Preview - Edita-me

edita.me.pt

Preview - Edita-me

PUBLICAÇÃO ONLINE DA EDITORA EDITA-ME REVISTA GRATUITA PRIMEIRO NÚMERO

TODA. JURO QUE NÃO TENHO NADA PROIBIDO NO MEU CORPO.

NEM ARMAS DE DESTRUIÇÃO INDIVIDUAL OU MACIÇA, NEM

PLANTAS DE TORRES, SEQUER IRMÃS QUANTO MAIS GÉMEAS,

NEM FOTOGRAFIAS DO KADAFI. ESTÁS À VONTADE. PODES USAR

AQUELAS MÁQUINAS QUE FAZEM BIP DEBAIXO DOS BRAÇOS

OU ENTRE AS PERNAS, PODES MANDAR-ME DESPIR, FAZ O QUE

QUISERES. ASSEGURO QUE NADA TENHO, DENTRO DE MIM, QUE

POSSA PÔR EM CAUSA A TUA SEGURANÇA. NÃO ENCONTRARÁS

ANTIGOS SELECCIONADORES NACIONAIS A ESPUMAR DE RAI-

VA XENÓFOBA, NEM CANDIDATOS A INSULTAREM-SE, DEPOIS

DIZENDO TODOS QUE AMAM O SEU CLUBE, NEM AGÊNCIAS DE

RATING. COMO NÃO DESCOBRIRÁS NENHUM PEC NUMERADO,

NENHUM AGENTE DO FMI, NEM SEQUER A MAIS LEVE ALUSÃO

AOS VESTIDOS DA SENHORA MERKEL. AQUI NÃO HAVERÁ IVA

A NENHUM POR CENTO, OU PORTAGENS, OU CUSTOS PARA O

UTILIZADOR. USA-ME TODA, DEPOIS DE REVISTADA. TENHO

LETRAS. JUNTAS. QUE, JUNTAS, SE CHAMAM PALAVRAS. E ES-

TAS, DENTRO DELAS, COM IDEIAS. ESTAS SIM, SE REVISTADAS,

TÊM COISAS PARA DIZER. EM SUA DEFESA. MAS NÃO ENVOL-

VENDO NENHUM PERIGO, SE ME RASGARES FICAS COM ELAS.

REVISTA-ME. SEM MEDO. APENAS PARA UM ÚNICO RISCO TE

ALERTO. SE ME REVISTARES, PODERÁS ENCONTRAR-TE.


2 Revista Me n 1

Revista Me n 1 3

EDITA-ME

POR CARLOS LOPES

Faz 2 anos que a Edita-me iniciou a sua

actividade.

Nasceu com a convicção e a vontade de “fazer

a diferença”, com base na minha experiência

enquanto autor que teve de desenvolver a sua

própria divulgação para realizar o objectivo de

qualquer autor: tornar conhecida a sua obra.

Assim entrei num mundo que me era totalmente

desconhecido. Num mundo que sempre se

disse desprezado, sem oportunidades, sem

investimento nele próprio. À medida que fui

apresentando e divulgando aquilo que intitulei

de “projecto Edita-Me” fui sempre colhendo

excelente aceitação. Sempre me foram dizendo

que era um projecto muito interessante e à

partida todos queriam e estariam disponíveis

para participar nele.

No entanto, rapidamente me apercebi que grande

parte desse próprio mundo era completamente

avesso à mudança. Grande parte desse mundo

funcionava contra si próprio, mantendo

métodos e rotinas completamente ultrapassados

mas sobretudo, primando pela inércia. E foi

precisamente do seio desse mesmo mundo que

surgiram as maiores dificuldades e principais

entraves.

Não nos deixámos abater. Não deixámos

esmorecer a nossa vontade e o nosso propósito

de fazer sempre mais e melhor, tendo sempre

como objectivo maior a divulgação dos nossos

autores e as suas obras.

Hoje, após um concurso que ultrapassou

fronteiras e resultou numa antologia com mais

de 80 autores publicados, após mais de 50

obras editadas, mais de 200 eventos realizados,

diversos debates, presenças na rádio e televisão,

vários “projectos educação” em curso… nasce

mais este projecto: a Revista-Me.

A Revista-Me tem na sua base a mesma génese

que sempre pautou todas as nossas acções:

a divulgação dos nossos autores, sua forma

de escrita e suas obras. Assim, será composta

exclusivamente por conteúdos desenvolvidos por

eles. E para que possa chegar ao máximo número

de pessoas possível, será em formato electrónico

e de distribuição gratuita.

Um abraço único para os que quiseram contribuir

com o seu talento para esta publicação e um

agradecimento especial ao patrocinador, que tal

como nós, acreditou em mais este projecto.

Espero que a leitura desta nova publicação

proporcione momentos agradáveis a todos e gere

a curiosidade de quererem saber algo mais sobre

as obras dos nossos autores.

CRÓNICAS DO INTERIOR

Alexandra Malheiro

5

9

CURTA-ME

Filipe Paixão . Raquel Branco . António

Bulcão . Maria Sofia Magalhães

17

RIMA-ME

Luísa Azevedo . Ruth Ministro . Jorge

Pópulo . Ana Homem de Albergaria

CONTA-ME

Henrique Normando . Adolfo

Castelbranco Oliveira . Miguel leitão

REPRESENTA-ME

Alice Rios

OPINA-ME

Celeste Pereira

ENTREVISTA-ME

Marta Neves

DESCOBRE-ME

Agostinha Pópulo

AVENTURA-ME

Pedro Branco . Sara Maia Prata

ILUSTRA-ME

Miguel Ministro

CONVIDA-ME

Gil Nunes

COMPÕE-ME

Pedro Lopes

INVENTA-ME

Susana C. Fonseca

25

39

45

49

55

61

73

81

87

93


CRÓNICAS DO INTERIOR

ESTA SECÇÃO DESTINA-SE A UMA RUBRICA

DE CRÓNICAS COM A ASSINATURA DA

AUTORA ALEXANDRA MALHEIRO. SENDO

UMA PROPOSTA DA MESMA E UMA PRESENÇA

ASSÍDUA, A SECÇÃO ASSUMIU A IDENTIDADE

QUE A AUTORA, LEGITIMAMENTE, ESCOLHEU.


6 Revista Me n 1

Revista Me n 1 7

CRÓNICAS DO INTERIOR

POR ALEXANDRA MALHEIRO

A Edita-Me, editora com a qual publiquei o meu

último livro, acaba de lançar esta publicação, a

“Revista-Me” e eu, que gosto de estrear coisas,

decidi aceitar o convite para passar a colaborar

de forma periódica, que é como quem diz crónica,

com um texto narrativo, normalmente chamado

de “crónica”, veja-se logo aqui a redundância, o

pleonasmo.

Vai daí fiquei a cismar no nome que havia de dar

a esta com que vos presenteio. À laia de estreia,

e muito a meu jeito, decidi que havia de ser coisa

para nunca sair do seu lugar, para andar em volta

de si mesma, como percebemos que são afinal

todos os textos, se os lermos com atenção. Senão

vejamos: em tudo o que escrevemos, quase todas

as palavras são redundantes e, ainda assim, são

sempre necessárias. Se não percebem passo a

explicar, que é disso bom exemplo esta crónica.

Nela, todas as palavras, estas que agora ledes,

são a meu ver absolutamente necessárias para

que me compreendam, para que eu me faça

entender, para deixar bem explícito o assunto

sobre o qual falo, sem elas ninguém perceberia

o tema, o motivo da crónica, a crónica seria

ilegível, incompreensível, não faria qualquer

sentido, não seria um texto nem podia jamais

chamar-se “crónica” ou o que quer que seja por

ser inexistente. Mas se pensarmos bem, serão

estas palavras necessárias? Ou ainda por outras

palavras (sim, ainda elas, as palavras) — que

interesse pode ter esta crónica se a crónica é

sobre ela própria e o seu conceito, se gira em

torno do seu eixo, se é uma crónica sobre a

crónica? Utilidade? — nenhuma, mas ao mesmo

tempo alguma, quanto mais não seja a de ser

em si mesma um paradoxo — conceito com

o qual sempre simpatizei — e ser mais, ser a

primeira, a que explica, a que ilustra, a que se

apresenta assim, para que daí por diante a fiquem

a conhecer sem ter de novo de ser explicada,

esmiuçada, escrutinada e definida.

Assim achei completada a função de escrever a

primeira das mais crónicas que se hão-de seguir

a esta, com o título genérico de “Crónicas do

interior” para identificar a sua origem. A esta

primeva, após longa e aturada ponderação,

coube-lhe o título, descaradamente decalcado do

O’Neill mas sujeito a honroso “aperfeiçoamento”

para melhor servir os meus propósitos, ficando a

chamar-se “uma crónica em forma de assim” que

por mais que se tente e faça é coisa rara e difícil

de descrever.

ALEXANDRA MALHEIRO NASCEU EM

1972 NO PORTO, EM MIRAGAIA, MAS

VIVE DESDE SEMPRE NO BONFIM.

É LICENCIADA EM MEDICINA E

ESPECIALISTA EM MEDICINA INTERNA

E É TAMBÉM NO PORTO QUE EXERCE.

AUTORA DE QUATRO LIVROS DE POESIA,

ENTRE OS QUAIS “LUZ VERTICAL” QUE

CONTA COM PREFÁCIO DE PEDRO

ABRUNHOSA, TEM TAMBÉM POEMAS EM

ALGUMAS ANTOLOGIAS E ARTIGOS

ESPALHADOS AQUI E ALI EM JORNAIS E

REVISTAS, COLABORAÇÕES PONTUAIS

QUE LHE DÃO MUITO GOZO.

TEM UMA PÁGINA DE AUTOR EM

www.alexandramalheiro.no.sapo.pt

QUE CONVIDA A VISITAR.

Obras publicadas pela EditaMe:


CURTA-ME

DESAFIO À CRIATIVIDADE DOS AUTORES NO

SEU PODER DE SÍNTESE, CURTA-ME DESTINA-SE

A TEXTOS CURTOS, DE APENAS UMA PÁGINA.


10

Revista Me n 1

CURTA-ME

Porque quando voltares eu já cá não estarei,

deixo-te esta carta porque quero que saibas que

esperei por ti.

Quero que saibas que não te deixei do lado de

fora da porta, ou sequer arrumada numa gaveta

velha, rangente, fechada com uma chave que se

partiu. Não;

Quero que saibas que estiveste sempre ali, na

prateleira de mármore sobre a lareira, onde

mais se fazia sentir o calor dos meus sentires

sempre que te pensava (e era sempre em ti que

constantemente pensava);

Quero que saibas que o passar do tempo não

arrefeceu em mim o sentir-te enraizada sob

a minha pele, alimentando-te do meu sangue

(pois neles tu cresceste e te desenvolveste a cada

pulsar, sempre em contínuo em mim);

POR FILIPE PAIXÃO

Quero que saibas que nunca ninguém te

substituiu, nem nada nunca ocupou qualquer um

dos teus lugares (pelo contrário, foste tu que foste

ocupando cada vez mais lugares de mim, ao ponto

de quase não sobrar espaço para mim próprio);

Quero que saibas que sem ti, o tempo passou a

correr tão mais devagar e os sentidos que a vida

fazia foram-se esmorecendo, mas não tu (porque

tu foste sendo sempre cada vez mais a espera, o

motivo da espera o tudo que na própria espera,

deixa até de ser espera);

Quero que saibas que o sol e a lua se cansaram

de passar pelos meus olhos, mas os meus olhos

nunca se cansaram de te procurar no caminho

de acesso à nossa porta (que passou a nunca

estar fechada à chave, com receio que chegasses

e por te teres esquecido da tua, fosses de novo

embora);

Quero que saibas que os meus braços sempre

se abraçavam à noite, na procura da sensação

dos teus, que envolta no meu tronco, me trariam

uma vez mais o sentir das tuas formas (essas que

pelo castigo da tua ausência, eram já apenas uma

quimera);

Quero que saibas que as sombras da rua

passaram a ser possíveis lugares onde te

imaginava escondida a observares-me, pela

necessidade que a memória das mãos fazia rasgar

em ti de uma simples visão de mim (tal como eu

era constantemente dilacerado pelas minhas);

Quero que saibas que por vezes desejei nunca te

ter conhecido, mas sem isso, sei que nunca me

teria conhecido em pleno a mim e então esse

desejo desaparecia e ficava uma vez mais, apenas,

o imenso desejo de ti (esse que me fazia crescer

uma solidão no peito, por quando nas mãos

vazias de ti nelas ver nascer as noites de mim);

Quero que saibas tudo, tantas coisas, tantos

sentimentos, tantos sentires, tantos devaneios e

até loucuras, tanto tu, tanto eu, tanto, tanto…

Quero que saibas por fim, que eu já cá não estou

não porque tenha desistido de ti. Apenas o

tempo de espera foi demasiado longo e a minha

vida encontra agora o seu término (essa mesma

vida que decorreu numa espera contínua e

ininterrupta de Ti);

E quero que saibas que te deixo esta carta para

que fiques a saber tudo isto quando voltares,

mesmo… sabendo eu… no mais íntimo de mim…

que não voltarás.

Revista Me n 1 11

FILIPE PAIXÃO NASCEU EM 1970 NA

CIDADE DO PORTO.

APESAR DE LICENCIADO EM

MATEMÁTICAS APLICADAS, NUNCA

CONSEGUIU RESISTIR À PAIXÃO PELAS

LETRAS E, DESDE CEDO, DESENVOLVEU

O GOSTO PELA ESCRITA.

Obras publicadas pela EditaMe:


12 Revista Me n 1

Revista Me n 1 13

CURTA-ME

POR RAQUEL BRANCO

Sabes, tenho medo.

Tenho medo que um dia destes, alguém tenha

a ousadia de me vir falar de amor. Aquele amor

banalizado, de príncipes e princesas, de castelos,

tranças e cavalos brancos. Aquele Amor com que

toda a gente sonha um dia, e que nunca acontece,

mas que grande parte das pessoas pensa que sim.

Tenho medo que este tiquetaque, em tom de

bomba-relógio que em mim escondo, rebente,

e te deixe escapar por entre as minhas sílabas

danadas, sem ordem, princípio nem fim e acorde

aí, umas tantas consciências desenganadas pelas

arritmias do coração.

Ousar falar-me de amor, depois de ti, parece-me

impossível. Faz-me sentir que ninguém o conhece

como eu. Que ninguém o viveu como eu. Que mais

ninguém teve o mesmo privilégio que eu tive.

Eu tive-o.

E eu tenho-o e guardo-o dentro de mim, quando

outros se julgam capazes de saltar fora dele, para

dele poderem falar.

Eu não te consigo falar deste amor. Não consigo

saltar fora e racionalizá-lo, nem descrevê-lo

na distância de ti. Parece-me humanamente

impossível.

Este amor não tem outra forma de expressão

que não seja a nossa. E eu nem dessa forma

consigo falar. Não o quero dissecar com

adjectivos comuns. Acho que não o merece. É

demasiadamente pouco para este TANTO.

O mais engraçado é que, no fundo, acho que toda

a gente que diz que ama, pensa como eu.

E no entanto, isso não deixa de me parecer,

simplesmente, IMPOSSÍVEL de ser verdade.

Mas as verdades são assim mesmo. Relativas.

Tal como o Amor.

RAQUEL BRANCO NASCEU EM 1980

NO PORTO.

SEM COMPROMISSOS COM A ESCRITA,

ESCREVE QUANDO OS DEDOS NÃO

CONSEGUEM CONTER AS PALAVRAS

E A CANETA TRANSPIRA O QUE LHE

VAI NA ALMA. DESDE 2006 QUE

ATRAVÉS DO SEU BLOG O LADO B DA LUA

http://oladobdalua.blogspot.com

EXPÕE PARA O MUNDO O QUE DAS

MÃOS LHE VAI SAINDO.

Obras publicadas pela EditaMe:


14 Revista Me n 1

Revista Me n 1 15

CURTA-ME

POR ANTÓNIO BULCÃO

Revista-ME. Toda.

Juro que não tenho nada

proibido no meu corpo.

Nem armas de destruição

individual ou maciça, nem

plantas de torres, sequer

irmãs quanto mais gémeas,

nem fotografias do Kadafi.

Estás à vontade.

Podes usar aquelas máquinas

que fazem bip debaixo dos

braços ou entre as pernas,

podes mandar-me despir, faz

o que quiseres. Asseguro que

nada tenho, dentro de mim,

que possa pôr em causa a tua

segurança.

Não encontrarás antigos

seleccionadores nacionais

a espumar de raiva

xenófoba, nem candidatos

a insultarem-se, depois

dizendo todos que amam o

seu clube, nem agências de

rating. Como não descobrirás

nenhum PEC numerado,

nenhum agente do FMI, nem

sequer a mais leve alusão

aos vestidos da senhora

Merkel. Aqui não haverá

IVA a nenhum por cento, ou

portagens, ou custos para

o utilizador.

Usa-me toda, depois de

revistada.

Tenho letras. Juntas. Que,

juntas, se chamam palavras.

E estas, dentro delas,

com ideias. Estas sim, se

revistadas, têm coisas para

dizer. Em sua defesa. Mas

não envolvendo nenhum

perigo, se me rasgares ficas

com elas.

Revista-ME. Sem medo.

Apenas para um único risco

te alerto. Se me revistares,

poderás encontrar-TE.

ANTÓNIO BULCÃO NASCEU NA HORTA,

FAIAL, AÇORES, EM 1959.

LICENCIOU-SE EM DIREITO, EM LISBOA.

É, ACTUALMENTE, ADVOGADO E

PROFESSOR DE ECONOMIA.

NO ÂMBITO DO JORNALISMO E DA

LITERATURA, COLABOROU E COLABORA

COM VÁRIOS JORNAIS E REVISTAS,

TENDO PUBLICADO TAMBÉM UM LIVRO

DE CONTOS.

PREPARA A PUBLICAÇÃO DE NOVOS

LIVROS DE CONTOS, NOVELA E

ROMANCE, ASSIM COMO A EDIÇÃO DE

NOVO CD MUSICAL. PUBLICARÁ EM

BREVE O LIVRO ESTÓRIAS DE SHORTS

PELA EDITA-ME.

Obras publicadas pela EditaMe:

MARIA SOFIA MAGALHÃES NASCEU A

27 DE DEZEMBRO DE 1961, É CASADA,

MÃE DE DOIS FILHOS.

É ESPECIALISTA EM ANATOMIA

PATOLÓGICA E DIRECTORA DO SERVIÇO

DE ANATOMIA PATOLÓGICA DO

HOSPITAL FERNANDO FONSECA, EPE.

POSSUI DESDE 2005 UM BLOGUE DE

AUTOR “DEFENDER O QUADRADO”,

QUE CONVIDA A VISITAR EM

http://defenderoquadrado.blogs.sapo.pt

Obras publicadas pela EditaMe:

Tenho a dizer-te que tudo me incomoda. A roupa demasiado

justa sobre o corpo molhado, sempre a enrolar-se de um

calor súbito e preciso, distribuído pela ansiedade de quem

personifica a revolta contra o tempo. O peso que já não

se reparte pelas várias zonas que ocupa, mas que se fixa

inexoravelmente no apoio que falta. O cansaço mole dos

movimentos presos, das noites em claro, dos pensamentos em

círculos contínuos e fechados.

Tenho a dizer-te que a Primavera não está apenas nos perfumes

que se misturam, nas ervas que crescem, no azul e verde que

desponta a cada manhã. Não está ainda no caminho que faço

junto ao mar, nas mãos que vou apertando e sentindo frias,

nas portas teimosamente entreabertas. Sempre um biombo

invisível.

Tenho a dizer-te que tardam os sinais da mudança, que desmaia

o vermelho das flores, que se calam os filhos, que desistem

os velhos, que se entulham as vontades, que se somam os

silêncios, que arrefecem as bandeiras.

Tenho a dizer-te que Abril está mas não chegou, que Abril

ainda não chega, que Abril congela nos abraços adiados, que

Abril semeou mas não colheu, fartura de esperança sem Maio

à vista.

POR MARIA SOFIA MAGALHÃES


RIMA-ME

ÁREA DESTINADA AOS NOSSOS POETAS

E À SUA POESIA, OBVIAMENTE QUE NÃO

APENAS EM FORMA DE RIMA.


18 Revista Me n 1

Revista Me n 1 19

RIMA-ME

É noite, amado meu, fez-se silêncio,

quietude que sussurra liberdade.

Meus braços nos teus, eu delicio.

Da minha boca se evade a ansiedade.

Amena brisa passou nos meus cabelos.

Por sete dias, carícias mos beijavam.

Tuas mãos! Sinto ainda teus dedos percorrê-los,

enquanto nossas vestes se enlaçavam.

E quando, amor, meu corpo ao teu entregue

e minha boca no teu beijo se aconchegue,

o mais incauto sentido gemerá!

Pela longa noite, eterna madrugada,

deixemos outra primavera adiada,

que atrás deste desejo, outro virá!

Ah… como o teu corpo entende o meu

e nas minhas mãos o teu corpo se desfaz!

Imagino… me reconheceu

e eu te recorde de tempos atrás.

Húmido dialecto ali se deu,

naquele beijo só de prazer capaz.

Horas, que a noite embeveceu

querendo estancar o tempo, em si falaz!

Quando sobre ti enfim me deito

e a pele desmaio no teu peito,

o contorno doutro mundo se desenha.

Dois suspiros num só, mais que perfeito!

Destinos talhados a preceito

sempre que teu amor no meu se venha.

LUÍSA AZEVEDO

LUÍSA AZEVEDO NASCEU EM LISBOA,

EM 1964 E VIVE NO PORTO DESDE 1972.

LICENCIADA EM ENGENHARIA TÊXTIL

PELA UNIVERSIDADE DO MINHO,

GERE DESDE 1990 UMA EMPRESA DE

MOBILIÁRIO E DECORAÇÃO.

Obras publicadas pela EditaMe:


20 Revista Me n 1

Revista Me n 1 21

RIMA-ME

POR RUTH MINISTRO

Há dias, como este, em que as palavras,

de tão apaixonadas,

se incendeiam nas minhas mãos,

e ardem antes de eu escrever o poema.

Fica-me nos dedos inúteis o pó das letras,

como se fosse poeira de estrelas que,

por ciúme,

o céu não me deixou oferecer-te.

RUTH MINISTRO NASCEU EM LISBOA

NO ANO DE 1981. LICENCIOU-SE EM

PSICOLOGIA NA UNIVERSIDADE DO

PORTO EM 2004, TENDO ORIENTADO

A SUA ESPECIALIZAÇÃO PARA A

ÁREA DE CONSULTA PSICOLÓGICA.

EM 2006 CRIOU O BLOG

http://a-minha-nuvem.blogspot.com

ONDE COMEÇOU A PARTILHAR AS

SUAS PALAVRAS COM AQUELES QUE

ATÉ HOJE A CONHECEM POR NUVEM.

O POEMA QUE NESTA EDIÇÃO

APRESENTA CONSTA DO SEU LIVRO

DOS INTERVALOS DAS HORAS, A

EDITAR BREVEMENTE PELA EDITA-ME.

Obras publicadas pela EditaMe:

POR JORGE PÓPULO

Cobria-te túnica

Cristalina, fresca

Pela fragrância

Da água transparente

Da ribeira,

Enxuta ao aroma da claridade

Diáfana e penetrante

Do crepúsculo calmo…

Assim te chegaste

Sobre o leito

Sobre mim.

Trazias a ânsia

Despida, evidente,

De afoita romeira

Penitente em sensualidade

Feminina,

Divina…

Emanavas sabor

De mel dos limos,

Mimos,

Espigados na eólica pradaria,

Florescida, madura

E dada a colher,

Entregue em braços

Para purificação

De meus infortúnios,

Por caridade

De minhas medonhas dores…

Impregnou-se a túnica

Em tua pele

Senti-te seda papel,

Acolhi o éden,

Sem pecado.

Encontrei-me alado

Aspergido

Pelo orvalho da alva,

Santificado

Pela freática alma,

Que a meu lado acordava…

Firme no alto

A estrela da aurora

Do renovo dos dias,

Cerrados os olhos

Desvendei a paisagem

À tua chegada,

Entraste, entrei,

Toquei-te, fui tocado

… No coração…

JORGE PÓPULO NASCEU EM 1970. NOS

BRAÇOS GRANÍTICOS DO INVICTO BERÇO

PORTUENSE E DA ALCOFA DE MATIZ

TRANSMONTANO, VIU A LUZ EMANADA

DA MATERNIDADE, PARA LOGO

ESPREITAR AS CORES DA EXISTÊNCIA,

NO BAIRRO DO LEAL.

DECIDIU QUE A HISTÓRIA ERA O SEU

RUMO. ACABOU POR ENGROSSAR O

EXÉRCITO DE ESTUDANTES

UNIVERSITÁRIOS. VIAJOU POR MUNDOS

DISTANTES, PRESOS NO PASSADO, MAS

CORREDIÇOS PARA O FUTURO.

FICOU A CONHECER MELHOR O PRESENTE.

ESTUDOU CIÊNCIAS DOCUMENTAIS E

CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO.

ACTUALMENTE, TRABALHA E ESTUDA NA

FACULDADE DE ENGENHARIA DO PORTO.

ESCREVE NAS HORAS LIVRES. NAS HORAS

MAIS SUSCEPTÍVEIS, SOBRETUDO…

Obras publicadas pela EditaMe:


22 Revista Me n 1

Revista Me n 1 23

RIMA-ME

Um dia

Vou sentar-me ao meu lado

E ouvir tudo

O que tenho para me dizer.

Não vou falar comigo,

Não me vou interromper…

A primavera não (re)nasce,

Antes de o inverno se ter!

Vou ficar perto e distante,

E fingir não me saber.

Ver-me em mim ali diante,

Para melhor me entender.

Vou por uma música calma,

Sons de golfinhos e mar,

Aproximar-me mais de mim

Abraçar-me e chorar!

E o meu peito vai sofrer

O que não consigo falar.

Depois,

Vou passar as mãos nos meus cabelos

E sentir que são as mãos de minha mãe.

E ver o seu sorriso a nascer

Quando me dizia serena:

Tudo passa, isto é viver!

Por fim…

Vou olhar bem nos meus olhos

Sem nunca os desviar

E vou encarar de frente

O que tenho de mudar.

Vou ler para mim própria

Um poema de Andrade

E ver nas palavras dele

Muita da minha verdade.

E assim vou-me afastando

De mim para me encontrar.

Abrir espaço ao Amor

Receber e saber dar.

Levantar-me decidida

A pintar uma nova tela

Com cores de uma nova vida

Para depois Viver nela!

POR ANA HOMEM DE ALBERGARIA

Um coração silencia-se

Na espera da alvorada do sentir,

Tempo de tinta permanente,

Contínua e excelsa força

Que nos esboça o existir.

Virei estátua num jardim à beira-mar,

Senti a brisa num rosto imóvel

Oposto à força do devir.

De olhos postos no horizonte

Vivi cada olhar, cada barco que passava…

Efémeros segundos de um pouco de tudo

De uma viagem feita de quase nada.

Um violino partido me acordou

Chorava… pela clave de sol assim perdida,

Não consegui unir as suas cordas

Não soube ser braço...

Nem arco... na partida.

ANA HOMEM DE ALBERGARIA NASCEU

EM RESENDE, ESTADO DO RIO DE

JANEIRO, BRASIL, EM 1969.

RESIDE EM PORTUGAL DESDE 1970,

TENDO VIVIDO ATÉ AOS 23 ANOS EM

VALE DE CAMBRA, ALTURA EM QUE

MIGROU PARA A CIDADE DO PORTO.

DESDE 1992 QUE RESIDE EM RIO

TINTO, GONDOMAR.

SOCIÓLOGA, EXERCE A SUA PROFISSÃO

NUMA ONG EUROPEIA, NA ÁREA DA

LUTA CONTRA A POBREZA E A

EXCLUSÃO SOCIAL.

AUTODIDACTA, DESDE CEDO QUE

POSSUIU O GOSTO PELA POESIA E PELAS

ARTES PLÁSTICAS, TENDO REALIZADO

OITO EXPOSIÇÕES DE PINTURA NO

ÂMBITO DAS QUAIS DESENVOLVEU

MOMENTOS DE DIVULGAÇÃO E

PARTILHA DA SUA POESIA.

Obras publicadas pela EditaMe:


CONTA-ME

LUGAR PARA PEQUENOS CONTOS.


26 Revista Me n 1

Revista Me n 1 27

CONTA-ME

ESTREMUNHADO, RUI PROCUROU LEVANTAR-SE MAS VOLTOU A CAIR.

SENTIU QUE TINHA A CARA ENSANGUENTADA. O CHÃO TINHA MANCHAS

DE SANGUE. A CUSTO, RUI PERGUNTOU: A CRIANÇA QUE ESTAVA AQUI?

ONDE ESTÁ? ONDE ESTÁ? ADMIRADA, ZÉLIA OLHOU PARA ELE E DISSE: A

CRIANÇA? MAS DE QUE CRIANÇA ESTÁS TU A FALAR? ENLOUQUECESTE?

FOI ISSO QUE RUI, POR MOMENTOS PENSOU. QUE TINHA ENLOUQUECIDO.

Na rua dos Correeiros, Rui entrou numa

pastelaria. Estava visivelmente chateado. As lojas

estavam a fechar. O dia tinha-lhe corrido mal.

O café que lhe tinham acabado de servir estava

intragável.

A mulher esperava-o em casa. Mas não lhe

apetecia ir. Quanto mais tarde chegasse, melhor.

Menos tempo tinha que a aturar. Rui estava triste.

Os tempos que corriam estavam difíceis. Zélia, a

sua mulher, estava com problemas no ponto G. Ao

que parece, o ponto G tinha-se deslocado. Ele não

sabia para onde. E ela, aparentemente, também

não.

Instalara-se entre o casal uma sensação de vazio,

difícil de preencher. O sentido de existência

tornara-se de certa forma incompleto. Rui passara

à fase da auto-suficiência sexual com mais

frequência que o habitual. Zélia possivelmente

também, pensava ele.

Habitualmente, quando chegava a casa ao fim

do dia, Rui via o noticiário na televisão da sala e

Zélia via um programa sobre casas e jardins, na

televisão do quarto.

Rui acabou de tomar a mistela intragável, pagou

setenta cêntimos e decidiu voltar a casa.

Mal acabou de sair da pastelaria, foi abordado por

uma prostituta que queria cinquenta euros para

terem uma hora de prazer. Rui riu-se e disse-lhe

que nunca tinha pago e jamais pagaria para ter

relações sexuais com quem quer que fosse. A

prostituta percebeu que ele estava a falar a sério

e desistiu, acabando por seguir outro caminho.

Rui ficou ainda mais entristecido. Agora só as

prostitutas o abordavam.

Passada uma hora Rui chegou a casa. Seguira

devagar pelos Restauradores, Avenida da

Liberdade, depois em direção ao Saldanha,

Avenida da República e Entrecampos. Pelo

caminho fora vendo as montras e as pessoas que

por ali circulavam.

Ao entrar em casa, Zélia perguntou-lhe porque

tinha chegado tão tarde. Rui não respondeu.

Deitou-se no sofá, sintonizou um dos canais da

televisão com o comando à distância e pouco

depois adormeceu.

Passado algum tempo, Zélia veio ter com ele.

Trazia-lhe um whiskey diluído com água sem gás...

e com uma pedra de gelo.

POR HENRIQUE NORMANDO

Rui sentou-se no sofá e ia-se entretendo a beber

o seu whiskey. Zélia encaminhou-se para a casa

de banho, para tomar um banho de imersão.

Zélia despiu-se e olhou-se ao espelho. Achou-se

um pouco gorda, mas sentiu que ainda era

uma mulher apetecível. Capaz de despertar o

desejo sexual da maior parte dos homens que

conheciam... e eles bem a olhavam demonstrando

isso mesmo.

Dentro da água tépida da banheira, Zélia

mergulhava nas pequenas ondas que os seus

movimentos iam produzindo.

Filho de burgueses e educado confortavelmente

nesse meio, Rui não conhecia as contrariedades

da vida, a não ser através do casamento.

Nunca teve falta de dinheiro. O pai fora um

abastado comerciante e a mãe fora uma senhora

respeitável e doce que sempre se preocupara em

dar ao filho uma excelente educação.

Rui pensava frequentemente nos pais, agora que

tinham morrido.


28 Revista Me n 1

Revista Me n 1 29

CONTA-ME

Por outro lado, Rui e Zélia tinham dois filhos,

ambos já casados e bem instalados na vida,

embora sujeitos às vicissitudes da vida

em sociedade e às normais contundências

relacionadas com as lutas de poder e com a

fragilidade dos relacionamentos.

Rui, sentado no sofá, pensava no percurso que

tinha percorrido e nos desvios que a vida teria

tido se tivesse tomado outras opções.

Decidiu levantar-se e dirigiu-se à pequena

secretária da sala, onde guardava algumas

recordações e fotografias. Mas, de repente, a sala

pareceu-lhe maior. Olhou em volta e o sofá que

se encontrava apenas a uns escassos seis metros

pareceu-lhe que estava a cinquenta ou sessenta.

As próprias paredes estavam mais altas. O tecto

ganhara uma altura de quatro ou cinco metros.

Rui sentiu-se agoniado e entontecido. Antes que

desmaiasse, sentou-se numa cadeira próxima

da secretária.

Uma criança, que ele não conhecia, entrou na

sala com um sorriso perverso. Trazia consigo

uma armação em lona, decorada com figuras

nuas e montou um teatro, em tudo semelhante

aos teatros de fantoches que eram montados

na rua, no tempo da sua infância. Rui sentia-se

demasiado fraco para chamar por Zélia.

A criança, dentro da armação, movimentava

os fantoches que pareciam animados de vida

própria. A criança imitava os sons dos bonecos,

mas por vezes as vozes eram de pessoas adultas.

Até que o relógio de parede deu dez badaladas.

Dez horas da noite. Rui estranhava que Zélia não

aparecesse. Cada vez mais enjoado, Rui acabou

por vomitar. Vomitou no chão da sala, um líquido

verde e espesso que rolou para cima da carpete.

Até que desmaiou. Mas, não tendo perdido ainda

totalmente a consciência, Rui percebeu que a

criança saira da armação e lhe batia furiosamente

com um pau, talvez para impedir que ele

perdesse os sentidos. Pouco depois mergulhou no

esquecimento total, deitado no chão da sala.

Quando veio a si, ouviu a Zélia a gritar. Rui, Rui,

que aconteceu? perguntava ela.

Estremunhado, Rui procurou levantar-se

mas voltou a cair. Sentiu que tinha a cara

ensanguentada. O chão tinha manchas de sangue.

A custo, Rui perguntou: a criança que estava aqui?

Onde está? Onde está? Admirada, Zélia olhou para

ele e disse: A criança? Mas de que criança estás

tu a falar? Enlouqueceste? Foi isso que Rui, por

momentos, pensou. Que tinha enlouquecido.

Zélia ajudou Rui a levantar-se e a ir para o quarto.

Ajudou-o a vestir o pijama e a deitar-se na cama.

Queres que chame um médico? Queres que te faça

um chá? Rui respondeu-lhe que não era preciso.

Nem uma coisa nem outra. Apenas lhe disse:

Zélia, se eu morrer, quero ser cremado. Zélia

olhou para ele e não queria acreditar no que tinha

ouvido. Rui tinha quarenta e cinco anos. Nunca

estivera doente. Sempre fora um homem alegre

e brincalhão. Era conhecido por contar belas

anedotas que contagiavam as pessoas de alegria

e boa disposição. A que propósito vinha aquela

conversa tão estranha de morrer e querer ser

cremado ?

Rui pediu para ficar sozinho. Queria descansar.

Naquele momento, qualquer som ou qualquer

pessoa o perturbava. Zélia saiu do quarto e foi

para a sala, pegando no telefone. Durante longo

tempo, falou com as amigas sobre o ocorrido com

o marido. Recebeu os mais variados conselhos.

Uma das amigas recomendou-lhe que falasse

com uma pessoa conhecida que fazia reiki. Tinha

aprendido por correspondência mas obtinha

excelentes resultados.

Zélia decidiu ignorar estes conselhos. Decidiu

chamar o médico se o marido não melhorasse.

Passado algum tempo, Rui sentiu que desfalecia.

Não chamou por Zélia. Da sua boca não saía

qualquer som. Viu uma nuvem branca no tecto da

sala... e depois... nada.

Quando veio a si, ouviu muito barulho dentro

do quarto. Um padre paramentado, mas com os

braços nus e completamente tatuados, olhava

para ele. Sobre a cama estava uma galinha preta

de crista vermelha, que corria desajeitadamente

sobre o colchão de molas. O padre tentava manter

a galinha quieta... e chamava por Zélia. Mas Rui

depressa se apercebeu que o padre chamava Zélia

à própria galinha.

A galinha por fim lá se aquietou. Então o padre

mergulhou as mãos e os braços numa bacia de

água e lavou-os, entoando estranhas orações que

Rui nunca tinha ouvido.

A um canto do quarto, Rui reparou que a criança

de riso perverso, que actuara no teatro de

fantoches, olhava para ele. Estava de pé sobre

uma cadeira.

Rui olhou melhor para as tatuagens do padre.

Estranhamente, pareciam-lhe cruzes invertidas.

Rui sentiu que o coração batia

descompassadamente. A galinha veio para

junto dele e de vez em quando dava-lhe bicadas

na testa. Os olhos da galinha eram circulares

e prateados com um ponto negro no meio

de cada círculo. Pareciam olhos metálicos

coruscantes. Emitiam relâmpagos que faziam

com que Rui visse as imagens em seu redor numa

intermitência alucinante.

O padre pareceu querer dar início a um estranho

ritual. Entraram no quarto seis mulheres

semi-nuas com meias pretas e lábios pintados

de azul, que se puseram a dançar ao som de

música dos idólatras pagãos, batendo com os pés

no chão de forma compassada. Rui, que chegara

a imaginar que ia receber a extrema-unção

compreendeu que aquele ritual devia estar mais

próximo de um acto de magia negra do que de

qualquer acto purificador.


30 Revista Me n 1

Revista Me n 1 31

CONTA-ME

A criança de olhar perverso aproximou-se do

padre, que lhe pôs a mão na testa e balbuciou

algumas palavras numa língua desconhecida.

A criança a pouco e pouco transformou-se

numa cobra maligna de cabeça oval e achatada,

mostrando uma língua enorme, fendida na

extremidade.

Subitamente a casa começou a tremer. Os

móveis tombaram. Os candeeiros caíram. As

mulheres que dançavam agarraram-se umas

às outras com os olhos esbugalhados e um ar

desesperado. O padre saiu a correr como se

estivesse a ser perseguido por uma entidade

superior. Num canto da sala a cobra jazia, por

baixo de uma coluna de mármore que caíra. As

mulheres foram para a varanda e gritavam por

socorro. A confusão lá fora devia ser indescritível,

pelo barulho que se ouvia. A varanda, já de si

fragilizada pelo abalo sísmico, cedeu ao peso

das mulheres e caiu fragorosamente no solo,

arrastando aqueles diabos para uma morte certa.

Rui não queria acreditar no que se estava a

passar com ele. Quando tudo acalmou, viu Zélia

que se aproximava com um ar muito confuso.

Rui, disse ela... isto foi um sismo... como é que

consegues estar tão calmo?

Rui olhou para ela com um ar céptico. Onde está

o padre ? perguntou. O padre? disse Zélia... não vi

padre nenhum. Vi de facto um homem que corria

pelas escadas abaixo. Um homem tatuado.

HENRIQUE NORMANDO, PSEUDÓNIMO

DE MANUEL H. MARTINS DE CAMPOS.

DEPOIS DE UMA CARREIRA ACADÉMICA

E PROFISSIONAL LIGADA À GESTÃO

EMPRESARIAL, NUNCA PERDEU DE VISTA

A SUA VOCAÇÃO LITERÁRIA E

ARTÍSTICA, TENDO COLABORADO E

RECEBIDO FORMAÇÃO NO CAMPO DAS

ARTES, COM O MESTRE JOÃO HOGAN E

MARIA GABRIEL.

NO PLANO LITERÁRIO COLABOROU

COM ALGUNS JORNAIS E REVISTAS.

EDITOU, TAMBÉM, ALGUNS LIVROS NO

CAMPO DA POESIA.

Obras publicadas pela EditaMe:

POR ADOLFO CASTELBRANCO OLIVEIRA

O dia acordara há duas horas; eram oito da manhã,

o tempo estava quente, os raios de sol entravam

pela persiana de madeira que defendia a vidraça

de pedras que podiam saltar incautamente da

mão de algum candengue desajeitado e assim lá

acontecia o rombo no orçamento.

‘Ela’ dá um salto da cama, enfia os chinelos, corre

para a casa de banho e manda-se para dentro da

banheira. Tinha de se arranjar rapidinho pois era

Domingo e não queria chegar tarde à Missa das

onze havia tempo mas combinara com a sua amiga

Carmito passar lá por casa por volta das dez.


32 Revista Me n 1

Revista Me n 1 33

CONTA-ME

— Sai um chuvarada rapidinha que mana espera-me

Depois de fazer tudo o que teria de fazer, enfia

o “mata-bicho” pela goela abaixo, um “inté dona

Mãe”, e sai airosa respirando o ar puro com passo

ligeiro, cumprimentando pelo caminho tudo

quanto era amizade.

As mulheres ao passar gabavam-lhe o andar

de menina virgem e a beleza do vestido que

se ajustava ao corpo sem no entanto o fazer

sobressair, até porque as curvas ainda não se

tinham definido. Levava um vestidinho ligeiro,

sapatos de cabedal, uma malinha bem à menina,

o cabelo, de tamanho médio encarapinhado e

hesitantemente caído sobre os ombros

Como não podia deixar de ser, consigo o “rosário

e a bíblia”. De tenra idade, era uma das meninas

crentes da cidade, praticante assídua da missa e

da catequese, lugar privilegiado para se encontrar

com as coleguinhas e as amiguinhas que não

moravam nas redondezas, e não escondia a sua

religiosidade, o seu temor a Deus e o respeito à lei

divina.

Não demorou muito a apanhar a amiga seguindo

para a Igreja — a missa não esperava por elas;

queriam sentar-se nos bancos da frente para não

perderem pitada do que o senhor padre ia dizer

naquela manhã. Depois o tempo da hóstia, da

confissão, de dizer o mesmo de sempre porque na

sua idade o único pecado que tinha aos olhos dos

homens era ser nova demais e eles respeitarem,

de certo modo, os mandamentos. Era na

despreocupação que “Ela” soltava a liberdade sem

mostrar leviandade, sem mostrar sentimentos

que não fossem os da caridade, do amor ao

próximo, do fazer o bem pelo simples prazer que

isso lhe dava.

Chegadas à igreja, dirige o olhar de respeito

pelo Crucifixo, benze-se e senta-se ao lado da

amicíssima amiga que a acompanhava em cada

Domingo de reza. Aos seus olhos Cristo não tinha

a mesma cor, nem carapinha na cabeça — mesmo

desconhecendo que os houvesse de carapinha,

‘Ela’ nunca deixou de acreditar que aquele era o

Jesus de todos os seres vivos, incluindo a “Cobra

Piton a Marabunta Lixada ou mesmo a Hiena

Malvada”.

Olhava e não entendia porque é que Deus era

branco, mas isso não a incomodava; queria que

Ele a protegesse, que reservasse um local para

ela e para toda a sua família e animais amigos,

bem no meio do céu. Na hora da toma da hóstia

fechava os olhos e permitia que o padre, sem

luvas, depositasse o pedaço de pão na sua boca,

simbolizando o corpo de Deus — mas quanto ao

vinho, e havendo homens na igreja, não percebia

porque só o padre bebia o sangue de Cristo.

“Brrrrr que nojo”, arrepiava-se toda, beber

sangue; lá comer o pãozinho sem paladar ainda

não era mau de todo, mas agora sangue? Vampiro!

O Domingo, depois da missa, seria calmo e, na

companhia de outras amigas, daria azo a mais

uns minutinhos de cochicho de menina; depois

tinham que dar à sola, que as donas de casa não

estavam para trabalhar fora de horas.

O tempo correu, a noite chegou e com ela a

entrada da nova semana em que ‘Ela’ iria com

mais amiguinhas fazer a sua primeira comunhão;

estava a ser uma semana complicada, os dias

teimavam em não passar, e ainda por cima cada

um tinha 24 horas — uma maçada.

Nessa semana, de regresso da brincadeira,

apareceram uns meninos a pedir esmola, magros,

maltrapilhos, com cara de fome. Não tinha

dinheiro, era nova, não podia ajudar — elevou os

olhos na noite, olhou para o céu, e não viu todas

as estrelas a brilhar; uma desaparecera, tendo-se

sabido, no dia seguinte, que um menino tinha

morrido. Era pobre, como pobre eram imensos.

Pela primeira vez a dúvida se Deus era justo

envolveu-a, mas na ânsia de fazer a primeira

comunhão, depressa o pensamento voou para a

preparação do acontecimento.

Eis chegado o dia, o novo Domingo, e o bem

vestir que não se faria rogado — nessa manhã

dona Mãe não deu espaço à filha; queria vestir a

sua menina, queria que estivesse linda quando

ajoelhada orasse a Deus. Um vestido de tecido

branco até aos pés, na cabeça véu de renda

bordada amarrado por baixo do queixo em laçada

lassa para não ferir, e nas mãos, Crucifixo e o livro

de Deus.

Nas imediações do Templo, antecedendo o pátio,

algumas crianças negras estendiam as mãos aos

“escolhidos” para mais um banho litúrgico. Nos

rostos desenhava-se o perfil da tristeza, o som

da fome, a cor da miséria — eram o espelho da

Injustiça, mas também e apenas, um número

ainda não especificado — não contavam para os

governantes e não tinham direito a sentar-se à

mesa com Cristo.

Era um quadro que corria em paralelo por outras

partes do mundo, em versões tão originais quanto

a que se podia “apreciar” ali, junto àquela igreja,

situada na capital de um território que, não sendo

livre, era de todos.

Luanda continha, como outras cidades, aquela

obra-prima universal, que não fora pintada por

Neves de Sousa, Dali ou Michelangelo — eram

quadros pintados pela Ignorância daqueles

que votavam crianças, seres humanos, à morte

antecipadamente anunciada.

Sentiu um nó na garganta, o laço a asfixiá-la —

eles tinham a sua cor, e Deus era um branco de

longas e alvas barbas vestido de fino manto,

“unhas arranjadas na cabeleireira do bairro”, e

criara o homem à Sua imagem!

De tenra idade não compreendia o profundo

segredo das escrituras, mas sabia que o Deus

pintado nos quadros, o filho d’Ele pregado na

cruz, nada tinha de semelhante aos meninos

da rua, e sentiu também que nada tinha de

semelhante a si, nem o mero sorriso ou a alegria

— reparou que os deuses estavam sempre com

a cara de zangados, certamente por nunca terem

sido meninos.

— Não é justo!

Não era justo, Deus era injusto, pensou; porque


34 Revista Me n 1

Revista Me n 1 35

CONTA-ME

razão poderia ter um vestido lindo de comunhão

e os outros nem à boca lhes chegava em cada dia

o pão. Eles não podiam rezar o «Pai-nosso que

estais no céu, dai-nos o pão de cada dia», porque

aqueles meninos não tinham dia — só noite.

Sentiu o sabor amargo da palavra «Injustiça»; a

injustiça que teria de acabar, porque pediria a

Deus que fosse amiga dos meninos e justa com

os pobrezinhos. Estes não tinham culpa de não O

conhecer, não falar a Sua, não vestir com Ele.

Entrou decidida na igreja — a confissão, a

homilia. Chegara momento de se dar início à

Consagração do Senhor, mostrar a sua terna e

envergonhada felicidade; ajoelhada rezou a prece,

mostrou que era crente, piedosa, e de uma paixão

que nem o Senhor tinha. De terço na mão, rosário

de contas e crucifixo, murmurou:

— Perdoo-Te, Deus, por teres esquecido os meninos

que ficaram lá fora.

Benzeu-se; tinha antecipado a sua Comunhão.

Naquele ano de 1946 Deus tremeu, sentiu

amargura pela Sua falha, e guardou-lhe um lugar

à Sua mesa.

Não sei se seria este o pensamento dela, se o

partilharia com a sua amiga de peito — sessenta

e quatro anos passaram; nunca a conheci,

não tenho o coração de ‘Ela’, mas sei que não

perdoarei a Deus enquanto não obrigar os

homens a lutarem para que na Páscoa todas as

crianças do mundo possam comer, pelo menos

uma amêndoa que não seja amarga.

ADOLFO CASTELBRANCO OLIVEIRA

NASCEU EM LUANDA EM 1953.

Obras publicadas pela EditaMe:

Era Cândida, a velhota.

POR MIGUEL LEITÃO

Cândida de nome, como a neta, a Candidinha,

criança a quem coubera o papel de a acompanhar

na travessia de mais ou menos metade do

negrume da sua vida. Era cega, não de acidente,

mas de velhice. Ou, talvez, de ter gasto os olhos

em tanto “à jour” e “richelieu” cujos vestígios

ainda permaneciam lá em casa, em coçados

guardanapos e esfiapadas toalhas de linho, ou

no ponto de cruz miudinho com que desenhara

elegantes monogramas, quais flores de anilina ou

carmim a colorir travesseiros, fronhas e dobras

de lençóis, puídos de tanto uso.

Partilhavam, pois, não só o nome, mas também a

noite e a cama. E o quarto, que não era o mesmo

para ambas! Opaco, feito de escuridão e de

trevas, como, aliás, o resto do mundo, para a cega.

Iluminado, vivo e colorido, para a neta. Para a

anciã, o pântano de sofrimento e resignação em

que vivia mergulhada. O canteiro de surpresas

e mistério para a pequena, que tinha artes de

desprender a condescendência da avó para a

deixar remexer à vontade nas arcas enfileiradas

ao fundo, de onde iam saindo roupas usadas,

velhos adereços, objectos curiosos — ninharias

que tinham testemunhado a vivência feliz de

outros e melhores dias.

Duas gerações distintas, convivendo num

presente entretecido de fios de rezas antigas à

margem do catecismo, mas mais próximas do

pensar, do coração e da língua das gentes. Por

isso, portadoras de mais virtude e de mais fé. E

também havia as velhas histórias de entreter,

vindas do fundo da memória e dos tempos,


36 Revista Me n 1

Revista Me n 1 37

CONTA-ME

possivelmente com personagens e lugares

alterados, mas de matriz igualmente verdadeira.

Para além disso, havia a estrela!

— Candidinha, olha ali para a parede, mesmo aos

pés da cama! Não vês uma estrelinha a reluzir, a

faiscar raios de todas as cores? Não vês, minha

filha, como deita chispas lindas e brilhantes?

Repara, olha agora! Tu não enxergas mesmo, ou

queres fazer de mim doida?

Claro que nem com a fulgurância própria da

imaginação infantil, Candidinha via a estrela que,

todas as noites, sensivelmente à mesma hora,

reaparecia no mesmo lugar, na mesma parede,

visitando a senhora idosa, para quem a aparição

luminosa era tão real como o erguer do Sol e

da Lua acima do horizonte o era para as outras

pessoas.

Situação embaraçosa para a pequena, pois era

muito o respeito pela avó, tal como a afeição que

lhe ganhara. E havia a idoneidade e a autoridade

que lhe reconhecia, em virtude do seu perfeito

discernir, dos seus ajuizados conselhos, dos seus

sábios ensinamentos. Por isso, embora sabendo

que era em vão que o fazia, soerguia-se da

cama aos apelos da velhota, esfregava os olhos,

arregalava-os e perscrutava a noite em cata da

dita estrela.

Mas a estrela não estava em lugar nenhum e

todas as noites a cena se repetia antes de a avó

acalmar e, conformada com o teimoso cepticismo

da neta, se decidir a ajudar as almas a sair do

Purgatório com o rosário interminável de orações

em conjunto e, por fim, contentar a criança com

a narração de uma história já dezenas de vezes

contada e ouvida a desoras, em prestações

intermitentes: o serão já ia longo… e os olhos da

miúda iam cedendo ao peso do cansaço e do sono.

E todas as noites a estrelinha era anunciada com

alegria e entusiasmo pela senhora, perante o

constrangimento da criança que, não querendo

contrariá-la, não via forma de conciliar o tino

de que a boa anciã em tudo dava provas com

a loucura daquela estrela, noite após noite a

perturbar a tranquilidade das duas no sossego do

serão e do quarto.

As noites foram passando, preenchendo meses e

anos. Bastantes anos, mesmo. Até que uma vez,

à hora costumada, Candidinha, já adolescente,

foi surpreendida pelo pranto copioso da avó.

Torrentes de lágrimas sofridas, nascidas numa

alma a desfazer-se em mágoa, brotavam em

silêncio daqueles olhos baços e escorriam pelas

rugas fundas do pálido e entristecido rosto, de

expressão amarelada e mortiça, inundando-o.

Tentando auscultar a razão de tal pranto, obteve

apenas como resposta:

— Minha filha, a minha luzinha findou! A bendita

estrelinha ainda não veio hoje ter comigo e diz-me

o coração que nunca mais me virá a aparecer!

Para surpresa da neta, a velhinha não acordou

na manhã do dia seguinte: a sua estrela tinha-se

apagado!

A mais nova, a Candidinha, veio mais tarde a ser

a minha mãe. A mais velha, a Cândida, a bisavó de

que tanto me falavam, mas que nunca conheci.

MIGUEL LEITÃO NASCEU EM 1946 NO

ARCOZELO, CONCELHO DE MOIMENTA

DA BEIRA.

LICENCIOU-SE EM 1975 EM FILOSOFIA,

ÁREA EM QUE EXERCE FUNÇÕES

DOCENTES.

PROFESSOR E CO-AUTOR DE MANUAIS

DE FILOSOFIA E DE PSICOLOGIA,

SEMPRE REPARTIU A SUA ACTIVIDADE

COM A POESIA, TENDO JÁ PARTICIPADO

EM DIVERSAS PUBLICAÇÕES.

NO CAMPO DAS ARTES VISUAIS

DEDICA-SE AO DESENHO E À PINTURA,

CONTANDO JÁ COM VÁRIAS

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS E COLETIVAS.

PUBLICARÁ EM BREVE O LIVRO DE

POESIA “O TEMPO E AS COISAS”

PELA EDITA-ME.

Obras publicadas pela EditaMe:


REPRESENTA-ME

DE ENTRE AS PROPOSTAS QUE NOS CHEGARAM,

FIGURAVA UMA PEÇA DE TEATRO. ASSIM NASCEU A

REPRESENTA-ME, PARA LHE DAR O DEVIDO LUGAR.


40 Revista Me n 1

Revista Me n 1 41

REPRESENTA-ME

Cena 1

(A cena decorre no patamar de um prédio de

apartamentos, numa grande cidade. A manhã vai

alta. Almeida, um jovem na flor da idade, está de

saída para o seu treino (exercício) habitual. De

caminho, chama Garrido, seu vizinho e colega de

curso.)

ALMEIDA (Alto, porte atlético, equipado a

preceito, prime o botão da campainha. Cantarola

enquanto espera. Toca de novo.)

GARRIDO – (Alto e gordo. Resmungando até ao

rodar da chave na fechadura). Ó pá, uma pessoa já

nem pode dormir...!

ALMEIDA – (Incrédulo, lançando o olhar para

o interior da casa do colega e com expressão

enjoada) O quê??? Ainda dormias?

GARRIDO – (Segurando a porta, entreaberta) É

algum crime? Ou é pecado?

ALMEIDA – (Enérgico) Não tínhamos combinado

ir correr, às 11 horas ?

GARRIDO – (Bocejando longamente) Ó pá, deiteime

tarde...

ALMEIDA – (Expressão de desapontamento, dá

uma volta sobre si ) Saíste? Andaste a beber?

GARRIDO – (Esfregando os olhos e o rosto

com ambas as mãos. Mordaz) Não... Foi só um

xaropezinho para dar gás...

ALMEIDA – Gás!? E tu precisas de gás? Mas quem

sou eu para te pregar moral? Anda mas é daí que

o que esta corrida é que te vai dar o gás de que

precisas.

GARRIDO – (Voltando a segurar a porta). Ó pá,

vai sozinho, que está a dar um programa, na

televisão, que eu quero ver.

ALMEIDA – (Metendo o pé, impedindo a porta de

bater) Ah.. Percebo. Tu nem à cama foste. Caíste

no sofá e dormiste depressa...

GARRIDO – Até vires para aqui perder e fazer-me

perder tempo...

ALMEIDA – (Combativo) Achas que esparramado

no sofá a ver televisão às 11 da manhã é que vais

emagrecer?

GARRIDO – Um dia não são dias, pá.

POR ALICE RIOS

ALMEIDA – Não. Tu sabes muito bem que ou levas

o exercício a sério ou não vês os resultados.

GARRIDO – (Gozando) Sério! Isso és tu que dizes.

Cá para mim, desporto leva-se na desportiva.

ALMEIDA – (Argumentativo, lançando o trunfo)

Ok. Se queres continuar a engordar é contigo,

mas depois não venhas queixar-te da indiferença

da Susana. Como queres que ela olhe para ti?

(Voltando as costas): Bem, assim conseguirás

que olhe para ti, mas será um olhar de chacota ou

desprezo.

GARRIDO – (Enfadado, despede o colega): Queres

que te chame o elevador?

(Almeida ignora a provocação e desce as escadas

de dois em dois degraus, sem olhar para trás.)

Cena 2

(A cena decorre no jardim da Praça de Francisco

Sá Carneiro. Almeida observa o neto a dar

voltas ao lago sem pés nos pedais da bicicleta. A

criança cai e é socorrida por um velho que passa

ocasionalmente.)

ALMEIDA – (Correndo para o neto): Já não te

disse, que é pés nos pedais e maõs no guiador,

Rodrigo? (Para o velho) Muito obrigado... Muito

obrigado.

VELHO/GARRIDO – (Condescendente) Deixe lá.

Sabe como são as crianças...

ALMEIDA – (Fixando o velho com expressão

evocativa): Não nos conhecemos? Eu não me


42 Revista Me n 1

Revista Me n 1 43

REPRESENTA-ME

lembro de onde, mas acho que o conheço...

VELHO/GARRIDO – (Semi-cerrando os olhos, com

ar meditativo) Deixe cá ver: Como é que o senhor

se chama?

ALMEIDA – Oh! (Batendo com o indicador na

testa): Já sei. Já me lembro!... “Senhor”... Vamos

agora tratar-nos por “Senhor”...? Eu sou o Almeida

e tu és o Garrido, não és?

GARRIDO – (Reconhecendo o antigo companheiro

de escola) Vamos ali para o banco. O meu coração

pede-me banco.

ALMEIDA – (Acompanhando-o) Ainda bem. Podia

pedir coisa pior.

GARRIDO – (Sentando-se) Aqui, para não

perderes o miúdo de vista.

ALMEIDA – (Esfregando as palmas das maõs uma

na outra) Há quantos anos?

GARRIDO – Pelos vistos, a vida correu-te bem.

Pareces quase meu filho!

ALMEIDA – Não exageres. Mas, de facto, se não

fosse o teu timbre de voz nunca lá chegaria.

GARRIDO – (Com o seu antigo e proverbial

sentido de humor): Esperavas um gordo, tipo

sempre em pé? Sou todo ouvidos.

ALMEIDA – Oh pá, é simples a minha história:

formei-me em Educação Física como já se previa,

fiz um estágio e Doutoramento nos States e depois

foi carreira de professor até ao ano passado.

Agora passeio o neto e dou umas palestras e

conferências de vez em quando para variar.

GARRIDO – Boa vida, hein?! Não admira. Fizeste

por isso. Aliás, estavas programado, oh se estavas.

ALMEIDA – E tu? Tirando essa de que pareces

meu pai...? Também estás reformado?

GARRIDO – (Sacudindo os ombros) Eu não dei a

volta mundo como tu, nem coisa que se pareça.

Foste programado. Portanto a minha vida

conta-se em quatro penadas: abandonei os

estudos, antes dos anos, para casar. Com uma

gordinha como eu, que gostava de mim como

eu era... (Detém-se, uns segundos, a refrear a

comoção).

Empreguei-me no escritório do pai dela, que era

advogado... (Nova pausa)

ALMEIDA – E filhos…?

GARRIDO – Não tive. Fiquei viúvo no mesmo ano

em que casei. E não voltei a casar. Fiel ao amor

daquela gordinha... Foi como se ela tivesse de

morrer para que eu vivesse.

ALMEIDA – (Sensibilizado, perante as revelações

de Garrido) Ó pá, se dói não contes.

GARRIDO – É daquelas coisas que doem e ao

mesmo tempo dão prazer.

ALMEIDA – Conversa cifrada. Não atinjo.

GARRIDO – (Prosseguindo, como se falasse

para si mesmo) Morreu de enfarte, mas no meu

coração, continuo a chamar-lhe gordinha, com a

mesma ternura. Antes bastava um degrau, para

me derrotar, mas a sua partida deu-me coragem

para vencer a escada. (Levantando-se) E agora,

desculpa-me, mas não tenho a tua vida. (Com a

mão direita espalmada no ombro de Almeida, que

também se ergue) Tenho um grupo de miúdos à

minha espera, para uma sessão de treino de Vólei.

ALMEIDA – (Hirto, por momentos, olhos

espetados nas costas do antigo companheiro.

Deixa-se cair no banco, novamente. O neto

chama-o):

CRIANÇA – (Em off) Avô, vamos embora.

Cai o pano

ALICE RIOS NASCEU EM 1951 EM

SANTA MARIA DA FEIRA E VIVE

ACTUALMENTE NO PORTO.

PUBLICOU OS SEUS PRIMEIROS

TEXTOS (CRÓNICAS, POEMAS) NA

DÉCADA DE SETENTA EM DIVERSOS

JORNAIS E REVISTAS.

EM 1987, ASSUMIU FUNÇÕES DE

JORNALISTA, NA REDACÇÃO DO JORNAL

DE NOTÍCIAS, NA SECÇÃO DO GRANDE

PORTO. PARALELAMENTE, ASSINOU A

SECÇÃO DE MODA NA REVISTA NOTÍCIAS

MAGAZINE E COLABOROU COM A

RÁDIO E REVISTAS.

Obras publicadas pela EditaMe:


OPINA-ME

PORQUE É IMPORTANTE A PARTILHA DE TUDO O QUE

GOSTAMOS, AQUI SE FARÁ REFERÊNCIA A OBRAS DE

OUTRAS EDITORAS, PELA OPINIÃO DE CELESTE PEREIRA.


46 Revista Me n 1

Revista Me n 1 47

OPINA-ME

POR CELESTE PEREIRA

Uma vez que se achou adequado que a Revista-me pudesse

ter uma rubrica de comentário, opinião, aconselhamento,

chamada de atenção (chamem-lhe o que quiserem), que

desse a conhecer o que se faz em termos literários, claro, por

esse mundo fora, e que, para vosso infortúnio, me propus

desenvolvê-la, aqui estou a revistar a memória (e os papeis,

sobretudo os papeis) tentando escolher por onde começar.

Escolha difícil, diga-se, perante tantas e tão boas alternativas.

Contudo decidi começar por um autor português. Por um lado,

por ser português, por outro porque considero que irá dar que

falar no panorama literário lusófono.

Aliás, no meu ponto de vista, tem já assegurado um lugar de

destaque.

Trata-se de José Luís Peixoto.

Um escritor ainda muito jovem, nasceu em 1974, que tem

vindo a impor-se com a sua obra em prosa, poesia e teatro, já

bem extensa, mas, sobretudo, de uma qualidade continuada e

confirmada.

Poderia falar com o mesmo fervor de Morreste-me, Nenhum

Olhar, Uma Casa na Escuridão, Cemitério de Pianos. Ou então,

se fosse para a poesia, A Criança em Ruínas, A Casa, a Escuridão,

A Gaveta de Papéis... Mas, uma vez que li há relativamente

pouco tempo a sua última publicação, a qual, ainda por cima,

me foi oferecida por um amigo do peito, aqui vai uma breve

opinião do seu

Livro.

Li-o há uns (poucos) meses. Aliás, pouco depois de publicado

alguém mo ofereceu com honras de dedicatória e tudo. E a

curiosidade foi tanta que o li de imediato.

Absolutamente delicioso! E quando digo delicioso refiro-me

ao gozo que dá saborear um fruto maduro. Foi mesmo essa

a sensação com que fiquei, a de me ter deliciado com algo

suculento e rico.

Neste Livro consegui encontrar a mestria que já conhecia

das suas outras obras associada a uma subtil maturidade

evidenciada na forma como José Luís Peixoto esgrime a

palavra. Esta mestria está patente em todo o livro mas é mais

evidente ainda na sua segunda parte. Aqui, José Luís Peixoto,

num registo um pouco diferente do resto, autenticamente

brinca com a forma e o tempo, proporcionando-nos um trecho

de uma criatividade incrível em que revela um domínio

completo da prosa.

Ao caminhar de mão dada com um punhado de personagens

que me são tão familiares, conheço-as todas, vou vivendo

os seus amores, os seus medos, as suas frustrações, os seus

êxitos, as suas necessidades, a saudade…

Vou crescendo e envelhecendo dentro delas e, ao mesmo

tempo, sem que as sinta truncadas nas suas características

próprias, ou sem que se pressinta qualquer pretensão de

romance histórico, vou revivendo um período que foi também

o meu, o do êxodo de tantos portugueses para outros países.

Para a França, sobretudo, como tão bem aqui é retratado.

Com um denominador comum que é O Livro (o qual acompanha

fisicamente algumas personagens ao longo dos anos e que é por

si só, ao mesmo tempo, personagem, objecto, autor e enredo),

lá nos vemos a braços com a vontade de viver melhor, a fuga a

uma guerra que não é a de ninguém, os amores contrariados, a

negação do obscurantismo, a prepotência do poder, a luta, o

desencaixe social sobretudo de uma segunda geração…

Enfim, revisitei a vida de tantos que eu conheci nos anos

setenta, de tantos que todos conhecemos, revelada aqui de

uma forma, como já disse, belíssima.

A não perder.

CELESTE PEREIRA NASCEU A 19 DE

JUNHO DE 1954 EM CHAVES, ONDE

VIVEU ATÉ AOS 10 ANOS.

FOI ENTÃO QUE VEIO PARA O PORTO,

ONDE ESTUDOU, TIRANDO O CURSO

DO MAGISTÉRIO PRIMÁRIO NO

CONTURBADO ANO DE 1974.

FEZ AINDA UMA BREVE INCURSÃO

PELAS CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO COMO

COMPLEMENTO NECESSÁRIO PARA O

SEU EXERCÍCIO DOCENTE E UMA

LICENCIATURA EM HISTÓRIA PARA

PURO DELEITE PESSOAL.

ESTEVE, NA MAIOR PARTE DA SUA

CARREIRA DE DOCENTE, LIGADA À

GESTÃO ESCOLAR.

Obras publicadas pela EditaMe:


ENTREVISTA-ME

CADA AUTOR É UM SER INDIVIDUAL.

CONHECÊ-LO É TÃO IMPORTANTE COMO

CONHECER AS SUAS OBRAS. EM CADA

EDIÇÃO SERÁ ENTREVISTADO UM AUTOR,

PARA UM POUCO DA PARTILHA DO SEU

SER E DA SUA PRÓPRIA VISÃO SOBRE AS

SUAS OBRAS.


50 Revista Me n 1

Revista Me n 1 51

ENTREVISTA-ME

SENDO A REVISTA-ME O MAIS RECENTE (JOVEM) PROJECTO DA

EDITA-ME, RESOLVEMOS INICIAR ESTE CICLO DE ENTREVISTAS

POR AQUELA QUE É IGUALMENTE A MAIS JOVEM AUTORA POR

NÓS EDITADA.

MARTA NEVES NASCEU EM 1991 NA CIDADE DE LISBOA E DESDE

CEDO SENTIU O ÍMPETO DA ESCRITA.

TENDO TIDO UMA PRIMEIRA ABORDAGEM À ESCRITA DE FUNDO

AOS 12 ANOS, ESCREVE COM ESSA IDADE O SEU PRIMEIRO

ROMANCE, QUE VÊ ADAPTADO A UMA PEÇA DE TEATRO, LEVADA

À CENA PELA TURMA DO 8º ANO QUE ENTÃO FREQUENTAVA, NA

ESCOLA SECUNDÁRIA FILIPA DE VILHENA.

PARA A ETERNIDADE, A SUA PRIMEIRA OBRA EDITADA, FOI

ESCRITA COM APENAS 14 ANOS DE IDADE, TENDO FICADO DO

CONHECIMENTO RESTRITO DE ALGUNS AMIGOS, ATÉ 2009, ALTURA

EM QUE RESOLVE APRESENTÁ-LA PARA PUBLICAÇÃO, OBTENDO

APROVAÇÃO IMEDIATA. EM 2011 É EFECTUADA A 2ª EDIÇÃO.

ACTUALMENTE FREQUENTA O ENSINO SUPERIOR NA ÁREA DE

DIREITO DA FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO.

Edita-Me: Marta, Para a Eternidade é o teu

primeiro livro editado, mas já tens outros

concluídos. Qual pensas ser a verdadeira origem

do teu gosto pela escrita?

Marta Neves: Quando era mais nova, não gostava

muito de escrever. Sentia que escrevia mal,

que não tinha imaginação. Este sentimento de

repulsa pela escrita só mudou verdadeiramente

quando entrei para o ciclo preparatório — no

5º ano conheci uma grande amiga minha, com

quem, a partir de certa altura, comecei a trocar

cartas. Nas cartas escrevíamos sobre elos mágicos

e amizades forjadas em Mundos diferentes…

destas passámos às histórias e, eventualmente, as

histórias transformaram-se em livros.

EDT: Para a Eternidade — que não podemos

esquecer foi escrita quando tinhas apenas 14

anos de idade — é uma obra com quase 400

páginas. Quanto tempo te demorou a planeá-la e a

escrevê-la?

MN: Embora seja um livro bastante grande, não

demorei muito tempo a escrevê-lo. Comecei a

escrevê-lo em Dezembro de 2005, quando andava

no nono ano, e terminei-o por volta do final do

primeiro período do décimo ano.

EDT: Como foi o teu processo criativo? Traçaste

um plano global da obra, que depois seguiste para

o seu desenvolvimento, ou foi surgindo à medida

que ias escrevendo?

MN: Não, não houve plano algum. Na verdade,

tudo começou por ser uma carta que acabou por

constituir o prólogo do Para a Eternidade

— mas, instantaneamente decidi modificá-la

e fazer dela uma história. Não me lembro qual


52 Revista Me n 1

Revista Me n 1 53

ENTREVISTA-ME

era para ser a história original, mas sei que não

envolvia metade das personagens e tinha um

fim bastante diferente. Aliás, o fim do livro só

foi decidido na tarde em que o escrevi. Nunca

tracei um plano, embora, por vezes, anotasse

algumas ideias que queria integrar na narrativa.

Contudo, mesmo essas não foram absolutamente

introduzidas. Por vezes, aquelas já não faziam

sentido. Outras vezes, por muito que eu quisesse

que um personagem agisse de determinada

forma, ele recusava-se a fazê-lo. É uma afirmação

bastante estranha de se fazer, admito. Mas a

verdade é que, não tendo um plano a cumprir,

foram as personagens que me conduziram

ao longo da história. Elas já tinham uma

personalidade bem definida na minha mente,

conhecia-as tão bem como as palmas das minhas

mãos, pelo que me bastava colocá-las num

determinado contexto que sabia exactamente

qual seria a sua reacção.

EDT: Sabemos que olhas para esta obra como

algo “do passado” — o que é compreensível

tomando em consideração que o escreveste há 5

anos atrás. Mas atendendo ao seu êxito, pensas

que deve ser considerada como uma “obra

actual”?

MN: De facto esta obra já foi escrita há algum

tempo e, infelizmente, já não me revejo nela da

mesma forma. Contudo continuo a achar que

tem potencial suficiente para que adolescentes

e pré-adolescentes se identifiquem com ela. É

um período confuso, a adolescência — cheio de

mudanças e emoções fortes. Penso que, para a

maioria dos jovens, é a altura em que finalmente

ganham consciência de algumas amarguras

da vida e, impreparados para lidar com essa

frustração, acabam por se perder um bocado ou

arranjar maneiras alternativas de lidar com a dor.

Penso que é, no fundo, o que a Maria e o Gabriel

(personagens principais do Para a Eternidade)

fazem.

EDT: Já referiste várias vezes que desenvolves

um certo carinho pelas personagens que crias,

ao ponto de não as quereres “abandonar”. Queres

falar-nos um pouco disso?

MN: Sim. Após um contacto tão contínuo e

longo, as personagens acabam por ficar minhas

“amigas”. Conheço-as demasiado bem e crio com

elas tamanha empatia, que não consigo pura e

simplesmente deixá-las presas às páginas de um

romance e avançar para um novo projecto. Senti

isso, especialmente, com o Gabriel — de tal forma

que, consciente ou inconscientemente, o tenho

incorporado em todos os textos que se seguiram.

Por vezes aparece apenas no papel de um

figurino, outras vezes encarna uma personagem

principal — tem, contudo, sempre um nome

diferente e mudo-lhe alguns aspectos físicos e/ou

psicológicos.

EDT: O que mais te agradou neste livro?

MN: Gosto da história — penso que um romance

entre uma rapariga e o seu amigo imaginário é

bastante original. Gosto também do facto de o ter

escrito com catorze anos. Quanto ao formato do

livro, adoro a capa!

EDT: O que menos gostaste?

MN: Não gosto muito do início do livro. Penso

que fica aquém do resto da obra.

EDT: Sendo tu uma escritora desde tenra idade e

atendendo ao facto de haver tão poucos autores

jovens, qual(ais) a(s) recomendação(ões) que dás

a quem pensa em começar a escrever?

MN: Pura e simplesmente, que escrevam.

Aconselho-os vivamente a não escreverem com

o intuito de publicarem, mas antes a escreverem

por gosto. Caso contrário, a ligação com a obra

e com as personagens será muito menor e essa

débil relação é, normalmente, perceptível pelo

leitor.

EDT: Na tua opinião, o que falta para criar um

maior interesse pela literatura (em qualquer uma

das suas vertentes) nas camadas mais jovens?

MN: Acho que com a invasão das novas

tecnologias, os jovens perdem-se muito nessa

enormidade de meios de lazer. Há a TVcabo, a

música, os DVD’s, as Playstations… enfim, a lista

é demasiado extensa para a poder enumerar.

Infelizmente, os livros costumam, hoje em dia,

aparecer no final da mesma. Na minha opinião,

existem três formas de incentivar a leitura nas

camadas mais jovens: primeiro, começarem a

ler desde muito pequenos; segundo, lerem com

regularidade, pois quanto mais lerem, mais

embrenhados ficarão na história; e, por último,

lerem os mesmos livros que os amigos, pois não

há nada mais interessante do que ir discutindo a

história e as personagens à medida que se a lê…

EDT: Uma última palavra?

MN: Sim, às camadas mais jovens: que continuem

a ler e, principalmente, a escrever!

MARTA NEVES NASCEU EM 1991 NA

CIDADE DE LISBOA E DESDE CEDO

SENTIU O ÍMPETO PELA ESCRITA.

PARA A ETERNIDADE, A SUA PRIMEIRA

OBRA EDITADA, FOI ESCRITA COM

APENAS 14 ANOS, TENDO FICADO DO

CONHECIMENTO RESTRITO DE ALGUNS

AMIGOS, ATÉ 2009, ALTURA EM QUE

RESOLVE APRESENTÁ-LA PARA

PUBLICAÇÃO, OBTENDO APROVAÇÃO

IMEDIATA.

ACTUALMENTE FREQUENTA O ENSINO

SUPERIOR NA ÁREA DE DIREITO.

Obras publicadas pela EditaMe:


DESCOBRE-ME

ESTA FOI TALVEZ A PROPOSTA MAIS

“SURPREENDENTE” E INOVADORA. JORGE

PÓPULO SUGERIU CRIAR UMA SECÇÃO

PARA OS “IGNOTOS”. ISTO É, AUTORES AINDA

DESCONHECIDOS, POR NÃO PUBLICADOS,

MAS DOS QUAIS GOSTEMOS DE LER O QUE

PRODUZEM. EM CADA EDIÇÃO, UM

AUTOR ESCOLHERÁ E APRESENTARÁ

UM AUTOR A DESCOBRIR.


56 Revista Me n 1

Revista Me n 1 57

DESCOBRE-ME

Um livro acabou por subir ao céu

Numa noite de céu estrelado

E estando por lá recolheu

Pó de estrelas dourado.

Soprei o pó de estrelas para o chão

Que dormia dentro da história

O livro ganhou vida e ação

Falando-me de aventuras e glória.

E o livro, com esse pó precioso

Fez tinta para no papel impregnar

Ganhou vida e escreveu com gozo

Uma história de embalar

Como escrita já estava

Só a faltava ilustrar.

Neste livro de aventuras povoado

Que bela ilustração feita de ouro

Dando vida própria ao “imprensado”

Como que coroada de louros

*

* Excerto de uma poesia infantil intitulada “Aventuras com livros”

A Agostinha Pópulo nasceu e fez-se jovem num

dos lugares mais especiais do nosso Mundo:

Trás-os-Montes… profundo. Aí aprendeu a ouvir

os regatos imaculados, a ler as montanhas, a

soletrar as penedias, a conversar com as florestas

ondulantes ao vento ou derreadas pelo peso

do gelo e da neve, a respeitar a vida na sua

simplicidade primária, mas principal.

Nela, esta mescla de saber e sentir, tão

espontâneos como o existir, ganham — ou

buscam, sedentos — a consciência, em

palavras sulcadas num qualquer suporte, como

manifestação dos prazeres e alegrias, dos choques

e surpresas, das tristezas, das descobertas, boas

ou más, das grandezas e panóplia de diversidade

dessa mesma vida, no gosto de a absorver,

compreender… dar-lhe nomes.

E como tem um insubmisso “espírito” que é —

por génese e “educação” — imenso, transforma

em quadro de grande expressionismo cada

conceito, cada sentimento, que aborda em verbo.

Não é fácil dar-lhes nomes e não os beijar com

tanta intensidade emocional. Porque a vida é

racional, mas avassaladoramente emotiva. É

assim a Agostinha, em tudo o que toca, em tudo o

que pensa, em tudo o que comunica.

Sempre que a necessidade bate à porta, em

qualquer lugar e a qualquer momento, basta que

tenha à mão um papel, mesmo amarrotado, e

algo que registe, escreve, para conhecer, para se

conhecer, e vai guardando, na gaveta confidente,

o resultado de já muitos encontros com as várias

faces da vida.

Quando abrirá essa gaveta para outros? Só ela o

saberá… Entretanto, lá consegui recolher alguns

dos segredos, alguns dos momentos de catarse,

porque como diz: “…Ao escrever desgasto sempre

um pedaço da minha alma, que transponho

estranhamente para o papel, porque escrevo com

alma.” Assim seja.


58 Revista Me n 1

Revista Me n 1 59

DESCOBRE-ME

AGOSTINHA PÓPULO

Cai o pano no teatro da hipocrisia

Na peça dos actores sociais corrompidos

Saiu de cena a constância e a lisura de carácter

Refugiando-se no camarim do desvirtuamento, aniquilados.

O incauto encenador do savoir faire social

Na sua excêntrica representação do surreal viver

Comanda as marionetas vivas pelo palco fútil da vida

Em demanda do Santo Graal que os aconchegue e acalente

Que nos salve e resgate da vertiginosa sociedade em queda

Dos Alpes do egocentrismo e do ser individual

Que calcinada pelo frio inconsequente do devir

Persiste numa escalada pelas montanhas da subvida

Erigida sobre os cumes do viver tutelado pela utopia.

Oh alma ardente vestida de Abril

De liberdade e democracia engalanada

Sorve os frutos da árdua vitória

Já do aprisionamento alienada.

Vai a trote p´la estrada da vida

Percorre os trilhos do vento alado

Canta exaltada os valores democráticos

Que há muito pareciam suplantados.

Mas eis que se abre o seu peito

Grita, e esbraveja em suave brado

E numa investida ouve-se o canto

Que hibernado estava na colina

Onde se acantonaram as tropas

Sentinelas da vigília da liberdade

Mentes que não dormem e acalentam

A esperança ao arrepiar caminho

Marchando e cantando com alma

Ansiando pelo perfume da liberdade

Sem macularem as flores do jardim

Que emanam valores e princípios

Boicotando a sedução da libertinagem.

Desamarre-se essa inocente gente

Que lutou por uma pátria livre

Estando aprisionada como indigente

Por se haver insurgido contra as torpes leis

Que em causa colocam os filhos da nação

Que agora brindam à vitória dos bravos

Sem que derramassem o seu valioso sangue.

A paz…

É uma das múltiplas facetas

Com que o amor genuíno se pode engalanar.

A paz…

Voa com asas multicolores

Impregnando-se nas cores da pele

Quer seja branca, negra, vermelha, amarela…

A paz…

Vive no âmago de cada canteiro de flores

Que granjeamos no nosso rincão mais soalheiro

E a cada dia uma flor cresce e floresce

Basta fertilizar com fervoroso bem-querer

A paz…

Ela renasce a cada florescer primaveril da alma

Cada vez que colhemos uma flor viçosa

E a esfolhamos ao mundo para que renasça

A paz…

A cada dia é consumida nas piras da sevícia humana

Mas basta-lhe um ténue sopro de mansidão

Para se soerguer das cinzas amortalhadas da pior batalha

Nas asas imortalizadas da Fénix

Para se transplantar, perenemente, para o canteiro de cada um


AVENTURA-ME

COMO NÃO PODIA DEIXAR DE SER, TERIA

DE EXISTIR UMA ÁREA INFANTIL NA

NOSSA REVISTA. PEDRO BRANCO (PROFESSOR

DO ENSINO BÁSICO) TOMA AS RÉDEAS

DESTA ÁREA, COM UMA PROPOSTA TRIPARTIDA,

ENVOLVENDO CRIANÇAS (ALUNOS), PAIS

E PROFESSORES. ESTA ÁREA SERÁ AINDA

COMPLEMENTADA COM CONTOS PRODUZIDOS

POR OUTROS AUTORES.


62 Revista Me n 1

Revista Me n 1 63

AVENTURA-ME

MENINAS E MENINOS!

SENHORAS E SENHORES!

PROFESSORAS E PROFESSORES!

MÃES E PAIS!

INICIAMOS AGORA UMA NOVA AVENTURA!

PODIA SER AVENTURA-ME?

PODER, PODIA, MAS NÃO SABEMOS SE SERIA

A MESMA COISA...

EIS, ENTÃO, O PRIMEIRO DESAFIO:

QUAL O NOME A DAR A ESTE VOSSO ESPAÇO?

E O QUE VAI APARECER NESTE ESPAÇO?

BASICAMENTE... O QUE QUISERMOS.

EM PRIMEIRO LUGAR, LEMBRÁMO-NOS DE

DIVIDIR ESTA SECÇÃO EM TRÊS PARTES:

UMA PARTE PARA CRIANÇAS, ONDE

SURGIRÃO HISTÓRIAS, DESAFIOS,

PROPOSTAS, JOGOS, ETC.

UMA PARTE PARA PROFESSORES, ONDE

APRESENTAREMOS UM PEQUENO TEXTO

MOTIVADOR DE UMA REFLEXÃO PEDAGÓGICA.

UMA PARTE PARA PAIS, ONDE

PARTILHAREMOS SEMPRE UM TEXTO DE

OPINIÃO OU UM RELATO DE ALGUMA SITUAÇÃO

QUE NOS PAREÇA INTERESSANTE.

POR PEDRO BRANCO


64 Revista Me n 1

Revista Me n 1 65

AVENTURA-ME CRIANÇAS

Juvenal era um senhor muito magrinho, mas

não tão magrinho que pudesse ser considerado

doente ou com algum problema. Era só magrinho

e mais nada. Vivia perto de um jardim onde todas

as tardes costumavam brincar os meninos de

uma escola ali próxima. Por isso, e como gostava

muito de crianças, Juvenal adorava passar pelo

jardim para observar as brincadeiras e quebrar o

silêncio da sua vida com as risotas e gargalhadas

e confusões próprias daquelas idades. É que

Juvenal vivia sozinho...

Um dia, estava ele como de costume sentado num

dos bancos bem tratados do jardim, e uma criança

veio ter com ele.

— Olá. — Disse-lhe, sorridente.

— Olá. — Respondeu-lhe o Juvenal, um pouco

atrapalhado.

— Sabes contar histórias? — Perguntou-lhe.

— Sei. Eu sou contador de histórias...

— És?!!! Martim! Vasco! Catarina! — Chamou.

— Este senhor é um contador de histórias!

Nesse momento todas as crianças que brincavam

livremente pelos vários recantos do jardim

desataram a correr em direção ao senhor Juvenal,

sentando-se à sua frente, como que esperando

que ele começasse a contar uma história.

— Já não conto histórias há muito tempo...

— Disse, meio envergonhado. — Estou reformado

desde o ano passado.

— Não faz mal, senhor. — Insistiu logo o Pedro,

um garoto assim meio gordinho, cujos cabelos

estavam sempre em pé.

— Eu posso tentar... — Sugeriu a medo o senhor

Juvenal.

— Conta! Conta! Conta! — Gritavam as crianças.

— Sim, eu conto.

E começou a contar uma história aos meninos,

que o ouviam tão atentamente como se

estivessem a ver nos seus olhos o que se passava.

E agora? Qual será a história do senhor Juvenal?

ESPERAMOS AS TUAS SUGESTÕES PARA

revista-me@edita-me.pt E DEPOIS, NOS

PRÓXIMOS NÚMEROS, APRESENTAREMOS AS

TUAS HISTÓRIAS, TRABALHADAS PELO

PEDRO BRANCO.


66 Revista Me n 1

Revista Me n 1 67

AVENTURA-ME PROFESSORES

Quando andava na escola primária escrevia os

textos que a minha professora pedia. E apenas

esses e só nos tempos em que me era permitido.

E unicamente para ela. Não me foram dadas

oportunidades de variar os temas ou de escrever

sobre assuntos que desejava. Por isso, nos meus

primeiros anos de escolaridade, eu fui um

guarda-chuva, a Primavera, Presidente da

República... E sempre a seguir às férias tinha

de escrever sobre elas... E perto dos feriados

tinha que escrever sobre o que é que eles (não)

representavam para mim...

Mas pior ainda: a minha professora (que eu

adorava), sublinhava a vermelho as palavras mal

escritas e depois eu tinha que as copiar muitas

vezes!

E foi assim que eu aprendi a escrever...

Hoje, com os meus alunos, penso muitas

vezes nisto. De como a minha professora não

me ensinou a desenvolver uma história ou a

descrever melhor uma paisagem ou a ligar

um parágrafo a outro, porque só me corrigia a

ortografia. De como os meus textos não serviam

para nada porque apenas ela os lia. E assim

percebo porque, aos fins-de-semana, me reunia

com a minha prima e mais uns colegas de escola

para juntos escrevermos outros textos, os lermos

uns para os outros, os melhorarmos (e não só

a ortografia), os ilustrarmos, os escolhermos e

com eles montarmos uma revista literária que

fotocopiávamos com as nossas economias e

depois vendíamos às nossas famílias e amigos!

Não me lembro se alguma vez a minha professora

soube disso...

Escrever devia ser um ato de comunicação!

As escolas devem permitir que os alunos

desenvolvam as suas competências de escrita

através da criação de estruturas e dinâmicas

que permitam aos alunos a partilha e o trabalho

conjunto das suas produções! Porque só

aprendemos a escrever escrevendo. Corrigir erros

ortográficos não é escrever.

Apresento agora uma sugestão de trabalho, que

muito tem contribuído para que os meus alunos

— todos eles — gostem de escrever, apesar de,

como é natural, uns o façam mais facilmente

que outros, uns o façam melhor que outros, etc.:

Arranjar um ou dois tempos por semana (curtos),

em que os alunos são convidados a ler para a

turma os seus textos. Depois, a seguir a cada

leitura, deixar que os colegas façam comentários

sobre o que leram. Os comentários ajudam a que

o autor do texto possa ter uma maior consciência

do trabalho que realizou, bem como dos aspetos

que podem ser melhorados.

Deixo então esta minha inquietação, na esperança

que possamos iniciar um diálogo escrito através

da Revista-Me e desta forma podermos contribuir

para o desenvolvimento cada vez mais global

das competências e gosto pela escrita dos nossos

alunos.


68 Revista Me n 1

Revista Me n 1 69

AVENTURA-ME PAIS

SEGUIDAMENTE APRESENTAMOS UM PEQUENO RELATO DE UM

EPISÓDIO IMAGINÁRIO, MAS ONDE EXISTEM SITUAÇÕES QUE, NO NOSSO

ENTENDER, NÃO ESTÃO MUITO BEM. DEPOIS, REESCREVEREMOS

O MESMO EPISÓDIO, APRESENTANDO ESSAS MESMAS SITUAÇÕES

DE UMA OUTRA FORMA. TENCIONAMOS, COM ESTAS DIFERENÇAS,

SUSCITA R N O S PA I S LEITORES A REFLEXÃO SOBRE ELAS.

Estava bom tempo e era sábado. O meu filho de 8 anos

encontrava-se em frente à televisão, à espera que lhe fizesse

o pequeno-almoço. Costumo acordar mais tarde aos sábados...

Infelizmente, ele não. Assim que me levantei, zanguei-me

com ele porque acho que não se deve ir logo para a frente da

televisão quando acordamos. Fui preparar-lhe uma pratada de

cereais e levei-lha num tabuleiro. Depois, sossegado, sentei-

-me na cozinha a comer uma torrada e a beber um chá. Íamos

passear ao Shopping, que é uma atividade que o meu filho

gosta muito de fazer. Eu sou um bom pai e gosto de o agradar,

fazendo o que ele gosta e que normalmente não conseguimos

fazer durante as apressadas semanas cheias de atividades!

Estava bom tempo e era sábado. O meu filho de 8 anos já se

tinha levantado e já preparara o seu pequeno-almoço. Estava

na cozinha à frente da sua pratada de cereais, que comia

serenamente. Costumo acordar mais tarde aos sábados... Assim

que me levantei, cumprimentei-o e dei-lhe um beijo. Disse-lhe

que estava muito contente porque ele tinha cumprido a regra

que impuséramos um ao outro de não ir logo para a frente da

televisão quando acordamos. Sentei-me ao seu lado a comer

uma torrada e a beber um chá. Tínhamos combinado que hoje

não iríamos ao Shopping, que é uma atividade que o meu filho

gosta muito de fazer; íamos dar um passeio à beira-mar, para

ouvir o barulho das ondas e sentir o fresquinho matinal. Eu

sou um bom pai e gosto de lhe proporcionar experiências

diferentes daquelas que normalmente se fazem durante as

apressadas semanas cheias de atividades!

PEDRO BRANCO NASCEU EM

PARIS EM 1965.

PROFESSOR DO 1º CICLO,

DESENVOLVE TAMBÉM A SUA

ACTIVIDADE NO CAMPO DA

MÚSICA, TEATRO E POESIA.

Obras publicadas pela EditaMe:


70 Revista Me n 1

Revista Me n 1 71

AVENTURA-ME CONTOS

Quando a professora entrou na sala de aula já os

seus alunos estavam sentados nas suas cadeiras e

todos eles disseram:

— Bom dia, Senhora professora!

A professora respondeu-lhes também bom dia

e começou a escrever no quadro o sumário para

esse dia.

Ficaram todos admirados pois era dia de ditado.

Começaram a guardar tudo nas mochilas, ficando

apenas com duas folhas de papel de linhas, um

lápis afiado e uma borracha branca, em cima das

suas mesas.

— Vou ler-vos o texto duas vezes — disse a

professora — uma vez um pouco devagar, para

terem tempo de o escrever e, depois, leio uma

segunda vez mas mais depressa, apenas para

corrigirem uma ou outra palavra. Estão todos

prontos?

— Sim, senhora professora! — responderam os

meninos e meninas.

A professora começou a ditar o texto e todas as

crianças estavam muito atentas a escrever. Na

sala só se ouvia a voz da professora e o barulho

dos lápis.

Quando o texto já ia quase no segundo parágrafo,

o Pedro notou algo estranho na sua folha. Ele

gostava muito do dia de ditados, pois raramente

dava erros e tinha sempre uma boa nota. Mas

algo se passava, pois a maioria das palavras que

já tinha escrito, tinham espaços em branco. Ao

observar melhor, viu que todos os “o’s” tinham

desaparecido.

Ainda mais estranho, era o facto de os “o’s”

estarem todos a saltitar por cima da sua folha,

mais pareciam bolas de básquete. O que fazer?

(pensou ele). E decidiu que o melhor era

continuar a escrever o ditado ou então iria

perder-se no texto e, no final, quando a professora

voltasse a ditar, tornava a preencher os espaços

em branco com a letra “o”.

À medida que escrevia, cada vez mais ”o’s”

pulavam alegremente por cima da sua folha, mas

ele não ficou nervoso e continuou a ouvir o texto

e a escrever.

Terminada a leitura, a professora disse que

agora o iria tornar a ler mas mais depressa.

Assim, deveriam estar todos muito atentos para

poderem corrigir algumas palavras.

O Pedro, como sabia que não tinha nenhum

erro, estava mais preocupado em escrever

novamente todos os “o’s”. Mas não é que eles não

ficavam quietos na folha? Mal ele os escrevia eles

começavam logo a pular.

De repente, olhando para a sua borracha branca,

teve uma ideia. Voltou a escrever os “o’s” mas,

logo de seguida, com a sua borracha apagava

a parte de cima da letra, para que já não se

parecessem com uma bola. E não é que resultou?

A letra “o” já não saiu do seu lugar e as palavras

estavam agora completas.

— Meninos e meninas — disse a professora — agora

escrevam no final do texto os vossos nomes, que eu vou

passar pelas carteiras e recolher os ditados. O Pedro escreveu

rapidamente o seu nome, pois a professora estava quase a

chegar ao seu lugar.

Alguns dias depois, no início da aula, a professora disse

que já tinha os ditados corrigidos e iria chamar, por ordem

alfabética, todos os alunos para lhes entregar os trabalhos.

O Pedro estava um pouco nervoso, pois não sabia o que a

professora iria pensar dos seus “o’s” incompletos, sem a parte

de cima. Além do mais, iria ser quase dos últimos.

Quando chegou a sua vez de ir à secretária da professora, esta

disse-lhe:

— Pedro, dei-te uma boa nota pois não deste nenhum erro,

mas não sei o que se passa com a tua letra, principalmente

com a letra “o” que me parece algo estranha.

O Pedro encolheu os ombros, a pensar que se contasse a

história ninguém iria acreditar nele, quando a Professora

o voltou a chamar: Também te esqueceste de escrever o

teu nome completo, pois faltou a letra “o”. Nisto, o Pedro

respondeu sem sequer pensar:

— Pois foi, senhora professora, eu escrevi P e d r o mas o “o”

deve ter pulado tão depressa da folha, que eu nem reparei.

De imediato, todas as crianças da sua turma desataram a rir

às gargalhadas e até a professora não conseguiu deixar de

esboçar um sorriso.

SARA MAIA PRATA NASCEU EM

1964 NA CIDADE DO PORTO.

DESDE A ADOLESCÊNCIA QUE FOI

DESENVOLVENDO O GOSTO PELA

LEITURA E ALIMENTOU O DESEJO

DE UM DIA ESCREVER UM ROMANCE.

APÓS O CASAMENTO E COM DOIS

FILHOS RAPAZES, DECIDIU ESCREVER

EM 2010 O SEU PRIMEIRO LIVRO DE

CONTOS INFANTIS, PUBLICADO

PELA EDITA-ME.

Obras publicadas pela EditaMe:


ILUSTRA-ME

VÁRIAS OBRAS NOSSAS SÃO ILUSTRADAS. NESTA ÁREA

SÃO APRESENTADAS, PELA MÃO DE MIGUEL MINISTRO,

ILUSTRAÇÕES QUE POVOAM OS NOSSOS LIVROS.


74 Revista Me n 1

Revista Me n 1 75

ILUSTRA-ME

POR MIGUEL MINISTRO


76 Revista Me n 1

Revista Me n 1 77

ILUSTRA-ME


78 Revista Me n 1

Revista Me n 1 79

ILUSTRA-ME

AS ILUSTRAÇÕES PRESENTES NESTA SECÇÃO

REPRESENTAM UMA SELECÇÃO RECOLHIDA

DO LIVRO LADO B DE RAQUEL BRANCO,

PUBLICADO PELA EDITA-ME.

MIGUEL MINISTRO NASCEU EM

LISBOA NO ANO DE 1985.

É LICENCIADO EM DESIGN DE

COMUNICAÇÃO PELA ESAD DE

MATOSINHOS.

COLABORA COM A EDITA-ME

COMO ILUSTRADOR E DESIGNER.

Obras publicadas pela EditaMe:


CONVIDA-ME

SENDO ESTA REVISTA DE CONTEÚDOS

EXCLUSIVOS DE AUTORES E COLABORADORES

DA EDITA-ME, ENTENDEMOS COMO

IMPORTANTE DAR VOZ A UM “OUTSIDER”.

ASSIM, EM CADA EDIÇÃO, SERÁ FORMULADO

UM CONVITE A ALGUÉM QUE, NÃO TENDO

SIDO EDITADO PELA EDITA-ME, SEJA DE

RECONHECIDO VALOR PARA NÓS.


82 Revista Me n 1

Revista Me n 1 83

CONVIDA-ME

AO LONGO DOS ANOS, O KIWI ALIMENTOU A IDEIA DE QUE

É SOBERANO, E DEFINIDOR, DO CAMINHO DOS OUTROS

FRUTOS. E O PIOR É QUE TODA A GENTE TOMA ISSO POR

ADQUIRIDO. NÃO TARDA MUITO FAZ COMENTÁRIOS NA

TELEVISÃO, TRAÇA OS CAMINHOS DA FRUTEIRA, E NE-

GOCEIA TRATADOS COM OS VEGETAIS E OS PEIXINHOS.

POR GIL NUNES

Passeio no centro comercial. Nada de

especial se passa, infelizmente, o que agrava

compulsivamente o meu grau de tédio. Nem os

descontos das lojas de pronto-a-vestir activam

a minha costela feminina, e me põem a preferir

o blazer “x” em vez do pólo “y”. Sou um eterno

cidadão acabado de sair do cinema e das pipocas.

Ao longo dos anos, o processo de adequação

das pipocas à modernidade ajustou-se à

globalização. E bem. Do saquinho de plástico feito

mortadela à embalagem de cartão revestida em

colesterol, hoje a pipoca é cinematograficamente

cosmopolita. Rompeu o sectarismo da sua

geração: a pipoca já não é a birra do menino

chorão no meio da rua(de que infelizmente o

algodão doce nunca se libertou). Hoje até a avó

come pipocas no cinema, e ajusta os seus óculos 3

“D” no filme de ficção científica.

A pipoca não é problema. Mas ainda os há,

infelizmente. Os kiwis, por exemplo. Enganam-se

todos aqueles que dizem que o kiwi, sendo um

fruto, tem exactamente a mesma função social

desde o tempo das cavernas até à era tecnológica.

Não. O kiwi é o principal aniquilador de sonhos e

objectivos de gerações.

Passeio no centro comercial. Ficou uma questão

por explicar. Sento-me num dos bancos comuns,

e peço uma salada de frutas num restaurante

ao acaso. Vem feia. Como é costume, os kiwis

pontificam no topo da taça, o que transforma

a salada numa “comandada de frutas”. Mesmo

na inconsciência, todos estamos comandados a

colocar o kiwi em posição preferencial. Depois,

também inconscientemente, misturamos a

“comandada de frutas” com vigor. Estando o kiwi

em posição dominante, tudo o resto vai saber a

kiwi, nem que seja um bocadinho. Ainda por cima

trata-se de um fruto “verde”, o que vai contra

todos os postulados inerentes à comestibilidade

dos restantes frutos que, sem excepção, evoluem

do estado “verde” para o “maduro”(não verde,

portanto).

A questão impõe-se. Mas afinal o que fez o

kiwi para adquirir semelhante estatuto? Será

que é essencial? Recuemos até a sua génese.

Analisemos. Encontremos explicações.


84 Revista Me n 1

Revista Me n 1 85

CONVIDA-ME

O kiwi é originário do sul da China. Das

montanhas do sul da China, melhor dizendo.

Reparem, à partida, como não existe nenhum

som “ing” ou “eng” na sua escrita. É suspeito.

Mais para mais, vem da China, um país onde há

muitas dúvidas para esclarecer. Pode ter veneno

lá dentro. Ou droga. Boa peça não é com certeza.

Imagino a sua génese.

“A adorável Sra. Ping morava num adorável

palácio, numa adorável montanha onde o adorável

sol batia pela manhã. E a Sra. Ping também era

adorável: para além de jovem e simpática, tinha

um corpo escultural, até estranho para uma

chinesa.

A Sra. Ping era uma mulher de rotinas. Todos os

finais de tarde, após um passeio pelas montanhas,

aparecia no palácio a comer uma sarapintola.

Era um fruto semelhante a uma garrafa, mas

mais pequenino. Era muito maduro, tinha muitas

cores, e era muito saboroso e sumarento. Como era

bonito vê-la a comer a sarapintola, e a partilha-la

com a mordomia.

A Sra. Ping tinha um senhor que queria casar

com ela. Era o Sr. Cheng. O Sr. Cheng enviava-lhe

flores, mas nada; enviava-lhe românticas cartas

de amor, mas ainda todas para a fogueira; aos

trovadores respondia com janelas fechadas. O Sr.

Cheng mandou investigar, e descobriu aquilo que

realmente fazia o coração da Sra. Ping saltitar: a

sarapintola.

Posto isto, o Sr. Cheng pediu ao seu criado Liu, que

caminhasse montanha fora até descobrir a mais

bela das sarapintolas. E Liu foi. Caminhou pelas

montanhas, atravessou rios, desertos, lutou contra

monstros, sobreviveu a tempestades. Até que

encontrou um velho sábio. O velho sábio disse-lhe:

não busques mais, vou-te dar a semente da

sarapintola. Deixa que a terra faça o seu trabalho”.

E Liu caminhou pelas montanhas, atravessou

rios, desertos, lutou contra monstros, sobreviveu

a tempestades. Mas trouxe a semente intacta.

Plantou-a com muito cuidadinho junto à casa do

Sr. Cheng, e regou a sarapintoleira com muito

amor e carinho.

Só que havia um problema: Liu não era muito

esperto. Por isso, esqueceu-se de plantar a

sarapintoleira numa posição em que apanhasse

sol todos os dias. E por isso, a sarapintoleira

ficou verde e azeda. O Sr. Cheng, muito chateado,

perguntou:

“Liu, o que é isto?”

O Liu, que não era muito esperto, mas tinha um

bom poder de argumentação, desenrascou-se bem.

“Isto, senhor, é uma supersarapintola. Foi-me dada

por um velho da montanha. É o chamado fruto dos

deuses”.

O Sr. Cheng, mais ou menos convencido, pegou

num cesto de supersarapintolas, e ofereceu-o de

presente à Sra. Ping. A Sra. Ping, com as papilas

gustativas enjoadas de tanta sarapintola diária,

adorou o presente, e deleitou-se com as

supersarapintolas.

— Que gentil sois, Sr. Cheng. Que fruto esplêndido.

Vou-lhe chamar “kiwi”, que no ancestral ancestral

chinês queria dizer “alimento dos deuses”

E o Sr. Cheng e a Sr. Ping viveram felizes para

sempre.”

Para além da sua génese alienada, o kiwi é um

fruto que se conseguiu impregnar nos diversos

estatutos sociais. Tão vulgar é ver um kiwi num

cocktail empresarial , como a ser devorado

pelas mãos pegajentas de um arrumador de

automóveis. Não vemos isso noutros frutos, por

exemplo. Banana é de puto; maçã é de velhote; e

só as tartarugas é que comem peras.

Ao longo dos anos, o kiwi alimentou a ideia

de que é soberano, e definidor, do caminho

dos outros frutos. E o pior é que toda a gente

toma isso por adquirido. Não tarda muito faz

comentários na televisão, traça os caminhos da

fruteira, e negoceia tratados com os vegetais e os

peixinhos. Depois há os kiwis mais verdes. E os

menos verdes. E cada um toma as suas decisões

na senda do domínio político da fruteira. Isto

porque os outros frutos, que têm caroços em

vez de cérebros, elegeram o kiwi como seu líder

natural.

Terminei a minha salada de frutas. Não a que pedi

no início, mas outra muito parecida.

“Sou alérgico a kiwis. Pode-me arrancar uma sem

kiwis, se faz favor?”

E fiquei bem alimentadinho e refrescadinho. De

tal forma que saí com o blazer “x” na mão. Ainda

hoje o visto.

GIL MOREIRA NUNES NASCEU EM 1981

EM VILA NOVA DE GAIA.

AOS 19 ANOS DEDICOU-SE ÀS LETRAS.

COMEÇOU A CARREIRA DE JORNALISTA

NO EXTINTO JORNAL O COMÉRCIO

DE GAIA.

AOS 22 ANOS INTEGROU A EQUIPA DO

PROJECTO GAIA GLOBAL, NO ÂMBITO

DA CRIAÇÃO DE UMA CIDADE DIGITAL

PARA O CONCELHO.

AOS 24 ANOS, TRANSITOU PARA A

CÂMARA MUNICIPAL DE GAIA. FOI

REDACTOR DOS SÍTIOS OFICIAIS DA

AUTARQUIA E EMPRESAS MUNICIPAIS ,

TENDO, HÁ CERCA DE UM ANO,

TRANSITADO PARA O LUGAR DE

SUBDIRECTOR DE INFORMAÇÃO DA

AUTARQUIA.

COLABORA COM DIVERSOS JORNAIS.

TEM TAMBÉM VÁRIOS LIVROS

DE CONTOS PUBLICADOS.

ESTE ANO DECIDIU AVANÇAR PARA O

SEU PRIMEIRO ROMANCE, OS PENSOS

DE FÍGARO A SAIR BREVEMENTE,

PELA EDITA-ME.


COMPÕE-ME

A MÚSICA É UM ELEMENTO FUNDAMENTAL

NA VIDA DA EDITA-ME. COMO TAL, PENSÁMOS

QUE FARIA SENTIDO UMA SECÇÃO DESTINADA

A ELA. PEDRO LOPES, MÚSICO RESIDENTE DA

EDITORA, É QUEM ASSINA ESTA RUBRICA.


88 Revista Me n 1

Revista Me n 1 89

COMPÕE-ME

NOS DIAS 21 E 22 DE MARÇO, ROGER WATERS SUBIU AO PALCO

DO PAVILHÃO ATLÂNTICO, PARA INAUGURAR A TURNÉ HISTÓRI-

CA COMEMORATIVA DO 31.º ANIVERSÁRIO DO THE WALL. EDI-

TADO EM 1979, THE WALL CONTINUA MAIS ACTUAL QUE NUNCA!

O concerto teve início com uma indescritível

abertura com In the Flesh 1 e Thin Ice, onde os

efeitos sonoros, visuais e pirotécnicos superaram

as expectativas dos mais exigentes, salientando

um Stuka, bombardeiro alemão da II Guerra

que cruzou o céu do Pavilhão Atlântico para ir

embater no muro, derrubando parte do mesmo

numa estrondosa explosão.

Com o público ainda completamente atónito

com o que acabara de ver, Roger continuou a

surpreender com a interpretação de Another

Brick in The Wall Part 1 e 2, com a participação

do Coro de Crianças da Cova da Moura,

contracenando com o seu lendário insuflável que

tão bem caracteriza o “teacher”.

A conjugação da incomparável qualidade de som

surround a que Roger Waters já nos habituou,

com as projecções 3D, aliados à grandeza do

palco, fazem com que o público sinta que está a

viver um verdadeiro sonho, acordando de vez em

POR PEDRO LOPES

quando para aplaudir e cantar em coro Another

Brick in the Wall, Confortably Numb, In the Flesh e

Run Like Hell.

Ao longo da primeira parte, o gigantesco muro

foi sendo construído em palco, ocultando cada

vez mais os músicos, ficando completamente

escondidos em Hey You, transformando-se numa

tela gigante para projecções e parecia mover-se,

desmoronar-se e tomar várias formas, até ser

destuído no final do concerto.

No iníco da segunda parte, como se de um acto de

magia se tratasse, os músicos aparecem na parte

da frente do muro, para alguns temas depois,

voltarem a desaparecer!

Estiveram presentes todas as figuras de The

Wall, entre as quais o emblemático porco que

sobrevoou o Pavilhão Atlântico durante In the

Flesh 2.


90 Revista Me n 1

Revista Me n 1 91

COMPÕE-ME

Com o público ao rubro, Roger não se cansou de

agradecer e de dizer: “You’ve been fantastic, I

could not be a happier ombre”.

Através do seu site oficial, o músico dos Pink

Floyd, convida todos os que perderam um

familiar numa guerra a partilharem com ele

detalhes e fotografias, o que culminou numa

grandiosa projecção de homenagem no intervalo

do espectáculo. Entre os homenageados está o pai

do músico que perdeu a vida durante a 2ª Guerra

Mundial.

“Faço este pedido porque acredito que muitas

destas trágicas mortes podiam ser evitadas.

Sinto-me solidário com todas as famílias das

vítimas e revoltado com os que estão no poder

porque são também responsáveis por estas mortes.

Por favor, juntem-se a mim para honrar e protestar

contra as suas mortes”.

É um espectáculo repleto de efeitos especiais e

pormenores teatrais reajustados ao avanço da

tecnologia, a que o músico não se recusou de usar

e abusar.

A turné europeia The Wall, que comemora o 31.º

aniversário do lendário álbum dos Pink Floyd,

começou em Lisboa a 21 e 22 de Março de 2011.

Em apenas um mês venderam-se 20 000 bilhetes

para estes espectáculos, tendo a primeira data

esgotado em apenas três semanas.

Este espectáculo histórico vai passar por 25

cidades, num total de 30 concertos.

O álbum The Wall foi o mais vendido em 1980,

nos Estados Unidos, e mantém-se até hoje entre

os cinco álbuns mais vendidos de sempre.

PRIMEIRA PARTE

In The Flesh 1

Thin Ice

Another Brick In The Wall, Pt. 1

Happiest Days Of Our Lives

Another Brick In The Wall, Pt. 2

Mother

Goodbye Blue Sky

Empty Spaces

What Shall We Do Now?

Young Lust

One Of My Turns

Don’t Leave Me Now

Another Brick In The Wall, Pt. 3

Last Few Bricks

Goodbye Cruel World

SEGUNDA PARTE

Hey You

Is There Anybody Out There?

Nobody Home

Vera

Bring The Boys Back Home

Comfortably Numb

Show Must Go On

In The Flesh 2

Run Like Hell

Waiting For The Worms

Stop

Trial

Outside The Wall

PEDRO LOPES NASCEU EM 1975

NO PORTO, ONDE EFECTUOU OS SEUS

ESTUDOS MUSICAIS.

TENDO-SE TORNADO PIANISTA E

EXERCIDO ESTA ACTIVIDADE EM

DIVERSOS LOCAIS DE EXCELÊNCIA,

NÃO DEIXOU NUNCA DE ACEDER

AOS PROJECTOS QUE LHE FORAM

SENDO APRESENTADOS.

TENDO JÁ ABRAÇADO DIVERSAS

VERTENTES NA MÚSICA, FOI EM 2009

FUNDADOR DA 575 BAND, ONDE

DESEMPENHA AS FUNÇÕES DE

“TECLADOS” E PRODUÇÃO MUSICAL.


INVENTA-ME

O MUNDO DO FANTÁSTICO, NAS SUAS VÁRIAS

VERTENTES, É DE UMA RIQUEZA EXTREMA,

DANDO-NOS OPORTUNIDADE DE SONHAR E DE

INVENTAR DE UMA FORMA ÍMPAR. ESTA SECÇÃO

FOI CRIADA A PENSAR NOS MÚLTIPLOS AUTORES

EXISTENTES E SEM VOZ DESTE MUNDO.


94

Revista Me n 1

INVENTA-ME

POR SUSANA C. FONSECA

A toalha vermelha cobria a mesa de jantar.

Lembro-me, como se fosse hoje, do momento em

que a feiticeira dos olhos cinzentos se levantou

do cadeirão para anunciar a sua mais recente

descoberta. Nenhuma de nós tinha terminado a

refeição e os copos de vinho continuavam a ser

constantemente servidos na esperança vã de nos

saciar a sede infinita.

“Tenho que vos contar o que descobri!”

Quando ela se levantou, reparei que a sua face,

habitualmente lívida e quase sem cor definida,

estava ruborizada de excitação.

Normalmente, só partilhávamos os mais

recentes feitiços depois de todas as iguarias

serem consumidas, pois não era todos os dias

que nos deliciávamos com o distinto menu de

produtos gourmet que a feiticeira estafeta tinha

ido buscar ao mais recente take-away da floresta

discreta. Iniciámos a refeição com umas entradas

de espetadinhas de olhos de peixe e os pratos

principais constaram de bacalhau com unhas

trituradas e empadão de cadáver de morcego

coberto com massa folhada. As sobremesas

continuavam à frente dos nossos olhos, prontas

para serem devoradas pelas nossas bocas:

brigadeiros de terra de túmulo e toucinho do

inferno. Quanto à bebida, naquele ano tivemos

que nos contentar com o vinho, já que sangue

de moças virgens dava muito trabalho para

encontrar.

Foi assim, perante aquela inusitada anunciação

de uma recente descoberta, que todos os nossos

olhos verdes fitaram com atenção a feiticeira dos

olhos cinzentos.

“Descobri que é possível atravessar a dimensão

do tempo e levarmos as nossas vassouras até ao

passado mais longínquo!”

“Desde que não acabemos na fogueira, nos

tempos da inquisição a servir de churrasco!”

Disse a feiticeira mais nova com ar desafiador.

“Isso não me parece pertinente agora. A questão

é: como é que é possível atravessar a dimensão

do tempo? Já ouvi falar em várias tentativas

falhadas e as únicas conseguidas estão descritas

nos livros de ficção científica, ou seja, fazem

parte da imaginação dos Humanos, que como

todas sabemos, é muito fértil nesse tipo de

ambições!” Argumentou a feiticeira bibliotecária

com aspirações a um lugar de historiadora na

Universidade onde exercia funções.

“É possível e eu posso prová-lo a todas, nesta

mesma sala, daqui a três dias, que como sabem

será noite de Lua Nova e, por isso mesmo,

uma noite perfeita para iniciarmos um novo

ciclo.” Respondeu a feiticeira da mais recente

descoberta.

Revista Me n 1 95

“E não nos podes já adiantar que passos te

levaram a essa conclusão?” Perguntou a feiticeira

enfermeira.

“Só posso adiantar que descobri a fórmula num

livro da Torre do Tombo.”

O jantar continuou sem mais referências às

viagens no tempo e no final todas nós, à excepção

da feiticeira dos olhos cinzentos, partilhámos

novos ingredientes e novas combinações de

poções de amor eterno, vingança sangrenta,

enriquecimento fácil, curas temporárias para

as mais variadas maleitas, adivinhações de

acontecimentos nos tempos mais próximos ou

em vidas passadas, desfazer enguiços e males de

inveja e outras potencialidades associadas que

nos tornavam úteis aos Humanos, embora não

resolvessem os nossos próprios problemas.

Nessa noite nenhuma de nós desapareceu

misteriosamente e foi com um sorriso nos lábios

que já quase ao amanhecer procurei as chaves

dentro da minha carteira para abrir a porta de

casa, isto depois de ter guardado cuidadosamente

a vassoura dentro do tronco de uma das árvores

que enfeitavam o nosso quintal.

O meu marido era detective e passava muitas

noites a tentar resolver enigmas de homens e

mulheres traídos no leito do matrimónio ou

na empresa onde tinham jurado fidelidade à

sociedade com fins lucrativos, mas não tinham

resistido à tentação de levar os mesmos

para gastar num país mais quente, antes da


96 Revista Me n 1

Revista Me n 1 97

INVENTA-ME

machadada do fisco e da partilha dos dividendos

com o respectivo sócio ou sócia.

Ainda não tinha encontrado as chaves, quando a

porta se abriu, perante o meu espanto.

“Já estás em casa? Pensei que ias passar a noite a

seguir o teu suspeito de prejúrio.”

“Perjúrio, minha querida! Eu passei a noite no

carro, quase em frente à casa dele, mas desta vez

não notei nenhum sinal de actividade estranha.

Ele deve ter passado a noite a dormir, porque

também não fez qualquer telefonema e as luzes

não se acenderam. Além disso, já é quase de

manhã! Demoraste imenso tempo. Vendeste

assim tantos tupparweris?”

“Tupperwares, meu querido! Vendi, sim. E depois,

sabes, conversa puxa conversa e quando demos

por nós já era tardíssimo.”

“Gostava eu muito de lá estar para saber o que

tanto têm para falar…”

“Preocupa-te apenas em resolver os teus enigmas

e deixa os mistérios das mulheres no lugar que

lhes pertence. O teu hálito tresanda a uísque!”

“E que lugar é esse, já agora? Tu cheiras a vinho,

minha querida!”

“Um lugar fora deste tempo, pelos vistos…”

A conversa ficou por ali naquele dia, porque o

espaço dos sentidos preencheu-nos com uma

vontade incontrolável de nos deitarmos um no

outro.

Três dias depois, lá estávamos de novo à volta

da mesa, onde a toalha vermelha repousava

vazia. A casa do Poço Envenenado ficava numa

clareira da floresta discreta e para lá chegar

tínhamos que nos deslocar de vassoura, devido

à densa vegetação que a envolvia e que lhe dava

um ar perfeitamente assombrado, tal como

nós apreciávamos. Nunca havia o risco de nos

perdermos, nem mesmo a feiticeira escritora

que aparentava sempre um ar de distraída, uma

vez que todas as vassouras possuíam GPS, cujas

coordenadas eram controladas pela feiticeira dos

olhos cinzentos.

Desta vez não havia nada para comer. Estávamos

ali para ouvir o que a irmã dos olhos cinzentos

tinha para nos revelar, rodeadas de imensos

castiçais carregados de teias intermináveis e velas

acesas.

“Irmãs feiticeiras, o que eu tenho para vos revelar

implica que façamos antes um pacto de sangue.

Há várias Luas que tenho pensado sobre este

assunto e acho que não há melhor forma de vos

mostrar a minha descoberta do que eu própria

fazer uma viagem no tempo com a vossa ajuda.”

Olhávamos umas para as outras e olhávamos para

a feiticeira dos olhos cinzentos que continuava

de pé e determinada a seguir em frente com a

sua proposta. Ninguém foi capaz de proferir uma

palavra, ou de incentivo, ou para tentar que ela

parasse com aquela loucura. Como nenhuma de

nós reagia, foi-nos servindo o chá fumegante, uma

por uma, com uma calma surpreendente. Quando

todas nós tínhamos à frente o líquido para

celebrar o nosso pacto, terminou aquela parte do

ritual, servindo-se a ela própria.

“Agora já sabem o que têm a fazer. Cada uma de

vós usa a vossa espada para verter o sangue e

juntar ao chá, apenas o suficiente para este ficar

tingido de vermelho. Só tenho também a

pedir-vos algo para me ajudar na viagem:

Pensem todas na época dos Descobrimentos,

quando Vasco da Gama regressava da Índia em

direcção a Portugal e estava prestes a receber

a sua recompensa, juntamente com os seus

marinheiros. Pensem num sítio algures na costa

africana.”

Sentia-me hipnotizada por aqueles olhos

cinzentos-escuros e não hesitei em aceder aos

pedidos daquela voz doce e encantadora. Olhei à

minha volta, enquanto todas bebiam o chá com

olhar pensativo. Os nossos olhos verdes

tocavam-se em silêncio. Uma névoa de fumo

vermelho foi-se soltando das chávenas até nos

abraçar os ombros e levantar-nos das cadeiras.

Deixei de ver a feiticeira taxista que segundos

antes estava sentada em frente a mim. Deixei de

ver a feiticeira enfermeira no meu lado esquerdo

e a feiticeira estafeta no meu lado direito.

Olhasse para onde olhasse, só via fumo vermelho

e sentia uma força estranha, exterior ao meu

corpo, que me empurrava para trás e à qual

não conseguia opor resistência. Tentei abrir a

boca para proferir as palavras de magia que me

traziam segurança em situações de perigo. A boca

abriu-se, mas as palavras tinham-se apagado da

memória. A força exterior tornou-se tão intensa e

difícil de suportar que me deixei levar sem mais

resistência. Fechei os olhos. Perdi os sentidos.

Não tenho nenhuma ideia de quanto tempo terá

passado até começar a sentir o cheiro a maresia

misturado com outro cheiro menos intenso, mas

mais inquietante. Naquela altura deduzi que esse

odor se devia ao nosso pacto, porque ainda sentia

na boca o sabor do meu próprio sangue. Abri os

olhos para dar com vários olhos verdes que me

olhavam com um ar interrogativo. Teria sido só eu

a ser levada por aquela força?

Estávamos na mesma sala, as velas tinham-se

apagado, talvez com a corrente de ar que vinha

da porta e das janelas abertas. A luz e o marulhar

das ondas também nos inundavam com a sua

presença, à qual nos estávamos a habituar, ou

pelo menos assim me parecera na altura pela

postura das outras feiticeiras. Nesse momento

dei por falta de duas delas: a feiticeira dos olhos

cinzentos não estava na cabeceira da mesa, nem

em lugar nenhum da sala e, aterrada, vi que a

cadeira do meu lado esquerdo se encontrava

vazia de vida e com uma enorme mancha de

sangue.

Tive pouco tempo para pensar naquele assunto,

porque de súbito alguém entrou de rompante na

sala, fazendo com que todos os nossos olhos se

voltassem na mesma direcção.

“Eu sei que vos devo uma explicação. Não devia


98 Revista Me n 1

Revista Me n 1 99

INVENTA-ME

ter quebrado o nosso código deontológico, mas

foi por um motivo válido e penso que me irão

compreender. Se depois acharem que devo

ser sancionada, estou à vossa disposição para

cumprir com o estipulado.”

“Queres ir directa ao assunto e explicar-nos o que

se passa?” Perguntou a feiticeira taxista com um

semblante entre o muito surpreendido e o muito

zangado.

“Claro!” Respondeu de imediato a feiticeira dos

olhos cinzentos. “Venham comigo até lá fora.”

A cerca de três vassouras de distância, alinhadas

umas em frente às outras, e lá estava ele à nossa

frente, um mar azul sem fim à vista.

“Impressionante! Onde é que foi parar a clareira

mero sete? E que mar é este que nunca o vi

antes na floresta? Em que raio de lugar é que

estamos?” As perguntas iam surgindo das bocas

de algumas de nós com vozes apreensivas, no

entanto ninguém se atreveu a questionar o

paradeiro da feiticeira enfermeira.

“Eu explico tudo a seu tempo, minhas irmãs. O

mais importante é que todas nós viajámos no

tempo. O chá que vos dei, juntamente com o vosso

sangue e os vossos pensamentos, tornou-se na

poção mais eficaz que nos permitiu viajar a todas

no tempo e no espaço. Eu poderia ter feito isso

sozinha, até já o fiz várias vezes, mas precisava da

vossa ajuda preciosa.”

“Acho bem que tenhas um motivo muito forte!”

Respondi eu à feiticeira dos olhos cinzentos.

“Este mar azul parece tingido de vermelho!

Devo ter caído no meio de um dos meus contos.

Foi uma grande sorte não ter caído no mar!”

Exclamou a feiticeira escritora.

“Nunca quiseste aprender a nadar… Só te

interessas em viver no meio dos teus papéis!” Foi

o comentário da assistente da feiticeira escritora,

que não possuía os mesmos dons de magia que

nós, mas desde sempre nos tinha acompanhado e

participado nos nossos rituais. Suspeitávamos de

uma ligação entre as duas que ia muito para além

do campo profissional, no entanto nenhuma de

nós levantava qualquer oposição ou estranheza

a esta intimidade. A assistente da feiticeira

escritora tinha sido adoptada como uma de nós.

“Não me parece que esta seja a melhor altura para

discussões.” Interrompeu a feiticeira dos olhos

cinzentos.

Dirigiu-se então à feiticeira estafeta e todas

nós assistimos, com a perplexidade que nos foi

possível, àquele estranho pedido, vindo mais uma

vez de uma voz doce e encantadora.

Mesmo para nós que vivíamos em duas

dimensões alternadamente e que tentávamos

adaptar a nossa ‘anormalidade’ à vida do

dia-a-dia, esta possibilidade de viajar no tempo

nunca tinha sido encarada como real. Tínhamos

vassouras que escondíamos cuidadosamente dos

Humanos, principalmente quando voávamos em

cima delas. Tínhamos segredos que nos uniam

umas às outras e que só partilhávamos à volta da

mesa da toalha vermelha. Tínhamos capacidades

que outros seres humanos nunca sonhariam ter,

mas as viagens no tempo não estavam incluídas

na nossa lista de feitiços possíveis e esse facto

tornava aquele momento absurdo para todas nós.

“Nunca conheci ninguém que fosse tão veloz a

nadar como tu. E neste momento, em que cada

segundo que passa pode ser fatal para todas nós,

preciso que nades o mais rápido que conseguires

até chegares a uma rocha vermelha. Logo que

chegues ao mar transforma-te em sereia e

quando te sentares penteia os cabelos com este

pente dourado e canta. Canta como se estivesses

sozinha no meio do oceano, pois vais ver com

os teus próprios olhos verdes que esta terra não

há-de comer, que não te faltará assistência mal a

tua voz se soltar. Tens dentro de ti a capacidade

de encantar os homens que te ouçam, faz com que

eles venham até esta ilha.”

Assim que a feiticeira estafeta entrou no mar,

ficámos prostradas em cima da areia à espera

de mais informações da boca que cada vez que

se abria conseguia continuar a surpreender. Ela

sentou-se a olhar o azul-escuro daquele mar e

todas nós seguimos o exemplo. A nossa sereia

de longos cabelos dourados já se tinha afastado

da costa e a sua cauda de peixe já quase não se

distinguia, mesmo com a nossa capacidade de

visão acima da média dos Humanos.

Quando ouvimos um canto distante, a

feiticeira dos olhos cinzentos voltou-se para a

feiticeira escritora e a sua assistente e

impôs-lhes mais uma missão: “Vou pedir-vos

para intervir no plano dos Deuses. Como é do

vosso conhecimento, neste momento, Vénus está

a persuadir o seu filho Cupido para que desista

da expedição contra os Humanos e em vez disso

quer que ele a ajude a recompensar aqueles que

bem amam com a ‘Ilha dos Amores’. Isso não pode

acontecer! Vocês vão impedir que Vénus consiga

intervir. Nós precisamos que os portugueses

cheguem até aqui. Está em causa a continuação

ou a extinção da nossa espécie.”

Continuámos sentadas e éramos cada vez

menos. Observávamos agora duas vassouras que

rasgavam os céus a toda a velocidade e cada uma

de nós tinha em mente a mesma pergunta: ‘Qual

seria a próxima a partir para uma missão?’.

“Adivinho-vos os pensamentos e a minha

resposta para a vossa pergunta é que seduzam

os portugueses logo que ponham os seus corpos

extenuados sobre estas areias quentes. Aqui

corremos muito mais perigo do que corremos

no nosso tempo, por isso não se deixem enganar

pelos falsos portugueses que habitam esta ilha e

que não fazem parte da expedição. Se necessário,

invoquem a ajuda do Mostrengo, que esteve

sempre do nosso lado.”

Um frio de excitação percorreu-me todo o corpo.

Finalmente percebia todos os propósitos da

feiticeira dos olhos cinzentos e caso fôssemos

bem-sucedidas, nunca mais teríamos que nos

preocupar com desaparecimentos estranhos,

nem ameaças constantes à nossa existência. Não


100

Revista Me n 1

INVENTA-ME

me conseguia conter naquela espera infinita e

dirigi-me à casa da toalha vermelha. Nenhuma

das feiticeiras se pareceu importar com o meu

comportamento e todas continuaram imersas no

azul do mar, hipnotizadas pelo barulho das ondas

e pelo que ainda estava por acontecer. Tinha a

percepção que algo de estranho se passava dentro

da sala de jantar, mas quando lá entrei as velas

continuavam apagadas, as cadeiras à volta da

mesa estavam na mesma disposição e o odor a

sangue permanecia no ar com uma intensidade

inquietante. Sentei-me à cabeceira da mesa e

fechei os olhos. Preparei a mente para varrer

todos os pensamentos. Imaginei-me embrenhada

na floresta a percorrer trilhos repletos de folhas

secas, sem qualquer candeia para iluminar o

caminho. O luar intenso e as estrelas seriam os

meus candeeiros que habitualmente dão vida

às vias públicas. Em frente a mim, um ribeiro e

uma ponte para o atravessar. O som da água que

fluía, o som de alguém a devorar batatas fritas, o

som de pequenas cascatas, o som de um pacote

de batatas a ser amarfanhado. Um ruído. Um

ruído conhecido. Abri os olhos e qual não é o

meu espanto quando deparo com o meu marido

sentado no lado oposto da mesa.

“Desculpa querida, terminei o pacote das batatas

e nem sequer te ofereci.”

continua...

SUSANA C. FONSECA NASCEU NO

PORTO EM 1974. DESDE A INFÂNCIA

DESPERTOU O INTERESSE PARA A

LEITURA E PARA A ESCRITA.

DEPOIS DE TERMINAR O CURSO EM

LÍNGUAS E LITERATURAS MODERNAS

NA FACULDADE DE LETRAS DE COIMBRA

INGRESSOU NA ÁREA DO ENSINO.

ACTUALMENTE DEDICA PARTE DO SEU

TEMPO À ESCRITA E É CO-AUTORA DE

ALGUNS LIVROS DE VIAGENS. O

FASCÍNIO PELO GÉNERO DO

FANTÁSTICO MANIFESTA-SE ATRAVÉS

DA PRODUÇÃO DE CONTOS.

ESTE É O PRIMEIRO NÚMERO DE UMA NOVA

PUBLICAÇÃO, QUE ESPERAMOS TENHA SIDO

APRAZÍVEL FOLHEAR.

A REVISTA-ME É UM SER VIVO.

NELA, NADA É ESTÁTICO OU IMUTÁVEL.

ASSIM, ESTAMOS ABERTOS A TODAS AS VOSSAS

SUGESTÕES E PARTICIPAÇÕES, QUE A FAÇAM

PROGREDIR, EVOLUIR E CRESCER.

NOVAS SECÇÕES, NOVOS CONTEÚDOS, TUDO

SERÁ BEM VINDO E TOMADO NA DEVIDA CONTA.

AFINAL, ESTA REVISTA É VOSSA E PARA TODOS!

ABRAÇO,

CARLOS LOPES.

PUBLICAÇÃO ONLINE DA EDITORA EDITA-ME

REVISTA GRATUITA

Rua Barata Feyo, 140 - Sala 1.10

4250 - 076 Porto | Portugal

www.edita-me.pt

REVISTA-ME Nº1

DIRECTOR/EDITOR

CARLOS LOPES (EDITA-ME)

CAPA E PAGINAÇÃO

MIGUEL MINISTRO (EDITA-ME)

REVISÃO DE TEXTOS

PATRÍCIA FIGUEIREDO (EDITA-ME)

IMAGEM PÁG. 18

LUÍSA AZEVEDO

IMAGENS PGS. 22 e 23

ANA HOMEM DE ALBERGARIA

IMAGEM PÁG. 31

FORNECIDA POR ADOLFO CASTELBRANCO OLIVEIRA

IMAGENS PGS. 89>91

PEDRO LOPES

SUBSCREVA A REVISTA-ME:

revista-me@edita-me.pt

More magazines by this user
Similar magazines