Trabalhadores - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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Trabalhadores - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

101

165ET90

Definição de pacto social formulada pela ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello

no Roda Viva da TV Cultura levado ao ar dia 17:

- O pacto é apenas um entendimento. O governo não dá nada porque não pede nada aos

trabalhadores, OESP, 18.9.90

Entendimenti

trégua,

para que,

cara pálida?

LEIA NESTA EDIÇÃO

Negociações com o governo pág. 2

Experiência Italiana em Negociação pág. 6

Política Industrial pag.16

Luta de Classes Pág.19

Luta de Classes na Inglaterra pág.24

0 Futuro da Classe Pág.26

jt


Circ. 134/90/SG/CIJT

São Paulo, 11 de setembro de 1990

Trabalhadores

A Plenária Nacional da CUT, realizada nos dias 17, 18 e 19 de agosto/90, em Belo Honzonte,

aprovou uma pauta de reivindicações, que foi apresentada ao governo e aos empresários na

reunião do dia 5/9/90, em Brasília. A partir de então, detonou-se um processo de discussão no

interior da CUT sobre a sua participação no "Comitê Central" e nas "Comissões Técnicas ,

órgãos que objetivam viabilizar o Pacto Com o intuito de contribuir com o

debate, publicamos a carta entregue ao governo e os documentos com as várias posições na

CUT, a resolução do 3 9 CONCUT sobre a questão e um artigo da grande imprensa.

Às CUTs Estaduais, Departamentos Nacionais

e entidades filiadas

Na ultima quinta-feira, enviamos às CUTs Estaduais

um informe da reunião que tivemos em Brasüia, no dia

5/9/90, com representantes do governo federal, empresá-

rios e sindicalistas, ocasião que aproveitamos para entre-

gar a nossa pauta de reivindicações aprovada na Plenária

Nacional (publicamos a mesma junto desta).

A Executiva Nacional da CUT reunida dia 10/9/90

não tirou posição oficial quanto a integrar as comissões

propostas pelo governo e sim, deliberou por um processo

de discussão, através do posicionamento de seus mem-

bros por escrito, enviando estes documentos aos estados

no sentido de subsidiar as discussões nos sindicatos, de-

OF .492/90/PRES/CUT

Exmo. Sr.

Presidente da República Federativa do Brasil

Mais uma vez a CUT - Central Única dos Trabalha-

dores é convidada a participar de uma reunião com re-

presentantes do governo, dos empresários e dos traba-

lhadores. Mais uma vez a CUT se faz presente para tra-

zer as reivindicações gerais e específicas dos trabalha-

dores, numa demonstração de valorização permanente

do diálogo e da democracia.

Na democracia, a cidadania e a representatividade

são elementos chave para o fortalecimento das institui-

ções. A criação e consolidação, pela primeira vez na

história do Brasil, de uma central sindical estruturada

em todo o território nacional e em todas as categorias,

combinada com as eleições presidenciais depois de trinta

anos, sem dúvida significa uma grande inversão dos

costumes autoritários que nossas tradições têm mantido.

A CUT negocia e dialoga permanentemente, usando

simultaneamente as mais diversas formas de pressão dos

trabalhadores. Temos certeza que o Brasil é viável. Rei-

vindicamos espaço nas instâncias democráticas da nossa

sociedade para expor nossas propostas. Porém, não ve-

mos, como condição para o diálogo, que a CUT seja

partamentos, CUTs, e demais estâncias da Central.

Assim sendo estamos remetendo as posições de mem-

bros da Executiva Nacional frente a proposta governa-

mental, que poderá subsidiar as discussões em nossas

instâncias - seja categorias até as Plenárias Estaduais - e

o resultado destas discussões virá para a Executiva Na-

cional que através de sua reunião extraordinária, amplia-

da com representantes das CUTs Estaduais, Departa-

mentos Nacionais e entidades nacionais filiadas (um re-

presentante de cada), que deverá ocorrer no dia 20/9/90

(e não mais dias 15 e 16) às 9h, no Instituto Cajamar em

Caj amar/SP.

Por isso, é de extrema importância a reprodução e dis-

tribuição destes subsídios às nossas instâncias que a par-

tir deles iremos nos posicionar frente a esta conjuntura.

Saudações Sindicais

CUT Nacional

Secretaria Geral

ASSMATIJRAS:

Individual 20 BTNs (6 meses) e 40 BTNs (12 meses)

Entidades sindicais e outros 25 BTNs (6 meses) e 50 BTNs (12 meses)

Exterior (via área) US$ 30,00 (6 meses) e US$ 60,00 (12 meses)

O pagamento deverA será feito em nome do CPV - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro em che-

oue nominal cruzado, ou vale postal DESDE QUE SEJA ENDEREÇADO PARA A AGÊNCIA DO CORREIO

IPIRANGA - CEP 04299 - Código da Agência 401901

QUINZENA - Publicação do CPV - Caixa Postal 42.761 - CEP 04299 - Sáo Paulo - SP

Fones (011)571 7726 ou 571 2910

obrigada a assinar pactos sociais e abrir mão de suas

reivindicações e de suas formas de luta. Os trabalhado-

res já perderam demais, precisamos recuperar o que já

perdemos em termos trabalhistas e sociais e avançar

mais ainda no sentido da construção de um país demo-

crático, tanto no aspecto político como no econômico.

Reconhecer que temos interesses antagônicos não sig-

nifica que não possamos dialogar, negociar e chegar a

soluções viáveis. A democracia, necessariamente, é plu-

ral.

A CUT foi precursora da defesa da livre negociação e

do contrato coletivo de trabalho no Brasil; somos pre-

cursores da liberdade e autonomia sindical, com a livre

organização dos trabalhadores, sem impostos sindicais

para patrões e empregados. Os trabalhadores não preci-

sam de sindicatos compulsórios. Os princípios por nós

defendidos estão consagrados universalmente nas diver-

sas resoluções da Organização Internacional do Traba-

lho.

Neste sentido, a proposta de uma sociedade moderna

também é bandeira da CUT. E nossa presença nesta

reunião é para, mais uma vez, conclamar os represen-

tantes do governo e dos patrões a abrirem negociações

livres e democráticas na busca do fortalecimento das

instituições inerentes às sociedades democráticas e mo-

dernas. I^P

A QUINZENA divulga as questões políticas de

fundo em debate no movimento, contudo colo-

ca algumas condições para tanto. Publicamos

os textos que contenham teses e argumenta-

ções estritamente políticas, evitando os ata-

ques pessoais; serão publicadas as réplicas que

estejam no mesmo nível de linguagem e com-

panheirismo. Nos reservamos o direito de di-

vulgarmos apenas as partes significativas doe

textos, seja por imposição de espaço, seja por

solução de redação.


Quinzena

Í^^^SSSS

HLOoncanKnte. o país tem vivido uma situação onde

quemé ncofica mais rico e quem é pobre fica mais po-

^'"''L***' 1 a AmérÍCa Latína e** /« «^ década

perdtda. Queremos um Brasil para todos. E, para isto a

8


Quinzena m Trabalhadores

DOCUMENTO 02

O que a CUT tem que definir mais uma vez é se está

contra ou a favor do pacto social. Nós estamos radical-

mente contra a presença da CUT neste "entendimento

nacional", que nada mais é do que uma versão a mais do

velho pacto tantas vezes tentado pelos governos patronais

e tantas vezes rejeitado pela CUT, em todos os seus con-

gressos. O governo está querendo evitar a onda de greves

de setembro, para conseguir manter o plano Collor, e pa-

ra isto chama ao pacto.

Se conseguir manter o plano, vai vir para cima dos

trabalhadores com mais arrocho, uma nova lei anti-greve,

e a privatização das estatais. Se a CUT entrar neste pacto

estará servindo a estes objetivos, mesmo que declare as

melhores intenções do mundo. A Articulação está pro-

pondo que a CUT entre neste pacto, para "não se isolar".

Mas não se isolar de quem? Para não se isolar das mas-

sas trabalhadoras que estão com seus salários arrochados

e que agora estão indo à greve, não podemos entrar neste

pacto. Agora se o que a Articulação quer é não se isolar

do grupo de patrões do PNBE, é melhor entrar neste

pacto. O PNBE, elogiado como "progressistas" pela Ar-

ticulação é um dos idealizadores do pacto e aliado do go-

verno.

Nós defendemos que a CUT mantenha a sua posição

tradicional de recusa ao pacto, e se dedique a unificar as

lutas e as greves que estão saindo para buscar derrubar o

plano Collor. A Articulação não pode passar por cima

das resoluções de todos os congressos da CUT.

Cyro Garcia

DOCUMENTO 03

Numa conjuntura em que as iniciativas políticas do

governo Collor tentam isolar as greves e a própria CUT

como estratégia de implementar seu projeto econômico

recessivo, antinacional e antipopular, a posição da CUT

diante do aceno de participação no fórum de "entendi-

mento nacional" proposto pelo governo e empresários,

deve ser inequivocamente CONTRÁRIA.

Não podemos comprometer a CUT com um processo

de negociação ilegítimo e farsesco, onde o governo fede-

ral e o empresariado já haviam previamente acertado com

os setores pelegos e do sindicalismo de resultados as ba-

ses deste "entendimento nacional", onde os trabalhadores

entram com o seu sacrifício para salvar a economia na-

cional para os capitalistas. Isto seria colaboração e har-

monia entre governo, patrões e trabalhadores, tese histo-

ricamente repudiada pelos trabalhadores do mundo intei-

ro. Como participar de um fórum onde a questão salarial

e o desemprego, o retomo dos demitidos e disponíveis do

serviço público federal, a garantia da liberdade e auto-

nomia sindical, dentre outras, não estão pautadas para

discussão? Como garantia da liberdade e autonomia sin-

dical, dentre outras, não estão pautadas para discussão?

Mesmo que momentaneamente, nesta conjuntura, fi-

quenos isolados, acho que é o preço que pagamos para

manter nossa coerência como Central Sindical classista,

autônoma, independente e historicamente intransigente

defensora dos interesses dos trabalhadores, que segura-

mente reconhecerão a correção e a justeza deste posicio-

namento contrário à participação nesta "maracutaia" go-

vemista e empresarial.

Antônio Carlos de Andrade

DOCUMENTO 04

1. A CUT, porque representa os trabalhadores brasilei-

ros, encara os processos de negociação com o governo

e/ou patrões como uma questão da tática sindical. A

Centra] pode escolher "quando", "como" e "com quem"

negociar, ou se negocia ou não. Do que se trata então é

discutir a negociação np fórum, no momento e na pers-

pectiva política ptoposta. Neste sentido, a CUT nao deve

participar deste fórum proposto pelo governo Collor.

2. Em primeiro lugar, o Plano Collor (sobretudo a

questão inflacionária) não conseguiu estabilizar-se e as

vésperas das eleições. O governo necessita dividir o ônus

de um conjunto de medidas anti-populares, recessivas, etc

que compõem o receitu^rio neoliberal. A CUT tem sido,

desde a "Nova República" o principal obstáculo a esta-

bilização dos planos da burguesia no país. A Plenária

Nacional de Belo Hori^onte-MG conclamou os trabalha-

dores a mobilização, abrindo a possibilidade de prepara-

ção de uma greve geral. Hoje, concretamente, existem

categorias mobilizadas e/ou em greve.

3. A constituição do fórum de negociação - que para o

governo é o fórum do pacto social - não desfaz nenhuma

das medidas anti-populares anteriores (arrocho, demis-

sões, etc) e ao contrário, as pressupõe. De outro lado, o

Executivo, ao monopolizar o processo de negociação, ex-

cluindo inclusive o Congresso, busca legitimar o estilo

autoritário de governar via Medidas Provisórias, tal como

vem acontecendo. A questão que fica é; a cada "acordo"

conseguido neste fórum do pacto o Executivo editará uma

Medida Provisória para legalizá-lo?

4. O projeto neoliberal que Collor expressa, busca uma

nova inserção na divisão internacional do trabalho para

benefício do capital imperialista. A CUT como represen-

tante dos trabalhadores brasileiros, não pode se colocar

como sócia menor dessa "modernização capitalista" e

deve pautar sua ação pelo princípio de resistência operá-

ria, isto é, a defesa do patamar reivindicatório atingido.

Participar do pacto significa abrir mão da resistência em

prol de um projeto suposto "comum" capital-trabalho

(que será o projeto conservador).

5. O pacto proposto por Collor é um "todo", não se

trata de um "Comitê Central" e 6 "comissões temáticas".

Não há como entrar sem participar, não há como partici-

par de uma parte sem discutir o todo, não há como discu-

tir o todo sem aceitar o pressuposto da possibilidade de

uma saída da crise, comum aos interesses dos empresários

e trabalhadores.

6. O pacto tem como viga mestra a co-rcsponsabil ida-

de entre as partes (trabalhadores, empresários, governo)

para tirar o país da crise. E a velha idéia da colaboração

de classes. A CUT nasceu contra essa concepção e práti-

ca sindical. Aí sim, há uma questão de princípios, fruto

de resoluções dos Congressos da Central. Ir ao pacto,

significa violar essas resoluções.

7. As questões de interesse dos trabalhadores, como

a livre negociação e o Contrato Coletivo de Trabalho,

não podem ser fruto de um acordo, onde a burguesia vin-

cula isso à concessões que os trabalhadores façam em

relação ao desenvolvimento industrial, o pagamento da

dívida externa, e assim por diante. E mais, no caso da li-

vre negociação e do Contrato Coletivo, são questões do

âmbito da relação capital/trabalho, que devem ser imple-

mentadas pela CUT na sua ação sindical, usando o Con-

gresso como caixa de ressonância dessas iniciativas.

8. A CUT cometeu no último período erros na sua po-

lítica de alianças, procurou parceiros entre empresários,

notadamente o PNBE, na suposição de que seriam aliados

contra a ofensiva neoliberal. Manteve uma relação com

setores da CGT que não clareou para as bases o papel do

"sindicalismo de resultados" como agente da burguesia

no interior do movimento sindical. Finalmente, secunda-

rizou as alianças com setores populares que estão hoje fo-

ra do âmbito da representação sindical que a CUT é: os

sem-terra, os movimentos pastorais, os movimentos po-

pulares, os movimentos das chamadas "minorias" e, par-


Quinzena

üculannente, as centenas de sindicatos que não estão na

CUT e que tenam mteresse numa aliança na base A bas-

cos de^aTxo^f 0 f ? U I é a ^ ** ^ c -

os de baixo , na relação do movimento sindical com os

n^ntos populares. É necessário retomar essaX

9. Um segundo erro da nossa Central foi ter mudado o

calendário aprovado na Plenária nacional, centrado na

potenciahzaçao das lutas em curso na persp^tiva da gre!

ve geral, que ao primeiro aceno do governo federal, con-

verteu-se num calendário para discutir a resposta a ser

dada à proposta de pacto. u» d ser

10. Finalmente, a Executiva nacional errou ao decidir

por maioria, não tirar uma unha de orientação para a dis-

cussao_ sobre a proposta de pacto, como se na nossa Cen-

tral nao tivesse acúmulo suficiente para estabelecer o

marco de uma posição indicativa.

Sebastião Lopes Neto

DOCUMENTO 05

O projeto do governo Collor, passada a indefinição

inicial, já conta com o apoio do empresariado urbano e

rural, e com a retaguarda internacional do FMI e do go-

verno Busn. Esse projeto busca alternativas e saída para a

crise a partir dos interesses do grande capital, sacrifican-

do ainda mais os trabalhadores e as camadas mais sofri-

das da população. Do outro lado, a CUT, que rejeita pa-

gar a conta da crise, se contrapõe ao projeto do governo e

se constitui em obstáculo real à sua viabilização.

No momento em que a inflação retoma sua ascensão,

apesar do arrocho nos salários e na liquidez, a ministra da

Fazenda atribui a responsabilidade a empresários e tra-

balhadores, enquanto o ministro da Justiça retoma a pro-

posta de "entendimento nacional". Não existe até agora

uma definição clara desse fórum de empresários, governo

e trabalhadores. Mas existe a intenção de excluir a CUT.

A Executiva da CUT decidiu comparecer à primeira

reunião apresentando a pauta aprovada na Plenária Na-

cional, sem qualquer compromisso quanto a assinatura de

pactos sociais ou de chegar a um entendimento comum.

Naquela reunião, os representantes do governo propu-

seram a criação de um grupo de discussão denominado

"comitê central", que se desdobraria posteriormente em

"comissões temáticas", abordando temas genéricos, al-

guns óbvios e aparentemente consensuais (erradiação da

miséria e do analfabetismo, modernização das relações

capital/trabalho), outros apontando para o projeto neoli-

beral (competitividade internacional, desregulamentação,

Resoluções 3* CONCUT/pág. 15

Com o aprofundamento da crise econômica e social

no País, provocado pela incapacidade do projeto da bur-

guesia em dar respostas aos anseios da população, mais

uma vez vem à tona a proposta de pacto social, onde a

burguesia e o governo Sarney contam com a ajuda de

Medeiros-Magri, agentes do capital no seio do movimen-

to operário.

A CUT entende que não pode haver pacto entre desi-

guais e que nesse tipo de pacto os trabalhadores só têm

a perder.

m '

®

Trabalhadores

participação da iniciativa privada em serviços públicos)

Nesse contexto, devemos manter nossa posição de ne-

gociar a partir da nossa mobilização e de nossas propos-

tas. Temos a obrigação de enftentar a discussão política

com o governo e com os empresários, assumindo os ris-

cos decorrentes dessa atitude e tomando os cuidados ne-

cessários. Para ganhar a população para as nossas pro-

postas devemos envolver a massa na discussão. É óbvio

que o governo e os patrões vão tentar o mesmo, buscando

isolar a CUT e reforçar os setores sindicais comprometi-

dos com suas propostas.

. . A ^"estã 0 não é "sün" ou "não", mas "como". O

"sim" puro e simples eqüivaleria a referendar o "enten-

dimento", como faz o sindicalismo de resultados e a pe-

legada. O "não" redondo eqüivaleria a entrar no jogo dos

patrões e do governo, que tentam descredenciar a CUT

como representante da classe trabalhadora.

Devemos, portanto, comparecer à(s) próximas(sj reu-

nião, levando a nossa pauta, exigindo resposta as reivin-

dicações, fazendo nossas críticas ao processo e combi-

nando a negociação com a mobilização das bases. Isso

não significa que voltaremos sempre ou que permanece-

remos em quaisquer circustâncias. Podemos nos retirar a

qualquer momento, a partir das nossas conveniências e

cientes das responsabilidades que a nossa representação

impõe.

Não alimentamos ilusões nem expectativas de enten-

dimento que escamoteiam os coflitos atuais e/ou implique

em trégua ao nosso processo de mobilização e de lutas.

Ao mesmo tempo, discordamos da exclusão do Congresso

Nacional e dos demais setores da sociedade civil organi-

zada. Somos a favor da democracia e contra governar

através de medidas provisórias.

Finalmente, reafirmamos a resolução do II Concut de

que "a CUT se manifesta firmemente contra qualquer

tentativa de acordo ou pacto que tenha por objetivo reti-

rar conquistas ou restringir a liberdade que a classe tra-

balhadora deve ter para avançar nas suas conquistas". A

negociação respaldada na organização e mobilização dos

trabalhadores está na essência do papel da CUT para ob-

tenção das reivindicações da classe trabalhadora.

São Paulo, II de setembro de 1990.

Adelmo Escher

Delubio Soares

Jair Meneguelli

José Olívio

Contra o pacto social

Rose Pavan

Avelino Ganzer

Gilmar Carneiro

Jorge Lorenzetti

Osvaldo Bargas

Por isso a CUT se manifesta firmemente contra qual-

quer tentativa de acordo ou pacto que tenha por objetivo

retirar conquistas ou restringir a liberdade que a classe

trabalhadora deve ter para avançar nas suas conquistas.

Apesar de todo este esforço da burguesia, não foi

possível deter o avanço das lutas e da CUT. Mesmo

diante deste quadro extremamente desfavorável, agrava-

do ainda mais pela crise econômica, as greves e mobili-

zações continuam, indício importante do ascenso das lu-

tas sindicais.


Quinzena

Trabalhadores

O Estado de Sáo Paulo - 12.9.90

Bases discutirão problema até o dia 20

Liliana Pinheiro

A CUT está dividida em relação à proposta

de pacto do governo. Ontem, foi dada a

partida na disputa que as diversas tendên-

cias que se abrigam na central devem tra-

var até o dia 20, para influenciar as bases,

convocadas a realizar nesse período as-

sembléias para decidir se a CUT deve oü

não integrar a comissão trilateral que vai

negociar soluções para o País.

A Articulação, facção majoritária e que tem

oito membros na atual direção executiva,

defendeu abertamente a participação na

comissão, mas para apresentar reivindica-

ções e defender projetos, posição coe-

rente com sua histórica bandeira de nego-

ciação permanente. Os outros sete direto-

res manifestaram-se contra essa posição.

Pertencentes à Convergência Socialista,

CUT pela Base, Partido da Libertação

Proletária e Força Socialista, eles querem

convencer os trabalhadores a votar contra

a presença da central na comissão.

O mais democrático processo desenca-

deado dentro da CUT para tratar de um

assunto meramente político interessa a to-

das as partes envolvidas. Membro da Arti-

culação, a diretora Rose Pavan disse que

a estratégia consiste em construir uma

central "orgânica". "Eu me nego a ver a

CUT apenas como um somatório de ten-

dências", disse. Pouco tempo antes, o

presidente da Central, Jair Meneguelli, ha-

via feito uma autocrítica sobre a convoca-

ção da greve geral passada, que antece-

deu a consulta aos trabalhadores, e sua

própria negativa em participar da última

tentativa de pacto sem ouvir as bases.

O coordenador da Articulação, Delúbio

Soares de Castro, fez uma previsão ousa-

da sobre o comportamento dos membros

da CUT, Para ele, os ativistas mais radi-

cais terão de acabar mudando de posição

depois da consulta aos trabalhadores -

afinal, não se pode rebelar contra uma de-

cisão das bases às quais costumam atri-

buir tanto valor.

Acostumados a perder nas fechadas

reuniões de cúpula, os membros das de-

mais tendências agora começam ganhan-

do. O diretor Martiniano Cavalcante, o pri-

meiro a lançar um manifesto contra a posi-

ção da Articulação de participar das nego-

ciações do governo, disse que começou

um "verdadeiro exercício de democracia".

Diretor do Partido da Libertação Proletána,

Cavalcante garante que as bases não

concordarão com a ida da CUT à negocia-

ção para o pacto social. Cyro Garcia, da

Convergência Socialista, mandou por es-

crito o seu protesto: "A Articulação não

pode passar por cima das resoluções de

todos os congressos da CUT" - afirmou

em nota. Os ativistas querem que a CUT

esqueça o governo e se dedique à unifica-

ção das lutas e greves para derrubar o

Plano Collor.

A batalha pública a que se propuseram

os diretores da CUT faz parte de uma

guerra maior. Para enfraquecer as facções

xiitas, a Articulação está, na verdade, de-

safiando as tendências para um teste de

popularidade e representatividade nas ba-

ses.

NEGOCIAÇÃO COLETIVA ARTICULADA - A EXPERIÊNCIA ITALIANA

Parece que a CUT inspirou-se bas-

tante neste modelo (italiano). Há bas-

tante tempo mantém relações com a

CISL - eu pertenço a CGIL. Na Itália,

a época do pós-guerra — depois do

fascismo e com a chegada da demo-

cracia — foi um período que compre-

endeu diversas fases históricas, mas a

estrutura da negociação permaneceu

mais ou menos a mesma.

Uma primeira coisa importante de

se entender é que na Itália nem os

sindicatos nem a negociação são re-

gulamentados: a negociação é livre, o

sindicato é livre e não tem personali-

dade jurídica. Bem diferente, portan-

to, da realidade brasileira. Há total li-

berdade sindical e de negociação, até

agora pelo menos. Não tem imposto

sindicai e há pluralismo sindical em

em todos os níveis.

*Marmo Ruzzenenti

Este texto é a transcrição (revisada pelo autor) da palestra proferida durante

o seminário "Contrato Coletivo de Trabalho na Realidade Sindical

Brasileira", promovido pelo CAJS em 31.3.90. Publicamos em duas partes

(Quinzena n- 101 e 102) por questão de espaço.

1S PARTE

Existem 3 centrais de trabalhado-

res: CGIL, CISL e UIL. Todas elas

têm a mesma estrutura, horizontal e

vertical, confedereções e sindicatos

por categoria, respectivamente, todos

com uma estrutura própria. Esta es-

trutura por sua vez tem o nível nacio-

nal, o nível regional e o nível local -

de fábrica. No nível nacional você en-

contra a Confederação CGIL, a Con-

federação CISL e a Confederação UIL

e também, por exemplo, o Sindicato

Nacional dos Metalúrgicos da CGIL,

o Sindicato Nacional dos Metalúrgi-

cos da CISL e o Sindicato Nacional

dos Metalúrgicos da UIL, assim como

os químicos e outros. A nível regional

você encontra a estrutura confederai

de cada uma das centrais. E a nível

local existe a organização de base de

cada uma das centrais. O trabalhador

se filia antes de tudo â Central, em

qualquer local de trabalho; ele assina

livremente uma espécie de cédula, on-

de escolhe uma das centrais - ou ne-

nhuma delas — e autoriza o desconto

em folha de pagamento da respectiva

contribuição (um percentual do salário

que varia de 0,5 a 1%, a depender da

central). E, claro, escolhendo uma

central ele está também escolhendo

toda a sua estrutura: o sindicato me-

talúrgico da CGIL, por exemplo. Isto

tudo é livre.

Penso que para vocês é muito difí-

cil entender isto, pois eu também tive

muita dificuldade para entender a es-

trutura sindical brasileira. Na Itália

não existe o sindicato de município,

não existe a estrutura sindical de mu-

nicípio. E não existe porque não tem

sentido para a atuação e para a nego-


Quinzena

ciação: um metalúrgico de São Paulo

não tem problemas diferentes de um

metaldrgico de São Bemaido ou de

Osasco. Assim, na Itália existe o sin-

dicato a nível regional, que tem senti-

do porque na Itália - como no Brasil -

tem bastante diferenças regionais.

Quanto aos níveis de negociação,

os mais importantes são o nível nacio-

nal e o de fábrica: os acordos nacio-

nais e os acordos de empresas. Existe

também o nível regional e os acordos

regionais, mas trata-se de negociações

gerais que envolvem estruturas admi-

nistrativas regionais criadas com a

descentralização do poder na Itália. A

nível nacional existem também "acor-

dos interconfederais" e alguns "acor-

dos-padrão" que envolvem as centrais

e o governo, mas estes são menos sig-

nificativos.

Os Contratos Coletivos Nacionais

de Trabalho - CCNT - dos químicos,

dos metalúrgicos etc, têm vigência de

3 anos. Cada categoria faz o CCNT e

em toda a Itália cada um tem como re-

ferência este contrato, no caso dos

trabalhadores privados. Ainda que a

lei não o estabeleça, este contrato tem

valor, na prática, para todos os traba-

lhadores, sejam eles filiados às cen-

trais ou não. Houve uma discussão

sobre isto, porque alguns achavam

que deveria cobrir só os trabalhadores

filiados às centrais ou então só os fi-

liados às centrais que assinassem o

acordo: CGIL ou UIL ou CISL. Mas a

jurisprudência reconhece-os como vá-

lidos para todos.

A esta altura, alguém poderia pen-

sar que acaba havendo semelhanças

entre estes CCNT italianos e alguns

acordos nacionais praticados no Bra-

sil, como os da Fittel, bancários e ou-

tros, e ainda, que a própria estrutura

sindical italiana, ainda que seja livre,

acaba sendo também corporativista,

com a organização por categorias. Por

isto é importante destacar alguns ele-

mentos: em primeiro lugar, os referi-

dos acordos nacionais praticados no

Brasil são feitos via a estrutura sindi-

cal corporativa da CLT, e não via os

Departamentos da CUT. Em segundo

lugar, no Brasil estes acordos, por lei,

cobrem todos os trabalhadores, sejam

sindicalizados ou não. Em terceiro lu-

gar, é preciso entender que, na Itália,

toda a atividade sindical, a estrutura

sindical, a negociação sindical são to-

das — até agora — absolutamente in-

formais! A força de todos estes Con-

tratos é a força sindical! A estrutura-

ção dos CCNT é feita ao nível das

centrais porque o nível vertical é inte-

grado ao nível horizontal também co-

mo estrutura. Por exemplo, na minha

cidade, para encontrar o Sindicato dos

Metalúrgicos da CGIL você tem que ir

à CGIL! O sindicato de categoria fica

&

SSS? ÃÍiííí:

no mesmo prédio da Central, onde tem

uma Secretaria Geral - por exemplo,

eu coordenava todas as categorias do

setor industrial. A discussão da es-

truturação do contrato se dá ao nível

político-sindical. Tudo que estou fa-

lando não é definido por lei! Neste

momento, por exemplo, na Itália al-

gumas categorias estão discutindo a

pauta para renovar seus CCNT. É uma

discussão que envolve as 3 centrais.

Os contratos, é claro, têm que levar

em conta a conjuntura econômica, po-

lítica e social daquele momento; têm a

mesma estruturação, porque todos eles

passam pelas centrais.

O outro nível fundamental de ne-

gociação é aquele de fábrica, os con-

tratos de fábrica. Queria acrescentar

uma coisa muito importante, que por

outro lado se encontra também aqui

no Brasil: a estrutura, neste 40 anos

do pós-guerra, ficou sempre mais ou

menos assim. Mas o PAPEL dos acor-

dos interconfederais e dos acordos-

padrão, o PAPEL dos CCNT das ca-

tegorias; o PESO destes diferentes ní-

veis de negociação e também o peso

dos diferentes níveis da organização

sindical (horizontal, vertical/nacional,

regional, local) MUDOU MUITO

nestes anos. E mudou muito, por con-

seqüência, a estrutura de negociação

neste período histórico, porque mudou

muito a situação econômica, política e

social, portanto mudou muito a estra-

tégia do movimento sindical.

O que modelou esta estrutura, seja

a estrutura organizativa, seja a estru-

tura de negociação na Itália e neste

período, foi a prática, a atuação sindi-

cal neste período. E a estratégia sindi-

cal para encarar a evolução da situa-

ção econômica, produtiva, política,

social. Na Itália foi possível e fácil

adaptar a estrutura organizativa e de

negociação às exigências da ação sin-

dical, porque não tinha esta rigidez da

CLT — felizmente, para nós... Então

este esquema mudou. Por exemplo,

mudou o papel da negociação nacio-

nal e da negociação por fábrica, seja

da estrutura organizativa, seja da ne-

gociação, em função das exigências

da ação sindical.

Voltando à exphcação do processo

de discussão e negociação nas cen-

trais: claro que a Pauta tem que ser

unitária e, para isto, há um processo

complicado, muita briga, às vezes um

ano de discussão! Em primeiro lugar

nas centrais, em segundo lugar nas

categorias, envolvendo toda a estrutu-

ra nesta discussão: os delegados de

fábrica das centrais; depois, entre as 3

federações — aí começam a ser defini-

das coisas sobre as quais as 3 centrais

estão de acordo, e se escreve a Pauta

e se volta a discutir com os trabalha-

Trabalhadores

dores; talvez seja necessário fazer um

referendum (votação), porque depois

de I ou 2 meses de discussão não se

chega à unidade; então, todos os tra-

balhadores - das 3 centrais - votam

sobre os pontos polêmicos. A pro-

posta, depois de acordada pelas cen-

trais, TEM QUE SER APROVADA

PELOS TRABALHADORES NAS

FABRICAS, em assembléias (a última

pauta dos metalúrgicos que foi apro-

vada, teve apenas um pouco mais de

50% dos votos dos trabalhadores, o

que significa que uma grande parte

deles não está de acordo com a Pau-

ta). Só depois de aprovada em todas

as fábricas aonde existe sindicato or-

ganizado, é que a Pauta será levada à

negociação com os patrões. Um deta-

lhe: nas fábricas não há categorias

"diferenciadas" como aqui: todos os

que trabalham numa metalúrgica se

vinculam ao sindicato metalúrgico.

Em anexo, os acordos têm também

leis específicas, como por exemplo o

fundamental Estatuto dos Direitos dos

Trabalhadores (que trata dos direitos

relativos à organização sindical e à

ação sindical nos locais de trabalho),

leis sobre garantias às mães trabalha-

doras e sobre a paridade do trabalho

entre homens e mulheres. Todos estes

acordos, no que se refere à sua apli-

cabilidade, são apreciados pela Justiça

Civil - que tem diferenças gritantes

em relação ao Código Civil brasileiro.

Depois destas explicações mais ge-

rais, tentemos detalhar o período his-

tórico que, em tese, inspira a proposta

da CUT. Eu não sei se a CUT se refe-

re a este modelo, de 1962 a 1968,

porque o período seguinte (anos 70)

na Itália é muito mais interessante em

termos de negociação coletiva, são os

anos mais expressivos, onde o nível

nacional e, mais ainda, o nível local

de negociação se desenvolvem. Nos

anos 70 os patrões ficaram bravos,

pois não conseguiam fazer nada sem

passar pela negociação por empresa. É

a época em que existiram os chamados

Conselhos de Fábrica.

Mas voltando aos anos 62-68 é

preciso antes de tudo perguntar: como

chegamos à negociação chamada Arti-

culada, nestes anos, que teve as ca-

racterísticas que vocês já estudaram —

as quais tiveram sua razão de ser?

Houve um processo econômico e po-

lítico que levou a esta experiência.

Havia uma situação muito diferente da

situação brasileira. E preciso dizer

que antes de 1962, existia na Itália,

em termos de negociação coletiva,

somente os níveis nacional e intercon-

federais de categorias. A negociação

era centralizada a nível nacional. E

havia também uma grande fraqueza do

movimento sindical porque tinha uma

forte divisão entre os sindicatos da


■■ ■■■■■:-■■:■:■:■:-:■;■:-;■.■■■■■■ ■■■■■-■■ ■:■:■:■:■.■:■.■.-.■.

Quinzena

CGIL, da CISL e da UIL, muita briga.

Era a época da guerra fria; a CGIL,

liderada pelos comunistas - que eram

e ainda somos maioria, não sei até

quando... - era vinculada à Federação

Sindical Mundial; a CISL era ligada

aos sindicatos norte-americanos.

Por que chegamos à Negociação

Articulada? Porque a Itália tinha a ne-

cessidade histórica de SUPERAR A

CENTRALIZAÇÃO contratual. A

motivação era esta - veja que é bem

diferente do Brasil porque aqui não

existe esta centralização contratual,

muito pelo contrário. Por que esta

centralização tinha que ser superada?

Era uma exigência da realidade italia-

na. Em primeiro lugar, uma exigência

do processo produtivo, econômico: na

Itália, na segunda metade dos anos 50,

teve um enorme crescimento econômi-

co - foi o período da reconstrução do

pós-guerra - que trouxe uma forte re-

estruturação produtiva e mudanças no

processo de trabalho; começaram a ser

apücadas as metodologias do taylo-

rismo e se desenvolveu a produção de

bens de consumo duráveis; portanto,

uma grande mudança na estrutura

produtiva. Esta mudança era muito di-

fícil de ser levada, expressada, reco-

nhecida num contrato definido a nível

nacional, pois este era muito rígido

que não conseguia e não podia refletir

as mudanças que aconteciam no pro-

cesso produtivo real.

Antes de tudo, este era um proble-

ma dos patrões porque, por exemplo,

no caso do contrato anterior (1959)

dos metalúrgicos, imediatamente após

a assinatura aconteceu uma grande

greve, a primeira greve unitária dos

metalúrgicos, do setor de eletromecâ-

nica, por causa do horário de trabalho

deste setor que estava definido no

CCNT e eles queriam questionar. Os

anos 60 também foram anos de gran-

des manifestações políticas porque

houve uma tentativa de restauração

fascista, da direita. Foram momentos

de grande enfrentamento social e po-

lítico.

Um outro fato significativo: em

1958, na minha cidade, houve uma

greve unitária da CGIL e da CISL -

até 1958 não tinha greve unitária por

causa da guerra-fria - contra o prêmio

anti-greve da Fiat. A Fiat, nos anos

50, fez uma repressão brutal, despe-

dindo todos os militantes da CGIL,

em particular os comunistas, destruin-

do a organização da CGIL na Fiat e

introduzindo o prêmio anti-greve:

quem não fazia greve tinha mais di-

nheiro. Então houve a greve unitária

na unidade da Fiat na minha cidade,

contra esse prêmio.

Ou seja, houve uma série de lutas

que colocaram em cheque este CCNT.

Os patrões começaram a perceber que

este Contrato não dava conta de re-

solver todos os problemas das rela-

ções industriais e de trabalho, porque

a realidade produtiva passou por mu-

danças, dadas pelo grande desenvol-

vimento tecnológico e produtivo dos

anos 50, da reconstrução industrial.

Havia uma exigência objetiva de su-

perar esta centralização que era reco-

nhecida também pelos patrões; claro,

os patrões queriam recuperar o con-

trole dos trabalhadores, o qual temiam

perder (um pouco como aqui no Brasil

foram introduzidas as Comissões de

Fábrica em 84/85, neste esquema).

E havia a exigência das centrais, de

superar esta centralização. Na verda-

de, esta centralização era sustentada

pela CGIL, a nível teórico. Foi mérito

da CISL, que desde os anos 50 ligou-

se à AFL-CIOLS, colocar o nível de

empresa como fundamental, apesar de

que — e agora faço a crítica da CGIL —

a CISL colocava o modelo (Maister

Agreement, norte-americano) no sen-

tido da colaboração entre patrões e

trabalhadores, e é mais fácil conseguir

esta colaboração a nível da fábrica.

Porque ali, com o argumento de solu-

cionar os problemas concretos do dia-

a-dia dos trabalhadores, você pode

juntar, compatibilizar os interesses de

patrões e de trabalhadores, então, para

a CISL, a negociação de fábrica teria

que ser desenvolvida neste esquema.

Num primeiro momento a crítica da

CGIL a esta proposta, foi a de que era

uma proposta corporativa e subalter-

na; defendeu a centralização porque, a

nível de fábrica, você tem o perigo de

cair no corporativismo: cada fábrica

tem uma situação diferente, então se

fragmenta a unidade da classe. E tam-

bém há a tendência de uma postura de

colaboração, de subaltemidade ao pa-

trão. Este era o debate.

Mas a CGIL começou nesta época

a fazer auto-crítica. Começou a pensar

que não se poderia mais continuar

com a centralização contratual. De-

pois dos anos 50, em particular depois

da derrota da Fiat (já citada) aonde a

sua organização foi destruída, a CGIL

percebeu que, se a sua organização

não conseguisse voltar aos locais de

trabalho, se enfraqueceria ainda mais,

perderia ainda mais poder porque per-

deria a capacidade de iterpretar as

exigências e os problemas do dia-a-

dia que o trabalhador enfrentava na

fábrica; pois ficaria por demais afas-

tada na estrutura burocratizada de ne-

gociação centralizada - negociação

absolutamente abstrata, genérica, que

não representaria os problemas con-

cretos das mudanças que aconteciam

na organização coletiva do trabalho.

Assim, também a CGIL tinha inte-

resse em voltar à fábrica. E quando

chegamos a este debate havia uma

convergência de iteresses num deter-

minado sentido — interesses objetivos,

que envolviam também os patrões -

de superar a centralização contratual:

a CGIL porque reconhecia a necessi-

dade de reconquistar a organização e

a presença na fábrica, onde estão os

trabalhadores no dia-a-dia com seus

problemas: então, para reconhecer e

interpretar estes problemas se precisa-

va estar lá. E aí foi claramente uma

mediação entre 3 diferentes concep-

ções: dos patrões, da CGIL e da

CISL. A CGIL ficou muito contrária,

por um período, a esta negociação ar-

ticulada. Não queria assinar, foi um

debate interno duríssimo. Depois de-

cidiu-se a assinar, seja para manter

aquela pouca unidade que consegui-

mos naquela época, seja porque pen-

sou: "talvez seja esta a oportunidade

para tentar voltar às fábricas". Dá pa-

ra entender como foi este processo?

Exposição realizada pelo Professor MARINO RUZZENENTI (professor de língua italiana e

de História. Foi presidente do Sindicato dos Professores de Bréscia - Itália do Norte, 1974/79

- membro da Executiva da CGIL de Bréscia - 1979/88 - cooperante de "Projeto de

Desenvolvimento CGIL " no Programa "Saúde Trabalhadores" - 1989/90- no Brasil).

Palestra proferida durante o Seminário "Contrato Coletivo de Trabalho na Realidade

Sindical Brasileira " promovido pelo CAJS em 31.3.90, em São Paulo - SP.

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Trabalhadores Rurais

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Edição em 3

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À VENDA NO

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l AGENDA DE 1

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• MU « R «A MtfHKA KTIIU

• WHM

CPV

iliiii


Gazeta de Pinheiros - 30.8.90

u

Sindicalismo: nem CUT, nem CGTs M

O cientista político Leôncio Martins Rodrigues, professor titular na

Unicamp e USP e perquisador do Centro de Estudos

Contemporâneos (Cedec), propõe nesta entrevista à Gazeta um

novo tipo de sindicalismo -o de' 'proposições". Ele critica aqui

tanto a contestação radical (às vezes só no discurso) da CUT como

o colaboracionismo das duas CGTs, que beira a conivência.

Segundo ele, os dois modelos atuais de sindicalismo -o de

contestação e o de resultados - acabam deixando a solução do

problema em mãos alheias, sem a participação do trabalhador na

tomada da decisão. Para ele, o sindicato precisa ser radical nos

meios de pressão e não nos objetivos a alcançar. Lêncio é autor de

vários artigos e livros, no Brasil e Exterior, entre eles Quem é

Quem na Constituinte e Partidos e Sindicatos - Escritos de

Sociologia Política. Em outubro, lança A CUT - Os militantes e a

Ideologia, pela Paz e Terra.

Oscar de Paula

Gazeta de Pinheiros — Qual o

futuro do sindicalismo no Bra-

sil? Ele passa pelo processo de

co-gestão na administração da

empresa, a exemplo do que

ocorreu na Alemanha, onde

existe um dos movimentos sin-

dicais mais bem-sucedidos da

Europa?

A idéia participativa, na Ale-

manha, vem de muitos anos.

Creio mesmo que ela tem uma

vinculaçào com concepções pa-

ternalistas da empresa como uma

ampla comunidade. O próprio

nacional-socialismo incorporou

essa visão da empresa como um

todo orgânico, onde nào havia,

ou nào deveria haver, conflito en-

tre o capital e o trabalho. Quan-

do as primeiras medidas de co-

gestão foram adotadas depois da

Guerra, o patronato alemão se

encontrava bastante enfraqueci-

do. Depois, o sindicalismo ale-

mão avançou nessa direção no

clima geral de recuperação eco-

nômica da RFA.

O sistema de co-gestão passa

por um fortalecimento do sin-

dicato dentro da empresa, é is-

so?

Veja que a situação de pleno

emprego na RFA fortaleceu os

sindicatos. Não creio que, em

nosso país, os sindicatos, às vol-

tas com a inflação e o desempre-

go, tenham força suficiente para

impor ao patronato uma reivindi-

cação dessa natureza. Isso por-

que o sindicalismo não tem nem

mesmo força para se implantar

no interior das empresas. Veja

que o Artigo 2? da Constituição,

que assegura a eleição de repre-

sentantes dos trabalhadores nas

empresas com mais de duzentos

empregados, não foi ainda regu-

lamentado. E, ao que tudo indi-

ca, nem os próprios sindicatos se

mostram interessados em obter a

sua regulamentação. Por tudo is-

so, minha impressão è de que a

co-gestão, no Brasil, ficará para

um futuro bem mais distante.

O sr. acha possível que, no es-

tádio dos últimos anos da eco-

nomia brasileira, os sindicatos

se limitem a lutar apenas por

salário, desconsiderando lutas

mais amplas como a reforma

do Estado e as práticas entre o

capital e o trabalho?

Na realidade, em termos de

reivindicações, os sindicatos nào

se limitam a lutar só por salários.

Quando examinamos as pautas

de negociação entre os principais

sindicatos e as empresas, ou gru-

po delas, observa-se o notável au-

mento dos assuntos discutidos.

Por outro lado, no que diz respei-

to à Constituição, vimos um forte

movimento sindical, em termos

de lobby, no sentido de obter

vantagens sociais, como a redu-

Trabalhadores

ção da jornada, a licença à ges-

tante, o gozo de férias remunera-

das com pelo menos um terço a

mais do que o salário normal, e a

jornada de seis horas para traba-

lhos feitos em turnos ininterrup-

tos etc. Além disso, há os exem-

plos por demandas sociais mais

amplas, em que a CUT e a CGT

agitaram muitas bandeiras políti-

cas, como a reforma agrária, as

eleições diretas, o não-pagamen-

to da dívida externa e outras. É

claro que, numa conjuntura alta-

mente inflacionária, a defesa dos

salários reais acaba concentrando

todos os esforços dos sindicatos.

Por que acusam a CUT de gre-

vismo e de politizar suas lutas

reivindicatórias?

Porque acham o discurso da

CUT, e às vezes a sua Rfática,

muito raaicai. "Devo dizer, por

minha vez, que acho o discurso

mais radical do que a atuação

efetiva da central. Quando ela,

no seu segundo congresso nacio-

nal, em 1986, pronunciou-se pelo

socialismo, forneceu um prato

cheio para os setores mais conser-

vadores da sociedade brasileira.

Eu entendo que foi um erro, uma

mera declaração de princípio, um

gesto simbólico que não levou a

nada, a não ser favorecer seus ad-

versários. Mas, devemos admitir,

a CUT è mais radical e está mais

à esquerda do que o sindicalismo

de resultados e as demais cen-

trais. Penso também que a CUT

agita excessivamente a idéia da

greve geral.

Acha que as tentativas da

CUT em desencadear a greve

geral lhe ocasionam desgaste

político no meio sindical?

Olha, a CUT já marcou e des-

marcou por três vezes a realiza-

ção de uma greve geral. Ocorre

que a greve geral não é um bom

instrumento de obtenção de van-

tagens concretas para os traba-

lhadores. Normalmente, a parali-

sação do trabalho, quando bem-

sucedida, dura muito pouco tem-

po. Os empresários (e o governo)

sabem que depois de 24 horas a

greve acaba. A greve geral, se não

tiver continuidade, serve só como

um protesto, embora eu reconhe-

ça sua importância política. Se ti-

ver continuidade, assume uma

conotação revolucionária, e aí tu-

do muda de figura. Pessoalmen-

te, acho que a CUT deveria ser

mais comedida nessa idéia de agi-

tar, com tanta freqüência, a

ameaça de greve geral, que já nào |


assusta mais ninguém, custa mui-

to caro para os sindicatos e não

garante nenhuma vantagem para

os trabalhadores. Apenas reforça

as acusações de que os sindicalis-

tas querem botar fogo no País.

Como u Br. analisa o compor-

tamento das duas sindicais, a

CUT e a CGT, uma politica-

mente agressiva e a outra mo-

derada, diante de um Estado e

da maioria dos empresários

coniventes no arrocho salarial

e na repressão aos direitos so-

ciais dos trabalhadores?

Tenho algumas dúvidas sobre

a junção de interesses entre os

empresários e o Estado. Muitas

medidas do Plano Collor, como o

"congelamento" das aplicações

no om- e na poupança e os Certi-

ficados de Privatização, não tive-

ram o apoio dos empresários.

Aliás, não sei até que ponto o

conjunto do plano contou com a

aprovação dos empresários. A lei

de greve, oue restringe mesmo o

seu direito, foi aprovada peio

Congresso e è anterior ao gover-

no Collor. A questão do arrocho

salarial é mais complexa. Não co-

nheço caso de- política antiinfla-

cionária que coabitasse com uma

política de elevação salarial. Ape-

sar disso, acredito que se deve-

riam procurar alternativas, no es-

forço de conter a inflação, que

não penalizassem em demasiado

os trabalhadores.

Mas o sr. acredita nessa histó-

ria do governo Collor de aca-

bar, com "um só tiro", o pro-

cesso ínflacionário herdado do

governo Sarney?

Talvez essas idéia seja um

equívoco. Talvez um combate

mais gradualista e a longo prazo

acabasse em resultados mais du-

radouros, sem impingir tanto so-

frimento à população. Não vejo a

inflação como um mal em si —

como a doença ou a morte. Ela é

negativa por suas conseqüências.

Convivemos por muito tempo

com a inflação, e o Brasil chegou

a registrar taxas elevadas de cres-

cimento econômico. Ela só se

transforma num flagelo quando

atinge índices muito elevados. Se

Lula tivesse vencido as eleições,

eu não sei até que ponto um go-

verno do PT conseguiria conter a

inflação, elevar os salários reais,

fazer reforma agrária, romper

com o FMI e promover uma forte

expansão das atividades econô-

micas.

E quanto à atuação da CUT e

da CGT, o que tem a dizer?

É melhor a gente falar das

duas CGTs, porque no momento

temos a Confederação e a Central

Geral dos Trabalhadores, ambas

utilizando a mesma sigla. Na mi-

nha opinião, a CUT carrega de-

mais no lado contestatório, en-

quanto a CGT colabora em de-

masia. A alternativa, penso eu,

não está num sindicalismo de

contestação nem num sindicalis-

mo de colaboração. Imagino que

mais adequado a uma sociedade

economicamente complexa e a

um sistema democrático seria um

sindicalismo de proposições. Eu

não acho que o sindicalismo deve

ficar numa posição defensiva,

apenas reivindicando para que

outros tomem as decisões, para

ações que partam do governo ou

do empresariado.

Pode explicitar melhor essa

posição defensiva do sindica-

lismo?

O que quero dizer é que, en-

quanto o movimento sindical per-

manecer na posição de dizer "a

inflação foi de 50%; queremos

50*10 de reposição", "exigimos a

reposição de todas as nossas per-

das" etc, o sindicalismo estará

sempre na defensiva, qualquer

que seja o grau de radicalismo de

sua ação. Face a problemas que

afetam os trabalhadores, como o

desemprego e a inflação, os sindi-

catos devem ter seus planos, ob-

viamente que exeqüíveis. Para is-

so, devem ser realistas e contem-

plar os interesses do setor empre-

sarial e do estado da economia.

Que interesses seriam do em-

presariado numa dada situa-

ção da economia?

Acho que tanto um "sindica-

lismo de resultados" como um

"sindicalismo de contestação"

acabam deixando a iniciativa das

"soluções" em mãos alheias.

Dou um exemplo: o da Compa-

nhia Siderúrgica Nacional. O sin-

dicato pode ser omisso, aceitando

tudo o que vier da direção da em-

presa, ou pode ser radical, recu-

sando aceitar a existência de um

problema real e deflagrando uma

greve por fortes elevações sala-

riais, contra qualquer demissão,

contra a privatização da empresa

etc. Entretanto, o sindicato pode

ser duro também quando diz:

"Muito bem, aceitamos a exis-

tência de um problema; entende-

mos a necessidade de mudanças,

mas queremos participar das dis-

cussões, a fim de minimizar os

custos sociais de reformas neces-

sárias e para que os trabalhadores

não sejam os únicos a arcar com

os ônus de um necessário proces-

so de modernização." Com esses

objetivos em vista, o sindicato

pode ser radical nos meios de

pressão mas não nos objetivos a

alcançar.

O sr. quer dizer que a essa al-

tura da negociação a radicali-

zação se tornaria inútil?

Apenas irrealista. No meu en-

tender, a fórmula boa é o sindica-

to pressionar sem perder os obje-

tivos que tem em vista. Mas, para

ser sincero, não creio que, no mo-

mento atual ou nos próximos

anos, o sindicalismo brasileiro

possa assumir uma orientação

dessa natureza.

E por quê?

E que a apresentação de alter-

nativas construtivas, tecnicamen-

te viáveis, exige um esforço de

elaboração, de levantamento de

dados e informações que a maior

parte dos sindicatos não está em

condições de realizar. Mas não

creio que ai resida a maior difi-

culdade. Do lado dos sindicatos,

há um bloqueio, uma resistência

a assumir posições que pareçam

uma forma de colaboração com o

governo ou o patronato. E há

também a resistência do patrona-

to e das autoridades de aceitar li-

mitações no que consideram seu

direito de tomar decisões. A dis-

cussão conjunta com os sindica-

tos é entendida (e em certa medi-

da é assim mesmo) como uma

restrição de autoridade. Como os

sindicatos, pelo menos hoje, não

têm força para conseguir a aber-

tura de negociações nesses níveis,

não penso que, para os próximos

anos, vamos ter um efetivo pro-

gresso na direção de um sindica-

lismo de proposições.

Enquanto não se chega lá, o

sr. não acha que o chamado

"grevismo" da CUT é a única

forma de repúdio à forma

também violenta de acumula-

ção do empresariado, em de-

trimento de uma distribuição

de renda mais justa?

Certamente, a má distribuição

da renda, a pobreza e outras pra-

gas da sociedade brasileira levam

a estimular soluções radicais..


Mas eu não veria uma relação de

causa e efeito tão direta entre es-

ses aspectos negativos da socieda-

de brasileira e um suposto grevis-

mo da CUT. É que não está escri-

to na história que exista somente

uma forma de repúdio sindical a

um autoritarismo patronal ou a

uma forma de acumulação de ca-

pital. Nem me parece certo que

durante uma fase violenta de acu-

mulação os trabalhadores per-

cam.

Gazeta Mercantil -11.9.90

por Ricordo Balthazar

de São Paulo

0 fim da reposição ime-

gral da inflação nos salá-

rios tem determinado um

número crescente de gre-

ves nos últimos meses.

Passado o impacto inicial

do Plano Collor na econo-

mia, os sindicatos conse-

guiram rearticular-se em

alguns setores e organizar

várias paralisações por re-

posição salarial, especial-

mente a partir de junho e

no setor privado. As greves

deste ano, contudo, têm ca-

racterísticas diferentes do

passado.

Os números mais recen-

tes do Departamento de

Estudos Sócio-Econômicos

e Políticos (DESEP) da

Central Única dos Traba-

lhadores (CUT) mostram

que elas sSo mais longas e

mais pulverizadas do que

antes. No primeiro semes-

tre deste ano, o DESEP re-

PREVIDENCIÁRIOS — A ade-

são dos previdenciários gaú-

chos à greve nacional da cate-

goria é expressiva, embora

Roja divergência quanto ao

índice entre o superintendente

regional do Instituto Nacional

de Seguridade Social (INSS),

Rosil Miranda, e as lideranças

sindicais. Miranda reconhece

uma adesão de 60 a 70% no

antigo Instituto Nacional de

Previdência Social (INPS) e de

apenas 30% no também extin-

to Instituto de Administração

Financeira da Previdência So-

cial (lapas), reunidos agora

no INSS, informou a agência

Globo.

Mesmo havendo oferta de tra-

balho em períodos de grande

acumulação, o sr. não concor-

da que a parte dos trabalhado-

res nos lucros é sempre irrisó-

ria?

Pode ser, mas acredito que os

trabalhadores perdem mais quan-

do a taxa de acumulação é baixa

ou, pior ainda, quando não há

nenhuma acumulação. Quando

há acumulação, sempre há possi-

bilidade de os trabalhadores au-

mentarem seus salários reais.

Cresce o número de greves

Mi

Jantiro

Fwtniro

Morço

Trabalhadores

Acrescente-se que o aumento dos

ganhos dos trabalhadores e a am-

pliação da parte do trabalho, na

renda nacional, dependem muito

de fatores como a oferta de força

de trabalho no mercado, nível de

organização sindical, natureza da

tecnologia etc. Não é certo que os

assalariados se beneficiem, em

termos relativos ou absolutos, de

um aumento do ritmo de acumu-

lação. Mas é muito mais provável

que percam, se não houver acu-

mulação.

AS GREVES DO PRIMEIRO SEMESTRE

S«lor públito Wprivado 1

Gr«vt» Grarálat florot porodoi Orwm Grarálm

70

101

89

177.846

541.880

958.449

3.904

4.792

8.256

94

165

102.754

254.064

146.317

Acumulado 228 1.303.903 16.952 304 478.112 16.417

Abril

Maio

Junho

87

105

139

244.152

838.894

867.260

6.920

8.520

12.656

38

141

379

85.090

345.535

1.266.308

3.264

9.953

3200

2.728

7.568

33 024

Acumulado 274 1.512021 28.096 506 1.620.938 43.320

1? SOTiestr» 502 2.815,924 45.048 810 2.099.050 59.937

1 Font.: DtMp-CUT

gistrou um total de 1.312

greves (15.9% a mais que

no primeiro semestre de

1989), que mobilizaram 4,9

milhões de trabalhadores

(40% menos) durante

104.785 horas (30,5% mais).

Assim como no primeiro

semestre do ano passado, a

razão principal dessas gre-

ves é a ausência de uma po-

lítica de indexação dos sa-

lários pela inflação passa-

da. Mas as semelhanças

param por aí: no ano pas-

sado, as greves consegui-

ram pressionar o Congres-

so a criar uma política de

reposição integral da infla-

ção; hoje, elas encontram

no governo e nos empresá-

rios uma resistência férrea

e pouca disposição a con-

cessões

HORAS PARADAS

As coisas mudaram e^por

isso as greves têm sido

mais longas. Houve um sal-

to expressivo no número de

horas paradas em junho,

quando ele passou para

45.680 — mais da metade do

tempo gasto com greves

AS GREVES APÓS O PLANO COLLOR

Mk Gwm Gnrátai Horas pofoooi

Morço

Abril

Maio

Junho

84

125

246

518

569.627

329.242

1.184.429

2.133.568

8.336

9.644

16.088

45.680

Acunwlodo 864 3.702.586 79.752

fonfr D««()-CUT ' a partir do dia 15

após o Plano Collor, segun-

do o DESEP. O problema

dos sindicatos é que, mes-

mo assim, os grevistas des-

te ano não têm conseguido

recuperar integralmente a

inflação nSo reposta nem

reaver a indexação vigente

antes do Plano Collor.

Os dados do DESEP —

que colhe informações na

imprensa e nos sindicatos,

para depois cotejá-las com

os números do Ministério

do Trabalho — mostram

também que o aumento das

greves se tem produzido

principalmente no setor

privado, ao contrário dos

últimos dois anos, em que

mais da metade dos grevis-

tas era encontrada no ser-

viço público e nas estatais.

Nos últimos meses do pri-

meiro semestre, essa ten-

dência se inverteu.

GREVES

PULVERIZADAS

Em junho passado, se-

gundo o DESEP, 59,4% dos

grevistas estavam no setor

privado (29,2% no mês an-

terior) e 40,6% no setor pú-

blico (70,8% um mês an-

tes). O número de grevis-

tas é menor que no ano pas-

sado, mas o DESEP inter-

preta isso como um sinal

da pulverização das parali-

sações por empresa e por

categoria isolada. Para ele

ainda, a menor participa-

ção do setor público é moti-

vada principalmente pelo

temor da reforma adminis-

trativa implantada pelo go-

verno em seu plano de con-

tenção dos gastos públicos.


iilili

Quinzena

TRABALHADORES DE MANAUS

As maiores conquistas de reposição

de perdas salariais no Plano Collor

aconteceram em Manaus em junho úl-

timo. Algumas empresas foram obri-

gadas pela Justiça a concederem até

188% de aumento. Para chegar a isso

foi preciso uma forte mobilização de

trabalhadores em maio, organizada

pelo principal sindicato da região da

Zona Franca: o que congrega os tra-

balhadores metalúrgicos e os do setor

eletroeletrônico, filiado à CUT. Agora

novamente estão era greve era busca

de 256% de aumento.

Era maio a grande conquista foram

os 188% de aumento que a Justiça do

Trabalho fez era empresas como a

Philips e Serap Toshiba.

MINEIROS - SC

Os 1.500 trabalhadores da Minera-

dora Criciúma e os 500 da Carbomfe-

ra Catarinense, decidiram voltar ao

trabalho dia 31 de agosto, depois de

30 dias era greve. A decisão, tomada

na assembléia geral convocada pelo

Sindicato dos Mineiros de Rio Maina,

realizadas no dia 28 anterior, foi con-

seqüência da proposta apresentada

pelas direções das empresas, que ele-

vou o piso salarial da categoria, de

Cr$ 13.703, para Cr$ 20 mil.

BANCÁRIOS

Os funcionários de bancos privados

e estaduais iniciaram greve dia 12 de

agosto, reivindicando reposição sala-

rial em setembro de 297%.

Os bancos oferecera reajustes cal-

culados, conforme a Medida Provisó-

ria 211, que, descontadas antecipa-

ções anteriores, permanecera entre 3 0

e 65%.

A Fenaban recusou-se a atender um

novo pedido de reabertura das nego-

ciações formulado pelo comando na-

cional dos bancários que aguardara

o julgamento da greve nos Tribunais

Regionais do Trabalho (TRT).

Na avaliação do comando nacional

dos bancários a paralisação conta cora

a adesão de 80% do total de trabalha-

dores.

Nos 24 estados onde houve acom-

panhamento do segundo dia de greve

nacional, o comando verificou parali-

sações em bancos privados em todos

estados, e em 13 deles foi registrada

também a participação de funcionários

de bancos estaduais. Os funcionários

do Meridional, banco oficial federal,

também aderiram ao movimento, inter-

rompendo as atividades principal-

mente do Rio Grande do Sul.

Era São Paulo, a paralisação é in-

tensa entre os funcionários de Banco

do Estado de São Paulo (Banespa),

cuja adesão estimada na capital é de

9(Wc dos 18 mil trabalhadores, en-

quanto no interior do estado chega a

100%, atingindo quase a totalidade

dos 15 rail funcionários conforme

avaliação dos sindicalistas. Dia 13 (2-

dia de greve), 6 mil funcionários do

Banespa da capital realizaram assem-

bléia e decidiram manter o movimen-

to.

O funcionários do Banco do Bra-

sil-RJ, que somara 10 mil trabalhado-

res, não aderiram a greve, apesar de

rejeitarem era assembléia os 104,27%

propostos pela empresa, cora Base na

Medida Provisória n- 219. Existe a

possibilidade de aderirem à paralisa-

ção nacional, dependendo do resulta-

do das negociações dos próximos

dias.

BARINSUL - RS

O Banco do Estado do Rio Grande

do Sul S.A. (Barinsul) chegou a um

acordo cora seus 11,5 rail funcioná-

rios, que aprovaram em assembléia

realizada no dia 12 de agosto, a pro-

posta de ura aumento salarial de 60%

sobre os vencimentos de agosto.

O adicional de salário acrescido ao

índice de aumento proposto, chega a

uma variação de 216% entre março e

setembro.

CEF-RJ

No dia 13 de agosto, foi determi-

nada a reintegração dos funcionários

da Caixa bconômica Federal(CEF) do

Rio de Janeiro, demitidos no curso da

reforma administrativa. Eles somara

cerca de 170, porém a determinação

só atinge os funcionários locados na

capital.

CORREIOS - SP

Os funcionários da Empresa Brasi-

leira de Correios e Telégrafos (ECT)

iniciaram greve dia 12 de agosto. O

movimento atinge a capital paulista,

ABC, Sorocaba e Campinas. Os tra-

balhadores reivindicam 256% de rea-

juste salarial e a empresa deve ofere-

cer 20%, de acordo cora o diretor re-

gional da ECT, Edson Corain.

O sindicato da categoria na capital

estima que 80% dos 10 mil funcioná-

rios aderiram à paralisação, que se-

gundo a entidade atinge também o Pa-

raná e Mato Grosso do Sul.

A reivindicação de 256% se refere

a perdas salariais sofridas após o Pla-

no Collor. Os grevistas também que-

rem a reitegração de 7,2 rail trabalha-

dores demitidos cora a reforma admi-

nistrativa.

No dia 13 de agosto,, 50 funcioná-

rios grevistas foram demitidos. O sin-

dicato dos funcionários recusou a

proposta patronal de 20% de anteci-

pação salarial e vai manter a greve.

PREVIDENCIÁRIOS

Após aguardarem ura mês pela res-

posta dos Ministérios da Saúde e do

Trabalho e Previdência Social à pauta

de reivindicações da categoria, os

previdenciários e os funcionários do

serviço de saúde púbüca federal deci-

diram paralisar suas atividades a partir

do dia 5 de setembro.

A diretora do Sindprev, informou

que os trabalhadores aprovaram a gre-

ve em 17 Estados e disse que o obje-

tivo é fazer avançar o movimento em

direção à unificação com os funcioná-

rios públicos federais e cora os bancá-

rios.

Os trabalhadores reivindicara 274%

de reposição salarial, reintegração dos

demitidos e colocados era disponibili-

dade, retomo à carga horária de 30

horas semanais para todos e garantia

de não privatização dos serviços de

saúde e previdência social.

Os previdenciários e funcionários

federais de saúde pública são 230 mil

em todo o País e têm data base em ja-

neiro. Segundo a diretora do Sind-

prev, representantes da categoria tive-

ram ura encontro com o ministro do

Trabalho Rogério Magri, que afirmou

que a política salarial para o funcio-

nalismo será definida pelo Governo

sem negociação. ^^


Quinzena

CONDUTORES-SC

Cerca de 1,8 mil motoristas e co-

bradores de 11 empresas de ônibus

urbanos de Florianópolis entraram em

greve dia 13 de agosto, paralisando as

64 linhas de transporte coletivo da ci-

dade. O movimento durou 17 horas e

provocou a paralisação de 95% da

frota.

Os trabalhadores reivindicavam, a

partir de setembro, reajustes de 42,5%

para o piso salarial dos motoristas, e

26,5% para o piso dos cobradores. As

empresas decidiram negociar ofere-

cendo aumentos sob forma de abonos

de Cr$ 8 mil para motoristas e Cr$ 3

mil para cobradores.

Curtas

PETROLEIROS

Os funcionários da Petrobrás reali-

zaram assembléias, dia 13 de agosto,

para decidir se aceitam ou não a pro-

posta feita, no dia anterior, pela dire-

ção da empresa às lideranças da cate-

goria durante audiência de conciliação

no TST, na qual oferecem um reajuste

de 98,24% retroativo a l 9 de setembro

e a possibilidade de readmissão de

800 petroleiros demitidos nos últimos

meses. Os petroleiros reivindicam

276% de reposição salarial.

Maiores detalhes no próximo n 9 da

Quinzena

ELEIÇÕES SINDICAIS

A Chapa 1, ligada à CUT, foi a

vencedora nas eleições para a nova di-

retoria do Sindicato dos Bancários de

Belo Horizonte, realizadas na penúl-

tima semana de julho. O sindicato re-

presenta 44 mil trabalhadores - 2 Omil

em condições de voto - espalhados

por 152 cidades da região de Belo

Horizonte. A Chapa 1 teve 7.158 vo-

tos, contra 3.927 da Chapa 2, liderada

por Mário Campos.

WM^Mífsimím

Não Saiu

Mo Jornal

DENÚNCIA

Em carta recebida em 20 de agosto

útimo, os trabalhadores rurais organi-

zados no Grupo "A" do Assenta-

mento Pontal do Jundiá, denunciam as

atitudes irresponsáveis dos represen-

tantes do INCRA do Estado do Espí-

rito Santo, a exemplo do dia 16 de

agosto último:

ANISTIA INTERNACIONAL

DENUNCIA

Segundo o relatório da Anistia In-

ternacional, sete milhões de crianças

vivem e trabalham na rua. Destes,

uma parcela está envolvida com o

crime-agindo como assaltantes ou pas-

sadores de drogras para quadrilhas de

traficantes; outras pedindo esmolas,

vendendo coisas nas ruas ou revirando

depósitos de lixo. "O simples fato de

estarem nas ruas, mal-vestidas e mal-

alimentadas, faz com que estas crian-

ças sejam vistas como "possíveis cri-

minosos' por muitos oficiais das polí-

cias civil e militar, e portanto vulne-

ráveis a tratamento arbitrário", afirma

a Anistia.

As pesquisas realizadas por organi-

zações brasileiras mostram que os es-

quadrões da morte matam cada vez

mais as crianças e adolescentes. Um

estudo sobre 624 casos de assassina-

tos de crianças, cometidos no período

de 18 meses, mostra que: 21% dos ca-

sos são de responsabilidade dos es-

quadrões da morte; considerando os

primeiros seis meses de 1989, os nú-

meros levantados são praticamente

iguais a todo o ano anterior; oitenta

por cento das vítimas são do sexo

masculino, com idades entre 15 e 18

anos; dos dados disponíveis, 82% são

Trabalhadores

• Ameaça de demarcação das terras

do Grupo "A" e entregá-las aos tra-

balhadores, individualmente, sem ne-

gociação.

• Incitação à rivalidades entre tra-

balhadores e grupos coletivos, au-

mentando as divergências internas do

assentamento.

• Desconsideração dos grandes in-

vestimentos via BANDES, existentes

no Assentamento, feito por grupos

coletivos.

• Descumprimento das promessas

de galpão comunitário, estradas, me-

lhoramentos no prédio das escolas

feitas por tais representantes do IN-

CRA.

Os trabalhadores solicitam que tal

denúncia se tome púbüca e que seja

enviado telegramas ou telefonemas ao

Superintendente do INCRA, exigindo

providências.

de ongem negra ou mestiça; calcula-

se que a cada dia pelo menos uma

criança é eliminada pelos esquadrões.

"Esses fatos são impressionantes,

já que evidenciam a existência de

ações organizadas para a eliminação

de pessoas - neste caso, crianças e

adolescentes - seja para "limpar as

ruas", "eliminar testemunhas" ou

"garantir a segurança" de uma deter-

minada área. O fato é que esses gru-

pos estão agindo praticamente em to-

do o país, sem que suas atividades

sejam adequadamente "investigadas

ou punidas", conclui o relatório.

Não é para menos. As próprias au-

toridades policiais do Rio de Janeiro,

Recife e Manaus, reconhecem que

muitos desses esquadrões da morte

são comandados ou compostos por

policiais que atuam fora do horário de

trabalho. O Departamento de polícia

do Rio de Janeiro informou que 50%

dos membros indentificados dos es-

quadrões são policiais.

O documento da Anistia Internacio-

nal, intitulada Brasil. Crianças víti-

mas de assassinatos e crueldades,

arrola uma série de casos que com-

prova estes dados. Temos este docu-

mento em nosso acervo e está à dispo-

sição de nossos leitores.


Folha de Sío Paulo - 9.9.90

EUA lutam contra o fantasma da decadência

CLÓVIS ROSSI

Em momentos de crise, inves-

tidores assustados buscam sempre

refúgio no dólar norte-americano,

certo? Errado. A crise no golfo

Pérsico, que amcuça provocar um

incêndio na região que concentra

as mais importantes reservas pe-

trolíferas do planeta, em vez de

fazer o dólar subir, pela procura,

fez subir o marco alemão e o iene

japonês. O dólar encontra-se. ali-

ás, na sua mais baixa cotação

histórica na relação com as duas

estrelas ascendentes da constela-

ção econômica mundial.

Esse fenômeno só acentuou

uma sensação, na sociedade nor-

te-americana, que levou à cunha-

gem de um neologismo: "decli-

nismo". Incomodado por esse

estado de espírito, o presidente

do Conselho de Assessores Eco-

nômicos da Casa Branca, Michael

Boskin, constatou, em discurso

no dia 19 de julho passado: "Está

limergindo uma nova e, na minha

opinião, altamente errônea sabe-

doria convencional que bem po-

deria ser rotulada declinismo''.

Boskin forneceu números para

contestar o "declinismo":

1 - Os EUA continuam a maior

e mais produtiva economia no

mundo. Com menos de 5% da

população mundial, produzem

267c do Produto Nacional Bruto

do mundo (medida da renda das

nações). A economia, americana

tem mais do que 2,5 vezes o

tamanho da economia japonesa, a

segunda maior do mundo.

2 - A produtividade nos EUA é

maior do que a de outras nações.

3 - Os EUA não estão se

desindustrializando. Respondem

hoje por uma fatia maior da

produção industrial das 24 nações

mais ricas do mundo do que há

20 anos.

O discurso e os números de

Boskin não comoveram os espe-

cialistas de fora do governo. "No

meu mundo, o mundo financeiro,

o sentimento de 'declinismo' é

muito penetrante, porque você vê

o que acontece com o dólar e com

A GUERRA ECONÔMICA DAS TRÊS POTÊNCIAS

KNMratCAPIU

(em US» mil)

1»»* lj|i 1000 (profeçõo)

1353 13.53

(II ITir n ■!■■ «hiMi n ft 'Jiiim-tin "rif ' no ano 3000. ã Alwwonho unihcodo

POWRFINANCIMO

(n 0 d* bancos «nlr» » cem motores do mundo)

í'

BALAMÇ* COMERCIAI

-/v

(emUS»bi.eml9t9)

• IWMWI

Superávit

PlOOUTtVIOAK

empregado, números retativosj

100 100

: : :

v ' S&: tfÊÊBÊÊÊÊÍ

EUA

tino

os bancos americanos, bm termos

de poder financeiro, a América

perdeu bastante", diz Jeffrey

Garten, doutor em economia pela

John Hopkins University e que

está terminando um livro sobre a

competição EU A-Japão-Alema-

nha no pós-Guerra Fria.

De fato, além da debilidade do

dólar, há a evidência de que, dos

cem maiores bancos do mundo,

apenas nove são americanos. O

Japão tem 33 bancos na lista e a

Alemanha Ocidental, 12.

Mas também fora do mundo

financeiro os sinais de "declinis-

mo" são poderosos: os eletrodo-

mésticos encontrados nos lares

americanos, uma espécie de sím-

bolo da sociedade de consumo,

eram todos fabricados por firmas

americanas até 1970. Hoje, ape-

nas 5% são feitos nos EUA.

"Olhe para qualquer índice

—investimento de capital, finan-

ciamento de pesquisa industrial,

penetração de importados no

mercado doméstico, engenheiros

PI

Economia

na força de trabalho— e ele

mostra que a liderança da Améri-

ca está escorregando", escreve a

revista "Business Week", em

número especial de julho sobre

"inovação" na competição indus-

trial-tecnológica entre EUA, Ja-

pão, a Europa unificada de 1992

e até potências emergentes, como

os "tigres asiáticos".

Mesmo economistas do gover-

no compartilham, se não da teoria

do "declinismo", pelo menos da

certeza de que a antes indisputada

liderança americana sobre a eco-

nomia mundial é coisa do passa-

do. "Os EUA ainda são a primei-

ra economia do mundo, mas a

diferença se estreitou", diz Peter

Field, da Secretaria do Comércio.

A questão em aberto é saber se

a diferença continuará se estrei-

tando até o ponto em que o Japão

ou a Alemanha ou ambos ultra-

passem os EUA ou se a América

conseguirá frear o declínio com-

parativo —na verdade, a única

maneira realmente eficaz de pôr

fim à teoria do "declinismo".


Istoé Senhor -29.8.90

Miséria vs. democracia

Um relatório do Banco Mundial mostra a bons entendedores

que o Brasil nao é democrata nem capitalista

O Banco Mundial acaba de conferir

ao Brasil o bronze da miséria. Somos

os terceiros do mundo na olimpiada da

concentração de renda, ou, por outra,

da desigualdade social. Na frente do

Brasil, só mesmo Honduras, que ficou

com a medalha de ouro, e Serra Leoa,

que ganhou a de prata, o último rela-

tório anual do banco mostra que na

década de 80 conseguimos melhorar

notavelmente o nosso desempenho

negativo. Por exemplo. O PIB cresceu

bem abaixo do aumento da população.

Resultado: o número de miseráveis

elevou-se em 50%.

Somos pobres, temos um PIB infe-

rior às exigências de um país moder-

no, como se diz — embora fiquemos aí

enchendo a boca ao declinar a nossa

condição de oitava economia do mun-

do. Este oitavo lugar é insuficiente,

mas há algo pior do que a própria po-

breza. É a maneira de administrá-la.

Segundo o relatório do Banco Mun-

dial, o Brasil não perderia nada se to-

masse aulas de distribuição de renda

da Indonésia, da Malásia, da Tailân-

dia.

Às vezes o presidente Fernando

Collor nos transmite a impressão de

que estamos com um pé no Primeiro

Mundo. Ele fala com paixão e olhos

rútilos. Parece, no entanto, que antes

de chegar lá temos de atingir o nível

do Paquistão, do Egito, de Banglade-

sh. Já se disse que o Brasil é uma Be-

líndia, um pouco de Bélgica e muito

de índia. Lembram-se? Não é não. O

Brasil é o Brasil, mais único que raro,

um campeão às avessas. Não vamos

ofender a índia e muito menos a Bél-

gica.

O relatório do Banco Mundial

aponta as razões do fracasso dos pla-

nos de reajuste da economia ensaiados

nos governos Figueiredo e Samey.

Não houve combate efetivo ao déficit

público, diz o documento, e a pobreza

se alastrou por obra dos baixos salá-

rios. Todo o sistema é marcado pela

injustiça, visa a acentuar o privilégio.

Nos gastos sociais, na política educa-

cional, na política de subsídios. O

economista-chefe do Departamento do

Brasil do Banco Mundial, Michael

Michaely, fulmina: "As políticas de

desenvolvimento no Brasil têm sido

erradas, não existe meio-termo em re-

lação a isso. Todas levam ao cresci-

mento da pobreza, seja por omissão

ou comprometimento".

Bronze da pobreza

O Brasil ocupa o terceiro .íüíSIV,

lugar entre os pafses

com pior distribuição

de renda

Panamá _ 57%

Colômbia 57%

Coata do Marfim..... 55%

NapaL—, Z ! ...._ — 53%

Turquia 51%

México 50%

O número em porcentagem 4 o resultado de

uma equação matemática, chamada de coefi-

ciente de Gira. que estabelece uma reiacào entre

a renda produzida no pais. sua destinaçáo por

segmentos da economia e a oligopolizacao in-

dustrial. Quanto maior o indica, ptor é a distribut-

c*o da renda.

O gringo disse o que nós sabemos e

fingimos ignorar. Nós, que de uma

forma ou de outra, quem mais, quem

menos, trafegamos pela área do privi-

légio. Em nome da democracia em ris-

co, do capitalismo ameaçado, comete-

ram-se as piores prepotências. Objeti-

vo real: prosseguir ao largo da demo-

cracia e do capitalismo. Nada melhor

que uma Idade Média para deixar de

dividir o bolo com alguma eqüidade.

Gazeta Mercantil - 10.9.90

Pode-se dizer com alguma inteligên-

cia, ao considerar os resultados apon-

tados pelo Banco Mundial. Mas quem

está por cima em nada pensa, além das

vantagens imediatas. Ele cuida de es-

quecer a paisagem que o rodeia, olha-

se no espelho e se satisfaz com o que

vé. Em todo caso, os números do re-

latório são a melhor pista para enten-

der por que o Brasil se ilude quando

pretende ser democrata e capitalista.

Agora o governo empenha-se em

uma luta de morte contra a inflação.

Mesmo entendendo que a inflação é

efeito e não causa, admitamos que o

alvo seja correto. A operação vem ca-

racterizada, no entanto, pelo costu-

meiro autoritarismo do Executivo, va-

lidado como sempre pela tíbieza dos

outros poderes. E a intransigência go-

vemista atinge, como sempre, quem

pode menos. Penaliza-se o assalariado

enquanto os preços continuam subin-

do. De quando em quando, haverá

quem acredite que a inflação acabou

ao ouvir sorridentes locutores, ao ler

sorridentes manchetes, que falam de

10% ao mês como se a batalha esti-

vesse ganha. Só falta enfiar a mão no

bolso para apurar a quantas andam a

situação particular e a geral. Em com-

pensação, nos pedem que caminhemos

para as umas iminentes com a espe-

rança no coração.

Bolso vazio, coração também. O

desânimo e a descrença dos eleitores

cercam o debate dos candidatos. Mas

não se tome isso como falta de matu-

ridade para viver uma democracia au-

têntica. Talvez o País esteja amadure-

cendo para a compreensão de que não

basta convocar eleições para realizai

plenamente um regime democrático.

Esses pleitos até hoje aproveitaram é

aos eleitos, para perpetuar um regime

de desigualdade que é o exato oposto

da democracia da sua retórica.

Piora sem precedentes

na qualidade de vida,

prevê estudo io IPEÁ

Vera Saavedra Durão

Mantidas as projeções da Confedera-

ção Nacional da Indústria (CNI) de uma

retração de 10% na atividade industrial até

dezembro, a produção de bens e serviços

do País poderá registrar a maior queda de

sua história, de menos 5,5%.

A conseqüência desse desempenho da

economia será uma piora sem preceden-

tes na qualidade de vida dos brasileiros,

cuja renda per capita, levando-se em conta

uma taxa de expansão demográfica média

nos últimos cinco anos de 2,07% ao ano,

segundo o Instituto Brasileiro de Estatística

(IBGE), cairia ao nível recorde de menos

7,5%.

Na avaliação de José Cláudio Ferreira

da Silva, coordenador do grupo de anáSse

conjuntural do IPEA-RJ, esses Indicadores

contribuirão para ir-se criando no Brasil

"um estoque cada vez maior de miséria", m


O economista, porém, mesmo reco-

nhecendo ser muito grande o custo social

da estratégia recessiva do govemo, não

tem dúvidas de que "este é o custo a se

pagar para a queda da inflação brasileira,

não tem outra salda".

Ferreira da Silva acredita que boa parte

dessa recessão já aconteceu, tendo-se

concentrado nos meses de março, abril e

maio e que, nos últimos dois meses, a

economia vem dando sinais positivos de

reação. Mas sua expectativa é de que, no

último quadrimestre, ocorra uma nova on-

da contracionista.

Na análise do coordenador do GAC do

IPEA-RJ, a queda do PIB per capita neste

ano será amortecida pelas oportunidades

de emprego no período eleitoral. "A crise

social estoura no ano que vem. A partir de

janeiro a taxa de desemprego vai mostrar

seu verdadeiro tamanho", considera Fer-

reira da Silva. Para evitar que os que per-

derão seus empregos se transformem nos

grandes pagadores da conta da polllica de

combate à inflação, o economista defende

a adoção de polílicas compensatórias de

emprego pelo govemo a partir do próximo

ano.

Na década de 80, as condições de vida

e trabalho dos brasileiros, segundo o prin-

cipal indicador da economia, só fizeram

piorar. A média/ano de crescimento do

PIB, caso se concretize a queda de menos

5,5% em 1990 será de 1,9%. Este número

situa-se abaixo da taxa média de expan-

são demográfica do País, de 2,1% no pe-

ríodo de 10 anos, ou seja, a economia

cresceu menos que a população.

Na avaliação do ex-ministro Mário Hen-

rique Simonsen, o Brasil terá que expandir

seu produto real em 6% ao ano para sa-

tisfazer as necessidades de emprego de

bens e de serviços de seu povo.

Os dados da última pesquisa nacional

por amostra de domicilio (PNAD) do IBGE

retratam a dura realidade nacional contida

nos indicadores oficiais: 58% da população

ocupada recebe entre meio e dois salários

mínimos, enquanto apenas 7% ganha aci-

ma de 10 mínimos. De um total de 35,4

milhões de famílias existentes 5,1% vive

com rendimento de até um salário mínimo

(hoje de Cr$ 6 mil), enquanto a maior parte

contingente, ou seja, 10,9% vive com ren-

da entre 2 e 5 mínimos. Somente 1,9%

dessas famílias contam com renda supe-

rior a 20 mínimos (Cr$ 120 mil), e 20% da

população ainda é analfabeta.

COMENTÁRIOS SOBRE A CHAMADA POLÍTICA INDUSTRIAL

O governo anunciou, dia 26 de junho de 1990, o que

chamou de "diretrizes gerais para a política industriai e

de comércio exterior'. Tais diretrizes consubstanciam-se

num conjunto de declarações de intenções e de medidas

que entram imediatamente em vigor, como a redução de

algumas alíquotas de importação e a simplificação dos

mecanismos de importação e de exportação.

Como muitos pontos das "diretrizes" se remetem a

medidas que seriam tomadas, a projetos de lei a serem

encaminhados no futuro, a efetivação da assim chamada

"política industrial e de comércio exterior" vai depender

dessas medidas. Nessas condições, teremos alguns co-

mentários sobre o conjunto de diretrizes, mas sempre

lembrando que uma percela primordial de medidas ainda

são declarações de intenções.

Os comentários serão norteados pela idéia que uma

política industrial deveria, por um lado, nortear a estraté-

gia de desenvolvimento e investimento na indústria, si-

nalizando padrão de estrutura industrial, setores, subse-

tores e segmentos considerados estratégicos, formas de

desenvolvimento tecnológico e industrial, entre outros.

Por outro lado, deveria estar integrada com um rol mais

amplo de políticas públicas, dado que o fim último de

uma política industrial - e, como de resto, de toda políti-

ca pública - deveria ser a melhoria da qualidade de vida

da população. Isto, no Brasil significa, entre outros, a re-

tomada do desenvolvimento econômico associada a uma

distribuição de renda mais equámme.

PORQUE INTERESSA AO MOVIMENTO SINDICAL

DISCUTIR POLÍTICA INDUSTRIAL

As diretrizes de política industrial do atual govemo fo-

ram oficialmente anunciadas quase que concomitante-

mente com o anúncio da sua política salarial. Devido à

repercussão imediata e às próprias peculiaridades dessa

política salarial, ela tende a ganhar o primeiro plano da

discussão sindical. Porém, é preciso lembrar que uma

E DE COMÉRCIO EXTERIOR

política industrial apresenta efeitos a médio e longo pra-

zos, sendo esses efeitos geralmente mais profundos e

duradouros que os efeitos de uma determinada política

salarial. Mais que isso, a questão da política industrial

está (ou deveria estar) intimamente associada à discus-

são de um novo padrão de desenvolvimento industrial,

com repercussões sobre a composição da força de tra-

balho, intra e extra indústria, sobre o nível de emprego

industriai, sobre o tipo de indústria e de produtos que se

quer para o país.

Portanto, apesar de os efeitos das políticas industriais

não serem sentidos de imediato, eles são tão ou mais

importantes para o sindicalismo em particular, e para a

sociedade em geral, que as políticas salariais. Ademais,

como disse Bruno Latour, parafraseando Clausewitz," a

ciência é o prolongamento da política com outros meios.

Os industriais e os tecnocratas sabem disso. Só os sindi-

catos ainda tem dificuldade de entendê-lo".

SENTIDO GERAL DAS "DIRETRIZES DE POLÍTICA

INDUSTRIAL E DE COMÉRCIO EXTERIOR"

ANUNCIADAS PELO GOVERNO

O govemo se manifestou, em diversas ocasiões, favo-

rável à chamada "integração competitiva". Isto quer dizer

que é feito um diagnóstico que considera encerrada a fa-

se de "substituição de importações" que marcou as polí-

ticas de desenvolvimento dos últimos decênios e que,

bem ou mal, acabou gerando um parque industrial diver-

sificado. A fase necessária, no entender do governo, se-

ria então a de integrar essa indústria na competição in-

ternacional, ou seja, atingir patamares de qualidade, pro-

dutividade (e preço) das empresas líderes no mercado

mundial.

O sentido apontado para essa "integração competiti-

va" é a redução dos níveis de proteção à industria radi-


cada no Brasil, através da redução progressiva das alí-

quotas de importação de bens, do fim à limitação quanti-

tativa das importações ("quotas"), da intenção de substi-

tuir a lei de informática em vigor, de reconhecer as pa-

tentes da industria farmacêutica, reduzir os níveis de na-

cionalização exigidos dos bens de capital aqui produzi-

dos (até um máximo de 70%), entre outros.

AS ETAPAS DA INDUSTRIALIZAÇÃO:

DA SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES A

"INTEGRAÇÃO COMPETITIVA"?

A idéia defendida pelo governo Collor de que a indus-

tria brasileira haveria já esgotado a etapa de crescimento

impulsionado pela "substituição de importações" e de

que o próximo estágio pressupõe um maior grau de aber-

tura da economia brasileira à concorrência intemacional

não é nova e vem sendo já há algum tempo colocada por

diferentes entidades e analistas de política industrial, li-

gados a diferentes matizes do pensamento político e

econômico brasileiro. O debate maior parece residir nas

ações que devem acompanhar estas medidas, como par-

te de uma política industrial e de desenvolvimento.

O diagnóstico da necessidade de uma revisão da polí-

tica de proteção à indústria advém da perda de sua fun-

cionalidade nos últimos anos, enquanto elemento promo-

tor de setores selecionados. Até recentemente, na práti-

ca, todos os setores estavam protegidos contra a compe-

tição externa, através de uma complexa rede de medidas

tarifárias, controles administrativos, incentivos e benefí-

cios creditício-fiscais, quotas de importação, regimes es-

peciais, decretos, portarias etc. Tal rede, ampliada a cada

nova etapa do processo de industrialização, apesar das

críticas que possam ser feitas, serviu, no entanto, à ins-

talação dos vários compartimentos de produção industrial

até o início dos anos 80.

Assim, vale lembrar que a industrialização brasileira,

desde os anos trinta até o final da década de setenta, ca-

racterizou-se por uma forte intervenção do Estado, seja

como produto, seja como formulador de políticas indus-

triais. E neste último campo de ação situam-se as medi-

das de estímulo à instalação de industrias no país e me-

didas de proteção que constituíram, implícita ou explici-

tamente, reservas de mercado à indústria incipiente.

Dessa forma, foi-se configurando ao longo do tempo o

desenho da atual estrutura produtiva do país. Em grande

linhas, pode-se dizer que a primeira etapa (1930/1950)

foi a de constituição da infraestrutura e da indústria de

insumos básicos, ambas promovidas diretamente pelo

Estado - sáo exemplos importantes a Companhia Side-

rúrgica Nacional, a Companhia Vale do Rio Doce, a Pe-

trobrás, a Companhia Nacional de Álcalis. Depois insta-

lou-se, numa segunda fase (décadas de 50 e 60), a in-

dustria de bens de consumo duráveis e, finalmente, nu-

ma terceira e mais recente etapa (meados da década de

70) a diversificação e expansão da industria de bens de

capital e complementação da indústria básica, como a

petroquímica.

Com esse desenho industrial já configurado, na déca-

da de 80, e face às discrepãncias entre custos e preços

entre os produtos brasileiros e os do mercado intemacio-

nal, e à necessidade de se ampliar os instrumentos para

a estabilização de preços (controle de inflação), tomou-se

cada vez mais evidente o esgotamento desta estratégia

de crescimento industrial, baseado no controle e restri-

ções à importação (entre outros).

Mas um outro elemento viria agregar-se às exigências

de mudança na década de 80: o próprio crescimento das

exportações vem obrigando a atualização do parque pro-

dutivo, que por sua vez levaria a um aumento das impor-

tações de bens de capital de maior conteúdo tecnológico.

Configurando o quadro das necessidades de mudan-

ça, caberia então perguntar a razão pela qual não houve,

até então, uma efetiva liberação de importações nos

anos 80, ainda que muitas intenções tenham sido anun-

ciadas. A resposta a essa questão repousa sobretudo

nas restrições impostas pela balança de pagamentos, ou

seja, pela necessidade de aumentar exportações e redu-

zir importações como forma de gerar superávits comer-

ciais imensos para a rolagem da dívida externa. A eco-

nomia brasileira passou então a viver uma espécie de

"protecionismo não planejado", em que a reserva de

mercado era utilizada não mais como instrumento de po-

lítica industrial, mas como uma conseqüência da política

econômica voltada para a geração de divisas.

Com isso, preservou-se na prática a baixa concorrên-

cia, seja a nível interno, seja em relação aos produtores

internacionais.

COMENTÁRIOS SOBRE AS MEDIDAS ANUNCIADAS

ATÉ 27/6/90

Do ponto de vista sindical, a discussão das medidas

anunciadas não é simples. Primeiro, porque boa parte

das diretrizes é ainda declaração de intenções. Segundo,

porque essas medidas foram lançadas de maneira "sol-

ta", isto é, sem estarem vinculadas a uma estratégia de

desenvolvimento mais ampla e explicitamente formulada

pelo Estado e discutida com os diferentes segmentos

sociais, entre eles o próprio movimento sindical - estra-

tégia esta que busque enfrentar os graves problemas

porque passa a maioria da população e que se refletem

em sua renda, emprego e condições de trabalho. Tercei-

ro, porque o movimento sindical nunca defendeu a carte-

lização, a cartorialização e um Estado privatizado, volta-

do para os interesses privados. Quarto, porque interessa

aos trabalhadores que o país atinja níveis mais elevados

de desenvolvimento tecnológico. E quinto, porque, embo-

ra esta noticiada liberação de importações possa trazer

consigo alguns elementos favoráveis aos assalariados

(como um eventual barateamento de produtos de con-

sumo popular), ela até o momento não é acompanhada

de uma política de emprego que promova a realocação e

o retreinamento da máo-de-obra que venha a ser dispen-

sada. E, mais grave ainda, tal estratégia é proposta em

pleno processo recessivo, onde se verifica um crescimen-

to acentuado do nível de desemprego.

Então, gostaríamos de comentar estes e outros aspectos


que emergem de uma leitura das medidas anunciadas e

da avaliação do contexto econômico em que estão sendo

lançadas.

1. Um dos pontos básicos que deveria constar de uma

política industrial é sinalizar o investimento, sinalizar

quais os setores estratégicos e quais as políticas especí-

ficas para eles. Fala-se dos setores "de ponta", com

complexo eletrônico, química fina etc. Mas qual a política

setorial? Como o Estado vai incentivar o desenvolvimen-

to dos setores prioritários? Quais são os setores prioritá-

rios?

Essas são questões não abordadas na divulgação das

das medidas. E talvez seja por isso que alguns comenta-

ristas falam que as medidas caracterizam antes uma po-

lítica de comércio exterior que uma política industrial.

2. É preciso salientar que o "livre comércio" não existe

em nenhum país do mundo; todos, de uma forma ou de

outra, praticam formas de proteção à sua economia, par-

ticularmente à indústria. Se tomarmos como exemplo al-

guns países "modernos", veremos cotas restritivas à im-

portação de veículos japoneses em quase todos os paí-

ses da Europa Ocidental, proteção à agricultura Japone-

sa, sobretaxa em muitos produtos importados pelos Es-

tados Unidos. Isto sem contar as políticas históricas de

proteção desenvolvidas por países europeus, pelos Esta-

dos Unidos, pelo Japão, entre outros, que levou a um de-

terminado grau de desenvolvimento tecnológico e de

segmentos/setores da indústria.

3. Uma eventual necessidade de abertura da econo-

mia brasileira à concorrência internacional não leva à

concordância com o discurso dito "neo liberal" de abertu-

ra total de mercados, o que exclui critérios de seterivida

de (ou seja, a eleição de setores prioritários para serem

estimulados e protegidos por parte de uma política indus-

trial). Um exemplo de política "neo liberal" foi praticada

por Martinez de Hoz na Argentina, durante o governo mi-

litar de Jorge Videla, e que apresentou sérias conse-

qüências de desmobilização, "quebra" de indústrias e for-

te crescimento do desemprego. Uma década depois, a

Argentina sente os reflexos de tais diretrizes.

4. As diretrizes anunciadas levam à direção de uma

abertura generalizada do país às importações de produ-

tos, sejam bens primários, intermediários, ou finais. Com

periodicidade a definir, delineia-se um processo generali-

zado de redução de alíquotas de importação (o "ad valo-

rem"). Tal fato tende a gerar um aumento da competição

no mercado brasileiro, que teria um nível de preços mais

internacionalizado. Isto pode levar algumas empresas ra-

dicadas no Brasil a terem problemas de sustentação de

sua atividade, com a conseqüente redução/dispensa de

pessoal.

É aqui que se percebe uma grande lacuna da política

apresentada: nada se fala sobre políticas compensatórias

para os trabalhadores atingidos, tais como políticas de

emprego, de renda, de reciclagem profissional. Isto é in-

consistente com o objetivo alegado de "melhorar as con-

dições de vida da população brasileira".

5. Outra questão candente é a questão mais geral do

Economia

crescimento econômico. Uma coisa é praticar uma políti-

ca liberalizante num cenário de crescimento econômico,

quando as empresas atingidas pela concorrência interna-

cional podem ter assegurado uma parcela do mercado

durante a fase de transição, outra coisa é liberalizar im-

portações num cenário de recessão.

6. Alega-se que um dos objetivos das diretrizes anun-

ciadas é "o aumento da eficiência da indústria, via sua

modernização e reestruturação", visando a ter,"(...) nos

próximos anos, um constante aumento da produtividade

e, portanto, do salário real". Porém, devemos salientar

que ninguém garante, a priori, que os aumentos de pro-

dutividade na indústria sejam incorporados aos salários

ou aos preços, através de sua redução; a história recente

do desenvolvimento brasileiro é a prova mais cabal de tal

fato: entre 1981 e 1984 houve um aumento de 19,7% na

produtividade da indústria, enquanto o número de traba-

lhadores era reduzido em 15,8% e os salários arrocha-

dos . Tais fatos reforçam o exposto no item anterior, da

necessidade de políticas complementares, entre elas a

de rendas.

7. A liberação generalizada das importações pode tra-

zer problemas de reservas cambiais. A questão que se

coloca é como aumentar importações sem mexer na

questão da dívida externa? Geralmente são praticadas

políticas de liberação de importações quando se tem di-

visas. Lembremo-nos do "plano cruzado" quando, com a

elevação das importações e queda das exportações,

houve uma queda do superávit comercial de aproxima-

damente 50% de 1986 em relação a 1985, e pressões

posteriores para uma política de controle de importações

e de demanda intema.

8. É preciso lembrar que "abrir" o país às importações

não significa necessariamente uma "integração competi-

tiva" da indústria radicada no Brasil ao cenário interna-

cional. Nada garante, em princípio, que a indústria brasi-

leira vá se atualizar (nem a que custo) em termos de

processo de trabalho e inovações tecnológicas: pode ser

que parcelas do mercado sejam dominadas por produtos

importados.

Para que tal não aconteça - ou que não aconteça in-

discriminadamente -, é preciso conhecer, na prática,

quais os instrumentos de apoio ao desenvolvimento tec-

nológico, à política cambial, às práticas comerciais, à le-

gislação anti-truste e contra práticas desleais de comér-

cio, o sistema de normatização e verificação da qualida-

de dos produtos etc.

9. Um aspecto dos mais relevantes para o aumento da

competitividade da indústria e para o investimento em

geral, diz respeito às formas de financiamento desse in-

vestimento. Oual o papel do Estado, do sistema financei-

ro privado e do sistema financeiro internacional como fi-

nanciadores? Enfim, qual o modelo de financiamento?

As diretrizes anunciadas não especificam tal modelo.

10. Supondo que a indústria aqui radicada reaja inves-

tindo em atualização tecnológica, é de se esperar uma

maior difusão de inovações tecnológicas, particularmente

relativas à automação e informática, bem como reorgani-


zação do processo de trabalho. Esta é a forma de au-

mentar a produtividade do parque industrial. Mas se o

objetivo da política é não excluir os trabalhadores, deve-

ria haver uma política de acesso sindical antecipado às

informações de mudança nos processos de trabalho, de

localização industrial, de investimento de uma forma ge-

ral, como forma de propiciar uma transformação nego-

ciada dos processos de trabalho, que se constitui, isto

sim, num componente de "modernidade" nas relações

capital - trabalho. Nunca é demais repetir que o movi-

mento sindical brasileiro não se coloca contra as inova-

ções tecnológicas, mas quer discuti-las e negociá-las an-

tes de sua introdução, como forma de garantir melhores

condições de trabalho, de qualificação, de prerrogativas

profissionais, de intensidade de trabalho e, porque não

dizer, de garantir o adequado funcionamento de proces-

sos delicados, vulneráveis e de alto custo. Ante ao "en-

volvimento" dos trabalhadores pregado unilateralmente

por muitas empresas, os sindicatos propõem a negocia-

ção bilateral.

11. E, em termos de negociação, tanto no tocante à

organização do trabalho, à mudança tecnológica e a

condições gerais de trabalho (jornada, salário, saúde etc),

os sindicatos vêm propugnando pela adoção do contrato

coletivo de trabalho.

12. As diretrizes anunciadas propõem uma temporali-

dade para a redução de alíquotas de importação. Suben-

tende-se que um setor com alíquotas mínimas está, em

tese, "maduro" para a competição internacional. Por ou-

tro lado, um setor com alíquotas maiores estaria tendo

proteção maior, o que, em última instância, significa que

toda a sociedade participa do "incentivo" ao setor.

A questão que se coloca é a seguinte: se o esforço é

de toda a sociedade, se se pretende um país mais "mo-

derno", as empresas deveriam fornecer informações so-

Folha de São Paulo - 27.8.90

Luta de classes foi superada nos

países modernos, diz Weffort

Mouro Lopes

O sociólogo Francisco Weffort, ex-

secretário-gercd do PT, em entrevista

à Folha de São Paulo, fala que a teo-

ria marxista vive uma crise profunda

e não conseguiu dar conta da transi-

ção do capitalismo para o socialismo;

questiona o conceito de luta de clas-

ses, afirmando-o superado nos países

modernos e a caminho da superação

no Brasil; fala em países inviáveis na

América Latina, mostra simpatia pela

proposta do presidente George Bush

de integração das Américas e propõe

uma revisão no conceito de imperia-

lismo. Um dos ideólogos do PT,

Weffort passará um ano do Instituto

Kellog de Notre Dome, em Indiana,

perto de Chicago, em um programa

do Banco Interamericano de Desen-

volvimento com a USP, escrevendo

um livro sobre democracia e crise na

América Latina. A seguir, os melho-

res trechos da entrevista:

bre seus planos de investimento, desempenho, recursos

humanos etc, para que a sociedade possa elaborar seus

próprios julgamentos. Um exemplo poderia ser uma mu-

dança na lei das sociedades anônimas, na obrigação le-

gal do fanecimento de informações mais completas,

sejam as empresas sociedades anônimas ou não,

13. Cabe também levantar a questão do setor de in-

formática. A atual política de informática, consubstancia-

da na chamada "lei da informática" e instrumentos afins,

foi, bem ou mal, discutida por setores amplos da socie-

dade civil. É só lembrarmos do "movimento Brasil Infor-

mática", das resoluções de inúmeros congressos sindi-

cais e das próprias atividades do DIEESE. As diretrizes

anunciadas propõem uma mudança não muito especifi-

cada nessa política. Sem entrar no mérito da política em

vigor, cabe ressaltar que o procedimento saudável seria

reativar a discussão do setor, que tem importância ímpar

e crescente nas economias do primeiro mundo e, por

conseguinte, naquelas que se pretendam "em desenvol-

vimento".

14. É possível, contudo, que uma parte das questões

acima, seja discutida nos chamados GEPS (grupos exe-

cutivos de política setorial), ao que se sabe compostos

por representantes empresariais e govemamentais. O

governo espera ter, 60 dias após a publicação das "dire-

trizes" (ou seja, para fins de agosto), projetos de instru-

mentos legais para substituírem o decreto-lei de política

industrial hoje em vigor, a lei de informática, a lei de

software e o código de propriedade industrial.

Estão em jogo questões importantes, que podem afe-

tar a vida de todos os cidadãos e as gerações futuras.

Em virtude disso, essas questões devem ser amplamen-

te discutidas, cabendo à sociedade reivindicar que o de-

bate seja público, respaldado em informações objetivas.

Política Nacional

Folha - Qual é a profundidade

da crise do marxismo?

Francisco Weffort - Depois dos

acontecimentos de 1989 com a queda

dos regimes do socialismo burocráti-

co, o marxismo enfrenta um desafio

que não se esperava. Como teoria en-

frenta o desafio de explicar, de cons-

truir uma nova teoria da transição para

o socialismo. O marxismo unha duas

grandes imagens da transição para o

socialismo: a transição nos países do

capitalismo moderno, que é uma linha

forte no pensamento de Marx; e uma

idéia da transição para o socialismo

nos países atrasados. Não saiu a re-

volução nos países modernos e, nos

países atrasados, deu no que deu.. O,


marxismo está cem um grande pro-

blema como teoria, não como ideolo-

gia. Como ideologia tanto o socialis-

mo como o liberalismo são ideologias

do mundo moderno.

Folha - A partir dessa afirmação

pode-se depreender que o marxismo

está esgotado como teoria para uma

ação política na sociedade capitalis-

ta?

Francisco Weffort - Não, acho

que não. Mas o pensamento marxista

não pode considerar como adquirida

uma teoria da transição do capitalismo

paia o socialismo. Isso quer dizer uma

coisa muito grave, porque a grande

pretensão da teoria marxista é explicar

a historicidade do capitalismo. Por-

tanto, apontar o fim do capitalismo.

Como os fms previstos pelo marxismo

estão falhando, a teoria tem um imen-

so ponto de interrogação para resol-

ver. O marxismo funciona como uma

teoria muito forte ao aplicar os pres-

supostos históricos do sistema capita-

lista.

Folha - Se o marxismo não deu

conta do capitalismo desenvolvido,

o passo seguinte se dará ainda den-

tro do marxismo ou está se erigindo

um novo corpo teórico?

Weffort - Eu francamente não

acredito em superação. A diferença é

que a idéia do marxismo como um

sistema teórico integral não se sus-

tenta mais. O marxismo como uma

teoria global da sociedade capitalista

moderna está com um grande proble-

ma. Mas como a teoria tem um pé

muito forte na história, acho que o

marxismo deve se tomar cada vez

mais plural. Em vez da concepção da

sociedade capitalista como um siste-

ma, teremos uma variedade de teorias

de inspiração marxista.

Folha - À crise da teoria marxis-

ta se une uma crise do conceito de

luta de classes?

Weffort - Há uma crise na noção

de luta de classes para os países mo-

dernos. Para os países mais atrasados

esta noção continua atual. A América

Latina dos últimos 30 anos apresenta

um cenário de luta de classes feroz.

Agora, se tomarmos o cenário da

Alemanha Ocidental ou Suécia, falar

em luta de classes é um exagero. Não

é que não haja luta de classes, só que

ela aparece de um modo muito locali-

zado.

Folha - E o caso do Brasil? Acho

que há um corte entre a situação

brasileira e a da esmagadora maio-

ria dos países da América Latina...

Weffort - O Brasil está três passos

adiante de outros países da América

Latina na sua consolidação como país

industrial moderno.

Folha - Ou seja, se for bem su-

cedida a estratégia do governo

CoUor de ombrear o Brasil aos paí-

ses capitalistas modernos, estará em

xeque o conceito de luta de classes

também aqui.

Weffort - O próprio Collor é uma

expressão forte da luta de classes no

Brasil. O grande problema dele e das

lideranças políticas do país é que es-

tamos à margem da modernidade. To-

mando o problema do lado dele, se o

Collor conseguir dar passos sérios pa-

ra reintegrar o Brasil às linhas mais

dinâmicas do sistema econômico in-

ternacional isso significará uma acele-

ração da modernização da sociedade

brasileira e, provavelmente, nós tere-

mos um quadro parecido ao da Europa

ou dos EUA. O problema é quem vai

segurar o gato para amarrar o guiso.

Eu diria que nós não podemos nos

considerar um país onde já não tem

vigência a noção de luta de classes no

sentido tradicional da expressão.

Folha - O sr. considera que a

derrocada do socialismo real no

Leste e a africanização do regime

cubano colocam um ponto final na

utopia socialista?

Weffort - Não. São coisas distin-

tas. A utopia socialista, como a libe-

ral, se fixam em valores pontuais. So-

nhar com a sociedade socialista é so-

nhar com uma sociedade de igualdade

social, liberdade política. Mas é pró-

prio da utopia não construir uma teo-

ria sistemática do futuro.

Folha - No programa "Opinião"

da TV Gazeta, o sr. fala que o ideal

socialista hoje se funda em princí-

pios e valores de igualdade e solida-

riedade social, direitos humanos e

liberdade política. Mas esses ideais

são comuns ao que se poderia quali-

ficar de pensamento liberal-demo-

crático ou, no caso brasileiro, ao

pensamento do PMDB...

Weffort - Mas o casamento entre

liberalismo e democracia sempre foi

Politica Nacional

muito conflitivo. Agora mesmo esta-

mos vendo a ressurreição surpreen-

dente de um pensamento liberal que

valoriza o individualismo. Isso se

distancia dos valores democráticos um

pouco mais tradicionais de igualdade.

Acho que essa crise do socialismo real

não mata o socialismo como utopia.

Folha - Essa utopia socialista,

impregnada de ética, rompe com a

idéia do socialismo umbilicalmente

ligado a uma concepção de econo-

mia e política para o Estado e a so-

ciedade?

Weffort - O marxismo foi, por um

largo período, a pretensão de se pas-

sar da concepção do socialismo utópi-

co para a do científico. O problema

não está naquilo que há de utopia, o

problema está na tentativa de casar

uma idealização do futuro com uma

concepção científica. Eu dizer que

continuo socialista é diferente de dizer

que, necessariamente, pelo processo

histórico, chegaremos ao socialismo.

Folha - Mas essa sua concepção

de utopia socialista se desliga da te-

se da socialização dos meios de pro-

dução.

Weffort - Você fica com critérios

diversos para tratar do assunto. Há

uma noção que iguala a socialização

dos meios de produção à estatização.

Esta idéia está em crise. Mas há o so-

cialismo de autogestão, ou o socialis-

mo de tipo democrático, que acabou

dando na social-democracia, que sem-

pre admitiu a idéia de conviver com o

mercado.

Folha - Está arquivado, então,

qualquer tipo de compromisso fatal

com a morte do empresariado ou da

burguesia.

Weffort - Uma sociedade socia-

lista, no meu entendimento, tem em-

presariado, tem burguesia. A diferen-

ça central em relação a uma sociedade

capitalista é que aquelas alianças nas

quais os trabalhadores joguem o papel

principal exercem função hegemônica

na sociedade.

Folha - Voltando à sua partici-

pação no programa "Opinião" e

entrando na discussão do Brasil.

Lá, o sr. disse que a questão crucial

para o Brasil é a capacidade de

atrair capital, para que o país se in-

tegre à economia internacional e se


Quinzena

modernize. Mas nào é isso o que es-

tá fazendo o governo Coilor?

Weffort - Eles estão tentando o

único caminho que é possível nas cir-

cunstâncias atuais, isto é, se o Lula

vier a ganhar uma próxima eleição à

Presidência, ele vai ter que fazer uma

política que será diferente da do Coi-

lor, mas que também buscará a inte-

gração de alguns países da America

latina e canais paia o ingresso de ca-

pitais estrangeiros.

Folha - O PT deve apoiar o go-

verno Coilor quando de busca capi-

tais e integração?

Weffort - Eu não creio que o pro-

blema seja apoiar ou não apoiar. O

que o PT tem que reconhecer e, aliás,

reconhece, é que estão na ordem do

dia a integração do Brasil e da Améri-

ca Latina no sistema econômico inter-

nacional.

Folha - Ou seja, o PT não apoia,

mas não hostiliza.

Weffort - No mínimo não hostiliza

o esforço que o governo faz de definir

uma política por aí. O importante não

ó todos os partidos terem a mesma

política em relação a este ponto, mas

reconhecerem que ele é crucial.

Folha - Qual a sua avaliação des-

se início de governo Coilor?

Weffort - Eu fiquei muito impres-

sionado no início do governo pela ca-

pacidade de iniciativa do Coilor, em-

bora divergindo da política dele.

Folha - O Sr. acha que o gover-

no Coilor tem um projeto para o

Estado brasileiro?

Weffort - No início pensei que

sim, que ele tinha uma concepção

global do país. Agora, com o número

de erros cometidos, as indecisões, a

incapacidade de relacionamento com o

Congresso, tudo me leva a crer que

não há um projeto.

Folha - E o Plano CoUor?

Weffort - Um empresário pubücou

um artigo dizendo que o plano não

pode dar totalmente certo porque nes-

se caso o Coilor se transforma num

ditador. Nem totalmente errado, por-

que senão é o caos. Isto resume o que

ca penso. A minha expectativa é que

dê meio certo, porque aí o Coilor so-

brevive, o país também e nós conti-

nuamos na oposição.

Folha - Esta semana a revista

"Lua Nova" publica um artigo seu,

'América errada". Nde, o sar.

afirma que há países inviáveis na

América Latina. Como é isso?

Weffort - A inviabilidade não é

das nacionalidades, é do Estado-nação

de certos países. Por exemplo, a Bolí-

via, onde a metade da renda nacional

tem origem na venda da folha de coca.

Ou o Panamá, onde as tropas ameri-

canas entram, prendem o general mais

importante do país e nada acontece.

Há problemas de viabilidade na Amé-

rica Latina. Os argentinos têm uma

consciência aguda disso, que não te-

mos porque o Brasil não sofre este

problema de inviabilidade. Porque

é importante este tema da inviabilida-

de? O Brasil é isolacionista e precisa-

ria ter uma política de liderança na

América Latina. Se o Brasil não tiver

uma política de liderança, mais 20

anos e boa parte dos países latino-

americanos estará na situação de hu-

milhação do Panamá. A região ficará

definitivamente para trás.

Folha -O sr. considera que a

América Latina deve se engajar na

proposta de integração do presiden-

te George Bush?

Weffort - A América Latina deve

discutir essa proposta. Agora, o di-

Folha de São Paulo - 9.9.90

nheiro que o Bush põe na mesa é ridí-

culo, esses US$ 100 milhões corres-

pondem mais ou menos ao orçamento

da USP. Mas a América Latina deve

discutir a sério e cobrar.

Folha -Tudo bem, deve cobrar.

Mas deve topar? No caso da inte-

gração latino-americana é natural a

liderança brasileira. No caso da In-

tegração americana a liderança será

naturalmente dos Estados Unidos.

Weffort - O que eu imagino é que

devesse haver uma disputa democráti-

ca pela liderança da integração. Se o

Brasil enfrentar este tema, vai ganhar

espaço. Quando os americanos chega-

rem, já teremos acumulado algo.

Folha - Esta questão não o leva a

repensar o conceito de imperialis-

mo?

Weffort - Eu acho que esse con-

ceito tem que ser reexaminado. O

conceito de imperialismo, tal como o

manejamos nos anos 60, era o de que

o imperialismo promove o desenvol-

vimento do subdesenvolvimento. Ora,

no momento atual, um dos problemas

do subdesenvolvimento da América

Latina é precisamente o de que os ca-

pitais dos países modernos não se in-

teressam pela região. Esse tema tem

que ser reexaminado também.

A luta de classes, hoje

Renato Janine Ribeiro

A crise do marxismo, que tem sido

discutida neste jornal, se refere sobre-

tudo à idéia de conflito. Durante muito

tempo as teorias sobre a sociedade

se dividiram em dois tipos.conforme a ^

considerassem um conjunto harmôni-

co ou a entendessem como cindida

por conflitos da maior força.

A primeira concepção, a da socie-

dade harmônica, teve no tomismo sua

mais conhecida expressão. É bem di-

fundida, e até constitui a visão mais

comum do político (quando se diz que

um bom governo resolveria nossos

problemas, bastando o governante ser

honesto e esforçado). Tem uma di-

mensão religiosa (por exemplo, no

adesivo "Feliz a nação cujo Deus é o

Senhor")- E surge no pensamento tan-

to de direita quanto (às vezes) de es-

querda, especialmente quando usam

para a sociedade política imagens

como a do "corpo", ou de seus ór-

gãos, que conotam esse ideal de or-

ganização harmônica das diversas

partes, com o povo colaborando com

o governo, ou os patrões e emprega-

dos entre si.

Contra essa representação, nin-

guém foi tão longe quanto Marx ao

pensar os conflitos políticos segundo

a matriz da luta de classes, rasgando

a sociedade em campos irremedia-

velmente antagônicos, o do explora-

dor e do explorado. Assim ele pôde

denunciar o que havia de enganador,

de ideológico, na concepção da so-

ciedade harmônica (que sempre re-

primiu, às vezes com muita crueldade,

quem de algum modo "desafinasse"

da harmonia). Pôde também constituir

uma teoria ainda hoje válida para

pensar o papel da economia na so-

ciedade capitalista. ^


Quinzena

O problema, porém, é que já náo

parece que os conflitos, mesmo de

dasse, rasguem as sociedades se-

gundo o modelo da guerra, que foi

usado por Marx - e, noutro contexto,

ainda recentemente, por Michel Fo-

cault. Uma guerra se define porque

nela não existe entre os inimigos essa

comunidade mínima de interesses

que permite entender as divergências

existentes como secundárias e passí-

veis de solução pacífica. E era assim

a luta de classes na Europa até pelo

menos o começo de nosso século -

assim como, é preciso dizê-lo, ainda é

o caso no Brasil. Não há outra expli-

cação para a extrema dificuldade com

que se tenta, de tempos em tempos,

repetir os acordos de Moncloa, aquele

pacto social que permitiu à Espanha

livrar-se do franquismo.

Mas nos países capitalistas avan-

çados, constata-se hoje entre patrões

e empregados um certo número de

temas de convergência. Uma frase

como a de Marx aos operários, "nada

tendes a perder senão os vossos gri-

lhões", lá soa falsa. Eles passaram,

sim, a ter o que perder em caso de

convulsão social (por sinal, uma metá-

fora orgânica); e não apenas suas ca-

sas e dinheiro, ou o lazer controlado

pela televisão e outros aparelhos

ideológicos - mas a própria existência

de uma sociedade na qual as regras

vigentes lhes garantem certos ga-

nhos.

É esse um dos fatores que tomam

o modelo da luta de classes inade-

quado para pensar uma sociedade

como a do capitalismo avançado. Ela

conseguiu resolver, mais ou menos,

tanto o problema da miséria quanto,

mais recentemente, o dos conflitos de

valores: 1968, que foi uma rebelião da

juventude contra uma sociedade fe-

chada, que reprimia o sexo e a vida,

acabou se revelando um grande desa-

fio, que a forçou a mudar e absorver

muito do que a contestava. Penso

que é em função disto que Francisco

Weffort aponta as falhas do marxismo

para pensar o mundo de hoje: o Atlân-

tico Norte soube definir um tipo de

sociedade na qual o conflito é aceito,

até mesmo como condição normal do

modo de viver-se junto, mas sem que

necessariamente se tome antagônico.

Ora, isso coloca dois problemas sé-

rios para nós. Em primeiro lugar, o

marxismo ficou presa de seu modelo

de conflito racional - a tal ponto que

para ele ou o conflito cinde irremedia-

velmente a sociedade, como no caso

do capitalismo, ou só resta à socieda-

de o caminho de não ter mais confli-

tos e paradoxalmente tornar-se har-

mônica, como seria idealmente o so-

cialismo (que, assim, se tomou inca-

paz, lá onde teve esse nome, de lidar

com qualquer conflito que surgisse!).

O paradoxo não é pequeno, porque

faz os marxistas se tomarem meio

tomistas, e talvez seja por isso que

alguns católicos aderiram ao socia-

lismo marxista, nele encontrando a

harmonia que desejariam para o so-

cial (como por exemplo no fim do

"País do Carnaval", romance precur-

sor de Jorge Amado). São deficiên-

cias da teoria

O segundo problema se coloca pa-

ra nossos países, em que a luta de

classes conserva todo o vigor e conti-

nua sendo eixo das lutas sociais e

políticas. Basta ver que para a maioria

dos trabalhadores os próprios valores

democráticos pouco significam em

termos de qualidade de vida ou se-

quer de sobrevivência; que diremos

então dos valores do mercado? Que

convicção tem um trabalhador arro-

Folha de $âo Paulo - 4.9.90

i&x&Xvi^Wrv

iiiiiií

Politica Nacional

chado em seu salário de que as re-

gras do jogo econômico permitem a

todos os lados alguns ganhos?

A teoria da guerra de classes con-

tinua valendo para explicar nossa so-

ciedade e várias outras. Isso traz pro-

blemas sérios não só para quem vive,

mas também para quem teoriza a po-

lítica. Será que existem teorias váli-

das regionalmente, para uns países e

não outros, em pleno tempo da mun-

dialização da economia? E será que

tem sentido a divisão, tão cara aos

cientistas políticos, entre moderno e

atrasado, na qual nossos países, ine-

vitavelmente, recaem na categoria

segunda e mais inferiorizada? Tantas

questões. Tão poucas respostas, ain-

da.

RENATO JANINE RIBEIRO, professor de filosofia

política na USP, é autor de "Ao Leitor sem Medo" e

"A Etiqueta no Antigo Regime", e ainda organiza-

dor de "A Sedução e suas Máscaras - ensaios so-

bre D.Juan".

Florestan defende

conceito de luta de classes

Mouro Lopes

O deputado federal Florestan Fer-

nandes (PT-SP), saiu a campo para

defender a ortodoxia marxista e res-

pondeu às "heresias" proclamadas

pelo sociólogo Francisco Weffort. Há

oito dias. Folha publicou entrevista

de Weffort, ex-secretário-geral e ex-

secretário de Relações Internacionais

do PT - ele admitiu a crise na teoria

marxista, questionou a validade do

conceito de luta de classes nos países

modernos e propôs a revisão da idéia

de imperialismo. Os petistas ortodo-

xos ficaram de cabelo arrepiado. No

dia 30 de agosto, o cientista político,

historiador e antropólogo Florestan

Fernandes recebeu a Folha em seu

apartamento. Afirmou não querer

"polemizar'' com Weffort. Mas res-

pondeu às principais questões abor-

dadas por seu companheiro de parti-

do. Afirmou a atualidade dos concei-

tos de imperialismo e luta de classes e

disse que o marxismo vive uma crise

de renovação. A seguir, um resumo

da entrevista com Florestan Fernan-

des.

Folha - Francisco Weffort com-

partilha da idéia de uma crise na

teoria marxista. O sr., pelo que se

observa em seu texto, "Em defesa

do socialismo", não concorda. O

sr. acredita que mesmo com os

acontecimentos dos últimos anos no

Leste Europeu o marxismo ainda é

um edifício intacto do ponto de vis-

ta teórico?

Florestan Fernandes - Eu acho

que em termos intelectuais não exis-

tem edifícios intactos. Até a década de

30 os partidos tiveram grande influên-

cia criativa nas evoluções do marxis-

mo. O marxismo se ligou à prática e

daí resultaram transformações que o

enriqueceram. Posteriormente, sob

a influência do conflito entre Segunda

e a Terceira Internacionais e, princi-

palmente, par causa das características

da realação entre a Terceira Interna-

cional e os militantes dos PCs, o tra-

balho teórico dos marxistas acabou se


Quinzena

■"' ; ; : : : ; : : : ; ; ; : ;:

transferindo para as universidades, se

desvinvulando da prática política. A

conseqüência é que nós acabamos

tendo várias modas sucessivas dentro

do que se chamou marxismo ocidental

e que divergia muitas vezes do pen-

samento original de Marx e Engels.

Um texto de Lênin sobre as "Irrfec-

ções birguesas do marxismo" me fez

refletir sobre isso, porque o acadêmi-

co raramente leva em conta as conse-

qüências práticas do seu pensamento e

o marxismo exige que os dois centros

de atividade criadora se fundam na

teoria e na prática. Portanto, houve

dentro do marxismo várias correntes

que, o enriquecendo, ao mesmo tempo

desviaram o seu curso.

bolha - Nesse sentido o ar. tam-

bém compartilha da idéia de mar-

xismos...

Florestan - Isso já é coisa antiga,

é um debate iniciado pelo líder comu-

nista italiano Palmiro Togliatti, que

introduziu a idéia do pluralismo. Mas,

para se falar em marxismo, existe um

núcleo de idéias e concepções funda-

mentais que não podem ser alteradas.

A permanência do marxismo mostra a

grande vitalidade da sua contribuição,

a tal ponto que surgiram várias crises

do marxismo e ele continuou de pé,

pois essas crises muitas vezes eram

mais crises de correntes que estavam

trabalhando com o pensamento de

Marx do que crise do próprio pensa-

mento marxista.

Folha - Mas Weffort fala numa

crise específica do marxismo, que

não conseguiu dar conta, até hoje,

da transição do capitalismo para o

socialismo...

Florestan - Na verdade, essa não

era a preocupação de Marx. E aí se

coloca a engenhosidade do Engels.

Quando ele contrastava o socialismo

utópico ao socialismo científico, que-

ria dar a idéia que o socialismo é um

processo social cuja renovação e po-

tencialidade de transformação do

mundo não seria produto de um con-

junto de princípios políticos, mas uma

atividade criadora dos próprios movi-

mentos sociais.

Folha - Mas onde se tentou levar

o socialismo à prática, nos países do

socialismo real, tendo como modelo

a União Soviética, deu no que deu.

E possível boje apontar a germina-

ção de algum tipo de pensamento

ou nova corrente marxista que este-

ja dando conta disso?

Florestan - A questão que se colo-

ca é um desafio. Porque quando se

fala em crise não se fala em morte, em

colapso; a crise que está ocorrendo

tem um sentido criador. Não é uma

crise terminal e tem relação com uma

herança de Marx que foi aproveitada

de diferentes maneiras. Por exemplo,

o uso do conceito de ditadura do pro-

letariado, que Marx considerava uma

de suas grandes descobertas, foi con-

fundida como se ele se associasse a

uma concepção totalitária do processo

político. No caso, a chamada ditadura

do proletariado deveria ser uma mani-

festação da democracia, muito mais

ampla do que a que se toma possível

numa sociedade capitalista.

Folha - Outro tema abordado

pelo prof. Weffort na entrevista pu-

blicada semana passada é o conceito

de luta de classes. O sr. reagiu for-

temente à idéia de Weffort, que

considerou a noção superada nos

países modernos. Para o sr. o con-

ceito de luta de classes permanece?

Florestan - Enquanto existir capi-

tal e trabalho há uma hegemonia

ideológica e uma dominação que Marx

e Engels chamavam supremacia social

das classes capitalistas. De outro lado,

os trabalhadores terão de vender a

força de trabalho como mercadoria. Aí

nós temos montada uma equação que

representa a contradição básica e in-

sanável da sociedade capitalista. Eu

não me contrapus ao Weffort, eu não

me preocupei em atacá-lo fortemente,

não vejo necessidade disso. Mas a mi-

nha reação ao ler a entrevista foi a de

exclamar: é preciso comunicar ã ma-

dame Margareth Thatcher que já não

existe luta de classes, porque ela as-

sim não precisa se preocupar com

problemas como aqueles que enfren-

tou com os mineiros de carvão.

Folha - E a questão do imperia-

lismo e do capital estrangeiro? Wef-

fort fala numa nova postura diante

do capital estrangeiro e numa revi-

Potttíea Nacional

são do conceito de imperialismo...

Florestan - O problema não está

no que nós pensamos, está no que o

capital estrangeiro realiza dentro do

país. Hoje, vivemos numa etapa do

capitalismo monopolista ou oligopo-

lista, que tem uma dinâmica que deri-

va das multinacionais e dos Estados

capitalistas centrais. Ou seja, nós não

temos condições de ditar as políticas

econômicas, que são ditadas de fora.

Para nós, o programa seria muito mais

de criar condições que permitissem ao

Brasil estabelecer os requisitos de ab-

sorção do capital estrangeiro porque,

na verdade, do jeito que a coisa ocor-

re, trata-se de invasão. Se transferem

para dentro do país, além do capital,

os processos decisórios. Basta ver os

confrontos entre a Autoiatina e o go-

verno José Samey. A Autoiatina deu

uma banana, por duas vezes, ao go-

verno Samey. Nós precisamos é esta-

belecer políticas que não podem ex-

primir os interesses do capital asso-

ciado nacional e estrangeiro.

Folha - Para o sr., então, o con-

ceito de imperialismo ainda é vigen-

te...

Florestan - Ele não poderia ser

extrínseco ao capitalismo monopolis-

ta. Há imperialismo até na relação en-

tre nações capitalistas.

Folha - Por fim, a questão das

teorias e ideologias. Weffort defende

um novo relacionamento entre as

ideologias e fala de fecundação re-

cíproca até entre o marxismo e o

neo-liberalismo...

Florestan - Eu não acredito na

existência de um neo-liberalismo.

Ainda não se encontrou a expressão

ideológica adequada para essa mani-

festação do capitalismo oligopolista e

do padrão correspondente de imperia-

lismo. O capitalismo precisa gerar

uma nova ideologia. Agora, quanto à

sua questão, a exclusão do pensa-

mento do outro nunca foi uma prática

de Marx, nem é uma herança da filo-

sofia clássica, nem tampouco é acon-

selhável. Por aí eu acho que nós não

podemos nos manta- distanciados de

outras formas de pensamentos.


Inglaterra

Mineiros em luta

Nesta oportunidade, estamos divulgando documentos da campanha "Em defesa de

Scargill", contra as calúnias orquestradas pela Margareth Thatcher tentando incriminar

Arthur Scargil (presidente) e Peter Heathfield (secretário) do NUM - Sindicato Nacional

dos Mineiros.

Os mineiros fizeram uma greve nacional que durou mais de um ano - em 85-86 -e fo-

ram violentamente reprimidos pelos neo-liberais ingleses, fato que provocou 5 mortes e

centenas de feridos.

A mídia orquestrou uma campanha de calúnias contra

os dirigentes do NUM. O presidente, Arthur Scargill, e o

secretário geral, Peter Heathfield, são acusados de mal-

versação de fundos arrecadados durante a greve. Scar-

gill, um dirigente sindical honesto e combativo da

Grã-Bretanha tanto durante a greve como hoje em dia, é

o principal alvo desta sistemática campanha de difama-

ção, perseguido implacavelmente pela imprensa e pela

televisão. A medida que ele consegue provar a falsidade

de uma acusação, fazem-se novas acusações. O objetivo

é conseguir a renúncia do dirigente sindical que é o sím-

bolo de resitência operária ao governo.

Quais são as acusações?

A primeira era de que Scargill e Heathfield tinham uti-

lizados 150 mil libras esterlinas doadas pelo governo da

Líbia para liquidar as prestações referentes às suas ca-

sas próprias. Uma investigação independente montada

pelo Sindicato concluiu que não existe nenhuma prova

de que foi recebido dinheiro da Líbia; que não foi utiliza-

do dinheiro do sindicato oara pagar tais prestações; que

Peter Heathfield não obteve um financiamento para

comprar sua casa até agosto de 1989, muito depois da

greve; e que Scargill pagou suas prestações com seu

próprio dinheiro. Aliás, tanto Scargill como Heathfield se

recusaram, por questão de princípio, a receber salário du-

rante todo o período da greve.

Quando foi provada a falsidade destas acusações, a

mídia alegou que o dinheiro coletado para os mineiros

durante a greve - em particular fundos doados por minei-

ros soviéticos - foram colocados nas contas da Organi-

zação Internacional de Mineiros (OIM), da qual Scargill é

presidente. Com isso a mídia queria insinuar que Scargill

controla a OIM, e que usou em seu próprio proveito di-

nheiro doado para aliviar as penúruas dos mineiros britâ-

nicos durante a greve.

De fato, a OIM foi fundada em 1985 pelo NUM e ou-

tros sindicatos mineiros, como organização independen-

te, para superar as rivalidades tradicionais entre as várias

centrais sindicais internacionais. A OIM é constituída por

quarenta e três organizações sindicais de mineiros de 39

países - um total de seis milhões e meio de operários.

Esta organização conseguiu enviar fundos a mineiros

que lutavam contra regimes repressores, especialmente

na África do Sul e na América Latina. O sindicato mineiro

soviético enviou roupas e gêneros alimentícios, mas não

enviou dinheiro durante a greve britânica, apesar dos

apelos do NUM. O dinheiro enviado depois da greve foi

entregue à OIM.

Companheiros:

Internacional

Solicitamos sua ajuda para a campanha de defesa de Arthur Scargill, t

presidente do NUM (Nacional Union of Mineworkers - o Sindicato Nacionai

dos Mineiros da Grã-Bretanha).

Cinco anos atrás, os mineiros da Grã-Bretanha lutaram contra o governo

conservador de Margaret Thatcher, numa greve massiva contra o fecha-

mento de minas pelo governo. Esta heróica greve durou mais de um ano

antes de ser derrotada.

A greve foi uma fonte de inspiração para a classe operária britânica, e

recebeu ajuda solidária de muitos países. Lula, durante uma viagem a In-

glaterra, se solidarizou coma greve e visitou uma mina no condado de Kem

Durante uma palestra sua em Londres, se fez uma coleta para os mineiros

O governo montou uma implacável campanha para esmagar a greve. A

polícia sitiou as regiões mineiras. Mais de dez mil trabalhadores foram deti-

dos. Cinco pessoas foram mortas durante a greve; houve centenas de feri-

dos.

Mas o governo de Thatcher também soube usar métodos mais sutis. Afu

dou a montar e financiar um sindicato pelego, o UDM (Union of Democratic

Mineworkers). E as novas leis anti-sindicais foram invocadas para confiscai

o dinheiro do sindicato. No final todos os recursos e fundos do NUM foram

confiscados.

O dinheiro do sindicato permaneceu sob o controle de um interventoi

mesmo depois do final da greve em março de 1985. O processo durou até

1988. Quando o NUM recuperou o controle de seus fundos, devolveu todo o

dinheiro que tinha sido emprestado secretamente por outros sindicatos

quase um milhão de libras esterlinas. Além disso, depositou 135 mil libras

esterlinas no fundo para mineiros demitidos por causa da greve.

Hoje o NUM está sendo atacado uma vez mais.

Os dirigentes do NUM são muito criticados por terem

agido sigiiosamente, sem que os próprios membros do

sindicato (e mesmo da Executiva) soubessem o que es-

tava sendo feito com o dinheiro. De fato, os dirigentes

mineiros viram-se obrigados a agir assim, já que durante

quatro anos o sindicato esteve sob intervenção.

Trabalhadores em toda a Grã-Bretanha doaram mi-

lhões de libras esterlinas durante a greve para sustentar

os mineiros e suas famílias.

Evidentemente esse dinheiro nâo pôde passar pelas

contas bancárias do Sindicato; pois se tivesse passado

teria sido confiscado.

Do mesmo modo, o dinheiro enviado por trabalhado-

res de outros países - França, Alemanha, Holanda, paí-

ses escandinavos. Estados Unidos, Brasil, Japão, etc. -

freqüentemente teve que passar por contas "secretas".

Dessa forma os dirigentes do Sindicato estavam prote-

gendo os interesses e o bem-estar de seus membros.

Scargill e Heathfield são o alvo de um ataque sem


precedentes, principalmente no Daily Mirror. Este tablói-

de popular tem bastante credibilidade entre a classe ope-

rária porque em termos eleitorais apoia o Partido Traba-

lhista.

Porém, o proprietário é Roberto Maxwell, um empresá-

no cuja fortuna pessoal é de cerca de um bilhão de libras

esterlinas. Sua empresa controla a maior parte da indús-

tria gráfica da Grã-Bretanha, e é a segunda maior da in-

dústria gráfica nos Estados Unidos. Maxwell é dono de

jornais e editoras na Europa do Leste, África, Argentina e

em Israel. É também acionista importante em canais de

televisão na Grã-Bretanha, França e Espanha. Neste

momento Maxwell está apoiando a UDM (o sindicato mi-

neiro pelego) na sua tentativa para comprar a companhia

de eletricidade Powergen, que o governo está privatizan-

do.

A campanha da defesa de Scargill está sendo organi-

zada independentemente do NUM por se tratar de uma

questão de importância fundamental para todo o movi-

mento sindical britânico. E também porque Scargill quer

evitar a acusação de se utilizar de seu cargo de presiden-

te do Sindicato para se defender.

A campanha de defesa tem o apoio de amplos setores

no movimento sindical. Um abaixo-assinado está circu-

lando no movimento desde julho. Mais de 50 deputados

trabalhistas assinaram uma resolução no Parlamento de-

fendendo o Sindicato e condenando as calúnias.

Solicitamos vossa solidariedade porque estes ataques

a Scargill representam uma ofensiva contra os princípios

do socialismo, do sindicalismo combativo e da solidarie-

dade internacional dos trabalhadores.

Esta carta não é mais do que um breve resumo de

uma história muito complexa. Para mais informações,

escrevam-nos.

Segue anexo uma tradução do abaixo-assinado que

estamos circulando na Grã-Bretanha. Ele vai aparecer

num anúncio de jornal dentro em breve. Se vocês ou sua

organização quiserem assiná-lo, fava escrevam-nos o

mais rapidamente possível. Ou podem telefonar para a

companheira Annie, que fala português: (081) 806-5025.

Pedimos por favor que circulem cópias desta carta

amplamente no movimento sindical, e que enviem men-

sagens de solidariedade e apoio ao Sindicato:

National Union of Mineworkers

St. James' House

Viçar Lane

Sheffield

South Yorkshire S.1 2EX

Grã Bretanha

com cópia para a Campanha de Defesa:

Defend Scargill - Defend the NUM

c/o NUPE Manuais

219 Maré St.

London E.8

Grã Bretanha

tel:(0742) 700388

Saudações Sindicais,

Willie Lee

Presidente da Comissão de Delegados dos Operários

Municipais de Hackney, Londres

Secretário da Campanha de

Defesa de Scargill

CARTA ABERTA

AOS SINDICALISTAS

Nós, os abaixo-assinados, acredi-

tamos que todos os sindicalistas de-

vem defender os dirigentes do NUM,

Arthur Scargill e Peter Heathfield,

contra as novas tentativas de calu-

niá-los na imprensa.

A investigação levada a cabo pelo

advogado Gavin Lightman provou de-

finitivamente que são falsas todas as

acusações de malversação de fundos

por Scargill e Heathfield.

Também acreditamos que os reno-

vados ataques na imprensa, princi-

palmente do Daily Mirror, são parte de

uma grosseira tentativa de quebrar a

tradição de sindicalismo combativo

representada pelo NUM e seus diri-

gentes.

Por tal razão, a campanha de di-

famações do Daily Mirror é apoiada

com entusiasmo pelos inimigos do

movimento sindical. Infelizmente, este

ataque está sendo apoiado por alguns

dirigentes da TUC (a Confederação

Sindical Britânica) e do Partido Tra-

balhista.

Apelamos a todos os sindicalistas

para que enviem resoluções de apoio

e solidariedade com os dirigentes mi-

neiros vítimas de calúnia à sede na-

cional de NUM na cidade de Shef-

field, e às suas próprias sedes sindi-

cais nacionais.

LEIA A QUINZENA SOBRE A

DERROCADA DA BUROCRACIA

NO LESTE EUROPEU.

PEÇA SEU EXEMPLAR.

2 BTN.


Voz da Unidade- 1.9.90

MESA-REDONDA

0 futuro da classe operária

No transcurso de dois séculos, desde os tempos da revolução industrial,

o destino da classe operária, seu lugar e papel na história constituem um

tema central do pensamento social e da luta política - o cavalo de batalha

de constantes controvérsias ideológicas. Essa questão adquire particular

profundidade no liminar do próximo milênio e no contexto das profundas

mudanças sociais e transformações da ordem econômica e tecnológica que

marcam o momento atual.

Sociólogos e políticos de muitos países defendem pontos de vista diferen-

ciados, às vezes diametralmente opostos, a respeito do papel da classe ope-

rária nos Estados industriais modernos, de sua missão histórica e da pró-

pria questão de sua existência nas condições da revolução técnico-científt-

ca Dão respostas distintas às perguntas que surgem neste plano. Em que

sentido está envolvido a classe operária? Quais são as mudanças que se

operam em sua estrutura e no nível de suas funções na produção e na so-

ciedade? Qual é o lugar que lhe corresponde nas transformações que a no-

va época traz consigo? Como mudará o caráter do próprio trabalho e quais

são as perspectivas que se abrem diante do homem devido às novas tecno-

logias, às modernas formas de organização do trabalho: uma maior pros-

peridade e liberdade ou novas formas de privações e de escravidão?

A Revista Internacional, em sua derradeira edição, solicitou a estudiosos

e personalidades sociais de vários países, e de distintas correntes de opi-

nião, que respondessem a vários questionamentos sobre alguns aspectos do

tema mencionado.

Nesta discussão participam Adam Schaff, membro da Academia de Ciên-

cias da Polônia, autor de wn grande número de obras sobre o desenvolvi-

mento da civilização contemporânea e diretor da revista "O Socialismo do-

Futuro"; Rodolf Dressler, ^vice-presidente da bancada do Partido Social-

Democrata (SPD) no Bundestag (Parlamento) e presidente da comissão do

SPD para problemas dos assalariados na República Federal Alemã; André

Gorz, destacado sociólogo francês, autor do livro "Adeus ao proletaria-

do' ', que traçou a pauta de suas investigações, sobre o movimento operário

no Ocidente; e Emest Wimmer, cientista marxista e político austríaco,

membro do Birô Político do Comitê Central do Partido Comunista da Áus-

tria.

Acredita que a classe operária está

em vias de extinção ou que, pelo

contrário, seu número e a impor-

tância de seu papel na sociedade

tendem a crescer?

A. Schaff - A classe operária desapa-

recerá nos próximos 20 ou 30 anos,

paralelamente com a extinção do tra-

balho assalariado, na concepção es-

trita da palavra — o que é algo abso-

lutamente natural, dado os processos

de automatização e robotização da

produção e dos serviços. O apareci-

mento nos próximos anos de compu-

tadores de quinta geração, dotados de

intelecto artificial, acelerará extrema-

mente esses processos. Isto é um fato

que só pode colocar em incomunica-

bilidade ou silenciar àqueles que -

movidos por considerações de tipo

classista - temem as eventuais conse-

qüências de semelhante desenvolvi-

mento. Agora, tal desenvolvimento o

conduz necessariamente a certa mo-

dalidade de economia coletiva, a qual

constitui o fundamento de toda forma

e socialismo. Há, inclusive, pessoas

muito conhecidas que temem dizer a

verdade, a saber, que a atual revolu-

ção industrial, que se desenvolve com

impetuoso dinamismo nos países de-

senvolvidos, é o caminho para o so-

cialismo.

Claro que semelhante perspectiva não

espanta aos adeptos do marxismo e do

socialismo, mas eles também se en-

contram com um problema devido à

extinção da classe operária conven-

cional: que fazer com os esquemas

tradicionais do movimento operário, a

ditadura do proletariado etc.? A meu

juízo, neste caso, o silêncio se explica

pelo medo que há diante do novo,

diante da necessidade de se reconside-

rar algumas teses fundamentais do

marxismo. E preciso dizer que o pró-

prio Marx nunca experimentou tal te-

mor e se referiu explicitamente a esses

problemas em sua Introdução (Os

manuscritos econômicos de 1857-58),

em que anteviu a plena automação do

processo produtivo, o novo papel da

classe operária, da ciência etc, quan-

do ainda não existia nenhum indício,

Internacional

nenhum elemento de automatização

Nós, no entanto, preferimos humilde-

mtnte não falar das conseqüências

numa época em que a automatização e

a robotização já alcançaram um ritmo

verdadeiramente "dramático".

R. Dressler - Na RFA, de igual

modo que em outros estados indus-

trializados do Ocidente, o número de

operários diminui. Em nosso país, isto

afeta o status desta categoria profis-

sional desde o ponto de vista do di-

reito trabalhista até a sua própria ati-

vidade. Com relação aos assalariados,

faz-se uma distinção entre funcioná-

rios, empregados e trabalhadores da

produção, isto é, os operários. Os em-

pregados converteram-se no grupo

mais numeroso, que continua cres-

cendo, ao passo que o dos trabalhado-

res da produção se reduz. No que se

refere ao caráter da atividade profis-

sional, cabe assinalar a diminuição do

número de pessoas ocupadas nos tra-

balhos manuais penosos. Em compen-

sação, aumenta muito rapidamente o

dos representantes do trabalho inte-

lectual que estão ligados a sistemas

informatizados. Este é o primeiro da-

do estatístico sobre o desenvolvimento

em todos os países industrializados,

dado que por si só não diz nada a res-

peito das mudanças na consciência

das pessoas.

Ao mesmo tempo, aumenta a pro-

porção de assalariados no conjunto da

população ativa da RFA. Partindo de

uma definição estreita do conceito de

classe operária, qualquer político não

podedeixar de chegar à conclusão

de que, ainda que esta classe não de-

sapareça, seus efetivos e importância,

e, por conseguinte, sua influência na

sociedade diminuirão com toda a pro-

babilidade. Assim o demonstram de

maneira inequívoca as mudanças re-


gistradas a nível dos processos de

produção nos países altamente indus-

trializados. Mas não é menos evidente

o fato de que a esfera do trabalho as-

salariado continuará alargando-se.

Vemos, pois, que se modificam tanto

o caráter do trabalho quanto o status

do trabalhador do ponto de vista do

direito trabalhista. E muito provável,

por exemplo, que num futuro previsí-

vel desapareça o tipo clássico de ope-

rário da industria do motor. Nas fábri-

cas modernas de automóveis haverá

um numero cada vez maior de traba-

lhadores sentados diante das telas de

terminais, controlando a marcha dos

processos de produção. Agora se não

limitamos o conceito de classe operá-

ria em função do caráter do trabalho

realizado e do lugar ocupado na pro-

dução, cabe concluir que, ao menos,

seu número continuará crescendo.

Mas já não será um grupo tão homo-

gêneo como antes quando a sua com-

posição, tipos de atividade, qualifica-

ção e posição nas empresas. As dife-

renças nestes parâmetros serão muito

salientes. Isto significa que também

serão salientadas nas reivindicações

trabalhistas. Os sindicatos da RFA

estão se preparando para essas mu-

danças.

Pelo que posso apreciar em uma vi-

são de conjunto, durante os últimos

anos a influência dos assalariados

sobre a vida política da RFA diminui.

Isto se deve primordialmente a que

nos grandes partidos políticos quem

ocupa hoje posições dominantes são,

no fundamental, altos empregados de

administração, funcionários públicos e

empresários. Em conseqüência, dimi-

nuiu o peso relativo dos operários e

empregados. É difícil prever como se

desenvolverão as coisas de agora em

diante. Em todo caso, o SPD é cons-

ciente deste problema.

A. Gorz — Nos principais países

industrializados da Europa Ocidental,

os efetivos de trabalhadores ocupados

na indústria representavam cerca de

40% da população ativa no começo

dos anos 70. Hoje, sua proporção se

situa próxima dos 30%. Se prevê que

baixará a 20% ou 25% no começo do

próximo século. Esta diminuição rela-

tiva do número de operários não seria

suficiente para reduzir a influência

que exercem sobre a sociedade se sua

coesão e consciência de classe se re-

forçassem. Mas não é este o caso. A

diminuição do volume de trabalho na

indústria é acompanhada de mudanças

fundamentais na natureza do mesmo,

o qual se traduz numa forte diferen-

ciação dos estatutos, salários, condi-

ções e interesses imediatos dos traba-

lhadores. A unidade e a solidariedade

de classe se debilitam de maneira

contínua; o sindicalismo tradicional e

os partidos operários atravessam uma

crise.

E já impossível manter a concep-

ção marxista clássica sobre a missão

histórica da classe operária. Esta

concepção se desenvolveu numa épo-

ca em que as indústrias mais impor-

tantes para a economia eram as que

empregavam os maiores efetivos: mi-

nas de carvão, siderurgia, têxtil,

construções navais, maquinaria, etc...

A sociedade renousava sobre o traba-

lho (e a exploração; dessas massas

operárias e era cabível pensar que a

sua potência a nível da produção po-

deria transformar-se em potência polí-

tica. Para a classe operária identificar-

se com seu papel na produção das ri-

quezas, glorificar o trabalho operário

era também uma maneira de contestar

o poder do capital e a sua lógica.

Mas tudo isso mudou. O trabalho

operário deixou de ser a principal for-

ça produtiva. A indústria reduz seus

efetivos e não oferece empregos está-

veis e permanentes a não ser a uma

minoria de trabalhadores polivalen-

tes, com capacidade de autonomia, de

iniciativa e de renovação contínua de

seus conhecimentos. A maioria dos

trabalhadores tem que contentar-se

com empregos precários, temporários,

cumprindo tarefas efêmeras e sem in-

teresse. Não estão integrados na em-

presa e não se identificam com seu

trabalho, com suas funções na produ-

ção, nem com a classe dos produtores.

O trabalho para eles é um meio de ga-

nhar dinheiro o suficiente para fazer o

que de verdade lhes interessa e reali-

zar suas potencialidades em outras

atividades por eles mesmo escolhidas.

Desde modo, a identificação com o

trabalho, com o ofício e com o poder

que este confere na produção já não

existe senão no marco de uma elite

privilegiada que desfruta de um status

especial nas empresas. Isto não quer

dizer que os antagonismos de classe

desapareceram. O que ocorre é que se

transferiram a outro plano e sua

aposta central já não é o trabalho e a

empresa. Essa aposta é muito mais o

grau de liberdade e de autonomia de

que dispõem os indivíduos para con-

duzir sua vida, para não serem reduzi-

dos à condição de simples trabalhado-

res, para recuperar o domínio de seu

tempo e de seu contorno, de seu meio

e suas condições de vida, domínio da-

quilo de que foram despossuídos pela

megamáquina industrial, isto é, pelo

capital, seja lá de qual for o tipo de

propriedade. A frente dos antagonis-

mos de classe é, portanto, muito mais

extensa do que no passado e os con-

flitos de classe possuem um caráter

político mais aberto e direto: mobili-

zam as pessoas como cidadãos que

lutam pelo direito a autodeterminar

sua vida e debilitar o poder destrutivo

que os grandes aparatos tecnocráticos

exercem sobre o meio social e natural

E. Winuner — Por acaso é possível.

nos nossos dias, não advertir que nos

países capitalistas altamente desen

volvidos diminuiu, e continua dimi-

nuindo, os efetivos e o peso econômi

co da classe operária, se não incluir-

mos neste conceito mais do que os as-

salariados da indústria? Em todo caso.

me parece incorreto insistir nesta in-

terpretação reducionista, apoiando-se

em citações de Marx ou nos critérios

leninistas de definição de classe.

Hoje não podemos negar, sem que

isso implique descrédito da idéia so-

cialista, dois fatos evidentes. Em pri-

meiro lugar, que o desenvolvimento

das forças produtivas conduz a mu-

danças estruturais e a processos de

diferenciação no seio da classe ope-

rária, causando complexas mutações

Ao influxo de diferentes fatores

econômicos e políticos, assim como

da luta de classe, vemos alterar a cor-

relação numérica entre os operários e

os empregados ocupados na produção,

na administração e no setor de servi-

ços; entre os trabalhadores - a tempo

integral ou parcial - e os desemprega-

dos, entre os pequenos proprietários.

Em segundo lugar, a influência do

movimento operário, desgraçadamen-

te, diminuiu em comparação com o

período de auge que se seguiu depois

da vitória sobre o fascismo. Isto, no

entanto, não significa que a classe

operária esteja condenada a conver-

ter-se em um setor periférico da so-

ciedade e, em definitivo, a descpare-

cer. As mudanças motivadas pela re-

volução técmco-cientffica requerem

uma representação efetiva dos interes-

ses dos trabalhadores, incluídos os da

classe operária e os de parte conside-

rável dos intectuais e os de outras ca-

madas intermediárias. Hoje observa-

mos tendências à intelectualização do

trabalho manual e uma "industrializa-

ção" da atividade mental. Claro está

que na mentalidade da classe operária

poderiam aparecer traços reacionários.

É indubitável, assim mesmo, que a


situação nos países até há pouco tem-

po denominados de socialismo real

tardará ainda muito em configurar

uma alternativa sugestiva para a maio-

ria da população nos países capitalis-

tas altamente desenvolvidos. Mas isso

não significa dizer que a classe operá-

ria nos estados industrializados deixou

de ser uma força sem a qual não é

possível levar a cabo na sociedade

mudanças de fundo que tendam a hu-

manizá-la.

Acredita que os robôs deslocarão

o homem da esfera do trabalho?

A. SchafT - Sim, as máquinas

deslocarão o homem da esfera do

trabalho, se tomamos este termo em

sua concepção clássica. Não há por-

que temer este processo irreversível,

já que ele desemboca em um aumento

do tempo livre, quer dizer, que amplia

o marco de vida autêntica do homem,

o qual, como assinalava Marx, no

quarto tomo de O Capital, só começa

de verdade à margem da esfera do tra-

balho.

Desde logo, seria errôneo pensar

que o trabalho desaparecerá "total-

mente". Simplesmente, adotará outra

forma de emprego, distinta e mais am-

pla. Este tema conecta intimamente

com a problemática abordada na

quarta pergunta, que é muito substan-

ciosa tanto do ponto de vista teórico

quanto no plano prático, mas também

muito completa, e que para mim toma-

se impossível respondê-la circunstan-

cialmente no marco da presente dis-

cussão. Ainda mais que sobre este te-

ma existe uma abundante literatura

que o movimento operário deve assi-

milar. Por exemplo, os interessantes

trabalhos de Oskar Lafontaine e An-

dré Gorz. Permita-me mencionar, as-

sim mesmo, dois livros meus: Aonde

conduz o caminho? e Perspectivas do

socialismo moderno.

R. Dressler - A fábrica totalmente

automatizada é ainda uma imagem do

futuro, ainda que parcialmente já está

se plasmando na prática. Em algumas

áreas de produção onde antes traba-

lhavam centenas de operários, agora

se necessitam apenas quatro ou cinco,

principalmente com funções de con-

trole. É certo que está aumentando o

número de pontos de trabalho no setor

quaternário. Mas ele não compensa as

perdas de empregos na produção pro-

priamente dita e nas esferas próximas.

Por isso, em termos gerais, nos países

industriais do Ocidente observamos

uma contração do emprego. Os sindi-

catos respondem a este desafio pro-

movendo sua concepção de uma drás-

tica diminuição do tempo de trabalho.

Me parece que é o único caminho

real. O Estado pode fazer, neste pla-

no, propostas relativas à ampliação do

setor quaternário - infra-estrutura e

serviços — ali onde a sociedade o ne-

cessite.

A. Gorz - A fábrica mais avançada

no campo da automatização, a que

serve de referência para o futuro, é a

Fujitsu Fanuc, no Japão, onde há ro-

bôs que fabricam robôs. Mais de 400

robôs funcionam durante 24 horas; os

operários, cujo número não chega a

400, trabalham só de dia. Com méto-

dos tradicionais', para se obter a mes-

ma produção nesta fábrica, se neces-

sitariam dez vezes mais operários e

uma soma de capitais dez vezes supe-

rior. Em média, a cada mês estragam-

se oito robôs e a tarefa dos operários

consiste principalmente em prevenir e

reparar os danificados. Quer dizer,

sua carga de trabalho é muito descon-

tínua e imprevisível. Além dos 400

operários que possui nas oficinas, a

fábrica emprega a 1.700 pessoas nos

trabalhos de pesquisa, administração e

comercialização.

O trabalho, portanto, não foi elimi-

nado, mas diminui em quantidade e se

desmaterializou, isto é, se intelectuali-

zou. O homem já não transforma nem

conforma objetos materiais, mas sim

vigia as operações em uma tela, pro-

grama-as e, em caso de necessidade,

repara ou ajusta as máquinas que efe-

tuam o trabalho manual. O número de

pessoas ocupadas em funções de or-

ganização é de quatro a cinco vezes

superior ao do pessoal empregado na

produção material.

Resumindo, o trabalho humano se-

gue sendo indispensável, e o será

sempre, mas perde aquilo que cons-

tituía sua dimensão essencial: a do-

minação soberana do homem sobre a

matéria. O homem e a mulher apare-

cem cada vez mais como servidores

ou funcionários de um sistema de má-

quinas. São raras as pessoas que po-

dem revelar suas capacidades por

meio do trabalho e converterem-se as-

sim em indivíduos completos.

E. Wimmer — A robotização de to-

do o aparato de produção não está

prevista nem sequer nos países capi-

talistas com o mais alto nível de de-

senvolvimento. Qual é o capitalista

que pode deixar de calcular mental-

mente o montante de inversões e o

volume de produção, comparando-os

com os custos de mão-de-pbra barata?

Tão pouco podemos esquecer as con-

tradições entre capitalistas: os peque-

nos empresários se mostram muito en-

genhosos para encontrar algo assim

como áreas de produção nas quais po-

dem não só sobreviverem, mas tam-

bém prosperar. Por outro lado, os ro-

bôs são um claro indício de que, por

fim, apareceram possibilidades de su-

Intemacional

perar o domínio das forças produtivas

sobre o homem, que foi uma constante

na história. Em relação a isso, se co-

locam perguntas cujas conotações po-

dem eqüivaler à denúncia de crimes

contra a humanidade. Quem é o cul-

pado de que as pessoas continuem

extenuando-se, onde é possível ali-

viar-lhes o trabalho? Quem é o res-

ponsável de que tantas pessoas per-

cam o emprego ou sua qualificação e

se vejam marginalizadas da sociedade,

havendo de pagar assim as melhores

de que desfrutam os outros?

Minha conclusão é a seguinte: par-

tindo das possibüidades da ciência e

da técnica, há aue valorizar as vanta-

gens que elas nos proporcionam to-

mando em consideração as relações

sociais existentes e a necessidade de

vencer os obstáculos engendrados por

estas últimas.

Quais são as condições nas quais

acredita necessárias para que os as-

salariados se convertam em donos

da produção e estejam interessados

nos resultados de seu trabalho?

A. SchafT - Esta pergunta não

guarda relação com o futuro do tra-

balho e o desaparecimento da classe

operária em decorrência da nova re-

volução industrial (este último con-

ceito não deve confundir-se com o de

revolução técnico-cientffica, elemento

básico da anterior, mas que tem um

alcance social mais reduzido). Se trata

da integração dos operários no sistema

que existe atualmente. É uma proble-

mática de caráter muito distinto, emi-

nentemente político. Constitui uma

das questões centrais da perestroika.

E, desde logo, muito importante, mas

que requer outro tipo de análise, e eu

não queria esquematizar.

R. Dressler — Em seu novo pro-

grama de princípios, o SP D postula a

participação dos assalariados na

propriedade. Deste modo, além do

salário, receberiam uma parte dos be-

nefícios e do capital novamente cria-

do. Na opinião do SPD, o Estado po-

deria estabelecer o marco jurídico pa-

ra a regulamentação dos problemas

que surjam entre as partes signatárias

de convênios coletivos, por exemplo,

mediante a criação de fundos interem-

presariais.

A. Gorz — Antes de tudo, é preciso

que a organização do trabalho de-


penda em considerável medida dos

próprios trabalhadores. É uma possi-

bilidade que está em vias de realiza-

ção na nova fábrica Volvo de Udde-

valla, na Suécia. Os operários dessa

fábrica estão organizados em equipes

de dez pessoas, mulheres e homens, e

cada equipe assegura por completo a

montagem e as operações de acaba-

mento de um veículo. Cada um co-

nhece vários ofícios, e as diferentes

tarefas são assumidas por turno, o

mesmo ocorrendo com as funções de

chefe de equipe. Os componentes da

equipe podem organizar entre si para

tomar, por turno, descansos suple-

mentares, e o plano, que normalmente

é de doze veículos por equipe, por

semana, pode cumprir-se de maneira

muito flexível: o volume de produção

pode variar segundo os dias e inclusi-

ve segundo as semanas, mas sempre

se mantém a média semanal de doze

automóveis.

O modelo de Uddevalla tende a

realizar uma segunda condição neces-

sária para a soberania dos trabalhado-

res: as operações laboriais são varia-

das e as técnicas foram eleitas de tal

modo que requerem um vasto leque de

capacidades manuais e intelectuais,

incluindo a de comunicar e de coope-

rar com os demais. O trabalho, por-

tanto, resulta como algo interessante e

estimulante e a cultura laborai não

está separada da cultura cotidiana.

Por outro lado, a terceira condição

para a soberania dos trabalhadores

não se realizou senão que parcial-

mente: trata-se do domínio sobre o

próprio produto. A oficina de Udde-

valla é uma fábrica de montagem e

acabamento. Os operários podem sen-

tir-se responsáveis pela qualidade da

montagem, mas nem a quaüdade dos

elementos e dos grupos, nem a con-

cepção dos veículos, nem a decisão de

produzir automóveis dependem deles.

Por conseguinte, o produto final de

seu trabalho lhe segue sendo - em

grande parte - alheio, como também

lhes apresenta alheio aos trabalhado-

res que controlam a produção roboti-

zada de motores, caixas de câmbio,

suportes etc... Ainda quando a aces-

sam a um alto grau de autonomia, de

soberania sobre o trabalho, permane-

cem alienados porque não possuem a

possibilidade de controlar, de estabe-

lecer e de autodeterminar os objetivos

de suas atividades. Seguem a serviço

de objetivos que não puderam eleger e

dos quais, na maioria dos casos, nem

sequer têm conhecimento.

Isto se deve à extrema complexida-

de do processo social da produção e à

especialização de funções exigidas.

Numa sociedade complexa é excep-

cional que um indivíduo possa dizer:

"E aqui está o que realizamos; estou

satisfeito do meu trabalho e respondo

pelo resultado". Em alguns aspectos.

nossas sociedades ainda se parecem a

grandes máquinas que servem de de-

terminados indivíduos e grupos para

fins que nada lhes corresponda.

A solução ao problema é essen-

cialmente política: na nossa qualidade

de cidadãos, podemos tratar de recu-

perar o poder de decisão e a respon-

sabilidade que a especialização fun-

cional nos arrebatou. Isto implica a

necessidade de desenvolver um debate

democrático sobre as prioridades, as

orientações, os objetivos da atividade

econômica e a capacidade do Estado

democrático para orientar a economia.

E. Wimmer - Para que os traba-

lhadores possam ser donos autênti-

cos, é indispensável a socialização

dos principais meios de produção. A

experiência evidencia que o socialis-

mo não logrou até agora cumprir esta

tarefa e isso se caracteriza no plano

histórico como uma fase ainda muito

imatura do desenvolvimento social.

Está longe dessa "integridade", a que

se referia Marx. A solução pressupõe,

pelo visto, várias condições que enu-

mero em seguida. As formas de pro-

priedade e de organização do trabalho

devem permitir que as pessoas alcan-

cem uma compreensão ótima do senti-

do e o objetivo do próprio trabalho,

de seus deveres, possibüidades e

obrigações. Deve existir uma estreita

e clara relação que faça com que uma

vida melhor dependa de que se traba-

lhe melhor; neste plano é importante o

princípio de remuneração diferenciada

do trabalho segundo critérios de utiü-

dade publica, variáveis em função das

demandas; é preciso garantir a cober-

tura social dos trabalhadores, mas sem

que isso lhes impulsione à desocupa-

ção; criar estímulos que harmonizem

os interesses pessoais com os de toda

a sociedade. Se trata, pois, de formas

políticas de organização da vida dos

homens, formas que não só admitam a

participação nas decisões e no con-

trole da atividade produtiva, mas que

também a reclamem e a implementem.

Pode chegar a ser o trabalho — no

futuro — não só um meio de existên-

cia, mas também uma fonte de ale-

gria de autodesenvolvimento?

R. Dressler — Para que o tiomem

considere o trabalho não só como um

meio de sustento material, mas sim

como condição indispensável a seu

próprio desenvolvimento, deve contar

com a possibilidade e participar na

solução de todos os problemas fun-

damentais relacionados com a produ-

ção. O trabalhador que se sente redu-

zido à condição de simples executor

dos diversos pedidos nunca verá, no

trabalho, nada mais do que um meio

indispensável de subsistência. Daí

emana a necessidade de assegurar a

participação dos trabalhadores na-

gestão em todos os níveis de produ-

ção. Uma participação que comece no

mesmo posto de trabalho e se eleve

até as decisões adotadas em escala de

toda uma companhia. Toda pessoa de-

ve ter a possibilidade de influir sobre

o grau e as formas de estruturação de

seu lugar de trabalho, o gráfico das

jornadas e, em geral, sobre os proces-

sos de produção. Isto se refere com

maior razão à representação coletiva

dos interesses, a qual deve intervir na

solução de todas as questões que cor-

respondem aos assalariados, incluindo

as inversões e a marcha da produção.

A. Gorz — Isso pressupõe que todo

trabalho de que necessite a sociedade

seja vivido por todos os indivíduos

como sua própria atividade pessoal.

que as relações sociais sejam Cínica e

exclusivamente vínculos de livre as-

sociação e cooperação voluntária; que

todo o trabalho possa ser eleito pelo

próprio indivíduo e corresponda a

uma "vocação" similar ao do artista,

ou filósofo, do militante, do educador

e do interventor, para aqueles a quem

as atividades que exercem é em si sua

própria finalidade.

Isso resulta impossível, porque a

sociedade é sempre, ao mesmo tempo,

um sistema material, uma megamá-

quina, a qual, doa ou não, deve fun-

cionar todo o tempo segundo suas

próprias leis. Na esfera econômica,

bem como na doméstica, há afazeres

que se realizam forçosamente, dia

após dia, de acordo com regras esta-

belecidas e em prazos determinados,

tarefas necessárias, rotineiras e tedio-

sas. Os sistemas totalitários exigem

dos indivíduos que tomem gosto por

estas tarefas e as "cumpram com entu-

siasmo" e como "heróis do trabalho"

Não obstante, desde Aristóteles até

Marx, a meta consciente da humani-

dade tem consistido sempre em redu-

zir ao mínimo o trabalho indispensá-

vel ao objeto de poder desenvolver ao

máximo as atividades que constituem

um fim em si.

Evidente, a fronteira entre o traba-

lho economicamente necessário e ditas

atividades nem sempre é nítida. O

primeiro pode e deve ser humanizado,

enriquecido, é preciso fazê-lo o mais

agradável e estimulante possível, co-

mo é o caso de Uddevalle. Mas nem

por isso devemos esquecer que se

trata de um trabalho necessário e lítil,

e não uma atividade livremente esco-

lhida pelo que representa em si. Por

isso, o objetivo, segundo Marx, é "re-

duzir ao mínimo o tempo de traba-

lho". No ultimo livro de O Capital,

assinala: "O reino da liberdade

começa ali onde termina o trabalho

imposto pela necessidade e pela coa-

ção de fins externos; fica, pois, con-

forme a natureza da coisa, além da ór-


ita da verdadeira produção material

(...), do outro lado de suas fronteiras,

começa o desdobramento das forças

humanas que consideram como um

fim em si, o verdadeiro reino da liber-

dade".

A robotização e a informatização

só tem sentido se tendem a aliviar

o fardo das tarefas necessárias, in-

chados os afazeres domésticos, e a

reparti-las eqüitativamente entre to-

dos. A semana de trabalho de 28 ou

30 horas, o ano de 1.200 horas e uma

distribuição mais justa do trabalho

doméstico entre as mulheres e os ho-

mens constituem o principal objetivo

dos sindicatos e partidos de esquerda

da Europa Ocidental para o final do

século.

E. Wimmer - Se o trabalho fosse

sempre e exclusivamente um meio de

subsistência, sem representar ao mes-

mo tempo um instrumento de humani-

zação, isto é, de autodesenvolvimento,

uma fonte de alegria, não existiria o

próprio gênero humano. Que horrível

seria nossa vida se as pessoas, mesmo

que em condições de exploração e

aüenação, não pudessem encontrar no

trabalho certos motivos de satisfação,

inspiração, e consideração de sua pró-

pria dignidade! Portanto, creio que a

questão principal deve formular-se em

termos de correlação entre esses dois

aspectos do trabalho. A primeira meta

que se fixou o movimento operário, a

faculdade de seu "trabalho reforma-

dor", consistia precisamente em

emancipar o homem na maior medida

possível, por meio do trabalho. Hoje,

por múltiplas razões, este objetivo

adquire mais do que nunca a maior

importância. É que os novos meios de

produção, que oferecem a possibilida-

de de melhorar essencialmente a vida

humana, podem ser também um novo

instrumento em mãos dos que se apro-

priam dos frutos do trabalho alheio.

Liberar o homem do trabalho — inclu-

sive em condições de máxima produ-

tividade — é uma utopia, já que o tra-

balho, mesmo que não esteja submeti-

do ao domínio patronal não deixa de

ser o "reino da necessidade", sem o

qual não pode existir o "reino da li-

berdade".

Obviamente, o objetivo deve conti-

nuar sendo a emancipação do próprio

trabalho. Do contrário, os meios de

trabalho escaparão a todo controle e

estabelecerão seu domínio como for-

ças alheias e cegas, sobre os seres

humanos. E mesmo que o socialismo

real não tenha logrado ainda o cum-

primento dessa tarefa, isso não invali-

da em absoluto a conclusão funda-

mental no sentido de que, para liberar

o homem de todas as formas de ex-

ploração e alienação, é preciso libe-

rar o próprio trabalho.

0 TRABALHO

E 0 DIREITO

Á PREGUIÇA

Neste tempo de máquinas e mercado, de

técnicas e pronto-a-consumir, por onde

anda o gratuito? Tem-se a sensação de o

ver por muitos lados, mas será ainda o

gratuito ou mais uma forma de compra e

venda?

Se os socialistas do século passado

vissem como se vive hoje nos países ricos

no norte do mundo, cuidariam estar

realizada a sua utopia de toda a gente ter o

necessário para viver, as máquinas

produzirem e o homem pescar, tocar

música e estender-se ao sol e à sombra a

contemplar o visível e o invisível.

Quando se começou a reivindicar o

direito ao trabalho para todos, não era por

causa do trabalho que se reivindicava mas

por causa do salário. Por causa de adquirir

o mínimo para sobreviver. Por isso,

paralelamente a essa reivindicação, um

genro de Marx, Paul Lafargue, proclamava

o "direito à preguiça".

Há quem diga que o trabalho tem outra

função para lá da subsistência. Que sem

trabalhar a gente não se sente realizada.

Não sei se isso é fatalmente assim, ou se foi

um hábito adquirido. É certo que há irmãos

para tudo, mas a subsistência já é

demasiado trabalhosa, uma vez que a fazem

cada dia mais cara para nos obrigar a

trabalhar sempre. De qualquer modo que

porventura pode realizar é o trabalho feito

por conta própria, por üvre iniciativa, o

trabalho que depende de cada um e cujo

tempo cabe a cada um gerir. Não me parece

que isso possa acontecer com o trabalho

alienado, no qual se está vendido por oito

horas a alguém que é dono do nosso tempo

e sua gestão.

O mesmo se poderá dizer da preguiça.

Atualmente já é possível muita preguiça.

Mas é uma preguiça num tempo que não é

nosso, mas do patrão, seja quem for esse

patrão. É uma preguiça não saboreada, é

um ócio que não podemos gerir. No fim

acaba por ser uma moleza frustante, uma

letargia estéril de prazer, o que leva muito à

ilusão ou à malvadez de que o trabalho faz

falta a realização humana. Mais uma vez

insisto, só fará falta quando se sentir a sua

falta e a quem sentir. E mesmo assim

convém verificar se não é um ópio. De

resto será ideologia como aquela que diz

que o trabalho dá saúde. O que dá saúde é

movimentar o corpo, queimar as toxinas,

fazer funcionar a engrenagem que somos,

fortalecer os músculos, pôr todas as células

a viver... Mas para isso não é preciso

trabalhar, é preciso exatamente não

trabalhar para se poder praticar o desporto

que se goste e que é bom para nossa saúde.

Isto é gratuito, o cansaço gratuito e

feliz, a preguiça feliz e saudável.

cultura

Boletim Uaranathá - Julho/90

Já há no mundo milhões de gente a viver

deste gratuito que é o desporto. Isso é um

estágio da existência que levaria os

socialistas do século passado a dizer que

tinha sido alcançado aquilo que eles haviam

proposto. Mas em pouco tempo ficariam

desiludidos, exatamente quando

verificassem que esse desporto é mais um

negócio. E que os desportistas não mais que

trabalhadores especializados, novas

máquinas de fazer dinheiro. Dinheiro

extorquido à multidão de trabalhadores

cujas razões para assistir em vez de praticar

seria preciso analisar. Mas não aqui que dá

muito trabalho.

A verdade é que todo o gratuito já

possível nos países ricos virou negócio para

extorquir o dinheiro aos mais pobres desses

países. A maioria que tem de continuar a

trabalhar pela subsistência, por ela se toma

cada vez mais cara.

Quem não se deixará iludir é Jesus

Cristo que do alto da sua ascensão vê o

mundo todo ao mesmo tempo. E vê como o

mundo rico não sabe viver o gratuito que

lhe advem da abundância de bens, e como

ao muito pobre não lhe deixam viver o

gratuito próprio de quem tem poucas

necessidades. Talvez nos chamassem à

atenção sobre o modo como os ricos

enriqueceram e os pobres empobreceram. E

talvez recitasse aquela quadra que diz:

Pobre México, Senhor

à mercê de uns bandidos

longe de Deus e tão perto

ai dos Estados Unidos.

Ou então inventaria uma mais ou menos

assim:

Pobre mundo tão diferente

na terra como nos céus

tão perto de toda a gente

tão longe do Reino de Deus.

Como viver então a vida? Coitada da

vida assim envolvida de comprar e vendas

onde o gratuito é raro e caro. Caro mais

por custar muito que por ser querido.

Custar em esforço e em dinheiro, querido

de querer e de amar. Coitada da vida onde

o gratuito é suspeito, onde as coisas

perderam a graça por não serem de graça.

Coitada da vida! Como vivê-la então? Se

calhar, então, é preciso continuar a vivê-la

como fermento que leveda a massa, como

semente de mostarda, como sal que salga. E

nisto é que não pode haver traficância,

temos mesmo que dar de graça o que de

graça nos foi dado. Que assim seja a quem

e além-mar, que toda a terra é terra de

missão.

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