Memórias Póstumas de Brás Cubas

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Memórias Póstumas de Brás Cubas

MACHADO DE

ASSIS


Joaquim Maria Machado de Assis foi um romancista, contista, poeta e

teatrólogo brasileiro, considerado um dos mais importantes nomes da

literatura desse país e identificado, pelo crítico Harold Bloom, como o

maior escritor afro-descendente de todos os tempos.

Sua vasta obra inclui também crítica literária. É considerado um dos

criadores da crônica no país, além de ser importante tradutor, vertendo

para o português obras como Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo e o

poema O Corvo, de Edgar Allan Poe. Foi também um dos fundadores da

Academia Brasileira de Letras e seu primeiro presidente, também chamada

de Casa de Machado de Assis.


Joaquim Maria Machado de Assis

Nascimento: 21 de junho de 1839, Rio de Janeiro, Brasil

Falecimento: 29 de setembro de 1908, Rio de Janeiro

Nacionalidade: Brasileiro

Ocupação: Romancista, contista, poeta, dramaturgo, cronista,

crítico literário

Magnum opus: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro,

Quincas Borba, O alienista (conto)

Influências: William Shakespeare, Voltaire, Luciano de Samósata,

Laurence Sterne, Manoel Antonio de Almeida,Arthur

Schopenhauer, José de Alencar, Jonathan Swift, La Rochefoucauld,

Edgar Allan Poe

Influenciados: Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos,

Cyro dos Anjos, Murilo Rubião


Obra publicada em capítulos na Revista

Brasileira, de 15 de março a 15 de dezembro de

1880 (Em livro = 1881), as Memórias póstumas de

Brás Cubas revelam uma narrativa inovadora,

revolucionária, que, através de seu

protagonista- narrador “defunto-autor”,

promovia a “viravolta machadiana.”


Do túmulo (campa) um “defunto autor” examina de

forma memorialística sua vida. Apesar de morto,

nada comenta sobre sua existência além-túmulo. Está

interessado apenas em recordar o passado e

submetê-lo à análise e ao julgamento definitivo de

seu significado.


TRAÇOS MODERNISTAS EM UM ESCRITOR REALISTA:

a) narrador em 1ª. pessoa e é um defunto autor: até o surgimento dessa

obra, nenhum narrador teria apresentado esse perfil em toda a literatura

brasileira; o leitor, portanto, não estava habituado a esse tipo de narração;

b) rompimento da narrativa linear: não há ordem cronológica; o fluxo da

narrativa se baseia no fluxo de memória do narrador e, portanto, aqui está

a lógica do uso da chamada digressão.


Ao verme

que

primeiro roeu as frias carnes

do meu cadáver,

dedico

como saudosa lembrança

estas Memórias Póstumas


Chocante ou irônica pouco importa... Fugindo ao

senso comum, Brás Cubas dedica suas memórias aos

vermes, como se não houvesse alguém digno de

lembrança, deixando em evidência as “tintas” de seu

pessimismo, através de sua pena carregada de

humor.


O verbo “roeu” (no passado), significa que Brás

Cubas não é, materialmente, mais nada, não deve

satisfações a ninguém. É livre, soberano e absoluto

para pintar a vida, as pessoas, a si próprio: “... estas

são as memórias de um finado, que pintou a si e aos outros,

conforme lhe pareceu melhor e mais certo.”


A) Símbolo do fim da concepção romântica.

B) Desafio do escritor frente às propostas do Real-

Naturalismo, já que uma fala vinda do túmulo

contrariava os princípios de racionalidade e

verossimilhança.


C) A ideia machadiana de que só um morto

poderia apresentar os fatos de sua existência

sem escrúpulos, sem fantasias e sem temor

da opinião pública.


Enfim: Só um morto – por não ter nada a perder –

revelaria seus intuitos mesquinhos, seu egoísmo,

sua impotência para a vida prática e sua

desesperada sede de glória.


Só alguém que ultrapassasse o limite fatal seria

capaz de apontar a verdade definitiva de sua

própria condição.


O período cronológico ocorre entre 1805 e 1869,

do nascimento à morte de Brás Cubas;

A narração, em si, não é cronológica.


PRINCIPAL: Rio de Janeiro;

SECUNDÁRIO: Europa, apenas citada.


Referências:

Stendhal = (pseudônimo de Henri Beyle) escritor

francês romântico que abordou, em seus romances,

paixões violentas e perfis irônicos e psicológicos de

seus personagens (Obra mais famosa = O vermelho e o

negro – Sua obra de “cem leitores” = Do Amor)


Recepção da obra:

“... O que não admira, nem provavelmente consternará, é

se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal,

nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez?

Talvez cinco... Fica privado da estima dos graves e do amor

dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.”


Referências:

Sterne = escritor inglês

Xavier de Maistre = escritor francês

Ambos de estilo digressivo e irônico (autores

admirados por Machado)

“Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”

= Visão irônica e pessimista.


Diálogo com o leitor = sugestão = que o leitor

mude sua postura e prefira a reflexão do que a

anedota, ou...

“... se te agradar , fino leitor, pago-me da tarefa; se te

não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.”


O leitor também é parte, além dos personagens e

seus atos, da “galhofa” do autor.


Capítulo LXXI(71) O senão do livro

“Começo a arrepender-me deste livro... é enfadonho, cheira

a sepulcro... porque o maior defeito deste livro és tu, leitor.

Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu

amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e

fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios,

guinam à direita e à esquerda, andam e param,

resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu,

escorregam e caem...”


O diálogo constante com o leitor e as interrupções na

narrativa para digressões, saltos de um assunto para

o outro, do particular para o geral, do abstrato para o

concreto e vice-versa, do real para o imaginário, as

pilhérias, as teorias filosóficas, as citações, as

teorizações sobre a própria técnica narrativa, a

metalinguagem...


... constituem inúmeros subterfúgios que tornam a

história contada por Brás um mosaico de peças,

aparentemente desconexas, que formam uma

narrativa de estrutura híbrida (irregular),

descontínua, com capítulos que se intercalam a

outros produzindo a quebra da linearidade do

enredo.


Entretanto, todos esses aspectos não deixam de

estar ligados a um fio condutor que é a própria

vida do defunto autor, marcada pelo tédio e

pelo vazio.


Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma obra em

que os acontecimentos ou sua seqüência são

menos importantes do que a atmosfera de

ambigüidade que perpassa toda a narrativa. Se

num momento o narrador se mostra humilde,

noutro se proclamará superior a tudo e a

todos;...


... trata-se, portanto, de um “narrador não confiável

e volúvel” que, com sarcasmo, cinismo e tédio,

expõe sua mediocridade, como salienta no célebre

capítulo “Curto, mais alegre”, com a saborosa

liberdade de quem morreu e já não tem platéia para

espreitar suas ações e, portanto, pode apreciar o

desdém dos finados”, ou seja, sua “franqueza de

defunto” não teme a opinião pública e pode

“apresentar os fatos de sua existência sem escrúpulos ou

fantasias.”


“Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe

exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a

franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida,

o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das

cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a

disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao

mundo as revelações que faz a consciência;...


... e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os

outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal

caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa e a

hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que

diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente

pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas,

despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar

lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em

suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos,

nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia...”


Assim, evidencia-se uma narrativa irônica e

niilista sobre a precariedade humana que

emerge da vida, das relações e dos projetos

fracassados e perecíveis de um típico

representante de uma elite dominante e

parasitária.


Ou seja, Brás Cubas pertence ao mundo dos grandes

proprietários e, vivendo de rendas que herdou de

sua família, praticamente durante toda a sua vida, foi

um indivíduo cheio de caprichos que levou sua vazia

existência sem perspectivas. E todas as suas

transgressões e atitudes mesquinhas expressam a

falta de ética e escrúpulos de uma elite escravocrata e

tacanha do Brasil do século XIX.


O primeiro fato contado pelo narrador é a sua própria

a morte, o dia de seu enterro;

No dia do enterro, havia apenas onze pessoas e

“peinerava uma chuvinha miúda, triste e constante”. Um

amigo presente afirmou: "Vós, que o conhecestes, meus senhores vós podeis

dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos

caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas

nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que

lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso

ilustre finado.“ (MACHADO IRONIZA E CRITICA OS MOLDES ROMÂNTICOS)

Brás Cubas deixou, ao declamante, vinte apólices: “Bom e

fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei

à cláusula dos meus dias ...” (TRATA-SE DE MARCA DE IRONIA, QUE

DENUNCIA A DECOMPOSIÇÃO MORAL DO HOMEM)


Viveu sempre a “boa vida” e, mais tarde, frustra-se;

queria eternizar seu nome, mas não conseguiu. Tenta

compensar tudo através de algumas possibilidades:

1. O EMPLASTO: queria criar um remédio de solução a

todos os problemas da humanidade: “medicamento

"anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica

humanidade."

2. O POLÍTICO: perde sua possibilidade para Lobo

Neves.

3. FILHO: não teve filhos: “Não tive filhos, não transmiti a

nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”

SUA VINGANÇA: ESCREVER SUAS MEMÓRIAS

DEPOIS DE MORTO.


INFÂNCIA: GAROTO TRAQUINAS

- “Quebrou a cabeça” de uma escrava após

estragar um doce de coco por ela preparado, mas

diz ao pai que fora a escrava a responsável por

tudo;

- Tinha um escravo chamado Prudêncio que era

seu “cavalo”; ao ser alforriado, compra outro

negro e faz o mesmo que Brás Cubas (chicoteia-o e

o maltrata).

BACHARELADO EM COIMBRA (PORTUGAL) :

viaja pela Europa, mas é chamado às pressas pelo

pai: sua mãe estava nas últimas.


- MARCELA: “dama espanhola”, mais velha, bonita,

prostituta e interesseira; relação financeira move o romance:

pai descobre e corta a mesada;

Brás Cubas passa a roubar o pai, mas este também descobre

a “façanha”;

Brás Cubas é enviado para Coimbra a fim de que estude e se

afaste da amante:

“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis;

nada menos.” (IRONIA)

Obs.: “Conto de réis” era uma expressão adotada no Brasil e em

Portugal para indicar um milhão de réis, sendo um conto de réis

correspondia a mil vezes a importância de um mil réis (valor

aproximado de um mil réis: oito gramas de ouro).


- EUGÊNIA: filha de dona Eusébia, era uma

moça bonita, porém coxa; Brás Cubas envolve-se e

até demonstra certo interesse pela moça. Ele a

conhece quando vai a uma chácara do pai que ficava

na Tijuca a fim de recuperar-se pela morte de sua

mãe:

“O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão

fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste

faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso

escárnio. Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?”

(IRONIA / MULHER NÃO É IDEALIZADA; É

DEMONSTRADA COM DEFEITOS E

QUALIDADES);


- VIRGÍLIA: filha do Conselheiro Dutra. Pai de Brás Cubas quer que

siga “um projeto de vida”: queria que fosse deputado e aproveitasse a

influência do conselheiro na política, bem como se cassasse com a moça,

que era bela, dócil, meiga, frágil. Fora a grande paixão de Brás Cubas.

Narrador não se decide e Virgília casa-se com Lobo Neves. Todo o projeto

idealizado pelo pai de Brás Cubas é transferido ao “concorrente”;

Brás Cubas torna-se amante de Virgília (casa alugada em Gamboa para

encontros amorosos);

Mais tarde, volta e acompanha Brás Cubas até os últimas dias de sua

vida.

(CASAMENTO: INSTITUIÇÃO FALIDA)


- EULÁLIA NASCIMENTO DE BRITO

(NHÁ LOLÓ): sobrinha de Cotrim,

apresentada por Sabina a Brás Cubas para que se

casasse, já que estava com cinquenta anos. Eulália

morre por ocasião da primeira “onda” de febre

amarela ocorrida no Brasil. (CASAMENTO:

INSTITUIÇÃO FALIDA)


- DONA PLÁCIDA: beata, filha de um

sacristão e de uma mãe também beata, é

extremamente moralista. Tem nojo da traição do

casal Brás Cubas e Virgília, mas aceita tomar conta

de uma casa para encontros amorosos, sobretudo

após receber a quantia de cinco contos de réis.

Arranja um marido (carteiro) que lhe toma tudo.

Tempos depois, a senhora morre.

(DEGRADAÇÃO DA MORAL HUMANA,

PERVERSIDADE E MEDIOCRIDADE HUMANA)


- LOBO NEVES: marido de Virgília, eata,

recebe convite para ser governador de uma

província do norte (Maranhão). Nega,

inicialmente, por ser supersticioso (seria

nomeado em um dia 13). Após receber carta

anônima sobre traição de sua esposa, aceita

partir para o Maranhão, bem como a

nomeação, separando a esposa do amante;

Quando assumiria o cargo de ministro, morre

por consequência de um ataque cardíaco.


- SABINA: irmã de Brás Cunhas,

briga com ele, após a morte do pai,

pela herança. Por sua iniciativa,

reatam amizade;

- CONTRIM: cunhado de Brás

Cubas, homem que judia de seus

escravos;

- NHONÔ: filho de Virgília e Lobo

Neves, bacharel em direito.


- QUINCAS BORBA: amigo de infância de Brás Cubas;

encontram-se na vida adulta. Este está vivendo como

mendigo. Brás Cubas lhe dá dinheiro e o “amigo” rouba o

seu relógio e some.

Mais tarde, volta rico (ganha herança) e se torna filósofo.

Que influenciar Brás Cubas. Vai para Minas Gerais, rasga

sua teoria humanitista e volta ao Rio totalmente louco.

Morre na casa de Brás Cubas. Pedro Rubião de Alvarenga é

alguém que Quincas Borba conhece em Minas e ganha a

herença deixada por Quincas, que, na verdade, era rico.

Cristiano e Sofia Palha sentam-se ao lado de Rubião no trem

e percebem que é ignorante, “novo rico” e liga-se em Sofia.

Ao chegarem ao Rio, Cristiano aceita entregar a esposa a

Quincas, a fim de conseguirem o seu dinheiro. Sofia não se

entrega a Quincas, mas arranja outro amante. Percebe, nesse

momento, que havia perdido todo seu dinheiro e suas

chances na vida, por isso enlouquece. Lê notícias no jornal

sobre o imperador e acha-se o imperador da loucura.


HUMANISTIMO (filosofia única,

universal, indiscutível e soberana):

1. Colocar seu nome em animais;

2. Morte certa a um homem sério;

3. Montanha (obstáculos)/

batata(prêmio) - Ao vencido, ódio

ou compaixão. Ao vencedor, as

batatas (apologia da guerra).

A morte de Rubião fora a

sobrevivência do casal.

(Lei da sobrevivência/ competição – Evolucionismo

social)


O humanitismo é o ponto de contato entre Memórias

póstumas de Brás Cubas e o Quincas Borba. A teoria do

Humanitas é uma caricatura feroz do positivismo e

do cientificismo dominantes na época. A

personificação da impassibilidade egoísta, da eterna

surdez, da vontade imóvel é, afinal, Humanitas, “o

princípio das coisas que não é outro senão o mesmo

homem repartido por todos os homens”.


Enfim, o “Humanitismo” é, conforme a visão aguda

de Machado de Assis, uma impiedosa sátira

complementar das ideias do determinismo social,

que constituíam a base filosófica do Realismo. O

“Humanitismo” é uma caricatural doutrina híbrida

de Positivismo e Darwinismo Social. Ou seja, uma

hilariante paródia de todos os “ismos”, com a

mesma visão fatalista (a supremacia das raças = a

lei do mais forte) que constituíram as doutrinas

científicas que dominaram a Europa, no século XIX,

e chegaram, naturalmente, ao Brasil.


Em estado de transe causado pela febre, Brás Cubas é

arrebatado por um hipopótamo, que o leva à origem

dos séculos. Surge então uma mulher imensa, de

contornos indefinidos, que se diz chamar Natureza ou

Pandora. Quando, por fim, Brásde perto o rosto da

estranha, percebe-lhe a impassibilidade egoísta e sua

eterna surdez. Ou seja, é alguém indiferente ao clamor

humano.


Ela conduz o defunto-autor ao alto de uma

montanha e lhe permite contemplar a passagem dos

séculos e entender o absurdo da existência, sempre

igual, centrada apenas no egoísmo e na luta pela

sobrevivência. O personagem vê a História como

uma eterna repetição:


“flagelos, misérias, cobiça, cólera, inveja, ambição, fome,

vaidade, melancolia, riqueza, agitando o homem como um

chocalho até destruí-lo como um farrapo.” “A regra é

egoísmo, conservação e satisfação do próprio eu: lei

de Brás Cubas e dos homens que aparecem no

delírio, fantoches sacudidos pelas paixões,

variedades de um mal que devora o homem, a

buscar a quimera da felicidade que se some na

ilusão.”


Não há, portanto, um sentido de evolução na

humanidade. A natureza humana pouco ou

nada se modifica. O homem procura

inutilmente a “quimera da felicidade”, e esta, sem

deixar apanhar-se, apenas “ria, como um

escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.”

E Brás Cubas vendo o mundo com “olhar

enfarado”, implora mais um pouco de vida.


Como assinala Augusto Meyer, Brás Cubas

revela um sentimento ambivalente diante do

infinito ciclo humano: o de vertigem e desamparo

diante da inutilidade de todas as buscas e, ao mesmo

tempo, o de sarcasmo consciente contra a fatalidade

da existência. A ironia é a defesa do personagem

contra a natureza cega e insensível.


Ainda segundo Meyer, ao “passar em revista a

monotonia da miséria humana”, Brás Cubas dá a

“impressão de quem vai caindo num vazio espantoso

e na queda goza a volúpia de cair.” Daí a aparente

e enigmática maneira como Pandora o define:

“Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do

nada”.


Em estado de transe causado pela febre, Brás Cubas é

arrebatado por um hipopótamo, que o leva à origem

dos séculos. Surge então uma mulher imensa, de

contornos indefinidos, que se diz chamar Natureza ou

Pandora. Quando, por fim, Brásde perto o rosto da

estranha, percebe-lhe a impassibilidade egoísta e sua

eterna surdez. Ou seja, é alguém indiferente ao clamor

humano.

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