17.04.2013 Views

Texto da comunicação - Direção-Geral de Arquivos

Texto da comunicação - Direção-Geral de Arquivos

Texto da comunicação - Direção-Geral de Arquivos

SHOW MORE
SHOW LESS

You also want an ePaper? Increase the reach of your titles

YUMPU automatically turns print PDFs into web optimized ePapers that Google loves.

Conhecer e visitar: O Serviço Educativo do

Arquivo Nacional da Torre do Tombo

É necessário colocar o património arquivístico ao alcance do público dando-lhe os meios

intelectuais para o compreender e assimilar como seu, e de volta, saber escutar a percepção

que dele faz o público e do modo como se apropria, desta parte da sua identidade.

Cheynet, Pierre

Direction des Archives de France

Resumo

A comunicação apresenta a experiência que tem vindo a ser desenvolvida no Arquivo

Nacional da Torre do Tombo para a implementação do Serviço Educativo.

São referidos os diferentes passos que têm sido dados, no sentido de conjugar as ofertas

temáticas do Serviço Educativo com diferentes níveis de ensino e consequentemente

com diferentes níveis etários e diferentes áreas curriculares por forma a aproximar o

Arquivo do público, particularmente do público escolar.

São também apresentados os pontos fortes e os pontos fracos do projecto.

Resumen

La comunicación presenta la experiencia que se ha desarrollado en el Archivo Nacional

de la Torre do Tombo para la implementación de lo servicio educativo.

Se refieren los distintos pasos que se han tomado a fin de adecuar los temas ofrecidos

por el Servicio Educativo a los diferentes niveles escolares y, en consecuencia, a los

distintos niveles etarios y distintas áreas del currículo de modo a aproximar el Archivo

del público, especialmente del público escolar.

Se presentan también las fortalezas y debilidades del proyecto.

Página 1 de 14


Abstract

This lecture presents the experience that is being developed in the National Archive of

Torre do Tombo (Portugal) for the implementation of the Education Service.

The different measures that have been taken are addressed, like adapting the themes of

the visits/activities offered by the Education Service to the different school years and

consequently to the different age levels and to the different school subjects, so as to

bring the Archive closer to the public, specially to the school public.

The strengths and weaknesses of the project are also mentioned.

Palavras-chave:

Serviço educativo; património documental; cidadania; memória colectiva

Palabras clave:

Servicio educativo; patrimonio documental; ciudadanía; memoria colectiva

Keywords:

Education service; documentary heritage; citizenship; collective memory

Autora:

Maria de Lurdes Henriques

Dados sobre a autora:

Licenciada em História e pós graduada em Ciências Documentais.

Actualmente é coordenadora do Gabinete de Relações Externas e Cooperação da

Direcção – Geral de Arquivos – Portugal.

Página 2 de 14


Conhecer e visitar: O Serviço Educativo do Arquivo

Nacional da Torre do Tombo

Esta comunicação pretende dar a conhecer a reflexão, estratégias e tarefas, que têm sido

assumidas para viabilizar a implementação do Serviço Educativo no Arquivo Nacional

da Torre do Tombo.

Para contextualizar a razão de ser deste Serviço, reportamo-nos:

1. À Constituição da República Portuguesa, que estabelece os direitos e deveres do

cidadão e do Estado face ao património cultural e que, através do seu Artigo 78º,

determina:

1. Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar,

defender e valorizar o património cultural.

2. Incumbe ao Estado, em colaboração com todos os agentes culturais:

a)Incentivar e assegurar o acesso de todos os cidadãos aos meios e

instrumentos de acção cultural, bem como corrigir as assimetrias existentes no

país em tal domínio;

(…)

c) Promover a salvaguarda e a valorização do património cultural, tornando-o

elemento vivificador da identidade cultural comum;

(…)

e) Articular a política cultural e as demais políticas sectoriais.

2. À própria Missão do ANTT: recolher, conservar, valorizar e divulgar o seu

património documental.

Parece-nos óbvio que só se pode valorizar e divulgar o que se conhece. Portanto, dar a

conhecer o património e as potencialidades que este oferece para o conhecimento e para

a cidadania, assume-se como um objectivo prioritário do ANTT.

O Arquivo definiu, para a concretização deste objectivo, várias estratégias, entre as

quais, a implementação do Serviço Educativo que, tal como se assume hoje, resulta de

Página 3 de 14


uma reflexão sobre a metodologia utilizada, ao longo de vários anos, na satisfação das

visitas de estudo solicitadas por professores de diversos níveis de ensino, do 1º ciclo às

Universidades. Nestas visitas, dava-se a conhecer uma das mais antigas instituições

portuguesas, detentora de um vasto e rico património documental, que abrange várias

áreas do globo, mas, não se valorizava a informação contida nos documentos, não se

interligavam os seus conteúdos às vivências diárias e nada se fazia para aproximar o

público, particularmente o público escolar aos arquivos. Desta reflexão, assumiu-se a

necessidade de transformar o que era uma oferta passiva, numa oferta pró-activa,

dinâmica, capaz despertar curiosidades, valores, conhecimentos e atitudes, que se

possam vir a reflectir numa cidadania mais esclarecida.

Registe-se, contudo, que as actividades relacionadas com o Serviço Educativo nem

sempre mereceram a atenção mais favorável, quer por parte de anteriores direcções,

quer sobretudo por parte de colegas arquivistas, que consideravam que a instituição se

deveria focalizar no processo informativo, destinado à satisfação dos pesquisadores e

dos cidadãos, no que respeita às solicitações explícitas na legislação e cujas respostas

exigem prazos legalmente definidos.

Não raras vezes, e até muito recentemente, alguns profissionais de arquivo

consideravam que as actividades culturais e educativas deveriam ser interditas nos

arquivos, pois representavam uma perda de tempo para os técnicos e um consequente

desvio aos objectivos a atingir.

A este propósito não podemos deixar de recordar o peso do passado, cujas

consequências se virão a reflectir até ao final do Séc. XX, inícios mesmo do Séc. XXI.

Quanto ao peso do passado, a Torre do Tombo era considerada a guardiã de um

tesouro, apenas acessível a raros e privilegiados investigadores.

A primeira referência à possibilidade de acesso ao público, reporta ao decreto de 24 de

Dezembro de 1901, onde se menciona o apoio aos estudiosos como uma das atribuições

dos conservadores. Registe-se, que até ao final dos anos oitenta, os arquivistas

continuavam a ser designados de conservadores, dado que a sua função principal era

conservar.

Com a primeira República projecta-se uma valorização da documentação histórica,

inserida num projecto cultural e pedagógico, fundamentado numa inovadora função dos

Arquivos que se deveriam assumir como Universidades do Povo, - Preâmbulo do

Página 4 de 14


Decreto de 18 de Março de 1911-. É neste decreto que aparece, pela primeira vez, a

referência a um horário de abertura ao público.

Acresce ainda, a falta de instalações condignas do Arquivo Nacional, que instalado

provisoriamente, numa ala do Palácio de S. Bento, desde o Terramoto de 1755, ali se

manteve até 1990, num espaço limitado que inviabilizava, não só o cumprimento das

suas funções, como ainda a democratização do seu acesso.

depois da transferência para as novas e actuais instalações na Cidade Universitária,

foi possível romper com o passado e iniciar a tão desejada democratização do arquivo.

Mesmo assim, a pressão a que foi sujeito para responder às muitas solicitações de

incorporação de documentação e respectiva disponibilização à consulta, a que, de

acordo com a legislação em vigor, tinha de responder, retardou o início da

implementação do Serviço Educativo.

Em 2006, o Programa de Reforma da Administração Central do Estado – PRACE é

encarado como uma janela de oportunidades, para inverter posturas e atitudes e

desenvolver competências.

Este programa determina que as instituições vocacionadas para a cultura devem

fomentar políticas culturais pró-activas e transversais, estimulando a cooperação

interinstitucional, por forma a rentabilizar recursos e meios que permitam atingir novos

e variados públicos.

Para dar cumprimento a estas orientações, o ANTT ponderou a tão desejada e

conveniente reestruturação do Serviço Educativo, que passou por uma definição de

estratégias, pelo seu planeamento e implementação, de que resulta o seu actual formato.

Para que este se assumisse como um projecto vencedor, muito contribuiu o facto de os

profissionais reconhecerem que há um potencial público de visitantes, muito, mas muito

superior àquele que já vinha ao Arquivo, abrangendo todos os níveis etários e todos os

sectores da sociedade e ainda que, a sua missão passa também por abrir as portas do

Arquivo ao cidadão comum, a quem compete fornecer os meios e as ferramentas

intelectuais sobre a missão de um Arquivo e de um profissional de arquivo.

Quantos colegas de profissão não se lembrarão, tal como eu, da estranheza que muitas

vezes testemunhávamos quando dizíamos: eu sou arquivista. Ah!... Trabalha com

papéis velhos!...Era a observação que recebíamos como resposta.

São representações como esta que a nova geração de arquivistas tem de saber alterar. É

certo que um arquivista trabalha com papéis velhos e com pergaminhos, ainda mais

Página 5 de 14


antigos, mas também, e cada vez mais, trabalha com processos desmaterializados, e com

novos suportes digitais.

O cidadão tem o dever de respeitar e preservar os documentos de arquivo, mas, este

dever, tem implícito o direito de conhecer as funções de um arquivo e de saber que estes

constituem a defesa dos seus próprios direitos, enquanto cidadão, integrado numa

sociedade, num país e num tempo histórico.

O conhecimento dos direitos e deveres do cidadão, na perspectiva dos arquivos, tem

sido a grande aposta do Serviço Educativo cujo trabalho tem sido programado em duas

vertentes distintas mas complementares:

1. Implementar uma estrutura organizacional particularmente dedicada a visitas

escolares, abrangendo diferentes níveis etários e de ensino, através de uma oferta

temática diversificada e integrada nos planos curriculares;

2. Conceber, planear, organizar e implementar exposições e /ou mostras documentais

em permanência, direccionadas para fins didáctico – pedagógicos, mediando-as para

diferentes públicos, por forma a aproximá-los do Arquivo, dando-lhes a conhecer o

seu património e promovendo simultaneamente a educação para a cidadania.

Parece-nos óbvio, que as exposições são um meio rápido e eficaz para sair do

anonimato, para aproximar o património documental ao cidadão, ao mesmo tempo que

poderão exercer sobre este, uma sensibilização para a sua preservação e para o trabalho

desenvolvido pelos profissionais de arquivo.

Constitui-se hoje, como teoria comum, que o capital cultural essencial ao

desenvolvimento de práticas culturais continuadas, resulta de uma apropriação, não só

pelo meio familiar, mas muito especialmente pelo sistema de ensino, pelo que deverá

ser em articulação com as escolas que os arquivos devem intervir como agentes

dinamizadores de uma cidadania activa e actuante.

Passamos a apresentar algumas metodologias e etapas do modo como tem vindo a ser

construído e desenvolvido o Serviço Educativo junto do público escolar e,

simultaneamente, dos procedimentos desenvolvidos para a captação de novos públicos

na vertente da educação para a cidadania.

Página 6 de 14


“… sair com os alunos de aula, é dar-lhes a ler um outro texto, que não o do livro, não

para negligenciar o livro, mas para desencadear uma paragem que os tornará mais

ricos, pois eles vão descobrir outras escritas, outros discursos, especialmente o

discurso do profissional…” (1)

Face a esta nova atitude comportamental a que designamos por lição de vida, a abertura

dos arquivos aos alunos, seja qual for o nível de ensino em que se encontrem, vai trazer,

disso estamos certos, excelentes benefícios didácticos /pedagógicos.

Nesta perspectiva o Serviço Educativo produziu e editou o Guia Jovem – Guardar

Memórias…Abrir Caminhos…, obra distribuída gratuitamente a todas as bibliotecas

escolares e que se encontra disponível na nossa página Web em

http://dgarq.gov.pt/cooperacao-e-relacoes-externas/servico-educativo/.

Com este Guia, de leitura fácil, acessível e muito atraente graficamente, pretende-se

atingir um público heterogéneo, mas particularmente o escolar, constituído por docentes

e discentes. Foi o primeiro instrumento de trabalho de apoio ao Serviço Educativo e um

bom produto de divulgação cultural.

Assumindo uma postura pró-activa, o Serviço Educativo passou à oferta de visitas

temáticas, visitas apoiadas em textos pedagógico/ didácticos, complementados por

documentos seleccionados, que poderão ser visualizados, em diferentes suportes, do

original ao digital. Da oferta temática destacamos:

As origens e evolução da Língua Portuguesa, com a apresentação de

documentos vários, de que referimos, como exemplo a Carta de Pêro Vaz de

Caminha, em reprodução digital, anexando a transcrição no português da época

e no português actual;

Literatura, da Literatura Medieval à Contemporânea, de que cito, a título de

exemplo, o Memorial do Convento, obra literária de leitura obrigatória para os

alunos do ensino secundário, cuja narrativa cruza com múltiplas fontes

documentais do ANTT, de que destaco a Inquisição ou a máquina voadora do

Padre Bartolomeu de Gusmão, mais conhecida pela Passarola, ou ainda

documentos relacionados com a própria construção do Convento de Mafra;

A Censura Literária com a apresentação de obras censuradas, como os sonetos

de Bocage, século XVIII, pela Real Mesa Censória ou ainda de obras literárias

do século XX censuradas pela Direcção Geral da Censura;

Página 7 de 14


A formação e evolução do Estado Português, começando sempre pela

apresentação da Bula Manisfestis Probatum, considerada a certidão de

nascimento de Portugal;

A História da Família;

Minorias étnicas e religiosas, onde se inclui, por exemplo, a temática dos

movimentos migratórios ou a diáspora dos judeus, a partir do século XVI;

Suportes da escrita e formas de validação dos documentos, do século XII aos

nossos dias.

Estes são alguns exemplos da longa lista temática oferecida pelo Serviço Educativo.

A oferta de exposições e de mostras documentais em permanência tem constituído

igualmente um polo dinamizador por excelência, pois estas permitem abordagens

diversificadas, com a construção de diálogos inéditos e inesperados. A experiência

demonstra que estes diálogos dependem dos olhos do saber e da experiência de vida do

visitante e que ao profissional de arquivo lhe compete a sua coordenação, com visões

múltiplas, diversificadas e abrangentes.

É preciso saber inovar!... e nesta perspectiva, as exposições e mostras documentais

têm-se assumido, cada vez mais, como uma estratégia inovadora e privilegiada do

Serviço Educativo, pela multiplicidade de diálogos que proporcionam.

Permito-me partilhar convosco duas experiências relacionadas com duas exposições em

que foram utilizadas metodologias diferentes, para captar públicos diferentes, ambas

com resultados excelentes.

Assim:

A exposição Registos do Céu: A astronomia em documentos da Torre do Tombo

mostrava apenas quatro documentos, marcas do pensamento e da acção científica dos

portugueses, do século XV ao século XVII.

Integrada no âmbito do Ano Internacional da Astronomia, incluía um filme

documentário Naus e caravelas – um choque tecnológico no século XVI, uma mostra de

instrumentos científicos - telescópio, globo celeste, astrolábio, quadrante - e ainda um

ecrã que permitia visualizar os céus nos dois hemisférios, em datas referidas nos

documentos.

Página 8 de 14


Com esta exposição, deu-se início a um novo conceito expositivo em que os

documentos originais são apresentados numa calote esférica, conjugando a

possibilidade de os ver, folhear, ler e ampliar, num ecrã táctil, o que permite uma visão

optimizada dos mesmos.

Era nosso objectivo, despertar o interesse de um público novo, pouco habituado a visitar

Arquivos dando-lhes a conhecer uma nova visão relativamente a estes: mostrar-lhes que

os Arquivos não proporcionam apenas lições de História, de Sociologia ou Genealogia,

mas também podem proporcionar lições de Astronomia, de Matemática e de outras

áreas científicas.

A experiência superou todas as expectativas. A exposição foi vivida por mais de 4000

visitantes, na sua maioria jovens, da faixa etária compreendida entre os 13 e os 17 anos,

encarados pelos serviços educativos das instituições culturais, como o público mais

desafiante.

A divulgação, dirigida às escolas em tempo útil, permitiu mobilizar alunos e professores

das áreas disciplinares da Matemática, da Física e da Química, frequentemente em

parceria com a disciplina de História.

As escolas reconheceram no documento de arquivo uma fonte de informação e de

conhecimento pertinente para o domínio da literacia científica.

Para os alunos a possibilidade de interagir com documentos originais, através das novas

tecnologias, constituiu momentos de grande regozijo. Foi com emoção que

descodificaram leituras da Carta de Mestre João, documento manuscrito em 1500, do

Tratado da Esfera, ou do códice As curiosidades matemáticas, e que admiraram a

excelente cartografia do Século XVI, através do Livro da Marinharia de João de

Lisboa.

A coexistência de diferentes recursos - documentos, instrumentos científicos,

documentário - potenciou a possibilidade de diversificar abordagens e actividades

curriculares em todos os níveis de escolaridade.

Os alunos puderam ainda participar no Concurso Escreve uma Carta a Mestre João, um

exercício de criação e de reflexão a partir de um dos documentos expostos.

Registamos dois comentários deixados no livro de visitantes:

1. Gostei. Aprendi mais de Astronomia em duas horas que em 15 anos da minha

vida.

Página 9 de 14


2. Muito boa ideia colocar digitalmente os livros para assim podermos interagir

sem os estragar. Eu gostei muito, principalmente dos documentos históricos que

cá existem.

Em síntese, indo ao encontro das apetências e competências das gerações nado digitais

vamos contribuindo para o reconhecimento da missão e valor dos arquivos entre os mais

novos.

Cada exposição é sempre encarada como uma nova experiência e um novo desafio.

A exposição Os Arquivos no Diálogo Intercultural foi planeada e implementada para

um público heterogéneo e excepcionalmente explorada pelo Serviço Educativo.

Através dos 113 documentos expostos, repartidos por 5 núcleos, que se passam a

indicar, foi possível aos visitantes viajar do Séc. XV à actualidade e efectuar múltiplas

leituras:

Entre um Nome e uma Nacionalidade;

Espaços da Cidadania;

Os que chegam e os que partem…;

…e os que vêm para ficar;

Nós e os Outros: Diálogos.

A exposição incluía um vídeo produzido pelo Comissariado para a Imigração e

Minorias Étnicas Gente como Nós que dava a conhecer vidas de imigrantes no Portugal

actual e que ajudou ao estabelecimento de diálogos profícuos e diversificados.

Os documentos expostos, pela sua singularidade e diversidade, revelaram uma enorme

capacidade de mobilização e proporcionaram verdadeiras aulas ao vivo de História,

Sociologia, Antropologia e acima de tudo de Cidadania. Foram abordados temas tão

sensíveis como a emigração, as etnias, os direitos humanos - direito ao nome, à

nacionalidade, à família, ao ensino, ao trabalho, à saúde, à assistência, ao casamento,

entre outros.

A diversidade dos documentos expostos foi aproveitada pedagogicamente como

suplemento de vários temas curriculares propostos pelos professores e preparados pelo

Serviço Educativo, em colaboração com aqueles.

Por outro lado, o efeito desta exposição junto do cidadão comum, foi o de um contínuo

reviver de memórias afectivas, individuais e colectivas, suscitando encontros e

Página 10 de 14


desencontros, em diálogos, ora emocionados, ora exaltados, estabelecidos com e entre

os visitantes de todas as idades e condições sociais, porque lhes trouxe à memória

raízes, percursos e vivências: emigração, imigração, retornados, exilados, refugiados de

guerra, para citar apenas alguns exemplos.

Do livro de visitantes, seleccionámos 4 registos que não queremos deixar de partilhar,

pelo significado que encerram relativamente ao processo de aprendizagem.

Assim:

1. Esta exposição é muito interessante. Faz-nos pensar como o passado vai

influenciar o nosso futuro. É sempre bom saber o que os nossos antepassados

fizeram para podermos mudar algo no futuro… (aluna do ensino secundário)

2. É muito importante que as escolas mobilizem os seus alunos para que eles

possam beneficiar da riqueza que esta admirável exposição lhes pode e deve

proporcionar. (Presidente da Fundação Aristides Sousa Mendes)

3. Muitos Parabéns. Pela iniciativa. Pela concretização. Pelo papel pedagógico,

actualíssimo, essencial na formação dos mais novos e dos mais velhos da

sociedade portuguesa, (Professora da Faculdade de Direito de Lisboa)

4. Gostei! Sensibilizou-me a selecção da documentação. Parabéns à Torre do

Tombo por mais uma vez abrir as portas da cultura ao mais comum dos

cidadãos…

Das lições extraídas a partir de experiências, como as que apresentámos, e de outras

similares, vamos construindo e consolidando o Serviço Educativo do ANTT que se vai

assumindo, cada vez mais, como parte da estrutura organizacional da instituição, na

qualidade de mediador, na aproximação dos Arquivos ao grande público.

O mais recente investimento resultou na assinatura de um protocolo, em Fevereiro deste

ano, entre a Direcção Geral de Arquivos e a Direcção Geral do Desenvolvimento e

Inovação Curricular, através do Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares, que tutela

as 2290 Bibliotecas Escolares actualmente existentes.

O protocolo tem como objectivo a sensibilização dos professores responsáveis pelas

bibliotecas escolares para as potencialidades pedagógicas e para a relevância dos

recursos de informação disponíveis nas bases de dados geridas pela DGARQ, tendo em

conta a sua missão de serviço público.

Página 11 de 14


Aguardamos os resultados desta primeira aproximação, que se iniciou com a realização

de 3 acções de formação a 80 coordenadores de bibliotecas escolares, aproximação que

desejamos útil e fecunda.

A sensibilização dos professores é uma missão indispensável, porque a experiência tem

mostrado que nem sempre os professores consideram os arquivos como locais a visitar,

à semelhança do que se passa com as bibliotecas, os museus, os monumentos ou os

sítios arqueológicos.

Os arquivos são considerados ainda, por alguns professores, como Os guardiães da

memória, inacessíveis ao comum do cidadão. Esperamos que esta sensibilização possa

contribuir para a inversão definitiva desta postura.

Mas, para que esta divulgação seja possível e se vá tornando cada vez mais uma

realidade, muito tem contribuído o enorme investimento que o Arquivo Nacional da

Torre do Tombo tem vindo a fazer na digitalização dos seus documentos, o que permite

um acesso fácil e democrático aos fundos documentais.

A este propósito, convém referir, que as novas tecnologias ao serviço dos arquivos,

proporcionam uma ruptura qualitativa e quantitativa em relação ao passado.

É esta ruptura que permite ao cidadão conhecer e fruir o seu património e ao conhecê-lo,

deixar-se estimular pelo poder de sedução e de encanto, próprios dos documentos de

Arquivo.

A partir de mais de 8 milhões de imagens disponíveis, on-line, alunos e professores,

individualmente, ou em grupo, dentro da sala de aula, ou fora dela, poderão realizar

pesquisas simples, que lhes permitam uma iniciação à exploração das fontes

documentais.

Queremos ainda realçar que o êxito ou o fracasso de uma visita depende muito do modo

como é pensada e planeada, pelo que sob o ponto de vista pedagógico, o Serviço

Educativo não dispensa uma estreita relação com os professores e os resultados serão

tanto mais bem conseguidos quanto maior for o entrosamento entre os profissionais

visados.

A operacionalização das visitas inicia-se com a sua marcação.

O Serviço Educativo solicita informações detalhadas sobre os alunos destinatários:

número de alunos, níveis etários, nível de escolaridade, tipo de escola - básica,

secundária, profissional, universitária - disciplina ou disciplinas em que se integra a

visita; se é a 1ª vez que os alunos visitam o Arquivo Nacional da Torre do Tombo; se já

Página 12 de 14


visitaram outros Arquivos; tema ou temas curriculares que pretende ver desenvolvidos e

dependendo destes, outras questões específicas.

A partir da entrevista de reconhecimento, o Serviço Educativo envia ao professor, o

material informativo que considera pertinente para que este possa preparar a visita com

os alunos, sensibilizando-os e motivando-os para os conteúdos que irão ser abordados,

ajudando-os mesmo a problematizar a temática.

Quanto à dinamização das visitas, partilhamos a opinião da maior parte dos professores

e de muitos pedagogos, que referem com entusiasmo o empenho manifestado pelos

profissionais das instituições visitadas, porque estes transmitem aos alunos a

autenticidade dos seus conhecimentos, apoiados numa experiência quotidiana,

envolvendo-os nos próprios problemas que integram o seu universo. Esta experiência de

vida facilita a apresentação de casos concretos que ajudam a reforçar a aprendizagem.

De registar, contudo, que esta situação, extremamente cómoda para o professor, não o

deve libertar de acompanhar a visita a par e passo, porque o resultado será tanto melhor,

quanto mais o professor se envolver e interagir, transmitindo aos alunos o seu próprio

interesse, o que tem um efeito estimulante no aluno.

Em síntese, temos, o arquivista, conhecedor do seu arquivo e dos seus documentos, e o

professor, conhecedor dos programas e temáticas escolares e só da coordenação

perfeita entre estes dois profissionais, surge um trabalho de qualidade.

Se o arquivo não aproveitar este importante segmento da sociedade, que são os jovens

estudantes, estará perdendo uma excelente oportunidade para participar na formação

cívica dos jovens e na melhoria da qualidade do ensino, contribuindo para formar

cidadãos aptos a compreender e respeitar o passado da sociedade em que se integram e

com isso contribuir para um futuro mais digno.

Permito-me partilhar convosco o testemunho de uma colega do Serviço Educativo, a

propósito da experiência desenvolvida com os alunos do 1º ciclo (dos 6 aos 10 anos),

durante a exposição Oh!...A República…Um Século de Memórias., que esteve patente ao

público de Outubro de 2010 a Janeiro de 2011. São suas estas palavras:

As crianças gostam de vivenciar “coisas a sério”, neste caso um arquivo, espaço

concebido para ser frequentado por adultos, que observam a consultar documentos,

em” silêncio puro”, como comenta um garoto, observando, na sala de leitura, as

atitudes e cuidados dos investigadores na manipulação de documentos originais. …

Página 13 de 14


Ao sair da Exposição exercem ainda o seu direito à opinião escrita, deixando uma

apreciação, no livro de visitantes…

Enfim, gestos e hábitos de cidadania que se aprendem e interiorizam com eficácia

porque decorrem de atitudes e práticas que observam directamente nos crescidos.

Para terminar, uma breve reflexão sobre a essência do próprio Serviço Educativo.

Que se desengane, quem pensa que o Serviço Educativo é tarefa fácil.

O Serviço Educativo deve ser encarado como um Serviço de Missão, pois os seus

profissionais enfrentam desafios importantes na criação, planificação e implementação

de projectos que respondam efectivamente aos desafios dos diferentes públicos a que se

destinam.

A permanente necessidade de actualização de saberes e competências, de pensamento

criativo e de estratégias, num trabalho contínuo e exigente, destinado a motivar e a

captar novos públicos, passa pelo envolvimento dos seus profissionais, pela sua

motivação e pela capacidade em reinventar estratégias e metodologias.

A visibilidade do Serviço nem sempre reflecte o trabalho real que lhe está subjacente.

Acontece ainda que normalmente, o discurso institucional sobre públicos e respectivas

estatísticas, só vê números e resultados imediatos. Esquece, ignora, ou pretende ignorar

que os resultados do Serviço Educativo, só podem ser mensuráveis a médio / longo

prazo e mesmo assim, numa perspectiva muito mais qualitativa do que quantitativa.

A comunicação que acabamos de apresentar pode alavancar uma viragem, mas há ainda

muito trabalho a desenvolver. Há que ultrapassar resistências, mentalidades arreigadas,

falta de valores, interesses instalados ou desinteresses.

O trabalho realizado ao longo dos últimos quatro anos é apenas o princípio de um

caminho a percorrer, se quisermos uma sociedade mais justa e esclarecida.

A formação do cidadão, feita a partir dos arquivos, é, em nosso entender, um factor de

sustentabilidade para a valorização dos Arquivos e da nossa profissão.

Foi esta a grande Missão que o ANTT abraçou e na qual estamos empenhados.

(1) Lapoix e Lapoix (1989) citadas em Visitas de Estudo: Concepções e eficácia na aprendizagem, António

Almeida, Livros Horizontes, Lx, 2006.

Página 14 de 14

Hooray! Your file is uploaded and ready to be published.

Saved successfully!

Ooh no, something went wrong!