Sendo/Do querer

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Sendo/Do querer

JOAQUIM

Afera engolindo jóias.

É que diante da fúria rota dos olhos pretos

o peito treme e os lábios não sabem ficar

ou correr.

[movimento polifônico / ascensão abrupta]

Dança comigo a dança

que taco fogo no mundo contigo.


# 1

Que vá

pela cidade aberta

meu corpo, teu corpo

Que vá


vitrinas apontam

a satisfação que eu teria

se as consumisse

em torpor

[desejos de lavanderia]

e o asfalto que apavora os

dentes todos é quem traz

satisfação.

moral da história:

mover-se para longe é o canal, meu bem.


BRINCANDO DE SER NÃO SENDO

Fingindo vestir as vestes que o outro lhe dera, ele lidera a

mentira sorrindo um sorriso prenhe. De nada. “Muito

obrigado, meu chapa”. “De nada”, respondia o outro,

pensando enxergar em seus olhos um laço um lenço - a

morada.

ÚLTIMO POEMA

quero que meu último poema

seja bem melhor que tudo que eu tenha feito

melhor que meu desajeito e bem maior

que o meu peito

você que me ama tanto pode partir se quiser

não sei quando virá o último poema eu

não sei quando ele virá

não sei

não sei

não sei


EC//25-0-12

“claro, claro - sempre, sempre”

[a fantasia do soldado sem esperança é sorrir

abertamente, mostrando todos os dentes]

Fechando os olhos:

- Te fiz uma canção que começa assim, ó:

(e cantarola...)


CUNHÃ PONDEROSA

para Rogério Skylab

Ela, brincando de soldado e faca pediu-me um beijo

artesão. Respondi-lhe “sou quase indústria, lixo do

mundo doente - jamais serei artesão”. Querendo maisque-querendo

mordeu meus lábios nervosos e depois

cuspiu no chão. “Tens gosto de fumaça e tédio!”, me disse

com cara de nojo.

“Eu sou um sujeito padrão”.

Babacas das grandes cidades, uni-vos.


III

cravada no peito a vontade de existir

e ser maior que eu e ser maior e ser e ela

sabe como me sinto

agora somos amigos e ela tem meu peito

tem meu peito e o cheiro desse gozo dela

que eu fiz ela gozar

fiz sim

IV

a vertigem

você foi minha vertigem

meu avião desgovernado que caiu no maremoto /

remoto o mar onde você me enfiou e agora nada

agora quem nada sou eu

V

precisei de cinco

cinco soldados empestados de piolho

pra saber que nunca amei ninguém

nunca amei ninguém e sempre amei você

que é ninguém e que não me bastou naquele sorriso

torto torpe imóvel quase móvel de cozinha aquele

sorriso que nunca foi a lugar algum

CABRUM

na hora incerta

o gosto de nada na boca me lembra o sobejo bom /

o clarão aquece o corpo que flutua [água salgada] e

o infinito [inferno constante] tateia meu peito infeliz:

fechar os olhos para sempre,

é o que a voz me diz.


MINHAFACE REFLETIDA

EM SEUS OLHOS MUDOS

Quando morrermos, eu e tu,

quando enfim tocarmos o chão pelo último instante

quando ascendermos, encerrados, eu e tu,

quando tudo ao redor fizer-se branco e escuro

e nunca brando

quando pétalas pousarem sobre nossas faces eternas

quando corroídos e esverdeados desaparecermos e

quando no silêncio enfim nos reencontrarmos,

te digo o que penso de ti

D'STELA /

CINCO DEDOS, CINCO PASSOS ( fragmentos)

I

II

para Thaís Monteiro

tonto assim torpe assim

ele pensa que atravesso o rio para tocar a margem

lá do outro lado do rio

mas não é verdade: toco a margem que ficou pra trás

quando atravesso como num cavalo o rio que me engole

[toque em minha mão / faz assim comigo]

porque ontem tive tanto medo e tanta saudade

e só agora sei falar e sei dizer e sei expressar

ontem tive tanta coisa aqui dentro

aqui assim dentro de mim

que não me reconheço

só no mar,

só no mar

que eu me vejo e que gosto de mim


A bebida vagabunda me entope de prazer [ela toca os

acordes em mim] e me entrego aos céus como a um

carrasco [desejo mutilado - humilhação contida -

subserviência tão civilizada] e penso no mar que me leva

para longe e para dentro e me tira os pés do chão: sentindo

o corpo como quem sente o corpo outro entro no copo de

vidro quebrando a libido com gestos sem sentido algum:

tenho mãos elásticas que tocam o universo e tenho um

corpo pouco que não sabe além de

Meu querido,

como é chato amar você.

seu umbigo

DELE

I

Seu branco é infinito como a dor que ele me dera e

Seu peito é tão tranquilo como os olhos de quem espera

Nunca mais pisarei no chão daquele homem - acende

um cigarro - e

Nunca mais pedirei que ele fique sentado enquanto

me mutilo - as mãos tremendo - enquanto me deito de

quatro e rebolo minhas nádegas para o ar que ele respira

Nem precisamos querer nada: as coisas vêm e nos

engole e nem mesmo precisamos pedir a morte

um do outro

pois a finitude é certeira qual espada dos antigos

espanhóis

Se me deito solitário e sinto seu beijo enfumaçado em

meus lábios e se percebo ainda suas mãos em mim até

hoje é porque fui amputado e ainda estou proibido de

andar

Navego entre as ondas revoltas da orla e

Navego entre os carros que gritam

De vermelho pinto as horas e os dias

que não cessam de existir - mude os móveis de lugar /

Seu medo é infinito qual o tempo interrompido e

Seu branco é tão distinto como as luvas de um assassino

Nunca mais pisarei no chão daquele homem - mordisque

o passado - e

Nunca mais pedirei que ele esteja atento ao meu peito

enquanto rasgo fotografias - as mãos tremendo - e encho

de sangue a canção que compus

Aparecendo e desaparecendo ele brincou

com meu peito tiranizando o que antes era meu


- No último instante, antes de sair correndo,

devo admitir: Eu pensei em você.

Malogrado o sonho

o sono berra um quasi-nada

fazendo da espinha uma estátua:

- Vê, amor, que delícia a histeria?!

e num instante

o corpo se desfaz


MONUMENTO 27

Engula o que sobrou da comida mergulha tua cara entre os

girassóis e deita o peito entre as tangerinas e os melões:As

orações que tu buscas na tv elas não te guiarão agora e

nem mesmo o sacramento que tu guardas surtirá efeito já -

somente as danças movimentosas dos pagãos que gritam

à porta [o peso das horas, criatura] te poderão ajudar - que

teu leito cheira a morte e tua vida vira lentamente nada

definhando arremessada contra o muro de tua casa e os

carros da estrada que já foram a tua ponte entre a vida e o

quase nada /

Ai, como a cidade fez-se miserável, Pirilampo

Querido, e como os mortos são multidões sob os pés que

já não se movem, ó

II

Temporal.

Afumaça rouba a estrada e a lama morde os pés.

Mover-se para um lugar mais seguro [que não há]

para garantir a vida. Inferno essa chuva que

engole a cidade movediça e esses postes

que explodem

enquanto caem

[ele quer deitar as mãos macias

sobre o meu cadáver - ele quer pedir desculpas e

ele quer voltar o tempo - ele quer beijar a face

maquiada do defunto].

Ai, quanto de culpa é

preciso para que um ser humano se faça?


III

Sim: os carros movimentam-se velozes pelas ruas

como glóbulos brancos em minhas veias e sim: temos de

alcançar a esfinge e pedir que sejamos compreendidos

antes da punição [aquele verme em meus ouvidos

tateando minha morte como quem pensa ser possível

resolver só pelo grito]. Criança, nossas mães são velhas já

e nossos terremotos são cada vez mais constantes [pensou

poder pôr fim naquilo que não existia e pensou ser

possível também o espancamento seguido da

tranqüilidade]. Ai, tua avareza é tão sexy e é tão

fulminante teu caos que fica difícil não render-se, fica

difícil reconhecer a tirania em teu peito, descobrir as tuas

armas escondidas em teu olho belo e vesgo - agora sei,

agora sei e nada peço: Nada eu quero de você.

A madrugada cinzenta guarda no escuro uma luz / Teu

peito tão barulhento carrega nos braços a cruz

OS SINAIS / LOST & FOUND

[perdidos

entre a boca aberta e

o cheiro solene de esperma

na casa]

a música alta

os corpos que dançam.


OS LUSTRES E A LUA CHEIA

o lustre amarelo e o lustre azul.

ambos têm a mesma condição e importância.

ambos pendem para a direita. ambos riem e

ambos sabem iluminar.

e que raio de luz é aquela que surge

sem lustre, sem lustro, lá de fora da janela?

[poetas inúteis,

poemas piores ainda.]

A cidade.

Temos nos olhos os cheiros da cidade

[e como isso é bom] e como dói.


- e é por isso que persigo o instante

e nada mais, ela suspira.

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