O jornalismo em O tempo eo vento

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O jornalismo em O tempo eo vento

caminho de ferro, do vapor, do telégrafo elétrico, da fotografia...hein? hein? A era da barbárie

já passou” (p. 592). O pensamento de Rezende será novamente contestado pelo Dr. Winter,

que sustenta uma visão menos romântica das afirmações políticas e do comportamento

humano, visão que vai ao encontro dos fatos que acontecem dez anos mais tarde na

Revolução Federalista. “– Não se iluda, meu jovem amigo. Os homens inventaram algumas

engenhocas úteis, não há dúvida, mas no que diz respeito a sentimentos não estão em muito

melhor situação que seus antepassados das cavernas. Suas reações animais são basicamente as

mesmas” (p. 592).

O deslocamento da voz narrativa para um “leitor da sociedade” repete em O

Tempo e o Vento o que Eliana Pibernat Antonini 51 apontou existir em Incidente em Antares, 52

outro romance de Erico Verissimo em que o jornalismo e os jornalistas são representados na

composição da trama. O mediador em Incidente em Antares é Lucas Faia, redator do jornal A

Verdade, que empresta sua fala para expor idéias do autor de forma indireta na construção do

romance. Esse recurso que também se apóia em Toríbio Rezende obedece, segundo Eliana

Pibernat Antonini, a um “critério de composição, até de criação, que privilegia as sensações,

os sentimentos do autor, o que considera o seu papel ético sobre os fundamentos estéticos”.

Deonísio da Silva 53 complementa essa idéia quando escreve que em A Verdade, porém, Lucas

Faia não consegue publicar uma só linha de sua reportagem sobre o “incidente”. “Lida em voz

alta aos próceres locais, é vetada no primeiro ato do que chamaram Operação Borracha,

metáfora da censura que asfixiava o país ao tempo do incidente”.

São as idéias de Rezende e não o conteúdo de O Democrata que são explorados

pelo autor em O Continente. Nenhum artigo do jornal criado para divulgar a ideologia

republicana é reproduzido no romance. A única referência que o advogado faz ao periódico

acontece logo após o almoço, horas antes da festa programada para comemorar a libertação

dos mais de 30 escravos. Rezende diz que pretende escrever o texto, que deve ser publicado

no dia seguinte, antes mesmo de o fato acontecer e faz um comentário sobre a “modernidade”

do jornalismo à época:

– Preciso voltar à redação. Estou preparando um número especial de O

Democrata para amanhã. Os monarquistas vão ficar com a canela ardendo de

inveja. Já comecei a escrever a notícia da nossa festa.

51

ANTONINI, Eliana Pibernat. Incidentes narrativos: Antares e a cultura de massa. Porto Alegre: EDIPUCRS,

2000, p. 108.

52

VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. 49ª ed. São Paulo: Globo, 1997.

53

SILVA, Deonísio da. O jornalista em Incidente em Antares. Seminário Erico Verissimo: 100 anos. Porto

Alegre, set. 2005.

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