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A musicalidade e suas interfaces com os processos comunicativos

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A <strong>musicalidade</strong> e <strong>suas</strong> <strong>interfaces</strong> <strong>com</strong> <strong>os</strong> process<strong>os</strong><br />

<strong>com</strong>unicativ<strong>os</strong> 1<br />

Danilo Adriano Marinho 2<br />

Resumo: Este artigo recupera alguns conceit<strong>os</strong> e definições das Ciências Sociais<br />

Aplicadas, em <strong>suas</strong> especificidades <strong>com</strong>unicação e relações públicas, tentando<br />

identificar p<strong>os</strong>síveis aproximações entre essas áreas <strong>com</strong> outra área do conhecimento:<br />

a música. Consiste também, implicitamente, em propor o uso desta arte <strong>com</strong>o uma<br />

alternativa para <strong>os</strong> process<strong>os</strong> <strong>com</strong>unicativ<strong>os</strong>, a partir de uma leitura teórica de sua<br />

estrutura, além de observar as estratégias de relações públicas, enquanto área do<br />

conhecimento. Para tanto, este texto baseou-se numa pesquisa bibliográfica,<br />

buscando fundamentar essa reflexão. Assim, resgatando <strong>os</strong> conceit<strong>os</strong> de música,<br />

<strong>com</strong>unicação e relações públicas, será p<strong>os</strong>sível vislumbrar uma perspectiva<br />

conciliatória, diante da análise levantada.<br />

Palavras-chave: Relações Públicas; <strong>com</strong>unicação; música; arte; linguagem<br />

Introdução<br />

A Música é <strong>com</strong>umente considerada uma linguagem universal. Enquanto<br />

linguagem, <strong>com</strong>põe <strong>os</strong> process<strong>os</strong> de interação entre <strong>os</strong> indivídu<strong>os</strong> e, portanto, está<br />

contida na <strong>com</strong>unicação que permeia boa parte da atividade humana, esta, integrante<br />

das estratégias de relações públicas utilizadas pel<strong>os</strong> mais divers<strong>os</strong> profissionais da<br />

área.<br />

O fenômeno chamado Globalização potencializou e ampliou <strong>os</strong> conceit<strong>os</strong> de<br />

algumas atividades humanas, graças a<strong>os</strong> avanç<strong>os</strong> - no sentido territorial – das<br />

tecnologias existentes. Nesse sentido, a música, enquanto ferramenta de<br />

entretenimento ganhou uma nova estética, deixou de ser elemento de contemplação<br />

para ser elemento de <strong>com</strong>ercialização, também <strong>com</strong> o advento do rádio e da televisão,<br />

que ajudaram a expandir seus territóri<strong>os</strong>.<br />

Esses veícul<strong>os</strong> de <strong>com</strong>unicação impuseram a<strong>os</strong> consumidores de música e,<br />

sobretudo a<strong>os</strong> <strong>com</strong>p<strong>os</strong>itores, uma nova p<strong>os</strong>tura diante dessa sociedade que se<br />

constituía: a sociedade do consumo. Como <strong>os</strong> veícul<strong>os</strong> de <strong>com</strong>unicação são<br />

1<br />

Artigo apresentado na disciplina Seminário Avançado em Comunicação do curso de Relações Públicas<br />

da UNISINOS em 2011-1.<br />

2<br />

Danilo Marinho é acadêmico de Comunicação Social <strong>com</strong> habilitação em Relações Públicas da<br />

Universidade do Vale do Rio d<strong>os</strong> Sin<strong>os</strong> – Unisin<strong>os</strong>. Contato: dann_adriano@yahoo.<strong>com</strong>.br.<br />

1


instrument<strong>os</strong> recorrentemente usad<strong>os</strong> por profissionais de <strong>com</strong>unicação para atingirem<br />

seus objetiv<strong>os</strong>, esse texto busca identificar, implicitamente, qual a relação da música –<br />

<strong>com</strong>o linguagem e <strong>com</strong>o veículo auxiliar de <strong>com</strong>unicação – <strong>com</strong> as estratégias de<br />

relações públicas.<br />

Deste modo, apresentam<strong>os</strong> nessa primeira parte, um panorama histórico-<br />

conceitual do que seria a música, do ponto de vista de divers<strong>os</strong> autores <strong>com</strong>o Mário de<br />

Andrade (1995) e Lia Tomás (2002). Assim, pode-se entender que a música, <strong>com</strong>o<br />

constituinte da linguagem, e não <strong>com</strong>o linguagem propriamente dita, está contida em<br />

alguns element<strong>os</strong> representad<strong>os</strong> n<strong>os</strong> mais variad<strong>os</strong> process<strong>os</strong> <strong>com</strong>unicativ<strong>os</strong>, desde a<br />

<strong>com</strong>unicação visual, à <strong>com</strong>unicação verbal (oral).<br />

Em seguida, apresentam<strong>os</strong> <strong>os</strong> conceit<strong>os</strong> e teorias da <strong>com</strong>unicação, em que<br />

atestam<strong>os</strong> teoricamente que, música e <strong>com</strong>unicação, tem uma relação<br />

interdependente e co-participativa. Verificam<strong>os</strong> esta hipótese, basead<strong>os</strong> na Teoria da<br />

Ação Comunicativa (1981) de Jürgen Habermas e n<strong>os</strong> conceit<strong>os</strong> de <strong>com</strong>unicação<br />

apresentad<strong>os</strong> por Bordenave (1984). Estas teorias, logo, n<strong>os</strong> ajudaram a perceber que<br />

tais conceit<strong>os</strong> auxiliaram <strong>os</strong> estudi<strong>os</strong><strong>os</strong> de relações públicas, <strong>com</strong>o Grunig (2009),<br />

Kunsch (2003) e Simões (2001) a definirem esta área profissional. É o que se propõe<br />

a segunda parte deste artigo, trazendo também um pouco do histórico desta atividade,<br />

no início do século XX, <strong>com</strong> o jornalista americano Ivy Lee.<br />

Ao final desta reflexão, oferecem<strong>os</strong>, <strong>com</strong> base nessa pesquisa, uma<br />

perspectiva conciliatória entre a música, a <strong>com</strong>unicação e as relações públicas.<br />

Informações do Ministério da Cultura ajudam a <strong>com</strong>provar a relevância da música na<br />

sociedade ocidental, sobretudo na sociedade brasileira, <strong>com</strong>o afirmam <strong>os</strong> dad<strong>os</strong><br />

estatístic<strong>os</strong> apresentad<strong>os</strong> no portal do governo federal, e <strong>com</strong>o afirmou Filomeno<br />

Lopes, filósofo da Guiné Bissau e representante da Rádio Vaticano, no I Mutirão de<br />

Comunicação América Latina e Caribe, realizado na Pontifícia Universidade Católica<br />

do Rio Grande do Sul – PUCRS, em 2010.<br />

Assim, as considerações finais re<strong>com</strong>põem esses conceit<strong>os</strong>, lançando luz<br />

acerca dessa perspectiva da linguagem nas estratégias de <strong>com</strong>unicação e relações<br />

púbicas. O uso da música <strong>com</strong>o elemento chave dessas estratégias, <strong>com</strong> outra<br />

finalidade, além da funcionalista e técnica, abordando a subjetividade do sujeito e sua<br />

relação no meio no qual se insere, fazem parte da reflexão teórica aqui apresentada.<br />

A Música enquanto atividade humana<br />

Esta temática já está presente desde o princípio d<strong>os</strong> temp<strong>os</strong>, e sua história<br />

carrega, em si, aspect<strong>os</strong> ligad<strong>os</strong> a outras áreas do conhecimento, <strong>com</strong>o metafísica,<br />

2


educação, política, ciência, ética, conforme Tomás (2002, p.13). A autora, em seu livro<br />

Ouvir o lóg<strong>os</strong>: música e fil<strong>os</strong>ofia, traça um panorama do conceito desta arte que, em<br />

várias sociedades, tem sua relevância e particularidade. Portanto, transcreverem<strong>os</strong><br />

aqui alguns conceit<strong>os</strong> e definições pesquisad<strong>os</strong> por ela.<br />

Música é o conhecimento prático da melodia, que consiste de som e<br />

canção, e é chamada música por derivação das Musas. Visto que o<br />

som é uma coisa d<strong>os</strong> sentid<strong>os</strong>, passa para um tempo passado e é<br />

impresso na memória. A partir disso, pretendiam <strong>os</strong> poetas que as<br />

Musas f<strong>os</strong>sem filhas de Júpiter e Memória. A não ser que <strong>os</strong> sons<br />

sejam carregad<strong>os</strong> na memória pelo homem, elas perecem porque<br />

não podem ser escrit<strong>os</strong>. (SEVILHA, 560-636 Apud TOMÁS, 2002 p.<br />

15)<br />

Continuando sua pesquisa, Tomás (2002) traz um diálogo entre professor e<br />

aluno, tentando encontrar uma definição do que seria a música, mencionado logo<br />

abaixo:<br />

Aluno - Como a Harmonia nasceu da sua mãe, a Aritmética? A<br />

Harmonia e a Música são a mesma coisa?<br />

Mestre – A Harmonia é dada pelas <strong>com</strong>binações concordantes de<br />

sons diferentes. A Música é a forma dessa concordância. A Música,<br />

<strong>com</strong>o as outras disciplinas matemáticas, é em tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> seus<br />

aspect<strong>os</strong> vinculad<strong>os</strong> ao sistema de númer<strong>os</strong>. E é por causa d<strong>os</strong><br />

númer<strong>os</strong> que ela pode ser <strong>com</strong>preendida...<br />

Aluno – O que é Música?<br />

Mestre – É o estudo das notas em harmonia e discordância de acordo<br />

<strong>com</strong> <strong>os</strong> númer<strong>os</strong> que trazem uma certa relação <strong>com</strong> aquilo que se<br />

encontra n<strong>os</strong> sons em si. (ANÔNIMO, século IX ou X Apud TOMÁS,<br />

2002 p. 15)<br />

Outro autor que traz conceit<strong>os</strong> de música é Mário de Andrade (1995). Para ele,<br />

a música tem sua origem diretamente ligada ao gesto oral. Isto é, a partir da evolução<br />

da emissão d<strong>os</strong> sons pelo homem, a música naturalmente <strong>com</strong>eçou a se estabelecer<br />

<strong>com</strong>o expressão. Suas implicações fisiológicas, psicológicas e <strong>com</strong>unicativas podem<br />

ser identificadas numa definição bastante <strong>com</strong>pleta:<br />

A Música é uma arte cuj<strong>os</strong> fatores a não ser <strong>com</strong> um preparo literário<br />

anterior e superfectado, não lhe permitem ser analítica, isto é, ser<br />

expressão que se p<strong>os</strong>sa tornar objeto de <strong>com</strong>preensão consciente. A<br />

Música é uma arte sintética por excelência, não só porque mais que<br />

nenhuma outra funde o ser psicológico e fisiológico, <strong>com</strong>o porque<br />

sendo vaga necessariamente pel<strong>os</strong> fatores diret<strong>os</strong> de que dispõe e<br />

que por si mesmo (ritmo e som) estilizações de element<strong>os</strong> naturais<br />

ela não pode particularizar o mundo d<strong>os</strong> fenômen<strong>os</strong>. (ANDRADE,<br />

1995, p. 51)<br />

Entretanto, ainda que estes conceit<strong>os</strong> tenham uma relação direta <strong>com</strong> o todo,<br />

<strong>com</strong> o divino, conforme Adorno (1930), assegurar que a música é uma ciência parece<br />

3


ser uma afirmativa longe da realidade. Não obstante, já existem pesquisas e estud<strong>os</strong><br />

que tentam <strong>com</strong>provar seu teor científico e <strong>suas</strong> <strong>interfaces</strong>. A música é arte na medida<br />

em que sua função está diretamente ligada a objetiv<strong>os</strong> estétic<strong>os</strong>, mas é ciência<br />

quando seu emprego está atrelado, por exemplo, a pesquisas referentes à<br />

Musicoterapia e ao seu tratamento em pacientes <strong>com</strong> necessidades especiais.<br />

Na década de 1980, diversas pesquisas e artig<strong>os</strong> foram desenvolvid<strong>os</strong> na<br />

tentativa de identificar uma p<strong>os</strong>sível relação entre a música e seus efeit<strong>os</strong> no<br />

indivíduo, <strong>com</strong>o bem-estar físico e mental. Apontando para um atributo científico da<br />

música, Amaral (1991, p.15) afirma que:<br />

A música é uma realidade dicotômica – é arte e é ciência, é técnica e<br />

é expressão emocional, porque o músico necessita dominar a técnica<br />

instrumental para poder expressar <strong>os</strong> sentiment<strong>os</strong> que o autor<br />

transcreveu para a grafia específica da música. Não há dúvidas de<br />

que fatores psicológic<strong>os</strong> intervêm na criação, ou no fenômeno da<br />

interpretação instrumental. Porém, não se pode omitir a importância<br />

do conteúdo científico das leis que regem <strong>os</strong> fenômen<strong>os</strong> sonor<strong>os</strong>.<br />

Nesse aspecto, parece correto afirmar que existe um caráter educativo quanto<br />

ao uso da música. E ao falarm<strong>os</strong> em educação, falam<strong>os</strong> diretamente em <strong>com</strong>unicação.<br />

Assim sendo, ao admitirm<strong>os</strong> que a música seja uma ciência, admitim<strong>os</strong> também a<br />

p<strong>os</strong>sibilidade de existir, em sua estrutura, semelhanças <strong>com</strong> process<strong>os</strong> de<br />

<strong>com</strong>unicação. E, a partir dessa assertiva, será necessário entender o que dizem as<br />

teorias da <strong>com</strong>unicação.<br />

Partindo de um panorama histórico e teórico da <strong>com</strong>unicação<br />

Pode-se perceber que alguns aconteciment<strong>os</strong> imprimiram grande relevância à<br />

<strong>com</strong>unicação. Vári<strong>os</strong> estudi<strong>os</strong><strong>os</strong> se esforçaram para sistematizar este processo, até<br />

então desconhecido. Em mead<strong>os</strong> de 1948, Claude Shannon e Warrem Weaver<br />

publicaram na Bell System Technical Journal 3 o modelo matemático da <strong>com</strong>unicação,<br />

também conhecido <strong>com</strong>o Teoria da Informação. Mota (2004, p. 33), citando Weaver,<br />

faz uma análise detalhada desta teoria matemática da <strong>com</strong>unicação, sugerindo uma<br />

definição deste processo:<br />

a <strong>com</strong>unicação é uma cadeia formada por uma “fonte de<br />

informação”, um “emissor ou codificador”, que transforma uma<br />

“mensagem” em “sinais” a fim de tornar transmissível; um “canal”<br />

que é o meio utilizado para o transporte da mensagem; um<br />

3 Bell System Technical Journal foi uma publicação de caráter científico que teve seu primeiro volume publicado em 1<br />

de julho de 1922.<br />

4


“decodificador ou receptor”, que reconstitui a mensagem a partir d<strong>os</strong><br />

“sinais”; e o “destinatário”, que é a pessoa ou coisa a quem a<br />

mensagem é transmitida.<br />

Bordenave (1984, p. 41) sintetiza o conceito de <strong>com</strong>unicação assegurando que,<br />

<strong>com</strong> a imp<strong>os</strong>sibilidade de afirmar onde <strong>com</strong>eça e termina o processo <strong>com</strong>unicativo, diz<br />

que “a <strong>com</strong>unicação, de fato, é um processo multifacético que ocorre ao mesmo tempo<br />

em vári<strong>os</strong> níveis – consciente, subconsciente, inconsciente -, <strong>com</strong>o parte orgânica do<br />

dínamo processo da vida”.<br />

Já a Teoria da Ação Comunicativa de Habermas (1981) indicou a<strong>os</strong> teóric<strong>os</strong><br />

modern<strong>os</strong> da <strong>com</strong>unicação seus principais fundament<strong>os</strong>. Nesse sentido, ajudou na<br />

construção de um conceito em que estabelece uma relação entre sujeit<strong>os</strong> e objet<strong>os</strong>. A<br />

partir de uma abordagem teórica,<br />

No paradigma da <strong>com</strong>unicação prop<strong>os</strong>to por ele o sujeito<br />

cogn<strong>os</strong>cente não é mais definido exclusivamente <strong>com</strong>o sendo aquele<br />

que se relaciona <strong>com</strong> <strong>os</strong> objet<strong>os</strong> para conhecê-l<strong>os</strong> e dominá-l<strong>os</strong>, mas<br />

<strong>com</strong>o aquele que, durante seu processo de desenvolvimento<br />

histórico, é obrigado a entender-se junto <strong>com</strong> outr<strong>os</strong> sujeit<strong>os</strong> sobre o<br />

que pode significar o fato de “conhecer objet<strong>os</strong>” ou “agir através de<br />

objet<strong>os</strong>” ou ainda “dominar objet<strong>os</strong> ou coisas”. (MEDEIROS, 1996, p.<br />

8)<br />

Na sociedade moderna, <strong>com</strong>o integrante de uma organização previamente<br />

planejada, ou apenas <strong>com</strong>o um aglomerado de pessoas, este sujeito relaciona-se<br />

consciente, intencionalmente <strong>com</strong> o meio no qual está inserido, também <strong>com</strong> o auxílio<br />

de instrument<strong>os</strong> e veícul<strong>os</strong> de <strong>com</strong>unicação. Reportando–se a Mário de Andrade<br />

(1995), pode-se afirmar que a <strong>com</strong>unicação oral foi responsável por p<strong>os</strong>sibilitar <strong>os</strong><br />

primeir<strong>os</strong> estud<strong>os</strong> sobre <strong>os</strong> conceit<strong>os</strong> de música. Portanto, ela é o elo que permite<br />

dialogar música e <strong>com</strong>unicação <strong>com</strong>o element<strong>os</strong> pertencentes a tais process<strong>os</strong><br />

estabelecid<strong>os</strong> e integrantes de ações das mais diversas áreas do conhecimento.<br />

Nesse contexto, as relações públicas aparecem <strong>com</strong>o uma atividade<br />

pertencente à sociedade que procura criar relacionament<strong>os</strong> entre indivídu<strong>os</strong> por meio<br />

de organizações. O uso de alternativas que facilitem este entendimento é de total<br />

responsabilidade da atividade, consequentemente, implica na gestão de saberes<br />

relacionad<strong>os</strong> à política, à educação e à <strong>com</strong>unicação.<br />

Relações Públicas em seus aspect<strong>os</strong> conceituais e versáveis<br />

As Relações Públicas surgiram na tentativa de minimizar conflit<strong>os</strong> entre<br />

organizações e seus públic<strong>os</strong>. O principal personagem desse período foi o jornalista<br />

5


americano Ivy Lee 4 , mediador da luta de interesses travada entre <strong>os</strong> industriári<strong>os</strong> d<strong>os</strong><br />

Estad<strong>os</strong> Unid<strong>os</strong> e seus funcionári<strong>os</strong> no início do século XX. Lesly (1995, p. 2) parece<br />

sugerir, ao <strong>com</strong>entar: “as ordens de um rei ou magnata não são mais palavras de lei,<br />

automaticamente obedecidas”, que este momento, portanto, foi considerado <strong>com</strong>o a<br />

pedra fundamental da atividade e ajudou a fundar as bases conceituais da profissão.<br />

Reforçando esta ideia, Simões (2001, p.48) ressalta que “A sociedade somente<br />

legaliza e institucionaliza uma profissão se ela se propõe, vindo em seu benefício,<br />

resolver algum tipo de problema ou deficiência. Esta prop<strong>os</strong>ta da profissão é o que<br />

caracteriza sua responsabilidade social”. Grunig (2009, p. 28) identifica a <strong>com</strong>unicação<br />

<strong>com</strong>o elemento constante nas definições de relações públicas e diz que “as relações<br />

públicas são a gestão da <strong>com</strong>unicação entre a organização e seus públic<strong>os</strong>.<br />

Alguns an<strong>os</strong> antes, contudo, anotações de Chaumely (1964), apontam para as<br />

origens da expressão public relations. Segundo ele, R. A. Paget-Cook, presidente do<br />

Instituto Londrino de Relações Públicas, <strong>com</strong>enta que foi o terceiro presidente d<strong>os</strong><br />

Estad<strong>os</strong> Unid<strong>os</strong>, Thomas Jeferson, que em 1802, teria usado essa expressão<br />

pioneiramente. E continua: “Entretanto, todo mundo reconhece que as “relações<br />

públicas” permaneceram no olvido até o início do século e que a sua pré-história<br />

terminou apenas no momento em que seu verdadeiro fundador, Ivy Lee, criou o<br />

primeiro escritório mundial de relações públicas, em Nova Iorque, em 1906.”<br />

Estes aconteciment<strong>os</strong>, portanto, parecem indicar que as relações públicas<br />

estão no cerne da sociedade moderna, na medida em que propõe a gestão de crises e<br />

relacionament<strong>os</strong> entre organizações e seus públic<strong>os</strong>; sejam organizações não<br />

governamentais (ONGs) sejam organizações privadas, ou ainda, organizações sociais.<br />

Esta atividade dispõe de disp<strong>os</strong>itiv<strong>os</strong> capazes de analisar diferentes context<strong>os</strong> sociais,<br />

context<strong>os</strong> n<strong>os</strong> quais, se aplicad<strong>os</strong> à ambientes empresariais, proporcionam às<br />

relações públicas um arsenal recurs<strong>os</strong> para o seu desenvolvimento.<br />

No Brasil, desde sua constituição, até sua consolidação, na década de 1950,<br />

de acordo <strong>com</strong> (Kunsch, 1997), as relações públicas sofreram significativas mudanças<br />

estruturais. Do surgimento da primeira associação em 1954, a<strong>os</strong> dias atuais, fica-se o<br />

legado de uma instituição que ajudou a sociedade a <strong>com</strong>preender o significado da<br />

profissão. Para a autora, a criação dessa associação foi um marco para a história da<br />

atividade em n<strong>os</strong>so país. No ambiente organizacional, tratam<strong>os</strong> de públic<strong>os</strong>, de<br />

pessoas. Dessa forma, a <strong>com</strong>plexidade existente dentro de um ambiente<br />

organizacional pode se tornar pano de fundo para se construir relacionament<strong>os</strong>.<br />

4 Considerado <strong>com</strong>o pai das relações públicas, foi um d<strong>os</strong> primeir<strong>os</strong> profissionais a construírem a atividade. Para saber<br />

mais acesse: http://www.almanaqueda<strong>com</strong>unicacao.<strong>com</strong>.br/artig<strong>os</strong>/592.html<br />

6


Para apontar prováveis aproximações entre a música e a <strong>com</strong>unicação,<br />

indispensável também será identificar uma p<strong>os</strong>sível relação <strong>com</strong> as estratégias de<br />

relações públicas – estratégias baseadas em fenômen<strong>os</strong> <strong>com</strong>unicacionais.<br />

Comunicação, música e relações públicas: perspectivas conciliatórias<br />

Desde a Segunda Guerra Mundial, a música é utilizada <strong>com</strong>o estratégia de<br />

<strong>com</strong>unicação - na época, para fins não tão nobres. Mas, hoje, a música, enquanto<br />

produto cultural, sofreu mudanças substanciais, ao a<strong>com</strong>panharm<strong>os</strong> sua aplicação<br />

<strong>com</strong> caráter pedagógico nas escolas primárias e em tratament<strong>os</strong> terapêutic<strong>os</strong>, <strong>com</strong> a<br />

Musicoterapia.<br />

Dad<strong>os</strong> do Ministério da Cultura, por meio de seu Anuário de Estatísticas 5<br />

demonstram que a música, enquanto atividade musical, recobre 53,20% d<strong>os</strong><br />

municípi<strong>os</strong> brasileir<strong>os</strong> e que <strong>os</strong> estad<strong>os</strong> do Rio de Janeiro e Ceará detêm <strong>os</strong> índices<br />

mais representativ<strong>os</strong>, <strong>com</strong> 82,61% e 79,35% respectivamente. Entretanto, o estado de<br />

Rondônia apresenta o menor índice, <strong>com</strong> 30,77%.<br />

De um modo geral, a sociedade ocidental tem uma predisp<strong>os</strong>ição em<br />

estabelecer a música apenas <strong>com</strong>o instrumento de entretenimento, ou <strong>com</strong>o<br />

representação simbólica da vida interior do indivíduo, ao expressar <strong>suas</strong> emoções. Isto<br />

significa que seu aspecto prático (<strong>com</strong>unicação musical) deixa de ser considerado,<br />

tornando-se apenas uma metáfora. Como parece sugerir Ruud (1991, p. 167):<br />

Algumas teorias consideram a música análoga às emoções – um<br />

reflexo delas. Mas nem todas as teorias estão de acordo sobre até<br />

que ponto a música “reflete” a emoção, isto é, se essa analogia deve<br />

ser levada ao pé da letra ou simplesmente tomada <strong>com</strong>o uma<br />

metáfora. Na musicoterapia, onde a questão da <strong>com</strong>unicação musical<br />

é uma questão prática, ou uma questão de <strong>com</strong>o estabelecer, manter<br />

e desenvolver a <strong>com</strong>unicação através da intervenção de parâmetr<strong>os</strong><br />

musicais, há uma tendência a considerar a relação música-emoção<br />

<strong>com</strong>o concreta e direta.<br />

Contudo, podem-se verificar algumas discussões entre as ciências da<br />

<strong>com</strong>unicação e a música. Enquanto ciência, a <strong>com</strong>unicação estabelece diálog<strong>os</strong> entre<br />

indivídu<strong>os</strong> pertencentes ao seu processo <strong>com</strong> linguagens que sejam capazes de ser<br />

entendidas. A música, ou a arte, por sua vez, prioriza a forma <strong>com</strong>o meio de<br />

expressão, isto é, é na forma que se encontra a mensagem (linguagem).<br />

5 O Anuário de Estatísticas é um portal desenvolvido e mantido pelo Ministério da Cultura em que traz informações<br />

referentes à cultura em geral. Nele é p<strong>os</strong>sível encontrar dad<strong>os</strong> sobre música, manifestações culturais e mei<strong>os</strong> de<br />

<strong>com</strong>unicação. Para conhecer o portal acesse: http://blogs.cultura.gov.br/anuariodeestatisticas/<br />

7


Klintowitz (1973, p.11) assegura que “A <strong>com</strong>unicação está mais preocupada<br />

em dizer alguma coisa do que o ex-expressar uma forma. Mas ela utiliza a forma, da<br />

mesma maneira que usa a psicologia, a sociologia e todas as artes e ciências que<br />

estão ao seu alcance”. Nesse sentido, as teorias da <strong>com</strong>unicação ajudarão a<br />

identificar algumas p<strong>os</strong>síveis aproximações entre as Ciências da Comunicação e a<br />

Música. Baseado no resgate histórico destas ciências é p<strong>os</strong>sível perceber, mesmo que<br />

implicitamente, uma relação entre música e <strong>com</strong>unicação. Na medida em que a<br />

música é expressão de sentiment<strong>os</strong>, carece de subsídi<strong>os</strong> (informação) para fazer-se<br />

chegar a<strong>os</strong> ouvid<strong>os</strong> do destinatário. E isso só pode ser permitido <strong>com</strong> a intervenção da<br />

<strong>com</strong>unicação.<br />

Já tomando a informação <strong>com</strong>o matéria-prima para o estabelecimento d<strong>os</strong><br />

relacionament<strong>os</strong> em relações públicas, é p<strong>os</strong>sível encontrar uma analogia patente<br />

entre as relações públicas e a <strong>com</strong>unicação. Simões (2006, p. 53) <strong>com</strong>enta que a<br />

informação, enquanto utilidade no ambiente das relações públicas, fica reduzida a<br />

“redução de incertezas”. Ampliando esta perspectiva conciliatória, B<strong>os</strong>i (1999, p.114),<br />

embora haja uma grande dificuldade em identificar uma relação entre música e<br />

política, afirma:<br />

(...) em algum lugar e de algum modo, a música mantém <strong>com</strong> a<br />

política vínculo operante e nem sempre visível: é que ela atua, pela<br />

própria marca do seu gesto, na vida individual e coletiva, enlaçando<br />

representações sociais a forças psíquicas. O uso da música, <strong>com</strong><br />

toda “a sua violenta força dinamogênica sobre o indivíduo e as<br />

multidões”, <strong>com</strong>o dizia Mário de Andrade, envolve poder, pois <strong>os</strong> sons<br />

passam através da rede de n<strong>os</strong>sas disp<strong>os</strong>ições e valores conscientes<br />

e convocam reações que poderíam<strong>os</strong> talvez chamar de sub e<br />

hiperliminares (reações motivadas por associações insidi<strong>os</strong>amente<br />

induzidas, <strong>com</strong>o na propaganda, ou provocadas pela mobilização<br />

<strong>os</strong>tensiva d<strong>os</strong> seus mei<strong>os</strong> de fascínio, <strong>com</strong>o num ritual religi<strong>os</strong>o ou<br />

num show de rock)”.<br />

Nesta passagem, pode-se verificar não apenas uma aproximação, mas uma<br />

relação direta entre a música e a <strong>com</strong>unicação que permeia valores polític<strong>os</strong>, sociais,<br />

culturais, de poder, de linguagem e de intenção. Nesse sentido, as relações públicas,<br />

<strong>com</strong>o uma atividade baseada na gestão da <strong>com</strong>unicação e que fomenta o<br />

relacionamento, <strong>com</strong>o política de gestão das organizações <strong>com</strong> seus públic<strong>os</strong>, tem a<br />

p<strong>os</strong>sibilidade de fazer uso destes fundament<strong>os</strong>.<br />

Segundo Peirce, no livro O que é Semiótica, Santaela, (1995), toda e qualquer<br />

produção e expressão humana são questões semióticas. Assim, esse fenômeno,<br />

<strong>com</strong>o tant<strong>os</strong> outr<strong>os</strong>, só se <strong>com</strong>unica porque se estrutura <strong>com</strong>o linguagem. Isto é, ainda<br />

de acordo <strong>com</strong> o autor, todo fato cultural e práticas sociais se constituem <strong>com</strong>o,<br />

8


fundamentalmente, partes integrantes de um processo, pois todo processo<br />

<strong>com</strong>unicativo faz uso de sign<strong>os</strong>, significad<strong>os</strong> e significantes. Pode-se considerar a<br />

música <strong>com</strong>o mais um integrante desses process<strong>os</strong>, seja na condição de coadjuvante<br />

ou protagonista.<br />

Ela, enquanto linguagem, carrega um grande potencial cognitivo, por meio de<br />

<strong>suas</strong> modalidades <strong>com</strong>o a <strong>musicalidade</strong> e sonoridade. Estas fazem parte do repertório<br />

em que se desenvolvem <strong>os</strong> process<strong>os</strong> <strong>com</strong>unicativ<strong>os</strong>. Portanto, aqui habita uma<br />

alternativa para <strong>os</strong> profissionais de relações públicas atuarem de maneira distinta, ou<br />

diferenciada. De acordo <strong>com</strong> Kunsch (2003, p. 109) “as relações públicas, por meio da<br />

<strong>com</strong>unicação, viabilizam o diálogo entre a organização e seu universo de públic<strong>os</strong>,<br />

sendo essa mediação uma de <strong>suas</strong> funções essenciais”.<br />

Estes são element<strong>os</strong> básic<strong>os</strong>, que também <strong>com</strong>põem o processo de produção<br />

musical: emissor (<strong>com</strong>p<strong>os</strong>itor), mensagem (produto musical) e receptor (audiência ou<br />

ouvinte). Nesse contexto, o profissional de relações públicas tem a p<strong>os</strong>sibilidade de,<br />

parafraseando o músico Leonardo Correa (2009), no II Seminário de Comunicação e<br />

Gestão Organizacional, ocorrido em Recife, “manipular o som, a fim de <strong>com</strong>unicar”. A<br />

música <strong>com</strong>o um ato <strong>com</strong>unicativo, ato político e um ato emocional está carregada de<br />

intenção. A intenção, por sua vez, é um elemento recorrentemente utilizado nas<br />

estratégias de relações públicas e as estratégias de relações públicas, portanto, são<br />

baseadas n<strong>os</strong> conceit<strong>os</strong> das teorias da <strong>com</strong>unicação.<br />

Elas se interrelacionam entre si e de forma interdependente. Como afirmou<br />

Andrade (1995, p.44), as primeiras manifestações musicais se originaram das<br />

iniciativas orais - artifício muito usado pel<strong>os</strong> profissionais de relações públicas em <strong>suas</strong><br />

ações. Gutierrez (2003) salienta que “a <strong>com</strong>unicação no ambiente empresarial e dele<br />

<strong>com</strong> <strong>os</strong> públic<strong>os</strong> está alicerçada na <strong>com</strong>preensão daquilo que se pretende transmitir,<br />

na linguagem <strong>com</strong>um que estabelece o universo de debates e efetiva o diálogo...”<br />

“Transmitir na linguagem” - sugerindo aqui a música – o estabelecer efetivo do<br />

diálogo, pois a música e <strong>suas</strong> modalidades (<strong>musicalidade</strong> e sonoridade) permitem a<br />

<strong>com</strong>unicação, ou interação entre dois sistemas ou organism<strong>os</strong>. Em sua essência,<br />

relações públicas tenta fundar <strong>os</strong> relacionament<strong>os</strong> entre divers<strong>os</strong> grup<strong>os</strong> sociais, nas<br />

diferentes esferas da sociedade. Portanto, se faz necessário o uso de mei<strong>os</strong>, que vão<br />

além das aplicações de técnicas, pressupõe a adesão de uma perspectiva<br />

democrática.<br />

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Considerações Finais<br />

Não se esgota aqui a discussão do uso da música nas estratégias de relações<br />

públicas e <strong>com</strong>unicação. Este texto pode ser considerado <strong>com</strong>o um ensaio, em que<br />

tais element<strong>os</strong> – música, <strong>com</strong>unicação e relações públicas- se apresentam <strong>com</strong>o<br />

interdependentes. Assim, a perspectiva da linguagem se amplia, na medida em que <strong>os</strong><br />

conceit<strong>os</strong> se apresentam; semelhanças e divergências se constituem <strong>com</strong>o uma<br />

controvérsia – pois ela é quem estabelece o objeto de estudo das relações públicas: o<br />

público. Portanto essa reflexão vem a contribuir <strong>com</strong>o uma alternativa a esses<br />

profissionais de <strong>com</strong>unicação, na gestão de sua atividade, na gestão d<strong>os</strong><br />

relacionament<strong>os</strong> das organizações <strong>com</strong> seus públic<strong>os</strong>.<br />

Outro aspecto relevante, levantado neste estudo é o de inserir as relações<br />

públicas na esteira da fil<strong>os</strong>ofia, sociologia, psicologia, áreas do conhecimento as quais<br />

contribuíram para <strong>os</strong> fundament<strong>os</strong> das relações públicas e, nesse sentido, soma-se a<br />

esta discussão. Música, <strong>com</strong>unicação e relações públicas é uma oportunidade de<br />

ampliar o leque da atuação, sobretudo d<strong>os</strong> profissionais de relações públicas, quando<br />

oferecem à sociedade uma perspectiva, que se mistura, engendrando na atividade o<br />

fomento à utilização de outr<strong>os</strong> mei<strong>os</strong>, além d<strong>os</strong> mei<strong>os</strong> e instrument<strong>os</strong> de <strong>com</strong>unicação<br />

tradicionais.<br />

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