O jornalismo em O tempo eo vento

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O jornalismo em O tempo eo vento

Apesar do centro da narrativa nos capítulos estudados estar amarrado aos fatos

históricos relacionados à política e à luta pelo poder, o autor não rebaixa os jornais a simples

informes partidários como selo de autenticidade à ficção. As notícias dos periódicos

acompanham o desenvolvimento de uma comunidade, no caso a fictícia cidade de Santa Fé, e

apresentam ao leitor, em forma de notícia, os avanços tecnológicos que acompanham essa

arrancada para a modernidade. Enquanto os integrantes da família Cambará estão

preocupados com as notícias das revoluções, outros personagens estão às voltas com as

reportagens que enaltecem as grandes invenções no campo da ciência, como o hidroavião, do

entretenimento, como o cinema sonoro, e as aventuras de homens como Santos Dumont e

Charles Lindbergh. O trecho a seguir de “Um Certo Major Toríbio” exemplifica a estratégia

narrativa utilizada por Erico Verissimo para preencher as lacunas do tempo e do espaço

durante a ação dos personagens no romance, caracterizando o começo da incorporação do

American way of life na cultura rio-grandense:

Noticiavam então os jornais que a Warner Brothers acabava de produzir o

primeiro filme sonoro da História: The Jazz Singer. Uns quatro ou cinco rapazes

intelectualizados de Santa Fé, que costumavam referir-se ao cinema como ‘a sétima

arte’, e eram adoradores de Charlie Chaplin, achavam que dar voz às figuras da tela

seria a mais grosseira e ridícula das heresias. Entrevistado por A Voz da Serra, o

Calgembrino, do Cinema Recreio, foi franco: ‘Fita falada? Aposto como esse

negócio não pega. (O ARQUIPÉLAGO II, p. 535)

Chegando a 1930, ano que encerra o ciclo da Primeira República e delimita nosso

estudo, agora no último tomo de O Arquipélago, 25 um novo movimento armado envolve a

família Cambará e é amplamente noticiado em O Tempo e o Vento através dos jornais. A

revolução que leva Getúlio Vargas ao cargo de chefe provisório da República ganhou força

com o assassinato de João Pessoa, o então presidente da Paraíba. Pelo noticiário da imprensa,

Rodrigo Cambará acompanha as reportagens que trazem informações detalhadas sobre o

crime e sente que está na hora de também entrar na luta. “– Os olhos do Brasil estão voltados

para o Rio Grande, esperando a revolução! – exclamou Rodrigo Cambará num daqueles

primeiros dias de agosto, depois de ler os jornais que Bento lhe fora buscar à estação” (O

ARQUIPÉLAGO III, p. 688). Esses acontecimentos que marcaram profundamente a história

do Brasil são retratados por Erico Verissimo em “O Cavalo e o Obelisco”, episódio que abre a

última parte da trilogia. Agora do mesmo lado na Frente Única Rio-grandense, Rodrigo

25 VERISSIMO, Erico. O Arquipélago III. 22 ed. São Paulo: Globo, 2000.

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