Carta aberta de desligamento do camarada Macarrão da ...

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Carta aberta de desligamento do camarada Macarrão da

Organização Resistência Libertária [ORL]

Balanço destes três anos de tentativa de organização anarquista no Ceará

Fortaleza-CE, 26/10/2011

No dia 16/07 entreguei minha carta interna de desligamento da Organização Resistência Libertária(ORL) do

qual fui membro/fundador. Nesta carta fiz um balanço não só da ORL como da minha participação na organização,

erros e acertos. Tentei apresentar criticas construtivas para que a referida organização sanasse alguns problemas

internos bem como buscasse um norte teórico.

Este documento tem como objetivo fazer um balanço não só da Organização Resistência Libertária bem como

do anarquismo cearense. A responsabilidade das analises são minhas.

Na análise do anarquismo cearense algumas supostas correntes não foram citadas pois o objetivo era abordar

aqueles que entendem que anarquismo é luta e não quem faz ocupação de casa, anda de bicicleta, exibe vídeo ou tem

uma horta. Dessa forma entendo essas supostas correntes como uma infiltração da doutrina liberal na luta dos

trabalhadores, mal que o anarquismo sofreu mas que hoje tem a obrigação de superar e caminhar rumo ao horizonte

revolucionário para a sociedade sem classes.

A ruptura não é uma opção mas uma necessidade.

Nos últimos messes a ORL vem tomando os rumos determinados que os companheiros do então Comitê Pró

Organização Anarquista no Ceará(COPOACE) já haviam visualizado, porém antes disto irei apresentar o surgimento

da ORL.

A referida organização vai ser consequência de uma série de experiências do anarquismo cearense desde o

começo dos anos 2000. As “lutas” anti capitalistas, grupos anarco-punks, coletivos falidos, pouca experiência de luta,

seminários culturais e o ápice que foi um espaço chamado Comuna Libertária que durou entre 2004 – 2006. Neste

espaço se travaram debates que geraram rachas com os Anarco Punks devido a perspectiva do coletivo que geria o

espaço de fazer qualquer coisa alem de festas. Após a falência financeira (pois a falência politica antecedeu) veio a

“ressaca” que gerou a desmobilização daqueles que organizavam ou visitavam a comuna e cada um foi cuidar de sua

vida.

Em 2007 a luta ecológica eclodia em Fortaleza e alguns camaradas do espaço se encontraram na luta em

defesa de um dos maiores parques ecológicos da América Latina que estava sendo atacado pela maior oligarquia

cearense, Jereissáti. Surgiram movimentos distintos(Frente Popular Ecológica de Fortaleza e Bloco Verde) e ainda

que o ultimo quisesse se diferenciar do primeiro nos métodos de atuação, não conseguiu superar as limitações

próprias da luta ecológica e assim também faliu.

Messes depois fomos arrastados à luta pela isenção da taxa do vestibular da UFC que mobilizou mais de 600

estudantes secundaristas em seu ponto alto que desemborcou em uma ocupação de reitoria e a deslegitimação da

UESM/UJR/PCR no processo. Esta foi uma luta vitoriosa devido a mobilização estudantil pela base, no entanto

estava sendo guiada para os canais de negociação e somente após a UESM/UJR/PCR serem deslegitimados pela base

no processo que o movimento radicalizou e atingiu suas vitórias. Os estudantes foram vitoriosos apenas pelas

propostas de radicalização, trancamento de avenidas, ocupações de reitoria e disposição de enfrentamento direto.

Somente com a clara demonstração do poder popular os poderosos tremem e sempre tremerão.

A vitória atingida não foi acumulada por organização politica alguma alem do P.O.R. que compunha a luta,

pois os anarquistas não tinham um organismo politico nem de massas e ainda que tenhamos conhecido ali camaradas

que futuramente ingressariam na ORL, a falta da organização nos levou a não acumularmos ou aproveitarmos o

momento para iniciar o trabalho numa linha de massas no setor estudantil secundarista. Já sabíamos das limitações do

“trabalho” individual, mas só ali resolvemos dar um basta e tentamos construir um organismo, porém sem norte

politico e com uma experiencia bem limitada, afinal em Fortaleza o anarquismo se organizava para realização de

Gig's, seminários, debates, mas não para a organização dos trabalhadores contra o patronato almejando o acumulo de

forças para o desenlace revolucionário.

Iniciamos reuniões entre alguns companheiros convencidos da necessidade de iniciar um processo mesmo que

inicial de reorganização do anarquismo cearense. Neste processo vimos nossa debilidade teórica mas mesmo assim

continuamos seguros do processo. Durante este período ocorreu o surto de ocupações de reitorias no Brasil contra o

REUNI e Fortaleza-CE não ficou de fora. Foi durante a ocupação que tentamos resolver o problema da organização

politica devido a atuação com múltiplos atores políticos.

Ao fim da Ocupação contra o REUNI, iniciamos o processo de continuação da luta contra o mesmo que

desemborcou na construção de um agrupamento politico anarquista. Durante os messes de Dezembro a


Fevereiro(2007/2008) demos inicio a formação politica, debates para aparar as arestas e chamamos um seminário que

teria o caráter deliberativo para demarcar minimamente em que marcos esta organização politica iria surgir.

A então ORL aderiu ao especificismo e reconheceu o anarquismo social como método viável para a

militância, porém não sem criticas. Ainda neste processo critiquei o especificismo pelo “sintetismo” embutido visto

que não demarca uma corrente especifica do anarquismo, tampouco aponta um norte para o processo revolucionário

bem como da reorganização da sociedade e se entendemos que seremos amanhã o fruto do trabalho do presente, esse

acumulo precisaria ser gerado hoje. Assim o especificismo não se apresentava como uma teoria mas um método de

organização para o trabalho social, sendo assim insuficiente para a luta revolucionária. Porem fui voto vencido e tive

de me centralizar pela ORL.

Sobre o anarquismo social, neguei o termo nos debates pois para mim assumir o termo seria afirmar que existe

qualquer tipo de anarquismo que não seja social. Os compas afirmaram que reconheciam o anarco primitivismo,

anarco individualismo, entre outras. Lembro-me de uma discussão parecida em 2004 no Coletivo Comuna Libertária

do qual fiz parte até fins de 2005 onde os compas do coletivo ao escreverem uma carta sobre a saída dos “artistas

anarquistas” do espaço assumiram que reconheciam todas as correntes do anarquismo. Eu me contrapus pelo mesmo

motivo, mas também fui voto vencido.

O termo anarquismo social reconhece a existência de correntes que nada tem a ver com a luta de classes

dentro do anarquismo o que faz parecer uma colcha de retalhos, uma série de ideias que não caminham para um

mesmo objetivo, não por divergências teóricas, mas por desinteresse de um determinado setor que são os grupos que

priorizam o estilo de vida pequeno burguês com uma justificativa liberal que eles chamam de “libertaria” à luta

social.

Hoje entendo o “anarquismo social” como ecletismo, visto que ecleticamente se utiliza de reivindicações de

autores “anarquistas” que não tem relação alguma entre si, outras vezes os autores se contradizem mutualmente. As

experiências praticas reivindicadas são mais contraditórias ainda. Como reivindicar a primeira internacional e ter a

guerra civil espanhola como referência para a luta revolucionaria sem fazer o balanço critico? O ecletismo tem disso,

qualquer critica deve ser banida o que cria o mito que os anarquistas são puros e a chamada “ética libertária” reforça

esse mito relegando aos trabalhadores a visão do anarquismo como algo belo, porém inalcançável e deixando as

experiências históricas como leituras do passado sem tomá-las como referencia da luta politica contemporânea.

Ainda assim, ao final do primeiro seminário interno permaneci na organização pois entendia que esta estava

cumprindo seu papel histórico de agregar material humano ao anarquismo no Ceará e atrair novos membros dispostos

para a luta(dispostos demais o que prejudicou muito) e pretendia disputar os rumos que esta suposta organização teria

tentando assim fugir do “sintetismo” implícito.

A Ruptura dos companheiros do Comitê pró Organização Anarquista no Ceará (COPOACE).

Após o seminário interno estávamos estasiados com o nível de organização que imperava mesmo num

agrupamento com tantas pessoas. Porém as divergências não tardariam a vir, e teriam que vir.

Incomodados com a fonte única de pesquisa para as formações, hegemonicamente da Federação Anarquista

do Rio de Janeiro(FARJ) e sem condições de fazer contraponto a um projeto já elaborado, houveram discussões

pesadas acerca de construção de termos e mais uma vez o método de síntese se fez presente. A discussão sobre

“Contra Poder vs Poder Popular” gerou divergências irreconciliáveis que após quatro horas de debate acirrado entre

poucos ao invés de se propor que se colocasse novos textos para formação e aprofundar o debate, se propôs que

unificasse as duas posições divergentes formando o Frankstein “Contra Poder Popular Anticapitalista” que não diz

nada, apenas sintetiza os termos como se o problema estivesse nas palavras e não na concepção.

Esta posição não agradou a nenhuma das partes tencionadas, porém foram obrigadas a abrir mão em pró do

amorfo concesso. Infelizmente fui um dos que debateram arduamente mas calaram e hoje entendo o fato como um

terrível equívoco pois o que estava em jogo neste debate não era apenas o termo, mas o método de tomada de

decisão. Ao invés de votarmos, buscamos o consenso na síntese; ao invés de aprofundar o debate, tomamos uma

decisão da qual nem todos estavam a par só porque “tínhamos” que tomar.

Esses métodos de debates levaram ao descontentamento um certo setor da ORL que logo começou a

apresentar suas divergências com base no contraponto do anarquismo no Brasil, no caso buscou-se tomar

conhecimento das correntes do anarquismo no Brasil para alem da FARJ e utilizar seus materiais teóricos para

apresentar a contra posição nos debates internos. Não preciso dizer que os olhares pouco racionais porem

demasiadamente emotivos viam isto com muito maus olhos.

Os companheiros aprofundaram seu debate e surgiram com sua carta de desligamento argumentando que não

fazia sentido duas posições tão opostas estarem no mesmo ambiente se nenhuma das duas conseguiria trilhar seu

caminho com a outra. No período afirmei que entendia como um erro da parte dos que rompiam, que ainda tinha o

que se disputar na ORL, porém hoje vejo que os compas estavam certos em não esperar mais um mês pelo I

Congresso da ORL, afinal esta nunca teve caráter de massas, estava num estágio embrionário de organicidade,

portanto não fazia sentido esperar pelo momento correto do congresso, e a ruptura foi feita.


O I Congresso da ORL e a prática pela prática

Durante o I Congresso tivemos a saída de dois militantes por divergência ideológica ou falta de apropriação

dela, no entanto isso não propiciou o fértil debate da divergência, pelo contrário, debateu-se apenas o modelo de

organização para a militância social não debatendo assim concepção de anarquismo, reivindicação histórica e teórica,

o papel do anarquismo na luta de classes, modelo de reorganização da sociedade... ou seja, nada do que se espera de

um congresso de um partido. Até poderia ter puxado, porem a partir de então estava isolado.

Foi aprovado ali a construção de duas frentes de trabalho, a comunitária e a estudantil. A estudantil teve

bastante trabalho no segundo semestre de 2008 com eleições para o DCE-UFC, a tentativa ainda que pouco

amadurecida e frustrada da formação de um coletivo na universidade federal do ceará, seu debate interno, e a luta

pela centralização da militância visto que tínhamos seis militantes que eram estudantes da referida universidade e

alguns não estavam centralizados pela frente estudantil mas na comunitária, o que causava uma série de problemas

visto que estes não debatiam estratégia internamente porém, querendo ou não, falavam em nome da ORL no espaço

de trabalho.

Interessante ressaltar que neste mesmo ano a Conlute foi assassinada pelo PSTU e se deu os marcos para a

formação da ANEL, mas parecia que a ORL vivia num mundo a parte da luta de classes pois em momento algum se

debateu profundamente a reorganização dos estudantes bem como dos trabalhadores no Brasil partindo assim para a

prática pela prática sem nenhum norte a ser atingido.

No primeiro bimestre de 2009 tivemos a possibilidade de aumento da tarifa de ônibus em Fortaleza e a frente

estudantil comprou a articulação de uma frente ampla contra o aumento de passagens com uma série de outros

setores. Era um momento único e precisava-se experimentar esse novo modelo de organização da ORL na luta social.

A frente ampla teve sua importância até para apresentar as limitações da ORL. No período de afluxo a frente

conseguiu organizar atividades semanais em algumas escolas secundaristas, manifestações rumo a Prefeitura e

Ettufor(empresa que gerencia o transporte público em Fortaleza), uma série de panfletos, no entanto esbarrou na

burocracia do PCR, no reformismo do PSOL/PSTU/Consulta Popular, na nossa falta de organicidade e na conjuntura

complicada(greve de uma série de setores entre eles professores o que deixou as escolas vazias). Ainda assim alguns

militantes da comunitária participaram de algumas reuniões da frente contra o aumento em período de refluxo

defendendo análises completamente irreais, imobilistas, sectárias, desmotivadoras, portanto posições contrárias ao

que a ORL defendia no setor (lembrando que a estudantil era a ORL no setor) desrespeitando a própria organização

no seu ambiente de trabalho social.

A frente ampla foi derrotada pela conjuntura e pelas propostas do PSOL/Consulta Popular de um “seminário”

sobre passe livre o qual defendi e hoje devo fazer a auto-critica.

O resto do ano de 2009 e a falta de formação politica

Apesar de tudo a estudantil continuava tentando aprofundar seu debate sobre o papel do setor para a luta de

classes, a composição do setor, as forças politicas entre outras coisas, mas não era este o rumo que a ORL trilhava.

No seu planejamento em meados de 2009 foi arduamente debatido e defendido por mim que tivéssemos uma

formação voltada para o Anarquismo de modo a retomar o acúmulo ideológico abandonado a mais de um ano.

Infelizmente esta posição era minoritária. O que saiu foi uma formação voltada para os movimentos sociais, que não

fazia o minimo sentido para os que compunham o estudantil, visto que bem ou mal tínhamos nossas formações

utilizando materiais de grupos afins que eram referência política. O que me pareceu foi que a comunitária não

encaminhou suas formações e com isso emperrou a ORL com uma formação que deveria ser interna a eles e não ao

conjunto da organização politica. Neste momento os problemas de disciplina começaram a se acentuar.

Tivemos ai a “saídade um militante usando como justificativa o excesso de debate e a falta de prática

politica, o que não concordo por completo, porém não foi feito balanço sobre a “saída do camarada”, parece que

morreu para a história. A formação política é fundamental para uma organização política anarquista, mas uma

formação inicialmente em anarquismo e não analisando de forma academicista a estrutura dos movimentos sociais de

forma genérica. Analisar os movimentos sociais com que olhar? O olhar de anarquistas que sabem aonde querem

chegar, que tipo de sociedade querem construir e que meios irão utilizar ou o olhar de anarquistas que sabem

vagamente os princípios gerais e tem pouco ou nenhum norte politico? Com certeza que deveríamos ter tido a noção

que queríamos a primeira opção, porém nos enquadramos na segunda perdendo um ano de formação.

Em um planejamento de fins de 2009 no qual não estava presente por razões de trabalho, a frente estudantil

foi assassinada sem motivo aparente algum, e num momento onde a ORL contava com 3 diretores de CA's distintos

na Federal, e que tinham lutas para serem tocadas como a luta do livre acesso, o que demonstra que os militantes

tinham trabalho no setor mas não tinham interesse em passar esse trabalho pela organização política. Demonstra

também a não compreensão do papel dos setores no processo revolucionário. A estudantil foi assassinada, apesar

disso os militante continuavam mantendo seu trabalho “individual” no setor. Assim a ORL voltava a ter apenas uma

única frente, a comunitária que tinha como composição todos os seus militantes. Em todos os planejamentos


seguintes tencionei o retorno ao trabalho no estudantil e sarcasticamente perguntavam-me: “para fazer o que? Lutar

contra o Reuni?”. Assim fica claro como a falta de formação politica prejudica a prática militante e a compreensão

dos setores para a construção do poder popular, estratégia vital para a derrubada do poder de estado.

A Copa, a tendencia e a falta de estratégia.

Num novo planejamento 2009/2010 avaliamos que a vinda da copa do mundo 2014 para Fortaleza-CE

acentuaria as contradições do capitalismo e haveria um novo ataque ao povo não só da cidade mas do estado. Não

eramos os únicos a ter essa percepção. PSOL, Consulta Popular, MCP, CMP, coletivos do PSOL no estudantil,

ONG's, entre outros perceberam o mesmo e fundaram o Comitê Popular da Copa ainda nos fins de 2009, mas só

ingressamos em Fevereiro(2010). Ingressamos de cabeça no Comitê tentando dar uma nova linha política, porém as

eleições de outubro 2010 mostraram quem era quem, e em abril/maio o comitê esvaziou permanecendo apenas a ORL

e alguns poucos compas do MCP. Quando todo o resto foi se preocupar com suas candidaturas e mandatos,

demonstrando como a politica institucional prejudica e muito a luta social, nos ausentamos do falido Comitê Popular

da Copa onde permanecíamos sós. Fomos ao povo, iniciar um trabalho que não sabíamos bem o que seria, tampouco

em que daria, porem deu frutos e estamos nesse trabalho a mais de um ano.

A falta de compreensão da construção do poder popular impede que a ORL dê o salto qualitativo. Todos os

moradores de comunidades são trabalhadores(empregados ou não) e nos seus locais de trabalho tem suas demandas

imediatas. A organização politica tem por obrigação superar o corporativismo e visualizar o morador não só como

morador que luta pela sua casa, mas como um trabalhador explorado pelo sistema capitalista que precisa ter

condições de se organizar não só no local de moradia, mas no ambiente de trabalho e estudo para derrubar este

sistema.

O ressurgir do estudantil

Devido ao meu trabalho e de outra militante da ORL no setor estudantil secundarista através da criação em

novembro de 2010 de um Fórum de Luta pelo Passe Livre que visava iniciar a organização do setor estudantil

secundarista em Fortaleza em torno da pauta do Passe Livre Estudantil, a ORL retomou o debate sobre a criação de

um setor estudantil no seu planejamento do começo de 2011 e fui contra. Fui contra pois a forma e objetivo dessa

nova frente estudantil seria e foi oportunista. Para mim a reorganização da frente estudantil deveria vir atrelada a um

debate (ao menos inicial) de compreensão dos setores da classe trabalhadora e o papel do setor estudantil na luta de

classes, bem como da conjuntura nacional da reorganização do movimento estudantil. Debate este que não deveria

preceder, mas ocorrer simultaneamente a formação desta nova frente com o objetivo de nortear o trabalho politico.

Porém a frente foi criada da forma mais oportunista possível, “pois temos dois militantes trabalhando no setor” foram

as palavras usadas. A falta de debate para a formação desta frente gerou o desacordo e deu continuidade a falta de

norte politico e de objetivo a ser atingido. Os companheiros talvez afirmem que bastava a frente fazer esse debate.

Questiono se o debate de gênero numa organização politica deve ser iniciado por mulheres? O sindical somente por

trabalhadores? A organização politica anarquista deve ter a visão de todo, o que não era, e ainda não é o caso da

referida organização. Assim não adianta ter um braço saudável com uma cabeça doente.

O fato de ter me girado para o setor estudantil gerou o meu “afastamento” do Movimento de Luta em Defesa

da Moradia[MLDM]. Neste novo espaço (Fórum de Luta pelo Passe Livre) com múltiplos sujeitos políticos, percebi

o quanto a luta de classes é pedagógica e o quanto a ORL minava seu próprio trabalho social devido a falta de teoria e

norte politico. A luta social não deve ter como norte a reforma, mas a revolução. Esse é um erro recorrente dos

revolucionários sinceros sem teoria, mas que não constrói o acúmulo de forças para o desenlace revolucionário. Pelo

contrário, faz com que caminhemos a reboque dos acontecimentos, da base gerando o obreirismo, ou de outras

correntes politicas com interesses distintos.

Assim após alguns poucos anos tencionando o inicio deste trabalho, a atual conjuntura de afluxo de lutas

exige dos anarquistas revolucionários respostas rápidas para seu avanço, ou seja, o momento é de aproveitar o

acúmulo teórico que deveria ter sido produzido para utilizá-lo nas lutas do povo e continuar produzindo a medida que

se luta. Infelizmente o acúmulo não foi gerado no seu devido tempo e agora estamos numa conjuntura de crise

internacional do capital em diversos países, acentua-se também as contradições do capitalismo a níveis local,

nacional e internacional.

Na Europa onde a Grécia já quebrou e seu plano de austeridade não agradou nem Gregos ou Troianos;

Portugal está no mesmo caminho que a Grécia a dois anos atrás bem como a Irlanda; a Itália está dando sinais de

recessão; o Chile se encontra em pé de guerra pois a juventude se nega a aceitar o modelo da educação chilena; a

intervenção do imperialismo no Oriente Médio e norte da Africa com a justificativa de ajudar esses países a

realizarem a “transição pacifica” para a democracia burguesa quando sabemos que o imperialismo almeja apenas ter

acesso as reservas de petróleo. Esses elementos demonstram uma clara crise econômica que terá que ser paga por

alguém. No Brasil irrompe uma chuva de greves trabalhistas e o Ceará não fica distante. Neste ano houveram greve

dos professores do Município de Fortaleza, da rede Estadual com uma grande possibilidade de retorno ao movimento


paredista, Detran, dentistas e enfermeiros, rodoviários, e cabe a nós, revolucionários sinceros estarmos preparados

para esses momentos onde as contradições do capitalismo se tornam agudas e estimularmos o proletariado para que

resistam e lutem não contra a crise, mas contra o capital e seu mantedor, o estado. Entendendo que a negação

deve vir acompanhada da afirmação a resistência contra a crise por si só não basta, é necessário apresentar na prática

um modelo de organização da luta pela base avançando contra os inimigos históricos do povo por um novo modelo

de organização social, modelo este que a ORL não sabe por onde começar a desenvolver.

Organização ou reorganização do Anarquismo no Brasil

No Brasil fica claro que o anarquismo está dividido em dois campos indialogáveis. O do FAO e o campo da

UNIPA, porém antes analisemos brevemente a conjuntura da reorganização da classe trabalhadora no Brasil.

Hoje o proletariado no Brasil se encontra órfão de organismos que possam agregar e articular nacionalmente

as lutas. A Conlutas, graças ao PSTU, deixou de ser uma alternativa ao tentar se legalizar para receber o incentivo($$)

do governo federal graças a lei das centrais. Assim, cabe hoje iniciar a organização de oposições sindicais, estudantis

e populares com o objetivo de criar o duplo poder, necessário para qualquer desenlace revolucionário. Infelizmente,

no Brasil, somente os camaradas da União Popular Anarquista[UNIPA] veem a conjuntura desta forma e trabalham

com unhas e dentes para a construção dos organismos de organização do proletariado.

O Fórum do Anarquismo Organizado[FAO], existente a mais de dez anos, falhou nesse sentido e um dos

motivos é o fato de terem dentro do FAO organizações tão distintas teoricamente, mas que teimam em unificar sem

avançar. O FAO em seu documento O FAO e a Construção do Anarquismo Militante e Revolucionário[1] afirma

ainda não serem um partido nacional mas que tem a intenção de se construírem como um.

Devido as claras e saltantes divergências internas, o FAO está fadado a dois destinos:

a) Não conseguir dar o salto qualitativo para se construir como um partido e permanecer eternamente, a mercê das

conjunturas, onde suas organizações signatárias continuam realizando o trabalho social, porém sem alinhamento a

uma estratégia revolucionária, sofrendo do risco de incorrer nos erro da luta tão somente por reformas no capitalismo.

b) O FAO irá se constituir em um partido de tendências, como um PSOL do anarquismo, já que formado por

tendências diversas e contraditórias, ficará impossibilitado de desenvolver qualquer trabalho sério com um norte

politico definido com o objetivo de gerar o acumulo de forças rumo a ruptura socialista.

Em ambas situações o salto qualitativo de fórum para partido ficam impossibilitados enquanto a linha teórica

não for unitária.

Não duvido que os camaradas da ORL bem como de outros agrupamentos anarquistas não sejam

revolucionários sinceros, porém enquanto não visarem resolver o meio de campo da prática alinhada a teoria

revolucionária, não terão muita serventia para a construção da sociedade sem classes. Assim, minha ruptura com a

ORL também é uma ruptura com o campo do FAO que já apresentou suas limitações e, reconheço, deveriam ter sido

melhor desenvolvidas neste documento.

Felizmente os camaradas da UNIPA se preocuparam com a teoria que deve nortear a organização e luta dos

anarquistas revolucionários. Hoje, tomo a teoria da referida organização como referência politica.

Concluo este documento informando francamente os motivos da minha saída da ORL, bem como da ruptura

com o campo do FAO e venho publicamente solicitar ingresso na União Popular Anarquista [UNIPA] de modo a

poder contribuir na teoria e na prática da construção da revolução social e da construção da nova sociedade pautada

pelo socialismo e federalismo.

[1] http://www.anarkismo.net/article/5990

Assina esta carta: Macarrão.

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