempo. A comunidade,

na sua generosidade em devolver

o Dízimo, viu os seus esforços contemplados

com a compra de um

terreno. Um segundo elemento

no trabalho na paróquia foi, sem

dúvida, o número de capelas e

construções nas duas cidades. Havia

entrosamento com as lideranças.

São apenas observações a respeito

daquele tempo interessante.

28 - Revista Santa Cruz

RSC: Depois de muitas andanças,

o senhor agora se encontra em

Divinópolis e comemora 60 anos de

consagração religiosa...

Frei Cornélio: Quero fi nalizar estas

observações com uma resposta

sobre os 60 anos de Vida Religiosa

Franciscana. Fui transferido de

Salinas para Divinópolis, há dois

anos. Na ocasião da nomeação,

falei claramente que não me

encontrava mais em condições

de trabalhar na área rural. Por isso

me dediquei (era um desafi o para

mim) à área urbana. Gostei tanto

da liberdade que ganhei da parte

dos confrades como os trabalhos

desenvolvidos pelos leigos em

várias áreas. Os leigos têm capacidades

de entrar nas pastorais

como no dízimo, pastoral

da criança, pastoral

da segunda união de

casais, pastoral da saúde,

pastoral carcerária e formação

bíblica. Mais do

que nós eles estão a par

dos problemas. Quando

bem acompanhados e

ouvidos, indicam o caminho

da saída. Esta

última transferência mexeu

comigo. A grande

pergunta para mim era

esta: “quando e como

terminam os trabalhos da

gente na área da pas-


toral? Quem vai marcar o momento”?

Por mim mesmo podia

ter demorado mais tempo. Senti

dentro de mim esta jogada. Depois

resolvi o seguinte: no primeiro

ano, tratar de minha saúde e

depois analisar o resto com calma.

Surgiu a oportunidade de poder

viver como franciscano, mais para

dentro, seguindo os passos de

São Francisco. Cheguei aqui como

sacerdote a pedido dos bispos

e agora queria, livre disso, viver

mais como franciscano dentro da

fraternidade.

Agradeço a oportunidade de ter

trabalhado no norte de Minas.

Foi uma experiência muito válida.

Recuado no convento de

Divinópolis, me sinto bem como

membro da província Santa Cruz.

Nas férias do ano passado, na

Holanda, aceitei o convite de um

confrade holandês para passar a

tirar férias de um modo diferente,

no convento da paróquia de

São Nicolau. Fiquei com os franciscanos

daquela comunidade.

Foi uma revelação positiva. Apreciei

a tranquilidade deles. Nada

de pressa, pelo fato de que o

número de irmãos diminuiu bastante,

o “espírito de oração” criou

um ambiente de paz e de boa

convivência. Para mim foi uma

revelação de que nem tudo depende

da gente. É importante

saber colocar uma boa parte nas

mãos de Deus. Chega de trabalho!

Está na hora de saber desfrutar a

experiência da vida franciscana!

Revista Santa Cruz - 29


Contemplando a temática da Campanha da Fraternidade deste

ano de 2012: “Fraternidade e saúde pública”, nossa “refl exão” se

abrirá com um interessante texto sobre esse assunto. Na sequência,

frei Francisco van der Poel partilhará mais um verbete de seu

“Abecedário da religiosidade popular”.

30 - Revista Santa Cruz

REFLEXÃO

1. SAÚDE NA PERSPECTIVA DA

ECOLOGIA INTEGRAL

Ana Maria Vidigal Ribeiro e José

Luiz Ribeiro de Carvalho

(Fundadores e diretores do Centro de

Ecologia Integral

e da Revista Ecologia Integral)

É muito comum, atualmente,

ouvirmos nos noticiários os

termos saúde ou sistema de saúde

como sendo, principalmente, os

conhecimentos, as práticas, os

profi ssionais ou as instituições

que atuam buscando resgatar, no

caso de uma pessoa doente, sua

condição de vida saudável.


No entanto, é importante lembrarmos

que, segundo a Organização

Mundial de Saúde – OMS,

saúde é um estado de completo

bem-estar físico, mental e social e

não apenas a ausência de doenças

ou enfermidades.

De maneira semelhante, na proposta

da ecologia integral, que

tem como pressuposto fundamental

a interligação e a interdependência

de tudo que existe,

e onde nós, seres humanos, infl

uenciamos e somos infl uenciados

por tudo que nos cerca, a

saúde é entendida também, de

forma ampla, abrangendo três

dimensões inseparáveis: a pessoal,

a social e a ambiental.

A dimensão pessoal se refere ao

cuidado que devemos ter com o

nosso corpo (como a alimentação

saudável, a respiração correta, a

atividade física, o descanso necessário

e o sono reconfortante),

com as nossas emoções (procurando

conhecer e entender os

nossos estados emocionais para

que eles se tornem cada vez

mais harmoniosos), com a nossa

mente (a atenção que se deve

dar aos nossos pensamentos e às

informações que os “alimentam”)

e com a nossa espiritualidade

(buscando uma verdadeira conexão

interna, com as outras pessoas,

com o planeta, com o universo

e com tudo que ainda não

conseguimos compreender).

Mas, como não vivemos sozinhos,

para sermos saudáveis, num

sentido pleno, devemos contribuir

para que o ambiente à nossa

volta seja propício à saúde. Bons

relacionamentos, a prática do diálogo,

a solução pacífi ca dos confl

itos, o respeito às diferenças, a

solidariedade, entre tantos outros

aspectos, favorecem uma vida

social harmoniosa que refl ete na

nossa saúde. É o que se busca na

dimensão social.

E com relação à natureza? O ar,

a água, o solo, a energia do sol, as

plantas, os minerais, os animais são

imprescindíveis para a nossa vida.

A dimensão ambiental nos propõe

a união profunda com a natureza,

fazendo-nos entender que sem ela

não há possibilidade da existência

humana. Cuidar do planeta é

cuidar de cada um de nós.

Revista Santa Cruz - 31


Como essas dimensões da ecologia

e da saúde são intrinsecamente

inseparáveis, toda ação

nossa vai repercutir na teia da

vida de diversas formas. Tomemos

como exemplo a alimentação.

Quando optamos por uma alimentação

saudável, consumindo

produtos produzidos de forma

ambientalmente correta, socialmente

justa, e que sejam também

benéfi cos para nosso corpo, estamos

contribuindo para nossa

saúde pessoal, de modo a prevenir

muitas doenças decorrentes de

práticas alimentares inadequadas,

para uma melhor distribuição de

renda e justiça social, ao adquirirmos

alimentos produzidos por pequenos

produtores e da própria

região, e para um meio ambiente

mais saudável, ao preferirmos alimentos

produzidos sem a utilização

dos “venenos” muito comumente

utilizados na produção convencional.

O conceito de saúde, considerado

32 - Revista Santa Cruz

nesta forma ampliada, por mais

que possa parecer utópico, pode

e deve orientar as nossas práticas

cotidianas, o nosso estilo de vida,

bem como a ação dos governantes,

das instituições e dos cidadãos, com

o objetivo maior de se conquistar a

saúde integral para todos.

Para isso, a principal transformação

necessária é a mudança

da visão de mundo, que nos faz

compreender que fazemos parte

de uma teia intricada de relações,

onde tudo tem a ver com tudo.

Isto implica uma ampliação de

consciência do que devemos considerar,

de fato, como a saúde

integral e possibilita que cada um

de nós cuide verdadeiramente de

si mesmo, dos outros e do planeta,

para que possamos, de fato, viver

uma vida plena e harmoniosa.


2. RESISTÊNCIA POPULAR

IMPLÍCITA

Frei Francisco van der Poel, OFM

Quem é chamado de “pobre”

defende-se, dizendo: Não! Pobre

é o diabo que fi cou sem as graças

de Deus. Sou, sim, um homem

fraco. Isso nós já ouvimos muitas

vezes. Ora, fraco é o oposto de

poderoso. Disso o pobre revela

ter consciência. Pensando bem, as

músicas dos movimentos populares

e das CEBs não precisam necessariamente

ser uma espécie

de arte engajada; no estilo do conhecido

batuque: Samba nêgo,

branco não vem cá. Se vier pau é de

levar. Isto existe!

No entanto, a resistência popular,

muitas das vezes, é implícita. Ela

está no próprio fato de a cultura

persistir em existir: festas, benditos,

folias, terreiros, rezadeiras, raizeiros,

panelas de barro. Enquanto

o rádio toca música em inglês, o

povo continua dançando a roda de

samba ou de batuque. Enquanto

a farmácia está cheia de remédios

sintéticos, o povo toma chá de

quebra-pedra.

As comunidades ‘fracas’ resistem

à opressão com uma “paciência

histórica”. Nesta perspectiva, é

importante perceber que, ao

ninar uma criança recém-nascida,

a mãe poderá cantar um acalanto

aprendido em casa:

Topei com a Senhora na beira

do rio,

lavando os paninhos de seu

bento fi lho.

Maria lavava, José estendia,

o menino chorava do frio que

fazia.

Não chores menino, calai meu

amor

que a faca que corta dá o golpe

sem dor.

No monte Calvário avistei uma

cruz

é cama e travesseiro do meu

bom Jesus.

Os fi lhos dos ricos em berço

dourado

e vós, meu menino, em palha

deitado.

Revista Santa Cruz - 33


Este canto medieval (séc. XIII ou

XIV) veio de Portugal. Pertencia

à tradição oral dos pobres de

lá. No Brasil, a população ‘fraca’

não simplesmente copiava tudo

do colonizador. Livremente, ela

criava coisas e adotava outras que

combinavam com sua vida sofrida.

O canto acima, registrado na área

rural de Araçuaí (MG), fala mesmo é

dos fi lhos dos ricos.

É impressionante que, depois de

tantos séculos, o povo não deixa a

peteca cair. Oh cultura forte! Haja

resistência assim em todas as mães

do Jequitinhonha e de todos os

Estados da Federação!

34 - Revista Santa Cruz


MEMÓRIA

Esta seção traz os “in memoriam” dos saudosos confrades

frei Frederico Voorvelt e frei Estanislau Bartholdy

1. “IN MEMORIAM” DE FREI

FREDERICO VOORVELT

(1916-2009)

Frei Celso Márcio Teixeira, OFM

Dados biográfi cos e itinerário

formativo

A casa do Sr. Johannes Cornelius

Christianus Voorvelt e de Da. Maria

Witsiers, em Schoten Haarlem

– Holanda, no dia 19 de março

de 1916, transbordou de alegria.

Causa: o nascimento de uma

criança tipicamente holandesa,

de olhos azuis e cabelos louros,

do sexo masculino, que na pia

batismal recebeu o nome de Petrus

Johannes Voorvelt.

Revista Santa Cruz - 35


Não consta em nossos arquivos,

mas provavelmente ele tenha feito

em sua terra natal os primeiros

estudos da infância e juventude.

Também não se sabe como surgiu

para o jovem Petrus a vocação à

vida franciscana. Sem dúvida, deve

ter recebido de sua família uma

sólida formação cristã. O certo é

que, aos 07 de setembro de 1937,

com 21 anos de idade, ingressou

no Noviciado em Bleyerheide

– Holanda, recebendo o nome

religioso de Frederico Voorvelt.

Frei Federico e familiares.

Transcorrido o ano de noviciado,

ele fez a profi ssão temporária

aos 08 de setembro de 1938, no

Convento de Venray – Holanda.

Neste mesmo convento, iniciou e

concluiu satisfatoriamente o curso

36 - Revista Santa Cruz

de fi losofi a (de setembro de 1938 a

julho de 1940, pois o ano letivo na

Europa é diferente do ano letivo no

Brasil), obtendo em vários quesitos

o conceito “bom”. Concluído o

curso de fi losofi a, transferiu-se

para o Convento de Alverna, onde

cursou os dois primeiros anos de

teologia. No início do segundo ano

de teologia, aos 08 de setembro

de 1941, fez sua profi ssão solene

na Ordem dos Frades Menores,

mostrando maior empenho, obtendo

na maioria dos quesitos o

conceito “muito bom”.

Os dois anos seguintes

do estudo de teologia

(de setembro de

1942 a julho de 1944)

foram transcorridos

em Weert. Aí recebeu

as ordens do

subdiaconato (03 de

abril de 1943) e do

diaconato (09 de setembro

de 1943). A

ordenação sacerdotal

foi celebrada aos 19

de março de 1944, em

Weert, poucos meses

antes do término do

quarto ano de teologia.

O quinto ano de teologia foi

transcorrido em Bleyerheide, de

setembro de 1944 a julho de 1945.

Não se encontram nos arquivos

referências ao período de julho de

1945 a julho de 1946. Encontra-


se uma declaração sem data da

Província franciscana da Holanda

com os seguintes dizeres: “Irá

com mais preferência hoje do que

amanhã ao Brasil”. Deste modo,

aos 03 de julho de 1946, frei

Frederico recebe sua transferência

da Província da Holanda para o

Brasil, mais precisamente para São

João del-Rei, para exercer a função

de professor no Colégio Santo

Antônio.

No Brasil, uma presença apostólica

pendular entre escola e

paróquia

A deduzir de uma carta de frei

Abel a frei Frederico datada de

19 de fevereiro de 1974, frei

Frederico não teria gostado muito

de São João del-Rei. No entanto,

aí permaneceu até a data de 1o de janeiro de 1953, quando foi

transferido para Belo Horizonte

(Convento São Bernardino) como

professor e prefeito de disciplina

no Colégio Santo Antônio. Ficou,

porém, pouco tempo, pois, aos

15 de dezembro do mesmo ano,

recebia nova transferência para

Nanuque, para exercer a função de

coadjutor.

Aos 18 de fevereiro de 1956, foi

transferido para Carlos Chagas,

ainda na qualidade de coadjutor da

paróquia. E no dia 1o de janeiro de

1959, além da nomeação anterior,

acumulou o cargo de Diretor do

Colégio.

Três anos mais tarde, aos 22 de

janeiro de 1962, frei Frederico está

novamente destinado à escola,

pois recebe transferência para São

João del-Rei, como professor do

colégio e assistente da Ordem III.

Ficou pouco tempo, recebendo

nomeação, em dezembro deste

mesmo ano, de substituto do

pároco de Machacalis, função que

ele exerceu até o dia 1o de maio de

1963, quando foi transferido para

Águas Formosas, com a nomeação

de pároco.

Frei Frederico fi cou durante nove

anos à frente da paróquia de Águas

Formosas. Dos arquivos podese

deduzir que sua preocupação

pastoral não se limitava ao

atendimento espiritual de suas

ovelhas, mas se estendia ao bemestar

social do povo de Deus a ele

confi ado. De fato, em várias cartas

escritas a frei Abel encontramse

referências constantes ao seu

trabalho e tentativa de equipar

adequadamente o hospital da

cidade. Assim, em carta de 04/06/70

a frei Abel, ele fala de aparelho de

Rio X, de jeep e de ambulância

que está tentando adquirir para o

hospital São Vicente de Paulo, de

Águas Formosas. Em outra carta,

de 20/07/70, fala de dinheiro para

pagar material do hospital. Em

Revista Santa Cruz - 37


outra ainda, de 23/08/70, mostra

grande alegria, porque Águas

Formosas tem ambulância nova,

jeep novo e ainda sobrou dinheiro.

Comentando sua volta das férias

na Holanda (carta de 02/01/72),

frei Frederico diz que queria voltar

de navio para trazer máquinas

de costura para mães pobres em

Águas Formosas. E, mesmo depois

de ter sido transferido (carta de

02/03/74), ele pede a frei Abel

para enviar 300 fl orins que tinha

recebido da sua paróquia na Holanda

para os clubes de mães de

Águas Formosas.

Sua transferência de Águas Formosas

se deu com sua nomeação,

no dia 1o de fevereiro de

1974, de pároco da paróquia São

José Operário, em Nanuque. Permaneceu

exatos três anos à frente

desta paróquia, recebendo (a

1o /02/1977) sua transferência para

Ibirapuã, como praeses e pároco.

Igualmente, em Ibirapuã, frei Frederico

mostrou-se sensível à realidade

social do povo. Lá, iniciou

uma obra social destinada à

integração e fi xação dos jovens

na sociedade local. Em carta de

24 de maio de 1980, frei Patrício,

na qualidade de Provincial, redige

uma carta de apresentação para

o Projeto “Formação de mão de

obra”, uma experiência “fábricaescola”,

orientada por frei Frederico

com a fi nalidade de “formar mão

38 - Revista Santa Cruz

de obra entre os jovens dentro

do município (Ibirapuã), a fi m de

diminuir a evasão da população

para outros lugares, como está

acontecendo no momento”. De

uma carta de frei José Verstappen

(10/11/80), da Missionszentrale der

Franziskaner, fi camos sabendo que

este conseguiu 15.000 marcos para

uma carpintaria em Ibirapuã. E em

carta de 07/03/1981 a frei Geraldo,

frei Frederico agradece por dois

cheques recebidos da Holanda

em prol da paróquia de Ibirapuã.

Escrevendo a frei Odilon, (16/4/82),

ele fala de 4.000 fl orins para a

carpintaria-escola.

No período em que esteve em

Ibirapuã, foi convidado para participar

do curso do CERNE no

Rio de Janeiro. Deste modo, de

1o /05/79 a 16/06/79, frei Frederico

esteve ausente de Ibirapuã para

esse momento de formação permanente.

Após um período de oito anos

como pároco em Ibirapuã, frei

Frederico, em seu movimento

pendular, voltou às salas de aula.

Recebeu sua transferência para

Santos Dumont (1o /02/1985) como

professor da CJF. Lecionou inglês

(para uma turma) e matemática.

Importante foi sua presença entre

os jovens formandos que queriam

desenvolver seus dons artísticos.

Frei Frederico introduzia-os na arte

da cerâmica.


Uma nota pitoresca provém de suas

aulas de inglês: levava para a sala

de aula o toca-disco e iniciava suas

aulas com a música Yesterday, dos

Beatles. Pode ser que os alunos não

tenham aprendido a falar inglês,

mas, pelo menos, aprenderam a

cantar a música.

No início de 1989, frei Frederico

percebeu que podia conciliar

sua tarefa de professor com sua

experiência de pároco. Recebeu,

então, a nomeação de pároco

em Ewbank da Câmara, cidade

próxima a Santos Dumont, à beira

da estrada BR 040. Encantou-se

com a paróquia.

Mais tarde, em data que este que

escreve (guardião naquela época)

não consegue precisar, mas depois

de 1991 (pois em janeiro de 1991

ainda recebeu a provisão de pároco

de Ewbank e de Paula Lima),

deixou a paróquia de Ewbank para

assumir, sob os mais veementes

protestos, a paróquia de Dores

do Paraibuna. O motivo da troca

foi a difi culdade que ele tinha

para dirigir o carro até Ewbank.

O perigo era real, pois de Santos

Dumont a Ewbank, apesar da

curta distância (entre 12 a 15 km),

a estrada é muito movimentada,

o que constituía um constante

risco de vida. E frei Frederico, a

bem da verdade, não era dos

melhores motoristas da Província.

De vez em quando, o fusquinha da

casa aparecia amassado dos dois

lados. Esperando que o carro se

encolhesse, à maneira dos carros

de desenho animado, frei Frederico

resolvia passar entre um carro em

movimento e outro estacionado,

sem que houvesse espaço

sufi ciente.

O interessante é que uns dois

meses depois de ter assumido a

paróquia de Dores, interrogado

pelo guardião sobre como se sentia

na nova paróquia, ele mostrava

o maior entusiasmo pela troca,

esquecendo-se defi nitivamente

dos veementes protestos anteriores,

dizendo que a troca deveria

ter sido feita muito antes.

Aos 06 de fevereiro de 1995, frei

Frederico foi transferido de Santos

Dumont para Pará de Minas, na

qualidade de vigário paroquial, aí

permanecendo até 04 de abril de

1997, quando assumiu a função

de pároco em Cabo Verde. A

permanência nesta cidade não

chegou a completar um ano, visto

que aos 20 de março de 1998

recebeu nova transferência, desta

vez para Divinópolis, como vigário

paroquial e residente.

Na lista de transferências de 15

de janeiro de 2001 seu nome

aparece apenas como residente em

Divinópolis, possivelmente devido

à sua idade.

Revista Santa Cruz - 39


A pessoa, o franciscano

Falar da pessoa de frei Frederico

é falar do franciscano que ele

foi. Como em espaço exíguo não

se podem tratar muitas coisas,

abordaremos três pontos de sua

personalidade (e de seu modo

franciscano).

1. O senso de humor. Frei Frederico,

além de estar sempre sorridente,

transpirando alegria e otimismo,

tinha senso de humor. Colhemo-lo

de sua correspondência com frei

Abel, que também tinha sua veia

humorística.

Um exemplo se pode ver no que

poderíamos chamar de “novela

dos charutos”. Novela, porque

o tema dos charutos perpassa

inúmeras cartas (todas bemhumoradas)

de ambas as partes.

Frei Frederico encomendava a frei

Abel charutos para frei Peregrino.

Frei Abel mandava-os com a devida

cobrança dos custos e, às vezes, com

uma jocosa ameaça: “na próxima

encomenda vou riscar os charutos

caros e mandar palhas”. Assim, à

maneira de exemplo, pinçamos o

seguinte diálogo epistolar:

Frei Abel diz (em carta de 1o /05/73)

que o depósito para os charutos

acabou, e agora existe um débito.

Se frei Frederico quiser mandar

mais dinheiro, pode, pois, mesmo

que em Águas Formosas não haja

40 - Revista Santa Cruz

indústria, uma chaminé continuará

soltando fumaça. Ao que frei

Frederico respondeu (08/05/73):

Os charutos vieram na hora certa. O

último charuto tinha sido fumado

dentro do horário marcado, e

surgiu um vácuo. Mas, então,

alguns homens fortes colocaram

um pacote dentro de casa, e num

instante se formou uma cortina de

fumaça.

Nesta novela, uma coisa fi ca patente:

a preocupação, o cuidado

para que não faltasse o charuto

para o confrade já idoso.

2. Gentileza. Frei Frederico era

um franciscano gentil. Recebia

as pessoas sempre com um

sorriso, mostrando estar de bem

com a vida. Em várias ocasiões,

no período em que convivemos

em Santos Dumont, pessoas

que visitavam o seminário perguntavam-me,

referindo-se a frei

Frederico, pelo nome daquele

frei de cabelos brancos que as

havia cumprimentado com tanta

simpatia e gentileza. Se algum

visitante era levado ao refeitório

para um cafezinho ou à sala

de recreio, frei Frederico fazia

perguntas, conversava com ele,

dava-lhe a maior atenção, de modo

que se sentisse em casa.

Recordo-me que, depois que a

sua memória começou a falhar,

fui ao convento de Divinópolis


para visitar os confrades. Ele me

cumprimentou, perguntou meu

nome, conversou comigo. Pude

constatar com grande alegria que,

conquanto a memória falhasse, a

gentileza mantinha o mesmo vigor

de sempre.

Frei Frederico e seu “Santo Antônio”

3. A arte. Quando frei Frederico foi

transferido para Santos Dumont,

uma justifi cativa era: ele poderá

ensinar um pouco de arte aos

alunos da CJF. De fato, dedicou-se

com empenho a essa tarefa. Era um

dos frades do coetus formationis

que mais presença marcava entre

os estudantes. Ele próprio produzia

suas obras de arte em cerâmica e

acompanhava todas as iniciativas

dos alunos, orientando-os, encorajando-os,

pesquisando com eles.

Sua produção não é tão numerosa.

Dignas de menção são a estátua

de Santo Antônio (em madeira,

tamanho natural) e a Via-Sacra da

capela (em cerâmica). Recordo-me

que o ex-frei Davi (também ligado

à arte) fi cou encantado com a Via-

Sacra, elogiando especialmente

alguns quadros em que frei

Frederico, em vez de apresentar

toda a cena, apenas salientava

algum detalhe do sofrimento de

Cristo.

Senso de pertença à Província

O senso de pertença à Província

pode-se colher nas entrelinhas do

bem-humorado epistolário que frei

Frederico manteve com frei Abel.

E somente pode ser percebido,

quando o leitor não se detiver na

linguagem carregada de ironia de

ambas as partes.

Frei Frederico, diante da Província,

assumia a postura de “pobre

missionário”, de “padre da roça”;

a Província, ironicamente chamada

de Mãe, era “rica”, “exigia

contribuição”; Frei Abel representava

na correspondência o papel

da Mãe. Feita esta introdução à

linguagem irônica, salientamos

algumas frases cheias de humor:

Em algumas cartas, frei Frederico

afi rma que está enviando dinheiro

para a Mãe. A pitada de humor

aparece ou num comentário sobre

o uso que se faz do dinheiro (“a

Revista Santa Cruz - 41


turma do Provincialado bebe

cerveja à custa do dinheiro de

um pobre missionário”), ou numa

interrogação (“o que a Província

afi nal faz com tanto dinheiro

arrecadado pelos padres da roça”?),

ou quando se faz de vítima (“vou

passar em BH e entregar dinheiro,

ganho com muito trabalho e muito

suor, à mãe província”).

Em várias cartas, frei Frederico

pede intenções de missas e afi rma

que as espórtulas são para a

“mãe”. O acréscimo torna-se ora

dramático (“o dinheiro pode fi car

com “mãe”; então, vou comer

mais mandioca e menos arroz e

feijão, e o Provincialado poderá

encomendar mais caviar”), ora

cheia de falsa compaixão (“vou

examinar a situação fi nanceira para

ver se sobra alguma coisa para a

“mãe”, porque não quero que os

confrades na casa materna estejam

passando necessidade”).

42 - Revista Santa Cruz

Frei Abel não deixa por menos

e diz ter fi cado comovido até às

lagrimas, quando leu que podia

depositar as espórtulas das missas

na conta da Mãe Província. Outra

vez, diz que não tem compaixão

dos pobrezinhos vigários da roça,

porque muitos têm a fi cha de

contribuição em branco. Ainda

outra vez, diz que está aguardando

uma doação para “mãe província”;

a “mãe província” sempre cuida

do bem-estar dos frades e espera

que os frades de vez em quando

esvaziem o seu pé-de-meia no

colo da “mãe”. Finalmente, frei

Abel diz que não entende “como

há párocos de ricos fazendeiros

que pensam que os confrades no

Provincialado sempre têm caviar

na mesa. Aqueles párocos de

ricos fazendeiros recebem todo

dia cabeças de porco e galinhas e

ainda fi cam descontentes quando

não recebem ovos recém-botados.


E quando chegam à BH ainda são

mimados. Por que o bispo gosta

de fi car em Águas Formosas? É

isto mesmo, por causa daquelas

cabeças de porco, principalmente

quando vêm juntos com um pernil”.

Resumindo: Frei Frederico mostrava

seu senso de pertença não

apenas assumindo o trabalho apostólico

da Província, mas contribuindo

concretamente com as

despesas.

Últimos anos e falecimento

Frei Frederico passou seus últimos

onze anos em Divinópolis. Sempre

gozara de boa saúde. No fi nal de sua

vida, já com a provecta idade de 93

anos, começou a sentir a falência

do irmão corpo. Deste modo, às 6h

do dia 06 de junho de 2009, nosso

irmão entregava sua vida nas mãos

do Pai das misericórdias. A certidão

de óbito acusa como causa mortis:

distúrbio hidroeletrolítico AC bá-

sico (comprometimento das funções

renais), DPOC infectado (doença

pulmonar) e senilidade. Foi

sepultado no cemitério provincial

em Rivotorto (Areias) – Ribeirão das

Neves.

Frei Frederico, pela vida que

compartilhou conosco, continua

merecedor de nossa admiração,

apreço e gratidão. Requiescat in

pace!

Revista Santa Cruz - 43


2. “IN MEMORIAM” DE FREI

ESTANISLAU BARTHOLDY

(1928-2011)

Frei Hilton Farias de Souza,

OFM

Dados biográfi cos

Guilherme George Bartholdy

nasceu no dia 19 de abril de 1928,

na cidade de São Vicente de

Minas. Filho de Paulo Middleton

Bartholdy e Hercília de Menezes

Bartholdy. Herdou o sobrenome

do pai, um dinamarquês Luterano,

fabricante de queijos. Fez os

estudos fundamentais na sua

cidade natal; cursou o ginasial

como aluno interno do Colégio

Santo Antônio de São João del-

Rei, onde descobriu a sua vocação

à vida franciscana, apesar da forte

resistência paterna, certamente

por ser o único fi lho homem.

Ingressou no noviciado, no

Convento São Boaventura, em

Daltro Filho (RS), no dia 1 o de

fevereiro de 1948, recebendo o

novo nome de Estanislau. Emitiu

a primeira profi ssão religiosa no

dia 02 de fevereiro de 1949; deu

continuidade aos seus estudos de

44 - Revista Santa Cruz

fi losofi a, em Daltro Filho, de onde

foi transferido para Divinópolis, a

fi m de estudar Teologia. Professou

solenemente no dia 02 de fevereiro

de 1952. Foi ordenado diácono

na capela do Seminário Maior

do Coração Eucarístico, em Belo

Horizonte, no dia 03 de abril de

1954, por dom Antônio dos Santos

Cabral. No dia 22 de agosto de 1954,

no Santuário Santo Antônio, na

cidade de Divinópolis, juntamente

com mais seis confrades, frei

Estanislau foi ordenado presbítero.

No ano de 1955, continua morando

no Convento Santo Antônio

de Divinópolis, com a função

de assistente e encarregado de

preparar a edição brasileira do

Breviário dos Leigos (Klein Brevier).

De Divinópolis, é transferido, no

ano de 1956, para o Seminário

Santo Antônio de Santos Dumont

com a função de padre espiritual

substituto.


Estudos em Roma (1956-1959)

No mês de setembro de 1956,

frei Estanislau foi enviado à Roma

para especializar-se em Teologia

Dogmática, pelo Pontifício Ateneu

Antoniano. No fi nal de 1957, ele

defendeu a sua dissertação de

mestrado intitulada: Ritus baptis-mi

et confi rmationis secundum Ordines

Romanos saec. VIII-IX; obtendo

o grau de mestre em Sagrada

Teologia, com a nota 8,50 (bene

probatus).

No seu trabalho para o doutorado,

como consta no exemplar encontrado

no meio de seus pertences,

ele escolheu o seguinte

argumento para a sua tese: Ritus

essentialis initiationis christianae

romana aetate carolingica; agora

afrontado com mais rigor científi

co. Pode-se notar através

da vasta bibliografi a consultada

praticamente toda em latim. Uma

curiosidade: a tese fora escrita e

defendida em latim! A defesa se

deu no dia 24 de novembro de

1959, às 17h30min, obtendo o grau

de doutor, com a nota 9,25 (Cum

laude).

Numa das suas cartas endereçadas

ao ministro provincial, frei

Jerônimo Jansen, antes da defesa

da tese, ele partilhava um pouco

a sua experiência e percepção dos

estudos acadêmicos: “O senhor

poderá imaginar o alívio com que

escrevo esta carta. Passaram-se os

exames e o curso terminou, graças

a Deus, terminou tudo muito bem.

Não tínhamos muita coisa neste

último ano, mas, toda uma história

do século XII bastante complicada

é mais para ser decorada do que

para ser compreendida: evolução

da defi nição de sacramento,

motivo da Encarnação, teólogos

franciscanos com as obras

au-tênticas e não autênticas de

Duns Scottus. De muita coisa se

tira proveito, mas, muita coisa

também verdadeiramente inútil.

Dos movimentos e tendências

da moderna teologia, nada. Não

se chega a ter uma visão geral da

teologia, tudo muito especializado,

mas, quem se especializa é o

professor, devendo o aluno ouvir

o resultado de suas pesquisas sem,

no entanto por isso, se especializar.

Parece que é assim que deve ser

numa universidade. Positivamente

se aprende também muita coisa,

ao menos uma base para um

trabalho pessoal, mas, saindo daqui

se deve começar ab ovo. Nosso

último exame foi a famosa aula

magistral diante dos professores,

não sei se é isto que nos capacitará

para dar aulas mais tarde. Uma

coisa que se faz uma vez no ano!

E de didática não aprendemos

nada, como apresentar um tratado

de teologia, como dar a aula?”

(01.07.1959).

Revista Santa Cruz - 45


Ao fi nal de sua estadia acadêmica

em Roma, frei Estanislau pede ao

ministro provincial para fazer um

curso de liturgia, mas o seu pedido

foi indeferido, ao mesmo tempo

insistia que ele retornasse ao

Brasil, onde ocuparia a cadeira de

dogmática em Divinópolis: “Resolvi

que você deve voltar para o Brasil,

depois de ter defendido a sua tese.

Isto quer dizer: acho melhor que

você não continue mais os seus

estudos em outro ramo. O seu

futuro? Bem, não sou profeta, [...]

mas suponho que será a cadeira

de dogma em Divinópolis, uma vez

que o frei Benedito irá para Lovaina,

para estudar dogma também”.

Ao retornar ao Brasil, frei Estanislau,

como havia indicado o seu

provincial, foi transferido para o

Convento Santo Antônio de Divinópolis,

como professor de dogmática;

ocupando ali outras funções

como: Mestre de irmãos Terceiros,

Prefeito de estudos, Discreto;

Sócio do Mestre dos Clérigos.

No Capítulo provincial de 1962,

no qual frei Jerônimo Jansen foi

reeleito ministro provincial, frei Estanislau

Bartholdy foi eleito Custódio

Provincial; e em 1964, frei

Estanislau foi reeleito Custódio, no

governo de frei Erardo Veen.

46 - Revista Santa Cruz

Evangelização: Betim, Pará

de Minas, São João del-Rei e

Divinópolis

Quando foi transferido de Daltro

Filho para Betim, como vigário, a

partir do contato e da experiência

iniciada por frei Xisto, na casa

paroquial, de acolher crianças pobres

para uma sopa comunitária,

inicia-se aí o interesse de frei Estanislau

pelos trabalhos sociais.

Juntamente com a senhora Noemi

dá um grande passo na criação

do chamado “Salão do encontro”.

Havia uma grande preocupação,

sobretudo pelas crianças pobres

que não tinham a escola, pelas

mulheres desempregadas e pelos

pobres em geral. Quando ele

chegou a Betim, a região do Angola

era mato, sem acesso a ônibus,

sem luz; totalmente carente de

assistência social. Nesta área, ele

começou seu apostolado celebrando

nas quartas e quintasfeiras,

nas casas das famílias.

Nessa experiência de contato com

o povo de Deus, percebendo as

diversas necessidades, ele assim

se expressa: “Comecei a sentir a

necessidade de fazer um salão que

pudesse atender às famílias do

bairro [...]. Eu sabia que a gente só

atingiria as famílias se atingíssemos

as crianças”.

Dona Noemi que desenvolvia um

trabalho social na Vila dos Mar-


miteiros, em Belo Horizonte, se

junta, em Betim, a frei Estanislau,

nessa grande e ousada empreitada.

Frei Estanislau partilha como foi a

construção do primeiro galpão:

“Me lembro que foram destruídas

14 casas na Barragem do Lago das

Flores... E nós ganhamos os tijolos,

as telhas... Eles nos telefonavam e a

gente ia lá buscar... Aí, começamos

a construção, primeiramente para

ser um restaurante das crianças

da região... Depois veio a parte

do artesanato simples, no início,

apenas um tear”... Com o passar

dos anos, o salão do encontro foi

crescendo cada vez mais, passando

do simples tear ao artesanato em

couro, em cerâmica, em madeira e

a carpintaria. Tornou-se um espaço

de aprendizagem de um ofi cio até

a assistência odontológica.

Vendo a evolução que passara

o salão, frei Estanislau, em uma

entrevista, dizia: “Foi com muita

luta, muita dificuldade, foi pedindo

e suando muito que a

gente conseguiu levar o salão

pra frente” [...]. “Graças a Deus,

apesar da grande luta, de muita

oposição e objeção de muitos políticos

que quiseram destruir o

Salão do Encontro, a Noemi fi cou

na direção e, com sua capacidade

e sua criatividade, cultivou

a semente que nós tínhamos

plantado... O Salão é muito mais

do que assistência social... É

promoção humana [...]. Você pode

ver as velhinhas enrolando linha,

as crianças estudando, sendo

alimentadas, os artesãos fazendo

seus trabalhos maravilhosos [...]. O

salão é um lugar onde as pessoas

buscam e encontram crescimento

[...]. Tira aquele povo da miséria, do

submundo [...]. Ajuda as pessoas a

conseguir andar com as próprias

pernas”... Concluindo a entrevista,

ele afi rmara: “Eu senti muito

quando saí de lá [...]. Realmente,

foi um tempo de muita graça,

de muita alegria... Foi um tempo

maravilhoso”.

Durante a sua longa estadia no

Convento Santa Maria dos Anjos

(até 1977), ele exerceu diversas

funções: vigário conventual,

prefeito de formação, guardião,

mestre e vice-mestre de noviços e

coadjutor. Em uma carta de 1977,

enviada ao ministro provincial, frei

Estanislau deixa entender que a

sua presença no Convento Santa

Maria dos Anjos já não era bemvinda;

o argumento era que ele

estava atrapalhando a formação

e, por isso, a transferência. Ele argumenta

a favor do serviço pastoral

que estava prestando: “Mas

me pergunto se a tentativa de

realizar um trabalho que para mim

como franciscano diz muito, não

entra em jogo; a única alternativa

é sair daqui? E só por esse motivo?

Aqui está tudo por fazer? Poucas

Revista Santa Cruz - 47


as estruturas existentes e a criatividade

poderá ser exercitada

em favor de toda uma população

marginalizada. No momento isso

signifi ca para mim abandonar

uma batalha iniciada para ser uma

peça de um esquema já montado

e que poderá sustentar-se. Estou

aqui pronto para acolher qualquer

decisão, desde que justifi cável para

minha consciência. Muitas vezes na

verdade é preciso falar”.

Nesse mesmo ano de 1977, ele foi

transferido para a Paróquia São

Francisco de Assis de Pará de Minas.

Aí ele vai, aos poucos, desenvolver

um trabalho na área social.

Aproveitando a entidade iniciada

por frei Paciano, o SALEM – serviço

assistencial laical de emancipação

e maturidade. Essa estrutura

abrigava jardim da infância e

refeições diárias para crianças.

Na parte de artesanato, havia

trabalhos em cerâmica, escultura

de madeiras, trabalhos em cisal,

tear chileno etc. O objetivo era

a promoção humana e retirar os

meninos da rua. Na paróquia ainda

funcionavam os clubes de mães,

na cidade e na roça. Havia também

um projeto chamado “Enfermagem

do lar” que, basicamente, dava

assistência aos doentes em casa

através de acompanhamento

de dietas e de medicamentos. A

paróquia ajudou a formar mais de

260 enfermeiras.

48 - Revista Santa Cruz

Na época, o território da paróquia

abrangia mais ou menos a metade

da cidade. Segundo testemunho,

frei Estanislau tinha uma preocupação

muito forte com os

pobres: aquilo que ele ganhava ou

pedia, ele sabia distribuir, era mão

aberta. Ele incentivou na paróquia

a catequese, cursos de liderança e

apoiava muito os jovens. Era muito

solicitado para atendimentos e

aconselhamentos. Enquanto estava

à frente da paróquia São

Francisco de Assis, a casa paroquial

foi, literalmente, aberta ao povo.

No dia 04 de maio de 1983, através

de um decreto da Cúria Geral dos

Frades Menores, frei Estanislau fora

nomeado visitador da Província

São Francisco de Assis, do Rio

Grande do Sul.


Mestre de noviços em Visconde

do Rio Branco (1986-1990)

Depois de já ter trabalhado na

formação como mestre de clérigos

e de noviços, em Daltro Filho,

Divinópolis e Betim, após um

longo período à frente do trabalho

paroquial, aceitou essa nova empreitada

num “período provincial

muito difícil”. No período em que

permaneceu nessa etapa, frei Estanislau

recebeu duras críticas a

respeito do seu jeito de conduzir a

vida do noviciado como: “noviciado

monástico, fechado, fora da

realidade...”.

Aquilo que eu posso recordar como

membro da “última turma” dele

(1990) são boas lembranças: Um

frade marcado pela vida de oração

e de uma espiritualidade muito

profunda. Um homem de muitas

leituras e de uma capacidade intelectual

apurada. Nas suas aulas,

demonstrava um conhecimento

profundo na área de franciscanismo,

de liturgia, de Bíblia e de

psicologia. Ficávamos extasiados

quando, nas aulas de liturgia, discorria

sobre a História da liturgia,

ou do seu vasto conhecimento

de psicologia, seguindo nas suas

aulas o livro: Psicologia e Formação

de Cencini e Manenti. No cotidiano,

demonstrava muito senso de

humor. Nos recreios, gostava de um

jogo de buraco. Possuía, apesar das

críticas, muito amor pela Província.

Não era frade de guardar mágoas.

Era sincero. Quando foi pedido

para ele retornar à formação, ele

colocou-se à disposição. Tinha uma

personalidade muito forte!

São João del-Rei – de volta à

paróquia

No início de 1991, frei Estanislau

foi transferido para o Convento

Nossa Senhora de Lourdes, em São

João del-Rei, onde trabalhou por

um ano como vigário paroquial e

foi transferido, em seguida, para

Divinópolis, como vigário paroquial

onde atuou até 1997. Retornou

a São João del-Rei como pároco.

Iniciou um trabalho social na

Comunidade do Rio Acima, onde

montou uma creche, ofi cina de

cerâmica e uma marcenaria. Nesse

projeto não conseguiu alcançar

os objetivos esperados. Hoje funcionam

a capela e a creche. Nessas

suas construções, tinha a fama de

pidão; saía nos comércios e até

mesmo na fi la do banco pedia

ajuda ou vendia rifas.

Nesse tempo em São João del-Rei,

frei Estanislau era muito solicitado

para conversas, aconselhamentos,

confi ssões e bênçãos. A procura

era tanta que ele trabalhava com

um sistema de senhas. A partir

de 2004, ele deixa de atuar como

Revista Santa Cruz - 49


pároco e passa a ajudar como

vigário paroquial, diminuindo um

pouco as suas atividades pastorais.

Paixão pela liturgia

Alguns elementos chamam a

atenção desse seu amor, dedicação

e gosto pela liturgia. Encontrei, no

meio da sua correspondência, um

pedido ao artista Cláudio Pastro

de autorização para reproduzir

um Pantocrator, de sua autoria,

na capela do Guarda-Mor. Capela

idealizada por ele, levando em

consideração todo o espaço litúrgico.

Presidia a eucaristia muito

bem, gostava de cantar as partes da

presidência. Tinha a preocupação

de usar em cada celebração o

pão novo, numa única patena,

evitando excesso de reserva eucarística.

Quem não se recorda da

famosa música de apresentação

das oferendas que ele apreciava

tanto: “Prepara essa mesa do povo

cristão”.

No arquivo provincial encontrei

um bilhete que ele havia enviado

ao ministro provincial para que

orientasse melhor os confrades

na preparação litúrgica das profissões

solenes: “Considerando

os vinte anos de uma Constituição

da Liturgia e o recente sínodo;

considerando que calar-se é

concordar: quero apresentar ao

50 - Revista Santa Cruz

governo provincial e à equipe de

formação o apelo: Orientar e olhar

com mais atenção as celebrações

de profi ssão religiosa de nossos

irmãos a fi m de que a simplicidade,

o respeito à liturgia e, não por

último, a comunhão fraterna e

eclesial sejam salvaguardados”.

Como já disse, frei Estanislau era

um homem de muita leitura. Ao

selecionar os seus livros e correspondências,

pude constatar como

gostava ler. Lia basicamente

em três línguas: português, francês

e italiano. Na sua biblioteca havia

algumas áreas que se destacavam:

Liturgia – muita literatura em

francês e italiano; Espiritualidade

geral e franciscana e Psicologia.

Recebia muitas revistas em francês

como: Paroisse et liturgie; Notes de

pastorale liturgiques e assembleés


du Signeur. Durante a minha

estadia em Roma, enviei, a pedido

dele, alguns livros em francês, um

desses, era um comentário a todas

as orações do dia, da celebração

eucarística do tempo de Advento

intitulado: La spiritualité de l’Avent

à travers les collectes.

Numa conversa, que tive recolhendo

informações sobre o frei

Estanislau, uma pessoa dava um

testemunho sobre uma homilia

feita por ele numa festa de Santo

Antônio: “Ele se transformava no

momento da pregação. Olhando

para a imagem de Santo Antônio

ele pregava e gesticulava com

tanta veemência que não parecia o

Estanislau, mas uma outra pessoa”.

Um franciscano de coração e

alma beneditina

Quem conheceu frei Estanislau

pôde perceber, por um lado, sua

paixão pelo franciscanismo. Nas

várias agendas encontradas no seu

quarto, havia esquemas de retiros

pregados, onde continha muitas

meditações sobre os Escritos de

São Francisco. Sempre portando o

surrado burel franciscano, com a sua

inseparável coroa franciscana. De

outro lado, também era fascinado

pela espiritualidade monástica

beneditina. Considerando o grande

número de cartas trocadas com a

sua irmã Dorinha, que era monja

beneditina, e conversando com ela

pessoalmente, pude constatar que

ela o havia infl uenciado bastante.

São correspondências de trocas

de experiências espirituais, de

leituras partilhadas e de apoio na

vocação religiosa. Frei Estanislau

recebia também muitas revistas

de espiritualidade monástica da

Europa e mantinha muita correspondência

com monjas dos

mosteiros beneditinos de Belo

Horizonte e de Caxambu. Apreciava

muito o canto gregoriano. No seu

quarto havia várias caixas de fi tas

cassetes.

Fama de Cigano

Frei Estanislau gostava de “ler” as

mãos das pessoas. Na realidade,

ele “jogava muito verde para

colher maduro” e aí obtinha informações

acerca da pessoa. Também

aplicava um pouco dos seus

conhecimentos de psicologia e,

assim, acabava descobrindo informações

da pessoa. Gostava

também de horóscopo chinês.

Vivia perguntando, sobretudo aos

formandos, o ano do nascimento e,

naturalmente, associava a pessoa

com o animal do horóscopo chinês.

Era muito querido, sobretudo

nos bastidores dos capítulos e

assembleias provinciais, onde,

Revista Santa Cruz - 51


nos intervalos, fazia brincadeiras e

comentários jocosos.

Vocabulário “bartholdiano”

Frei Estanislau dispunha de um

vocabulário que lhe era peculiar,

como, por exemplo: “Bom dia

alegre!”. Quando queria enfatizar

alguma coisa dizia “Nossa

Senhora!”. Gostava de elogiar para,

em seguida ao elogio, dizer a

famosa conjunção adversativa:

“mas...”. Quando encontrava algum

jovem conhecido, olhava-o bem

nos olhos e dizia: “Oh jovem! Força

jovem!”. No noviciado, quando

íamos pedir alguma coisa e se ele

dissesse: “Frei, faz parte de seu

projeto”? Podíamos dar meia-volta

e retornar.

Bom gosto pela comida

Nosso saudoso confrade apreciava

uma boa mesa. Era fascinado por

alguns pratos específi cos: um

lombinho de porco, torresmo,

chouriço e um bom “queijo com

personalidade”. Até mesmo contrariando

as dietas médicas, nos

últimos anos de vida, ainda se

aventurava e interrompia, sem

maiores escrúpulos, sua dieta, em

troca de algumas dessas delícias.

52 - Revista Santa Cruz

Agravamento da saúde e falecimento

Nos seus últimos anos, em São João

del-Rei, frei Estanislau foi cada vez

mais acometido por problemas de

saúde. O coração já não funcionava

muito bem. Foi perdendo também

o seu estilo alegre e comunicativo

de ser. Ficou cada vez mais

silencioso. Apenas respondia ao

que se lhe perguntava e a conversa

não rendia muito. Comentávamos

entre nós o fato de nosso frei

Estanislau que outrora fora tão

animado e, no entanto, agora, está

num ‘reto tom’.

Já bastante debilitado, participou

da Semana Santa até a quintafeira,

na comunidade onde ele

acompanhava nos últimos tempos.

Apesar dos limites do corpo,

continuava lúcido. No sábado

santo, dia 23 de abril de 2011,

ele foi internado no Hospital

Felício Rocho, em Belo Horizonte,

com um quadro de estenose aórtica.

Recebeu a visita de seus

familiares de São Vicente de Minas

e de confrades. No dia 07 de maio,

quando o vigário provincial frei

Vicente Ronaldo foi ungi-lo eu

estava presente. Conversamos um

pouco e ele estava muito lúcido.


Transcrevo, a seguir, um relato de

frei Fabiano Aguilar Satler: “Frei

Estanislau estava consciente durante

a última visita que fi z a ele, na

tarde do dia 17 de maio, véspera do

seu falecimento. Perguntei-lhe se

ele se recordava do LP que frei Joel

Postma gravara em Divinópolis, na

década de 1960. Ele disse que eram

os salmos do padre Gelineau. Cantei

para ele o salmo 147 e o Cântico

de Simeão, que ele acompanhou

em algumas partes. Durante toda

a noite da sua páscoa, ele cantou,

segundo informação do médico

plantonista”.

Faleceu no dia 18 de maio de 2011,

às 5h. A causa mortis: insufi ciência

de múltiplos órgãos e estenose

aórtica crítica. O seu corpo foi

levado para São João del-Rei, onde

foi velado na Igreja Nossa Senhora

de Lourdes e onde aconteceram

as exéquias. Foi sepultado

no Cemitério da Venerável Ordem

Terceira de São Francisco.

Requiescat in pace!

Testemunhos

“Era um homem sempre alegre,

aberto, disponível, apesar de

sensível às críticas que podia

receber, não era excludente.

Extremamente caridoso. Ligava

muito ao estudo das Fontes

Franciscanas. Não fazia do estudo

algo de projeção, mas

colocava tudo sobre o prisma

de um projeto pessoal de vida,

que ele conseguia realizar e que

transparecia em suas atitudes.

Apesar da propalada infl uência

beneditina, foi um franciscano como

poucos conseguiram ser” (Frei

Márcio Cabral – Salinas, 16.09.2011).

“Muito sincero e autêntico. Muito

benquisto pelos formandos.

Bernardino e Estanislau eram

mais próximos dos alunos. Dava

oportunidade para que os alunos

levassem adiante sua refl

exão. Na capela e na cela tinha

espírito beneditino; no dia a dia,

franciscano. Era muito carinhoso

no relacionamento. Preocupava

com a sinceridade da Província e

possuía muita sintonia com a PSC

e a OFM” (Frei Luciano Brod – Salinas,

16.09.2011).

“Uma característica forte dele era

promover as pessoas. Tinha sempre

um sorriso alegre. A oração era

outro ponto forte, estava presente

Revista Santa Cruz - 53


em todas as horas rezadas em

comunidade” (Frei João José de

Jesus – Salinas, 16.09.2011).

“Para mim, frei Estanislau foi e

será um grande testemunho de

dedicação e entrega a Deus. Um

homem que estava em sintonia com

Deus, em todos os momentos de sua

vida. Um homem que soube viver e

vencer os confl itos sem perder a paz

e a serenidade. Sua proximidade

com Deus era tão expressiva que

todos se aproximavam dele, para

sentir o carinho e a ternura do

Criador” (Frei Vicente Ronaldo –

Montes Claros, 27.01.2012).

“De nossa convivência em Divinópolis,

tenho que agradecer

muito a Deus, pois ele foi um verdadeiro

irmão, com quem compartilhei,

de modo muito aberto

e fraterno, nossa pesada jornada

pastoral numa paróquia de grandes

exigências para quem nela

quer exercer seu ministério [...]. Frei

Estanislau estava sempre de bem

com a vida e isto me ajudava, pois

seu bom humor temperava a minha

seriedade em vários momentos

de nossa atividade pastoral e

na convivência fraterna que, às

vezes, podia ser confl ituosa. Sua

preocupação com as pessoas mais

carentes fez com que reabríssemos

o restaurante popular do salão da

comunidade São Geraldo, para

cuidar de pessoas necessitadas.

54 - Revista Santa Cruz

Qualidades humanitárias deste

memorável frade: levar as pessoas

mais favorecidas a ajudar os

mais necessitados. Ele não se

envergonhava de pedir aos ricos

uma ajuda para os pobres [...].

Com ele sentamos muitas noites

em alguns restaurantes em torno

do santuário para saborear um

gorduroso caldo de vaca atolada

ou de um pezinho de porco. Dele

aprendi a sinceridade e a franqueza

no relacionamento fraterno de

uma comunidade de vida” (Dom

Célio de Oliveira Goulart – São João

del-Rei, 02.02.2012).

“Não há como não se lembrar do

frei Estanislau. Guardo comigo,

desse tempo (1985), seu senso de

presença do Mistério e seu gosto

e prazer pela liturgia celebrada

com solenidade. Isto podíamos

experimentar pelo incenso abundante,

pelo canto litúrgico inclusive

presidencial, pelas fl ores

no presbitério, pela iluminação

utilizada com critério, pela sua

oratória (gestos, tom de voz...).

[...] Quando morei em São João del-

Rei e o tive como confrade, encontrei

um frei Estanislau fragilizado.

O ano de 2007 foi um ano difícil

para ele e para nós que o acompanhávamos

de perto. Houve

diversas internações sem muito

sucesso. O mais difícil foi quando

tive que tomar a decisão de levá-lo


para tratamento em Belo Horizonte,

uma vez que os recursos médicos

de São João del-Rei tinham-se

esgotado. Mais difícil ainda foi,

quando, em outra ocasião, ele

esteve em Belo Horizonte por um

período mais longo, por motivo de

uma cirurgia no joelho, e, ao voltar,

tivemos que mudá-lo de quarto

também sem o seu consentimento.

Ele resistiu no início, mas depois

acabou aceitando devido à sua

difi culdade de locomoção. Duas

lembranças edifi cantes guardo deste

segundo período. A primeira:

seu envelhecimento não foi impedimento

para sua formação e

renovação litúrgica. Seu jeito de

presidir não era o mesmo de 25

anos atrás, quando eu o conhecera

em Pará de Minas. Sua biblioteca de

liturgia também não era a mesma.

A segunda: a passagem do homem

falante para o homem do silêncio.

Foram várias viagens para levá-lo a

Belo Horizonte para consultas, todas

em silêncio profundo. Frei Estanislau

fez de sua enfermidade, durante

os seus últimos cinco anos de

sua vida, a oportunidade feliz de

desligar-se e se despedir de tudo e

de todos que ele muito amou nesta

terra, para se encontrar com Aquele

Mistério Absoluto que ele anunciara

e diante do qual ele testemunhara

estar durante sua vida” (Frei

Gabriel José de Lima Neto – Santos

Dumont, 03.02.2012).

“Frei Estanislau era assim: um mestre

que descobria no outro a beleza

do sonhar e do amanhecer. Iluminou

nossos caminhos longos e os atalhos

nem sempre fl oridos e frios! Ensinounos

como viver, como embaralhar e

acertar todas as cartas – uma bela

jogada! Foi maestro e compositor de

muitos homens e mulheres. Como

líder, sabia cuidar das pessoas e

das coisas. Sabia que sua saúde

mental e suas intuições dependiam

de sua capacidade de deixar a alma

repousar no silêncio. Líderes também

meditam, sabia? Como mestre e

líder nunca deu-nos o peixe, mas

a melhor maneira de lançar todas

as redes! Saudade, amado mestre!”

(Frei Donizete Afonso da Silva –

Belo Horizonte, 08.02.2012).

“Um homem tão íntegro e tão

bom. Aprendi dele: dar dignidade

ao pobre” (Dona Noemi – Betim,

11.02.2011).

“Foi um verdadeiro pastor. Possuía:

zelo, cuidado e amor pelas suas

ovelhas” (Maria Helena – São João

del-Rei, 13.02.2012).

“As características mais profundas

dele que pude perceber eram o amor

pela eucaristia e por nossa Senhora.

Em alguns momentos da sua vida,

nossa Senhora era a sua confi dente.

Transmitia algo de divino; passava

aquilo que ele tinha no coração.

Possuía uma personalidade muito

forte” (Alice – São João del-Rei,

13.02.2012).

Revista Santa Cruz - 55


“O que mais caracterizava frei Estanislau

era a alegria” (Dorinha –

São Vicente de Minas, 14.02.2012).

“Cada segundo de sua vida foi uma

oportunidade que Deus lhe deu

para plantar o bem, para construir

o amor, para assistir a todos que o

procuravam para uma orientação

espiritual frente às vicissitudes.

Por isso, sempre imprimiu sentido

profundo à sua existência tão cheia

de méritos. Com seu labor apostólico,

irradiava cotidianamente grande

alegria, sabedoria e bondade,

transmitidos principalmente em

seus olhos azuis e expressivos. Ele

procurava ver o rosto de Deus no

espelho dos rostos humanos, através

de seu nobre coração” (Cida Campos

- São João del-Rei, 25.05.2011,

missa de 7º dia).

“Ele que tanto sorriu, tanto cantou,

tanto amou, tão imensamente viveu

o Evangelho, espalhando-o por onde

passou, e, certamente tanto sofreu

(sem o demonstrar), merece esta

alegria, sim! Tenho certeza! Deus

o acolheu em seus braços” (Maria

Helena – São Vicente de Minas,

25.05.2011, Missa de 7 o dia).

“Ah, frei Estanislau, quanta saudade!

Quantas semanas santas

cantamos com o senhor! Quanto

entusiasmo, quanta vibração! Toda

vez que cantamos, e que cantarmos,

daqui por diante, os belos salmos

responsoriais do Sábado Santo, sua

56 - Revista Santa Cruz

presença em nosso meio nos fará

cantar com maior alegria: Entoou

Moisés este canto ao Senhor, todo

o povo se uniu em alegre louvor!”

(Regina Coeli – São Vicente de

Minas, 25.05.2011, Missa de 7º dia).

“Posso afi rmar, com certeza, que

minha vida religiosa tem muita

inspiração no seu modelo de vida,

que testemunhou fortemente o

carisma franciscano. Convivi com

ele aqui quase um ano e meio. Nesse

convívio, destaco alguns valores que

para mim norteiam a vida religiosa:

1) Seu ardor pela vida de oração:

sempre muito atuante e fi el na vida

de contemplação, um contemplativo

ativo. 2) Sua caridade: não sabia

dizer não aos pobres e pedintes;

ninguém saía daqui com as mãos

vazias, não emitia julgamento algum,

ajudava sempre. 3) Sua simplicidade

e pobreza: sempre de

hábito franciscano, vivia desapegadamente

das coisas do mundo;

sua riqueza eram os livros, nos

quais se debruçava com gosto e

esmero. 4) Seu caráter fraterno que

muito valorizava, na vida diária

da convivência: estava sempre

nos recreios e nunca faltava a um

capítulo local, acompanhava a PSC

com seu olhar crítico e com amor

fraterno. Um santo, a meu ver, pois

suas qualidades superaram seus

pecados” (Frei Jaime - São João del-

Rei, 15.02.2012).


UMAS E

OUTRAS

[...] E a pergunta roda

e a cabeça agita.

Eu fi co com a pureza

da resposta das crianças.

É a vida, é bonita e é bonita...

Que tal dar umas boas gargalhadas agora?

Quem sabe, rir da própria vida! Então, vamos lá!

Frade compra fazenda

Calma, calma, antes de tirar conclusões!

O que aconteceu foi que

frei Chiquinho, de passagem por

Roma, resolveu comprar alguns

metros de panos para fazer hábitos

para os confrades. É um pouco

às avessas da conhecida anedota

provincial de que determinado

frade teria pedido autorização para

comprar ‘fazenda’ e o provincial,

pensando que se tratasse de

‘pano’, deu logo o consentimento.

Dessa vez é pano mesmo, nada de

vaquinhas e pomares.

Revista Santa Cruz - 57


Triatlo da juventude

Em preparação às Olimpíadas

de 2016, frei Elias Hooij já criou

uma nova categoria esportiva:

o triatlo da juventude. Prestes a

alcançar sua nona década, o jovem

rapaz pode ser visto diariamente

correndo e mergulhando na praia.

A terceira parte do percurso ele

completa girando as comunidades

da paróquia. Alguém se habilita

a desafi á-lo para um teste de

resistência?

Frei JJJ sem lenço e sem

documento

A memória de frei João José

de Jesus não é mais a mesma.

Agora deu para esquecer seus

documentos e outras cositas

más por onde anda. Sorte que

tem confrades prestativos a ponto

de o socorrerem em seus

esquecimentos. Cuidado pra não

esquecer a cabeça, frei João!

Correio efi ciente

Frei Fernando Rocha fi cou impressionado

com a rapidez com

que os Correios têm entregado

as correspondências. Mal tinha

enviado sua carta e já recebera

a resposta. Mas, quando reparou

bem, notou que era a própria carta

que tinha enviado. Mas como

assim? Inquietou-se o frade. Seus

58 - Revista Santa Cruz

irmãos de fraternidade tiveram

de ajudá-lo: ele tinha invertido o

remetente e o destinatário. Liga

não, frei Fernando, sua carta é

como o vento no Quarto Evangelho:

“não se sabe de onde vem,

nem pra onde vai”!

Um frade com as calças

molhadas

Na ida para o estágio em Jequitinhonha,

frei Luciano Lopes

sentou-se embaixo da saída do ar

condicionado, no meio do ônibus.

Como estava chovendo, começou

a gotejar bem nas pernas do

frade capixaba, que não tardou

em reclamar ao cobrador. Porém,

fi cou perplexo com a resposta, em

voz alta: “Ó dó! Está muito frio?!”. O

problema foi ao descer do ônibus

com as calças molhadas e ser

abordado pelas pessoas: “eu posso

explicar” – se antecipava.

Questão de gênero

O noviciado provincial viveu

momentos insólitos durante a

profi ssão de frei José Bandeira.

Durante as homenagens fi nais,

cantou-se uma linda canção que,

se não fossem as adaptações

necessárias, teria feito chorar a

muitos. Para não nos alongar, vejamos

a letra da música em homenagem

a nosso neoprofesso:


Aos olhos do Pai

você é uma obra-prima

que Ele planejou.

Com suas próprias mãos pintou

a cor de sua pele,

os seus cabelos desenhou.

Cada detalhe

num toque de amor.

Você é linda demais

perfeita aos olhos do Pai.

Alguém igual a você não vi jamais,

princesa, linda demais.

Perfeita aos olhos do Pai

alguém igual a você não vi jamais.

Parabéns, frei José Bandeiras!

Ite missa est

Enquanto os frades ainda almoçavam,

dois irmãos do pósnoviciado

se retiraram para lavar

a louça. Frei Vicente Ronaldo,

que outrora era chamado de

“Cachorrão”, chega à cozinha e

esbraveja com carinho: “Gente,

vamos voltar para o refeitório, a

missa ainda não acabou!”. Eis uma

explicação prática da máxima:

“toda vida é oração!”.

Um frade atleta

O fi lho de Almenara, frei Kauê,

assim que chegou a Betim, descobriu

as academias populares,

em praça pública, e se tornou um

fi el adepto. O detalhe inesperado é

que faz seus exercícios com o burel

franciscano - o que tem chamado

a atenção de todo o quarteirão.

Novos areópagos, tudo bem, mas...

Missa às avessas

Certo frade, residente no Norte de

Minas, muito criativo e inovador,

durante uma celebração dominical,

fez algumas modifi cações no rito

da missa: após a proclamação do

Evangelho, convidou a assembleia

para professar a fé. Um confrade

que estava presente pensou com

seus botões: “oba, hoje a missa

vai acabar mais cedo”. Quando já

estava terminando a apresentação

das Oferendas, veio a surpresa: o

reverendíssimo presidente começou

a homilia. Parafraseando

o ditado popular, “alegria de frade

dura pouco”!

O frade e a sexta-feira 13

Após um período na “Cidade

Eterna”, frei Vicente Lopes retornou,

há pouco, às terras tupiniquins. Seu

desembarque se deu no dia 13 de

fevereiro, sexta-feira. Tomara que

a “sexta-feira 13” lhe traga sorte, e

também a seus confrades, afi nal,

receber um novo morador nessa

data não deixa de ser algo passível

de apreensão.

Revista Santa Cruz - 59


Um frade de apenas 9 aninhos

Existem vocações precoces, mas

frei Emanuel parece ter batido o

recorde. Sua inscrição no encontro

de Under Ten, no México, deu

como data de nascimento o ano

de 2003. Tendo em vista que o

frade da Fundação Nossa Senhora

de Fátima é professo solene, se vê

que, quando Deus quer chamar a

alguém, nem fraldas o impedem.

Nota de falecimento

Com pesar informamos o falecimento

do mais doce, meigo,

carinhoso, terno, cheiroso, dócil,

amigo, companheiro animalzinho

dos frades. Trata-se de Zangado, o

“Zan” para os íntimos. Ele faleceu

em Alcobaça, em decorrência de

uma perfuração estomacal causada

por um osso galináceo. Após

anos de penosa agonia, foi levado

aos Campos Elíseos. Expressamos

nossa solidariedade, sobretudo a

frei Moisés, que acompanhou a

pobre criatura por longo tempo.

GP da PSC

Bem amigos, estamos aqui de

novo dando notícias das peripécias

de nossos confrades no trânsito. O

Grande Prêmio da Província Santa

Cruz teve fortes emoções nos

últimos meses. A equipe Bocaiúva

eletrizou os espectadores,

60 - Revista Santa Cruz

demonstrando que está disposta

a lutar pelo campeonato deste

ano. Numa manobra arriscada, frei

Waldelir foi atingido por um Monza

86, “zero bala”. O outro piloto, que

tinha mais álcool que o próprio

carro, saiu com cara de poucos

amigos. Imediatamente, a equipe

de frades se organizou a fi m de

prestar-lhe socorro e evitar atos

mais violentos.

O outro piloto da mesma equipe,

frei Júnio Fernando, no autódromo

de Uberlândia, nas retas do

Triângulo Mineiro, fez a Kombi

dos frades de Betim chegar a

150 km/h. A bichinha até gemeu

para conseguir fazer a ultrapassagem

de uma carreta, deixando os

tripulantes com o coração na boca.

Pelo visto, o ano começa com a

equipe do Norte de Minas prometendo

fortes emoções automobilísticas.

São Cristóvão vai ter

trabalho!


Revista Santa Cruz - 61

More magazines by this user
Similar magazines