A CIDADE E AS SERRAS - Lumen

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A CIDADE E AS SERRAS - Lumen

Eça de Queirós

A CIDADE E AS SERRAS

ANALISE ´ DA OBRA JOSÉ DE PAULA RAMOS JR

APRESENTAÇÃO

Último romance de Eça de Queirós, publicado postumamente

em 1901, A Cidade e as Serras é o desenvolvimento de um conto

de sua autoria chamado A Civilização.

Pertencendo à última fase da obra de Eça, esse romance apresenta

uma acentuada idealização da vida rural portuguesa, entendida

como remédio para os males gerados pela civilização urbana

do final do século XIX.

A obra apresenta XVI capítulos, que, esquematicamente,

podem ser divididos em dois blocos. O primeiro, constituído dos

sete capítulos iniciais e parte do oitavo, passa-se em Paris e serve

para caracterizar os requintes da civilização urbana. Nele, mediante

o poder da ironia e do talento caricatural, Eça de Queirós vai

compondo um quadro exasperante, em que o protagonista aos

poucos se deixa vencer por um tédio irresistível e um pessimismo

atroz. Jacinto tem cultura, prestígio e uma imensa fortuna, mas não

é feliz. Da metade do oitavo capítulo ao último, o autor compõe o

segundo bloco, que se contrapõe ao primeiro, sendo a sua antítese.

Jacinto se regenera, torna-se ativo e entusiástico. O encontro

com a natureza e a vida simples do meio rural proporciona-lhe a

felicidade. Não deixa de haver humor, ironia e caricatura no idílio

Eça de Queirós

campestre de Jacinto, mas a arte de Eça, nesse segundo bloco, se

compraz num estilo em que é notável a carga de lirismo, especialmente

nas descrições impressionistas da natureza.

Como se verifica em A Ilustre Casa de Ramires, outra obra da última fase do autor, configura-se,

em A Cidade e as Serras, a valorização de uma aristocracia rural degradada pela adoção de modelos

de vida inautênticos, estrangeirados, que se regenera ao reencontrar-se com as raízes nacionais lusitanas,

capazes de restituir a fibra empreendedora e infundir o espírito de generosidade humanitária.

Como um todo, o romance A Cidade e as Serras pode ser visto como uma alegoria, isto é, uma

metáfora desenvolvida numa narrativa de significado simbólico, segundo a qual a felicidade se encontra

na vida simples e laboriosa do meio rural, e não no artificialismo enganoso da civilização urbana.

ENREDO

De Lisboa a Paris

A história de Jacinto de Tormes começa bem antes de seu nascimento. Em Lisboa, nos idos de

1820, aproximadamente, seu avô, um gordíssimo e riquíssimo fidalgo, também chamado Jacinto,

conhecido pela alcunha de D. Galião, escorregou numa casca de laranja e desabou em plena rua, sendo

socorrido pelo infante D. Miguel, filho do rei D. João VI e herdeiro do trono. Desde então, o velho aristocrata

dedicou um afeto sem limites ao príncipe, que o ajudara tão graciosamente.

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Em 1828, D. Miguel foi aclamado rei, aboliu a

Constituição e restabeleceu o absolutismo no país.

Seu irmão, D. Pedro, que abdicara o trono do Brasil,

desembarcou em Portugal com um pequeno exército

e, com apoio dos liberais, deflagrou a guerra civil de

1832-34, que terminou com a vitória sobre os absolutistas.

D. Miguel partiu para o exílio; Jacinto Galião,

descontente com o desfecho adverso ao seu bemamado

rei, resolveu abandonar Portugal, partindo

com a mulher, D. Angelina Fafes, o filho Cintinho e

poucos criados para o desterro em Paris.

Na capital francesa, D. Galião adquiriu um luxuoso

palacete, na Avenida dos Campos Elíseos, número

202, onde viveu regaladamente, até morrer de indigestão.

Sua viúva, D. Angelina, por comodismo permaneceu

em Paris, em vez de regressar a Portugal.

Cintinho foi crescendo fraco e doentio. Entre tosses

e sufocações, padecia de insônia freqüente, sempre

perambulando à noite pelo palacete, a ponto de os

criados apelidarem-no Sombra. No outono de 1851,

começou a cuspir sangue. Em vez de buscar climas

mais salubres, como recomendava o médico, Cintinho

resolveu ficar, pois estava apaixonado por Teresinha

Velho, filha do desembargador Nunes Velho,

amigo de família. Com ela se casou, mas morreu

pouco tempo depois, sem presenciar o nascimento do

filho, que veio ao mundo três meses após o falecimento

do pai.

Entusiasta da Civilização

O menino também chamou-se Jacinto, mas, ao

contrário do progenitor, era um garoto extremamente

saudável e vivaz. Nascido e criado em Paris,

desde cedo revelara inteligência superior e forte personalidade.

Imensamente favorecido pela sorte, era

chamado ”Príncipe da Grã-Ventura“ pelos amigos.

Já rapaz, Jacinto tornara-se um entusiasta do progresso.

Costumava dizer que o homem só é superiormente

feliz quando é superiormente civilizado. Sua

idéia de civilização implicava o acúmulo erudito de

todas as concepções adquiridas pela inteligência humana,

desde a Grécia antiga, aliado à utilização de

todos os mecanismos inventados para potencializar o

domínio do homem sobre a natureza. Assim, Jacinto

passou a orientar sua vida segundo a fórmula:

suma ciência × suma potência = suma felicidade

Segundo Jacinto, a civilização era produto da cidade;

somente nela o homem poderia afirmar sua

superioridade de ser pensante. A natureza, ao contrário,

inspirava-lhe horror; nela, ele sentia a anulação

do intelecto e a redução do homem à bestialidade.

Por uma conclusão bem natural, a idéia de civilização,

para Jacinto, não se separava da imagem de cidade,

de uma enorme cidade, com todos os seus vastos

órgãos funcionando poderosamente. Nem este meu

supercivilizado amigo compreendia que longe de armazéns

servidos por três mil caixeiros; e de mercados

onde se despejam os vergéis e lezírias 1 de trinta províncias;

e de bancos em que retine o ouro universal; e

de fábricas fumegando com ânsia, inventando com

ânsia; e de bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a

papelada dos séculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas,

por baixo e por cima, de fios de telégrafos, de

fios de telefones, de canos de gases, de canos de fezes;

e da fila atroante de ônibus, “tramways”, carroças, velocípedes,

calhambeques, parelhas de luxo; e de dois

milhões de uma vaga humanidade, fervilhando, a ofegar,

através da polícia, na busca dura do pão ou sob a

ilusão do gozo — o homem do século XIX pudesse

saborear, plenamente, a delícia de viver! [...]

Ao contrário, no campo, entre a inconsciência e a

impassibilidade da natureza, ele tremia com o terror da

sua fragilidade e da sua solidão. Estava aí como perdido

num mundo que lhe não fosse fraternal; nenhum silvado

encolheria os espinhos para que ele passasse; se gemesse

com fome, nenhuma árvore, por mais carregada,

lhe estenderia o seu fruto na ponta compassiva dum

ramo. Depois, em meio da natureza, ele assistia à súbita

e humilhante inutilização de todas as suas faculdades

superiores. De que servia, entre plantas e bichos — ser

um gênio ou ser um santo? As searas não compreendem

as Geórgicas 2 ; e fora necessário o socorro ansioso

de Deus, e a inversão de todas as leis naturais, e um violento

milagre para que o lobo de Agúbio não devorasse

S. Francisco de Assis, que lhe sorria e lhe estendia os

braços e lhe chamava “meu irmão lobo!”. Toda a intelectualidade,

nos campos, se esteriliza, e só resta a bestialidade.

Nesses reinos crassos do Vegetal e do Animal

duas únicas funções se mantêm vivas, a nutritiva e a procriadora.

Isolada, sem ocupação, entre focinhos e raízes

que não cessam de sugar e de pastar, sufocando no cálido

bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda

se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma, uma fagulhazinha

espiritual a tremeluzir, como morta, sobre

um naco de matéria; e nessa matéria dois instintos surdiam,

imperiosos e pungentes, o de devorar e o de gerar.

Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu ser tão nobremente

composto só restava um estômago e por baixo

um “falus”! A alma? Sumida sob a besta. E necessitava

correr, reentrar na cidade, mergulhar nas ondas lustrais

da civilização, para largar nelas a crosta vegetativa,

e ressurgir reumanizado, de novo espiritual e jacíntico! 3

1 Terrenos ribeirinhos. No texto, é metonímia de produtos agrícolas.

2 Obra de Virgílio (séc. I a.C.), grande poeta da Antiguidade

romana, sobre os trabalhos agrícolas.

3 QUEIRÓS, Eça de. A Cidade e as Serras. Belo Horizonte, Villa

Rica, 1994. pp. 13-14. Nas demais citações da obra, sempre

desta edição, apresentaremos apenas a numeração da página

em que o texto se encontra, logo após sua transcrição.

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José Fernandes, narrador do romance, amigo

mais próximo de Jacinto, após alguns anos de estudos

em Paris, teve de voltar a Portugal. Seu tio Afonso

Fernandes, numa carta, lamentava que o peso de seus

setenta anos e os males hemorroidais o impediam de

cuidar de sua propriedade rural, em Guiães, na região

do Douro, que ficava vizinha à casa senhorial dos

Jacintos, nas serras de Tormes. O velho tio ordenava

ao sobrinho que voltasse ao lar, a fim de assumir a

gerência da propriedade. Zé Fernandes, então, abandonou

o curso de Direito e partiu para Portugal. Voltando

à vida de aldeia, passava seus dias entre os cuidados

com a terra e o carinho da tia Vicência, que, em

pouco tempo, ficou viúva.

Desastres mecânicos e sentimentais

Por sete anos os amigos não se viram, até que, por

volta de 1887, Zé Fernandes, em viagem a Paris, reencontra

Jacinto. Na Avenida dos Campos Elíseos, número

202, o antigo palacete fora transformado numa

síntese do mundo moderno, dotado de uma biblioteca

com 30 mil volumes, que concentrava todo o saber

produzido pelo homem, e de toda espécie de máquinas

e equipamentos de que a tecnologia era capaz

para o conforto da vida. Nunca o 202, como era conhecido

o palacete, fora tão magnífico, com o brilho da eletricidade,

o conforto de elevadores, a parafernália de

telefones, fonógrafos e telégrafos e o requinte de utensílios,

máquinas e engenhocas de toda espécie.

Fase urbana de Jacinto de Tormes: pesca do peixe

no poço do elevador…

Zé Fernandes, convidado por Jacinto, hospedou-se

no 202. Participando do cotidiano daquela micrópolis

ultra-sofisticada, pôde testemunhar a falibilidade

exasperante dos prodígios tecnológicos. Eram canos

que rompiam, inundando uma ala do palacete, panes

elétricas e até mesmo o emperramento do ascensor de

pratos, que comprometeu um jantar de gala oferecido

ao grão-duque Casimiro, amigo de Jacinto.

Nesse jantar, Zé Fernandes pôde observar mais

de perto um resumo da alta sociedade parisiense: a

condessa de Trèves, com sua lisonja fácil, ocupava-se

de alimentar a vaidade de cada um, toda ela era uma

sublime falsidade; o conde de Trèves e seu comborço,

o banqueiro judeu Efraim, tentavam convencer Jacinto

a tornar-se acionista de uma mirabolante Companhia

das Esmeraldas da Birmânia, garantindo a segurança

do empreendimento com um argumento estapafúrdio,

que denunciava tratar-se de uma negociata: —

Esmeraldas! Está claro que há esmeraldas!... Há sempre

esmeraldas desde que haja acionistas!; um psicólogo

cabotino alardeava seu profundo conhecimento da

alma feminina, expresso em seu último romance, enquanto

o irônico diretor do jornal Boulevard, o duque

de Marizac, divertia-se apontando um erro no romance,

que comprometia a credibilidade do autor; Dornan,

celebrado poeta neoplatônico e místico, ouvia uma

história picante e, impassível, declarava: — Há melhor,

há infinitamente melhor... Todos aqui conhecem

Madame Noredal. Madame Noredal tem umas imensas

nádegas...; Madame de Oriol, Madame Verghane,

a princesa De Carman rivalizavam na elegância sedutora

de trajes e modos; esses todos juntaram-se aos

demais convidados na arte da bajulação, quando chegou

o grão-duque Casimiro. Este, irmão de um imperador,

do alto de sua majestade, interessava-se apenas

em cançonetas obscenas e nos prazeres culinários e

etílicos.

Três dias após essa festa, Jacinto recebeu uma correspondência

de Portugal, com a informação de que

sua propriedade nas serras de Tormes havia sido

muito castigada por uma terrível tempestade, que soterrara

uma capelinha do século XVI e o cemitério contíguo,

onde jaziam vários ancestrais do fidalgo. Este

telegrafa a Silvério, seu administrador em Tormes, ordenando

a reedificação da igrejinha e o resgate das

ossadas, para o que não se poupariam despesas.

Jacinto, aborrecido com os desastres mecânicos,

promove uma grande reforma no 202. Enquanto isso,

Zé Fernandes conhece Madame Colombe, de quem se

torna amante. Assim ele se pronuncia sobre o caso:

Durante sete furiosas semanas perdi a consciência

de minha personalidade de Zé Fernandes — Fernandes

de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se me afigurava

ser um pedaço de cera que se derretia, com horrenda

delícia, num forno rubro e rugidor; ora me parecia

ser uma faminta fogueira onde flamejava, estalava e se

consumia um molho de galhos secos. Desses dias de

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sublime sordidez só conservo a impressão de uma

alcova forrada de cretones sujos, de uma bata de lã de

cor lilás, com “soutaches” negros, de vagas garrafas de

cerveja no mármore de um lavatório, de um corpo tisnado

que rangia e tinha cabelos no peito. [...] Do sólido,

decoroso, bem fornecido Zé Fernandes, só restava

uma carcaça errando através de um sonho, com as

gâmbias 4 moles e a baba a escorrer.

Depois, uma tarde, trepando com a costumada

gula a escada da Rua do Hélder, encontrei a porta fechada

— e arrancado da ombreira aquele cartão de

“Madame Colombe” que eu lia sempre tão devotamente

e que era a sua tabuleta... Tudo no meu ser

tremeu como se o chão de Paris tremesse! Aquela era

a porta do mundo que ante mim se fechara! Para além

estavam as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu

ficara sozinho, naquele patamar do não-ser, fora da

porta que se fechara, único ser fora do mundo! Rolei

pelos degraus, com o fragor e a incoerência de uma

pedra, até o cubículo da porteira e do seu homem que

jogavam as cartas em ditosa pachorra, como se tão

pavoroso abalo não tivesse desmantelado o universo!

— Madame Colombe?

A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:

— Já não mora... Abalou esta manhã, para outra

terra, com outra porca! (pp. 59-60)

Tédio e Pessimismo

Curado de sua infecção sentimental, Zé Fernandes

retomou a camaradagem com o amigo Jacinto,

que, ultimamente, dava sinais de grande melancolia.

Grilo, o velho criado negro, dizia: Sua Excelência sofre

de fartura. De fato, os confortos proporcionados

pelo progresso mecânico, toda erudição acumulada

na vasta biblioteca, os apelos da sociedade elegante,

nada satisfazia o Príncipe da Grã-Ventura, que se

transfomara num homem taciturno, triste e asfixiado

por um tédio medonho. E essa disposição de espírito

era refletida pela decadência física de Jacinto, que

definhava visivelmente.

Para distrair o amigo, Zé Fernandes o leva a um

passeio a Montmartre, nos arredores de Paris, para

conhecerem a Basílica do Sacré-Coeur. A edificação

não os interessou muito, no entanto, a visão da cidade

de Paris, do alto, causou-lhes profunda impressão. Zé

Fernandes faz uma longa reflexão sobre a cidade, considerando

como toda a sua grandeza se apagava, vista

de cima. Jacinto, observa: — Sim, é talvez tudo uma

ilusão... E a cidade a maior ilusão!

Animado com a própria eloqüência, Zé Fernandes

prosseguiu seu discurso, aduzindo que na cidade

findava toda liberdade moral do ser humano:

4 Pernas, do italiano gamba. 5 Moeda de pouco valor.

Cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e

cada necessidade o arremessa para uma dependência:

pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar,

adular, vergar, rastejar, aturar; rico e superior

como um Jacinto, a sociedade logo o enreda em tradições,

preceitos, etiquetas, cerimônias, praxes, ritos,

serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de

um quartel [...].

Se ao menos essa ilusão da cidade tornasse feliz a

totalidade dos seres que a mantêm... Mas não! Só uma

estreita e reluzente casta goza na cidade os gozos especiais

que ela cria. O resto, a escura, imensa plebe, só

nela sofre, e com sofrimentos especiais que só nela

existem! [...] Aí jaz, espalhada pela cidade, como esterco

vil que fecunda a cidade. [...] Ei-la agora coberta de

moradas em que eles não se abrigam; armazenada de

estofos, com que eles se não agasalham; abarrotada de

alimentos, com que eles se não saciam! [...] A tua civilização

reclama insaciavelmente regalos e pompas, que

só obterá, nesta amarga desarmonia social, se o Capital

der ao Trabalho, por cada arquejante esforço, uma migalha

ratinhada. Irremediável, é, pois, que incessantemente

a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfalfada miséria

é a condição do esplendor sereno da cidade. [...]

Há andrajos em trapeiras — para que as belas madamas

de Oriol, resplandecentes de sedas e rendas, subam,

em doce ondulação, a escadaria da Ópera. Há

mãos regeladas que se estendem, e beiços sumidos

que agradecem o dom magnânimo de um “sou” 5 —

para que os Efrains tenham dez milhões no Banco de

França, se aqueçam à chama rica da lenha aromática,

e surtam de colares de safiras as suas concubinas,

netas dos duques de Atenas. E um povo chora de

fome, e da fome dos seus pequeninos — para que os

Jacintos, em janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos

de Saxe, morangos gelados em Champagne e

avivados de um fio de éter! (pp. 67-69)

Quando ambos se preparavam para voltar a casa,

Jacinto é chamado por Maurício de Mayolle, um

amigo que não via há anos. Trava-se uma conversa,

em que Zé Fernandes pôde observar como as doutrinas

filosóficas e estéticas eram experimentadas por

certas rodas elegantes como modas passageiras.

Renanismo, hartmannismo, nietzschianismo, tolstoismo

etc. eram substituídas umas pelas outras, numa

atitude de puro diletantismo.

Os sinais de enfado de Jacinto começaram a se

acentuar mais; tanto que os próprios encontros com

sua amante, a fina Madame de Oriol, tornaram-se

um peso. Para aliviá-lo, Jacinto rogava que o amigo

Zé Fernandes o acompanhasse nas visitas vespertinas.

Quanto a Madame de Oriol:

Ela só sabia chalrar sobre a sua pessoa, que era o

resumo da sua classe, e sobre a sua existência, que

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era o resumo do seu Paris; e a sua existência, desde casada,

consistira em ornar com suprema ciência o seu

lindo corpo; entrar com perfeição numa sala e irradiar;

remexer em estofos e conferenciar pensativamente

com o grande costureiro; rolar pelo “Bois” 6 pousada

na sua vitória como uma imagem de cera; decotar e

branquear o colo; debicar uma perna de galinhola em

mesas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos;

adormecer com a vaidade esfalfada; percorrer de

manhã, tomando chocolate, os “ecos” e as “festas” do

“Figaro” 7 ; e de vez em quando murmurar para o marido

— “Ah, és tu?...” (pp. 76-77)

Em uma dessas visitas, na escadaria do jardim

da casa, os amigos encontram o marido de Madame

de Oriol, que saía emocionado. Passa-se uma cena

constrangedora.

— Visita lá em cima? Vai achar a Joana em péssima

disposição... Tivemos uma cena, e tremenda.

Deu outro puxão desesperado à luva cor de palha,

já esgarçada:

— Estamos separados, cada um vive como lhe

apetece; é excelente! Mas em tudo há medida e

forma... Ela tem o meu nome, não posso consentir

que em Paris, com conhecimento de todo o Paris,

seja amante do trintanário. Amantes da nossa roda,

vá! Um lacaio, não!... Se quer dormir com os criados

que emigre para o fundo da província, para a sua

casa de Corbelle. E lá até com os animais!... Foi o que

eu lhe disse! Ficou como uma fera. (pp. 78-79)

Zé Fernandes parte para uma viagem de algumas

semanas pelas cidades da Europa. De volta a

Paris, encontra o amigo mais melancólico ainda. Ele

tornara-se adepto da filosofia pessimista, passando

seus dias na leitura do Eclesiastes bíblico e das

obras de Schopenhauer. Aos trinta e quatro anos de

idade, Jacinto, apesar de todo conforto, de toda riqueza

e de todo prestígio que gozava na sociedade

parisiense, sentia a vida como um peso esmagador,

que o fazia sucumbir.

A Caminho das Serras

Numa manhã de fim de inverno, Jacinto surpreende

Zé Fernandes com a resolução de ir a Tormes

para a inauguração da igrejinha, que ficara

pronta, e para o traslado e sepultamento das ossadas

ancestrais. Os preparativos para a viagem tomaram

três meses. Jacinto despachou para Tormes várias

caixas com móveis, livros, tapetes e objetos capazes

de fazer do solar rústico da serra, edificado

em 1410, um simulacro do 202.

6 Bosque, em francês. Trata-se do famoso Bosque de Bolonha,

em Paris.

7 Jornal parisiense.

Em abril, com a primavera, Zé Fernandes e o

amigo Jacinto, que nunca estivera em seu país, partiram

para as serras portuguesas. A viagem foi tumultuada.

Na baldeação do trem, em Medina, na Espanha,

perderam-se os criados, com todas as bagagens.

Assim, os dois amigos chegaram à estação de

Tormes apenas com as roupas do corpo. Para piorar

a situação, ninguém os aguardava; e eles tiveram que

seguir para a propriedade de Jacinto em dois animais

emprestados, uma égua e um burro.

No caminho, Jacinto se encanta com a paisagem,

mas ao chegar à sede da quinta (propriedade

rural), nova decepção aguardava os amigos. O

velho solar senhorial tinha um aspecto lúgubre, as

obras ordenadas corriam muito lentamente e as

caixas despachadas de Paris haviam sido extraviadas

para Alba de Tormes, na Espanha, como depois

se soube.

Zé Fernandes, então, propôs que Jacinto fosse

com ele, no dia seguinte, para sua quinta em Guiães;

mas o amigo, furioso com o contratempo, decidira

rumar para Lisboa. O jantar simples e farto, que lhes

foi servido pelos empregados de Tormes, de típica

culinária serrana, foi muito elogiado pelos fidalgos.

Jacinto, que há anos sofria de inapetência, comeu com

enorme prazer. Cansados da viagem, ambos dormiram

em camas improvisadas sobre o chão de pedra.

No dia seguinte, Zé Fernandes partiu para sua propriedade,

de onde enviou a Jacinto alguma roupa,

objetos de asseio e livros.

Passada uma semana, Zé Fernandes recebeu as

bagagens que se haviam extraviado em Medina. Telegrafando

a Lisboa, onde pensava estar Jacinto,

para acusar o recebimento das malas, não obteve

resposta. Mais quatro semanas se passaram, até Zé

Fernandes descobrir que o amigo não saíra de Tormes,

desde a chegada. Num domingo, rumou para

lá, encontrando o velho solar em obras e, embora

ainda muito despojado, em condições mais higiênicas

e habitáveis. Zé Fernandes surpreende-se com

Jacinto, revigorado pelo ar e pela comida saudável

da serra. Era outro homem. Recobrara a alegria de

viver. E o motivo da transformação fora a descoberta

da natureza e da vida campestre.

Na tarde desse dia, os amigos foram passear pela

quinta.

Era com delícias, com um consolado sentimento

de estabilidade recuperada, que [Jacinto] enterrava

os grossos sapatos nas terras moles, como no seu

elemento natural e paterno: sem razão, deixava os

trilhos fáceis, para se embrenhar através de arbustos

emaranhados, e receber na face a carícia das folhas

tenras; sobre os outeiros, parava, imóvel, retendo os

meus gestos e quase o meu hálito, para se embeber de

silêncio e de paz; e duas vezes o surpreendi atento e

sorrindo à beira dum regatinho palreiro, como se lhe

escutasse a confidência...

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Depois filosofava, sem descontinuar, com o entusiasmo

dum convertido, ávido de converter:

— Como a inteligência aqui se liberta, hem? E como

tudo é animado duma vida forte e profunda...!

Dizes tu agora, Zé Fernandes, que não há aqui pensamento...

— Eu?! Eu não digo nada, Jacinto...

— Pois é uma maneira de refletir muito estreita e

muito grosseira...

— Ora essa! Mas eu...

— Não, não percebes. A vida não se limita a pensar,

meu caro doutor...

— Que não sou!

— A vida é essencialmente vontade e movimento:

e naquele pedaço de terra, plantado de milho, vai

todo um mundo de impulsos, de forças que se revelam,

e que atingem a sua expressão suprema, que é a

forma. Não, essa tua filosofia está ainda extremamente

grosseira...

— Irra! mas eu não...

—E depois, menino, que inesgotável, que miraculosa

diversidade de formas... E todas belas!

Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu

reparasse com reverência. Na natureza nunca eu

descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca

duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte, se

assemelhassem! Na cidade, pelo contrário, cada casa

repete servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem

a mesma indiferença ou a mesma inquietação;

as idéias têm todas o mesmo valor, o mesmo

cunho, a mesma forma, como as libras; e até o que

há mais pessoal e íntimo, a ilusão, é em todos idêntica,

e todos a respiram, e todos se perdem nela como

no mesmo nevoeiro... A mesmice — eis o horror das

cidades! (pp. 125-126)

Jacinto pensava ficar em Tormes no máximo

dois meses, até a inauguração da igrejinha e trasladamento

dos restos dos antepassados. No entanto,

foi alongando sua estada, cada vez mais entusiasmado

com sua quinta, para a qual tinha grandes planos.

Após as primeiras semanas contemplativas, Jacinto

começou a manifestar desejo de ação. Inexperiente

nos trabalhos rurais, o fidalgo sonhava

transformar sua rústica serra numa propriedade

moderna, aproveitando os largos espaços inativos

com um imenso prado, onde se criaria gado de raça,

para fabricação de queijos finos. Para realização

disso, do modo sofisticado que Jacinto pensava, seria

necessário um vultoso investimento, que elevaria os

custos de produção a ponto de trazer enorme prejuízo.

O administrador de Tormes, Silvério, opunha-se

aos sonhos mirabolantes do patrão, argumentando

que, se ele quisesse gastar tanto dinheiro,

que o fizesse em outras propriedades que possuía,

espalhadas por Portugal, em que as terras eram de

qualidade superior.

Mas, infelizmente para a quietação do Silvério, Jacinto

lançara raízes, e rijas, e amorosas raízes na sua

rude serra. Era realmente como se o tivessem plantado

de estaca naquele antiquíssimo chão, de onde brotara a

sua raça, e o antiquíssimo humo 8 refluísse e o penetrasse

todo, e o andasse transformando num Jacinto

rural, quase vegetal, tão do chão, e preso ao chão,

como as árvores que ele tanto amava.

E depois, o que o prendia à serra era o ter nela

encontrado o que na cidade, apesar da sua sociabilidade,

não encontrara nunca, — dias tão cheios, tão

deliciosamente ocupados, de um tão saboroso interesse,

que sempre penetrava neles, como numa festa

ou numa glória. (p. 139)

Contudo, os planos de Jacinto ficavam no papel,

devido à resistência respeitosa do administrador

Silvério, que sempre dava um bom motivo

para não se iniciarem as reformas.

Quando Jacinto ralhava com Zé Fernandes, porque

este não se enlevava com os encantos da natureza,

o amigo advertia:

— Meu filho, olha que eu não passo de um pequeno

proprietário. Para mim não se trata de saber

se a terra é linda, mas se a terra é boa. Olha o que

diz a Bíblia! “Trabalharás a quinta com o suor do teu

rosto!” E não diz “contemplarás a quinta com o enlevo

da tua imaginação!” (p. 142)

Com o passar do tempo, Jacinto foi se familiarizando

com os trabalhos rurais, sentindo prazer em

conversar com os camponeses. Numa manhã de

chuva tempestuosa, porém, ao abrigar-se na casa de

um empregado seu, ficou chocado com a miséria que

encontrou. Informado das condições precárias dos

trabalhadores, que desconhecia, ordenou ao administrador

Silvério a construção de habitações decentes

para todos e a revisão de contratos de trabalho,

no intuito de melhorar a renda dos empregados.

A quinta de Tormes torna-se um imenso canteiro

de obras. Jacinto, além de habitações aos trabalhadores,

estava determinado a construir uma escola,

uma creche para os bebês, uma biblioteca e a

instalar uma farmácia, que atenderia toda região. A

popularidade do fidalgo torna-se enorme, sendo

reconhecido como um grande benfeitor dos pobres.

João Torrado, um velho ermitão, figura folclórica,

meio adivinho, afirmava a todos que Jacinto era D.

Sebastião (sebastianismo), que voltara.

HHaappppyy EEnndd

Jacinto, indo a Guiães, por ocasião do aniversário

de Zé Fernandes, hospedou-se na casa dele e

conheceu, finalmente, a tia do amigo, Vicência, que

ficou encantada de sua pessoa. Na festa, Jacinto foi

8 Matéria orgânica de grande importância para a constituição

e regeneração do solo.

SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 98 • ANGLO VESTIBULARES


apresentado à sociedade da região, que o recebeu

com reservas cerimoniosas, pois corria o boato de

que o fidalgo de Tormes fora a Portugal para conspirar

a favor do absolutismo, levando consigo, disfarçado

de lacaio, o filho do banido D. Miguel. Ao

saber disso, quando foram embora os convidados,

Jacinto mostrou-se surpreso, mas considerou: Vou

ter aqui bons amigos, quando verificarem que não

sou miguelista. Na verdade, Jacinto era simpatizante

do socialismo, como afirmou à tia Vicência. Como a

boa senhora ignorava o que era, Zé Fernandes explicou

que socialista era ser pelos pobres.

Jacinto conhece uma prima de Zé Fernandes,

Joaninha, por quem se apaixona e com quem se casa.

Passados cinco anos, o casal vivia feliz com seus

dois filhos, Terezinha e Jacintinho. A paternidade dera

a Jacinto senso de responsabilidade e disciplina,

tornando-o um proprietário muito cioso do equilíbrio

entre despesas e receitas; os sonhos quiméricos se

dissiparam, dando lugar a um sólido conhecimento

das coisas rurais, que ele aplicava, zelosamente, em

todas as suas prósperas propriedades, e não apenas

na de Tormes.

Com a perspectiva do nascimento de Terezinha,

Jacinto estabeleceu equilíbrio entre o culto à civilização

e o fanatismo pela simplicidade. Ele mandara

buscar as caixas mandadas de Paris e extraviadas

para Alba de Tormes, mas a maior parte foi armazenada

nos sótãos; de seus conteúdos, aproveitaram-se

apenas cortinas, tapetes e alguma mobília,

de modo que a simplicidade do velho solar foi preservada.

Mandara, também, instalar telefones em

sua casa, na do sogro, do médico e do amigo Zé Fernandes,

que começou a temer uma recaída de Jacinto

naquela ânsia de progresso dos tempos de Paris,

mas isso não se confirmou. De fato, Jacinto conquistara

a paz de espírito, capaz de aproveitar do progresso

apenas o que realmente fosse útil, sem descomedimento.

Muitas vezes, Jacinto manifestava o desejo de levar

mulher e filhos a Paris, para que conhecessem a

grande metrópole, mas como a viagem era sempre

adiada, Zé Fernandes, que os acompanharia, decidiu

ir só. Lá chegando, reencontrou velhos conhecidos,

que continuavam a mesma existência de frivolidade

e inautenticidade. Desencantado, despediu-se

da cidade, disposto a não mais voltar, regressando a

Portugal. Ao descer na estação, a família de Jacinto o

aguardava. Festivamente, tomaram o rumo do solar

de Tormes, enquanto Zé Fernandes refletia:

E na verdade me parecia que por aqueles caminhos,

através da natureza campestre e mansa, — o

meu príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos ventos

da serra, a minha prima Joaninha, tão doce e

risonha mãe, os dois primeiros representantes da

sua abençoada tribo, e eu, — tão longe de amarguradas

ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo

eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e

Deus contente de nós, serenamente e seguramente

subíamos — para o Castelo da Grã-Ventura! (p.192)

ANÁLISE DA OBRA

Foco Narrativo

O foco narrativo de A Cidade e as Serras é centrado

na primeira pessoa. O narrador, Zé Fernandes,

embora seja personagem importante do romance,

não é protagonista. Trata-se de um narrador testemunha,

que observa de perto os acontecimentos

que relata. Ele não sabe tudo sobre a história, como

os narradores oniscientes; seu conhecimento

dos fatos limita-se àquilo que presencia, ou ao que

indiretamente lhe é dado saber. Quanto às personagens

com que se relaciona, só as conhece pelo

que manifestam; se há discordância entre o que declaram

e seus pensamentos e sentimentos mais íntimos,

o narrador não é capaz de saber com certeza.

O leitor conhece indireta e parcialmente fatos e

pessoas, uma vez que são apresentados mediante o

filtro da subjetividade. Assim, o retrato das personagens

depende da sensibilidade, capacidade de

observação e disposição afetiva do narrador; a apresentação

dos fatos resulta da seleção e combinação,

empreendida pelo narrador, dos elementos que os

constituem, aos quais ele teve acesso direta ou indiretamente;

os juízos de valor formulados decorrem

dos valores assumidos pelo narrador.

Embora não se possa confundir autor (Eça de

Queirós) e narrador (Zé Fernandes), o primeiro se vale

do segundo para passar a tese que está na base da

obra, a da superioridade da vida rural sobre a

civilização urbana e desumanização do homem

nas grandes cidades.

Personagens

Zé Fernandes reserva às personagens secundárias

um espaço muito modesto na narrativa; são

coadjuvantes que intervêm episodicamente, quando

penetram no raio de ação do protagonista Jacinto,

ou do próprio Zé Fernandes. Por esse motivo, suas

caracterizações são muito esquemáticas; o narrador

não as acompanha ou analisa, a não ser quando

suas ações interessam para configurar as reações

de Jacinto, de modo a modular sua personalidade,

ou definir sua trajetória.

Essas personagens secundárias não são propriamente

indivíduos; são generalizações, que ilustram

tipos humanos, isto é, modelos gerais de comportamento

ou personalidade. Eça de Queirós, através do

narrador, caracteriza-as com pinceladas grossas,

usando o método da caricatura, de que é mestre.

Freqüentemente, apresentam traços ridículos, que

denunciam a intenção satírica e crítica do autor.

SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 99 • ANGLO VESTIBULARES


A única personagem mais desenvolvida, fora o

protagonista, é a do próprio narrador Zé Fernandes,

que não é um simples coadjuvante, como as demais,

mas um deuteragonista, isto é, a segunda personagem

em importância, que forma um par com o protagonista.

Na verdade, Zé Fernandes é uma espécie de

duplo de Jacinto, um seu complemento; juntos, constituem

uma totalidade, em que o caráter impulsivo do

segundo é contrabalançado pelo perfil mais compassivo

do primeiro. É como se fossem uma atualização,

embora em escala e sentido diferentes, da dupla

inesquecível de Cervantes: Sancho Pança (Zé Fernandes)

e D. Quixote (Jacinto), em que o primeiro encarna

o espírito realista, e o segundo, o idealista.

Zé Fernandes representa o fidalgo culto, viajado

e perfeitamente identificado com suas raízes rurais

lusitanas, conformação que lhe dá a força de um

caráter bem centrado em si. Espírito prático e benigno,

tendo como principal característica psicológica o

temperamento afetuoso e compreensivo, constitui

uma espécie de personificação da amizade.

Num elucidativo ensaio9 , Alvaro Santos Simões

Junior demonstra como Zé Fernandes é a personagem

mais complexa do romance, dotado que é de

um caráter energético, nuançado pela ironia, malícia

e, em alguns momentos, até mesmo pelo cinismo.

Jacinto é o protagonista. Sua genealogia, modo

de vida, aspecto físico, suas idéias e sentimentos,

seus estados psicológicos e sua trajetória de Paris a

Tormes, sempre no limite da narrativa em primeira

pessoa, são apresentados minuciosamente ao leitor.

Jacinto representa a elite portuguesa ultracivilizada,

que se desenraizou do solo e da cultura lusitana.

Cidadão do mundo, identificado com o espírito

do progresso mecânico do século XIX, ele passa a

sofrer uma terrível crise existencial, desencadeada,

exatamente, por esse espírito insaciável de novidades,

que nunca tem repouso ou sossego. Refém

da insatisfação, sua alma se estiola num tédio profundo,

que o encaminha para o pessimismo filosófico.

Somente o reencontro das raízes nacionais e familiares,

na simplicidade da vida rural serrana de Tormes,

restitui-lhe a paz e alegria de viver.

A trajetória existencial de Jacinto é marcada por

três momentos. Inicialmente, ele nega o campo, que

considera como imagem do embrutecimento espiritual

e bestificação do homem, afirmando a cidade como

imagem-síntese do progresso e da civilização;

num segundo momento, seu tédio e desencanto da

vida urbana desencadeia o movimento inverso de

negação da cidade, como imagem da hipocrisia e

aviltamento, e afirmação do campo, como imagem

9 SIMÕES Jr., Alvaro S. “A Cidade e as Serras: a palinódia de Eça

de Queirós — um estudo do foco narrativo”, In: Miscelânea.

Universidade Estadual Paulista, Assis, 1993.

da regeneração das virtudes autênticas do homem;

finalmente, dá-se a síntese dialética, em que cidade

e campo se reconciliam, sob a hegemonia do segundo:

Jacinto realiza o equilíbrio dos dois termos, admitindo

certas conquistas da civilização, de forma

moderada, para melhor aproveitar os benefícios superiores

da natureza, sendo que esta se cristaliza

como a verdadeira fonte de felicidade e paz.

O nome do protagonista contém em si mesmo a

trajetória de sua vida, pela evocação do mito que

lhe é implícito. Jacinto é nome de uma personagem

da mitologia grega. Jovem de notável beleza, era

amado pelo deus Apolo. Um dia em que se divertiam

com exercícios atléticos, o disco lançado por

Apolo foi desviado pelo vento, atingindo Jacinto e

matando-o. Apolo, para imortalizar o amigo, transformou-o

na flor que recebeu seu nome. Apolo, deus

da cultura e civilização, amava o Jacinto mítico, assim

como a cidade de Paris, símbolo da cultura e

civilização, amava o Jacinto moderno; Apolo, apesar

de seu amor, provocou a morte do amigo, assim

como Paris provocava o definhamento de seu predileto;

Apolo restituiu vida ao amigo plantando-o na

terra e metamorfoseando-o em flor; Paris restituiu

Jacinto às suas origens rurais, completamente despojado

dos bens da civilização — ele chega a Tormes

somente com a roupa do corpo —, para ressuscitar

pleno de energia para a vida.

Tempo

A Cidade e as Serras compreende uma narrativa

que se inicia em torno de 1820, estendendo-se até

cerca de 1893. O relato segue a cronologia linearmente,

mas não de forma contínua; há alguns blocos

de tempo bem definidos, entre os quais se interpõem

períodos mais ou menos longos.

O primeiro bloco abrange o período que vai de

1820, aproximadamente — quando D. Galião, avô

de Jacinto, é socorrido de uma queda, numa rua de

Lisboa, pelo infante D. Miguel —, até fins de 1853 e

início de 1854, quando, respectivamente, morre o

pai de Jacinto e este nasce, em Paris. Este primeiro

bloco é apresentado de forma muito sintética, através

da técnica do sumário narrativo. O segundo

bloco, situado na segunda metade dos anos 1870,

apresenta o protagonista em sua juventude, entusiasmado

pelo progresso e pela civilização urbana, na

época em que conhece o amigo Zé Fernandes e estabelece

com ele estreita camaradagem. Este bloco,

que se encerra em 1880 com a partida de Zé Fernandes

para a aldeia de Guiães, após alguns anos

de estudo em Paris, também se apresenta na forma

de sumário narrativo. Esses dois blocos iniciais encontram-se

no primeiro capítulo do romance.

O terceiro bloco, que vai do capítulo II ao VII,

compreende o período de um ano que se estende

SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 100 • ANGLO VESTIBULARES


de fevereiro de 1887 a fevereiro de 1888. Aqui o método

narrativo é mais analítico; se, no primeiro e

segundo blocos, predomina a técnica do sumário, no

terceiro, prevalece a da cena, em que os acontecimentos

são expostos detidamente, com minúcia de

detalhes. A narrativa dramatiza os fatos selecionados

pelo narrador, que apresenta o cotidiano sufocante

de Jacinto, em meio a suas obrigações sociais. Os

episódios narrados têm a função de compor uma

imagem da vida urbana, em que o protagonista acaba

sucumbindo ao tédio e pessimismo.

O quarto bloco é composto pelos capítulos de VIII

a XIV, em que se mantém o método predominante da

cena. A ação se concentra, a exemplo do terceiro

bloco, na dramatização de episódios que transcorrem

no período de um ano, desde a partida de Jacinto e

Zé Fernandes, de Paris para Tormes, em abril de

1888, até maio de 1889, quando Jacinto se casa com

Joaninha. Aqui, a narrativa se concentra na apresentação

de Jacinto convertido ao meio rural, entusiasmado

com a vida simples e laboriosa de sua quinta,

havendo reconquistado a alegria de viver.

O último bloco temporal, composto dos capítulos

XV e XVI, retoma a primazia do método de sumário

narrativo, para concluir o romance com a

apresentação da felicidade familiar de Jacinto, com

sua mulher e filhos.

Espaço

O elemento espacial é decisivo na estruturação de

A Cidade e as Serras. O romance é nitidamente

construído a partir de uma relação opositiva, que se

apresenta desde o título. De um lado, o meio urbano;

de outro, o meio rural. Mais, essa oposição básica

se desdobra, ao longo da narrativa, na forma de

um jogo dialético de afirmação e negação de cada

um dos termos.

Na perspectiva do espaço, a obra divide-se em

duas partes, mediadas por uma terceira, que serve

de transição entre elas. A primeira é constituída pelos

capítulos de I a VII; a segunda, pelos capítulos

de IX a XVI, sendo o capítulo VIII de transição.

Observe-se o equilíbrio quase perfeito entre as partes:

sete capítulos, a primeira; oito, a segunda; com

o de transição no meio. Se considerarmos que a

maior parte deste último se identifica com o espírito

da primeira parte, então, a impressão de equilíbrio

se acentua, pois teríamos a obra organizada

em dois blocos iguais de oito capítulos.

No primeiro bloco, genericamente, a cidade se

apresenta investida de valores positivos, enquanto o

campo se caracteriza negativamente. A cidade,

nesse caso, representa o mundo da cultura e civilização,

o espaço privilegiado do progresso científico e

tecnológico, que é visto como responsável pela humanização

do homem. O campo, ao contrário, é o

domínio da natureza e da selvageria, que degrada o

homem, reduzindo-o à condição de bestialidade.

No segundo bloco, invertem-se as relações. A cidade

é carregada de negatividade, apresentando-se

como espaço de aviltamento do homem. O progresso

é visto como ilusão, uma vez que constitui privilégio

de poucos, ao preço da exploração de muitos.

O luxo da elite minoritária decorre da condição miserável

da maioria desfavorecida. Além disso, a profusão

de bens materiais e espirituais, na cidade,

provoca uma espécie de anulação de seus valores

específicos, uma vez que tendem à padronização

niveladora. Como diz Jacinto:

Na cidade, pelo contrário, cada casa repete servilmente

a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma

indiferença ou inquietação; as idéias têm todas o

mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como

as libras; e até o que há mais pessoal e íntimo, a ilusão,

é em todos idêntica, e todos a respiram, e todos se

perdem nela como no mesmo nevoeiro... A mesmice

— eis o horror das cidades! (p. 126)

Nessa fala de Jacinto ecoa aquela formulação de

Marx segundo a qual, na sociedade capitalista, todos

os valores se reduzem a um só, ou, em outros termos,

o valor de uso dos bens materiais e espirituais,

que é múltiplo, reduz-se a um único valor, de troca.

Por outro lado, essa redução, esse nivelamento,

produz um efeito perverso. Uma vez que o desejo de

novidade, típico da civilização moderna, nunca é saciado,

pois tudo é o mesmo, a própria elite, beneficiária

do progresso, torna-se presa de um terrível mal —

o tédio, que conduz ao pessimismo e ao desencanto

da vida.

Enquanto a cidade é assim criticada, o campo é

visto idilicamente. A natureza se apresenta como

espaço de libertação da inteligência e ressurreição

para a vida autêntica. Trata-se de uma idealização

da vida rural, conforme a tradição clássica, desde

Hesíodo (século VIII a.C.), Virgílio (século I a.C.), até

os poetas árcades do século XVIII, segundo a qual a

vida campestre é fonte de paz e felicidade. De Virgílio,

por sinal, são os versos citados no capítulo IX

de A Cidade e as Serras, ligeiramente modificados

por Eça de Queirós para se adaptarem à situação do

protagonista: Fortunate Jacinthe! Hic, interava nota /

Et fontes sacros, frigus captabis opacum... 10 (Afortunado

Jacinto! Aqui, em meio a terras conhecidas /

E fontes sacras, colherás sombra e frescor), que o

autor traduz livremente por: Afortunado Jacinto, na

verdade! Agora, entre campos que são teus e águas

que te são sagradas, colhes enfim a sombra e a paz!

10 Os versos originais de Virgílio dizem: Fortunate senex, hic

inter flumina nota / et fontis sacros frigus captabis opacum.

(Afortunado velho, aqui entre rios conhecidos / e sacras

fontes, colherás sombra e frescor). Bucólicas, I, versos 50 e 51.

SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 101 • ANGLO VESTIBULARES


É fato que, no romance, essas relações todas não

são tão esquemáticas como as apresentamos. Na verdade,

nos capítulos de I a VIII, prevalece o elogio da

cidade, cuja superioridade se celebra. No entanto, Zé

Fernandes, por exemplo, levanta sérias objeções ao

entusiasmo irrestrito de Jacinto pela urbanidade. Por

outro lado, nos capítulos de IX a XVI, predomina a

apologia da natureza, apresentada como superior à

cidade. Mas, aqui também, o ímpeto idealizador de

Jacinto é temperado com as ponderações realistas de

Zé Fernandes sobre a natureza (— Meu filho, olha

que eu não passo de um pequeno proprietário. Para

mim não se trata de saber se a terra é linda, mas se a

terra é boa.), ou com a revelação da existência de

miséria entre os camponeses.

Outra consideração relevante sobre o espaço,

nessa obra, diz respeito à moradia do protagonista

em Paris, o “202”. O prodigioso palacete apresenta-se

como um microcosmo da civilização urbana. Todo

seu luxo e conforto, toda parafernália mecânica, toda

erudição acumulada em sua biblioteca de trinta mil

volumes impressionam, à primeira vista, pela magnificência.

Uma observação mais detida, contudo, impõe

outra imagem — de ineficiência, inutilidade e

opressão. As panes mecânicas e elétricas transtornam

a vida cotidiana; os livros não se abrem; a casa tem

uma atmosfera pesada, como de estufa, em que Jacinto

definha solitário. No último capítulo, quando Zé

Fernandes visita Paris pela derradeira vez, o “202”

despovoado cristaliza-se como imagem de um museu

das ilusões equivocadas de uma época de equívocos:

E então, passeando através das salas, realmente

me pareceu que percorria um museu de antigüidades;

e que mais tarde outros homens, com uma

compreensão mais pura e exata da vida e da felicidade,

percorreriam, como eu, longas salas, atulhadas

com os instrumentos da super-civilização, e, como

eu, encolheriam desdenhosamente os ombros

ante a grande ilusão que findara, agora para sempre

inútil, arrumada como um lixo histórico, guardado

debaixo da lona. (pp. 187-188)

Estilo

Na perspectiva da escola literária, A Cidade e as

Serras mescla tendências estilísticas comuns na literatura

da segunda metade do século XIX: Realismo,

Naturalismo e Impressionismo.

Do Realismo, o romance empresta, principalmente,

o espírito crítico, com que Eça de Queirós

castiga o francesismo da elite rural portuguesa de

seu tempo. Esta, segundo se depreende da leitura

atenta da obra, seduzida pelo estilo de vida diletante

parisiense, seria responsável pelo abandono em que

se encontravam as propriedades agrárias.

Do Naturalismo, A Cidade e as Serras aproveita

o gênero do romance de tese, inventado por essa

tendência, para defender a superioridade da vida

rural sobre a urbana. Outras características desse

estilo, freqüentes na obra, apresentam-se no rebaixamento

de personagens à condição de animalidade

(zoomorfismo) e na exibição de elementos

sórdidos ou desagradáveis (estética do feio). Observem-se

as expressões negritadas, no exemplo

selecionado, em que o narrador Zé Fernandes reproduz

o delírio que sofreu, quando se embriagou

por ter sido abandonado pela amante.

Era ela! Era a Madame Colombe, que esfuziara

da chama da vela, e saltara sobre o meu leito, e desabotoara

o meu colete, e arrombara as minhas costelas,

e toda ela, com as saias sujas, mergulhara

dentro do meu peito, e abocara o meu coração, e

chupava a sorvos lentos, como na Rua do Hélder, o

sangue do meu coração! Então, certo da morte, ganindo

pela tia Vicência, pendi do leito para mergulhar

na minha sepultura, que, através da névoa fina,

eu distinguia sobre o tapete — redondinha, vidrada,

de porcelana e com asa. E, sobre a minha sepultura,

que tão irreverentemente se assemelhava ao meu

vaso, vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei

a lagosta. Depois, num esforço ultra-humano,

com um rugido, sentindo que, não somente toda a

entranha, mas a alma se esvaziava toda, vomitei

Madame Colombe! (p. 61)

A técnica impressionista manifesta-se especialmente

nas descrições da natureza campestre, em

que a captação dos fatos exteriores pelas sensações

é apresentada conforme a percepção imediata deles,

sem intervenção de análise racional. Observe-se, no

texto selecionado como exemplo, o emprego dos

verbos rolar, desabar, subir e embeber, destacados

em negrito. No primeiro caso, o narrador, que se encontra

num trem em movimento, em vez de dizer que

as rodas deste rolavam sobre os trilhos, transmite ao

leitor a sensação pessoal imediata de estar ele a rolar;

no segundo, o rápido deslocamento do olhar do

narrador, de alto a baixo, cria a impressão de que os

penhascos desabam; no terceiro, ocorre um movimento

inverso, quando o olhar percorre velozmente

o terreno de topografia ascendente, as oliveiras plantadas

nele transmitem a sensação fugaz de estarem a

subir pela encosta.

Rolávamos na vertente de uma serra, sobre penhascos

que desabavam até largos socalcos cultivados

de vinhedo. Embaixo, numa esplanada, branquejava

uma casa nobre, de opulento repouso, com a

capelinha muito caiada entre um laranjal maduro.

Pelo rio, onde a água turva e tarda nem se quebrava

contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco

lento carregado de pipas. Para além, outros socalcos,

de um verde pálido de resedá, com oliveiras apoucadas

pela amplidão dos montes, subiam até outras

penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas,

na fina abundância do azul. (p. 101)

SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 102 • ANGLO VESTIBULARES


Do ponto de vista do estilo pessoal, observam-se

nesse último romance de Eça de Queirós as mesmas

características que sempre o distinguiram como

prosador. Dentre elas, destacam-se a ironia, que

percorre cada página da narrativa, o humor, o grande

talento na composição de caricaturas, o uso

expressivo do adjetivo e do advérbio. Além

dessas, merecem menção especial a paródia e o

senso de contraste.

A paródia consiste na referência irônica a obras

consagradas, literárias ou de outra espécie, de modo

a estabelecer uma relação de intertextualidade, cujo

efeito de sentido é, geralmente, jocoso. Entre as

mais relevantes para A Cidade e as Serras estão o

Eclesiastes bíblico, as obras do filósofo pessimista

Schopenhauer, D. Quixote, de Cervantes, as Bucólicas

e as Geórgicas, de Virgílio.

O senso de contraste, que é o princípio estruturador

do romance, ocorre em vários níveis: na macroestrutura

do romance (contraposição entre cidade

e campo; cultura e natureza), na representação das

relações socioeconômicas (contradição entre capital

e trabalho, riqueza e miséria), na caracterização psicológica

das personagens (pessimismo e otimismo

de Jacinto; idealismo de Jacinto e realismo de Zé Fernandes;

frivolidade da Joana — Madame de Oriol

— parisiense, amante infiel, versus autenticidade da

Joana serrana, esposa e mãe dedicada, etc.) e no

plano da composição lingüística (articulação de expressões

finas e delicadas com observações grosseiras).

EXERCÍCIOS

1. Justifique o apelido de Príncipe da Grã-Ventura

atribuído pelos amigos ao protagonista de A

Cidade e as Serras.

2. Explique a ambigüidade do emprego do apelido

referido na questão anterior, pelo narrador Zé

Fernandes, na situação de tédio, desencanto e

pessimismo de Jacinto.

3. Descreva sumariamente a estrutura bipartida de

A Cidade e as Serras.

4. Que tipo de relação se estabelece entre as duas

partes da narrativa do romance em questão?

Explique por quê.

5. Identifique o foco narrativo de A Cidade e as Serras,

explicando as conseqüências dessa escolha

para a narrativa e caracterização de personagens.

6. Como se classificam as personagens de A Cidade

e as Serras, do ponto de vista de suas caracterizações?

7. Por que se pode afirmar que A Cidade e as Serras

é um romance de espaço?

8. Por que o romance A Cidade e as Serras pode ser

visto como uma alegoria?

9. Do ponto de vista da escola literária, como classificar

A Cidade e as Serras?

10. Cite algumas características do estilo pessoal de

Eça de Queirós, presentes em A Cidade e as

Serras.

11. Justifique a identificação do texto transcrito a seguir

com a corrente literária do Naturalismo.

É uma bela moça, mas uma bruta... Não há ali

mais poesia, nem mais sensibilidade, nem

mesmo mais beleza do que numa linda vaca turina.

Merece o seu nome de Ana Vaqueira. Trabalha

bem, digere bem, concebe bem. Para isso

a fez a natureza, assim sã e rija; e ela cumpre. O

marido todavia não parece contente, porque a

desanca. Também é um belo bruto... Não, meu

filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe

estou... Mas temos aqui a fêmea em toda a sua

animalidade e o macho em todo o seu egoísmo...

(p. 124)

12. Leia o texto transcrito a seguir e identifique a

corrente estilística a que se filia. Justifique sua

resposta.

Numa dessas manhãs — justamente na véspera

do meu regresso a Guiães, — o tempo, que

andara pela serra tão alegre, num inalterado riso

de luz rutilante, todo vestido de azul e ouro fazendo

poeira pelos caminhos, e alegrando toda a

natureza, desde os pássaros até os regatos, subitamente,

com uma daquelas mudanças que

tornam o seu temperamento tão semelhante ao do

homem, apareceu triste, carrancudo, todo embrulhado

no seu manto cinzento, com uma tristeza

tão pesada e contagiosa que toda a serra

entristeceu. E não houve mais pássaro que cantasse,

e os arroios fugiram para debaixo das ervas,

com um lento murmúrio de choro.

RESPOSTAS

1. Esse apelido justifica-se pelos dotes naturais e

espirituais que os amigos reconheciam em Jacinto:

saudável, enérgico, inteligente, rico e dotado

de uma sorte extraordinária.

2. Na situação depressiva do protagonista, quando

Zé Fernandes chama Jacinto meu príncipe, o

apelido pode ser entendido de duas maneiras:

dada a amizade que os une, o epíteto tem o valor

de expressão afetuosa; por outro lado, ele assume

um valor irônico, uma vez que o príncipe

da grã-ventura, na verdade, padecia grande infelicidade.

SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 103 • ANGLO VESTIBULARES


3. O romance se estrutura em duas partes iguais

em extensão e contrapostas quanto ao sentido. A

primeira, constituída dos oito primeiros capítulos,

mostra o protagonista identificado com a

civilização urbana e infeliz; a segunda, que ocupa

os oito capítulos restantes, apresenta Jacinto

identificado com a natureza e feliz.

4. Entre as duas partes de A Cidade e as Serras,

estabelece-se uma relação de antítese, uma vez

que a segunda se contrapõe à primeira de forma

opositiva.

5. Eça de Queirós valeu-se do foco narrativo em

primeira pessoa, com narrador-testemunha, isto

é, o narrador participa dos acontecimentos relatados

por ele, não como protagonista, mas como

observador privilegiado. Como tal, seu relato

limita-se àquilo que presencia, não sendo

capaz de conhecer, da vida interior das personagens,

mais do que elas dão a saber. As opiniões

do narrador, a respeito de fatos e pessoas, são

marcadas por sua subjetividade.

6. Geralmente, as personagens dessa obra são planas,

típicas e caricatas, não apresentam densidade

psicológica, limitando-se a representar esquematicamente

generalizações de tipos humanos

ou sociais. Mesmo o protagonista, embora

mais desenvolvido em sua constituição

moral, padece de esquematismo em sua caracterização.

A única personagem mais complexa é

Zé Fernandes, uma vez que, sendo o próprio

narrador, está em condição de oferecer um panorama

mais rico de sua intimidade.

7. Porque o elemento espacial é decisivo na estruturação

desse romance, o que se pode observar desde

o título da obra.

8. A Cidade e as Serras pode ser visto como uma

alegoria na medida em que se trata de uma narrativa

metafórica de significado simbólico.

9. A Cidade e as Serras é um romance realista, que

mescla as tendências estilísticas do Realismo

propriamente dito, do Impressionismo e do Naturalismo.

10. As principais características do estilo queirosiano,

presentes em A Cidade e as Serras, são a

ironia, o humor, o caricaturismo, o uso expressivo

de certas categorias gramaticais, como os

adjetivos e advérbios, a paródia, a intertextualidade

e o senso de contraste.

11. A característica mais notável do Naturalismo,

presente no texto, consiste no zoomorfismo, isto

é, no rebaixamento de seres humanos à escala

animal.

12. Trata-se da corrente estilística chamada Impressionismo,

em que os objetos exteriores são

apresentados de acordo com as sensações e

emoções provocadas na subjetividade do observador.

É o que ocorre no texto em questão, quando

elementos da natureza adquirem atributos

humanos (prosopopéia) na visão do narrador.

SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 104 • ANGLO VESTIBULARES

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