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Um negociador astuto não se limita a jogar bem com as cartas que ...

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<strong>Um</strong> <strong>negociador</strong><br />

<strong><strong>as</strong>tuto</strong> <strong>não</strong> <strong>se</strong> <strong>limita</strong><br />

a <strong>jogar</strong> <strong>bem</strong> <strong>com</strong> <strong>as</strong><br />

cart<strong>as</strong> <strong>que</strong> tem, m<strong>as</strong><br />

arma o jogo a <strong>se</strong>u<br />

favor antes mesmo<br />

de chegar à mesa.<br />

A posição destes<br />

<strong>não</strong> deveria <strong>se</strong>r<br />

marginal<br />

Aqui, é bom<br />

obter um acordo<br />

paralelo antes<br />

É preciso<br />

tirar este<br />

da mesa<br />

50 harvard business review<br />

james shearman


<strong>que</strong> <strong>se</strong>para você do “sim” tão de<strong>se</strong>jado? Da<br />

análi<strong>se</strong> de centen<strong>as</strong> de negociações, revelamos<br />

barreir<strong>as</strong> em três dimensões, tod<strong>as</strong> <strong>com</strong>plementares.<br />

A primeira é a tática, a <strong>se</strong>gunda o de<strong>se</strong>nho do<br />

acordo e a terceira a configuração da negociação. Cada<br />

uma dess<strong>as</strong> três dimensões é crucial, m<strong>as</strong> muitos <strong>negociador</strong>es,<br />

e boa parte da literatura sobre negociação, trata<br />

apen<strong>as</strong> d<strong>as</strong> du<strong>as</strong> primeir<strong>as</strong>.<br />

A maioria d<strong>as</strong> obr<strong>as</strong> sobre negociação, por exemplo,<br />

buscar ensinar o executivo a dominar a tática, ou <strong>se</strong>ja,<br />

a interação à mesa de discussão. Nesta dimensão, <strong>as</strong> barreir<strong>as</strong><br />

<strong>com</strong>uns ao sim incluem a falta de confiança entre<br />

<strong>as</strong> partes, a <strong>com</strong>unicação deficiente e a postura agressiva<br />

de <strong>que</strong>m negocia. Logo, um livro costuma dar dic<strong>as</strong> úteis<br />

para interpretar a linguagem corporal, adaptar o estilo<br />

à situação de barganha, ouvir atentamente, expor uma<br />

te<strong>se</strong> de modo persu<strong>as</strong>ivo, tomar decisões a respeito de<br />

ofert<strong>as</strong> e contra-ofert<strong>as</strong>, administrar prazos, defender-<strong>se</strong><br />

de golpes sujos, evitar gafes culturais e por aí afora.<br />

Também <strong>se</strong> dá atenção à <strong>se</strong>gunda dimensão, a do de<strong>se</strong>-<br />

novembro 2003<br />

O jogo por inteiro<br />

David A. Lax e James K. Sebenius<br />

nho do acordo. Ou <strong>se</strong>ja, a capacidade dos <strong>negociador</strong>es<br />

de arquitetar à mesa um acordo <strong>que</strong> gere um valor duradouro.<br />

Quando um negócio <strong>não</strong> oferece valor suficiente<br />

para tod<strong>as</strong> <strong>as</strong> partes, ou quando sua estrutura impede<br />

o sucesso, um bom <strong>negociador</strong> 2D trata de diagnosticar<br />

fontes subjacentes de valor, econômico ou <strong>não</strong>, e então<br />

monta um acordo capaz de fazer tal valor fluir para <strong>as</strong> partes.<br />

Caberia algum tipo de troca entre <strong>as</strong> partes e, neste<br />

c<strong>as</strong>o, em <strong>que</strong> termos? Deveria o acordo <strong>se</strong>r em etap<strong>as</strong>, talvez<br />

<strong>com</strong> cláusul<strong>as</strong> de contingência e de divisão de riscos?<br />

<strong>Um</strong> acordo de estrutura e conceito mais criativo? <strong>Um</strong><br />

acordo <strong>que</strong> satisfaça <strong>as</strong> necessidades do ego tanto quanto<br />

<strong>as</strong> econômic<strong>as</strong>?<br />

Para além de desafios interpessoais e de de<strong>se</strong>nho do<br />

acordo <strong>que</strong> um executivo enfrenta em negociações 1D<br />

e 2D, há os obstáculos 3D. São falh<strong>as</strong> na própria configuração<br />

da negociação. Problem<strong>as</strong> típicos nesta terceira<br />

dimensão, <strong>com</strong>umente negligenciada, incluem a negociação<br />

<strong>com</strong> <strong>as</strong> partes errad<strong>as</strong> ou sobre <strong>que</strong>stões errad<strong>as</strong>, ou<br />

<strong>com</strong> o envolvimento d<strong>as</strong> partes na <strong>se</strong>qüência errada, ou<br />

51


negociação 3D: o jogo por inteiro<br />

ainda na hora errada, além de cláusul<strong>as</strong> para encerrar<br />

convers<strong>as</strong> in<strong>com</strong>patíveis ou pouco atraentes. O <strong>que</strong> um<br />

<strong>negociador</strong> 3D faz é reformular o escopo e a <strong>se</strong>qüência<br />

do próprio jogo para chegar ao resultado almejado. Longe<br />

da mesa, <strong>com</strong> um espírito empreendedor, es<strong>se</strong> <strong>negociador</strong><br />

age para garantir <strong>que</strong> <strong>as</strong> partes cert<strong>as</strong> <strong>se</strong>jam abordad<strong>as</strong> na<br />

ordem certa para tratar d<strong>as</strong> <strong>que</strong>stões cert<strong>as</strong>, pelos meios<br />

certos, na hora certa, <strong>com</strong> <strong>as</strong> expectativ<strong>as</strong> cert<strong>as</strong> e <strong>as</strong> cláusul<strong>as</strong><br />

cert<strong>as</strong> para encerrar <strong>as</strong> convers<strong>as</strong>.<br />

A ex-repre<strong>se</strong>ntante de <strong>com</strong>ércio dos Estados Unidos<br />

Charlene Barshefsky, <strong>que</strong> negociou <strong>com</strong> centen<strong>as</strong> de<br />

empres<strong>as</strong>, governos e organizações <strong>não</strong>-governamentais<br />

para promover acordos em bens, <strong>se</strong>rviços e propriedade<br />

intelectual, caracteriza <strong>as</strong>sim uma negociação 3D <strong>bem</strong>sucedida:<br />

“À mesa, <strong>as</strong> tátic<strong>as</strong> repre<strong>se</strong>ntam apen<strong>as</strong> o trabalho<br />

de faxina. Muita gente confunde tática <strong>com</strong> o conteúdo<br />

subjacente e <strong>com</strong> o incansável esforço exigido fora<br />

da mesa para criar a situação mais promissora possível<br />

quando <strong>se</strong> está cara a cara <strong>com</strong> a outra parte. Quando <strong>se</strong><br />

sabe o <strong>que</strong> é preciso e já <strong>se</strong> montou uma estratégia mais<br />

ampla, a tática de negociação flui naturalmente”. 1<br />

Negociação 3D na prática<br />

Até um executivo <strong>com</strong> grande habilidade interpessoal<br />

em negociações pode frac<strong>as</strong>sar quando <strong>as</strong> barreir<strong>as</strong> ao<br />

acordo residem na terceira dimensão. Na década de 60,<br />

o contrato de longo prazo e baixos royalties da Kennecott<br />

Copper para exploração da gigantesca mina de El<br />

Teniente, no Chile, corria alto risco de <strong>se</strong>r renegociado.<br />

Desde a redação original do contrato a situação política<br />

no Chile mudara dr<strong>as</strong>ticamente, tornando instáveis os<br />

termos do acordo. O Chile tinha o <strong>que</strong> parecia <strong>se</strong>r uma<br />

excelente opção de saída — ou, no jargão da negociação,<br />

uma BATNA (best alternative to negotiated agreement, ou<br />

melhor alternativa para acordo negociado). Agindo unilateralmente,<br />

o governo chileno podia alterar a fundo os<br />

termos financeiros do acordo ou até expropriar a mina.<br />

A BATNA da Kennecott parecia péssima: acatar os novos<br />

termos ou aceitar a expropriação.<br />

Suponhamos <strong>que</strong> a Kennecott tives<strong>se</strong> adotado uma estratégia<br />

1D voltada sobretudo à ação interpessoal à mesa<br />

de negociação. Nessa abordagem, a equipe executiva da<br />

Kennecott teria avaliado a personalidade dos ministros<br />

David A. Lax (lax@negotiate.<strong>com</strong>) é diretor da Lax Sebenius,<br />

firma de consultoria de estratégi<strong>as</strong> de negociação de Concord,<br />

M<strong>as</strong>sachu<strong>se</strong>tts. James K. Sebenius (j<strong>se</strong>benius@hbs.<br />

edu) é titular da cátedra Gordon Donaldson Professor of<br />

Business Administration da Harvard Business School, em<br />

Boston, e diretor da Lax Sebenius. Ambos são membros do<br />

Negotiation Roundtable, fórum da Harvard Business School,<br />

e autores do livro 3-D Negotiation: Creating and Claiming<br />

Value for the Long Term (Harvard Business School Press,<br />

no prelo).<br />

<strong>com</strong> <strong>que</strong>m iria negociar. Tentaria agir <strong>com</strong> <strong>se</strong>nsibilidade<br />

cultural e talvez opt<strong>as</strong><strong>se</strong> por realizar os encontros em<br />

finos restaurantes. De fato, a equipe da Kennecott tomou<br />

tod<strong>as</strong> ess<strong>as</strong> precauções, <strong>se</strong>nsat<strong>as</strong>. M<strong>as</strong>, diante da ameaçadora<br />

realidade da situação, tal abordagem <strong>não</strong> prometia<br />

o b<strong>as</strong>tante. O Chile parecia estar <strong>com</strong> a faca e o <strong>que</strong>ijo na<br />

mão: <strong>não</strong> precisava da Kennecott para explorar a jazida,<br />

pois contava <strong>com</strong> executivos e engenheiros tarimbados.<br />

Já a Kennecott parecia estar de mãos atad<strong>as</strong>: <strong>não</strong> tinha<br />

<strong>com</strong>o transferir a mina de cobre para outro lugar, <strong>não</strong><br />

tinha controle absoluto sobre o processamento ou a <strong>com</strong>ercialização<br />

do valioso metal e <strong>não</strong> contava <strong>com</strong> nenhuma<br />

perspectiva realista de convocar, <strong>com</strong>o em tempos<br />

idos, o socorro da frota americana.<br />

Felizmente para a Kennecott, <strong>se</strong>us <strong>negociador</strong>es adotaram<br />

uma estratégia 3D e criaram um cenário mais favorável<br />

para <strong>as</strong> iminentes discussões. Em <strong>se</strong>is lances, a equipe<br />

da americana alterou <strong>com</strong>pletamente o jogo em campo.<br />

Em primeiro lugar, e para uma certa surpresa do governo<br />

chileno, a Kennecott <strong>se</strong> dispôs a vender ao Chile uma participação<br />

majoritária na mina. Em <strong>se</strong>gundo, para adoçar<br />

a oferta, propôs <strong>que</strong> o capital levantado <strong>com</strong> tal venda<br />

fos<strong>se</strong> usado, juntamente <strong>com</strong> fundos de um empréstimo<br />

do Export-Import Bank, para financiar uma grande expansão<br />

da mina. Em terceiro, convenceu o governo chileno<br />

a garantir este empréstimo e a subordinar a fiança<br />

ao foro do estado de Nova York, nos EUA. Em quarto<br />

lugar, a Kennecott <strong>se</strong>gurou o máximo possível de <strong>se</strong>us ativos<br />

num programa do governo americano contra expropriação.<br />

Em quinto, con<strong>se</strong>guiu <strong>que</strong> a produção da mina,<br />

finda a expansão, fos<strong>se</strong> vendida por meio de contratos de<br />

longo prazo <strong>com</strong> clientes norte-americanos e europeus.<br />

Em <strong>se</strong>xto, vendeu os direitos de cobrança dos contratos a<br />

um consórcio de instituições financeir<strong>as</strong> européi<strong>as</strong>, american<strong>as</strong><br />

e japones<strong>as</strong>.<br />

Tudo isso alterou fundamentalmente <strong>as</strong> negociações.<br />

A expansão da mina, e o Chile <strong>com</strong>o sócio majoritário,<br />

tornavam o bolo maior e mais valioso para o país anfitrião:<br />

a proposta resultaria em mais receita para o Chile e<br />

satisfaria o interes<strong>se</strong> do país em manter a soberania, ainda<br />

<strong>que</strong> nominal, sobre <strong>se</strong>us próprios recursos naturais.<br />

Além do mais, uma série de clientes, governos e credores<br />

partilhavam então do receio da Kennecott sobre<br />

futur<strong>as</strong> mudanç<strong>as</strong> polític<strong>as</strong> no Chile e viam <strong>com</strong> alto ceticismo<br />

a capacidade do país de, ao longo do tempo, explorar<br />

a mina <strong>com</strong> eficiência. O Chile já <strong>não</strong> lidava só <strong>com</strong> a<br />

Kennecott, m<strong>as</strong> enfrentava uma negociação multilateral<br />

<strong>com</strong> entes <strong>com</strong> os quais teria negócios no futuro — <strong>não</strong><br />

só na mineração m<strong>as</strong> também no <strong>se</strong>tor financeiro, na indústria,<br />

n<strong>as</strong> leis e na arena pública. A BATNA original do<br />

Chile — dispensar a Kennecott <strong>se</strong>m cerimôni<strong>as</strong> — parecia<br />

agora muito menos atraente, já <strong>que</strong> prejudicar a Kennecott<br />

punha em risco um conjunto maior de interes<strong>se</strong>s<br />

pre<strong>se</strong>ntes e futuros do país.<br />

Por fim, <strong>as</strong> garanti<strong>as</strong>, o <strong>se</strong>guro e outros contratos refor-<br />

52 harvard business review


çaram a BATNA da Kennecott. Se <strong>não</strong> houves<strong>se</strong> acordo<br />

e o Chile decidis<strong>se</strong> expropriar a operação, a Kennecott<br />

teria a <strong>se</strong>u lado uma série de aliados. Embora a mina<br />

tenha sido nacionalizada anos depois, a deterioração d<strong>as</strong><br />

alternativ<strong>as</strong> do Chile garantiu à Kennecott uma posição<br />

operacional melhor e um fluxo de caixa por alguns anos<br />

a mais, algo <strong>que</strong> faltou a empres<strong>as</strong> <strong>se</strong>melhantes <strong>que</strong> <strong>não</strong><br />

tomaram <strong>as</strong> mesm<strong>as</strong> providênci<strong>as</strong>.<br />

Este c<strong>as</strong>o reforça nossa mensagem central: <strong>não</strong> <strong>se</strong> limite<br />

a usar <strong>com</strong> habilidade <strong>as</strong> cart<strong>as</strong> de negociação <strong>que</strong><br />

você recebe; mude para melhor a arquitetura subjacente<br />

da negociação. É improvável <strong>que</strong> a Kennecott pudes<strong>se</strong><br />

ter sido salva da posição desvantajosa na negociação<br />

pelo brilho tático ou interpessoal 1D à mesa — fos<strong>se</strong> na<br />

forma de olhares fulminantes, de ob<strong>se</strong>rvações <strong>se</strong>nsíveis<br />

do ponto de vista cultural ou de atenção e consideração<br />

a tod<strong>as</strong> <strong>as</strong> partes. Já <strong>as</strong> jogad<strong>as</strong> 3D feit<strong>as</strong> pela empresa<br />

fora da mesa alteraram a configuração da negociação (<strong>as</strong><br />

partes envolvid<strong>as</strong>, os interes<strong>se</strong>s em jogo, <strong>as</strong> respectiv<strong>as</strong><br />

BATNAS) e, no final, criaram mais valor para todos os<br />

envolvidos — valor este revertido em grande parte para<br />

a própria Kennecott.<br />

Como funciona o jogo 3D<br />

Para induzir os alvos ao “sim”, um <strong>negociador</strong> 3D de<br />

sucesso melhora o acordo proposto, reforça su<strong>as</strong> própri<strong>as</strong><br />

BATNAs e enfra<strong>que</strong>ce <strong>as</strong> d<strong>as</strong> outr<strong>as</strong> partes. Com<br />

isso, o jogador 3D pretende apropiar um valor para si<br />

mesmo, acima de tudo, m<strong>as</strong> também gerar valor para<br />

todos os envolvidos.<br />

novembro 2003<br />

As três dimensões da negociação<br />

negociação 3D: o jogo por inteiro<br />

Apropriação de valor. Para apropriar valor para si, um<br />

<strong>negociador</strong> 3D recorre a divers<strong>as</strong> prátic<strong>as</strong> <strong>com</strong>uns, inclusive<br />

a de buscar ofert<strong>as</strong> extern<strong>as</strong> ou colocar novos jogadores<br />

em campo, às vezes para promover um leilão formal<br />

ou informal. Tendo negociado uma sucessão de alianç<strong>as</strong><br />

e aquisições <strong>que</strong> catapultaram a Millennium Pharmaceuticals<br />

do modesto início, em 1993, para um empreendimento<br />

multibilionário menos de dez anos depois, o então<br />

diretor <strong>com</strong>ercial, Steve Holtzman, explicou a lógica de<br />

trazer nov<strong>as</strong> partes para <strong>as</strong> negociações: “Toda vez <strong>que</strong> farejamos<br />

uma possibilidade de negócio <strong>com</strong> alguém, imediatamente<br />

trazemos outr<strong>as</strong> <strong>se</strong>is pesso<strong>as</strong>. É de endoidecer,<br />

tentar negociar <strong>com</strong> todos. M<strong>as</strong>, em primeiro lugar, isso<br />

muda a percepção do outro lado da mesa. E, em <strong>se</strong>gundo,<br />

muda a sua percepção de si mesmo. Se você acredita <strong>que</strong><br />

há outros interessados, <strong>se</strong>u blefe deixa de <strong>se</strong>r um blefe,<br />

torna-<strong>se</strong> real. E <strong>se</strong> adquire outro nível de convicção”. (Para<br />

mais sobre a Millennium, veja “Strategic Deal-making at<br />

Millennium Pharmaceuticals”, HBS ca<strong>se</strong> no. 9-800-032.)<br />

Em geral, convém tentar reforçar <strong>as</strong> própri<strong>as</strong> BATNAs.<br />

<strong>Um</strong> <strong>negociador</strong>, porém, nunca deve es<strong>que</strong>cer <strong>que</strong> alguns<br />

de <strong>se</strong>us lances podem, <strong>se</strong>m <strong>que</strong>rer, reduzir su<strong>as</strong> alternativ<strong>as</strong><br />

de saída. Anos atrás, por exemplo, trabalhamos <strong>com</strong><br />

um fabricante americano <strong>que</strong> negociava uma joint-venture<br />

no México. A empresa havia <strong>se</strong> inteirado de possíveis<br />

barreir<strong>as</strong> culturais e cl<strong>as</strong>sificado os três parceiros potenciais<br />

<strong>se</strong>gundo <strong>as</strong> <strong>com</strong>petênci<strong>as</strong> <strong>que</strong> julgava mais de<strong>se</strong>jáveis<br />

ness<strong>as</strong> empres<strong>as</strong>. Depois de abrir <strong>as</strong> negociações <strong>com</strong><br />

toda a <strong>se</strong>nsibilidade cultural, e na <strong>se</strong>qüência <strong>que</strong> parecia<br />

mais lógica, a equipe americana chegou a um imp<strong>as</strong><strong>se</strong><br />

<strong>com</strong> o parceiro mais atraente. As conversações foram<br />

Nossa pesquisa revela <strong>que</strong> o sucesso ou frac<strong>as</strong>so de uma negociação depende da atenção<br />

<strong>que</strong> os executivos dão a três dimensões <strong>com</strong>uns da negociação de um acordo.<br />

1D<br />

2D<br />

3D<br />

Foco<br />

Tática<br />

(pesso<strong>as</strong> e processos)<br />

De<strong>se</strong>nho do acordo<br />

(valor e substância)<br />

Configuração<br />

(escopo e <strong>se</strong>qüência)<br />

Barreir<strong>as</strong> <strong>com</strong>uns<br />

Questões interpessoais,<br />

<strong>com</strong>unicação deficiente,<br />

postura agressiva<br />

Ausência de acordos<br />

viáveis ou de<strong>se</strong>jáveis<br />

Partes, <strong>que</strong>stões,<br />

BATNAs e outros elementos<br />

<strong>não</strong> sustentam<br />

um processo viável ou<br />

um acordo valioso<br />

Abordagem<br />

Atuar “à mesa” para<br />

melhorar processos e<br />

tátic<strong>as</strong> interpessoais<br />

Retornar à “prancheta”<br />

para conceber acordos<br />

<strong>que</strong> liberem um valor<br />

duradouro<br />

Agir “fora da mesa” para<br />

criar escopo e <strong>se</strong>qüência<br />

mais favoráveis<br />

53


negociação 3D: o jogo por inteiro<br />

abandonad<strong>as</strong> e a empresa mergulhou de cabeça n<strong>as</strong> negociações<br />

<strong>com</strong> o <strong>se</strong>gundo candidato da lista — e, de novo,<br />

<strong>as</strong> cois<strong>as</strong> <strong>não</strong> caminhavam <strong>bem</strong>. Se a <strong>se</strong>gunda rodada de<br />

convers<strong>as</strong> também fos<strong>se</strong> um fi<strong>as</strong>co, imagine <strong>com</strong>o <strong>se</strong>riam<br />

<strong>as</strong> negociações <strong>com</strong> o terceiro parceiro — menos aceitável<br />

ainda —, quando todos no <strong>se</strong>tor já estariam a par dos<br />

resultados d<strong>as</strong> negociações.<br />

A cada rodada frustrada de negociações, a BATNA da<br />

empresa americana — fechar <strong>com</strong> outra empresa mexicana<br />

ou desistir da joint-venture — piorava. Felizmente,<br />

ao mesmo tempo em <strong>que</strong> conversavam <strong>com</strong> a <strong>se</strong>gunda<br />

empresa da lista, os americanos iniciaram discussões exploratóri<strong>as</strong><br />

<strong>com</strong> a terceira. Isso contribuiu para <strong>que</strong> a americana<br />

verific<strong>as</strong><strong>se</strong> <strong>que</strong> parceria faria mais <strong>se</strong>ntido <strong>com</strong>ercialmente,<br />

evit<strong>as</strong><strong>se</strong> descartar opções prematuramente e<br />

tir<strong>as</strong><strong>se</strong> proveito da <strong>com</strong>petição entre <strong>as</strong> empres<strong>as</strong> mexican<strong>as</strong>.<br />

O processo deveria ter sido armado pela empresa<br />

americana de tal forma <strong>que</strong> a perspectiva de fechar <strong>com</strong> o<br />

parceiro mexicano mais de<strong>se</strong>jável lhe <strong>se</strong>rvis<strong>se</strong> de BATNA<br />

n<strong>as</strong> convers<strong>as</strong> <strong>com</strong> o <strong>se</strong>gundo parceiro mais de<strong>se</strong>jável, e<br />

<strong>as</strong>sim por diante. Em suma, a coisa teria sido estruturada<br />

<strong>com</strong>o uma negociação simultânea em quatro pont<strong>as</strong> (ou<br />

<strong>se</strong>ja, negociações paralel<strong>as</strong> da americana <strong>com</strong> cada uma<br />

d<strong>as</strong> três mexican<strong>as</strong>), e <strong>não</strong> <strong>com</strong>o três negociações bilaterais<br />

<strong>se</strong>qüenciais. Mais promissora, a configuração 3D teria<br />

reforçado qual<strong>que</strong>r insight cultural 1D e qual<strong>que</strong>r engenho<br />

tático <strong>que</strong> a empresa americana tives<strong>se</strong> reunido.<br />

Além de fortalecer a própria posição, os <strong>negociador</strong>es<br />

3D <strong>que</strong> trazem nov<strong>as</strong> partes e <strong>que</strong>stões a um acordo<br />

podem enfra<strong>que</strong>cer a BATNA da outra parte. Quando<br />

Edgar Bronfman, ex-presidente da Seagram’s e diretor<br />

do World Jewish Congress, procurou bancos suíços para<br />

reivindicar a indenização de sobreviventes do Holocausto<br />

cujo patrimônio familiar vinha <strong>se</strong>ndo injustamente retido<br />

desde a 2 a Guerra Mundial, viu-<strong>se</strong> falando<br />

sozinho. Executivos de bancos suíços,<br />

acreditando ter pleno respaldo legal, <strong>não</strong><br />

viam motivo para acolher a reivindicação<br />

de Bronfman, pois a <strong>que</strong>stão da restituição<br />

fora resolvida anos antes. M<strong>as</strong>, oito me<strong>se</strong>s<br />

mais tarde, sob a pressão de Bronfman e do<br />

World Jewish Congress, entre outros, <strong>as</strong> negociações<br />

sofreram uma drástica expansão<br />

— em detrimento dos suíços. Os bancos viram-<strong>se</strong><br />

ameaçados por uma efetiva coalizão<br />

de interes<strong>se</strong>s <strong>que</strong> punha em sério risco a<br />

lucrativa fatia suíça de negócios <strong>que</strong> envolviam<br />

<strong>as</strong> finanç<strong>as</strong> públic<strong>as</strong> em estados <strong>com</strong>o<br />

Califórnia e Nova York. Fundos de pensão<br />

gigantescos ameaçavam desovar ações de<br />

bancos suíços e de empres<strong>as</strong> <strong>com</strong> <strong>se</strong>de na<br />

Suíça. Havia o risco de atr<strong>as</strong>os na fusão do<br />

Swiss Bank e do UBS em função da licença<br />

de “idoneidade moral” <strong>se</strong>m a qual <strong>não</strong> <strong>se</strong><br />

fazem negócios em Nova York, da abertura<br />

de caríssimos e inconvenientes processos legais<br />

movidos por alguns dos mais eminentes<br />

advogados em ações coletiv<strong>as</strong> nos EUA e de<br />

uma insatisfação por parte do governo americano,<br />

<strong>que</strong> <strong>se</strong> tornara um ativo promotor<br />

do acordo.<br />

A BATNA dos ban<strong>que</strong>iros suíços ficara tão<br />

precária <strong>que</strong> <strong>não</strong> surpreende <strong>que</strong> <strong>as</strong> partes<br />

tenham chegado a um acordo, à luz do qual<br />

os suíços <strong>se</strong> <strong>com</strong>prometeram a pagar US$<br />

1,25 bilhão aos sobreviventes. O resultado,<br />

porém, era qua<strong>se</strong> inimaginável no <strong>com</strong>eço<br />

do jogo, a princípio pe<strong>que</strong>no e de caráter<br />

privado, quando os suíços pareciam estar<br />

dando <strong>as</strong> cart<strong>as</strong>.<br />

<strong>Um</strong> outro recurso de <strong>que</strong> os <strong>negociador</strong>es<br />

dispõem para apropriar-<strong>se</strong> de valor é reali-<br />

54 harvard business review


nhar <strong>as</strong> <strong>que</strong>stões em discussão e os interes<strong>se</strong>s em jogo.<br />

Foi o <strong>que</strong> a Microsoft fez para vencer a guerra dos brow<strong>se</strong>rs.<br />

Em 1996, a AOL precisava de<strong>se</strong>speradamente de um<br />

navegador de ponta para a internet, e tanto a Netscape<br />

quanto a Microsoft disputavam o acordo. O Netscape Navigator,<br />

tecnicamente superior e líder do mercado, <strong>com</strong>petia<br />

<strong>com</strong> o Internet Explorer, mais falho e então na luta<br />

por uma fatia do mercado, m<strong>as</strong> considerado por Bill Gates<br />

<strong>com</strong>o prioridade estratégica. A Netscape, confiante, até<br />

arrogante, pressionava por um acordo no qual a AOL pagaria<br />

por brow<strong>se</strong>r usado. O livro aol.<strong>com</strong> traz <strong>as</strong> <strong>se</strong>guintes<br />

<strong>as</strong>p<strong>as</strong> de Jean Villanueva, um alto executivo da AOL:<br />

“Quem tinha algo a perder era a Netscape. Ela dominava.<br />

Nós precisávamos obter aquilo <strong>que</strong> o mercado <strong>que</strong>ria.<br />

Mais importante, tínhamos a visão de <strong>que</strong> éramos empres<strong>as</strong><br />

menores lutando contra um mesmo inimigo, a Microsoft”.<br />

M<strong>as</strong>, no frigir dos ovos, <strong>que</strong>m costurou o acordo <strong>com</strong><br />

a AOL acabou <strong>se</strong>ndo a Microsoft. O Explorer <strong>se</strong>ria fornecido<br />

à AOL gratuitamente, <strong>com</strong>prometendo-<strong>se</strong> a gigante<br />

do software a fazer uma série de adaptações técnic<strong>as</strong> no<br />

futuro. A Microsoft também concordara <strong>que</strong> o pacote de<br />

software da AOL para o cliente incluiria o novo sistema<br />

operacional Windows.<br />

O ícone da AOL <strong>se</strong>ria in<strong>se</strong>rido<br />

pela Microsoft — concorrente direta<br />

da AOL — no desktop do Windows,<br />

ao lado do ícone da Microsoft<br />

Network (MSN), o <strong>se</strong>rviço online da<br />

própria Microsoft. Com a in<strong>se</strong>rção<br />

da AOL no “espaço imobiliário virtual<br />

mais valioso do mundo”, a AOL<br />

poderia chegar a 50 milhões de pesso<strong>as</strong><br />

a mais por ano a custo efetivamente<br />

nulo, contra um custo de<br />

aquisição de US$ 40 a US$ 80 por<br />

cliente para “bombardear” o país<br />

<strong>com</strong> discos AOL. Com efeito, Bill<br />

Gates sacrificou a posição da MSN no médio prazo em<br />

função da meta maior de ganhar a guerra dos brow<strong>se</strong>rs.<br />

De <strong>que</strong> modo os lances em 3D viraram a negociação<br />

em favor da Microsoft? Como <strong>se</strong>u brow<strong>se</strong>r era tecnicamente<br />

inferior ao da Netscape, a Microsoft tinha pouc<strong>as</strong><br />

chances de vitória nes<strong>se</strong> terreno, independentemente da<br />

tática e da habilidade à mesa. O <strong>que</strong> a Microsoft fez foi<br />

transferir <strong>as</strong> negociações do âmbito técnico-financeiro,<br />

privilegiado pela Netscape, para um âmbito <strong>com</strong>ercial<br />

mais amplo, em <strong>que</strong> a vantagem decisiva era dela, da Microsoft.<br />

Em vez de dirigir a venda para os tecnólogos, a<br />

Microsoft focou a turma da administração da AOL. Foi<br />

<strong>com</strong>o declarou o cabeça d<strong>as</strong> negociações e chefe do de<strong>se</strong>nvolvimento<br />

<strong>com</strong>ercial da AOL, David Colburn, em depoimento<br />

à Suprema Corte americana em 1998: “A disposição<br />

da Microsoft de agregar a AOL de certa forma ao<br />

sistema operacional Windows foi um fator <strong>com</strong>petitivo<br />

novembro 2003<br />

A Microsoft p<strong>as</strong>sou <strong>as</strong><br />

negociações do âmbito<br />

técnico-financeiro,<br />

privilegiado pela<br />

Netscape, para uma<br />

arena <strong>com</strong>ercial mais<br />

ampla, na qual detinha<br />

uma vantagem decisiva.<br />

negociação 3D: o jogo por inteiro<br />

de importância crítica <strong>que</strong> a Netscape <strong>não</strong> tinha <strong>com</strong>o<br />

igualar”. Em vez de tentar tirar o máximo de cart<strong>as</strong> frac<strong>as</strong><br />

negociando <strong>com</strong> a parte X <strong>as</strong> <strong>que</strong>stões A e B, a Microsoft<br />

transferiu o jogo para uma contraparte Y mais <strong>com</strong>patível,<br />

enfatizando <strong>as</strong> <strong>que</strong>stões C, D e E, <strong>que</strong> eram o <strong>se</strong>u<br />

forte.<br />

Estes exemplos de lances 3D voltados à apropriação de<br />

valor estão em conflito <strong>com</strong> a abordagem interpessoal<br />

1D, <strong>que</strong> é o padrão da negociação. O <strong>que</strong> <strong>se</strong> faz fora da<br />

mesa — alterando radicalmente <strong>as</strong> partes e <strong>as</strong> <strong>que</strong>stões,<br />

reestruturando e res<strong>se</strong>qüenciando o processo, alterando<br />

<strong>as</strong> BATNAs — são ações <strong>que</strong> <strong>não</strong> envolvem primordialmente<br />

habilidades interpessoais 1D, m<strong>as</strong> a melhoria da<br />

configuração da negociação em si.<br />

Geração de valor. Ao trazer partes ou <strong>que</strong>stões <strong>com</strong>plementares<br />

para o processo de negociação, um <strong>negociador</strong><br />

3D pode sair dali <strong>com</strong> mais valor para si mesmo<br />

e também gerar mais valor para tod<strong>as</strong> <strong>as</strong> partes envolvid<strong>as</strong>.<br />

Em Co-opetition, uma obra influente sobre estratégia<br />

empresarial, Adam Brandenburger e Barry Nalebuff<br />

exploraram o conceito de rede de valor, ou a reunião<br />

de partes capazes de gerar valor por <strong>se</strong>u potencial de<br />

con<strong>se</strong>nso e acordo. Muit<strong>as</strong> vezes, um <strong>negociador</strong> 3D<br />

age <strong>com</strong>o facilitador no de<strong>se</strong>nvolvimento dess<strong>as</strong> redes.<br />

Vai além de su<strong>as</strong> transações espe-<br />

cífic<strong>as</strong> em busca de partes <strong>com</strong>patíveis,<br />

<strong>com</strong> capacitação ou valor<br />

<strong>com</strong>plementares, e forja acordos<br />

em <strong>que</strong> tais partes <strong>se</strong>jam lucrativamente<br />

incorporad<strong>as</strong>.<br />

O mundo d<strong>as</strong> relações extern<strong>as</strong><br />

traz diversos exemplos de <strong>que</strong> um<br />

acordo bilateral de alto potencial é<br />

inviável <strong>se</strong>m a inclusão de uma terceira<br />

parte <strong>com</strong> interes<strong>se</strong>s <strong>com</strong>plementares.<br />

Numa edição de 1985 do<br />

Negotiation Journal, Janice G. Stein,<br />

professora da University of Toronto<br />

e especialista em negociação internacional, escreveu o <strong>se</strong>guinte<br />

a propósito do papel 3D de Henry Kissinger numa<br />

negociação crucial sobre o Oriente Médio: “A estrutura<br />

circular de pagamento foi es<strong>se</strong>ncial para a obtenção do<br />

con<strong>se</strong>nso entre <strong>as</strong> partes. O Egito melhorou a imagem<br />

dos Estados Unidos no mundo árabe, sobretudo entre os<br />

estados produtores de petróleo; os Estados Unidos concederam<br />

a Israel uma volumosa ajuda militar e financeira; e<br />

Israel cedeu território ao Egito. <strong>Um</strong>a troca bilateral entre<br />

Egito e Israel <strong>não</strong> teria dado certo, pois nenhum <strong>que</strong>ria o<br />

<strong>que</strong> o outro poderia dar”.<br />

Num exemplo do mundo empresarial, os donos de<br />

uma empresa de embalagens especiais <strong>com</strong> tecnologia<br />

inovadora e um produto novo estavam imersos em negociações<br />

de preço para vender a empresa a um de três<br />

<strong>com</strong>pradores potenciais, todos de maior porte <strong>que</strong> ela.<br />

Em vez de <strong>se</strong> ater principalmente ao trabalho <strong>com</strong> o pes-<br />

55


negociação 3D: o jogo por inteiro<br />

Mapeamento retrospectivo até o “sim”<br />

Q<br />

ue <strong>as</strong>pecto tem uma estratégia 3D<br />

sofisticada? Vejamos a experiência<br />

do executivo Henry Iverson, <strong>que</strong> adquiriu<br />

a Concord Pulp and Paper (CPP)<br />

<strong>com</strong> os sócios por US$ 8,5 milhões<br />

numa transação altamente alavancada<br />

(nomes e detalhes de indivíduos e<br />

empres<strong>as</strong> foram alterados). Fechado o<br />

acordo, surgiu a necessidade de mais<br />

capital para tornar a CPP mais rentável.<br />

O pedido foi sumariamente recusado<br />

pelo Federal Street Bank (FSB),<br />

embora <strong>se</strong> tenha recorrido a tátic<strong>as</strong><br />

1D <strong>com</strong>o discursos persu<strong>as</strong>ivos e almoços<br />

elegantes. Estava na hora de partir<br />

para o 3D.<br />

Antes disso, alguns dados contextuais.<br />

Para adquirir a CPP de <strong>se</strong>us credores,<br />

Iverson e os sócios pu<strong>se</strong>ram<br />

US$ 700 mil de capital próprio e emprestaram<br />

US$ 7,8 milhões do FSB (um<br />

crédito de curto prazo de US$ 1,3 milhão<br />

garantido por valores a receber e<br />

outro, de US$ 6,5 milhões, garantido<br />

por ativos). Pouco depois, a CPP teve a<br />

oportunidade de agregar uma caldeira<br />

<strong>que</strong> ampliaria a capacidade da fábrica<br />

em 100 tonelad<strong>as</strong> por dia, melhoraria<br />

<strong>as</strong> margens e a qualidade geral e reforçaria<br />

o fluxo de caixa líquido anual em<br />

US$ 4,1 milhões. A caldeira reduziria<br />

em 95% a emissão de poluentes da<br />

CPP na cidade de Concord. A obra<br />

levaria dois anos para <strong>se</strong>r concluída<br />

ao custo de US$ 9 milhões, dos quais<br />

US$ 6 milhões <strong>se</strong>riam pagos à Bathurst<br />

and Felson Engineering (BFE) e<br />

o resto a empreiteir<strong>as</strong> menores.<br />

O funcionário do <strong>se</strong>tor de crédito do<br />

FSB encarregado de dar a má notícia<br />

citou <strong>as</strong> diretrizes do banco: “Exigimos<br />

50% do esto<strong>que</strong> <strong>não</strong>-<strong>com</strong>prometido e<br />

80% dos valores a receber. A CPP<br />

<strong>não</strong> satisfaz nenhuma d<strong>as</strong> du<strong>as</strong> condições<br />

e 93% de sua estrutura de capital<br />

já está alavancada”. Iverson insistiu.<br />

Ouviu <strong>que</strong>, <strong>se</strong> o patrimônio líquido<br />

fos<strong>se</strong> maior, o FSB talvez liber<strong>as</strong><strong>se</strong> um<br />

empréstimo de construção de curto<br />

prazo — m<strong>as</strong> só <strong>se</strong> uma terceira parte<br />

idônea garantis<strong>se</strong> um financiamento<br />

substituto depois de dois anos. Iverson<br />

adotou então tátic<strong>as</strong> de negociação 3D<br />

para empreender uma ampla prospecção<br />

e um mapeamento retrospectivo<br />

<strong>com</strong> ba<strong>se</strong> no problema pre<strong>se</strong>nte, no<br />

intuito de estabelecer os acordos (<strong>com</strong><br />

partes ainda <strong>não</strong> envolvid<strong>as</strong>) capazes<br />

de maximizar <strong>as</strong> chances de ouvir um<br />

“sim” do banco.<br />

1 Envolver <strong>se</strong>guradora. Iverson procurou<br />

du<strong>as</strong> <strong>se</strong>gurador<strong>as</strong> para obter um<br />

financiamento substituto. A Unified Insurance<br />

Company (UIC) tinha a estrutura<br />

de tax<strong>as</strong> mais atraente; a Worldwide<br />

Insurance cobrava tax<strong>as</strong> mais<br />

elevad<strong>as</strong> e <strong>não</strong> tinha interes<strong>se</strong>. Amb<strong>as</strong><br />

dis<strong>se</strong>ram <strong>que</strong> a CPP estava “alavancada<br />

demais”. Além disso, a UIC só daria o<br />

empréstimo contra a garantia do fluxo<br />

de caixa de projetos totalmente concluídos.<br />

Iverson con<strong>se</strong>guiu uma carta<strong>com</strong>promisso<br />

da <strong>se</strong>guradora: por uma<br />

taxa de <strong>com</strong>promisso mais uma parcela<br />

do lucro gerado pela caldeira, a<br />

UIC concordava em conceder o empréstimo,<br />

desde <strong>que</strong> o projeto fos<strong>se</strong><br />

concluído <strong>com</strong> sucesso e houves<strong>se</strong> um<br />

aumento do patrimônio líquido na estrutura<br />

de capital da CPP.<br />

2 Envolver governo. Incapaz de levantar<br />

mais capital <strong>com</strong> investidores,<br />

Iverson investigou mais e soube <strong>que</strong><br />

a agência de de<strong>se</strong>nvolvimento econômico<br />

do governo (EDA, na sigla em<br />

inglês) concedia empréstimos subordinados<br />

a firm<strong>as</strong> cujos projetos ger<strong>as</strong><strong>se</strong>m<br />

empregos. O teto des<strong>se</strong> crédito<br />

equivalia ao número de empregos<br />

multiplicado por US$ 50 mil. Como<br />

a nova caldeira geraria pelo menos<br />

30 empregos de tempo integral, o<br />

empréstimo subordinado chegaria a<br />

US$ 1,5 milhão. Contudo, o empréstimo<br />

da EDA exigia uma contrapartida<br />

de 50% de um órgão de de<strong>se</strong>nvolvimento<br />

local (LDA, na sigla em inglês),<br />

algo inexistente em Concord.<br />

Chegada<br />

Projeto<br />

da<br />

caldeira<br />

Nesta altura, Iverson fez um levantamento<br />

d<strong>as</strong> barreir<strong>as</strong>: o engenheiro <strong>não</strong><br />

iria em frente <strong>se</strong>m o dinheiro e só garantiria<br />

a caldeira em si — a única<br />

coisa <strong>que</strong> construiria. O resto do sistema<br />

exigido <strong>se</strong>ria <strong>com</strong>plexo. Empreiteir<strong>as</strong><br />

locais e regionais <strong>não</strong> tinham<br />

condições de garantir o projeto global.<br />

O FSB <strong>não</strong> liberaria um empréstimo<br />

para a construção <strong>se</strong>m a garantia do<br />

financiamento substituto e um reforço<br />

no patrimônio líquido. A UIC <strong>não</strong> aprovaria<br />

um financiamento substituto permanente<br />

<strong>se</strong>m o projeto concluído e<br />

mais patrimônio líquido. A EDA <strong>não</strong><br />

daria o empréstimo <strong>se</strong>m a contrapartida<br />

da LDA e a garantia de <strong>que</strong> o projeto<br />

teria sucesso e geraria empregos.<br />

E a cidade <strong>não</strong> tinha uma LDA para<br />

atestar a geração de empregos e dar a<br />

contrapartida financeira.<br />

3 Envolver município de Concord.<br />

Sem desanimar, Iverson procurou a<br />

câmara de vereadores de Concord e<br />

propôs a formação de uma LDA <strong>que</strong><br />

pudes<strong>se</strong> levantar fundos para a contrapartida<br />

<strong>que</strong> viabilizaria o projeto da<br />

caldeira. Iverson alegou <strong>que</strong> a construção<br />

e a operação do projeto gerariam<br />

novos empregos e reduziriam dr<strong>as</strong>ticamente<br />

os níveis de poluição e o odor<br />

emitido pela CPP. Além disso, a nova<br />

caldeira geraria uma receita mínima<br />

de US$ 180 mil ao ano em imposto<br />

predial. A câmara recebeu <strong>bem</strong> os ar-<br />

56 harvard business review


Bathurst and<br />

Felson<br />

Engineering<br />

• financiamento<br />

gumentos, m<strong>as</strong> antes de <strong>se</strong> <strong>com</strong>prometer<br />

pediu garanti<strong>as</strong> de <strong>que</strong> o projeto<br />

realmente daria certo.<br />

4 Envolver Derano. Atrás de garanti<strong>as</strong><br />

plausíveis do sucesso do projeto,<br />

Iverson procurou a Derano, uma<br />

grande empresa nacional (coberta por<br />

<strong>se</strong>guro-garantia) de engenharia, design<br />

e gestão de projetos. A Derano<br />

hesitava em administrar um projeto já<br />

concebido, já <strong>com</strong> a BFE e <strong>as</strong> empreiteir<strong>as</strong><br />

locais a bordo. Com a promessa<br />

de pagar acima da tabela normal, Iverson<br />

convenceu a Derano a administrar<br />

o projeto global e a dar uma “garantia”<br />

de de<strong>se</strong>mpenho irrestrita — <strong>com</strong> a<br />

condição de <strong>que</strong> a CPP con<strong>se</strong>guis<strong>se</strong> capital<br />

para o projeto.<br />

5 Voltar a Concord <strong>com</strong> acordo<br />

<strong>com</strong> a Derano. Trazendo no bolso a<br />

carta <strong>com</strong> a garantia provisória da Derano,<br />

Iverson voltou à câmara de Concord,<br />

<strong>que</strong> aceitou criar uma LDA. A<br />

LDA <strong>se</strong>ria instruída a emitir US$ 500<br />

mil em bônus l<strong>as</strong>treados pelo aumento<br />

da receita fiscal e pré-vendidos a cidadãos<br />

ab<strong>as</strong>tados, empreiteir<strong>as</strong> locais e<br />

regionais e outr<strong>as</strong> empres<strong>as</strong> da região.<br />

novembro 2003<br />

Federal<br />

Street Bank<br />

• mais patrimônio<br />

• financiamento<br />

substituto<br />

garantido<br />

8<br />

Concord Pulp and<br />

Paper inicia aqui<br />

negociações para<br />

financiamento<br />

Largada<br />

1<br />

Unified<br />

Insurance<br />

Company<br />

• mais patrimônio<br />

• projeto concluído<br />

7<br />

Derano<br />

(firma de gestão<br />

nacional de projetos)<br />

• financiamento<br />

2<br />

4<br />

EDA<br />

• LDA<br />

• empregos certificados<br />

• fundos em<br />

contrapartida<br />

6<br />

Sendo uma entidade pública, a LDA<br />

também emitiria um certificado formal<br />

atestando a expectativa de geração<br />

de empregos do projeto da caldeira.<br />

6 Voltar à EDA <strong>com</strong> carta da Derano<br />

e <strong>com</strong>promisso da LDA. Iverson voltou<br />

à EDA de braço dado <strong>com</strong> a LDA<br />

de Concord, <strong>que</strong> <strong>se</strong> <strong>com</strong>prometia a<br />

dar a contrapartida e a emitir o certificado<br />

formal de geração de empregos<br />

(a<strong>com</strong>panhado pela garantia da Derano)<br />

para o projeto da caldeira. Com<br />

tal suporte, a EDA <strong>com</strong>prometeu-<strong>se</strong> a<br />

conceder um empréstimo subordinado<br />

de US$ 1 milhão (somados aos US$<br />

500 mil do crédito de contrapartida da<br />

LDA de Concord). A condição era <strong>que</strong><br />

Iverson con<strong>se</strong>guis<strong>se</strong> o financiamento<br />

para a obra e o crédito substituto de<br />

longo prazo.<br />

7 Voltar à UIC para alterar cláusula<br />

de “aumento do patrimônio líquido”.<br />

Iverson con<strong>se</strong>guiu negociar <strong>com</strong> a UIC<br />

para <strong>que</strong> a cláusula da carta-<strong>com</strong>promisso<br />

<strong>que</strong> exigia o “aumento do patrimônio<br />

líquido” fos<strong>se</strong> alterada de modo<br />

a incluir a dívida subordinada, já <strong>que</strong><br />

o crédito <strong>com</strong> a EDA-LDA satisfazia o<br />

negociação 3D: o jogo por inteiro<br />

LDA<br />

3<br />

5<br />

Município de<br />

Concord<br />

• projeto “garantido”<br />

• menos poluição<br />

• mais empregos<br />

• impostos menores<br />

pedido da UIC de maior proteção financeira<br />

para <strong>se</strong>u empréstimo.<br />

8 Voltar ao FSB <strong>com</strong> os <strong>com</strong>promissos<br />

da Derano, da LDA e da EDA e<br />

<strong>com</strong> a alteração da UIC. De volta ao<br />

banco, Iverson alegou <strong>que</strong> os empréstimos<br />

da EDA-LDA <strong>se</strong>riam o equivalente<br />

funcional da exigência do FSB de aumento<br />

do patrimônio líquido. Ao expor<br />

sua te<strong>se</strong> para o funcionário do <strong>se</strong>tor<br />

de empréstimos, avesso a riscos, Iverson<br />

ob<strong>se</strong>rvou <strong>com</strong> tato <strong>que</strong> a UIC, um<br />

“credor notoriamente exigente”, dispu<strong>se</strong>ra-<strong>se</strong><br />

a tratá-los <strong>com</strong>o patrimônio líquido<br />

para a garantia financeira do financiamento<br />

permanente da UIC. Isso<br />

certamente <strong>se</strong>ria proteção adequada<br />

para o breve risco de dois anos do FSB.<br />

Satisfeita esta condição — e diante da<br />

“garantia” de de<strong>se</strong>mpenho da Derano<br />

e do certificado da LDA — o banco<br />

decidiu <strong>que</strong> a carta-<strong>com</strong>promisso da<br />

UIC satisfazia <strong>se</strong>u interes<strong>se</strong> na garantia<br />

do financiamento substituto. O <strong>com</strong>promisso<br />

de empréstimo para a construção<br />

pelo FSB destravou os recursos da EDA-<br />

LDA, ativando o fluxo de recursos para<br />

a Derano e a BFE. Estava lançado o<br />

projeto.<br />

57


negociação 3D: o jogo por inteiro<br />

soal do banco para garantir um preço maior e refinar su<strong>as</strong><br />

tátic<strong>as</strong> de negociação <strong>com</strong> cada uma d<strong>as</strong> três indústri<strong>as</strong><br />

de embalagens, a empresa dona do nicho adotou uma<br />

abordagem 3D. <strong>Um</strong>a análi<strong>se</strong> mais ampla sugeriu <strong>que</strong> uma<br />

de su<strong>as</strong> principais clientes, uma grande empresa de bens<br />

de consumo, parecia dar um valor especial ao acesso<br />

exclusivo às tecnologi<strong>as</strong> e às embalagens da empresa,<br />

<strong>que</strong> decidiu daí incorporar essa cliente às negociações.<br />

O lance revelou uma fonte totalmente nova de um valor<br />

potencial — e um preço de venda talvez muito superior.<br />

Além disso, a pressão sobre <strong>as</strong> três indústri<strong>as</strong> maiores aumentou:<br />

agora a <strong>com</strong>petição <strong>se</strong>ria mais acirrada e el<strong>as</strong><br />

talvez <strong>não</strong> fos<strong>se</strong>m capazes de oferecer a sua clientela<br />

um <strong>se</strong>rviço de embalagem exclusivo e customizado <strong>com</strong>o<br />

a<strong>que</strong>le.<br />

Os elementos potenciais de uma rede de valor nem<br />

<strong>se</strong>mpre são óbvios no início da negociação. <strong>Um</strong> grupo<br />

con<strong>se</strong>rvacionista dos EUA e da Europa <strong>que</strong>ria, por exemplo,<br />

pre<strong>se</strong>rvar o máximo do habitat<br />

florestal de um país da América do<br />

Sul. Com <strong>as</strong> contribuições dos sócios<br />

e o apoio de fundações, o grupo<br />

tinha caixa disponível (convertidos<br />

os dólares à moeda local pela taxa<br />

oficial de câmbio) para <strong>com</strong>prar os<br />

direitos de de<strong>se</strong>nvolvimento. Ao fim<br />

de dur<strong>as</strong> negociações, o dono d<strong>as</strong><br />

terr<strong>as</strong> e o grupo ambiental chegaram<br />

a um acordo preliminar para a<br />

proteção de uma parcela da mata<br />

a um preço por hectare ba<strong>se</strong>ado na<br />

moeda local. M<strong>as</strong> o raciocínio 3D<br />

acabou por melhorar o acordo para tod<strong>as</strong> <strong>as</strong> partes.<br />

O país em <strong>que</strong>stão tinha uma dívida em títulos em<br />

dólar, negociados então <strong>com</strong> um deságio de 45% sobre o<br />

valor nominal (devido à percepção de risco de moratória).<br />

As esc<strong>as</strong>s<strong>as</strong> receit<strong>as</strong> d<strong>as</strong> exportações em dólar, necessári<strong>as</strong><br />

a tantos objetivos internos prementes, precisavam <strong>se</strong>r<br />

usad<strong>as</strong> para manter o país em dia <strong>com</strong> <strong>as</strong> su<strong>as</strong> obrigações<br />

de <strong>se</strong>rviço da dívida; é óbvio <strong>que</strong> o <strong>que</strong> determinava o<br />

pagamento de juros era o valor nominal da dívida, <strong>não</strong> o<br />

desconto dos títulos. Isso sugeria <strong>que</strong> <strong>se</strong>ria possível gerar<br />

mais valor <strong>se</strong> dois outros grupos de participantes fos<strong>se</strong>m<br />

acrescentados à negociação inicial entre o proprietário<br />

d<strong>as</strong> terr<strong>as</strong> e o grupo con<strong>se</strong>rvacionista.<br />

Nesta variante ecológica da troca de dívida por participação<br />

acionária, o grupo ambiental adquiriu de investidores<br />

estrangeiros títulos da dívida do país ao desconto<br />

corrente de 45%. Levou então os papéis ao banco central<br />

do país e negociou <strong>se</strong>u resgate na moeda local a um prêmio<br />

entre o valor descontado da dívida e <strong>se</strong>u valor nominal<br />

em dólares (um prêmio de até 82% em relação ao<br />

valor descontado). Esta quantidade maior de moeda local<br />

foi então usada pelo grupo ambiental para adquirir mais<br />

direitos de de<strong>se</strong>nvolvimento do dono d<strong>as</strong> terr<strong>as</strong> a um<br />

Embora deva atuar<br />

<strong>bem</strong> no jogo<br />

existente, <strong>com</strong>o tático<br />

e planejador do<br />

acordo, o <strong>negociador</strong><br />

3D deve agir ainda<br />

<strong>com</strong> um espírito<br />

empreendedor.<br />

preço unitário um pouco mais elevado.<br />

Esta negociação ampliada — envolvendo na <strong>se</strong>qüência<br />

o grupo con<strong>se</strong>rvacionista, os detentores internacionais<br />

dos títulos, o banco central e o proprietário da terra —<br />

trouxe a todos um resultado melhor do <strong>que</strong> <strong>se</strong>ria possível<br />

<strong>se</strong> mantida a negociação inicial entre o proprietário da<br />

terra e o grupo con<strong>se</strong>rvacionista. O banco pôde resgatar<br />

parte da dívida e cancelar obrigações de juros em dólar,<br />

extremamente oneros<strong>as</strong> para o país, usando moeda local<br />

mais barata (para o banco) <strong>se</strong>m exportar mais ou desviar<br />

<strong>as</strong> esc<strong>as</strong>s<strong>as</strong> receit<strong>as</strong> da exportação. O grupo con<strong>se</strong>rvacionista<br />

pôde salvar mais da mata ao mesmo custo em dólar;<br />

e o proprietário da terra recebeu mais dinheiro numa<br />

moeda <strong>que</strong> tinha mais condições de usar.<br />

Para encontrar partes e <strong>que</strong>stões <strong>com</strong>plementares,<br />

<strong>com</strong>o fez o grupo con<strong>se</strong>rvacionista, é preciso fazer pergunt<strong>as</strong><br />

focad<strong>as</strong> na definição de valor relativo. Que partes<br />

<strong>não</strong> envolvid<strong>as</strong> <strong>se</strong>riam capazes de valorizar elementos da<br />

pre<strong>se</strong>nte negociação? Que <strong>que</strong>stões ex-<br />

tern<strong>as</strong> poderiam trazer um valor maior<br />

<strong>se</strong> incorporad<strong>as</strong> ao processo? Alguma<br />

parte <strong>não</strong> incluída n<strong>as</strong> negociações<br />

imediat<strong>as</strong> <strong>se</strong>ria capaz de <strong>as</strong>sumir uma<br />

parcela do risco a um custo menor do<br />

<strong>que</strong> <strong>as</strong> partes já envolvid<strong>as</strong>?<br />

Por outro lado, às vezes é necessário<br />

enxugar — ou no mínimo escalonar —<br />

o volume de <strong>que</strong>stões, interes<strong>se</strong>s e partes<br />

envolvidos a fim de criar valor. Por<br />

exemplo, em vez de <strong>com</strong>eçar <strong>com</strong> um<br />

processo multipartite, uma <strong>as</strong>sociação<br />

de indústri<strong>as</strong> <strong>que</strong> <strong>que</strong>ira negociar um<br />

dado conjunto de padrões pode beneficiar-<strong>se</strong> buscando<br />

a princípio o con<strong>se</strong>nso num pe<strong>que</strong>no número de partes<br />

dominantes, <strong>que</strong> então <strong>se</strong>rviria de ba<strong>se</strong> a um posterior<br />

acordo no grupo mais amplo. Já a negociação para a formação<br />

de uma aliança estratégica <strong>com</strong>plexa entre du<strong>as</strong><br />

empres<strong>as</strong> poderia <strong>se</strong>r dr<strong>as</strong>ticamente simplificada <strong>se</strong> uma<br />

d<strong>as</strong> partes sugeris<strong>se</strong> a pura e simples aquisição da outra.<br />

Certamente, a forma escolhida para uma transação<br />

pode afetar radicalmente a <strong>com</strong>plexidade d<strong>as</strong> negociações<br />

e o valor a <strong>se</strong>r obtido. A planejada fusão da Bell<br />

Atlantic <strong>com</strong> a Nynex, <strong>que</strong> <strong>se</strong>ria em pé de igualdade,<br />

teria exigido negociações em <strong>se</strong>parado <strong>com</strong> autoridades<br />

regulamentares em cada um dos 13 estados atendidos<br />

pel<strong>as</strong> empres<strong>as</strong> nos EUA. Para evitar uma negociação altamente<br />

política em 13 mes<strong>as</strong> diferentes, <strong>as</strong> partes mudaram<br />

o jogo, criando uma estrutura funcionalmente<br />

equivalente na qual a Bell Atlantic constava <strong>com</strong>o <strong>com</strong>pradora<br />

nominal.<br />

Na realidade, em vez de alterar a substância de uma<br />

negociação, pode <strong>se</strong>r necessário alterar o <strong>se</strong>u processo.<br />

É possível, por exemplo, <strong>que</strong> dois sócios interessados em<br />

dissolver a sociedade tenham dificuldade de determinar<br />

<strong>que</strong>m fica <strong>com</strong> quê. Os sócios podem, porém, adotar um<br />

58 harvard business review


mecanismo especial <strong>com</strong>o o chamado “Tex<strong>as</strong> shoot-out”,<br />

no qual uma d<strong>as</strong> partes dita um preço ao qual aceitaria a<br />

<strong>com</strong>pra (d<strong>as</strong> ações do outro) ou a venda (de su<strong>as</strong> própri<strong>as</strong><br />

ações), ficando a outra parte obrigada a responder. Muit<strong>as</strong><br />

vezes, cria-<strong>se</strong> valor mudando a forma de negociação<br />

e dotando-a de um mediador hábil. Por exemplo, o <strong>que</strong><br />

finalmente destravou <strong>as</strong> negociações entre a Microsoft e o<br />

Departamento de Justiça americano foi a intervenção intensiva<br />

de mediadores externos. Há muit<strong>as</strong> variantes fundamentalmente<br />

diferentes de mediação, arbitragem e outros<br />

mecanismos especiais. São, porém, alternativ<strong>as</strong> para<br />

mudar o jogo em si mais do <strong>que</strong> esforços de negociar de<br />

modo mais efetivo por meios puramente interpessoais.<br />

Como implementar uma estratégia<br />

de negociação 3D<br />

<strong>Um</strong> <strong>negociador</strong> sofisticado atua em tod<strong>as</strong> <strong>as</strong> três dimensões<br />

para gerar valor e apropriar-<strong>se</strong> dele. Embora deva<br />

atuar <strong>bem</strong> no jogo existente, <strong>com</strong>o tático e planejador<br />

do acordo, deve ainda agir <strong>com</strong> um espírito empreendedor,<br />

buscando criar um jogo mais favorável. Para tanto,<br />

precisa fazer uma prospecção ampla para identificar possíveis<br />

elementos de uma configuração mais favorável;<br />

conduzir um “mapeamento retrospectivo” a partir da estrutura<br />

mais promissora do acordo até a configuração<br />

negociação 3D: o jogo por inteiro<br />

pre<strong>se</strong>nte; e administrar e enquadrar o fluxo de informações<br />

para aumentar su<strong>as</strong> chances de ouvir um “sim”.<br />

Prospecção ampla. Para fugir ao convencional, é preciso<br />

primeiro olhar para fora. Ao buscar elementos de<br />

uma potencial rede de valor num plano <strong>que</strong> transcenda<br />

o negócio concreto à mesa, um <strong>negociador</strong> 3D pode reorientar<br />

<strong>se</strong>u foco para capacitações e valores <strong>com</strong>plementares<br />

<strong>que</strong> outr<strong>as</strong> partes poderiam apre<strong>se</strong>ntar. Entre <strong>as</strong><br />

<strong>que</strong>stões úteis para virar o jogo estão: Quem, fora do<br />

acordo existente, poderia valorizar mais algum <strong>as</strong>pecto<br />

do acordo? Quem <strong>se</strong>ria capaz de minimizar os custos<br />

de produção, distribuição, risco <strong>as</strong>sumido, e <strong>as</strong>sim por<br />

diante? Quem poderia aportar alguma peça <strong>que</strong> falta<br />

no processo atual? Que <strong>que</strong>stões prometem vantagem<br />

mútua? Que artifícios poderiam trazer para o acordo<br />

ess<strong>as</strong> <strong>que</strong>stões e partes <strong>com</strong> potencial de gerar valor? E<br />

em <strong>que</strong> ponto a <strong>com</strong>plexidade ou o conflito de interes<strong>se</strong>s<br />

entre <strong>as</strong> partes re<strong>que</strong>r <strong>que</strong> <strong>se</strong> reduza o âmbito da negociação?<br />

Em geral, uma prospecção <strong>que</strong> transcenda o jogo<br />

corrente para a apropriação de valor mira um conjunto<br />

paralelo de <strong>que</strong>stões: Há outros interessados ou outr<strong>as</strong><br />

partes capazes de alterar de forma favorável <strong>as</strong> BATNAs?<br />

É possível vincular cert<strong>as</strong> <strong>que</strong>stões para alavancagem?<br />

Essa prospecção deveria resultar num mapeamento de<br />

tod<strong>as</strong> <strong>as</strong> partes reais e potenciais (incluindo outros grupos<br />

interessados dentro da organização, <strong>se</strong> necessário).


negociação 3D: o jogo por inteiro<br />

É preciso avaliar os interes<strong>se</strong>s e <strong>as</strong> BATNAs reais e potenciais<br />

de cada uma d<strong>as</strong> partes, <strong>bem</strong> <strong>com</strong>o a dificuldade<br />

e o custo de fechar acordos <strong>com</strong> el<strong>as</strong> e a importância<br />

de contar <strong>com</strong> o apoio del<strong>as</strong>. O mapeamento também<br />

deveria identificar <strong>as</strong> relações cruciais entre <strong>as</strong> partes:<br />

<strong>que</strong>m influencia <strong>que</strong>m, <strong>que</strong>m tende a acatar a vontade<br />

de <strong>que</strong>m, <strong>que</strong>m deve o <strong>que</strong> para <strong>que</strong>m, <strong>que</strong>m pagaria<br />

alto pela oposição a um acordo emergente endossado por<br />

partes de peso, e <strong>as</strong>sim por diante.<br />

Quem funda uma empresa qua<strong>se</strong> <strong>se</strong>mpre precisa realizar<br />

uma ampla prospecção para montar a <strong>se</strong>qüência<br />

mais promissora de acordos e criar <strong>as</strong>sim uma empresa<br />

auto-sustentável. Cabe lembrar a situação enfrentada<br />

no início e em meados da década de 90 por Steve<br />

Perlman, fundador da WebTV Networks.<br />

Perlman con<strong>se</strong>guira fundos<br />

para dar a partida na empresa, de<strong>se</strong>nvolvera<br />

a tecnologia para levar a<br />

web aos televisores <strong>com</strong>uns, criara<br />

um protótipo e contratara uma<br />

equipe básica. Com o caixa já qua<strong>se</strong><br />

no fim, fez uma extensa prospecção<br />

e descobriu uma série de potenciais<br />

parceiros para a negociação — provedor<strong>as</strong><br />

de internet, investidores de<br />

capital de risco, angel investors, parceiros<br />

industriais, empres<strong>as</strong> de aparelhos<br />

eletrônicos, provedor<strong>as</strong> de<br />

conteúdo, fabricantes, canais de distribuição<br />

no atacado e no varejo,<br />

parceiros estrangeiros e afins. Perlman<br />

precisava realizar uma análi<strong>se</strong><br />

3D para definir o subconjunto<br />

certo de parceiros potenciais para<br />

criar o acordo mais promissor possível<br />

para de<strong>se</strong>nvolver sua empresa.<br />

Mapeamento retrospectivo e <strong>se</strong>qüenciamento. Convém<br />

pensar na lógica do mapeamento retrospectivo <strong>com</strong>o<br />

<strong>se</strong>melhante à lógica da gestão de projetos. Ao decidir<br />

<strong>com</strong>o implementar um projeto <strong>com</strong>plexo, partimos do<br />

fim e recuamos até o pre<strong>se</strong>nte para de<strong>se</strong>nvolver um cronograma<br />

e uma rota básica. Na negociação, porém, o<br />

“projeto” concluído deveria resultar em um conjunto de<br />

acordos sustentáveis, <strong>que</strong> geram valor, entre partes <strong>que</strong><br />

formam uma coalizão. A coalizão dá suporte a es<strong>se</strong>s acordos.<br />

Quando a WebTV estava qua<strong>se</strong> <strong>se</strong>m fundos, por exemplo,<br />

poderia parecer óbvio <strong>que</strong> Perlman deveria <strong>com</strong>eçar<br />

abordando firm<strong>as</strong> de capital de risco. Como na época tais<br />

firm<strong>as</strong> encaravam <strong>com</strong> profundo ceticismo um acordo<br />

na área de aparelhos eletrônicos, Perlman fez um mapeamento<br />

retrospectivo fundamentado em <strong>se</strong>u alvo, o dono<br />

des<strong>se</strong> capital de risco. Raciocinando <strong>que</strong> tal investidor<br />

consideraria a WebTV mais atraente <strong>se</strong> uma líder em aparelhos<br />

eletrônicos já estives<strong>se</strong> a bordo do negócio, Perl-<br />

A capacidade de um<br />

jogador 3D de<br />

determinar <strong>se</strong> uma<br />

negociação correlata<br />

deve ocorrer antes ou<br />

depois da principal —<br />

e também <strong>se</strong> os<br />

resultados devem <strong>se</strong>r<br />

divulgados ou <strong>não</strong> —<br />

pode ter forte<br />

influência no desfecho.<br />

man embarcou numa estratégia <strong>se</strong>qüencial. Depois de<br />

uma negativa da Sony, sua primeira opção, o empresário<br />

continuou raciocinando retrospectivamente <strong>com</strong> ba<strong>se</strong><br />

em <strong>se</strong>u alvo. Por fim, con<strong>se</strong>guiu um acordo <strong>com</strong> a Phillips,<br />

nome <strong>que</strong> usou em <strong>se</strong>guida para reabrir e forjar um<br />

acordo <strong>com</strong>plementar <strong>com</strong> a Sony. Fechado o negócio<br />

<strong>com</strong> <strong>as</strong> du<strong>as</strong>, con<strong>se</strong>guiu levantar mais capital de risco,<br />

num valor muito superior. Com dinheiro novo no bolso,<br />

foi razoavelmente simples trilhar um caminho de acordos<br />

suplementares <strong>com</strong> fabricantes, canais de distribuição no<br />

atacado e no varejo, provedor<strong>as</strong> de conteúdo e de internet<br />

e alianç<strong>as</strong> no exterior.<br />

Como sugere o c<strong>as</strong>o da WebTV, um problema <strong>com</strong>um<br />

de <strong>que</strong>m tenta arquitetar uma coalizão é <strong>que</strong> <strong>as</strong> chances<br />

de acordo, <strong>se</strong>ja em termos absolutos,<br />

<strong>se</strong>ja nos termos de<strong>se</strong>jáveis, são min-<br />

guad<strong>as</strong> quando <strong>se</strong> aborda a parte<br />

mais difícil — e talvez mais crítica.<br />

Para melhorar <strong>as</strong> chances de obter<br />

um “sim”, é preciso pensar nos parceiros<br />

<strong>que</strong> idealmente <strong>se</strong> gostaria de ter<br />

a bordo ao deslanchar <strong>as</strong> negociações<br />

<strong>com</strong> a parte <strong>que</strong> constitui <strong>se</strong>u alvo.<br />

Quando a resposta a tal <strong>que</strong>stão for<br />

clara, é por<strong>que</strong> <strong>se</strong> identificou o penúltimo<br />

estágio. É preciso continuar no<br />

mapeamento retrospectivo até chegar<br />

à <strong>se</strong>qüência de negociações mais<br />

promissora.<br />

<strong>Um</strong> exemplo é a triunfante tática<br />

de <strong>se</strong>qüenciamento adotada por Bill<br />

Daley, o estrategista do governo Clinton<br />

<strong>que</strong> garantiu a aprovação do<br />

Nafta (Acordo de Livre Comércio da<br />

América do Norte) pelo Congresso<br />

americano, conforme relatado num artigo de 1993 da revista<br />

The New Yorker: “Alguém podia avisar <strong>que</strong> um parlamentar<br />

antes propenso a um sim agora pendia para o<br />

<strong>não</strong>. Ao ouvir a má notícia, [Daley] <strong>não</strong> levava para o lado<br />

pessoal (...). Voltava à carga. ‘Dá para acharmos o sujeito<br />

capaz de convencer o sujeito? Precisamos ligar para o<br />

sujeito <strong>que</strong> liga para o sujeito <strong>que</strong> liga para o sujeito’”.<br />

Para além do puro <strong>se</strong>qüenciamento, o <strong>negociador</strong> 3D<br />

pode usar o escopo da negociação — <strong>com</strong>o são somados,<br />

subtraídos, <strong>com</strong>binados ou <strong>se</strong>parados os elementos —<br />

para influir n<strong>as</strong> chances de trazer para bordo cada uma<br />

d<strong>as</strong> partes. É possível agregar <strong>que</strong>stões <strong>que</strong> tornem o<br />

acordo mais atraente (<strong>com</strong>o fez a Microsoft <strong>com</strong> a AOL)<br />

ou uma BATNA menos atraente (<strong>com</strong>o ocorreu no c<strong>as</strong>o<br />

dos bancos suíços). Deixar de fora uma parte antipatizada<br />

pel<strong>as</strong> demais pode reforçar <strong>as</strong> chances de sucesso do <strong>negociador</strong>.<br />

Foi o <strong>que</strong> James Baker fez ao montar a primeira<br />

coalizão da Guerra do Golfo; ao excluir Israel de uma<br />

participação explícita no grupo, pôde atrair Estados árabes<br />

moderados.<br />

60 harvard business review


Gestão do fluxo de informações. A melhor abordagem<br />

para cert<strong>as</strong> negociações é reunir tod<strong>as</strong> <strong>as</strong> partes afetad<strong>as</strong>,<br />

<strong>com</strong>partilhar tod<strong>as</strong> <strong>as</strong> informações e buscar conjuntamente<br />

uma solução para o problema <strong>com</strong>um. Muit<strong>as</strong><br />

vezes, porém, <strong>que</strong>stões 3D vitais envolvem decidir <strong>que</strong><br />

etap<strong>as</strong> do processo devem <strong>se</strong>r públic<strong>as</strong> ou privad<strong>as</strong> e<br />

<strong>com</strong>o transferir ou formular informações de uma etapa<br />

para outr<strong>as</strong> etap<strong>as</strong>.<br />

<strong>Um</strong>a história curiosa ilustra o potencial dess<strong>as</strong> escolh<strong>as</strong><br />

para en<strong>se</strong>jar uma série de negociações vinculad<strong>as</strong>.<br />

Certa vez, um eminente diplomata resolveu ajudar um<br />

jovem do Leste Europeu, um indivíduo encantador e<br />

muito capaz, m<strong>as</strong> de origem modesta. Ao presidente<br />

do banco estatal, o diplomata deu a entender <strong>que</strong> “um<br />

rapaz talentoso e ambicioso, futuro genro do Barão de<br />

Rothschild” buscava um posto de futuro na área bancária.<br />

Pouco depois, em conversa <strong>com</strong> o barão, <strong>que</strong> ele<br />

sabia estar buscando um bom pretendente para a filha,<br />

o diplomata falou entusi<strong>as</strong>mado de um “belo rapaz, extremamente<br />

capaz, <strong>que</strong> fazia uma carreira fulminante<br />

no banco estatal”. Mais tarde, ao <strong>se</strong>r apre<strong>se</strong>ntada ao<br />

jovem pretendente, a obediente filha encantou-<strong>se</strong> <strong>com</strong><br />

o moço, <strong>com</strong> <strong>se</strong>us talentos e perspectiv<strong>as</strong> invejáveis, e<br />

<strong>com</strong> o fato de <strong>que</strong> o pai o aprovava. Quando ela dis<strong>se</strong><br />

sim, fechou-<strong>se</strong> o acordo trilateral — para satisfação final<br />

de todos.<br />

Descontando a dubiedade dos fatos e da ética dessa<br />

negociação, veja <strong>com</strong>o a empreitada 3D do diplomata<br />

armou o jogo mais promissor para <strong>se</strong>us propósitos. Ao<br />

<strong>se</strong>parar e <strong>se</strong>qüenciar <strong>as</strong> etap<strong>as</strong> do processo, e ao dar um<br />

enfo<strong>que</strong> oportunista a sua mensagem a cada sucessiva<br />

articulação, o diplomata criou uma situação <strong>que</strong> acabou<br />

gerando um resultado <strong>que</strong> de outra forma <strong>se</strong>ria improvável.<br />

Se o ban<strong>que</strong>iro, o barão, a filha e o rapaz houves<strong>se</strong>m<br />

sido reunidos num encontro cara a cara logo de início,<br />

dificilmente o diplomata teria con<strong>se</strong>guido consumar o<br />

acordo, por mais cortês <strong>que</strong> fos<strong>se</strong> na abordagem 1D.<br />

Potenciais investidores devem tomar cuidado <strong>com</strong> a<br />

tática <strong>com</strong>um de <strong>se</strong>parar acordos para fechar todos. Por<br />

exemplo, convencer o investidor A a entrar <strong>com</strong> fundos<br />

<strong>com</strong> ba<strong>se</strong> no <strong>com</strong>promisso de um “<strong><strong>as</strong>tuto</strong> investidor” B,<br />

quando o B de fato <strong>se</strong> <strong>com</strong>prometeu, m<strong>as</strong> fundado apen<strong>as</strong><br />

no entendimento informal (e equivocado) de <strong>que</strong> o<br />

“reputado investidor” A havia <strong>com</strong>prometido <strong>se</strong>us fundos<br />

em caráter incondicional.<br />

Negociações para a obtenção de terr<strong>as</strong> para um projeto<br />

imobiliário são outro bom exemplo da importância<br />

de liberar informações de forma calculada. Conhecer<br />

desde o princípio os planos de um incorporador pode<br />

<strong>se</strong>r muito útil para os proprietários de terrenos na área<br />

prevista. Ao obter ess<strong>as</strong> informações, os proprietários<br />

podem usá-l<strong>as</strong> para elevar ao máximo o preço dos terrenos<br />

em futur<strong>as</strong> etap<strong>as</strong> da expansão. Por isso, o sigilo e a<br />

condução em <strong>se</strong>parado de negociações individuais são,<br />

em geral, necessidades óbvi<strong>as</strong>. Com efeito, a escolha de<br />

novembro 2003<br />

<strong>que</strong> terrenos devem <strong>se</strong>r <strong>com</strong>prados em primeiro lugar,<br />

em <strong>se</strong>gundo lugar, e <strong>as</strong>sim por diante, pode depender do<br />

risco relativo de <strong>que</strong> uma determinada <strong>com</strong>pra possa vir<br />

a denunciar <strong>as</strong> intenções do incorporador e de saber <strong>se</strong><br />

terrenos já adquiridos viabilizam a arrancada de alguma<br />

versão do projeto ou <strong>se</strong> são inúteis <strong>se</strong>m uma aquisição<br />

posterior.<br />

A capacidade de um jogador 3D de determinar <strong>se</strong><br />

uma negociação correlata deve ocorrer antes ou depois<br />

da negociação principal — e também <strong>se</strong> os resultados<br />

devem <strong>se</strong>r divulgados ou <strong>não</strong> — pode ter forte influência<br />

nes<strong>se</strong>s resultados. Quando, por exemplo, os EUA<br />

conduziam conversações <strong>se</strong>parad<strong>as</strong> <strong>com</strong> Japão, Hong<br />

Kong e Coréia a propósito de acordos <strong>com</strong>erciais na área<br />

têxtil, um <strong>negociador</strong> coreano dis<strong>se</strong> aos repre<strong>se</strong>ntantes<br />

americanos, <strong>se</strong>gundo artigo publicado em 1985 no International<br />

Studies Quarterly: “Vamos pedir <strong>que</strong> Hong<br />

Kong abra a rodada, para vermos o <strong>que</strong> eles con<strong>se</strong>guem”.<br />

Aparentemente, os coreanos consideravam <strong>as</strong> autoridades<br />

de Hong Kong <strong>com</strong>o <strong>negociador</strong>es extremamente<br />

hábeis e lingüisticamente mais <strong>com</strong>petentes para tratar<br />

<strong>com</strong> os americanos. <strong>Um</strong> ob<strong>se</strong>rvador relatou: “Seul,<br />

depois de deixar Hong Kong e o Japão abrirem a rodada,<br />

quis saber o <strong>que</strong> os outros haviam obtido e ainda<br />

tentou faturar um pouco mais”. No fundo, a <strong>se</strong>qüência<br />

escolhida pelos americanos (incentivados pelos coreanos)<br />

revelou aos coreanos informações extremamente<br />

valios<strong>as</strong> sobre a abordagem dos EUA. Cabe indagar <strong>se</strong> os<br />

americanos <strong>não</strong> deveriam ter reconsiderado a <strong>se</strong>qüência<br />

e <strong>com</strong>eçado por Seul.<br />

• • •<br />

Que um <strong>negociador</strong> deve saber ouvir, <strong>se</strong>r persu<strong>as</strong>ivo e<br />

tático, todos sa<strong>bem</strong>. M<strong>as</strong>, além de aprimorar tais habilidades<br />

1D, o <strong>negociador</strong> também precisa <strong>se</strong>r um inovador<br />

na <strong>se</strong>gunda dimensão e conceber acordos <strong>com</strong> pleno<br />

domínio dos princípios da geração de valor. Já a terceira<br />

dimensão — tudo o <strong>que</strong> <strong>se</strong> faz para alterar o escopo e<br />

a <strong>se</strong>qüência do próprio jogo — pode <strong>se</strong>r crucial numa<br />

negociação <strong>que</strong> do contrário fugiria <strong>com</strong>pletamente ao<br />

alcance tático. E, no entanto, é uma dimensão <strong>que</strong> muit<strong>as</strong><br />

vezes fica faltando.<br />

<strong>Um</strong> <strong>negociador</strong> deve estar atento para <strong>que</strong> sofisticad<strong>as</strong><br />

tátic<strong>as</strong> 3D <strong>não</strong> resvalem para a falta de ética e a manipulação.<br />

Sem a ação 3D, porém, teria sido impossível montar<br />

<strong>as</strong> coalizões vitais a muit<strong>as</strong> iniciativ<strong>as</strong> de grande valia.<br />

Para gerar valor e apropriar-<strong>se</strong> dele no longo prazo,<br />

um grande <strong>negociador</strong> deve <strong>se</strong>ntir-<strong>se</strong> em c<strong>as</strong>a em tod<strong>as</strong><br />

<strong>as</strong> três dimensões. Ignorar uma del<strong>as</strong> é arriscar uma estratégia<br />

unidimensional ou bidimensional num mundo<br />

tridimensional.<br />

1. Confira a relação <strong>com</strong>pleta d<strong>as</strong> fontes de informações usad<strong>as</strong> neste artigo<br />

em www.people.hbs.edu/j<strong>se</strong>benius/hbr/3-DNegotiation.pdf.<br />

Reprint r0311d–p<br />

Para pedidos, veja página 119.<br />

negociação 3D: o jogo por inteiro<br />

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