Visão Judaica

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Visão Judaica

Não Matarás, óleo sobre tela, 1943, de

Samuel Bak

Jane Bichmacher de Glasman*

Arte e Judaísmo

conceito de arte judaica

pode parecer, a alguns, uma

contradição devido à proibição

explícita do quarto

mandamento: “Não farás

para ti imagem de escultura,

nem qualquer semelhança do que há em

cima, nos céus, nem embaixo, na terra,

nem nas águas abaixo da terra” (Êxodo

20:4), que em Deuteronômio 4:16-8, ao

proibir imagens esculpidas, particulariza

em termos que não deixam lugar a

ambigüidade: “à semelhança de macho

ou fêmea, de qualquer animal que esteja

na terra, de qualquer ave alada que

voa nos céus, de qualquer peixe que esteja

na água abaixo da terra.”

O Refugiado, óleo sobre tela pintado em

1939 por Felix Nusbaum

Esta interdição, vista como antagônica

a todo desenvolvimento artístico,

implicaria numa visão muito estreita do

escopo e funções da arte, pois nem toda

arte é representativa e, mesmo nesta, existem

motivos desvinculados de figura humana

ou animal. O certo é que nem sempre

foi interpretada assim, mesmo entre

judeus mais observantes. O próprio Pentateuco,

com as suas instruções detalhadas

a respeito do querubim que seria colocado

na Arca, sugere que a proibição do

Decálogo deveria ser lida em conjunção

com o versículo seguinte: “Não te curvarás

ante elas e não as servirás” – isto é,

que nenhuma imagem deve ser feita com

o propósito de idolatria, tanto representando

quanto substituindo a Divindade.

Através da história judaica atitudes

e interpretações variaram por regiões e

gerações. Às vezes a proibição era total;

em outras, chegava-se ao extremo

oposto, incorporando figuras humanas

até a objetos ritualísticos. Era mantida

somente no que se refere a “imagens

esculpidas” tridimensionais de seres

humanos, isto é, bustos e estátuas. Estes

só começam a aparecer nos séculos

17 e 18, embora, mesmo no período clássico,

ocorreressem algumas exceções

significativas, como belos exemplos de

mosaicos e afrescos em ruínas de sinagogas

dos seis primeiros séculos e.c.,

VISÃO JUDAICA • julho de 2003 • Av • 5763

Holocausto e Arte

como Dura Europos.

Era também proibida a reprodução

dos utensílios do Templo. Por extensão,

não se poderia usar qualquer forma de

arte em partes do culto religioso.

No período medieval uma forma que

possibilitou aos judeus expressão artística

foi a dos manuscritos iluminados,

com variados tipos de ilustração, dependendo

da origem, por exemplo “páginas

de tapete” entre os judeus de países islâmicos,

ou figuras humanas (obviamente

chinesas) em Meguilot (Rolos, livros

bíblicos) usados pelos judeus da China.

Uma forma comum era a micrografia, que

consistia em escrever um texto em letras

minúsculas formando uma figura. Um

dos textos favoritos dos ilustradores era

a Hagadá de Pessach, pois, sendo lida

em casa não era levada à sinagoga, permitindo

ao artista maior liberdade de

criação. A invenção da imprensa marcou

o fim da iluminura, embora tenha permanecido

na decoração de Ketubot (contratos

matrimoniais) e até nas primeiras

versões impressas do Mahzor (livro de

orações para Iamim Noraim).

A atitude judaica era condicionada por

duas forças opostas: repulsão e atração.

O fato é que as artes foram desenvolvidas

e acompanharam o percurso do povo judeu,

em todas as formas de expressão.

Objetos ritualísticos artísticos são usados

no ciclo da vida judaica e adornam os lares,

identificando-os desde sua entrada,

com as mezuzot. Obras de artistas plásticos

judeus figuram nos museus do mundo,

além de crescerem os museus especificamente

judaicos. A literatura em hebraico,

idiomas e dialetos judaicos e outras

línguas é a base da religião além de

constituir a expressão da alma humana,

através dos tempos. “A área de maior criatividade

artística não foi a das artes plásticas,

mas a de expressão sonora: música,

canto e, em particular, a arte de contar

histórias, porque nelas a imaginação foi

capaz de voar livremente, sem limitações.”

(Unterman, p.32)

Todos estes aspectos marcam o testemunho

da presença judaica no mundo,

mesmo, ou principalmente, de onde fomos

banidos, expulsos ou massacrados.

Arte Judaica e Holocausto

Este tema desdobra-se em inúmeras

questões, desde o que foi preservado da

arte judaica após o abalo apocalíptico

nazista, o que foi produzido durante e

como o Holocausto foi representado nas

artes, por testemunhas, sobreviventes

e pelos que não viveram pessoalmente.

Há ainda o aspecto da múltipla representação

artística, em todas as suas

manifestações, das artes plásticas e

visuais, como pintura, escultura, arquitetura

e arte ritualística, até a literatura,

hebraica, judaica e universal.

O Prof. Salo Baron (1970) baseado

num memorando quando convidado a depor

no Processo Eichman em 1961 sobre

as comunidades judaicas destruídas pelos

nazistas, escreveu que: “Foi por reconhecer

a importância cultural dos judeus que

os nazistas, quase imediatamente após

terem chegado ao poder, procuraram combatê-los

intelectualmente.”Estabeleceram

uma divisão especial de pesquisa judaica

em Munique, no Reichsinstitut seguida

pelo lnstitut zur Erforschuing der Judenfrage

em Frankfurt, dirigido pelo ideólogo

do movimento nazista, Alfred Rosenberg,

que reuniu uma biblioteca judaica e

hebraica para utilizar no ataque aos judeus

e ao judaísmo, confiscando coleções

francesas e alemãs, incluindo os arquivos

Rothschild e a biblioteca da Alliance Israélite

Universelle. Com a expansão da Nova

Ordem, os alemães estabeleceram instituições

similares para o estudo da “questão

judaica” em Paris e em Lodz. Sob a pressão

nazista, a Itália criou instalações, em

1942, para o estudo da raça e das questões

judaicas nas universidades de Florença,

Bolonha, Trieste e Milão.

É difícil ser preciso acerca das perdas

totais judaicas na Europa, pois os

alemães destruíram não só o povo, mas

também os documentos em que cálculos

mais apurados poderiam ter-se baseado.

A maioria das estimativas converge ao

redor de seis milhões de judeus mortos,

número citado no processo dos criminosos

de guerra em Nuremberg.

A tragédia foi maior onde a vida

comunitária cultural judaica era mais

florescente. Tesouros culturais seculares,

3000 Kehilot e suas instituições

desapareceram. Grandes escolas de instrução

superior, jornais, revistas, editores

e centros artísticos foram arrasados.

Além da enorme porcentagem de

judeus mortos durante a Shoá, sua elite

intelectual estava tão dizimada, que

sobreviventes procurando realizar algo,

estavam privados de seus líderes, fossem

rabinos, literatos ou eruditos.

Atualmente o mundo tem participado

das pesquisas e debates sobre os

tesouros roubados pelos nazistas, além

do resgate (?) dos mesmos e da questão

das indenizações. Mas seria possível

atribuir qualquer tipo de valor material

à arte perdida, roubada ou destruída?

E a vida humana: tem preço?

Parece-me mais que óbvio que não.

Outra questão, mais complexa a meu

ver, é tentar compreender: como no seio

da barbárie, conseguia a alma humana

criar, pintar, escrever e até cantar?

A Fênix Judaica: Arte e Cinzas

Em um artigo sobre o Museu de Arte

do Holocausto, parte do Yad Vashem,

Yehudit Inbar escreveu que durante o

Holocausto, artistas registraram o que

testemunhavam e sentiam em sucatas de

papel, usando lápis, carvão ou qualquer

coisa que servisse para esboçar uma linha.

É difícil entender de onde eles tiravam

força psicológica para serem criativos,

quando sua preocupação precípua

era a sobrevivência imediata. Como eles

reuniram força expressiva que irrompe tão

poderosamente dos seus esboços desesperados?

Como tal arte foi produzida na

escuridão daquele período de horror?

Para alguns artistas a arte era um

modo de descrever o que eles e os ao

seu redor viam e vivenciavam. Sendo a

arte a única ferramenta documental

com a qual eles estavam familiarizados,

usaram-na para aquele fim.

Para outros, a arte foi um mecanis-

mo que tornou a sobrevivência

psicológica possível.

Era o seu modo pessoal

de confrontar-se com

a crise que os tinha acometido.

Alguns pintaram o

passado, para escapar do

presente por alguns momentos

passageiros; outros

pintaram para o futuro.

Todas estas obras de

arte têm uma qualidade notável, a

maioria manifesta no seu dualismo de

força e fragilidade.

O Museu de Arte de Yad Vashem possui

a maior coleção de Arte do Holocausto

no mundo. Arte criada

predominantemente por

artistas judeus que viveram

sob a ocupação alemã, em

cidades, guetos e campos de

concentração durante a Segunda

Guerra. Seu testemunho

permite, embora brevemente,

que nos aproximemos

de uma realidade que é

tão freqüentemente descrita

como indescritível. Estes

esboços, desenhos e pinturas

são acima de tudo a manifestação

de uma das formas

mais altas de heroísmo, um gesto

de desafio que proclama o triunfo do

espírito. Arte criada em condições onde

a simples tarefa de encontrar materiais

era uma realização maior e onde

habilidades eram usadas para sobreviver

é uma afirmação do ímpeto

criativo tão forte que não

sucumbiu sob as condições mais

atrozes. Para muitos, tal coragem

custou suas vidas. A preservação

destas obras de arte assume

uma feição milagrosa, bem

como sua recuperação.

O próximo dia 19 de agosto

(21 de Av) marca 50 anos da fundação

do Yad Vashem. Envie felicitações

para o e-mail international.relations@yadvashem.org.il

E visite o Museu on-line http://

www.yadvashem.org.il

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

UNTERMAN, Alen. Dicionário Judaico de Lendas

e Tradições. RJ: Zahar, 1992.

BARON, Salo. História e Historiografia. SP,

Perspectiva, 1974.

ENCICLOPÉDIA JUDAICA. RJ, Ed. Tradição, 1967.

INBAR, Yehudit. Art in the Face of Adversity:

The New Museum of Holocaust Art. Copyright

©2001 Yad Vashem The Holocaust Martyrs’ and

Heroes’ Remembrance Authority http://

www.yadvashem.org.il

The Art Institute of Chicago. Eileen Harakal,

Executive Director of Public Affairs Copyright © 2000

* Jane Bichmacher de Glasman é

doutora em Língua Hebraica,

Literaturas e Cultura Judaica-USP,

professora adjunta, fundadora e exdiretora

do Programa de Estudos

Judaicos–UERJ, professora e

coordenadora do Setor de Hebraico-

UFRJ (aposentada), coordenadora do

Grupo de Estudos Beer Miriam–ARI e

escritora. (janebg@hotmail.com ou

janeglasman@terra.com.br)

13

Taleskpten, técnica

mista (guache, carvão

e crayon sobre papel)

pintado em 1944 por

Zinovvi Tolkatcher

Em memória aos

tchecos

transportados para

as câmaras de gás,

1945, carvão, de

Yehuda Bacon

Resgate de um

ferido, pintado

em tinta sobre

papel, em 1943

por Alexander

Bogen

Telas da coleção

do Museu de Arte

do Holocausto

do Yad Vashem,

em Jerusalém

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