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PRÁTICAS EDUCATIVAS DAS DANÇARINAS PROSTITUTAS DO CENTRO<br />
Introdução<br />
DE FORTALEZA-CE<br />
José Gerar<strong>do</strong> Vasconcelos<br />
PPGE, UFC<br />
Francisca Karla Botão Aranha<br />
PIBIC, UFC<br />
Camila Saraiva de Matos<br />
PIBIC, CNPq<br />
A produção de uma nova cultura que derrame seus preceitos na vida da cidade é<br />
algo que pode parecer invisível. Todavia, constata-se fortemente a presença de<br />
determina<strong>das</strong> <strong>práticas</strong> <strong>educativas</strong> produzi<strong>das</strong> no interior <strong>do</strong>s prostíbulos <strong>do</strong> centro da<br />
cidade que se vão amplian<strong>do</strong> nessa polifônica Fortaleza. Vestimentas retalha<strong>das</strong>,<br />
músicas que podem traduzir sensualidade, danças sensuais produzi<strong>das</strong> no interior dessas<br />
casas e que podem ser ensina<strong>das</strong> as recata<strong>das</strong> senhoras <strong>do</strong> lar.<br />
Mas o que se deve entender pelo ato ou exercício da prostituição? Que diferença<br />
existe – como pergunta PAIS (2008, p. 37) – entre relações sexuais basea<strong>das</strong> na<br />
prostituição e as relações sexuais convencionais? É evidente, segun<strong>do</strong> o autor que essas<br />
diferenças não podem ser restritas ao comercio de valores nem ao sentimento de<br />
indiferença emocional que a prostituta poderia manifestar no ato sexual. Ou como<br />
perguntaria Foucault (1990, p. 14): Por que o comportamento sexual, as atividades e os<br />
prazeres a ele relaciona<strong>do</strong>s, são objetos de uma preocupação moral?<br />
A resposta apresentada por Foucault está diretamente relacionada ao cuida<strong>do</strong><br />
ético que nem sempre se relaciona com os sistemas de interdição. Restaria então<br />
perguntar o motivo pelo qual a atividade sexual foi constituída como campo moral e,<br />
nesse caso, qual o lugar da prostituição nesse escorregadio território de prazer. Para<br />
Sade (2003, p. 36 e 37) as <strong>prostitutas</strong>:<br />
São felizes e respeitáveis criaturas que a opinião difama, mas a<br />
volúpia coroa; e quem, bem mais necessária à sociedade <strong>do</strong> que
as recata<strong>das</strong>, têm a coragem de sacrificar, para servi-la, a<br />
consideração que esta sociedade ousa lhes tirar injustamente.<br />
Vivam as que se sentem honra<strong>das</strong> com este título.<br />
Ou como diria Nietzsche (1976, p. 47) no Crepúsculo <strong>do</strong>s Í<strong>do</strong>los,<br />
Somos necessários, somos um fragmento <strong>do</strong> destino,<br />
formamos parte <strong>do</strong> to<strong>do</strong>; não há nada que possa julgar,<br />
medir, comparar e condenar nossa existência, pois isso<br />
equivaleria a julgar, medir, comparar e condenar o to<strong>do</strong><br />
(NIETZSCHE, 1976, p. 47).<br />
A prostituição se faz necessária apesar <strong>do</strong> disfarce que comporta pela<br />
meticulosidade <strong>do</strong> ato e, ao mesmo tempo, pela diferença de suas inúmeras<br />
manifestações. Os lugares de atuação passam por grandes variações. Do bordel féti<strong>do</strong><br />
aos canais sedutores e imagéticos <strong>das</strong> infovias. Da bêbada purulenta que trafega pelas<br />
vielas <strong>das</strong> grandes cidades trocan<strong>do</strong> suas carnes por uma pedra de crack à devota e<br />
exuberante deusa lançada em sites eletrônicos ou em Casas de Massagem com luxuosos<br />
equipamentos espalha<strong>das</strong> pelas grandes cidades. O descompasso entre o feio e o belo,<br />
entre o bem e o mal deve recompor a passagem <strong>do</strong> prazer feminino e <strong>do</strong> lugar da<br />
prostituição. De conformidade com os estu<strong>do</strong>s de Pais,<br />
Também as mulheres casa<strong>das</strong> comercializam favores sexuais e<br />
até ‘santos padres’ se intrometeram gananciosamente no<br />
contorno desse florescente negócio. Na esfera conjugal, as<br />
relações sexuais tanto aparecem por ‘senti<strong>do</strong> de prazer’ como<br />
por ‘senti<strong>do</strong> de dever’. Se os mais puritanos <strong>do</strong>s esposos<br />
invertessem a proposição segun<strong>do</strong> a qual ‘a liberdade sexual<br />
feminina reduz o papel da prostituição’ chegariam a<br />
desconcertante conclusão de que o aumento da prostituição<br />
pode reduzir a infidelidade conjugal. Aqui temos uma boa<br />
justificação da tolerância que deliberada ou veladamente a<br />
prostituição passa a ter (PAIS, 2008, p. 37).<br />
A necessidade de se apresentar como dançarina e não como garota de programa,<br />
acompanhante, prostituta ou garota de boite é sempre explicita e recorrente em discurso<br />
<strong>das</strong> “<strong>dançarinas</strong>”. Como se quisessem encobrir – apesar de chamarem de casa – os<br />
lugares de trabalho situa<strong>do</strong>s em territórios de prazer. O que se pode constatar é que um<br />
cliente que busca um território de prostituição não o faz com o intuito exclusivo de<br />
satisfação sexual. O que compõe o imaginário masculino vai muito além <strong>do</strong> gozo
imediato. É muito mais que o coito ou ato de copular com a fêmea. É o que Sousa nos<br />
explica.<br />
Meto<strong>do</strong>logia<br />
No âmbito simbólico e no imaginário social, as <strong>prostitutas</strong><br />
representam tu<strong>do</strong> o que uma esposa e mãe não poderia<br />
eventualmente ser: sensual, despu<strong>do</strong>rada, misteriosa, sem<br />
<strong>do</strong>no, livre para o sexo. Esses atributos seduzem e atraem os<br />
freqüenta<strong>do</strong>res de prostíbulos, principalmente por ocorrer uma<br />
inversão no ato da sedução – as mulheres é que tomam a<br />
iniciativa da aproximação, da “paquera” e da sedução. Há<br />
uma mudança, embora simbólica, <strong>do</strong>s papéis e <strong>das</strong><br />
determinações sociais <strong>das</strong> categorias homem/mulher que<br />
fascina e amedronta os clientes, ao mesmo tempo (SOUSA,<br />
2000, 121).<br />
O procedimento meto<strong>do</strong>lógico se desenvolve pelo acompanhamento sistemático<br />
<strong>do</strong>s prostíbulos da região central de Fortaleza-Ceará. Isso possibilita uma rica coleta de<br />
da<strong>do</strong>s além da utilização <strong>do</strong> diário de campo, peça fundamental, para registrar os<br />
acontecimentos cotidianos <strong>do</strong>s prostíbulos é, ao mesmo tempo, a possibilidade de<br />
contato com as <strong>dançarinas</strong> mais experientes da região, que guardam em sua memória<br />
elementos chaves para nossa pesquisa. Nesse caso é que vasculhamos nas lembranças o<br />
discurso de origem. Revisitar a origem <strong>do</strong> ensino da dança ou as primeiras experiências<br />
como profissionais <strong>do</strong> sexo nos prostíbulos não para encontrar um fio condutor que nos<br />
transporte de mo<strong>do</strong> seguro <strong>do</strong> passa<strong>do</strong> ao presente, mas, ao contrário, preferimos a<br />
insegurança, a incerteza para que se possam incorporar ao discurso <strong>das</strong> <strong>dançarinas</strong><br />
<strong>prostitutas</strong> as múltiplas dimensões de seu cotidiano. Para tal, utilizamos entrevistas e,<br />
possivelmente, histórias de vida de profissionais <strong>do</strong> sexo. A possibilidade de recompor<br />
vi<strong>das</strong> de narra<strong>do</strong>ras mais experientes abriria pontos de acontecimentos que dificilmente<br />
seriam narra<strong>do</strong>s aleatoriamente.<br />
Os da<strong>do</strong>s são analisa<strong>do</strong>s utilizan<strong>do</strong> a transcrição <strong>das</strong> entrevistas semi-<br />
estrutura<strong>das</strong> produzi<strong>das</strong> ou não como histórias de vida. A transcrição permite ao<br />
pesquisa<strong>do</strong>r reconstituir a fala <strong>do</strong>s informantes, reagrupan<strong>do</strong> a entrevista com os<br />
destaques que se fixam nas lembranças <strong>do</strong>s próprios narra<strong>do</strong>res: recortar a entrevista e<br />
reagrupar as partes mais importantes destacan<strong>do</strong> a aura temática no interior <strong>do</strong>s<br />
referi<strong>do</strong>s instrumentos de recolha.
Em seguida, após a classificação interna <strong>das</strong> entrevistas, filtraremos as falas,<br />
deslocan<strong>do</strong> o discurso da oralidade em <strong>do</strong>cumento recria<strong>do</strong> e, nesse caso, participa a<br />
subjetividade <strong>do</strong> pesquisa<strong>do</strong>r. Esse <strong>do</strong>cumento será devolvi<strong>do</strong> ao narra<strong>do</strong>r que, fazen<strong>do</strong><br />
as devi<strong>das</strong> correções, possibilitará seu emprego na pesquisa.<br />
Os registros etnográficos são filtra<strong>do</strong>s e incorpora<strong>do</strong>s aos registros mnemônicos<br />
e iconográficos. Entretanto, temos certeza que a filtragem <strong>do</strong> material coleta<strong>do</strong> inscreve<br />
a pesquisa em águas que se renovam na própria dança <strong>do</strong> cotidiano, pois na etnografia,<br />
é freqüentemente imensa a distância entre a apresentação final <strong>do</strong>s resulta<strong>do</strong>s da<br />
pesquisa e o material bruto <strong>das</strong> informações coleta<strong>das</strong> pelo pesquisa<strong>do</strong>r através de<br />
suas próprias observações, <strong>das</strong> asserções <strong>do</strong>s nativos, <strong>do</strong> calei<strong>do</strong>scópio da vida tribal<br />
(Malinowski, 1984, p. 19).<br />
Resulta<strong>do</strong>s e discussões<br />
A presente pesquisa está em andamento. Porém foram realiza<strong>das</strong> várias<br />
transcrições, que nos possibilitou um maior conhecimento sobre o universo <strong>das</strong><br />
<strong>dançarinas</strong> profissionais <strong>do</strong> sexo. Essa em uma <strong>das</strong> transcrições afirma que a prática da<br />
dança não somente é um fator de envolvimento no universo feminino, mas ajuda as<br />
mulheres na questão referente a disciplina, estimula ao não consumo de bebi<strong>das</strong><br />
alcoólicas, não utilização <strong>das</strong> drogas, a junção desses fatores provocam diferenças entre<br />
as meninas, que não os praticam mantém uma maior qualidade de vida, possibilitan<strong>do</strong><br />
ao cuida<strong>do</strong> <strong>do</strong> corpo, principal objeto de trabalho.<br />
Foi percebi<strong>do</strong>, através da entrevista, que o Poli dance, chegou até o ambiente<br />
pesquisa<strong>do</strong>, através de uma dançarina profissional <strong>do</strong> sexo, que aprendeu essa prática<br />
em São Paulo e trouxe para o devi<strong>do</strong> prostíbulo em questão, “Gata Garota”.<br />
Logo na entrada constata-se um corre<strong>do</strong>r estreito e seguranças planta<strong>do</strong>s à porta<br />
de entrada de onde se podem avistar luzes díspares ao fun<strong>do</strong>. Ingressar nesse território<br />
desconheci<strong>do</strong> faz lembrar uma travessia assaz perigosa. Ao final <strong>do</strong> corre<strong>do</strong>r, as luzes se<br />
misturam e circulam em vários feixes que embriagam o olhar. Os ouvi<strong>do</strong>s são alerta<strong>do</strong>s<br />
pelo sabor da música. Corpos femininos se deslocan<strong>do</strong> na distorção de uma intensa<br />
sonoridade que faz acelerar nossos senti<strong>do</strong>s e, ao mesmo tempo, invadem nossas<br />
entranhas com a paixão e a desmesura. É essa mesma paixão que inquieta Foucault
(1986, p.18), quan<strong>do</strong> põe em questão o méto<strong>do</strong> científico, destacan<strong>do</strong> a paixão <strong>do</strong>s seus<br />
pares, suas discussões fanáticas e sempre retoma<strong>das</strong>, da necessidade de suprir a<br />
paixão.<br />
O sabor feminino passeia pelo salão e exibe seus corpos e suas curvas sinuosas<br />
pelos becos que se vão forman<strong>do</strong> entre as mesas distribuí<strong>das</strong> no referi<strong>do</strong> espaço. Ao<br />
final <strong>do</strong> corre<strong>do</strong>r estreito da entrada, seguin<strong>do</strong> um traça<strong>do</strong> retilíneo, desemboca-se no<br />
espaço <strong>do</strong> salão para que os olhos vislumbrem uma variedade de informações<br />
imagéticas. À esquerda, pode-se avistar um bar e o posto <strong>do</strong> caixa e em cima <strong>do</strong> balcão<br />
um opera<strong>do</strong>r de som. Entre o bar e um palco de exibição, um pequeno camarim e ao<br />
fun<strong>do</strong> <strong>do</strong> salão, antes de chegar a uma placa com o nome ilumina<strong>do</strong> – MOTEL -, pode-<br />
se perceber, em meio a tantos outros, um jovem senta<strong>do</strong> em intensa solidão, com os<br />
braços recosta<strong>do</strong>s sobre a mesa. O que chama a atenção – além <strong>do</strong> volume corporal <strong>do</strong><br />
referi<strong>do</strong> indivíduo – é o tédio que amarga seu olhar. É o tédio que, segun<strong>do</strong> Leopardi<br />
(1996, p. 439), jamais se fundamenta no falso. O suor escorren<strong>do</strong> pela testa e<br />
embeben<strong>do</strong> de calor a roupa vermelha já completamente encharcada. Como se<br />
procurasse algo, alguém ou alguma coisa. Como se tentasse uma passagem pela vida.<br />
Um lugar que fizesse senti<strong>do</strong> no mais vazio <strong>do</strong>s mun<strong>do</strong>s que se formava no seu entorno.<br />
No palco de <strong>do</strong>is metros de diâmetro, avista-se a movimentação <strong>das</strong> <strong>dançarinas</strong><br />
que se podem contratar dentre as várias mulheres que se apresentam no interior <strong>do</strong><br />
recinto. O espetáculo é combina<strong>do</strong> previamente. O investimento pode variar de 10,00 a<br />
50,00 reais. Duas músicas é o tempo de exibição. A primeira é apresentada no palco,<br />
que inclui um espelho ao fun<strong>do</strong> e um longo cano no centro. Percebe-se uma montagem<br />
<strong>do</strong> corpo para avivar a imaginação masculina. Fantasias diversas podem cobrir o corpo<br />
que logo será apresenta<strong>do</strong> num misto de inocência e sensualidade. As tais fantasias<br />
podem ser de tigreza, colegial, enfermeira, policial ou simplesmente uma pequena saia e<br />
um minúsculo pano para guardar as bun<strong>das</strong> e os seios fartos <strong>das</strong> <strong>dançarinas</strong>.<br />
Para SUQUET (2008, p.533), o bailarino sempre controla o centro de gravidade<br />
de seu movimento, daí a impressão de um <strong>do</strong>mínio. No caso em questão, o palco é<br />
centraliza<strong>do</strong> pelo cano de 2 metros de altura e 20 cm de diâmetro. Posições sensuais de<br />
agachamento participam o tempo inteiro <strong>do</strong> espetáculo. Encostar-se ao espelho e descer<br />
até o chão. Descer e subir no cano e, em alguns casos, de cabeça para baixo. Toda essa
movimentação tem por objetivo retirar a fantasia cuida<strong>do</strong>samente escolhida. Desmontar<br />
um mun<strong>do</strong> imaginário de uma personagem que desaba de sua forma e apresenta a nudez<br />
de seu corpo. Resta apenas uma pequena calcinha. Muitas vezes amarrada <strong>do</strong>s <strong>do</strong>is<br />
la<strong>do</strong>s com laços que são facilmente desfeitos. A calcinha já desamarrada é puxada de<br />
um la<strong>do</strong> para outro passan<strong>do</strong> entre o ânus e a vulva completamente raspada. Uma vulva<br />
que assiste aos mun<strong>do</strong>s de olhares de desejo e emoção.<br />
Em seguida, a bailarina desce <strong>do</strong> palco e invade a platéia se deslocan<strong>do</strong> para a<br />
mesa <strong>do</strong>s investi<strong>do</strong>res <strong>do</strong> espetáculo. Uma nova música. Desta vez, mais potente,<br />
preenche loucamente nossos ouvi<strong>do</strong>s e um novo baila<strong>do</strong> se vai forman<strong>do</strong> entre os olhos<br />
atentos de to<strong>do</strong>s e, ao mesmo tempo, partilha<strong>do</strong> “exclusivamente” pelos que<br />
contrataram o show.<br />
Ao longo <strong>do</strong> salão, várias mesas foram distribuí<strong>das</strong>. Pessoas senta<strong>das</strong> no entorno<br />
<strong>das</strong> referi<strong>das</strong> mesas. Homens e mulheres que se misturam aos olhos sempre atentos <strong>do</strong>s<br />
seguranças. Mulheres nuas exibem suas formas arre<strong>do</strong>nda<strong>das</strong> e passeiam pelo território<br />
<strong>do</strong> prazer. Homens senta<strong>do</strong>s. Olhares perdi<strong>do</strong>s de uns e a total atenção de outros que<br />
buscam – ao que parece – algum senti<strong>do</strong> para a sua própria existência. É como se não<br />
ouvissem a música que invade to<strong>do</strong> ambiente. É como se ensurdecessem ao clamor <strong>do</strong><br />
baila<strong>do</strong> e cheiro feminino que embriagava de prazer a humanidade reticente e ávida de<br />
(des)contentamento.<br />
As <strong>dançarinas</strong>, que eventualmente podem dividir o prazer sexual com os clientes<br />
que estão dispostos a pagar a modesta quantia de 30,00 reais em média, apresentam a<br />
sua insatisfação em relação ao espaço prepara<strong>do</strong> para os momentos calorosos de amor.<br />
Dizem que as condições <strong>do</strong>s quartos não estão devidamente apropria<strong>das</strong> para tal<br />
realização. Na realidade, um pequeno cômo<strong>do</strong>, com uma cama colada à parede fria e<br />
que preenche quase to<strong>do</strong> espaço desse território, deixan<strong>do</strong> apenas um minúsculo<br />
corre<strong>do</strong>r delimita<strong>do</strong> por outra parede. Um minúsculo banheiro como cheiro de pinho<br />
que pe<strong>net</strong>ra por to<strong>do</strong> recinto e invade nossas narinas. Um lençol desbota<strong>do</strong> pelo tempo,<br />
certamente testemunha de acolhimento de muitas noites de amor, com um leve cheiro de<br />
mofo, reveste a cama e embala os corpos <strong>do</strong>s amantes que, como dançarinos, inventam<br />
novo movimento como uma réplica <strong>do</strong> baila<strong>do</strong> que fora apresenta<strong>do</strong> momentos antes<br />
para o público ávi<strong>do</strong> de prazer. Circunspetos em silenciosos soslaios. Movi<strong>do</strong>s pela
força dionisíaca <strong>do</strong> espetáculo primal e, ao mesmo tempo, entedia<strong>do</strong>s pelo peso da<br />
existência que devem carregar até o fim de seus dias.<br />
Todavia, se o tédio pode ser entendi<strong>do</strong> como ausência de sentimentalidade,<br />
passagem vazia pelo tempo ou simplesmente experiência <strong>do</strong> nada, a arte seria<br />
simplesmente a fuga <strong>do</strong> tédio. A motivação que permite a nós humanos suportar um<br />
mun<strong>do</strong> que dilacera nossos projetos e invade nossos sonhos. Nesse caso, como viver<br />
sem a arte e, particularmente, sem a música? Quão intensa seria a vida se a música<br />
nunca cessasse de pulsar e, evidentemente, se conectasse ininterruptamente aos nossos<br />
senti<strong>do</strong>s. Mas a música cessa. A arte cessa. E, nesse caso, poder-se-ia indagar pelo<br />
senti<strong>do</strong> da vida nos intervalos intermitentes proporciona<strong>do</strong>s pela ausência da música e<br />
<strong>das</strong> artes. Como viver sem a música se ela nos faz pertencer ao mun<strong>do</strong> – ao âmago <strong>do</strong><br />
mun<strong>do</strong>?<br />
As <strong>dançarinas</strong> e profissionais <strong>do</strong> sexo encontram em seu próprio corpo a<br />
motivação necessária para percorrer trajetórias díspares. São <strong>dançarinas</strong>, profissionais<br />
<strong>do</strong> sexo ou mães preocupa<strong>das</strong> com o destino de seus filhos. Fora <strong>do</strong> ambiente de<br />
trabalho podem se apresentar como respeitáveis mães de família da mesma forma que<br />
são respeita<strong>das</strong> como exímia dançarina ou ainda como diria SOUSA (1995): “como<br />
uma mulher boa de cama” nas casas que freqüentam e tiram seu sustento. São as<br />
trajetórias dessas mulheres que pretendemos investigar a partir de suas lembranças e de<br />
seus discursos. Como se iniciaram na pratica profissional <strong>do</strong> sexo? Como se utilizam da<br />
técnica da dança em prostíbulos? Como aprenderam a dançar? E sua passagem pela<br />
escola deu-se de que forma?<br />
Conclusão<br />
Essa pesquisa contribui para uma melhor compreensão <strong>do</strong> cotidiano da cidade e,<br />
ao mesmo tempo, minimizar o preconceito que ainda reside na cultura local quan<strong>do</strong> se<br />
trata de prostituição. Quan<strong>do</strong> se investiga as trilhas dessa cultura tão complexa é que se<br />
pode melhor compreender elementos básicos da cultura brasileira e o complexo mun<strong>do</strong><br />
<strong>do</strong>s homens e mulheres que partilham o silencioso mun<strong>do</strong> <strong>do</strong>s prazeres. Pretende-se<br />
também contribuir para pensar outras experiências <strong>educativas</strong> que escapam ao
formalismo <strong>das</strong> pedagogias e ainda que essa pesquisa possa contribuir para produção de<br />
fontes de pesquisa oral ou <strong>do</strong>cumental. podemos observar alguns aspectos, como os<br />
processos de ensino e aprendizagem que são desencadea<strong>do</strong>s no interior desse “território<br />
de prazer”. A pesquisa encontra-se em desenvolvimento. Não se pode chegar ainda ao<br />
resulta<strong>do</strong> final, mas já se pode constatar que esse território de prazer é de grande<br />
complexidade. A passagem pelas casas de prostituição pode-se constar que as mulheres<br />
que vivem da prostituição, ao mesmo tempo atuam na vida priva<strong>do</strong>. Com seus amores,<br />
educação <strong>do</strong>s filhos e organização da família.<br />
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