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“Isso não é um cachimbo”: sobre os usuários de crack - Áskesis

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<strong>“Isso</strong> <strong>não</strong> <strong>é</strong> <strong>um</strong> <strong>cachimbo”</strong>:<br />

<strong>sobre</strong> usuári<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>crack</strong>,<br />

seus artefat<strong>os</strong> e suas relações 1<br />

Taniele Rui 2<br />

Res<strong>um</strong>o: Focando no objeto mediador necessário ao cons<strong>um</strong>o <strong>de</strong> <strong>crack</strong>, o cachimbo, viso,<br />

neste artigo, articular relações sociais e materiais concernentes a esse universo. A partir <strong>de</strong>ste<br />

artefato, boto em relevo a atuação das políticas <strong>de</strong> redução <strong>de</strong> dan<strong>os</strong> e suas diferenças e divergências<br />

diante da abordagem policial. Indico tamb<strong>é</strong>m a relevância das suas comp<strong>os</strong>ições para<br />

a i<strong>de</strong>ntificação <strong>de</strong> <strong>um</strong>a cena <strong>de</strong> uso e, principalmente, problematizo as fronteiras que ligam,<br />

mas tamb<strong>é</strong>m separam, pessoas e coisas.<br />

Palavras-chave: cachimb<strong>os</strong>, us<strong>os</strong> do <strong>crack</strong>, “etnografia das coisas”.<br />

Abstract: In this paper, my main attention is on the pipes of drug users. My intention is to<br />

articulate the social and the material relationships that comp<strong>os</strong>e this universe. Through this<br />

artifact, I pay attention and compare harm reduction policies and public securitie policies. I<br />

also show the importance of this object to i<strong>de</strong>ntify a use scene and, finaly, I put in question the<br />

bor<strong>de</strong>rs between people and things.<br />

Keywords: pipes, <strong>crack</strong>, “ethnography of things”.<br />

1 Agra<strong>de</strong>ço imensamente às Profs. Dras. Heloísa Pontes, Maria Filomena Gregori e R<strong>os</strong>ana Pinheiro Machado, bem<br />

como à colega Magda Ribeiro; as quatro são as maiores incentivadoras <strong>de</strong>sse projeto <strong>de</strong> tomar <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> como<br />

objet<strong>os</strong> <strong>de</strong> análise. À R<strong>os</strong>ana Pinheiro Machado agra<strong>de</strong>ço, ainda, a p<strong>os</strong>sibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> apresentar e discutir <strong>um</strong>a versão<br />

inicial do texto no V ENEC, que foi <strong>de</strong>pois reformulada para comunicação no Seminário Tráfic<strong>os</strong>, violência urbana e o<br />

cons<strong>um</strong>o <strong>de</strong> psicoativ<strong>os</strong>, realizado na Faculda<strong>de</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública da USP em novembro <strong>de</strong> 2010. Sou grata tamb<strong>é</strong>m à<br />

Clarissa Rahmeier por me enviar seus text<strong>os</strong> e ao prof. Dr. Omar Ribeiro Thomás, com quem tive o privil<strong>é</strong>gio <strong>de</strong> discutir<br />

o livro <strong>de</strong> Sonia Silva (2004).<br />

2 Doutoranda do Programa <strong>de</strong> Pós-graduação em Antropologia Social da Unicamp, bolsista FAPESP, tanielerui@yahoo.<br />

com.br<br />

<strong>Áskesis</strong> - Revista d<strong>os</strong> Discentes do PPGS/UFSCar | v. 1 | n. 1 | jan/jul - 2012 | p. 32 – 45 | ISSN 2238-3069 | 32


Em <strong>um</strong>a roda, Vivian, o namorado e mais <strong>um</strong> homem preparam <strong>os</strong> seus cachimb<strong>os</strong> n<strong>um</strong><br />

“mocó” na linha. Com muita concentração esfarelam a pedra e a acomodam em cima das<br />

cinzas <strong>de</strong> cigarro, n<strong>um</strong> cachimbo feito por eles mesm<strong>os</strong>. O <strong>de</strong> Vivian foi confeccionado<br />

a partir <strong>de</strong> <strong>um</strong> cano <strong>de</strong> PVC marrom, o do seu namorado a partir <strong>de</strong> <strong>um</strong> isqueiro cortado<br />

ao meio. O do terceiro homem foi produzido com <strong>um</strong>a lâmpada: ele havia feito <strong>um</strong> furo<br />

na parte mais cilíndrica <strong>de</strong>la e, em cima, tendo tirado o seu bocal, <strong>de</strong>p<strong>os</strong>itava as cinzas<br />

e a pedra. Um d<strong>os</strong> redutores se interessa por essa feitura incom<strong>um</strong> e fala: “<strong>de</strong>ixa eu ver<br />

o seu Bóris?”. O homem olha com <strong>um</strong> aspecto assustado <strong>de</strong> quem fica surpreso diante<br />

do fato <strong>de</strong> saber que o redutor compartilhava da sua forma <strong>de</strong> nomear o cachimbo e<br />

prontamente o oferece para observação. O redutor elogia a feitura e diz a ele que seria<br />

mais interessante se conseguisse colocar água <strong>de</strong>ntro do Bóris e o adverte: “a borra do<br />

cachimbo faz muito mal para o corpo. Se você colocar água, ela se dissolve, daí você <strong>não</strong><br />

f<strong>um</strong>a isso, enten<strong>de</strong>u?” (Ca<strong>de</strong>rno <strong>de</strong> Campo, Campinas, 10/03/2009)<br />

A situação acima, ocorrida já no segundo dia <strong>de</strong> pesquisa <strong>de</strong> campo, foi a primeira <strong>de</strong> muitas<br />

semelhantes presenciadas ao longo do meu trabalho <strong>de</strong> campo junto a usuári<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>crack</strong> das cida<strong>de</strong>s<br />

<strong>de</strong> Campinas-SP e <strong>de</strong> São Paulo3 . Era <strong>um</strong>a terça-feira, por volta <strong>de</strong> quatro horas da tar<strong>de</strong>.<br />

Sete pessoas: três usuári<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>crack</strong>, três redutores <strong>de</strong> dan<strong>os</strong> e eu. Os três primeir<strong>os</strong> preparavam<br />

o <strong>crack</strong> e o f<strong>um</strong>avam, enquanto <strong>os</strong> redutores ofereciam materiais educativ<strong>os</strong> <strong>de</strong> prevenção a<strong>os</strong><br />

p<strong>os</strong>síveis dan<strong>os</strong> <strong>de</strong>correntes do uso da substância. Eu apenas observava. A feitura <strong>de</strong> <strong>um</strong> cachimbo<br />

at<strong>é</strong> então incom<strong>um</strong>, produzido a partir <strong>de</strong> <strong>um</strong>a lâmpada, chamou a atenção do redutor,<br />

que pediu para ver o Bóris Em fração <strong>de</strong> segund<strong>os</strong>, o olhar rápido d<strong>os</strong> dois, a <strong>um</strong> só tempo surpreso<br />

e cúmplice, <strong>de</strong>spertou meu interesse. O cachimbo tinha nome, <strong>um</strong> nome próprio.<br />

Como <strong>um</strong>a antropóloga avisada, já sabia – pela leitura d<strong>os</strong> text<strong>os</strong> Bour dieu e Delsaut<br />

(1975), Pina Cabral (2008), Pontes (2008) – que o nome i<strong>de</strong>ntifica, referencia, comunica e, no<br />

auge da sua consagração, produz <strong>um</strong>a “curi<strong>os</strong>a contaminação <strong>de</strong> prestígio” em tudo e tod<strong>os</strong><br />

que estão ao seu redor. Ali, naquela linha <strong>de</strong> trem e naquela situação precária, <strong>não</strong> foi diferente.<br />

Saber o nome do cachimbo e partilhar <strong>de</strong> vocabulário tão cifrado garantiu ao redutor o<br />

privil<strong>é</strong>gio <strong>não</strong> só <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r observar aquele objeto nas mã<strong>os</strong>, como tamb<strong>é</strong>m abriu portas para<br />

que suas i<strong>de</strong>ias <strong>sobre</strong> saú<strong>de</strong> f<strong>os</strong>sem transmitidas. Por <strong>um</strong> momento, partilharam <strong>um</strong> segredo e<br />

<strong>um</strong>a informação. Sete pessoas conversando <strong>sobre</strong> o cachimbo e o cachimbo pondo tod<strong>os</strong> nós<br />

em relação.<br />

O cachimbo <strong>é</strong> tamb<strong>é</strong>m o tema do texto em tela. Men<strong>os</strong> pelo que ele <strong>é</strong> e mais pelo que ele<br />

conecta4 . A relação estabelecida entre esses usuári<strong>os</strong> e <strong>os</strong> objet<strong>os</strong> mediadores do cons<strong>um</strong>o da<br />

droga e o que essa interação informa acerca das relações sociais que configuram esse universo<br />

<strong>é</strong> o principal objetivo do texto. Pois <strong>é</strong> <strong>sobre</strong> <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> que versam a maioria das minhas<br />

conversas com esses usuári<strong>os</strong>, <strong>é</strong> em torno <strong>de</strong>les (e <strong>de</strong> seus us<strong>os</strong> higiênic<strong>os</strong>) que boa parte da<br />

política <strong>de</strong> redução <strong>de</strong> dan<strong>os</strong> se assenta e, al<strong>é</strong>m disso, chamam atenção as apreensões policiais<br />

<strong>de</strong>sses objet<strong>os</strong>, n<strong>um</strong> processo metonímico para classificar seus portadores e justificar a<br />

ação d<strong>os</strong> órgã<strong>os</strong> <strong>de</strong> segurança pública. Como busco m<strong>os</strong>trar, <strong>um</strong>a análise mais atenta <strong>de</strong>sses<br />

materiais tamb<strong>é</strong>m permite visl<strong>um</strong>brar outr<strong>os</strong> atores (como <strong>os</strong> comerciantes locais, representantes<br />

legais e mídia) participantes do complexo social e material do qual <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>crack</strong><br />

são parte e, ainda, esses objet<strong>os</strong> e seus rest<strong>os</strong> merecem atenção porque eles são inseparáveis<br />

3 Mais especificamente, <strong>os</strong> dad<strong>os</strong> apresentad<strong>os</strong> foram recolhid<strong>os</strong> entre fevereiro <strong>de</strong> 2009 e novembro <strong>de</strong> 2010, junto<br />

ao então Programa <strong>de</strong> Redução <strong>de</strong> Dan<strong>os</strong> (PRD) da cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Campinas e à ONG É <strong>de</strong> Lei, que realiza semelhante<br />

trabalho em São Paulo, na região que ficou conhecida como “cracolândia”.<br />

4 Lição aprendida com Levi-Strauss que, no seu estudo <strong>sobre</strong> as máscaras, escreveu: “Fui incapaz <strong>de</strong> respon<strong>de</strong>r a<br />

todas estas interrogações enquanto <strong>não</strong> compreendi que, tal como <strong>os</strong> mit<strong>os</strong>, as máscaras <strong>não</strong> po<strong>de</strong>m ser interpretadas<br />

em si e por si, como objet<strong>os</strong> isolad<strong>os</strong>. [...] Nesta perspectiva, portanto, <strong>de</strong>ver-se-á constatar que as funções sociais<br />

ou religi<strong>os</strong>as atribuídas a<strong>os</strong> vári<strong>os</strong> tip<strong>os</strong> <strong>de</strong> máscaras que opom<strong>os</strong> para comparação se encontram entre si na mesma<br />

relação <strong>de</strong> transformação que a plástica, o grafismo, e o colorido das próprias máscaras, encaradas como objet<strong>os</strong><br />

materiais.” (LEVI-STRAUSS, 1979, p. 15-16).<br />

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da constituição e i<strong>de</strong>ntificação <strong>de</strong> <strong>um</strong>a cena <strong>de</strong> uso, são sinais que orientam a caminhada d<strong>os</strong><br />

usuári<strong>os</strong>, d<strong>os</strong> redutores <strong>de</strong> dan<strong>os</strong>, <strong>de</strong> uns cem númer<strong>os</strong> <strong>de</strong> instituições assistenciais e religi<strong>os</strong>as,<br />

da polícia e, tamb<strong>é</strong>m, <strong>de</strong>sta antropóloga. Enfim, ao falar do cachimbo, falo tamb<strong>é</strong>m do<br />

cons<strong>um</strong>o <strong>de</strong> <strong>crack</strong> e m<strong>os</strong>tro como ele está imerso em relações pessoais e sociais com coisas,<br />

lugares, pessoas, instituições e i<strong>de</strong>ias5 .<br />

Seguindo o ensinamento <strong>de</strong> Appadurai (2008, p.17), o objetivo <strong>de</strong> centrar a atenção n<strong>os</strong><br />

cachimb<strong>os</strong> <strong>é</strong>, <strong>sobre</strong>tudo, metodológico. Assim como o autor, <strong>não</strong> tenho dúvida <strong>de</strong> que as coisas<br />

<strong>não</strong> têm significad<strong>os</strong> afora <strong>os</strong> que lhes conferem as transações, atribuições e motivações<br />

h<strong>um</strong>anas. Contudo, essa “verda<strong>de</strong> formal”, diz ele, <strong>não</strong> lança qualquer luz <strong>sobre</strong> a circulação<br />

das coisas no mundo concreto e histórico. É por isso, para enten<strong>de</strong>r o que se passa, que Appadurai<br />

n<strong>os</strong> pe<strong>de</strong> para seguir as coisas em si mesmas, pois <strong>os</strong> seus significad<strong>os</strong> estão inscrit<strong>os</strong><br />

em suas formas, seus us<strong>os</strong> e suas trajetórias. Ou seja, embora do ponto <strong>de</strong> vista teórico atores<br />

h<strong>um</strong>an<strong>os</strong> codifiquem as coisas por meio <strong>de</strong> significações, <strong>de</strong> <strong>um</strong> ponto <strong>de</strong> vista metodológico<br />

são as coisas em movimento que elucidam seu contexto h<strong>um</strong>ano e social6 .<br />

Contudo, essa “verda<strong>de</strong> formal” <strong>não</strong> impe<strong>de</strong> com que, em alguns cas<strong>os</strong>, haja <strong>um</strong> trânsito<br />

<strong>de</strong> agência entre coisas e pessoas, dado que a agência, como afirma Gell (1998, p.16-19), <strong>é</strong> a<br />

capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> pessoas ou coisas incitarem relações sociais. O seu exemplo <strong>não</strong> po<strong>de</strong>ria ser<br />

mais claro: <strong>um</strong>a garotinha que ama a sua boneca e que a tem como melhor amiga. Se a boneca<br />

e o irmão da garotinha estivessem se afogando, ela salvaria sua boneca? É claro que <strong>não</strong>. Mas<br />

o fato <strong>de</strong> ela saber que a boneca <strong>não</strong> <strong>é</strong> <strong>um</strong> ser h<strong>um</strong>ano <strong>não</strong> a impe<strong>de</strong> <strong>de</strong> ter relações afetivas<br />

com ela. O mais importante <strong>é</strong> term<strong>os</strong> em conta que <strong>os</strong> objet<strong>os</strong> são seres sociais com <strong>os</strong> quais<br />

interagim<strong>os</strong>. Nesse sentido, o caso d<strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> a ser analisado na sequência se assemelha<br />

muito, usando <strong>os</strong> term<strong>os</strong> <strong>de</strong> Jackson (2004, p.19), “à forma como ten<strong>de</strong>m<strong>os</strong> a incluir na n<strong>os</strong>sa<br />

h<strong>um</strong>anida<strong>de</strong> as coisas que n<strong>os</strong> são queridas, que n<strong>os</strong> acompanham nas dificulda<strong>de</strong>s e incorporam<br />

as n<strong>os</strong>sas memórias”.<br />

E se em alguns moment<strong>os</strong> as coisas po<strong>de</strong>m ser pessoalizadas, ainda <strong>é</strong> preciso consi<strong>de</strong>rar<br />

o fato <strong>não</strong> men<strong>os</strong> verda<strong>de</strong>iro <strong>de</strong> que as pessoas tamb<strong>é</strong>m po<strong>de</strong>m ser tratadas como coisas. Nas<br />

palavras <strong>de</strong> Silva (2004, p.36), “serm<strong>os</strong> pessoas implica sempre a p<strong>os</strong>sibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> serm<strong>os</strong><br />

ignorad<strong>os</strong>, esquecid<strong>os</strong>, esmagad<strong>os</strong>, abandonad<strong>os</strong>, p<strong>os</strong>t<strong>os</strong> <strong>de</strong> parte, maltratad<strong>os</strong>, <strong>de</strong>struíd<strong>os</strong>,<br />

como se fôssem<strong>os</strong> ningu<strong>é</strong>m. O risco <strong>de</strong> n<strong>os</strong> tornarm<strong>os</strong> <strong>um</strong>a coisa está sempre presente”. Nada<br />

mais <strong>de</strong>scritivo da realida<strong>de</strong> d<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>crack</strong>, cujas histórias <strong>de</strong> sofrimento <strong>não</strong> cabe aqui<br />

recuperar. Ainda assim, <strong>é</strong> <strong>de</strong> notar o contraste entre o pouco que falam <strong>sobre</strong> suas vidas e o<br />

muito que dizem e fazem com <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong>. Tal contraste <strong>não</strong> me parece aleatório. É assim,<br />

n<strong>um</strong> contexto em que pessoas coisificadas interagem com coisas pessoalizadas, que a minha<br />

reflexão encontra espaço.<br />

De agora em diante e partindo fundamentalmente <strong>de</strong> dad<strong>os</strong> empíric<strong>os</strong>, pretendo m<strong>os</strong>trar<br />

como a inteligibilida<strong>de</strong> da experiência do uso <strong>de</strong> <strong>crack</strong> <strong>é</strong> inseparável da reflexão acerca <strong>de</strong>sses<br />

cachimb<strong>os</strong>. O texto está dividido em quatro partes. Começo por m<strong>os</strong>trar como <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong><br />

constituem e se diferem <strong>de</strong> acordo com a cena <strong>de</strong> uso, <strong>de</strong>pois <strong>os</strong> apresento como ins<strong>um</strong><strong>os</strong><br />

oferecid<strong>os</strong> pel<strong>os</strong> Programas <strong>de</strong> Redução <strong>de</strong> Dan<strong>os</strong> (PRDs), em seguida parto para a noção <strong>de</strong><br />

5 É preciso aqui notar que esta análise <strong>é</strong> parte da tese <strong>de</strong> doutorado que venho escrevendo, focada n<strong>os</strong> us<strong>os</strong> e gestões<br />

do <strong>crack</strong>. Portanto, esta via analítica <strong>não</strong> substitui outras formas <strong>de</strong> a<strong>de</strong>ntrar na questão nem <strong>de</strong> observá-la. É apenas<br />

<strong>um</strong>a maneira <strong>de</strong> dar visibilida<strong>de</strong> a process<strong>os</strong> que po<strong>de</strong>riam ser igualmente visl<strong>um</strong>brad<strong>os</strong> a partir <strong>de</strong> outras perspectivas.<br />

6 Um longo e complexo <strong>de</strong>bate marca o modo como a antropologia aborda a relação entre pessoas e coisas, bem<br />

como o chamado mundo material. Não <strong>é</strong> o caso <strong>de</strong> retomá-lo. Para <strong>um</strong> panorama da questão, recomendo a leitura da<br />

entrevista que o antropólogo britânico Daniel Miller conce<strong>de</strong>u à Vianna e Ribeiro, publicada na Revista <strong>de</strong> Antropologia<br />

da USP (2009), bem como o número especial da Horizontes Antropológic<strong>os</strong> (v.13, n.28, 2007) <strong>de</strong>dicado ao assunto.<br />

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vínculo estabelecida entre profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e usuári<strong>os</strong> e a fronteira da h<strong>um</strong>anida<strong>de</strong> e,<br />

ainda, m<strong>os</strong>tro exempl<strong>os</strong> <strong>de</strong> apreensão policial. Com tal movimento, espero contribuir com <strong>um</strong>a<br />

<strong>de</strong>scrição mais acurada da complexida<strong>de</strong> <strong>de</strong>sse universo.<br />

Cenas <strong>de</strong> uso<br />

Um d<strong>os</strong> trabalh<strong>os</strong> d<strong>os</strong> PRDs observad<strong>os</strong> consiste, res<strong>um</strong>idamente, em ir at<strong>é</strong> <strong>os</strong> locais <strong>de</strong> cons<strong>um</strong>o<br />

<strong>de</strong> drogas e levar informações preventivas para <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong>. Para tanto, estão basead<strong>os</strong> em<br />

preceit<strong>os</strong> <strong>de</strong> cidadania e direito à saú<strong>de</strong> sem ter como foco o i<strong>de</strong>al <strong>de</strong> abstinência. Na cida<strong>de</strong><br />

<strong>de</strong> Campinas, an<strong>de</strong>i por muit<strong>os</strong> mocós, <strong>um</strong> termo que na linguagem nativa serve para indicar<br />

<strong>os</strong> bec<strong>os</strong>, as casas abandonadas, linhas <strong>de</strong> trem, regiões específicas <strong>de</strong> bairr<strong>os</strong> perif<strong>é</strong>ric<strong>os</strong> e<br />

galpões <strong>de</strong>socupad<strong>os</strong> que garantem a<strong>os</strong> cons<strong>um</strong>idores mais extremad<strong>os</strong> <strong>de</strong> drogas como o<br />

<strong>crack</strong> <strong>um</strong>a certa privacida<strong>de</strong> e radicalida<strong>de</strong> da experiência. No caso <strong>de</strong> São Paulo, me centrei<br />

na região que ficou conhecida como cracolândia7, por agrupar gran<strong>de</strong> quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> pessoas<br />

cons<strong>um</strong>indo <strong>crack</strong> publicamente. Esta região <strong>é</strong> alvo <strong>de</strong> políticas <strong>de</strong> segurança, <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, assistenciais<br />

e urbanísticas.<br />

Duas territorialida<strong>de</strong>s, <strong>um</strong>a mais privada, outra mais pública, têm implicações bastante<br />

significativas no cons<strong>um</strong>o e na relação com <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong>.<br />

Em muitas das visitas que fiz na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Campinas, eu e <strong>os</strong> redutores levávam<strong>os</strong> cerca<br />

<strong>de</strong> quarenta minut<strong>os</strong> a <strong>um</strong>a hora e meia <strong>de</strong> ônibus ou a p<strong>é</strong> para chegar a<strong>os</strong> locais e, ao fim, era<br />

frequente encontrá-l<strong>os</strong> vazi<strong>os</strong>. Nesses espaç<strong>os</strong>, a <strong>um</strong> só tempo repudiad<strong>os</strong> e excessivamente<br />

vigiad<strong>os</strong> pelo po<strong>de</strong>r público, mas que proporcionam privacida<strong>de</strong> no cons<strong>um</strong>o da droga, o que<br />

se vê, al<strong>é</strong>m <strong>de</strong> materiais <strong>de</strong> construções abandonad<strong>os</strong>, são muit<strong>os</strong> pap<strong>é</strong>is que embrulham o<br />

<strong>crack</strong>, palit<strong>os</strong> <strong>de</strong> fósforo, isqueir<strong>os</strong>, rest<strong>os</strong> <strong>de</strong> aliment<strong>os</strong> e <strong>de</strong> roupas, cobertores, cartões telefônic<strong>os</strong><br />

usad<strong>os</strong> para a separação das porções <strong>de</strong> <strong>crack</strong> ou cocaína, alguns toc<strong>os</strong> <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira<br />

que usam para sentar, latas <strong>de</strong> al<strong>um</strong>ínio gran<strong>de</strong>s que servem <strong>de</strong> apoio para preparar e separar<br />

o <strong>crack</strong>, latas <strong>de</strong> refrigerante e embalagens <strong>de</strong> iogurte usadas como cachimbo, excreções h<strong>um</strong>anas<br />

e lixo, muito lixo. A constante ida a esses lugares re-orientou minha forma <strong>de</strong> caminhar<br />

pela cida<strong>de</strong>, a minha “enunciação pe<strong>de</strong>stre” (De Certeau): passei a andar <strong>de</strong> cabeça baixa,<br />

olhando para o chão, procurando pap<strong>é</strong>is quadriculad<strong>os</strong> ver<strong>de</strong>s e pret<strong>os</strong>, cápsulas <strong>de</strong> embalagem<br />

<strong>de</strong> cocaína, rest<strong>os</strong> <strong>de</strong> al<strong>um</strong>ínio e <strong>de</strong> materiais que pu<strong>de</strong>ssem formar <strong>um</strong> cachimbo <strong>de</strong><br />

<strong>crack</strong>. Andava em busca <strong>de</strong> pistas <strong>de</strong> on<strong>de</strong> <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> pu<strong>de</strong>ssem estar.<br />

Sabíam<strong>os</strong> que <strong>um</strong> lugar era <strong>um</strong> espaço <strong>de</strong> cons<strong>um</strong>o <strong>de</strong> “drogas” men<strong>os</strong> pelas pessoas que<br />

ali estavam e mais pel<strong>os</strong> objet<strong>os</strong> <strong>de</strong>ixad<strong>os</strong> no local. Ou seja, a existência <strong>de</strong>sses objet<strong>os</strong> <strong>de</strong>ixava<br />

pistas que faziam o PRD <strong>de</strong> Campinas atuar. A relação entre espaço e cons<strong>um</strong>o <strong>de</strong> <strong>crack</strong> <strong>é</strong><br />

estreita. A feitura <strong>de</strong> <strong>um</strong> cachimbo, por exemplo, <strong>não</strong> <strong>é</strong> p<strong>os</strong>sível <strong>de</strong> ser realizada em qualquer<br />

cenário. Há que se ter <strong>um</strong> tempo e <strong>um</strong> espaço específico para tal. Com <strong>um</strong>a folha <strong>de</strong> al<strong>um</strong>ínio,<br />

7 Basead<strong>os</strong> no trabalho <strong>de</strong> Perlongher (2008), Frúgoli Jr e Spaggiari (2010) m<strong>os</strong>tram que a chamada região<br />

da cracolândia, no bairro da Luz, po<strong>de</strong> ser <strong>de</strong>scrita a partir <strong>de</strong> <strong>um</strong>a “territorialida<strong>de</strong> itinerante” e <strong>de</strong> <strong>um</strong> “campo <strong>de</strong><br />

relações”. Como <strong>um</strong>a “territorialida<strong>de</strong> itinerante” está situada n<strong>um</strong>a certa área urbana, mas <strong>é</strong> sujeita a <strong>de</strong>slocament<strong>os</strong><br />

que variam <strong>de</strong> acordo com a repressão ou intervenção exercidas e/ou com a dinâmica das relações internas. Como<br />

<strong>um</strong> “campo <strong>de</strong> relações”, a região tamb<strong>é</strong>m passou a ser sinônimo <strong>de</strong> <strong>de</strong>gradação e criminalida<strong>de</strong> urbanas <strong>de</strong>corrente<br />

da gran<strong>de</strong> presença nas ruas do bairro <strong>de</strong> usuári<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>crack</strong>, homens, mulheres, menin<strong>os</strong> e meninas em situação <strong>de</strong><br />

rua e/ou pr<strong>os</strong>tituição associad<strong>os</strong> simbolicamente a <strong>um</strong>a s<strong>é</strong>rie <strong>de</strong> estigmas como sujeira, perigo, ameaça à segurança<br />

(principalmente no período da noite, drogas, encrenca, vergonha) – o que gerou <strong>um</strong>a s<strong>é</strong>rie <strong>de</strong> outr<strong>os</strong> atores sociais<br />

envolvid<strong>os</strong> na repressão, mediação, ajuda, incriminação d<strong>os</strong> primeir<strong>os</strong>. É importante <strong>de</strong>stacar tamb<strong>é</strong>m que como <strong>um</strong>a<br />

“territorialida<strong>de</strong> itinerante” e relacional, a sua i<strong>de</strong>ntificação se dá pela corporificação d<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> ou cons<strong>um</strong>idores <strong>de</strong><br />

<strong>crack</strong>: ela <strong>é</strong> on<strong>de</strong> eles estão!<br />

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<strong>um</strong> isqueiro cortado ao meio, cano <strong>de</strong> PVC, porcas <strong>de</strong> parafuso, sacolas plásticas, pedaç<strong>os</strong> <strong>de</strong><br />

bambus, <strong>de</strong> antenas <strong>de</strong> rádio ou <strong>de</strong> guarda-chuvas <strong>é</strong> p<strong>os</strong>sível fazer <strong>um</strong> recipiente que, ao receber<br />

<strong>um</strong>a base, em muit<strong>os</strong> cas<strong>os</strong> protegida com <strong>um</strong> papel al<strong>um</strong>ínio picotado com alg<strong>um</strong> material<br />

cortante, está pronto para que o pó <strong>de</strong> <strong>crack</strong>, ou a pedra inteira, se misture às cinzas <strong>de</strong> cigarro.<br />

O uso <strong>de</strong> latas <strong>de</strong> refrigerante ou embalagens <strong>de</strong> iogurte tamb<strong>é</strong>m <strong>é</strong> com<strong>um</strong>ente observado.<br />

A territorialida<strong>de</strong> <strong>de</strong> uso importa aqui porque, quando o cenário <strong>não</strong> p<strong>os</strong>sibilita a feitura<br />

<strong>de</strong>sses objet<strong>os</strong>, o cachimbo se torna mercadoria. Na região mais pública da cracolândia, cachimb<strong>os</strong><br />

são fabricad<strong>os</strong> e vendid<strong>os</strong> por alguns comerciantes do local, por comerciantes <strong>de</strong> drogas<br />

que fazem a venda casada da pedra com o cachimbo e por outr<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong>. Depen<strong>de</strong>ndo<br />

do material utilizado, o valor po<strong>de</strong> chegar at<strong>é</strong> <strong>de</strong>zessete reais (caso <strong>de</strong> <strong>um</strong> cachimbo feito <strong>de</strong><br />

cobre que <strong>um</strong> usuário todo orgulh<strong>os</strong>o da sua aquisição veio me m<strong>os</strong>trar). No local, <strong>um</strong>a estranha<br />

semelhança d<strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> chama a atenção; em sua maioria, <strong>os</strong> canud<strong>os</strong> são feit<strong>os</strong> com<br />

pedaç<strong>os</strong> <strong>de</strong> antenas <strong>de</strong> rádio e o recipiente on<strong>de</strong> será realizado a queima <strong>é</strong> feito a partir <strong>de</strong><br />

peças vendidas em lojas <strong>de</strong> materiais <strong>de</strong> construção ou <strong>de</strong> materiais el<strong>é</strong>tric<strong>os</strong>. As fot<strong>os</strong> abaixo<br />

m<strong>os</strong>tram a diferença <strong>de</strong>ssa fabricação:<br />

Foto 1. (Neger Borges, PRD /Campinas) Foto 2. (Neger Borges, PRD / Campinas)<br />

Foto 3. (Taniele Rui, PRD / Campinas) Foto 4. (Thiago Calil, É <strong>de</strong> Lei / São Paulo)<br />

Ainda, <strong>é</strong> <strong>de</strong> se notar que, n<strong>um</strong> cenário <strong>de</strong> uso itinerante como o <strong>é</strong> a cracolândia, <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong><br />

são mais facilmente <strong>de</strong>scartáveis, ora pelo constante trânsito d<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong>, ora pela excessiva<br />

abordagem policial – o que, <strong>de</strong> <strong>um</strong> lado, estimula a procura e a venda <strong>de</strong>sse objeto, <strong>de</strong> outro,<br />

n<strong>os</strong> remete ao tópico da distribuição <strong>de</strong> ins<strong>um</strong><strong>os</strong> levada a cabo pel<strong>os</strong> programas <strong>de</strong> redução <strong>de</strong><br />

dan<strong>os</strong>, <strong>um</strong>a vez que <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> na fissura, sem cachimbo e sem dinheiro para comprar outro<br />

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estão mais suscetíveis a compartilharem-no. Preocupad<strong>os</strong> com esse uso com<strong>um</strong>, <strong>os</strong> PRDs ten-<br />

tam formas <strong>de</strong> diminuí-lo. Para seguirm<strong>os</strong> adiante na reflexão, <strong>é</strong> necessário então examinar as<br />

ações <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública.<br />

Quando <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> po<strong>de</strong>m transmitir doenças<br />

Os Programas <strong>de</strong> Redução <strong>de</strong> Dan<strong>os</strong> usam a palavra ins<strong>um</strong>o para <strong>de</strong>signar <strong>os</strong> materiais preventiv<strong>os</strong>/educativ<strong>os</strong><br />

disponibilizad<strong>os</strong> a<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> durante as abordagens. N<strong>os</strong> fol<strong>de</strong>rs oferecid<strong>os</strong><br />

a<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> (<strong>de</strong> que <strong>é</strong> exemplo o ilustrado abaixo), <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> merecem <strong>de</strong>staque.<br />

Nota-se <strong>um</strong>a preocupação especial e <strong>um</strong>a orientação específica ao <strong>não</strong> compartilhamento <strong>de</strong>les,<br />

com o intuito <strong>de</strong> evitar a transmissão <strong>de</strong> doenças como hepatites B e C e herpes8 .<br />

Figura 1: Fol<strong>de</strong>r elaborado e distribuído pelo PRD/Campinas<br />

Para realizar o trabalho, em Campinas <strong>os</strong> redutores entram nas rodas <strong>de</strong> uso, oferecem fol<strong>de</strong>rs<br />

e camisinhas e, n<strong>um</strong>a linguagem mais popular, repetem as informações. Na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />

São Paulo, <strong>os</strong> redutores oferecem piteiras <strong>de</strong> silicones para serem anexadas ao cachimbo e<br />

manteigas <strong>de</strong> cacau para a cicatrização e hidratação <strong>de</strong> feridas bucais. Cada vez mais há o<br />

<strong>de</strong>sincentivo do uso <strong>de</strong> latas para a inalação <strong>de</strong> <strong>crack</strong> porque estas a<strong>um</strong>entariam a superfície<br />

<strong>de</strong> contato com o redor da boca, a<strong>um</strong>entando as queimaduras (o que torna a região propícia<br />

tanto à transmissão quanto ao contágio <strong>de</strong> doenças). Al<strong>é</strong>m disso, <strong>não</strong> sabendo a proveniência<br />

da lata esta po<strong>de</strong>ria transmitir diversas infecções. Assim, frequentemente <strong>os</strong> redutores tamb<strong>é</strong>m<br />

aconselham a, se usar na lata, lavá-la antes. Já ouvi tamb<strong>é</strong>m redutores aconselharem<br />

o uso <strong>de</strong> <strong>crack</strong> no cigarro, misturado com maconha com o objetivo <strong>de</strong> diminuir a quantida<strong>de</strong><br />

<strong>de</strong> <strong>crack</strong> f<strong>um</strong>ada. Por fim, ainda aconselham <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> a <strong>não</strong> f<strong>um</strong>arem as cinzas que ficam<br />

no cachimbo, a chamada borra, que eles raspam e aproveitam <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> terem f<strong>um</strong>ado toda<br />

a pedra. Esse hábito <strong>é</strong> o que provoca maiores discussões e, segundo <strong>os</strong> redutores <strong>de</strong> dan<strong>os</strong>,<br />

<strong>é</strong> o mais difícil <strong>de</strong> ser modificado. Al<strong>é</strong>m disso, entre <strong>os</strong> redutores <strong>de</strong> Campinas há <strong>um</strong> gran<strong>de</strong><br />

<strong>de</strong>bate <strong>sobre</strong> a distribuição <strong>de</strong> cachimb<strong>os</strong> porque po<strong>de</strong>ria ser visto pel<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> como <strong>um</strong><br />

“assistencialismo”. Alegam que, diferentemente das seringas (que <strong>não</strong> po<strong>de</strong>m ser fabricadas),<br />

o cachimbo <strong>é</strong> passível <strong>de</strong> ser reproduzido manualmente. Segundo <strong>os</strong> redutores, essa práti-<br />

8 É <strong>de</strong> notar <strong>um</strong> paralelo interessante entre tais fol<strong>de</strong>rs e <strong>os</strong> manuais observad<strong>os</strong> em sex-shops que foram objet<strong>os</strong> <strong>de</strong><br />

análise <strong>de</strong> Gregori (2010), n<strong>os</strong> quais se vê <strong>um</strong>a tentativa <strong>de</strong> ensinar t<strong>é</strong>cnicas <strong>de</strong> exercício sexual. Tal como <strong>os</strong> manuais<br />

<strong>de</strong> ginásticas, eles são fruto <strong>de</strong> <strong>um</strong>a mesma tradição: a <strong>de</strong> moldar o corpo pelas t<strong>é</strong>cnicas e dicas <strong>de</strong> <strong>de</strong>sempenho<br />

a<strong>de</strong>quado. Nesses manuais, como m<strong>os</strong>tra Gregori, a pornografia per<strong>de</strong> sua conotação <strong>de</strong> obscenida<strong>de</strong> e adquire <strong>um</strong><br />

sentido <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e <strong>de</strong> fortalecimento do eu.<br />

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ca <strong>de</strong>veria ser incentivada porque faz com que <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong>, ao confeccionarem seus própri<strong>os</strong><br />

utensíli<strong>os</strong>, <strong>de</strong>senvolvam <strong>um</strong>a “prática <strong>de</strong> auto-cuidado”.<br />

A distribuição d<strong>os</strong> ins<strong>um</strong><strong>os</strong> aqui <strong>de</strong>scrita <strong>é</strong> fruto <strong>de</strong> <strong>um</strong>a s<strong>é</strong>rie <strong>de</strong> mudanças ocorridas na<br />

política <strong>de</strong> redução <strong>de</strong> dan<strong>os</strong> a usuári<strong>os</strong> <strong>de</strong> drogas, iniciada no país no começo d<strong>os</strong> an<strong>os</strong> noventa<br />

e à <strong>é</strong>poca mais direcionada a<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> <strong>de</strong> drogas injetáveis (UDI), em função da epi<strong>de</strong>mia<br />

<strong>de</strong> AIDS. A fórmula da troca <strong>de</strong> seringas ficou bastante conhecida. Tal histórico fez com que<br />

muit<strong>os</strong> PRDs estivessem, em seu surgimento, atrelad<strong>os</strong> a esse tipo <strong>de</strong> uso e atuação; muitas<br />

vezes, como <strong>é</strong> o caso do núcleo <strong>de</strong> Campinas, situad<strong>os</strong> no interior d<strong>os</strong> centr<strong>os</strong> <strong>de</strong> referência às<br />

DSTs e AIDS. O crescimento do uso <strong>de</strong> <strong>crack</strong> acompanhado do <strong>de</strong>cr<strong>é</strong>scimo <strong>de</strong> uso injetável fez<br />

com que <strong>os</strong> programas repensassem o público alvo atendido, bem como <strong>os</strong> ins<strong>um</strong><strong>os</strong> oferecid<strong>os</strong>.<br />

Vê-se assim que, do ponto <strong>de</strong> vista da atual política <strong>de</strong> redução <strong>de</strong> dan<strong>os</strong>, a produção <strong>de</strong> <strong>um</strong><br />

corpo higiênico e saudável do cons<strong>um</strong>o <strong>de</strong> <strong>crack</strong> passa por <strong>um</strong>a forma específica <strong>de</strong> utilização<br />

d<strong>os</strong> materiais. Cabe, ainda, indagar como e se as “dicas” <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> estão sendo incorporadas<br />

pel<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong>, como e quais materiais estão sendo substituíd<strong>os</strong>.<br />

Nesse sentido, <strong>um</strong> importante doc<strong>um</strong>ento que po<strong>de</strong> n<strong>os</strong> dar pistas para enten<strong>de</strong>r essa interação<br />

<strong>é</strong> a tese <strong>de</strong> doutorado <strong>de</strong> Andrea Domanico (2006), <strong>de</strong>dicada à análise do processo <strong>de</strong><br />

implantação e <strong>de</strong>senvolvimento das estrat<strong>é</strong>gias <strong>de</strong> redução <strong>de</strong> dan<strong>os</strong> em cinco projet<strong>os</strong>-piloto<br />

para usuári<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>crack</strong> <strong>de</strong>senvolvid<strong>os</strong> no Brasil e financiad<strong>os</strong> pelo Programa Nacional <strong>de</strong> DST/<br />

Aids do Minist<strong>é</strong>rio da Saú<strong>de</strong>. Ela <strong>é</strong> tanto <strong>um</strong> registro histórico das estrat<strong>é</strong>gias <strong>de</strong> enfretamento,<br />

<strong>um</strong>a avaliação <strong>de</strong>sses projet<strong>os</strong> e <strong>um</strong> relato minuci<strong>os</strong>o das negociações políticas <strong>de</strong> condução<br />

d<strong>os</strong> plan<strong>os</strong> <strong>de</strong> ação.<br />

Para <strong>os</strong> meus propósit<strong>os</strong>, sua tese tamb<strong>é</strong>m servirá como objeto empírico que m<strong>os</strong>tra a relação<br />

entre <strong>os</strong> projet<strong>os</strong>, <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong>, <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong>, a política ministerial e <strong>os</strong> divers<strong>os</strong> atores sociais<br />

que interagem com a questão. Importante notar que a autora <strong>não</strong> explicita <strong>os</strong> nomes d<strong>os</strong> projet<strong>os</strong>,<br />

nem indica sua localização, apenas proce<strong>de</strong> n<strong>um</strong>erando-<strong>os</strong>. Para apresentá-l<strong>os</strong>, seguirei,<br />

assim, a sua própria or<strong>de</strong>nação. Em itálico marco a <strong>de</strong>scrição <strong>de</strong> Domanico, seguida da minha<br />

observação sem alg<strong>um</strong> grifo especial. Por fim, conv<strong>é</strong>m observar que tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> projet<strong>os</strong> foram<br />

pilot<strong>os</strong> e que a tentativa <strong>de</strong> produzir <strong>um</strong> cachimbo que pu<strong>de</strong>sse, p<strong>os</strong>teriormente, ser distribuíd<strong>os</strong><br />

pel<strong>os</strong> PRDs no país foi abortada, evitando <strong>um</strong>a exp<strong>os</strong>ição política – o que será <strong>de</strong>scrito adiante9 .<br />

No projeto 1, Domanico diz que a ONG observada estava distribuindo<br />

cachimb<strong>os</strong> para usuári<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>crack</strong> e recebeu <strong>um</strong>a intimação para prestar<br />

esclareciment<strong>os</strong> <strong>sobre</strong> o trabalho <strong>de</strong>senvolvido. A queixa foi registrada<br />

por <strong>um</strong> advogado que teve acesso ao kit para uso <strong>de</strong> <strong>crack</strong> e o consi<strong>de</strong>rou<br />

ina<strong>de</strong>quado para ações <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública. O fato teve repercussão ainda<br />

maior quando o apresentador <strong>de</strong> <strong>um</strong> programa televisivo sensacionalista<br />

convidou tal advogado para <strong>um</strong>a entrevista e fez colocações extremamente<br />

agressivas <strong>sobre</strong> o projeto, assim como à redução <strong>de</strong> dan<strong>os</strong> como política<br />

pública <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />

Logo <strong>de</strong> cara, percebe-se que a distribuição <strong>de</strong> cachimb<strong>os</strong> aciona <strong>um</strong> dilema moral: a distribuição<br />

<strong>de</strong> cachimbo <strong>é</strong> <strong>um</strong>a “apologia” ou incentivo ao uso <strong>de</strong> <strong>crack</strong>? Um dilema que, como já<br />

m<strong>os</strong>traram Vargas (2001) e Fiore (2006), permeia o <strong>de</strong>bate público e político <strong>sobre</strong> o assunto e<br />

impe<strong>de</strong> <strong>um</strong>a discussão mais complexa da questão. Nada mais emblemático que <strong>um</strong> advogado<br />

e <strong>um</strong> jornalista sensacionalista, representantes da lei e do senso-com<strong>um</strong>, para n<strong>os</strong> lembrar <strong>de</strong><br />

tal fato.<br />

9 Necessário ressalvar que a <strong>de</strong>scrição d<strong>os</strong> projet<strong>os</strong> constitui parte importante da tese <strong>de</strong> Domanico (2006, cap. 5, p.<br />

95-170). Neste texto, utilizei minhas próprias palavras a fim <strong>de</strong> res<strong>um</strong>ir apenas <strong>os</strong> pont<strong>os</strong> que consi<strong>de</strong>rei relevantes para<br />

meu arg<strong>um</strong>ento.<br />

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O projeto 2 iniciou a distribuição do cachimbo <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira, mas ele <strong>não</strong> foi<br />

bem aceito pel<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong>, que alegavam vári<strong>os</strong> problemas: achavam o<br />

cachimbo muito gran<strong>de</strong> e, por isso, muito difícil <strong>de</strong> escon<strong>de</strong>r no caso <strong>de</strong> <strong>um</strong>a<br />

batida policial; achavam tamb<strong>é</strong>m que, quando raspavam a borra, ela vinha<br />

com pedacinh<strong>os</strong> <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira, ficando com g<strong>os</strong>to na hora <strong>de</strong> f<strong>um</strong>ar; alegavam,<br />

ainda, que o cachimbo “roubava” a droga na hora do uso porque sua grelha<br />

<strong>não</strong> <strong>é</strong> vedada e, por fim, criticavam o fato <strong>de</strong> ele <strong>não</strong> ser <strong>de</strong>smontável, o que<br />

dificultava a raspagem da piteira. Surgiram, então, as piteiras <strong>de</strong> silicone,<br />

que <strong>de</strong>veriam ser usadas individualmente e adaptadas a<strong>os</strong> divers<strong>os</strong> tip<strong>os</strong> <strong>de</strong><br />

cachimbo na hora do uso. Após a utilização, o usuário tira a sua piteira e<br />

passa o cachimbo para o outro, que coloca a sua piteira e f<strong>um</strong>a a droga.<br />

O cachimbo aqui repercute a ameaça <strong>de</strong> perseguição policial (tema que ainda será abordado<br />

nesse texto) e tamb<strong>é</strong>m, ao ser distribuído, passa por <strong>um</strong>a avaliação d<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong>. Inicia-se, então,<br />

a tentativa <strong>de</strong> fazer <strong>os</strong> saberes da saú<strong>de</strong> pública interagirem com o d<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>crack</strong>. É<br />

a distribuição do cachimbo <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira que começa a tornar mais explícito <strong>os</strong> hábit<strong>os</strong> <strong>de</strong> cons<strong>um</strong>o<br />

e, <strong>um</strong>a vez <strong>de</strong> p<strong>os</strong>se <strong>de</strong>les, vê-se o quanto o ins<strong>um</strong>o planejado era ineficaz. Nada seria feito<br />

<strong>de</strong> cima para baixo. A piteira nasce, pois, como <strong>um</strong>a mediação entre <strong>os</strong> dois pól<strong>os</strong>: <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong><br />

fariam seus própri<strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> (ou, n<strong>um</strong> cenário que <strong>não</strong> p<strong>os</strong>sibilita isso, o comprariam <strong>de</strong> algu<strong>é</strong>m<br />

que conhece melhor o hábito <strong>de</strong> cons<strong>um</strong>o) e o PRD distribuiria a piteira individualizada.<br />

No projeto 3, a equipe <strong>de</strong> redução <strong>de</strong> dan<strong>os</strong> consi<strong>de</strong>rava ina<strong>de</strong>quado o material<br />

utilizado pel<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> para a confecção <strong>de</strong> seus própri<strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong>,<br />

feit<strong>os</strong> a partir <strong>de</strong> pilhas usadas, isqueir<strong>os</strong>, cápsulas <strong>de</strong> bala <strong>de</strong> revólver e<br />

seringas que tinham sido utilizadas para injetar droga anteriormente. Diante<br />

do susto, a equipe <strong>de</strong>cidiu fazer <strong>um</strong>a reunião com <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> para discutir<br />

<strong>sobre</strong> a confecção <strong>de</strong> cachimb<strong>os</strong> mais apropriad<strong>os</strong>. Segundo Domanico, <strong>os</strong><br />

cachimb<strong>os</strong> produzid<strong>os</strong> nessa reunião ainda assim eram ina<strong>de</strong>quad<strong>os</strong>, mas<br />

a equipe entendia que tal estrat<strong>é</strong>gia po<strong>de</strong>ria servir para a<strong>um</strong>entar o vínculo<br />

com <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> – o que <strong>de</strong> fato aconteceu, embora <strong>não</strong> tenham conseguido<br />

elaborar <strong>um</strong> cachimbo men<strong>os</strong> dan<strong>os</strong>o.<br />

O que se passou com esse projeto <strong>é</strong> interessante na medida em que explicita que, mais que <strong>um</strong><br />

mero ins<strong>um</strong>o, falar <strong>sobre</strong> o cachimbo <strong>é</strong> tamb<strong>é</strong>m <strong>um</strong> modo <strong>de</strong> entrar em contato com o usuário,<br />

<strong>de</strong> estabelecer <strong>um</strong> contato afetivo, <strong>de</strong> criar <strong>um</strong> vínculo. Por meio <strong>de</strong> <strong>um</strong> objeto concreto, cujo<br />

uso correto po<strong>de</strong> implicar em mais ou men<strong>os</strong> contato com infecções, tamb<strong>é</strong>m se estabelece<br />

laç<strong>os</strong> <strong>de</strong> afinida<strong>de</strong> que, segundo <strong>os</strong> profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, são fundamentais para que <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong><br />

cui<strong>de</strong>m <strong>de</strong> seu próprio corpo. Voltarei a esse tema mais adiante.<br />

O projeto 4 tamb<strong>é</strong>m teria promovido conversas com <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong>, perguntandolhes<br />

a respeito do material necessário para o “cachimbo i<strong>de</strong>al”. A associação<br />

<strong>de</strong> moradores da comunida<strong>de</strong> emprestou a se<strong>de</strong> para que a oficina<br />

acontecesse. Os usuári<strong>os</strong> disseram que eram tub<strong>os</strong> <strong>de</strong> PVC e <strong>um</strong>a dobra <strong>de</strong><br />

tubo tamb<strong>é</strong>m chamada <strong>de</strong> joelho, al<strong>é</strong>m <strong>de</strong> <strong>um</strong> laminado que tinha que ter <strong>um</strong>a<br />

espessura diferente para a grelha que <strong>de</strong>veria ser presa com fita crepe. Os<br />

redutores logo trataram <strong>de</strong> angariar recurs<strong>os</strong> para produzir tal cachimbo em<br />

quantida<strong>de</strong> maior. Teriam contado a Domanico que, ao comprar <strong>os</strong> tub<strong>os</strong>, o<br />

dono do armaz<strong>é</strong>m forneceu gratuitamente alguns a mais, pois compreen<strong>de</strong>u<br />

que <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> confeccionad<strong>os</strong> ajudariam a evitar que <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong><br />

usassem qualquer material pego no lixo. Depois da oficina, o cachimbo <strong>de</strong><br />

PVC tornou-se <strong>um</strong> “sucesso” e sua circulação na rua começou a crescer. Por<br />

conta disso, a equipe começou a temer <strong>um</strong>a intervenção mais repressora da<br />

polícia. Só com o passar do tempo, a equipe teria percebido que aquele <strong>não</strong><br />

era o cachimbo i<strong>de</strong>al, pois na hora da raspagem ia com PVC e tudo. Mas, da<br />

mesma maneira que a criativida<strong>de</strong> na confecção d<strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> ocorria, <strong>os</strong><br />

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usuári<strong>os</strong> do projeto, <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> acirradas discussões <strong>sobre</strong> <strong>os</strong> malefíci<strong>os</strong> da<br />

sua raspagem, criaram <strong>um</strong>a maneira <strong>de</strong> retirar a borra sem precisar raspar<br />

e começaram a chamar tal forma <strong>de</strong> limpeza <strong>de</strong> “ciência”. O coor<strong>de</strong>nador do<br />

projeto teria lhe dito:<br />

Eles perceberam que a raspagem era furada, porque vinha <strong>um</strong> monte <strong>de</strong> coisas junto, e aí<br />

começaram a lavar <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> com álcool. Então, eles enchem o cachimbo com álcool,<br />

fecham com <strong>os</strong> <strong>de</strong>d<strong>os</strong> e chocalham o álcool <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong>les, aí eles <strong>de</strong>spejam o líquido n<strong>um</strong><br />

prato e colocam fogo, aí fica <strong>um</strong> óleo no prato que eles misturam com cinza <strong>de</strong> cigarro,<br />

raspam tudo junto, colocam no cachimbo e f<strong>um</strong>am. (apud DOMANICO, 2006, p. 155)<br />

O movimento aqui <strong>é</strong> <strong>um</strong> pouco diverso: primeiramente, o PRD assentiu quanto ao conhecimento<br />

d<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> para só <strong>de</strong>pois perceber o risco da ingestão <strong>de</strong> PVC e, n<strong>um</strong> movimento bastante<br />

interessante, após várias discussões, <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> teriam elaborado a sua própria “ciência”. Fruto,<br />

portanto, <strong>de</strong> <strong>um</strong> intenso diálogo. Ainda, nesse projeto, chama atenção outr<strong>os</strong> atores sociais,<br />

como a associação <strong>de</strong> moradores e o dono do armaz<strong>é</strong>m que começam a ajudar na causa.<br />

A coor<strong>de</strong>nadora do projeto 5 que, como muit<strong>os</strong> semelhantes, inicialmente foi<br />

<strong>de</strong>senvolvido com o objetivo <strong>de</strong> conter a epi<strong>de</strong>mia <strong>de</strong> aids entre <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong><br />

<strong>de</strong> injetáveis da cida<strong>de</strong>, estava no final da sua formação em serviço social,<br />

escrevendo sua monografia <strong>sobre</strong> o uso <strong>de</strong> injetável, quando começou<br />

a se <strong>de</strong>parar com o crescente a<strong>um</strong>ento <strong>de</strong> usuári<strong>os</strong> que relatavam usar<br />

<strong>crack</strong>. Nesse momento, <strong>um</strong>a redutora do projeto, que era usuária <strong>de</strong> <strong>crack</strong><br />

e <strong>de</strong> injetável, contou para equipe como era o uso <strong>de</strong> <strong>crack</strong> e disse para a<br />

coor<strong>de</strong>nadora que sabia fazer <strong>um</strong> cachimbo <strong>de</strong> bambu. A coor<strong>de</strong>nadora<br />

solicitou que ela fizesse alguns cachimb<strong>os</strong>, foi para o campo e <strong>os</strong> distribuiu<br />

para <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> testarem. Eles aprovaram e iniciaram <strong>um</strong>a discussão mais<br />

direta com a equipe <strong>sobre</strong> o uso <strong>de</strong> <strong>crack</strong> e <strong>os</strong> ins<strong>um</strong><strong>os</strong> necessári<strong>os</strong> para seu<br />

uso. Os ins<strong>um</strong><strong>os</strong> distribuíd<strong>os</strong> eram <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira, confeccionad<strong>os</strong><br />

por alguns redutores-usuári<strong>os</strong> com a ajuda <strong>de</strong> <strong>um</strong> marceneiro. No início do<br />

projeto, <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> eram feit<strong>os</strong> <strong>de</strong> bambu, mas <strong>de</strong>pois, com o a<strong>um</strong>ento<br />

da <strong>de</strong>manda e das conversas com <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong>, foi sugerido que se criasse<br />

<strong>um</strong> cachimbo <strong>de</strong>smontável; nisso tiveram a ajuda <strong>de</strong> <strong>um</strong> torneiro mecânico<br />

que criou com eles o cachimbo que, at<strong>é</strong> o segundo semestre <strong>de</strong> 2005, era<br />

distribuído. A confecção do cachimbo <strong>é</strong> bem barata, porque a parte aon<strong>de</strong><br />

vai a grelha <strong>é</strong> doada por <strong>um</strong>a fábrica <strong>de</strong> cab<strong>os</strong> <strong>de</strong> vassouras, e a piteira, que<br />

tamb<strong>é</strong>m <strong>é</strong> <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira, <strong>é</strong> confeccionada no torno. O custo maior <strong>é</strong> na compra<br />

do laminado para fazer a grelha e da fita crepe para prendê-la. Nesse projeto,<br />

<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> vinculad<strong>os</strong> teriam dito preferir o cachimbo à lata, eles dizem que se<br />

sentem mais segur<strong>os</strong> por causa do herpes e das hepatites. Já outr<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong><br />

revelam que usam o cachimbo procurando diminuir as fissuras labiais que,<br />

após a orientação dada pela equipe do projeto, começaram a perceber<br />

como sendo causadas pelo <strong>crack</strong>. Passaram então a usar <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> e<br />

perceberam que isso diminuía as lesões. O marceneiro, o torneiro mecânico,<br />

a fábrica <strong>de</strong> cab<strong>os</strong> <strong>de</strong> vassouras começam a contribuir com a fabricação do<br />

cachimbo.<br />

A atuação do projeto 5 tamb<strong>é</strong>m chama atenção pelo contato com <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> e pela reflexivida<strong>de</strong><br />

que acompanha a experiência. O contato com a equipe <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> parece ter sido bastante<br />

relevante na preferência d<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> pelo cachimbo, assim como para iniciar a percepção <strong>de</strong><br />

que fissuras labiais eram <strong>de</strong>correntes do uso e da queima da droga. Apropriaram-se tamb<strong>é</strong>m<br />

<strong>de</strong> <strong>um</strong> saber t<strong>é</strong>cnico, ao afirmarem preferir o cachimbo para evitar herpes e hepatite.<br />

A observação conjunta d<strong>os</strong> projet<strong>os</strong> <strong>de</strong>scrit<strong>os</strong> por Domanico m<strong>os</strong>tra, <strong>de</strong> <strong>um</strong> lado, como <strong>os</strong><br />

cachimb<strong>os</strong> evocam dilemas morais, fantasias <strong>sobre</strong> perseguição legal e policial; <strong>de</strong> outro, as<br />

conversas <strong>sobre</strong> <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> apontam para <strong>um</strong> duplo movimento reflexivo entre <strong>os</strong> progra-


mas <strong>de</strong> redução <strong>de</strong> dan<strong>os</strong> e <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong>. Visto mais <strong>de</strong> perto, esse diálogo complexifica as tradicionais<br />

visões <strong>sobre</strong> o po<strong>de</strong>r disciplinar do saber m<strong>é</strong>dico e tamb<strong>é</strong>m coloca em xeque as id<strong>é</strong>ias<br />

<strong>de</strong> que usuári<strong>os</strong> e profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> fazem parte <strong>de</strong> realida<strong>de</strong>s estanques e autônomas.<br />

Como se vê, há <strong>um</strong> trânsito <strong>de</strong> informações, que torna mais difícil precisar <strong>um</strong> sup<strong>os</strong>to “mundo<br />

d<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>crack</strong>”, indicando, assim, que <strong>um</strong> conhecimento mais <strong>de</strong>talhado d<strong>os</strong> hábit<strong>os</strong><br />

<strong>de</strong> cons<strong>um</strong>o <strong>de</strong> usuári<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>crack</strong> implica ter em conta as re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> que<br />

passam a fazer parte <strong>de</strong> seu cotidiano. A recíproca tamb<strong>é</strong>m <strong>é</strong> verda<strong>de</strong>ira. O conhecimento <strong>é</strong><br />

tão misturado a ponto <strong>de</strong> <strong>de</strong>ixar a antropóloga presa n<strong>um</strong> emaranhado <strong>de</strong> informações em que<br />

já <strong>não</strong> <strong>é</strong> p<strong>os</strong>sível mais distinguir <strong>um</strong> “conhecimento nativo” <strong>de</strong> <strong>um</strong> “conhecimento especializado”,<br />

como revela o trecho <strong>de</strong> <strong>um</strong>a entrevista que <strong>um</strong> redutor me conce<strong>de</strong>u:<br />

[f<strong>um</strong>ar o <strong>crack</strong>] <strong>não</strong> <strong>é</strong> legal para o pulmão, <strong>de</strong>vido à cinza. Acho que se tivesse<br />

outro jeito <strong>de</strong> usar o <strong>crack</strong> seria muito mais saudável. Porque no outro dia<br />

você tá t<strong>os</strong>sindo <strong>um</strong>as pastas <strong>de</strong> pó preta. Se você f<strong>um</strong>ar com algu<strong>é</strong>m, você<br />

po<strong>de</strong> pegar pne<strong>um</strong>onia, tubercul<strong>os</strong>e. [...] É mais saudável f<strong>um</strong>ar no cachimbo,<br />

porque você f<strong>um</strong>a men<strong>os</strong>. Na lata, que eles f<strong>um</strong>am por on<strong>de</strong> sai o líquido <strong>é</strong><br />

<strong>um</strong> buraco enorme, sai mais. No cachimbo <strong>não</strong>, você rega a quantida<strong>de</strong>. O<br />

efeito <strong>é</strong> o mesmo, mas <strong>é</strong> mais saudável pelo cachimbo. Você f<strong>um</strong>a men<strong>os</strong>,<br />

puxa men<strong>os</strong>, economiza, vem men<strong>os</strong> cinza, n<strong>é</strong>? Porque na latinha tem gente<br />

que faz uns buracões e no cachimbo, às vezes, faz <strong>um</strong>a redinha <strong>de</strong> aço bem<br />

fininha e fica mais saudável, <strong>de</strong> preferência <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira, se <strong>de</strong>r pra fazer<br />

cachimbo <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira, <strong>é</strong> melhor.<br />

E se <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> põem em <strong>de</strong>staque a circulação <strong>de</strong> saberes entre representantes da saú<strong>de</strong><br />

pública e usuári<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>crack</strong>, eles tamb<strong>é</strong>m apontam <strong>os</strong> divers<strong>os</strong> atores sociais, <strong>sobre</strong>tudo representantes<br />

<strong>de</strong> <strong>um</strong> com<strong>é</strong>rcio consi<strong>de</strong>rado “legal” (<strong>de</strong> que são exempl<strong>os</strong> o dono do armaz<strong>é</strong>m,<br />

o marceneiro, o torneiro mecânico e o dono da fábrica <strong>de</strong> vassoura) que participam da fabricação<br />

<strong>de</strong> <strong>um</strong> produto cuja utilização só faz sentido e só se completa no seio <strong>de</strong> <strong>um</strong>a economia ilegal.<br />

Como já afirmou Pinheiro-Machado (2008, p. 126), “as mercadorias, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo por on<strong>de</strong><br />

transitam e como transitam, ass<strong>um</strong>em ora a face da legalida<strong>de</strong>/formalida<strong>de</strong>, ora da ilicitu<strong>de</strong>/<br />

informalida<strong>de</strong>”. São <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong>, bem mais que <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> e <strong>os</strong> redutores, que conseguem<br />

transitar <strong>de</strong> modo radical, com liberda<strong>de</strong> e segurança, por pól<strong>os</strong> moral e legalmente op<strong>os</strong>t<strong>os</strong>.<br />

Desse modo, com o at<strong>é</strong> aqui exp<strong>os</strong>to, em term<strong>os</strong> analític<strong>os</strong> po<strong>de</strong>m<strong>os</strong> dizer que o que o<br />

cachimbo <strong>é</strong> está indissociavelmente ligado a quem o usa, on<strong>de</strong> e <strong>de</strong> acordo com quais i<strong>de</strong>ias<br />

sanitárias. Falta ainda <strong>de</strong>screver a relação afetiva que o envolve e <strong>os</strong> cas<strong>os</strong> em que ele se torna<br />

alvo <strong>de</strong> represália policial.<br />

Construção do vínculo, fronteira da h<strong>um</strong>anida<strong>de</strong><br />

Se por <strong>um</strong> lado, como <strong>de</strong>scrito acima, <strong>os</strong> redutores se esforçavam em encontrar cachimb<strong>os</strong><br />

capazes <strong>de</strong> tornar o uso <strong>de</strong> <strong>crack</strong> men<strong>os</strong> dan<strong>os</strong>o à saú<strong>de</strong>, por outro, eles <strong>não</strong> g<strong>os</strong>tavam, e<br />

<strong>não</strong> g<strong>os</strong>tam at<strong>é</strong> hoje, <strong>de</strong> ser confundid<strong>os</strong> com “mer<strong>os</strong> doadores <strong>de</strong> ins<strong>um</strong><strong>os</strong>”. Em entrevistas,<br />

conversas e relat<strong>os</strong> fica clara essa inquietação. Ass<strong>um</strong>em fortemente a prop<strong>os</strong>ta política da<br />

ativida<strong>de</strong> que realizam e vêem o cachimbo (e tamb<strong>é</strong>m a distribuição d<strong>os</strong> outr<strong>os</strong> tant<strong>os</strong> materiais<br />

educativ<strong>os</strong>) como <strong>um</strong>a forma <strong>de</strong> iniciar a aproximação, visando o estabelecimento <strong>de</strong> <strong>um</strong><br />

vínculo – palavra cada vez mais usada nas políticas <strong>de</strong> caráter mais progressistas10 -- entre o<br />

10 Para <strong>um</strong>a discussão teórica e p<strong>os</strong>síveis conseqüências políticas da noção <strong>de</strong> vínculo, recomendo a análise <strong>de</strong><br />

Feltran (2010) acerca do CEDECA-Sapopemba. Para <strong>um</strong>a <strong>de</strong>scrição mais afetiva da interação face-a-face entre<br />

agentes <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e moradores <strong>de</strong> rua da cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Paris, ver Cefai (2010).<br />

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profissional e o indivíduo atendido que dote o segundo <strong>de</strong> recurs<strong>os</strong> materiais, mas <strong>sobre</strong>tudo<br />

emocionais, para iniciar <strong>um</strong>a reflexão <strong>sobre</strong> a situação na qual se encontra. Baseado n<strong>um</strong>a<br />

relação intersubjetiva, o vínculo <strong>é</strong> <strong>de</strong>scrito a partir <strong>de</strong> <strong>um</strong>a linguagem política fortemente baseada<br />

no respeito a<strong>os</strong> direit<strong>os</strong> h<strong>um</strong>an<strong>os</strong>. Nota-se, assim, que o cachimbo <strong>é</strong> importante porque<br />

aciona <strong>um</strong>a proximida<strong>de</strong>, cujo objetivo <strong>é</strong> fazer o usuário perceber que tem “direito a ter direit<strong>os</strong>”.<br />

Por meio do cachimbo, po<strong>de</strong>-se at<strong>é</strong> chegar à “consciência política”.<br />

É aqui então que o texto volta para o seu início. E que a cena <strong>de</strong>scrita na abertura do artigo<br />

encontra solo histórico, social e político. Como já escrito, contrastando com a dificulda<strong>de</strong><br />

<strong>de</strong> obter informações <strong>de</strong>talhadas <strong>sobre</strong> a trajetória pessoal e social d<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong>, observa-se<br />

<strong>um</strong>a gran<strong>de</strong> ênfase em conversas que giram em torno d<strong>os</strong> objet<strong>os</strong> utilizad<strong>os</strong> para o cons<strong>um</strong>o<br />

<strong>de</strong> <strong>crack</strong>. Não me parece, contudo, que seja aleatório que se fale <strong>de</strong>sses objet<strong>os</strong> justamente<br />

para aqueles profissionais que buscam fortalecer laç<strong>os</strong> <strong>de</strong> confiança e afeição, <strong>sobre</strong>tudo se<br />

tiverm<strong>os</strong> em conta que, junto com a droga, esse <strong>é</strong> o principal objeto que <strong>de</strong>ve ser escondido<br />

ou <strong>de</strong>ixado <strong>de</strong> lado em caso <strong>de</strong> abordagem policial. Portanto, essas conversas dizem muito<br />

mais. Elas ganham a esfera da intimida<strong>de</strong>. E, ainda, para meus propósit<strong>os</strong> elas são importantes<br />

porque m<strong>os</strong>tram que a relação entre <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong> e seus utensíli<strong>os</strong> está muito longe <strong>de</strong> ser<br />

meramente instr<strong>um</strong>ental. No vocabulário local, escutei muitas vezes <strong>os</strong> nomes “Bóris”, como já<br />

dito, e “Catarina” como referência a<strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong>. Mas a cena abaixo, <strong>de</strong>scrita por <strong>um</strong> redutor<br />

durante entrevista, parece indicar <strong>um</strong>a ainda mais complexa e <strong>de</strong>licada interação:<br />

Um dia eu cheguei em <strong>um</strong> lugar e conheci <strong>um</strong>a senhora que usava <strong>crack</strong>, at<strong>é</strong><br />

traficava no local tamb<strong>é</strong>m. No primeiro dia que eu tava no ambiente com as<br />

pessoas do redução <strong>de</strong> dan<strong>os</strong>, <strong>um</strong> d<strong>os</strong> primeir<strong>os</strong> dias em campo, ela chegou<br />

em mim e falou: “vem cá, vem cá, vem cá, vou te apresentar o perninha”. Eu<br />

falei: “legal, vamo conhecer o perninha”, achando que o perninha era <strong>um</strong> filho<br />

<strong>de</strong>la, <strong>um</strong> cara. Daí ela tirou do bolso o cachimbo <strong>de</strong> <strong>crack</strong> e falou: “eu sou<br />

o perninha, muito prazer”. E eu olhei e pensei: “como assim perninha?” daí<br />

eu percebi que a relação <strong>de</strong>la com aquele cachimbo <strong>de</strong> <strong>crack</strong> era realmente<br />

<strong>um</strong>a relação pessoal com aquilo, <strong>não</strong> era simplesmente <strong>um</strong> instr<strong>um</strong>ento,<br />

<strong>um</strong> cachimbo <strong>de</strong> <strong>crack</strong> só, <strong>não</strong>. Eu tive que catar o cachimbo na mão, dizer:<br />

“prazer perninha”, sabe? E ela: “cheira o cachimbo pra você ver o cheiro<br />

g<strong>os</strong>t<strong>os</strong>o que tem”, n<strong>é</strong>? E eu assim, poxa, cru, falei: “vam<strong>os</strong> aí, n<strong>é</strong>, meu?”,<br />

cheirei o cachimbo, aquele cheiro forte <strong>de</strong> <strong>crack</strong>, <strong>de</strong> cinza e refletindo: “ela<br />

g<strong>os</strong>ta disso”, n<strong>é</strong> meu? “Esse <strong>é</strong> o barato <strong>de</strong>la”. E ela perceber que eu tive essa<br />

relação, que eu conheci o perninha, fez com que ela <strong>não</strong> ficasse com <strong>um</strong> p<strong>é</strong><br />

atrás comigo e a gente conversou, sentou e trocou maior id<strong>é</strong>ia...<br />

Para al<strong>é</strong>m <strong>de</strong> m<strong>os</strong>trar a relação próxima estabelecida entre a usuária e o redutor por meio da<br />

atitu<strong>de</strong> amist<strong>os</strong>a do segundo, a cena revela <strong>um</strong>a afeição entre a usuária e aquele cachimbo,<br />

chamado por ela <strong>de</strong> “perninha”. Se a cena n<strong>os</strong> parece estranha ou digna <strong>de</strong> algo que beira a<br />

irracionalida<strong>de</strong>, voltem<strong>os</strong> ao exemplo que Gell (1998, p.18-19) dá acerca <strong>de</strong> si mesmo e da sua<br />

relação com o seu carro, <strong>um</strong> toyota, chamado <strong>de</strong> “toyolly” por sua família, ou simplesmente<br />

“olly”. O carro <strong>é</strong> muito bem cuidado e, em troca, só quebrou em situações que <strong>não</strong> <strong>de</strong>ram a<strong>os</strong><br />

seus don<strong>os</strong> <strong>um</strong> gran<strong>de</strong> inconveniente. Contudo, se o Toyota quebrar <strong>um</strong>a noite, longe <strong>de</strong> casa,<br />

Gell diz que consi<strong>de</strong>rará tal feito <strong>um</strong>a traição, ingratidão e consi<strong>de</strong>rará o carro culpado por isso.<br />

O autor diz: “Eu sei que tais sentiment<strong>os</strong> são <strong>um</strong> tanto quanto bizarr<strong>os</strong>, mas eu tamb<strong>é</strong>m sei que<br />

99% d<strong>os</strong> don<strong>os</strong> <strong>de</strong> carr<strong>os</strong>, assim como eu, atribuem personalida<strong>de</strong> a<strong>os</strong> seus automóveis” 11 . E <strong>é</strong><br />

por essa razão que ele diz respeitar formas <strong>de</strong> interação entre pessoas e objet<strong>os</strong> que ele <strong>não</strong> <strong>é</strong><br />

capaz <strong>de</strong> compartilhar.<br />

11 Tradução livre minha.<br />

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Assim, para compreen<strong>de</strong>r a relação <strong>de</strong>ssa usuária com o seu cachimbo <strong>é</strong> preciso, primeiro,<br />

afastar a id<strong>é</strong>ia <strong>de</strong> irracionalida<strong>de</strong>. Depois, há que se suspen<strong>de</strong>r o caráter utilitário do cachimbo,<br />

como já n<strong>os</strong> alertaram Sahlins (2003) e Douglas e Isherwood (2009) e como tentei fazer ao<br />

longo <strong>de</strong>ste texto. E, por fim, <strong>é</strong> necessário que se leve em conta a p<strong>os</strong>sibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntificação<br />

entre a coisa e a pessoa, o g<strong>os</strong>to, assim como o contexto social no interior do qual a relação <strong>é</strong><br />

estabelecida.<br />

Ao longo da minha pesquisa <strong>de</strong> doutorado tenho me <strong>de</strong>parado com <strong>um</strong>a s<strong>é</strong>rie <strong>de</strong> representações<br />

midiáticas que se fartam em enunciar trajetórias pessoais e dramas familiares n<strong>os</strong><br />

quais o <strong>crack</strong> atua como <strong>de</strong>tonador d<strong>os</strong> conflit<strong>os</strong>, responsável pela ruptura <strong>de</strong> laç<strong>os</strong> afetiv<strong>os</strong><br />

e sociais. Por causa do <strong>crack</strong>, dizem as notícias, per<strong>de</strong>-se o controle, o caráter, a vergonha e<br />

a dignida<strong>de</strong>; at<strong>é</strong> a alma se per<strong>de</strong> <strong>um</strong> pouco12 . Creio que recuperar o contexto <strong>de</strong> reprodução<br />

midiática e tamb<strong>é</strong>m lembrar das constantes situações <strong>de</strong> agressão e do <strong>de</strong>scaso que marca a<br />

vida <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> parte <strong>de</strong>sses usuári<strong>os</strong> <strong>é</strong> relevante para enten<strong>de</strong>r a relação <strong>de</strong>ssa mulher com<br />

o seu cachimbo. Mas acredito que seu entendimento só se completa com a <strong>de</strong>scrição <strong>de</strong> outra<br />

cena que presenciei entre três menin<strong>os</strong> e <strong>um</strong>a menina, tod<strong>os</strong> em situação <strong>de</strong> rua e tod<strong>os</strong> usuári<strong>os</strong><br />

da droga. Na minha frente, eles começaram a tirar sarro da menina dizendo “ela f<strong>um</strong>ou<br />

naquela lata nojenta, que passa barata”. Riam muito enquanto ela, entre a vergonha e a indignação,<br />

gritava para mim com <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> lacrimejad<strong>os</strong>: “<strong>é</strong> mentira, tia, eu só f<strong>um</strong>o no <strong>cachimbo”</strong>. A<br />

fala da psicóloga do PRD/Campinas, em entrevista, po<strong>de</strong> indicar <strong>um</strong> modo <strong>de</strong> enten<strong>de</strong>r o que<br />

se passou aí:<br />

[se fala que] o <strong>crack</strong> <strong>é</strong> a nóia, o <strong>crack</strong> <strong>é</strong> fedido, o <strong>crack</strong> <strong>é</strong> porco e <strong>de</strong>ntro d<strong>os</strong><br />

que usam <strong>crack</strong>, tem ainda <strong>os</strong> que usam no cachimbo e <strong>os</strong> que usam na lata,<br />

<strong>os</strong> que usam na lata são a podridão da podridão, n<strong>é</strong>?<br />

Tais experiências somadas me m<strong>os</strong>travam tamb<strong>é</strong>m que o cachimbo marcava hierarquias e diferenciações<br />

internas entre <strong>os</strong> própri<strong>os</strong> cons<strong>um</strong>idores; mas ao observá-las todas em conjunto<br />

elas parecem dizer mais. Levando em conta a precarieda<strong>de</strong> que marca as suas vidas, <strong>não</strong> seria<br />

o uso <strong>de</strong> <strong>crack</strong> no cachimbo a fronteira última <strong>de</strong> h<strong>um</strong>anida<strong>de</strong> e dignida<strong>de</strong> <strong>de</strong> que po<strong>de</strong>m dar<br />

prova esses usuári<strong>os</strong>? Se assim for, a menina que chorava pra mim porque f<strong>um</strong>ava no cachimbo<br />

– e <strong>não</strong> n<strong>um</strong>a lata nojenta que passa barata – pedia para que eu reconhecesse a sua capacida<strong>de</strong><br />

<strong>de</strong> discernimento e <strong>de</strong> escolha, portanto sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ser gente. Se assim for,<br />

tamb<strong>é</strong>m consigo contextualizar a relação daquela senhora com o “perninha”. Ter o seu próprio<br />

cachimbo po<strong>de</strong> revelar o grau máximo <strong>de</strong> at<strong>é</strong> on<strong>de</strong> algu<strong>é</strong>m po<strong>de</strong> se assujeitar.<br />

Apreensão policial, à guisa <strong>de</strong> conclusão<br />

Por fim, atrav<strong>é</strong>s d<strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> po<strong>de</strong>m<strong>os</strong> notar as disputas entre as secretarias <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e a <strong>de</strong> segurança,<br />

como nota este trecho retirado tamb<strong>é</strong>m da tese <strong>de</strong> Domanico (2006, p. 189, grif<strong>os</strong> meus):<br />

N<strong>um</strong>a visita a campo no projeto dois pu<strong>de</strong>m<strong>os</strong> constatar o <strong>de</strong>spreparo policial.<br />

Enquanto a equipe estava n<strong>um</strong> lado da rua conversando e distribuindo<br />

ins<strong>um</strong><strong>os</strong>, no outro lado a polícia passava e com <strong>um</strong> alicate quebrava <strong>os</strong><br />

cachimb<strong>os</strong> dizendo: “A secretaria <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> distribui e a secretaria <strong>de</strong><br />

segurança recolhe”<br />

E <strong>um</strong>a vez que <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> tamb<strong>é</strong>m falam <strong>sobre</strong> seus portadores, eles po<strong>de</strong>m se voltar con-<br />

12 Cf: “At<strong>é</strong> a alma eu perdi <strong>um</strong> pouco”. Folha <strong>de</strong> S.Paulo, São Paulo, 15 jan. 2005,Disponpivel em: . Acesso em: 22 fev. 2012.<br />

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tra eles e acusá-l<strong>os</strong>. Esses mesm<strong>os</strong> materiais passaram a ser objeto <strong>de</strong> apreensão policial,<br />

informações adicionais na caracterização/explicação <strong>de</strong> at<strong>os</strong> infracionais, como m<strong>os</strong>tram as<br />

reportagens abaixo:<br />

Acusada <strong>de</strong> roubar a carteira do porteiro Evangelista Oliveira, 49, <strong>um</strong>a garota<br />

<strong>de</strong> 16 an<strong>os</strong> foi apreendida e espancada por dois policiais militares ontem à<br />

tar<strong>de</strong> na avenida Manuel Ban<strong>de</strong>ira, na Vila Leopoldina (zona oeste).[...]<br />

Antes <strong>de</strong> <strong>de</strong>ter a jovem, <strong>os</strong> PMs <strong>de</strong>ram-lhe vári<strong>os</strong> soc<strong>os</strong> e chutes. Quando já<br />

estava algemada e <strong>de</strong>ntro do carro da polícia, ela bateu com as algemas n<strong>os</strong><br />

vidr<strong>os</strong> e <strong>um</strong> d<strong>os</strong> PMs jogou gás pimenta em seu r<strong>os</strong>to. [...] Os PMs disseram<br />

à Polícia Civil que encontraram com a jovem <strong>um</strong> cachimbo usado por<br />

viciad<strong>os</strong> em <strong>crack</strong>, isqueir<strong>os</strong> e <strong>um</strong>a chave <strong>de</strong> fenda. 13 (grif<strong>os</strong> meus).<br />

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Com o objetivo <strong>de</strong> inibir a criminalida<strong>de</strong>, encaminhar e promover o resgate<br />

à autoestima d<strong>os</strong> cidadã<strong>os</strong> em situação <strong>de</strong> rua, a Prefeitura realizou nesta<br />

terça-feira, dia 19 <strong>de</strong> janeiro, mais <strong>um</strong>a edição da ação integrada do mutirão<br />

“Bom dia morador <strong>de</strong> rua”, a primeira em 2010. Os trabalh<strong>os</strong> tiveram início às<br />

6h30. [...]<br />

Segundo Darci Silva, <strong>os</strong> cidadã<strong>os</strong> passaram por triagem e foram i<strong>de</strong>ntificad<strong>os</strong><br />

pela Polícia Militar. Segundo o Major João Carl<strong>os</strong> Arraes, foram apreendid<strong>os</strong><br />

na operação <strong>de</strong>sta manhã objet<strong>os</strong> cortantes como facas e facão, al<strong>é</strong>m<br />

<strong>de</strong> isqueir<strong>os</strong> e cachimb<strong>os</strong> para uso <strong>de</strong> craque(sic), e tamb<strong>é</strong>m objet<strong>os</strong><br />

perfurantes e pontiagud<strong>os</strong> 14 (grif<strong>os</strong> meus).<br />

Como se vê, <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> passam a ser emblemas da marginalida<strong>de</strong> urbana. Apreendê-l<strong>os</strong> significa<br />

dar m<strong>os</strong>tras do trabalho policial e da luta d<strong>os</strong> órgã<strong>os</strong> <strong>de</strong> repressão em conter <strong>os</strong> “<strong>de</strong>svi<strong>os</strong> <strong>de</strong><br />

conduta”. É quando cachimbo <strong>de</strong>nota sua face mais radical: a violência simbólica po<strong>de</strong> adquirir<br />

forma e concretu<strong>de</strong> física. O processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>s<strong>um</strong>anização <strong>de</strong>sses usuári<strong>os</strong> se intensifica.<br />

*<br />

Com o exp<strong>os</strong>to ao longo <strong>de</strong> toda arg<strong>um</strong>entação e para finalizar, espero ter m<strong>os</strong>trado a relevância<br />

<strong>de</strong> observar o mundo material para o entendimento do mundo simbólico e das relações<br />

sociais face-a-face. Como essa afirmação <strong>não</strong> faz sentido sem o enfrentamento <strong>de</strong> <strong>um</strong> conjunto<br />

<strong>de</strong> fat<strong>os</strong> concret<strong>os</strong> e específic<strong>os</strong>, a minha análise privilegiou a <strong>de</strong>scrição empírica. No<br />

caso observado, <strong>os</strong> cachimb<strong>os</strong> põem em relevo as cenas <strong>de</strong> uso, a criação <strong>de</strong> <strong>um</strong> mercado, o<br />

dilema moral presente na sua distribuição, o trânsito <strong>de</strong> saberes entre profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />

progressistas e <strong>os</strong> usuári<strong>os</strong>, <strong>os</strong> divers<strong>os</strong> atores que participam <strong>de</strong>sse universo, a busca <strong>de</strong> <strong>um</strong>a<br />

consciência política, <strong>os</strong> limites entre pessoas e coisas e a ameaça <strong>de</strong> violência física e simbólica<br />

presente no cotidiano <strong>de</strong>sses usuári<strong>os</strong>.<br />

13 Cf. “PMs agri<strong>de</strong>m jovem acusada <strong>de</strong> roubar carteira”, Folha <strong>de</strong> S. Paulo, São Paulo, 15 set. 2009. Disponível em:<br />

. Acesso em: 22 fev. 2012.<br />

14 Cf. “Tolerância Zero realiza primeira operação ‘Bom dia morador <strong>de</strong> rua em 2010”, publicado em 19/01/2010.<br />

Disponível em: Acesso em: jul. 2010.


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