Visão Judaica

visaojudaica.com.br

Visão Judaica

10

Um grupo destemido

— Colonos judeus

defendem uma

colônia dos ataques

árabes em 1904, na

Galiléia

A Jerusalém no

tempo dos otomanos

— Uma visão da

“cidade eterna”, no

século 19. Na época

os judeus viviam na

parte antiga da cidade

desde séculos

VISÃO JUDAICA • julho de 2003 • Av • 5763

A quem pertence a Terra Santa?

Diante do anti-semitismo da Europa

os judeus vão para a Palestina.

Para eles, a imigração significa

um direito bíblico, mas

para os árabes uma invasão.

Os conflitos sangrentos são

constantes. Enquanto isso, a política

pendular britânica na Palestina,

só agravou a situação.

Teja Fiedler*

“Nada os assustou,

nada os deteve,

nem o deserto, nem

a selvageria dos árabes,

e também não

o desconhecimento

da língua e dos costumes

locais”. Assim

descreve, numa carta

à sua família, um

colono judeu à luz

de uma lâmpada de

querosene sua situação

e a dos seus companheiros. “Ninguém,

longe daqui, pode imaginar como

é ficar dias sem uma gota de água, deitar

em barracas apertadas e ser incomodado

por répteis de todos os tipos.

Tão pouco consegue entender o que

nossas mulheres,

crianças e mães, sofrem

quando os árabes

nos atacam. Então

é esta a terra

prometida”? E a propaganda

em casa

queria nos fazer entender

que era, “um

país sem povo para

um povo sem país”.

Mesmo assim, alguns

milhares de judeus, a maioria deles da

Rússia, foram para Palestina no final do

século 19. Sua comunidade, em tempos

recentes, ainda sob o domínio dos czares,

havia sofrido pesadas perseguições.

Mais de dois milhões deles esco-

Voltando à sua terra natal e encontrando inimigos... de 1890 à 1939

lheram como sua terra prometida os

Estados Unidos. Mas uma pequena minoria

que imigrou para a Palestina

(que estava sob o domínio dos otomanos),

estava convencida de que

“para o povo de Israel não havia salvação

além de instalar um governo

próprio no país Israel”.

Durante alguns anos essa iniciativa

visionária vegetou na escassa

terra da Palestina. Até o surgimento

de Theodor Herzl, e com ele o Sionismo

político. Herzl, um jornalista de

Viena, que amava a ópera e que tinha

escrito algumas peças de teatro,

de algum sucesso, publicou em 1896

uma tese: “O Estado Judeu - a tentativa

de uma solução moderna para a

questão judaica”.

Desde a emigração da Judéia, depois

da destruição de Jerusalém pelos

romanos, no ano 70 e. C., as comunidades

judaicas na Europa viveram mais de

um milênio num equilíbrio extremamente

instável nesse ambiente. Vistos pelos

cristãos como “culpados pela morte

de Jesus na cruz”, eles foram empurrados

para a margem da sociedade.

Na Idade Média, por exemplo, foi

proibido aos judeus serem proprietários

de terras e casas, assim como

exercer um ofício, e foram obrigados

a morar em bairros próprios, chamados

guetos. Ao mesmo tempo, precisavam

deles como comerciantes e financistas

para empréstimos em dinheiro.

E eram excelentes bodes-expiatórios:

A convivência com seus

vizinhos cristãos foi sempre interrompida

por massacres e expulsões.

No final do século 19 o anti-semitismo

ganhou nova força: Pogroms na Rússia,

excessos na França, e um prefeito

popular, mas extremamente anti-semita

em Viena, a cidade natal de Herzl. Palavras

de ordem demagógica como: “Jüdische

Zinsknechtschaft” (domínio judaico

dos juros) e “Saujud” (judeu porco) viraram

palavrões e xingamentos.

“Nós sempre tentamos, honestamente,

nos assemelhar às comunidades

onde vivemos, e queríamos só

manter a fé (religião) de nossos pais.

Mas eles não deixam. Em vão, somos

patriotas fiéis e até exagerados patriotas

em alguns lugares, mas em vão

fazemos sacrifícios de sangue e de

bens, como nossos concidadãos”. Assim

escreveu Theodor Herzl em sua

tese. Só havia uma saída: Um Estado

independente para os judeus. Um Estado

que devia mudar por completo a

característica de um povo suprimido e

espalhado pelo mundo. Assim nasceria

uma maravilhosa nação de judeus. “Os

macabeus iriam ressuscitar”. (Os macabeus,

na Antigüidade tinham libertado

Israel do domínio estrangeiro).

Um Estado judaico na Argentina

Herzl tinha em vista dois possíveis

territórios, Argentina ou Palestina: “A

Argentina é, pela própria natureza, um

dos países mais ricos da terra, com

vastas extensões, com pouca população

e clima ameno”. Mas a Palestina

foi a alternativa que mais inspirou

Herzl: “A Palestina é nossa inesquecível

pátria histórica... Caso sua majestade

o sultão nos ceda a Palestina, poderíamos

regular as finanças de toda a

Turquia. Para a Europa iríamos representar

uma barreira contra a Ásia e seríamos

um posto avançado de cultura

contra a barbárie”.

Um ano depois, o primeiro Congresso

Sionista Mundial na Basiléia determinou

a Palestina como a velha e a

nova Pátria do Povo Judeu. Naquela

ocasião o jornalista liberal Herzl não

queria um Estado com caráter religioso

ou militar: “Nós saberemos manter

nossos sacerdotes em seus templos,

assim como saberemos manter também

nosso exército nos seus quartéis. Eles

não devem interferir nos assuntos de

Estado, porque assim iriam provocar

dificuldades externas e internas”.

Um categórico não foi a resposta

do sultão para o avançado posto judaico

de proteção contra a barbárie.

Mesmo assim, ele não conseguiu evitar

a imigração dos ativistas sionistas

vindos da Europa. A população

local sentiu-se ameaçada, na medida

em que crescia o número dos colonos,

porque esse não era o tipo de

judeus com o qual os árabes conviviam

desde séculos.

Com esses “judeus antigos” eles

geralmente conseguiam conviver muito

bem. Afinal, foram os muçulmanos

que (depois da conquista de Jerusalém

em 1638 e. C.) extinguiram a lei romana

que proibia os judeus de entrar em

Jerusalém. Eles respeitavam a fé judaica,

mas só mediante a obrigação do

pagamento de um sobrecarregado imposto

religioso.

Em 1881, pouco antes do surgimento

da manifestação de Herzl, viviam 450

mil árabes, mas só 24 mil judeus, na

maioria trabalhadores com seus ofícios

ou pequenos comércios.

A maioria muçulmana os tratava

– conforme o historiador Elie Kadourie

– com “desprezível tolerância”. Por

outro lado, temiam os “judeus novos”

porque esses vinham “da imoral Europa

e queriam apropriar-se das terras

e tirar da população local sua

pátria e sua cultura”.

Teodor Herzl não concordava com

isso. Entre árabes e judeus poderia reinar

a paz. A imigração judaica traria

também para os árabes vantagens –

escolas, pavimentação, hospitais. O

teórico do Estado Judeu Teodor Herzl

escreveu numa carta para o sábio islâmico

Yusuf Diya al-Khalidi: “Meu D-us,

o mundo é grande que chega, e ainda

existem países não de todo habitados

onde se poderia assentar milhões de

judeus. Em nome do Todo-Poderoso,

deixem a Palestina em Paz!”.

Khalidi se preocupava com a lenta

desapropriação de terras que começou

com a primeira onda de imigração.

Pelo menos no início, latifundiários

árabes colaboraram bastante

com isso. Eles venderam suas terras

a preços exorbitantes aos judeus. Os

arrendatários foram obrigados a se

retirar. “O medo da desapropriação e

expulsão seria o principal impulso da

resistência árabe contra o sionismo

até 1948 (quando houve a primeira

guerra)“, assim escreveu o professor

israelense de História Benny Morris.

No ano de 1900 existiam 60 mil judeus

na Palestina. Dificilmente os recém-chegados

da Europa tinham conflitos

de consciência. Para os religiosos,

a volta à Terra Prometida significava

a realização da promissão bíblica,

portanto a vontade de D-us, e fora de

qualquer crítica. Os outros viram os

árabes com os olhos do tempo, quer dizer,

com os olhos do colonialismo. “Não

podemos esquecer que se trata de um

povo semi-selvagem que possui idéias

extremamente primitivas. E isso faz parte

da sua natureza: quando o árabe sente

tua força, ele se submete e esconde o

seu ódio contra você. Quando ele sente

tua fraqueza, ele te dominará”, assim

Dia no gueto — Aspecto da cidade de

Wilna, na Letônia, onde os judeus do

Leste europeu viviam, muitas vezes,

segregados em bairros próprios. Por

isso, muita gente desconfiava deles

More magazines by this user
Similar magazines