Edição especial - Visão

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Edição especial - Visão

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21 DE MARÇO DE 2003 • PORTUGAL €2,60

EXTRA

EDIÇÃO

A GUERRA.

Bagdad, 20 de Março de 2003


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Marchand, Luiz Vasconcellos e Miguel Costa Gomes

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Tiragem:

96 600 exemplares

Registo na DGCS nº: 112348

N.º Depósito Legal: 127961/98

ISSN 0872/3540

Interdita a reprodução, mesmo parcial, de textos, fotografias

ou ilustrações sob quaisquer meios, e para quaisquer fins, inclusive comerciais

Esta edição da VISÃO foi feita ao longo do

dia de ontem, 20, o primeiro desta Guerra

do Golfo II, e não repete um único

texto da revista «normal» que se encontra

já nas bancas, com o título Apocalipse

Now. Não deve ser lida, por isso, como

uma segunda edição, mas sim como

um número verdadeiramente «extra»,

que completa, e infelizmente confirma, o

quadro global que se anunciava e a que

demos expressão na capa anterior.

Mário Soares, Eduardo Lourenço,

Freitas do Amaral, Maria Lourdes Pintasilgo

e Helena Roseta dizem-nos, nesta

VISÃO, o que pensam, depois de terem

caído as primeiras bombas no Iraque.

Reflexões que complementam as de José

Saramago e de Noam Chomsky, além de

outro artigo de Freitas do Amaral, publicados

na revista saída quinta-feira.

A Guerra do Golfo II está ainda no começo,

e não foi com o prometido ataque

«esmagador» que os EUA iniciaram as

hostilidades militares. Mas é uma questão

de tempo, segundo a generalidade

dos observadores, sejam políticos, sejam

GUERRA DO GOLFO II

Uma edição extraordinária

Edição EXTRA 21 de Março de 2003

O Ataque ..........................................................4

Opinião:

Eduardo Lourenço ..........................9

As imagens que não

se esquecem ............................................12

Jordânia: a fronteira

do inferno....................................................32

Armas: guerra a partir

dos céus ........................................................36

Mesopotâmia:

o berço da civilização ..........40

Tommy Franks: homem

de cortar a direito ........................42

Ajuda: um grando dano

colateral ........................................................44

Opinião:

Helena Roseta ..................................47

Economia: o preço

da batalha..................................................48

Bombas em alta,

petróleo em baixa ........................50

George W. Bush:

o dono da guerra ............................52

Jacques Chirac:

o homem do ‘não’........................54

Saddam Hussein:

o fim do grande ‘pai’? ..........56

Planos: o Iraque

depois de Saddam ......................60

Recordação: Golfo,

parte I ..............................................................64

Iraquianos em Portugal:

imigrantes de luxo ........................72

militares ou jornalistas. É o caso de Paulo

Camacho, o enviado especial da SIC,

que nos transmite, num pequeno depoimento,

as primeiras impressões de quem

vive este início de guerra em Bagdad.

Uma imagem não vale apenas mil palavras.

É também uma arma poderosa

para assinalar os grandes acontecimentos,

mesmo quando são trágicos, como

esta guerra. Dedicamos-lhe, por isso, um

espaço digno e alargado, numa revista

que concebemos com o objectivo de a

oferecer aos nossos leitores como um

verdadeiro documento histórico.

Filipe Luís, editor executivo da VISÃO

e nosso enviado à Jordânia, conta, nesta

edição, os momento dramáticos que se

vivem na fronteira com o Iraque, assim

como o ambiente em Amã. Carlos Cáceres

Monteiro, director da VISÃO, que

cobriu a Guerra do Golfo, em 1991, para

O Jornal, encontra-se, no momento

em que ultimamos esta edição, na Síria,

junto da fronteira com o país de Saddam.

Esperamos publicar, já na próxima edição,

uma reportagem da sua autoria.

Entrevista:

Mário Soares ........................................76

Opinião: Diogo Freitas

do Amaral ..................................................77

Portugal:

as reacções................................................78

Cimeira europeia: UE

tenta colar os cacos ..................83

Comentário: José Carlos

de Vasconcelos ..................................85

Reacções no mundo:

mobilização geral

pela paz ........................................................86

Grã-Bretanha:

o futuro de Blair ............................94

América: o epicentro,

a 10 000 km da frente ..........95

O que eles disseram ................96

Correio do Leitor ..........................97

Opinião: Maria

de Lourdes Pintasilgo ..........98

VISÃO 21 de Março de 2003 3


GUERRA DO GOLFO II

BAGDAD, 20 DE MARÇO

O relógio marcava 5 horas

e 34 minutos (2 e 34 em Portugal

continental) quando as sirenes

começaram a soar na cidade.

O ultimato dado por George W.

Bush tinha-se esgotado há apenas

hora e meia e a data estava

destinada a ficar marcada

no calendário como

a de 17 de Janeiro de 1991: doze

anos e dois meses depois,

a capital iraquiana voltava a ser

bombardeada por forças

americanas e britânicas.

Um Presidente com o mesmo

nome próprio e apelido do que

liderou a primeira Guerra

do Golfo ordenava o início

do segundo conflito com

a mesma designação. Mas, desta

vez, com um propósito diferente

e em circunstâncias distintas.

Em 1991, George H. Bush reuniu

à sua volta uma larga coligação

de países para obrigar o exército

de Saddam Hussein a sair

do Kuwait. Agora, George W. Bush

avança quase sozinho, e debaixo

de um coro mundial de protestos,

na sua guerra pela «libertação»

do Iraque. Sem o aval

das Nações Unidas

REUTERS/REUTERS TELEVISION


CHIPRE

Mar

Mediterrâneo

EGIPTO

Cartum

GUERRA DO DO GOLFO II

“E aqui vai uma frase de paleio de situação no dito dossier, máí nada”

Ancara

Nicósia

LÍBANO

ISRAEL

Jerusalém

SUDÃO

TURQUIA

Incirlik

Beirute

Amã

Damasco

JORDÂNIA

Mar

Vermelho

SÍRIA

Darbakir Batman

Arar

IRAQUE

Bases no Kuwait

Bagdad

ARÁBIA SAUDITA

San'a

Riade

KUWAIT

Bases no Bahrein

Golfo

Pérsico

Príncipe Sultan

LEGENDA DO MAPA

IÉMEN

IRÃO

BAHREIN

QATAR

Base aérea

Base naval

Base do exército

Bases no Qatar

EAU

Mar Arábico

OMÃ


GUERRA DO GOLFO II

Como a guerra começou

Uma hora e meia depois de terminado o prazo dado por Bush para que Saddam

abandonasse o Iraque, concretizou-se aquilo que muitos, ao longo dos últimos meses,

foram considerando inevitável: o início da segunda Guerra do Golfo. De navios

estacionados no Mediterrâneo, mar Vermelho e no Golfo Pérsico foram disparados

cerca de quatro dezenas de mísseis Tomahawk. Em simultâneo, aviões bombardeiros B-2,

B-1 e B-52 participaram também no ataque, bem como dois caças-bombardeiros F-117,

que deitaram quatro bombas «inteligentes» GBU-27 sobre bunkers. O objectivo

das primeiras acções era o de poder acabar com a guerra logo no início.

Ou seja: aniquilando Saddam e a cúpula de poder iraquiano

O primeiro dia

As horas decisivas de 20 de Março

O Presidente dos EUA, George W. Bush,

telefona ao primeiro-ministro britânico

Tony Blair a informá-lo que pretende

atacar Bagdad dentro em breve

Termina o ultimato dado por George W.

Bush para que Saddam Hussein

e os seus filhos abandonem o Iraque

Sirenes de alarme ecoam em Bagdad

e começam a ouvir-se explosões na cidade

e o barulho de aviões militares no céu

Ari Fleischer, porta-voz da Casa Branca,

confirma: «Começaram as primeiras

etapas do desarmamento do Iraque»

George W. Bush surge na televisão

a informar que os EUA lançaram um ataque

contra «alvos de oportunidade militar»

no Iraque. Descreve a acção como

o início da operação «para desarmar

o Iraque e libertar o seu povo»

O primeiro-ministro Durão Barroso dirige-se

ao País e declara que «nesta hora difícil,

Portugal reafirma o apoio aos seus aliados»

As sirenes calam-se em Bagdad

Saddam Hussein aparece na televisão

oficial iraquiana e afirma: «O Iraque

sairá vitorioso»

China exige o fim dos ataques

França denuncia «a guerra ilegítima

e perigosa»

Presidente russo Vladimir Putin

condena a acção militar como

«um grande erro político»

VISÃO


GUERRA DO GOLFO II A ofensiva

ATAQUE

Como um murro nos queixos

Em vez do bombardeamento intenso e devastador, a primeira guerra preventiva

de Bush iniciou-se com um golpe curto e fugaz no coração de Bagdad. A invasão

segue dentro de momentos

EXPLOSÃO

Bagdad foi sacudida

por dois raides aéreos

no primeiro dia de guerra

8 VISÃO 21 de Março de 2003


AP/APTN

RUI TAVARES GUEDES

Os comandos militares norte-

-americanos tinham avisado.

Durante meses, disseram que

esta guerra seria diferente de

todas as outras, incluindo a sua predecessora,

de 1991, no mesmo cenário.

Mas ninguém os levou a sério. Todos ficaram

à espera de uma noite semelhante

à que fez a glória da CNN: bombardeamentos

intensos e rastos dos disparos

de antiaéreas, nos céus de Bagdad,

a prolongarem-se durante horas. Afinal,

foi mesmo diferente.

Ainda o prazo dado no ultimato de

George W. Bush não tinha terminado e

já chegavam os relatos dos primeiros tiros:

de forma sistemática, forças norte-

-americanas começaram a destruir as

baterias de artilharia iraquianas colocadas

junto à fronteira com o Kuwait.

Com um objectivo preciso: destruir a

ameaça principal a um avanço de tropas

terrestres pelo Sul, em direcção à

capital iraquiana.

Depois, hora e meia após a conclusão

do ultimato, deu-se o início oficial

do conflito: um ataque cirúrgico sobre

Bagdad, tentando cortar, à primeira, as

cabeças principais do regime iraquiano.

E, em vez das imagens de «destruição

devastadora» que tinham sido prometi-

A CERTEZA DE UMA ESPERA

«Em 1991, as sessões de bombardeamento

a Bagdad foram experiências muito

mais assustadoras do que a vivida nestas

duas últimas noites. A reacção da defesa

iraquiana, condicionada pela experiência

da guerra com o Irão, travada com armas

iguais, tornava infernal qualquer raide norte-americano,

com sirenes que nunca mais

se calavam, fogo interminável de antiaéreas

e aquela chuva de balas tracejantes

que ficou na memória de todos nós.

Desta vez, não. Tem sido muito diferente.

A pressão ficou quase limitada à impossibilidade

de dormir. Talvez por já terem percebido

que as armas não são iguais, que

nem vale a pena responder, tudo é mais

calmo, menos stressante, mais ‘racional’.

Pelo menos até agora, enquanto o pior não

chegar.»

DEPOIMENTO DE PAULO CAMACHO,

ENVIADO ESPECIAL DA SIC EM BAGDAD,

RECOLHIDO ONTEM À NOITE, QUINTA-FEIRA,

20 DE MARÇO, ÀS 22 HORAS DE LISBOA

GUERRA DO GOLFO II

das, as câmaras de televisão (e especialmente

os videofones) apenas exibiam a

imagem de um amanhecer suave e de

céu limpo, em Bagdad. Explosão visível

houve apenas uma, com uma bola de

fogo a erguer-se sobre os telhados da

cidade, já na claridade inicial de quinta-feira,

20.

Com todas as cautelas

A primeira guerra preventiva da Administração

Bush teve um início tão

surpreendente e original quanto a estratégia

de defesa com que os «falcões»

da Casa Branca a tentam justificar,

perante um mundo dividido e cada

vez mais incrédulo. A guerra não

começou com o «big bang» que alguns

militares tinham prometido, nem sequer

com uma ofensiva de larga escala.

Também não se assistiu, nas primeiras

horas, a um discurso demorado e bem

fundamentado do Presidente dos EUA,

a explicar ao mundo as razões por que

tinha acabado de lançar o planeta em

guerra. Não houve frases de cunho heróico

ou a mínima aproximação, sequer,

a uma imitação barata de uma

cópia de um discurso de Churchill. Nada

disso. Bush resolveu o problema

com um discurso de quatro minutos e

trinta frases em que anunciou ter dado

ordem para se iniciarem «as primei-

VISÃO 21 de Março de 2003 9

JOSÉ OLIVEIRA



GUERRA DO GOLFO II A ofensiva

COMO UM MURRO NOS QUEIXOS

ras etapas» da libertação do Iraque.

Depois do coro de protestos que se

levantou em todo o mundo, do fracasso

das batalhas diplomáticas, da retirada

forçada da segunda resolução no

Conselho de Segurança das Nações

Unidas, a ideia com que se fica é que os

planos de batalha foram alterados de

forma a tentar garantir um início de

guerra o mais limpo possível. A aposta

foi mais na demonstração de força do

que no peso ou no número de bombas

despejadas.

Como o Pentágono foi o primeiro a

reconhecer, a guerra começou com

uma tentativa de a substituir, com um

pouco de sorte, por uma simples operação

de eliminação de Saddam, em quase

tudo semelhante à ordenada, em

1999, por Bill Clinton contra Bin Laden,

no Afeganistão. Era quase como

ganhar a lotaria: vencer a guerra com

um único tiro. Apenas com um míssil

contra Saddam.

Os estrategos do Pentágono chamaram-lhe

«janela de oportunidade». Ao

que parece, o ataque surpresa foi fruto

de uma operação complexa que incluiu

informações secretas, espionagem electrónica,

acção de militares de operações

especiais e uma tecnologia apura-

Bagdad já está

a arder

No segundo dia da guerra, os iraquianos deitaram-se

com Bagdad em chamas. Na quinta-feira,

20, menos de 15 horas depois do primeiro

assalto, uma segunda vaga de ataques

com bombas anti-bunker e mísseis de cruzeiro

Tomahawk guiados por satélite atingiu a

cidade às 21 horas locais (18 horas em Lisboa),

incendiando três edifícios governamentais.

As explosões sucederam-se com intervalos

de segundos, durante dez minutos. Um

mar de chamas e espessas colunas de fumo

eram visíveis na margem esquerda do rio Tigre,

onde está situado o Ministério das Comunicações

e do Planeamento. As chamas

consumiram parte do edifício que alberga os

escritórios do vice-presidente Tarek Aziz, e

um outro, de quatro andares, situado junto

de um palácio presidencial. Uma densa e negra

coluna de fumo foi vista também por cima

da refinaria de Al Dura, na zona sul da capital

iraquiana. Os aviões voaram a baixa al-

REUTERS/FALEH KHEIBER

REUTERS/RUSSELL BOYCE

da, que permitiu aos comandos militares

alterarem, rapidamente, as coordenadas

dos mísseis cruzeiro para um

ataque preciso e directo contra o palácio

onde se pensava que estivesse a

dormir o líder iraquiano, os seus filhos

Qusai e Odai, bem como grande parte

da estrutura dirigente do regime. Saddam

percebeu bem o objectivo desse

ataque. E por isso apareceu, na manhã

de quinta-feira, 20, na televisão iraquia-

titude, mas de nada valeram os tracejados

das antiaéreas que coloriram os céus nocturnos

de Bagdad. De resto, o fogo defensivo

iraquiano tem sido menos vigoroso do que

aquele que se verificou às primeiras horas da

‘ESTOU VIVO’

Pouco depois do primeiro

ataque, Saddam apareceu

na televisão

na, pouco tempo após as explosões.

Apenas para provar que estava vivo.

Apesar dessa aparição de Saddam na

televisão, alguns militares norte-americanos

continuavam a acreditar, ao fim

do dia de quinta-feira, que tinham conseguido,

pelo menos, debilitar a cadeia

de comando iraquiana, minando-lhe o

poder de coordenação.

A reacção das forças de Bagdad limitou-se

ao lançamento de alguns mísseis

EM MISSÃO

Um F-18 parte da base

no Kuwait para o ataque

primeira Guerra do Golfo, em Janeiro de

1991. A última sirene soou à meia-noite, hora

local, assinalando o fim do alerta aéreo. E

toda a noite a televisão mostrou imagens de

Saddam Hussein reunido com os membros

10 VISÃO 21 de Março de 2003


BAGDAD

Um ferido dá entrada

no hospital

Scud em direcção ao Kuwait, o que sublinhou

mais uma diferença em relação

ao conflito de 1991: na primeira Guerra

do Golfo tinham sido capazes de enviar

mísseis até Israel. Agora, as bombas

pouco voaram.

Segunda vaga

Ao contrário do que sucedeu há 12

anos, desta vez a acção terrestre foi

quase simultânea com o início das ope-

do seu gabinete, sem ser possível determinar

quando as imagens foram captadas.

O segundo ataque foi mais intenso do que

o bombardeamento que iniciou a operação

Liberdade para o Iraque, às 5 e 35, quando

nasciam os primeiros raios de sol em Bagdad.

Pelo menos um dos mais de 40 impactos

que atingiram a cidade foi visível a menos

de um quilómetro do mítico Hotel Al

Rashid, no centro da capital iraquiana. Esse

primeiro ataque durou também cerca de

dez minutos e, segundo o Governo iraquiano,

atingiu o edifício da rádio e da televisão

e um edifício da alfândega, ambos vazios.

Também foi destruída a casa onde viviam

a mulher de Saddam, Zaida Jeirula, e

as três filhas. Mas o Presidente iraquiano e

os seus dois filhos, que eram os principais

alvos do ataque, terão escapado ilesos, segundo

admitem os próprios responsáveis

norte-americanos. Entretanto, a Cruz Vermelha

Internacional confirmou, em Bagdad,

a morte de um civil e ferimentos noutras

14 pessoas.

M.R.C.

rações aéreas. Menos de 20 horas depois

do início do conflito, tropas norteamericanas

e britânicas atravessaram a

fronteira do Kuwait e instalaram-se vários

quilómetros no interior do Iraque.

Quase ao mesmo tempo, um novo

raide foi lançado sobre Bagdad e, mais

uma vez, com uma selecção criteriosa

de alvos: edifícios governamentais e palácios

presidenciais. Como o primeiro,

este ataque foi rápido e quase não houve

reacção de defesa por parte dos iraquianos.

A táctica engendrada pelos comandos

americanos parece, assim, ter como

objectivo atingir o adversário em pontos

sensíveis e, com isso, desmoralizá-

-lo progressivamente, convidando à deserção.

Ao fim de um ano a fazer e a refazer

planos, o general Tommy Franks,

comandante das forças aliadas, parece

ter decidido adiar os planos do «big

bang» e utilizar a mesma táctica que

Muhammad Ali celebrizou nos ringues

de boxe: picar como uma abelha e voar

como uma borboleta. O primeiro dia

de guerra foi assim, em tudo semelhante

ao primeiro assalto de um Ali vigoroso,

dos tempos em que ainda respondia

pelo nome de Cassius Clay: golpes rápidos,

curtos e incisivos, em diversas partes

do corpo, sempre em movimento e

sem dar hipótese de resposta. Falta

agora o KO. E o ataque em massa,

enorme e devastador que foi sempre

prometido pelos militares americanos.

A guerra, afinal, ainda mal começou. E

ninguém acredita que termine sem o

derramento de muito sangue. ■

GUERRA DO GOLFO II

EDUARDO LOURENÇO

Profetas

Os olhos de Ezequiel cegaram.

Estamos sem futuro,

salvo o da chuva

de bombas que a cortina

do Bem estende sobre Bagdad. E

o mundo. Mas o espectro do profeta

bíblico não impressionará o

piedoso Presidente dos Estados

Unidos. Ele está seriamente convicto

que Deus o encarregou de

libertar o mundo do monstruoso

Saddam Hussein. Sabe do que

fala, pois foi ele ou os seus antecessores

que o inventaram.

Quando a cortina de fogo se

extinguir, o que não tardará muito,

o mundo não será o mesmo.

Hoje começa, a sério, um novo

século. Porventura, uma nova

era. Qual? A de um tempo político

assumido do poder do mais

forte sobre o mais fraco. Não é

uma novidade. Mas nunca o

mais forte foi tão insolente e impunemente

forte como esta

América que exorciza em Bagdad

um medo íntimo e conscientemente

cultivado. Esse pânico é,

em grande parte, o fruto da sua

própria política de hegemonia

messiânica sobre o mundo.

De aqui em diante, o mundo

inteiro, do Alasca à Terra do Fogo,

tem o direito, e mesmo o dever,

de se considerar ameaçado

por um imperialismo sob a bandeira

de Deus tal como o fundamentalismo

americano o vive e

expande. E, mesmo, de entrar em

resistência. Felizmente, desse

mundo, e em primeiro lugar, faz

parte a própria América. Ela

acordará mais cedo do que se

imagina deste pesadelo, da sua e

nossa angústia. É por aí que passa

o que neste momento nos resta

de esperança. Sem ela, o reino

do arbítrio instalar-se-ia sobre o

mundo. E, a título póstumo,

Adolfo Hitler triunfaria em toda

a linha. O que os olhos abertos

de Ezequiel não permitirão.

VISÃO 21 de Março de 2003 11

REUTERS/GORAN TOMASEVIC


GUERRA DO GOLFO II

O segundo ataque das forças americanas contra Bagdad foi muito mais

intenso do que o registado na madrugada de 20. Vários edifícios foram atingidos.

A grande ofensiva contra a capital iraquiana começou

VISÃO /Jonas reker

Lago

Urmia

TURQUIA

TURQUIA

IRAQUE

IRÃO

ARÁBIA

SAUDITA

EGIPTO

OMÃ

Mossul

IÉMEN

SUDÃO

ZONA DE EXCLUSÃO AÉREA

100 km

SÍRIA

N

PISTAS DE AVIAÇÃO

Rio Tigre

OLEODUTOS

IRÃO

Kirkuk

PRINCIPAIS CAMPOS DE PETRÓLEO

BASES MILITARES IRAQUIANAS

Rio Eufrates

ÀREA CURDA

Anah

Tikrit

Lago

Tharthar


Ar Rutbah

Misseis de cruzeiro foram lançados contra o centro

da cidade, sacudindo-a com grandes explosões

ZONA DE EXCLUSÃO AÉREA

Lago

Ramazza

Apoiados por blindados,

mais de um milhar

de efectivos da 1ª Divisão

de Fuzileiros entraram

no Iraque pela povoação

de Um Qasr, 50 Km

a sul da cidade

de Baçorá. Também

participaram tropas

britânicas. Iniciou-se,

assim, a invasão terrestre

do Iraque

ARÁBIA

SAUDITA

As Salman

Baçorá

Golfo

Pérsico

KUWAIT

Forças da infantaria britânicas tomaram a península

de Fao, ponto estratégico para a conquista de Baçorá

A 2ª Brigada da 3ª Divisão de Infantaria destruiu

2 dos 3 postos iraquianos na fronteira Sul.

Objectivo: criar uma cortina de fogo que marcará

o começo da guerra terrestre

13


AP/JEROME DELAY

“E aqui vai uma frase de paleio de situação no dito dossier, máí nada”


PONTARIA MINISTERIAL

GUERRA DO GOLFO II

Os edifícios do Governo, em Bagdad,

foram dos primeiros alvos atingidos na

quinta-feira à noite, durante o segundo

bombardeamento, pelos mísseis

americanos. O Ministério do Comércio

também não escapou ileso

REUTERS/ROYAL NAVY


REUTERS/TIMOTHY SMITH


FRENESIM AERONAVAL

Os porta-aviões dos EUA revelaram-se

decisivos durante o ataque. Na pista

do USS Constellation, a actividade

do Esquadrão 38 de Controlo Marítimo

foi quase sempre incessante desde

as primeiras horas de quinta-feira, 20


REUTERS/U.S.NAVY PHOTOGRAPH/PATRICK REILLY

“E aqui vai uma frase de paleio de situação no dito dossier, máí nada”

CUSPIDORES DE FOGO

Fundeado no mar Vermelho, o destroyer

USS Donald Cook foi um dos vasos

de guerra que disparou mísseis Tomahawk

contra o território iraquiano


GUERRA DO GOLFO II

MÍSSIL DE SUA

MAJESTADE

Um submarino britânico

estacionado no Golfo

lança um dos primeiros

Tomahawk do arsenal

da Marinha Real

em direcção a Bagdad

REUTERS/ROYAL NAVY


“E aqui vai uma frase de paleio de situação no dito dossier, máí nada”


GUERRA DO GOLFO II

AMEAÇA QUÍMICA

Soldados americanos no Kuwait

vestem fatos de protecção

nuclear, biológica e química,

dentro de um bunker, após uma

sirene alertar para a hipótese

de um ataque com gás

AP/ED WRAY


GUERRA DO GOLFO II

FALSO ALARME

Os mísseis iraquianos lançados

sobre o Kuwait eram ogivas

convencionais, mas obrigaram

os jornalistas da BBC, escondidos

num abrigo do hotel, a testar

os equipamentos contra a guerra

química e bacteriológica


AP/WALLY SANTANA


JEAN-MARC BOUJU/AP

GUERRA DO GOLFO II “E ??? aqui vai uma frase de paleio de situação no dito dossier, máí nada”

24 VISÃO 21 de Março de 2003


GUERRA DO GOLFO II

CONQUISTADORES

A Infantaria norte-americana

prepara-se para marchar,

na tarde de quinta-feira, 20,

pelo deserto do Kuwait,

rumo a território iraquiano

VISÃO 21 de Março de 2003 25


AP/ED WRAY

GUERRA DO GOLFO II


ESCUDOS

PROTECTORES

Soldados dos EUA em acção

no Kuwait, em Doha,

dispararam mísseis Patriot

que interceptaram e destruíram

mísseis iraquianos


GUERRA DO GOLFO II

“E aqui vai uma frase de paleio de situação no dito dossier, máí nada”


GUERRA DO GOLFO II

A CAMINHO DO IRAQUE

A 3.ª Brigada da 101.ª Divisão

Aerotransportada dos EUA

foi das primeiras unidades

a entrar no país de Saddam

AP/JEAN-MARC BOUJU


GUERRA DO GOLFO II “E aqui vai uma frase de paleio de situação no dito dossier, máí nada”

CURDOS IRAQUIANOS

O sorriso das crianças dentro

de uma tenda de refugiados,

poucas horas antes do início

da guerra, na região

de Rashank, perto da cidade

de Dohuk, na zona administrada

pelos curdos, no Norte

do Iraque, desde 1991


GUERRA DO GOLFO II

REUTERS


GUERRA DO GOLFO II

FILIPE LUÍS • ENVIADO ESPECIAL

Cai a noitinha em Azraq, uma espécie

de Pegões, onde a estrada

que vem de Amã, capital da Jordânia,

se divide em dois braços,

um em direcção à Arábia Saudita, a 90

quilómetros, o outro rumo a Al Karama

(fronteira do Iraque), um pouco mais longe.

Faltam, precisamente, oito horas para

o primeiro ataque americano a Bagdad.

É de Al Karama que regressamos, depois

de um dia a comer pó e areia, tendo o Iraque

à vista, a poucas centenas de metros.

Tínhamo-lo visto todo o dia, num vaivém

Com os refugiados

JORDÂNIA

A fronteira do inferno

Agora que as bombas começaram a cair no Iraque, a linha que separa

a Jordânia do país de Saddam pode parecer um ponto de esperança

para os refugiados. Mas há, também, um inferno que os aguarda.

Histórias da fronteira entre a ansiedade e a guerra

incessante, naquela estrada estilo IP, uma

semi-recta de quase 400 quilómetros a

rasgar o deserto, uma peneplanície cheia

de pedregulhos pretos, como que atingida

por uma maré negra vinda de um mar

inexistente. Tínhamos trocado sorrisos

com os motoristas iraquianos daqueles

autotanques de matrícula azul escura e

inscrições em árabe, dezenas, centenas de

autotanques, ou melhor dizendo, de camiões

velhos, quase todos Mercedes, de

focinho comprido, com tanques ferrugentos

carregados de combustível em cima.

São eles que asseguram os fornecinmentos

de fuel iraquiano à Jordânia. Vêm

FRONTEIRA

DE KARAMA

É o controlo possível,

sob o olhar do rei

Abdullah, da Jordânia

cheios, regressam vazios, voltam no outro

dia. Naquele telheiro de Azraq, à beira da

estrada, os camionistas reúnem-se aos

magotes. Cada camião que deveria regressar

ao Iraque faz ali a sua pausa. Os homens

trocam impressões. Paramos o carro,

lançamos um salam, sorriem muito.

Mas não falam inglês. Excepto, vagamente,

um deles, que julgo perceber se chama

Ahmed, e chegou a ter contacto com pessoal

das Nações Unidas. Com alguma dificuldade,

consigo entender que discutem

se devem voltar esta noite ou esperar pela

manhã. O ultimato de Bush expira antes

que atinjam o destino, um ponto no

32 VISÃO 21 de Março de 2003

LEFTERIS PITARAKIS/AP


Iraque que não identifico. Ele, Ahmed, vai

regressar. Tem mais um frete para o meio-

-dia do dia seguinte e não o falhará. Afinal,

a fronteira continua a funcionar normalmente.

Estivéssemos no México e este

compadre diria, com filosófica bonomia:

«No pasa nada.»

Bagdad: estranhos relatos

Sabemos, horas mais tarde, que o tímido

ataque inicial parece só um aviso dos

americanos: «Estamos aqui.» Mas a guerra

não precisa de muitas horas para começar

a sério e em várias frentes. Seis mísseis

Scud iraquianos terão sido lançados

contra o Kuwait. Nas 24 horas seguintes,

surgem informações de fogo de artilharia

da coligação anglo-americana sobre posições

iraquianas, num primeiro avanço de

tropas a partir do mesmo Kuwait. Há registos

de movimentações de forças terrestres

no Norte do Iraque. E as explosões

voltam a Bagdad.

Nada com que os negociantes iraquianos,

da capital, com quem converso em

Ruwaished, a 75 quilómetros da fronteira,

horas antes do primeiro ataque, não estivessem

a contar. Pela hora do almoço de

quarta-feira, 19, e com a ajuda de um intérprete

de ocasião, um comerciante local,

dizem-me que as ruas de Bagdad têm

vivido dias absolutamente tranquilos.

«Não há movimentos de tropas, as autoridades

aparentam uma estranha calma.

Enfim, isso quer dizer alguma coisa.»

O que é que isso quer dizer, ninguém especificou.

Mas é evidente que se trata do

vórtice do tufão, a falsa bonança entre as

ameaças de meses e os bombardeamentos

das próximas semanas. Um momento irreal

de paragem do tempo.

Ruwaished é uma sinistra terriola, mas

é o melhor que se pode arranjar no meio

do deserto pedregoso e poeirento, nas

proximidades dos campos de refugiados.

Ali, os moradores acumulam-se em cubículos

de familiares ou nos currais das ovelhas

(um mistério, a alimentação dos rebanhos,

a pastarem nada entre as pedras...),

para alugar quartos e casas a jornalistas

internacionais. Começam por pedir

500 dólares por noite, com garantia de

aluguer por dois meses. E há quem pague.

Este jackpot justifica-se, porque o lugarejo

tem uma posição estratégica antes da

fronteira com o Iraque. E está a apenas 30

quilómetros dos campos de refugiados

(que as autoridades dizem estar prontos

mas que, conforme confirmámos com os

próprios olhos, só um milagre fará com

que fiquem capazes de receber, a tempo,

um único fugido da guerra). Em Ruwaished

consegue-se, numa ou outra loja, uma

ligação à Internet, um comerciante tem

um computador para alugar, há rede de

telemóvel, e o vento não levanta tanta

areia. Este é um lugar onde se pode saborear

um belo naco de carneiro, enrolado

em pão árabe, mas onde o artista cozi-

GUERRA DO GOLFO II

lAL-RUWEISHID, A CERCA DE 50 KM DA FRONTEIRA COM O IRAQUE

Fugiram de casa nas traseiras de um camião. Decidiram procurar a paz no país vizinho

lPREPARATIVOS

No campo de refugiados de Al-Ruweishid espera-se a chegada de milhares de iraquianos

nheiro Mohammad também desenrasca

um hambúrguer com todos. Evidentemente

que o carneiro é muito melhor.

A fronteira

Poucas horas antes do ataque, a fronteira

com o Iraque é uma desilusão. Dois arcos

de betão armado, uma área militar

VISÃO 21 de Março de 2003 33

LEFTERIS PITARAKIS/AP KHALIL MAZRAWI/AP



GUERRA DO GOLFO II

CAMPO

DE REFUGIADOS

Os iraquianos

vão juntar-se

a nacionais

de outros estados

que aqui

encontram abrigo

A FRONTEIRA DO INFERNO

e alfandegária, depois o posto iraquiano,

que não conseguimos ver. Do lado de lá

da fronteira, o mesmo deserto, os mesmos

calhaus e a mesma areia. Continuará a ser

uma desilusão, nos dias imediatos ao fim

do ultimato. Bagdad está a cerca de 500

quilómetros. As bombas, por enquanto,

também. Os autotanques iraquianos continuam

a circular. Não há aparato militar,

nem hordas de refugiados a forçar a entrada

na Jordânia. Aliás, não podem, por

enquanto. As autoridades jordanas aguardam

um momento mais dramático da

guerra, um êxodo digno desse nome, para

começarem a receber iraquianos sem visto

no passaporte. E esses, com plafond

marcado, 5 mil, numa primeira fase, têm

destino certo para um dos campos de Ruwaished.

No segundo campo, destinado a

nacionais não iraquianos, estão já alojadas

algumas dezenas de pessoas, em trânsito

para os países de origem.

No entanto, sabemos que é ali que muitas

coisas se poderão passar. Será por ali

que se exercerá a pressão dos refugiados.

Será por ali que os jornalistas, já aos milhares,

na Jordânia, têm esperança de entrar

no Iraque. Aquela é, para uns e para

outros, a fronteira da esperança

Mas será, seguramente, a fronteira do

inferno. Não apenas pelo factor da guerra,

mas também pelo pesadelo do refúgio.

O campo «iraquiano» de Ruwaished está

instalado no pior sítio que atravessámos,

em toda a longa viagem rumo à fronteira

iraquiana. Uma paisagem e um ambiente

a fazer lembrar a versão do planeta Marte

num conhecido filme de Schwarzenegger.

O vento gelado faz redemoinhos e le-

vanta nuvens de pó que entram pelo cabelo,

pelas roupas, pelos olhos. E é ali que

desamparados trabalhadores, como Ahmed,

30 anos, Mossud, 25 e Edah, 22, têm

trabalhado, dia e noite, a montar latrinas,

a instalar tubos e a escavar uma enorme

fossa para onde será encaminhada a improvisada

rede de esgotos. Pior: é ali que

terão de sobreviver, primeiro ao frio, depois

sob sol inclemente, cinco a dez mil

desgraçados fugidos às bombas, aos tiros

e à fome. Olha-se para o campo e pensase

que melhor seria arriscar a bomba.

Modernas, as cabinas de zinco, equipadas

com latrina, autoclismo, lavatório e reservatório

de água, parecem ter condições.

Mas, entre a bruma das areias, parecem,

ao longe, tristes e imóveis marcianos no

seu planeta inóspito. Na ausência de qualquer

responsável do Crescente Vermelho

ou de qualquer outra autoridade, interpelo

os homens sobre o andamento dos trabalhos.

Mossud, o que melhor arranha o inglês,

desafia-me a experimentar uma latrina.

Faço-lhe notar que a fossa ainda não

está tapada. Ri-se muito. Acredita que está

a trabalhar para o boneco já que, na sua

opinião, não chegarão refugiados nenhuns.

Pergunto-lhe pelas tendas. Diz que

tendas, tendas, só mesmo as da polícia, lá

em cima. E aponta para uma dobra de terreno

mais elevada, a cerca de 40 metros.

Apesar das tentativas, a polícia, hoje, não

está para conversas com jornalistas.

Escudo humano à vista

A fronteira do inferno é, assim, neste

mesmo momento em que as bombas continuam

a fustigar alvos iraquianos, uma

estação perdida no espaço e no tempo.

Um apeadeiro do faroeste onde, dentro

em breve, a cidade dos refugiados começará

a crescer e onde a oportunidade fará

medrar a vizinha e medonha Ruwaished

que, embora conte apenas com uma rua,

é já uma metrópole internacional onde se

pode ouvir uma babilónia de línguas. Mas

é aqui, nos confins leste da Jordânia, que

se jogará a vida e a morte de alguns milhares

de inocentes.

Vejamos se é ou não assim: em Amã,

quinta-feira, enquanto as televisões internacionais

mostram o evoluir da guerra e

dos bombardeamentos, as Nações Unidas

e várias ONGs associadas apresentam o

ponto da situação. A UNICEF lembra

que as crianças serão sempre as maiores

vítimas. O representante do PAM (Programa

Alimentar Mundial) estima que

cerca de 2 milhões de pessoas vão precisar

de assistência, no decurso das próximas

duas semanas (para o que será necessário

um reforço de 1 bilião de dólares) e

pede aos países vizinhos (Jordânia, Irão,

Síria, Turquia) que abram as fronteiras

por razões humanitárias. Outra responsável

da ONU lembra que assistiremos a um

combate terrível contra a cólera, o tifo e a

desinteria e chama a atenção para o facto

de 600 mil iraquinaos sofrerem de diabetes.

Olha-se para os campos jordanos de

acolhimento, em especial para a falta de

cooperação das próprias condições da natureza

e pergunta-se «como?»

O tempo urge. A guerra começou e está

para lavar e durar. Não deixa de ser irónico

deparar, no lobby de um hotel, em

Amã, com um britânico, exibindo um cartaz

que diz: «Disponível para dar entrevistas.»

Trata-se, segundo se lê no mesmo

cartaz, de um «escudo humano». Mas o

que é que ele ainda estará aqui a fazer? ■

34 VISÃO 21 de Março de 2003

LEFTERIS PITARAKIS/AP


ALI JAREKJI/REUTERS

CONSEQUÊNCIAS

Quando o vizinho

é a guerra

Reservas de trigo, açúcar, arroz e combustível a postos

para enfrentar o conflito. Mas temem-se manifestações

violentas e uma malfeitoria israelita...

FILIPE LUÍS • ENVIADO ESPECIAL

Jalaba Hussein (Montanha de Hussein)

é uma das melhores zonas comerciais

de Amã. O espectáculo vazio

das suas lojas e centros comerciais é

bem um retrato da ansiedade dos jordanos,

agora que rebentou a guerra no vizinho Iraque.

Os jordanos não compram. E não

compram há meses. A guerra acena-lhes

com os fantasmas da inflação, do desemprego

e da miséria. Os cidadãos preocupam-se

e as autoridades, entaladas entre o discreto

apoio que quase se vêem obrigadas a dar

aos americanos e a opinião pública hostil à

guerra e a Israel, desejam que o pesadelo

passe depressa. Na própria véspera de expirar

o ultimato, quarta-feira, 19, o conselho

de ministros do Governo jordano debateu a

crise e anunciou medidas, já postas em prática.

Os ministros do Interior, Negócios Estrangeiros,

dos Recursos Aquáticos, da Saúde,

dos Recursos Minerais e da Energia e

dos Assuntos Islâmicos apresentaram planos

de contingência. Mohammad Adwan,

ministro da Informação, disse aos jornalistas

que não há razões para preocupação relativamente

aos fornecimentos de produtos

essenciais, alimentares e energéticos. A Jordânia

possui 200 mil toneladas de reserva

de trigo, o que daria para alimentar o país

durante quatro meses. As reservas de açúcar,

arroz e óleo vegetal dão para seis meses.

As refinarias têm 270 mil toneladas de petróleo.

Precavido para a vizinhança da guerra

(a Jordânia está muito dependente do

crude iraquiano) o Governo passou os últimos

dois meses a duplicar as reservas. Mesmo

assim, em caso de interrupção de fornecimento,

a Jordânia só terá petróleo para

dois meses.

Mas todas estas contas, bem como a linguagem

utilizada, nos últimos dias, pelas

autoridades, são evidências da proximidade

da guerra. Por exemplo, o Governo

acaba de apelar à população que colabore

com as autoridades em quaisquer medidas

ou circunstâncias excepcionais que, decorrentes

do conflito, venham a tornar-se necessárias

ou a verificar-se.

O factor israelita

Com metade da população de origem palestiniana,

a Jordânia é um dos países onde

se teme, caso a guerra dure muito tempo, a

ocorrência de manifestações populares vio-

GUERRA DO GUERRA GOLFO DOII

MUÇULMANOS

Os jordanos

receiam que

os israelitas

aproveitem para

expulsar massas

de populações

palestinianas para

a Jordânia

lentas, contra os EUA e contra Israel. Sobretudo,

os jordanos temem que os israelitas

aproveitem a onda para expulsar massas

de populações palestinianas para a Jordânia.

Uma hipótese de que o homem da rua

fala constantemente, e que as autoridades

levam muito a sério. Analistas garantem

que, enquanto durar a guerra, ocorrerão distúrbios

em campos de refugiados palestinianos,

em áreas urbanas muito povoadas e

nas zonas mais pobres do Sul do país. Cauteloso,

o líder islamita Abdul Latif Arabiyat

afirmou esta semana que «embora seja nosso

direito rejeitar esta guerra o mais firmemente

possível, fá-lo-emos sem nunca desrespeitar

a lei, como sempre fizemos».

A maior manifestação antiguerra, realizada

até agora em Amã, não terá ultrapassado as

cinco mil pessoas. Continuará a ser assim?

Entretanto, o Governo viu-se obrigado

a desmentir rumores que davam como

certa a presença de uma unidade israelita

a operar, com os americanos, na fronteira

jordano-iraquiana, onde se encontram baterias

antimíssil, para interceptar possíveis

projécteis lançados de solo iraquiano contra

Israel. O Executivo refere, quase todos

os dias, que a Jordânia não participa na

guerra nem servirá de base para qualquer

agressão contra o Iraque.

Embora não participe na guerra, a Jordânia

sabe que estará entre os que vão sofrer

as suas consequências. A discreta,

contida, ajuda aos americanos na fronteira

é um serviço mínimo que garante a sobrevivência

ao pequeno reino hachemita no

xadrez do pós-guerra. Mas o espinho de

Israel cravado no seu flanco oeste permanece

sem solução à vista, qualquer que

seja a duração e o resultado prático do

conflito. Até quando? ■

VISÃO 21 de Março de 2003 35


REUTERS/PETER MACDIARMID AP/AIR FORCE

GUERRA DO GOLFO II O arsenal

ARMAS

Guerra a partir dos céus

O primeiro capítulo da ofensiva contra o Iraque começa no ar: com os clássicos B-52

e F-16 a aliarem-se, desta vez, às novas «bombas inteligentes»

B-1B

De velocidade supersónica (1 500 km/h) e de alcance intercontinental, está equipado com armas

convencionais (incluindo de fragmentação) e de precisão (como a nova JDAM)

B-52

De longo alcance, velocidade supersónica

e multimissões, constitui o peso-pesado

dos bombardeiros americanos, estando equipado

com todo o tipo de armas e em maior quantidade

do que os anteriores

B-2 STEALTH

Armado com dispositivos nucleares, convencionais

e de precisão, a sua característica principal é no entanto

o ser indetectável aos radares inimigos

REUTERS/HYUNGWON KANG

F-117A NIGHTHAWK

Caça de ataque puro e duro. Por conseguir

escapar aos radares adversários recebeu

o nome de invisível, o que lhe permite

acções-relâmpago de grande eficácia. Pode

ser abastecido em pleno voo e pode

transportar todo o tipo de armas para

os mais variados tipos de ataque

36 VISÃO 20 de Março de 2003

AP/HERNANDEZ


REUTERS/VICENZO PINTO

AP/USAF

F-16

Para muitos o melhor caça de sempre, devido à sua elevada versatilidade de manobras

e grande eficácia quer no combate aéreo quer no ataque a alvos terrestres. Está equipado

com um canhão de 20 mm e até nove mísseis de cruzeiro. Dispõe ainda de um sistema

electrónico de contramedidas para «iludir» a trajectória de mísseis inimigos

EA-6B

PROWLER

Pode dizer-se que

representa os olhos

e os ouvidos da Força

Aérea americana.

Este avião consegue

captar todo o tipo

de comunicação e decifrar

qualquer código. Está

armado com o ALQ-99

e também com um

avançado sistema

de anti-radiação dos

mísseis inimigos (HARM)

AC-130

Além do apoio aéreo em combate, cumpre também com especial eficácia a vigilância

do espaço aéreo, e, para lá dos seus oito canhões, dispõe de um sofisticado equipamento

de contramedidas, de onde se destaca um sistema de bloqueio à navegação

do avião inimigo (ALQ-99)

GUERRA DO GOLFO II

F15-EAGLE

Considerado o ícone da aviação táctica dos EUA,

atinge os 2 500 Km/h e tem uma autonomia

de voo superior a 5 000 km. Está armado com

um canhão de 20 mm e pode comportar até 120

mísseis de cruzeiro Sparrow e SideWinder

A-10 THUNDERBOLT II

Tem sobretudo a função de dar apoio aéreo

a operações terrestres, sendo especialmente

eficaz na destruição de blindados inimigos.

Dispõe de um canhão de 30 mm e de variada

artilharia como: mísseis de cruzeiro e de precisão

(guiados por laser), bombas de pequeno

e médio impacto e contramedidas

VISÃO 21 de Março de 2003 37

EPA/RADOSTA

REUTERS/AIR FORCE AP/VICENT PARKER


REUTERS/RAYTHEON

GUERRA DO GOLFO II O arsenal

TOMAHAWK

Destinado a alvos terrestres, pode ser disparado

a quase 2 000 km de distância. Composto

de ogivas de explosivos ou nucleares,

o facto de voar muito abaixo da linha de radar

e de libertar pouco calor (o que dificulta

a sua intercepção) faz com que continue a

merecer as preferências dos americanos

AGM-142

De características semelhantes ao AGM-142,

detém um maior índice de precisão

para alvos mais específicos. Alcance: 85 km

AP/DANIEL SMITH

AIM-7

SPARROW

Míssil ar-ar guiado

por radar, com vista

à intercepção de mísseis

inimigos.

Alcance: 22 a 40 km

STORM SHADOW

É o último grito em mísseis de cruzeiro

«inteligentes». Guiado por GPS,

é particularmente eficaz na destruição

de edifícios fortificados. Alcance: 250 km

AP

MOAB (MASSIVE ORDINANCE AIR BUST)

Considerada a «mãe de todas as bombas», é talvez o engenho que mais se aproxima

de um dispositivo nuclear. Guiada por cinco satélites, é composta por uma mistura de nitrato

de amónio e alumínio em pó. Quando rebenta, cria uma onda de choque de centenas

de metros, à qual nada sobrevive.

38 VISÃO 21 de Março de 2003

AP/STEVE HELBER AP/MAYHEW JR.


AGM-45

MAVERICK

Míssil para alvos

de superficíe, guiado por

infravermelhos. Alcance:

informação classificada

AIM-9

SIDEWINDER

Míssil guiado por calor,

é considerado muito eficaz

na neutralização de aviões.

Alcance: 17 km

JDAM (JOIN DIRECT

AIR MUNITION)

Trata-se sobretudo de um kit de orientação

de bomba, através de um satélite GPS.

Tem um alcance de 15 milhas

E-BOMB

É no fundo um gerador de impulsos

electromagnéticos que avaria todos

os circuitos electrónicos de todas

as estruturas de defesa adversárias, o que

as deixa quase inoperacionais. A importância

deste novo engenho para o Pentágono

é tal, que os seus componentes foram

mantidos em segredo.

HTI J-1000

Bomba incendiária de alta temperatura

(1000 graus centígrados), destina-se

a destruir eventuais arsenais de agentes

químicos e bacteriológicos

As armas e o número de homens com que o regime de Saddam Hussein

conta para fazer frente ao ataque norte-americano e britânico

EXÉRCITO Efectivo total mais de 350 mil elementos

Exército regular (divisões) 17

Guarda Republicana (divisões) 6

Militares 60 a 70 mil

Guarda Republicana Especial

(brigadas) – especializada

em guerra urbana 4

Militares 20 a 25 mil

Organização de Segurança Especial (militares) 1 500

Principais tanques de guerra 2 200 a 2 600

Tanques T72 500 a 700

Tanques ligeiros (BMP-2, BDRM-2) 1 800

Veículos blindados de transporte de pessoal 1 800

Viaturas autopropulsadas de artilharia 200

Obuses rebocados 1 500 a 1 900

MiG-21

FORÇA AÉREA Efectivo 20 mil

Aviões de intercepção e de ataque ao solo 200 a 300

Helicópteros de combate 100

SA-6

As bateria de mísseis podem ser

recolocadas em nova posição de fogo

em menos de 15 minutos

Ogiva: 59 quilos

Alcance: 25 km

SA-7

Missil anti-aéreo

de tiro simples

Alcance: 3,5 km

Mísseis

Mísseis terra-ar: SA-2, SA-3, SA-6 400

Mísseis terra-terra:

Al-Samoud possivelmente 50 a 60

Plataformas e mísseis SCUD: 2 a 20

Fontes: International Institute for Strategic Studies, Jane s, Periscope, Center for Strategic Studies, GlobalSecurity.org

GUERRA DO GOLFO II

SCUD-B

Ogiva: uma tonelada

Alcance: 480 km

Tanque M-72

DEFESA ANTI-AÉREA Efectivo 17 mil

Mísseis terra-ar portáteis 1 000

Armas anti-aéreas 6 mil

SA-2

Sistema duplo de mísseis

Ogiva: 195 quilos

Alcance: 30 km

Altitude: 25 mil metros

VISÃO 21 de Março de 2003 39

VISÃO/GRAPHIC NEWS


GUERRA DO GOLFO II Avalancha de barbárie

MESOPOTÂMIA

O berço da

civilização

em perigo

Os bombardeamentos

anglo-americanos

da nova Guerra do Golfo

poderão destruir locais

arqueológicos dos mais

importantes do mundo

HOLLAND COTTER

OIraque tem centenas de milhares

de sítios arqueológicos. Destes,

foram identificados cerca de

10 mil, mas só uma pequena parte

foi explorada. Qualquer deles pode alterar

o que sabemos da história humana,

como aconteceu com as escavações já

efectuadas. Algumas revelaram as primeiras

aldeias e cidades conhecidas e os primeiros

exemplos de escrita.

O país é igualmente um dos principais

centros de arte e cultura do Islão. Alberga

alguns dos primeiros exemplos sobreviventes

de arquitectura islâmica – a Grande

Mesquita de Samarra e o palácio de

Ukhaidar – e é também uma atracção para

a peregrinação religiosa. Os túmulos do

imã Ali e do seu filho Hussein, fundadores

do ramo xiita do Islão, em Najaf e Carbala,

são dos mais venerados do mundo

muçulmano.

Durante a Guerra do Golfo, em 1991,

pelo menos um importante monumento

arqueológico, o colossal zigurate de Ur, foi

bombardeado. As explosões danificaram

estruturas frágeis como a grande abóbada

de Ctesífona e a universidade do século

XIII denominada Mustansíria, em Bagdad.

Vejamos alguns dos sítios arqueológicos

que correm maior risco com a guerra:

• UR, que floresceu no terceiro milénio

antes de Cristo e é identificada na Bíblia

SUMÉRIA

Cabeça de leão, de

prata, e fundações

de um edifício, que

datam de 2500 a.C.

FOTOS: THE NEW YORK TIMES/JOHN MALCOLM RUSSELL

como terra natal de Abraão. Nos anos 20

e 30 do século XX, uma equipa anglo-

-americana escavou um cemitério real em

que eram sepultados os membros de uma

poderosa elite juntamente com os criados

e peças requintadamente lavradas. Mas a

característica mais espectacular de Ur é o

seu imenso zigurate, ou torre com rampas,

a mais preservada do Iraque. Embora

as escavações estejam mais avançadas

aqui do que em qualquer outro sítio do

Iraque, estão longe de estar concluídas,

ainda com muitas camadas por descobrir.

• BABILÓNIA (1700-600 a.C.) é um fascínio

histórico. Construída nas margens do Eufrates,

foi a capital de Hamurábi, Nabucodonozor

e Alexandre Magno. Foram ali

descobertos os vestígios monumentais da

Porta Ishtar, e procede-se a tentativas de

identificação dos locais da Torre de Babel

e dos Jardins Suspensos. Como local de

cativeiro dos hebreus bíblicos, a cidade é

um símbolo recorrente da narrativa judaico-cristã.

O sítio de Nipur, um importante

centro religioso da antiga Babilónia dedicado

ao deus Enlil, também se situa nesta

região do Iraque, uns 160 km a sul de

Babilónia. Foi ali descoberta uma ampla

sequência de olaria pré-islâmica.

• NÍNIVE, no Norte do país, foi a cidade imperial

dos reis assírios Senequeribe (704-

-681 a.C.) e Assurbanípal (668-627 a.C.).

Foram ali encontrados palácios reais com

magníficas esculturas, bem como mais de

20 mil placas cuneiformes da biblioteca de

Assurbanípal. O profeta bíblico Jonas pregou

em Nínive. Depois da Guerra do Golfo,

as esculturas dos palácios escavados foram

saqueadas. Nínive consta da lista dos

cem sítios de valor artístico-cultural mais

ameaçados elaborada pelo Observatório

dos Monumentos do Mundo.

• CTESÍFONA (100 a.C. a 900 d.C.) é uma das

grandes maravilhas arquitectónicas. O salão

de audiências é apenas uma cobertura,

mas a sua graciosa abóbada, com 36 metros

de altura e 25 de vão, está intacta. Pensa-se

que as fissuras ocorridas em 1991 foram

reparadas por arqueólogos iraquianos,

mas os abalos mais violentos das instalações

militares próximas podem destruí-la.

Embora permaneçam enterrados quantidades

desconhecidas de documentação

do Iraque antigo, a arte islâmica está quase

toda a descoberto, e abundam os monumentos

com profundo significado cultural

e religioso.

• BAGDAD é um desses locais. Outrora lendária

pela sua riqueza, saber e beleza (muitas

dos contos d’As Mil e Uma Noites passam-se

ali), foi por diversas vezes devastada.

E embora nada reste da sua planta circular

original, sobrevivem edifícios soberbos

do período medieval tardio, como túmulos,

mesquitas, minaretes, a universidade

e a venerada mesquita e altar de Cadumain.

Bagdad alberga igualmente o maior

museu arqueológico do país, com a melhor

colecção de arte suméria, babilónica e

assíria existente no mundo.

• SAMARRA, que foi capital dinástica por

breve período, possui edifícios islâmicos

extraordinariamente precoces. As ruínas

da Grande Mesquita de Mutawaki, do século

IX, têm intacto o seu minarete em es-

40 VISÃO 21 de Março de 2003


piral, um ícone da arte islâmica. A cidade

alberga ainda um dos mais antigos túmulos

islâmicos conhecidos, um antigo palácio

califal e a única ponte de tijolo do Iraque,

datada de 1128.

• MOSUL, a terceira maior cidade do Iraque

(depois de Bagdad e Baçorá), no Norte,

junto do Tigre, está pouco estudada pelos

investigadores ocidentais. A sua rica

arquitectura inclui o minarete inclinado

da agora destruída mesquita de Nur Ad-

-Din. A cidade também atrai peregrinos

aos túmulos de personalidades muçulmanas

e reúne alguns dos primeiros mosteiros

cristãos, datados do século IV. O seu

museu alberga importantes antiguidades

assírias das escavações realizadas em Nínive,

Corsabade e Assur.

Dos muitos monumentos islâmicos fora

das cidades, um dos mais antigos é o

palácio fortificado de Ukaidar, do século

VIII. Ninguém sabe por que razão fica

num lugar tão remoto, mas as terras circundantes

eram provavelmente irrigadas

para culturas e jardins, e o palácio parece

ter sido uma cidade em miniatura que se

sustentava a si própria. Arquitectonicamente,

é também um exemplo da tendência

multicultural que sempre definiu a cultura

islâmica, neste caso juntando influências

persas, sírias e bizantinas.

«Se qualquer dos altares sagrados xiitas

de Carbala, Najaf e Cadumain forem atingidos,

só poderemos esperar uma reacção

indignada de todos os muçulmanos», disse

Zainab Bahrani, que nasceu no Iraque

e ensina arte islâmica na Universidade de

Columbia. «Seria como bombardear a catedral

de S. Pedro, em Roma». ■

© The New York Times/VISÃO

ZIGURATES

As ruínas do templo

de Enlil e a grande

mesquita

de Mutavaki,

em Samarra,

são apenas

dois dos locais

ameaçados

Berço da civilização – de Babilónia a Bagdad

Zigurate de Ur

Templo piramidal sumério

Mosul

Museu de História

Assíria e Islâmica

Código de

Hamurábi

O rei assírio Assurbanipal

(em cima) fundou a grande

biblioteca de Nineve

Bagdad

Museu de Antiguidades

Palácios e Mesquitas

Babilónia

Samarra

Antiga capital

árabe.

Século XIX

Sítios

arqueológicos

assírios

Nimrud Assur

Kerbala

Local sagrado

Uruk

Eridu

Escrita cuneiforme

A mais antiga forma de escrita,

criada pelos sumérios

cerca de 3000 a.C.

Ur

Baçorá

Considerada o local

do Jardim do Éden

GUERRA DO GOLFO II

3000 AC 2000 AC 1000 AC 1000 DC 1918

Domínio sumério

babilónico/assírio parto árabe

Neobabilónico

persa

grego

mongol

A partir de 7000 a.C. Camponeses

do Norte migram para sul, fixando-se

na Mesopotâmia – terra entre-os-rios

Ctesífona: Antigo

viaduto de tijolo

Nipur

Centro

religioso

sumério

100 km

otomano

Período sumério Desenvolvem-se

as artes, a agricultura e a ciência. Surgem

cidades-estado, como Eridu, Uruk e Ur

– considerada a mais antiga cidade do mundo

Babilónico O rei Hamurábi congrega

as cidades-estado em redor de Babilónia

em 1750 a.C. O código de Hamurábi

é o antecessor do actual sistema jurídico

Assírio Império poderoso, a norte, invade

e destrói Babilónia em 689 a.C.

Neobabilónico Nabucodonozor II reconstrói

a cidade. A sua Torre de Babel e os Jardins

Suspensos contribuem para fazer de Babilónia

a mais esplêndida cidade do mundo antigo

Persa Ciro o Grande conquista

a Mesopotâmia em 539 a.C. – região que se

torna a província mais rica do império persa

Grego Alexandre o Grande conquista a

Mesopotâmia em 331 a.C. – as ideias helénicas

conjugam-se com as tradições locais

Partiano/Sassânico Novas tribos

persas derrotam os gregos por volta

de 130 a.C. Constroem uma nova

e esplêndida capital, Ctesífona

Árabe Os árabes muçulmanos derrotam

os persas em 637. Bagdad é proclamada

capital, em 762, e torna-se o centro intelectual

durante a era de ouro do Islão

Mongol Hordas mongóis destroem Bagdad,

em 1258, massacrando o califa e os cidadãos.

A economia fica de rastos, durante séculos

Otomano Os turcos conquistam a região,

em 153. A ocupação perdura até ao colapso

do império Otomano, em 1918

VISÃO 21 de Março de 2003 41

©GN/VISÃO


GUERRA DO GOLFO II O comandante

TOMMY FRANKS

Homem de cortar

a direito

O comandante das forças invasoras odeia a ribalta,

mas é obrigado, desta vez, a ocupar o centro do palco

na guerra contra o Iraque

Há generais para todos os gostos –

barulhentos e impertinentes, cerebrais

e livrescos, e, ocasionalmente,

um pouco irritantes. Tommy

Ray Franks não é nada disso: é expedito,

divertido, muito reservado, ferozmente trabalhador

e, todos o dizem, um excelente líder

de soldados, particularmente tropas recrutadas.

É também, pelo menos em público,

o tipo forte e calado, o bom soldado

que evita a ribalta em contraste marcado

com alguns dos seus antecessores no Comando

Central. Tudo isto faz de Franks, 57

anos, o homem ideal como general de mão

da segunda Administração Bush. O almirante

reformado Archie Clemins, que comandou

a Esquadra do Pacífico quando

Franks prestou serviço na Coreia durante

seis anos, referiu que «muitos generais têm

uma personalidade para os meios de comunicação,

e depois têm a sua personalidade

real. Com Tommy, o que vemos é o

que temos».

Agora, quando os EUA concluem uma

guerra no Afeganistão e lançam uma segunda

no Iraque, é cada vez mais claro que

Franks não é a metade melhor de Donald

Rumsfeld, é certamente a sua outra metade,

o seu alter ego, o soldado do soldado

que pode influenciar o supercivil e lembrar-lhe

delicadamente que as batalhas se

ganham não com ostenta-

ção, mas geralmente com

números. Se o Afeganistão

tivesse sido travado à moda

de Rumsfeld, podíamos ainda

ter comandos montados

em mulas à procura dos talibãs.

Se a guerra tivesse sido

travada à moda de

Franks, talvez se tivesse

apanhado Usama bin Laden

há muito tempo – mas

só pondo, previamente,

cem mil efectivos em posição.

É um pouco exagerado

dizer que Franks e Rummy

são como a tartaruga e a le-

VIDA DE GENERAL

– Acorda todos os dias às

4 da manhã, e faz ginástica

durante 30 minutos

– É fã de música country

(Garth Brooks e Travis Tritt)

e de canções pop dos anos 50

– Foi três vezes ferido

em combate

– Quando se casou, há 35

anos, prometeu à mulher

Cathy que abandonaria

o exército dois anos depois.

Mas nunca despiu o uniforme

bre: um está sempre com pressa; o outro

leva o seu tempo. Mas é justo dizer que as

capacidades e instintos de cada um compensam

as fraquezas do outro.

Quartel-general

O Comando Central dos EUA (Centcom)

é uma das organizações mais estranhas

das Forças Armadas americanas.

Não tem tropas a que chame suas, apenas

a responsabilidade por um imenso arco

que vai do Corno de África ao Paquistão,

que alberga algumas das zonas mais perigosas

do mundo. A tarefa de Franks – assegurada

no passado por homens como

Norman Schwarzkopf e Anthony Zinni –

é manter contacto com os dirigentes civis

de cada um dos 25 países da região no caso

de os EUA precisarem de entrar a curto

prazo para limpar as coisas. O trabalho

do Centcom é simultaneamente estratégico

(há que estar de boas relações com o

general Pervez Musharraf do Paquistão) e

tremendamente pormenorizado (há que

assegurar que um quarto de milhão de

efectivos têm o suficiente de tudo, desde

balas tracejantes a lâminas de barba descartáveis).

A partir de um enorme quartel-

-general em Tampa, na Florida, que parece

um grande hipermercado sem os

anúncios luminosos, Franks e um quadro

de 3 200 militares co-

mandam a guerra. Agora,

estão todos estacionados

no Qatar, a comandar as

operações.

Planos revistos

Há mais de um ano,

quando o Presidente

George W. Bush e Rumsfeld

pediram pela primeira

vez a Franks um plano para

derrubar Saddam, este

disse que precisava de cinco

divisões e cinco porta-

-aviões para fazer o trabalho.

É sabido que o cons-

METÓDICO

Tommy Franks passou

um ano a preparar

os planos desta guerra

ternado Rumsfeld devolveu o plano duas

ou três vezes, pedindo ao general para reduzir

as forças a metade, ou mesmo mais. Seguindo

a doutrina de Powell que todos os

generais da era Vietname subscrevem,

Franks queria uma força esmagadora para

garantir que a América se imporia. Rumsfeld

pretendia que ele tornasse isso mais rápido

e ligeiro, em parte porque não desejava

esperar os quatro ou cinco meses necessários

para aprontar todas essas tropas.

Agora, com a guerra já iniciada, o plano parece

notavelmente similar ao que Franks

propôs há mais de um ano: há cinco porta-

42 VISÃO 21 de Março de 2003


-aviões deslocados no Mediterrâneo e no

Golfo Pérsico, o equivalente a cinco divisões

foi projectado para posições em redor

do Iraque, e estão na região 250 mil efectivos

no total.

Muitos dos que conseguiram quatro estrelas

nos ombros no passado dizem que

Franks já excedeu as expectativas dos seus

detractores. «Rumsfeld nem sempre sabe o

que quer, mas sabe o que não quer», diz

um responsável do Pentágono. «Franks é

bom a indicar-lhe o que ele quer.»

Franks dá-se bem com Rumsfeld. E, numa

entrevista, Rumsfeld manifestou orgu-

AP/SCOTT MARTIN

lho no seu marechal de campo

por ser aberto a novas

ideias. «É inteligente e rápido,

e sabe do seu ofício», disse.

«Domina completamente

essas matérias. Só se importa

com o que é a maneira mais

eficaz de pôr poder militar

num alvo militar – o que não

é a norma, necessariamente.»

Espírito de soldado

Franks retrai-se claramente

de travar batalhas que não

possa vencer. E como todo o

bom soldado, o general sabe

quando deve manter a cabeça

baixa. Rumsfeld adora a ribalta;

Franks adora ficar fora

dela. «Franks achava que

Schwarzkopf teve um perfil

demasiado alto durante a

Guerra do Golfo», diz um subordinado

que trabalhou no

Centcom. «Acha isso espalhafatoso.»

De facto, Franks

sente-se bem melhor atrás do

pano. Um oficial da Marinha

refere isso doutra maneira:

«Tem sido um tipo de perfil

baixo durante toda a carreira.

Foi o segredo do seu êxito.»

Franks nasceu na pequena

cidade de Wynnewood,

mas mudou-se com o pai

mecânico e a mãe doméstica

para Midland ao mesmo

tempo que o clã Bush chegava

do Connecticut. As

duas famílias não se conheciam,

mas Franks andou no

liceu com a futura mulher

de Bush, Laura.

Perfil militar

Foi na poeirenta Midland

que Franks conheceu alguns

dos prazeres mais simples da vida: caçar

pássaros e andar de bicicleta, fumar charutos

e beber margaritas. Depois do liceu, foi

para a Universidade do Texas, mas abandonou

e alistou-se no Exército. Começou

como soldado raso em 1965, mas acabou

como oficial de artilharia passados dois

anos. No Vietname, esteve a maior parte

do tempo à frente de tropas terrestres dos

EUA com a 9.ª Divisão de Infantaria, dirigindo

o fogo de artilharia contra as posições

inimigas. Franks foi ferido três vezes,

pelo menos uma com gravidade. As suas

pernas conservam as cicatrizes, mas os

GUERRA DO GOLFO II

pormenores são escassos porque Franks,

como muitos outros veteranos de guerra,

querem que seja assim. Vários oficiais que

conviveram com ele durante anos dizem

que nunca o ouviram falar disso. A sua

biografia oficial refere apenas que tem três

Corações Púrpura.

Percorreu firmemente a escadaria promocional,

muitas vezes despretensiosa, do

Exército, servindo no Texas, Coreia, Alemanha

e no Pentágono. Depressa ganhou

reputação de inovador em armas de combate.

O general reformado Crosbie Saint

afirma que Franks foi, na prática, o autor

da ideia de utilizar artilharia de longo alcance

contra alvos em movimento.

Mas Franks destacou-se noutra missão

de todas as outras estrelas em ascensão: fazer

pela sorte. Nos anos 80 e 90, quando

ainda era oficial inferior, teve cargos junto

de homens que iriam entrar no clube mais

exclusivo do Exército: o dos generais de

quatro estrelas. Só há nove no Exército.

«Há muitos jovens coronéis que nunca são

notados», revela o general na reforma Richard

Lawrence, sob cujo comando

Franks serviu duas vezes. «Tommy teve a

vantagem de estar perto de pessoas que subiram

muito nas fileiras.»

Isso foi muito antes de Franks ser um

homem predestinado. Depois de servir na

Tempestade no Deserto a comandar unidades

de helicópteros e terrestres, o alto

comando do Exército confiou-lhe a tarefa

de reformular o serviço para o mundo do

pós-guerra fria. «Tem uma capacidade excepcional

para encarar situações complexas

e passar do conceito à aplicação», diz

Sullivan, que iniciou esse esforço. Nos

anos 90, Franks deparou com uma vaga

contínua de encargos valiosos, culminando

no Comando Central, e a sua quarta estrela,

em Julho de 2000.

O 11 de Setembro lançou Franks numa

trajectória diferente. A guerra no Afeganistão

foi uma operação inicialmente conduzida

pela CIA mas que gradualmente se

transformou numa operação mais tradicional

do Centcom. Franks, de início, não

agradou à Casa Branca. Bush e Rumsfeld

estavam impacientes com o progresso da

guerra. Franks tinha a reforma prevista para

meados de 2002, e se a equipa de Bush

tivesse querido trocar de generais, poderia

facilmente tê-lo feito. Mas Bush pediu a

Franks para ficar ao serviço mais um ano

por ser fácil trabalhar com ele. E nessa altura

o general já tinha ganho a confiança

de Rumsfeld. ■

@TIME/VISÃO

VISÃO 21 de Março de 2003 43


GUERRA DO GOLFO II Tragédia humanitária

lABANDONO

Um grupo de curdos prepara-se para sair da cidade de Dohuk, na região administrada

pela minoria que se separou do regime de Saddam em 1991

AJUDA

Um grande

dano colateral

Dez milhões de iraquianos, mais de um terço da população,

precisarão de cuidados urgentes, após a ofensiva,

que poderá causar 500 mil baixas, prevê a ONU

HENRIQUE BOTEQUILHA

Apartir do momento em que as primeiras

bombas caíram sobre Bagdad,

começou a contagem decrescente

para uma catástrofe humanitária

superior àquela que os iraquianos

sofreram em 1991.

A Operação Tempestade no Deserto

causou 3 500 mortos, em consequência directa

da ofensiva, mais cerca de 110 mil civis

(70 mil dos quais crianças) vítimas do

que se chamou «efeitos adversos sobre a

saúde, provocados pela guerra».

Além disso, deixou um embargo económico

como herança, que tem mantido

60% da população iraquiana totalmente

dependente do Estado em matéria alimentar,

além de danos sérios nos sistemas de

abastecimento de água e de energia.

Se a situação era negra, com o ataque

militar em curso poderá tornar-se «num

pesadelo», na expressão de Ramiro Lopes

da Silva, o português que coordena a acção

humanitária da ONU no Iraque e que, em

vésperas dos primeiros bombardeamentos,

montou base em Larnaca, no Chipre.

A guerra, segundo um relatório confi-

dencial elaborado no início deste ano pelas

Nações Unidas, poderá produzir meio milhão

de baixas, entre mortos e feridos graves,

cem mil em combate e 400 mil no caos

que se seguirá.

Inicialmente secreto, para afastar a ideia

de que se considerava o ataque inevitável,

o documento acabou por ser revelado por

um grupo antiguerra da Universidade de

Cambridge, no Reino Unido. A ONU autenticou

a sua veracidade. Destituir Saddam

Hussein pela força, diz o relatório, implica

sérios riscos de fome e doenças. Cerca

de 10 milhões de iraquianos, incluindo

2 milhões de refugiados e deslocados, precisarão

de assistência urgente.

Ramiro Lopes da Silva confirma a existência

de «condições para uma gigantesca

deslocação de pessoas e enormes necessidades

alimentares». Já Ruud Lubbers, alto

comissário das Nações Unidas para os Refugiados

(ACNUR), deixara um aviso no

mesmo tom: «Acreditem-me [a guerra no

Iraque], será um desastre do ponto de vista

humanitário.»

Petróleo por fome

A primeira consequência da guerra

anunciada contra o Iraque foi a suspensão

do programa Petróleo por Alimentos,

iniciado em 1996, para reduzir os efeitos

do embargo, na população civil.

Agora, sem produção de petróleo, o

Governo de Bagdad deixa de fornecer

comida, em rações diárias de 2, 215 quilocalorias

cada, a 24 milhões de pessoas.

Espera-se que o stock se esgote em menos

de um mês. Envolvendo 46 mil funcionários,

foi a maior operação de distribuição

de alimentos de sempre.

Apesar do feito histórico, muitas famílias,

não tendo forma de ganhar dinheiro,

vendiam as suas rações para comprar outros

bens, como medicamentos e roupas.

De acordo com a UNICEF, 18 milhões

de pessoas viviam mesmo numa situação

de insegurança alimentar. E na hora do

ataque militar, o Iraque apresentava o indicador

perturbante de 500 mil crianças

malnutridas. A taxa de mortalidade infantil

(136 por mil nado-vivos) é actualmente

2,5 vezes maior do que em 1991.

A agência de assuntos humanitários da

ONU prevê, por outro lado, que metade

dos iraquianos deixe de ter acesso a água

potável, conduzindo à proliferação de

doenças como a cólera, a disenteria e o

sarampo, que poderão atingir a escala de

epidemias ou até de pandemias. Os hospitais

e clínicas de saúde dispõem de medicamentos

suficientes para três a quatro

44 VISÃO 21 de Março de 2003

REUTERS

DAVID GUTTENFELDER/AP


semanas apenas. No caso de se confirmar

que os bombardeamentos atingirão

maior intensidade na região centro do

país, sobretudo em Bagdad, espera-se um

movimento de civis para sul do país, onde

se deverá concentrar a grande fatia de

pessoas necessitadas de assistência imediata:

5,4 milhões, segundo o estudo da

ONU. A norte, nas três províncias administradas

pelos curdos, diz o mesmo documento,

mais 3,7 milhões vão carecer de

auxílio com urgência. Com estradas, pontes,

linhas de caminho-de-ferro e portos

destruídos ou inacessíveis, será tudo muito

mais difícil.

‘Catástrofe iminente’

Enquanto se posicionam para prestar

auxílio à população iraquiana, as organizações

humanitárias fazem contas ao total de

pessoas deslocadas de suas casas, entre

dois e três milhões.

O ACNUR prevê, por seu lado, um movimento

de, pelo menos, 600 mil refugiados

para os países vizinhos. Na versão pessimista,

o número atinge 1,45 milhões. Metade

deverá seguir para o Irão, os restantes

para a Turquia, Arábia Saudita, Jordânia e

Síria. Estes somam-se a cerca de 900 mil

refugiados já existentes no Iraque, a maioria

dos quais curdos.

Nas cidades controladas por esta minoria

iraquiana tem-se assistido a um estranho

movimento de partidas e chega-

DEPENDÊNCIA

Com o início

da guerra, foi abandonado

o programa Petróleo por

Alimentos, que fornecia

comida a 24 milhões

de iraquianos, ou seja, quase

a totalidade da população

das. Por um lado, são as famílias curdas

que abandonam a região, temendo agressões

de Bagdad com armas químicas. Por

outro, chegam milhares de pessoas que

fogem do conflito no centro do país.

O parlamento do Curdistão declarou o

estado de emergência.

Para financiar as suas nove agências destacadas

para a operação

Iraque, as Nações Unidas

precisariam de 123 milhões

de dólares, dos quais

quase metade seria dirigido

para o ACNUR. Mas na

sede da organização, em

Nova Iorque, só entraram

34 milhões.

Na Jordânia, estavam a

ser preparadas condições

de acolhimento para 35

mil pessoas (ver peça de

Filipe Luís, enviado especial

à Jordânia, nas páginas

anteriores). Devido à

falta de fundos, não se

conseguiu ir além das 10

mil. A falta de meios já levou

o secretário-geral da

organização, Kofi Annan,

a pedir a atenção da comunidade

internacional

para a crise humanitária

que se avizinha. E receia

ter de voltar a fazê-lo.

Água potável • Metade

dos iraquianos poderá ficar

sem acesso a água própria

para consumo e mais vulnerável

a doenças como a cólera,

a desinteria e o sarampo

Refugiados • A ONU

espera, pelo menos, 600 mil.

As piores previsões apontam

para 1,4 milhões refugiados,

que se somam a cerca de

900 mil já existentes no país,

a maioria dos quais curdos

Financiamento • As nove

agências das Nações Unidas

envolvidas na operação

Iraque precisam de 123

milhões de euros. A parte

de leão destina-se ao auxílio

a refugiados. Do total, só

entraram nos cofres

da organização 34 milhões

lRAMIRO LOPES DA SILVA

A ofensiva poderá tornar-se «um pesadelo», diz

o chefe da agência humanitária da ONU no Iraque

lAJUDA PORTUGUESA DE 16 TONELADAS

Medicamentos e comida destinados à Jordânia

Nessa altura, «envolvendo somas muito

superiores».

Da Turquia, um responsável da ONG

Crescente Azul relata à VISÃO um «êxodo

gigantesco» de iraquianos rumo a norte.

Segundo Mozaffer Bacca, em 1991, o

número de refugiados quedou-se pelos 50

mil. Agora, crê, poderá atingir 200 mil:

«Mesmo com boa vonta-

de, entre os meios disponibilizados

pelo Governo

turco e outras organizações,

não há capacidade

para socorrer esta gente

toda. A catástrofe é iminente.»

Última cruz em Bagdad

Quem tem família numa

aldeia remota do Iraque ou

dinheiro para pagar uma

viagem para uma qualquer

fronteira, partiu. Mas os

efeitos do embargo deixaram

uma vasta parte da população

de Bagdad sem

meios para se preparar para

o conflito: um veículo de

transporte, combustível ou

até compras de mercearia

para abastecer a despensa.

«Se esta crise se prolongar,

a situação ficará muito difícil

de sustentar», declara

VISÃO 21 de Março de 2003 45

DIMITRI MESSINIS/AP


GUERRA DO GOLFO II Tragédia humanitária

CAMPO DE REFUGIADOS

Montada na fronteira

entre o Iraque

e a Jordânia, cidade

de lona não deverá

ter capacidade para

o êxodo que se prevê:

600 mil pessoas

em todas as fronteiras

dos países vizinhos

UM GRANDE DANO COLATERAL

à VISÃO Roland Huguenin Benjamim,

porta-voz do Comité Internacional da

Cruz Vermelha (CICV) na capital iraquiana,

que reclama ser a única ONG que permaneceu

no país.

Com Benjamin ficaram outros cinco internacionais,

o núcleo duro de uma equipa

da Cruz Vermelha e Crescente Vermelho,

que inclui mais quatro expatriados, na região

Norte, e 350 iraquianos prontos a trabalhar

em todo o território. Cabe-lhes garantir,

em caso de danos ou avarias, que as

bombas de água e os geradores de electricidade

continuem a funcionar para manter

a operacionalidade dos hospitais.

Fora do Iraque, várias ONGs internacionais

estão a posicionar-se nas fronteiras

dos países vizinhos. Só à sua conta, o

CICV espera auxiliar 250 mil refugiados.

A confirmar-se a operação, será a maior de

sempre da organização.

Do lado português, está agendada para

sábado, 22, a chegada de uma equipa

exploratória da Assistência Médica Internacional

(AMI) à Jordânia, com vista

à instalação de uma unidade clínica, na

fronteira com o Iraque. Os primeiros

planos da ONG previam o estabelecimento

de uma missão de emergência no

país de Saddam. Mas não foram concedidos

os vistos necessários.

Quando a ONU mandou retirar todo o

seu pessoal de Bagdad, Fernando Nobre,

médico e presidente da AMI, ficou inco-

modado: «Deve ser precisamente num

momento como este que se deve ficar e

apoiar a população civil iraquiana. Tiro o

chapéu aos elementos da Cruz Vermelha e

do Crescente Vermelho que se mantêm na

cidade.»

Remédios depois das bombas

Na noite do ultimato, segunda-feira,

17, de George W. Bush a Saddam Hussein,

dando-lhe 48 horas para sair do

Iraque com os dois filhos, o Presidente

dos EUA anunciou distribuição de alimentos

e de medicamentos, mal as forças

da aliança dirigida pelo seu país alcançassem

a vitória.

«Já não se separa a componente humanitária

de uma ofensiva militar», assinala

Fernando Nobre. O perigo, nota, surge no

momento em que são as próprias forças

beligerantes que controlam a assistência às

populações.

Nas operações terrestres, as forças americanas

têm preparadas equipas que acompanham

a evolução militar no terreno e

que serão as primeiras a entrar em contacto

com as comunidades iraquinas carenciadas

de auxílio. «São parecidos connosco,

excepto nas armas que empunham»,

ironiza um responsável da ONG Mercy

Corps, recordando a sua experiência no

Afeganistão. Só na altura que acharem

conveniente, as tropas permitirão o acesso

de outras organizações.

Numa reunião na Suíça, várias ONGs

exigiram aos governos envolvidos na guerra

do Iraque que façam uma distinção clara

entre assuntos militares e humanitárias.

«Os civis às organizações civis», reivindicou

a porta-voz da Oxfam.

Além da «perversidade da questão», como

classifica João José Fernandes, da ONG

Oikos, sobra a possível perda da confiança

das populações, que são assistidas por quem

os atacou – «efeitos colaterais».

«Sabemos hoje que 10% das bombas

utilizadas num ataque falham o alvo e que,

no Afeganistão, morreram 11 mil pessoas –

não eram militares talibãs, eram civis», recorda

Fernando Nobre. Na madrugada de

quinta-feira, 19, o início da ofensiva esteve

longe da ameaça, revelada há um mês, da

utilização de três mil bombas no primeiro

raide aéreo anglo-americano. «E nessa altura

alguém se lembrou das 300 que iam

cair ao lado?» ■

▲ 46VISÃO 21 de Março de 2003

JEAN-MARC FERRE/AP

lAPELO DA CRUZ VERMELHA

«Respeitem a Convenção de Genebra»

GLEB GARANISH/REUTERS


Aguerra dita «preventiva» instaura um novo

tempo, que tanto pode ser o de uma nova

«ordem» determinada pela hegemonia

americana como o de um novo caos de

consequências ainda imprevisíveis. Não consigo

imaginar um mundo em que as tentativas de resolver

pacificamente conflitos entre Estados deixam

de ter qualquer utilidade. Esta guerra, ilegítima e

imoral, é um tremendo passo atrás na história da civilização.

O sonho da Carta das Nações Unidas,

baseado no respeito universal pelos

direitos do homem, vai ser

muito difícil de reconstruir.

Em 1932, Einstein escrevia uma

carta a Freud pondo-lhe a pergunta

que considerava mais importante

para a humanidade:

Haverá alguma maneira de libertar

os seres humanos da fatalidade

da guerra? Einstein, pacifista

militante, defendia a necessidade

de uma organização supranacional

para a solução dos conflitos

entre Estados. Mas pensava que

era preciso ir mais longe e perguntava:

poderá o estudo do desenvolvimento

psíquico dos seres

humanos levar a que eles se

tornem mais resistentes à psicose

do ódio e da destruição?

A resposta de Freud é lapidar. A humanidade, escreve,

vive desde tempos imemoriais um processo de

evolução cultural, a que alguns chamam civilização,

de certo modo comparável à domesticação de

certas espécies animais. Ora a guerra é a forma

mais violenta de afrontar a atitude psíquica, imposta

por este processo cultural, de controlar as pulsões

de destruição e morte. É por isso que não a suportamos.

Não se trata, sequer, de uma aversão intelectual

ou afectiva: é uma intolerância constitucional,

uma «idiossincrasia magnificada».

HELENA ROSETA

Um passo atrás na civilização

Portugal não está militarmente na guerra, mas está politicamente

a favor dos que a conduzem

❝A mensagem essencial

do PR e do PM é que

os portugueses podem

estar tranquilos. Não, não

podemos. Não estamos

«por cá, todos bem»,

como antigamente.

Estamos preocupados,

solidários dos inocentes

que esta guerra matará

e perplexos quanto

ao futuro colectivo ❞

GUERRA DO GOLFO MUNDO II

Palavras que ressoam com uma actualidade premente.

Estamos perante uma guerra feita à margem

da Carta das Nações Unidas e do direito internacional

e contra a opinião da esmagadora

maioria dos países do mundo. Confesso por isso

que não posso deixar de me sentir profundamente

decepcionada com a posição de Portugal neste

conflito. Enquanto o Chefe do Estado condena

a guerra e recusa qualquer envio de tropas, o

primeiro-ministro, cedendo embora nesse ponto,

proclama o seu apoio político à

Administração Bush. No Parla-

mento, até agora, houve debate

mas nenhuma votação. Em suma,

Portugal não está militarmente

na guerra, mas está politicamente

a favor dos que a

conduzem. A mensagem essencial

do PR e do PM é que os

portugueses podem estar tranquilos.

Não, não podemos. Não

estamos «por cá, todos bem»,

como antigamente. Estamos

preocupados, angustiados, solidários

dos inocentes que esta

guerra matará e perplexos

quanto ao futuro colectivo.

Por mim, fico sem perceber

os apelos à unidade e coesão

nacional feitos por Jorge Sampaio

e Durão Barroso nas últimas

horas. Unidade contra ou a favor da guerra?

É insustentável esta dualidade. Como ser humano,

quero poder expressar a minha revolta contra

esta guerra. Como portuguesa, tenho direito a

exigir dos órgãos máximos do meu país uma posição

coesa de que não foram capazes e cuja ausência

não parece incomodá-los. Como deputada,

quero ter a oportunidade de expressar o meu

não a tudo isto. E como cidadã estarei na rua ao

lado de todos os que denunciam a ilegitimidade

desta guerra. Mesmo sabendo que a paz, agora, é

ainda mais difícil.

VISÃO 21 de Março de 2003 47


GUERRA DO GOLFO II Dinheiro

ECONOMIA

O preço

da batalha

A factura é pesada. Os EUA

gastarão mais de cem mil

milhões de euros com

a intervenção no Iraque

PAULO SANTOS

Ainda não se sabe, ao certo, quanto

custará a intervenção no Iraque.

Existe, porém, uma certeza:

a factura será muito pesada. Segundo

o Congresso norte-americano a

guerra irá emagrecer os cofres do Governo

em 95 mil milhões de euros. De acordo

com as contas daquele organismo, o

conflito irá custar 24 mil milhões de euros

por mês aos contribuintes dos EUA. Números

que vêm confirmar outras estimativas

anteriores, que apontavam um intervalo

mais vasto, compreendido entre os cem

mil milhões e 200 mil milhões de euros.

A própria Administração Bush já admitiu

publicamente que os custos da intervenção

no Iraque não ultrapassarão os cem mil

milhões de euros e solicitou ao Congresso

autorização para utilizar, já, 90 mil milhões.

No entanto, este cenário tem por base a expectativa

de uma guerra curta e coroada de

êxito. O que pode não acontecer.

O grande ponto de referência nesta matéria

é a Guerra do Golfo, de 1991, responsável

por um rombo de 61 mil milhões de

euros nos cofres do tesouro norte-americano.

Desta vez, porém, os objectivos são

mais ambiciosos. Não se limitarão a uma

intervenção, uma vez que os EUA e os alia-

dos deverão deixar uma força de ocupação

no Iraque. E serão os norte-americanos a

arcar com a maior fatia dos custos. Uma

força de ocupação custará entre 1 e 4 mil

milhões de euros por mês. E, para já, ninguém

faz ideia de quanto tempo será necessário

manter tropas norte-americanas no

Iraque, depois de o conflito estar resolvido.

Ou seja, a factura é uma incógnita. Cada

míssil teleguiado, por exemplo, custa várias

centenas de milhares de euros.

E não é possível dizer, ainda,

quantos serão utilizados.

Mas seja qual for o desfecho,

as tropas americanas terão

de regressar a casa. Só esta

operação envolve uma verba

de 9 mil milhões de euros.

Contas feitas, os Estados

Unidos irão gastar neste confronto

mais do que Portugal

produz num só ano. Apesar

de, para nós, ser uma verba

exorbitante, para os EUA ela

não é tão significativa, uma vez

que o produto interno bruto

(PIB) do país é superior a 10

biliões de euros. Isto é, 200 mil

milhões representam apenas

2% do PIB norte-americano.

Por outras palavras, para su-

AVIAÇÃO

Os voos comerciais

são as primeiras vítimas

do conflito.

Segue-se o turismo

portar esta guerra, os EUA precisam de

uma percentagem de dinheiros públicos

idêntica à que Manuela Ferreira Leite necessitou

no final do ano passado para pôr

o défice das contas nacionais dentro dos limites

impostos por Bruxelas.

O reverso da medalha

No entanto, não será apenas pelo seu

custo que a guerra vai trazer problemas pa-

Crescimento

assegurado

Independentemente da sua duração,

a guerra porá em marcha o crescimento

da economia americana

5

4

3

Guerra

longa

3,3%

2

Guerra

1

curta

0

-1

-2

-3

2,9%

2002 2003 2004

Fonte: Wells Fargo

48 VISÃO 21 de Março de 2003

VISÃO

FERRAN PAREDES/REUTERS


lOCUPAÇÃO

A manutenção de forças no Iraque pode custar 4 mil milhões de euros por mês

ra a economia. No curto prazo até poderá

ser benéfica (ver gráfico) e contribuir para

o seu crescimento. Ainda recentemente,

um estudo feito pelo maior organismo patronal

do Reino Unido concluía que uma

guerra curta e bem sucedida seria mais benéfica

para a economia dos EUA do que se

não houver guerra nenhuma.

Só que acaba por ter efeitos negativos

num prazo mais longo, pois cria problemas

orçamentais para o país e provoca

uma subida das taxas de juro, o que, por

sua vez, leva a um menor investimento e

retrai o consumo. O Congresso já fez algumas

previsões para os próximos dez

anos e as contas são pouco animadoras:

que os gastos com a guerra poderão transformar

um superavit de 890 mil milhões

de euros – estimado para as contas públicas

dos EUA nos próximos dez anos –

num défice de 1,82 biliões de euros.

O peso dos números é menos complicado

quando encaramos a questão na

perspectiva do curto prazo. De acordo

com a referida organização patronal britânica,

o mais provável é que a intervenção

seja curta e bem sucedida, o que resultará

na queda do preço do petróleo

abaixo dos 20 dólares. Boas notícias para

o crescimento económico dos EUA, que

poderá subir 2,9% no final do ano. Um estudo

da casa financeira Well Fargo confirma

estes dados e conclui que, em caso de

guerra de curta duração, o PIB norte-

-americano possa atingir um crescimento

perto dos 3% em 2004. A mesma instituição

financeira refere que, em caso de conflito

prolongado, a economia norte-americana

poderá passar por uma recessão

com um crescimento negativo de quase

3% no decorrer de 2003.

A guerra para lá dos EUA

Horst Koehler, director-geral do Fundo

Monetário Internacional (FMI), admitiu

recentemente, em entrevista ao diário es-

KUNI TAKAHASHI/AP

panhol El País, que «uma guerra, independentemente

do tempo que durar, irá

complicar a situação económica nos EUA

e aumentar a incerteza na economia mundial».

Um problema que acabará por complicar

ainda mais a vida das Bolsas em todo

o mundo. A preocupação é tal que os

EUA e o Japão já assinaram um acordo de

cooperação para suportarem os mercados

financeiros, caso se verifique uma crise internacional

provocada pela guerra no Iraque.

O acordo foi celebrado entre Heizo

Takenaka, ministro das Finanças japonês

e o presidente da Reserva Federal norte-

-americana, Alan Greenspan.

A recessão e os efeitos da guerra estão a

preocupar também as instâncias máximas

da União Europeia (UE). Segundo um relatório

da Comissão Europeia, a guerra

poderá levar a economia dos Quinze à recessão.

Algo que não é novo para Portugal,

que já está nessa situação. Mas este organismo

vai mais longe e admite que o impacto

desta guerra será mais devastador

que o da Guerra do Golfo em 1991.

Por cá, também se vão desenhando

cenários possíveis para o que poderá

acontecer após o conflito. De acordo

com um relatório do Banco Espírito

Santo, «uma resolução rápida e eficaz

do conflito do Iraque, com a diminuição

dos níveis de incerteza e o regresso do

preço do petróleo a níveis mais baixos

permitirá o crescimento das economias

no segundo semestre de 2003». No entanto,

o mesmo documento deixa o alerta:

«Um conflito demorado, com danos

significativos na oferta de petróleo, levaria

a economia portuguesa para um período

de recessão.»

Em termos económicos, as grandes vítimas

serão, sem dúvida, as companhias aéreas.

Por um lado, esta é uma actividade

muito exposta à variação do preço dos

combustíveis. Por outro, o sector prevê

que durante o conflito se assista a uma re-

GUERRA EXTRA•GUERRA

DO GOLFO II

lREBENTAR MILHÕES

Um míssil teleguiado custa várias centenas de milhares de euros

dução de 20% do número de passageiros.

Também o turismo sente os efeitos de um

conflito mundial. O número de reservas

nos hotéis para este Verão está muito

abaixo do habitual.

Outros efeitos económicos colaterais,

menos visíveis, deixarão igualmente marcas.

Uma guerra acaba sempre por afectar

a economia como um todo. Os tempos de

incerteza provocam, invariavelmente, uma

retracção do consumo e do investimento e

estes dois fenómenos conjugados não deixam

nenhum sector ileso. Melhor, quase

nenhum. Existem sempre os que tiram dividendos

elevados de uma guerra. Nos últimos

dois anos, a indústria de armamento

aumentou significativamente as suas vendas

e encomendas. As petrolíferas também

vêem os seus lucros subirem, sobretudo

com a expectativa da distribuição do bolo

petrolífero iraquiano, após o conflito.

Negócios avançam

Antes ainda de ter sido disparada a primeira

bala, já o Governo norte-americano

havia convidado várias empresas do país a

competirem nos projectos de reconstrução

do Iraque. Para além dos edifícios, estão

em causa a construção de infra-estruturas

de educação, saúde, transporte, energia,

entre outras, naquilo que já foi chamado

como o maior projecto de reconstrução

desde a Segunda Guerra Mundial. Segundo

alguns números já avançados, embora

não oficiais, o negócio de reconstrução

do país poderá ascender aos 30 mil

milhões de euros. Uma quantia avultada

mas que está ao alcance do Iraque, detentor

das segundas maiores reservas de petróleo

do mundo. Além disso, nos últimos

anos, estas rerservas têm estado a ser exploradas

a metade da sua capacidade. O

ouro negro abunda por aquelas paragens.

Este parece ser um daqueles casos em que

o final da história já se sabe antes mesmo

do primeiro episódio. Será? ■

VISÃO 21 de Março de 2003 49

STEVE HELBER/AP


GUERRA DO GOLFO II Dinheiro

l‘SADDAM OIL’

O retrato do ditador iraquiano numa velha refinaria nas imediações de Bagdad

CRISE

Bombas em alta,

petróleo em baixa

Os primeiros mísseis lançados sobre território

iraquiano bastaram para fazer cair o preço do crude

Opetróleo é uma das personagens

centrais do conflito no Golfo. O

Iraque, alvo estratégico das forças

aliadas, possui as segundas maiores

reservas mundiais, logo a seguir à Arábia

Saudita (ver infografia). A sua importância

económica é óbvia.

No jogo das expectativas, a incerteza sobre

uma eventual intervenção militar con-

duziu o barril de crude acima dos 30 dólares,

o preço mais elevado desde a primeira

Guerra do Golfo, em 1991, quando chegou

a ultrapassar os 40 dólares.

Mas a agonia inflacionista desapareceu

no momento em que foram disparadas as

primeiras balas, nesta segunda Guerra do

Golfo. Em Londres, na sessão de mercado

a seguir aos bombardeamentos da madru-

Da falência

ao estrelato

A guerra é um tempo de incerteza. Regra geral,

qualquer conflito abala o mundo dos negócios.

Mas nem todos podem dizer o mesmo.

Nos EUA, uma empresa que, recentemente,

solicitou a protecção de credores às instâncias

judiciais está a bater os recordes de subida

em bolsa. Em vez de falir, a empresa tornou-se

numa das mais procuradas pelos investidores.

Chama-se Boots & Coots e é especializada

em responder a emergências que

surjam em poços petrolíferos. Na última semana,

conseguiu uma valorização de cerca de

250 por cento. Nada mau para quem estava à

beira de encerrar as portas e mandar os funcionários

para casa. As acções desta companhia,

cotadas na Bolsa de Nova Iorque a pouco

mais de 70 cêntimos de dólar, estão, actualmente,

a ser transaccionadas acima dos

dois dólares. Tem havido uma verdadeira corrida

à Boots & Coots: só na passada quarta-

-feira, 19, foram transaccionados quase 80

milhões de títulos.

Desde que começou a falar-se da possibilidade

dos iraquianos incendiarem os poços de

petróleo, em retaliação do avanço das forças

aliadas, os investidores viram na Boots &

Coots à beira da falência uma excelente oportunidade

para aplicar o seu dinheiro. E se os

poços forem incendiados, a empresa vai mesmo

ter muito trabalho, no Iraque. Quem comprou

acções por alguns cêntimos pode muito

bem ver o seu dinheiro multiplicar-se, em poucos

meses.

gada de quarta para quinta-feira passadas,

o barril de brent tinha descido até aos 25,5

dólares. Mais uma vez, são as expectativas

a liderar o mercado. O preço baixa, porque

os agentes esperam uma guerra de

curta duração e favorável às forças aliadas.

A história serve de conselheira. Em

1991, as tropas norte-americanas fizeram

uma intervenção rápida – de 17 de Janeiro

a 28 de Fevereiro – e bem sucedida, que

arrastou para baixo o preço do crude. A

Organização dos Países Exportadores de

Petróleo (OPEP) também deu uma ajuda

ao optimismo. Os produtores garantiram

que estão em condições de responder a

qualquer falta de abastecimento decorrente

da guerra. O presidente deste organismo,

Abdullah al Attiyah, confessou, recentemente,

o empenho dos produtores em

manter a estabilidade do mercado.

Todavia, ainda não é líquido que esta

50 VISÃO 21 de Março de 2003

JOCKEL FINCK/AP


ONDE ESTÁ O PETRÓLEO

O Iraque tem as maiores reservas do mundo e é o segundo maior

produtor de petróleo do globo. Os Estados Unidos estão menos

dependentes do crude do Médio Oriente que a Europa e o Japão

% DA PRODUÇÃO MUNDIAL E DURAÇÃO DAS RESERVAS DE CADA REGIÃO EM ANOS

NO MUNDO...

Ex- União Soviética

6,2 21

América do Norte

6,1 13,5

América Central

e do Sul

9,1 39

TURQUIA

Mar

Mediterrâneo

L Í BANO

EGIPTO

ISRAEL

SUDÃ O

S Í RIA

JORDÂ NIA

Mar

Vermelho

ERITREIA

Europa

1,8 7/8

Iraque

10,7 135 Irão

Bagdad

8,6

Kuwait

9,2 115

65

685,6

Europa

Ásia-Pacífico

América do Norte

Ex-União Soviética

África

América Central e do Sul

Médio Oriente

África

7,3 27,5

Arábia Saudita

25 65

PRODUÇÃO, EM MILHARES DE MILHÕES E BARRIS, EM 2001

NO MUNDO...

...NO MÉDIO

ORIENTE

76,7

96,0

43,8 63,9 65,4

18,7

Arábia Saudita

261,7

Médio Oriente

65,3 87

BAHREIN

QATAR

I É MEN

Iraque

Emirados Árabes Unidos

Kuwait

112,597,8 96,5 89,7

25,4

guerra seja curta. Os EUA e os seus aliados

poderão encontrar obstáculos inesperados

e demorar mais do que inicialmente

previam. De acordo com um estudo da

maior organização patronal britânica, um

conflito prolongado poderá atirar o preço

do petróleo para os 80 dólares por barril.

Uma escalada deste nível poderia não

só provocar mais um atraso na recuperação

da economia mundial, como arrastar

o mundo para uma nova recessão. E o petróleo,

a matéria-prima que mais influên-

Irão

Ásia-Pacífico

4,2 15,5

...NO MÉDIO

ORIENTE

Emirados

Árabes Unidos

9,3 105

Outros

OMÃ

Mar

Arábico

Quem

compra

mais

% DAS

IMPORTAÇÕES

DE CRUDE

PROVENIENTES

DO GOLFO

PÉRSICO

76,0

Europa

Ocidental

36,0

Japão

EUA 25,3

JORDÂNIA

Oleoduto

TURQUIA

SIRIA

IRAQUE

Qurna Ocidental II

Majnoon

Bin Umar

Saddam

Nassiryah

Rumalia Mishrif Norte

Rumalia Mishrif Sul

Halfaya

Ratawi

Qurna Ocidental I

Tuba

Gharaf

Rafifin

Khurmala

Saba Luhais

Al Ahdab

Amara

Qurna Ocidental DS 6

Hemrin

cia tem na conjuntura económica, não é

inocente, nesta matéria. O seu elevado

preço já provocou várias recessões no

mundo, como a crise petrolífera dos anos

70, com efeitos devastadores para o bem-

-estar das populações.

O caso muda de figura se a intervenção

for coroada de êxito. Alguns analistas

acreditam que os preços do petróleo poderão

cair abaixo dos 20 dólares por barril.

Se Saddam Hussein for deposto, o Iraque

voltará a fornecer petróleo, de acordo com

Bagdad

GUERRA DO GOLFO II

as suas potencialidades – actualmente, liberta

para o mercado cerca de metade da

sua capacidade. Regressando a produção

aos níveis registados antes da guerra de

1991 – mais de 3,5 milhões de barris por

dia – poderá registar-se uma pressão sobre

os mercados internacionais que atirará o

barril para valores muito baixos.

Este é o cenário mais agradável e desejado

pelos mercados. Mas a verdade é

que não passa disso mesmo: uma mera

hipótese. ■

VISÃO 21 de Março de 2003 51

JAZIDA

PRODUÇÃO

MILHARES DE

BARRIS DIÁRIOS

1 000

600

500

300

300

250

250

225

200

200

180

100

100

100

100

90

80

65

60

Mosul

14

Kirkuk

19

Tikrit

Lukoil

TotalFina

TotalFina

Tatneft

Eni/Repsol

Tatneft

Mashinoimport

BHP

Shell/Can Oxy/Petronas

Zarubezhneft

ONGC/Sonatrach/Pertamina

TPAO/Japex

Pacific

Stroyexport/Bow Canada

Slavnet

CNPC

PetroVietnam

Bashneft

Stroyexport/Bow Canada

4

1

Petróleo

EMPRESA

EXPLORADORA NACIONALIDADE

Gás

natural

IRÃ O

100km

12 13

Repartir

o crude

Curiosamente, não se encontra uma única

petrolífera norte-americana entre as 19 principais

5

8

17 3

2

9 1

6 10

18

Baçorá

15 7 11

empresas que exploram

poços iraquianos

ARÁ BIA SAUDITA

KUWAIT

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

14

15

16

17

18

19

16

©GN/VISÃO

Rússia

França

França

Rússia

Itália, Espanha

Rússia

Rússia

Austrália

Holanda, Canadá, Malásia

Rússia

Índia, Argélia, Indonésia

Turquia, Japão

Reino Unido

Rússia e Canadá

Rússia

China

Vietnam

Rússia

Rússia, Canadá

Fonte: BP, Deutsche Bank e El País


GUERRA DO GOLFO II Em nome de Deus

GEORGE W. BUSH

O dono da guerra

À falta de autorização da ONU, o Presidente dos EUA

invoca uma espécie de legitimidade divina para

a guerra com Saddam

EMÍLIA CAETANO

Quando o republicano George W.

Bush chegou à Casa Branca, em

Janeiro de 2001, as expectativas

eram baixas. Tornara-se o 43.º

Presidente dos EUA depois do que muitos

americanos viam como uma vitória «de

secretaria», com menos meio milhão de

votos do que o seu opositor. E o resto do

mundo sorria desse líder tão pouco entendido

em política externa que trocava os

nomes dos dirigentes de alguns países. A

partir dali, tudo o que ele conseguisse só

podia ser ganho.

Se a sua vitória deixara a América

drasticamente dividida ao meio, ele

apressou-se a levar para Washington o

seu lema de «abraçar um democrata por

dia», que já usara como governador do

Texas. Rapidamente mandou para o

Congresso uma lei sobre Educação em

que deixava cair uma promessa eleitoral

muito criticada pelos democratas: um

subsídio especial para o ensino privado.

O diploma passou facilmente. Pouco depois,

convidava o clã Kennedy, a poderosa

dinastia democrática da América, para

uma sessão de cinema na Casa Branca.

O filme? Treze dias, uma versão abonatória

para JFK sobre o modo como se

saiu da crise dos mísseis, em 1962.

As sequelas deixadas pela eleição iam-

-se desvanecendo. É verda-

de que as suas gaffes deram

origem a um livro, e claro

que não era muito culto.

Mas também não queria

parecê-lo: ele próprio confessava

que não gostava de

ler e que a sua primeira nota

num teste de inglês fora

zero. Mas ganhava uma

imagem simpática. Muitos

começavam a ver nele o

que os americanos chamam

«just a regular guy»,

um tipo como os outros. E

a forma como lidara com a

lei da Educação mostrava

1975 • Lança-se no negócio

do petróleo, criando

a empresa Arbusto

1978 • Candidata-se

a um lugar no Congresso

pelo Texas, mas perde

1988 • Ajuda a organizar

a campanha presidencial

do pai

1994 • Derrota a democrata

Ann Richards e torna-se

governador do Texas

que, afinal, não era nada parvo. Em Fevereiro

já conseguia 61% de opiniões favoráveis

nas sondagens.

Mas a sua verdadeira oportunidade estava

para chegar, em 11 de Setembro de

2001. A maneira como surgiu na televisão,

entre as equipas de socorro no

«Ground Zero» e a voz grosssa com que

falou para o exterior reparavam a humilhação

do ataque. «Na nossa dor e na

nossa raiva encontrámos a nossa missão

e o nosso momento», disse então Bush.

As palavras aplicavam-se, direitinhas, a

ele próprio.

Bush, o filho

A notícia da entrada oficial de Bush na

corrida à Casa Branca, no Verão de 2000,

surgira no jornal francês Libération com o

título George II, candidato como o papá.

«O meu pai é o homem que se aproxima

mais do que considero um ser perfeito»,

dizia ele numa passagem citada pelo jornal

francês. E o autor do artigo descrevia

assim o futuro Presidente: «Sempre comparado

ao pai, W. seguiu-lhe as pisadas

tant bien que mal».

Sabe-se que George Walker Bush teve

os seus wild years, que é como quem diz,

o seu «período selvagem»: «Aos 17 anos

fiz tudo o que se faz aos 17 anos.» Mas

não é bem assim. No seu caso, esse tempo

foi muito além da adolescência. Se para

muitos esse é o preço a

pagar para se autonomizarem

dos pais, ele escolheu

fazer exactamente o

contrário: seguiu uma a

uma as etapas do pai. Durante

muito tempo, deu-

-se mal.

Nascido a 6 de Julho

de 1946 em New Haven,

no Connecticut, filho

mais velho dos Bush, a

família levou-o muito cedo

para o Texas. Depois,

seguiu-se uma vida atrás

do pai, mas muitos passos

atrás. Andou no mesmo

liceu e na mesma universidade – Yale –

onde, aliás, só terá entrado devido à quota

para filhos dos ex-alunos, pois não tinha

média suficiente. Se o pai fora um

aluno brilhante e campeão de baseball na

universidade, o filho nem tanto. Mas tragédia,

a sua infância só conhecera uma: a

morte da irmã, Robin, com leucemia, tinha

ele 7 anos.

Em 1968 escapou à Guerra do Vietname

alistando-se como piloto na Air National

Guard do Texas. Para a História ficarão

versões diferentes: se foi apenas o

apelido ou a mão directa do pai que lhe

conseguiu um lugar naquela corporação

que tinha na altura, ao que consta, 100

mil candidatos na lista de espera.

Depois andou de emprego em emprego,

nos anos em que se queixava aos ami-

52 VISÃO 21 de Março de 2003


gos de ter «muito nome, mas nenhum dinheiro».

Licenciado em História, vai para

Harvard tirar um master em gestão. Em

1975 tenta a sua sorte no negócio da família,

o petróleo, criando a Arbusto Energy

Inc, usando o seu apelido em espanhol,

uma língua que conhece.

Apesar das ajudas de muitos amigos do

pai, os negócios dão para o torto, e o mesmo

acontece à sua candidatura ao Congresso,

em 1978, quando decide seguir a

carreira política de Bush sénior, já então

senador e líder republicano. No ano seguinte

casará com Laura, uma professora

e bibliotecária, mas nem por isso assentará.

Pelo menos, completamente.

Da sua juventude ficam excessos de

vária ordem. George W. seria detido várias

vezes, a primeira por uma garotice

O PRESIDENTE

NORTE-AMERICANO

Todas as manhãs

ele lê textos bíblicos

na Casa Branca

como roubar uma decoração de Natal,

mas seguiram-se outras já mais à séria:

condução sob o efeito do álcool, e mesmo,

segundo versões não confirmadas,

por posse de cocaína. Invariavelmente, o

apelido salvou-o. Mas a propensão para

o álcool sobreviveu ao casamento. Ele

conta que o grande ponto de viragem na

sua vida se deu na manhã seguinte ao

40.º aniversário, em que acordou maldisposto

depois dos excessos da véspera.

Decidiu então não voltar a beber. Contam

os amigos que Laura lhe dera um ultimato:

«Eu ou o Jack Daniels», numa

alusão ao bourbon que o marido provavelmente

mais consumia.

Até aí, apenas uma coisa lhe correra

bem. Depois do fracasso da sua incursão

pelos petróleos, comprou umas quotas da

GUERRA DO GOLFO II

empresa que possuía a equipa de baseball

Texas Rangers. Se nunca fora um bom jogador

como o pai, conseguiu tornar-se dirigente

da companhia, ainda por cima

com êxito. Começou mesmo aí a sua fortuna

pessoal. E a sua vocação como gestor

estava descoberta.

Ele e Deus

A biografia oficial de Bush aponta-o como

um compassionate conservative, o

que, em tradução livre, significa um «conservador

com preocupações sociais ou

humanitárias».

Mas a definição ajusta-se mal a um político

que assinou todas as mais de 150

execuções que lhe passaram pelas mãos

quando governava o Texas. Mesmo no

mediático caso de Carla Faye Tucker foi

indiferente aos apelos de clemência, inclusive

do Papa.

Bush deixou de beber por si só. Garante

que nunca frequentou os Alcoólicos

Anónimos nem é fã de psicoterapias. Mas,

naquela manhã a seguir aos seus 40 anos,

não mudou apenas de hábitos, mas de vida:

descobriu a religião. Ainda recentemente

a Newsweek dedicou a capa a um

artigo sobre Bush e Deus, em que explicava

«como a fé define a sua agenda». E lá

foi desenterrar passagens dos seus discursos,

como as referências ao «eixo do mal».

Bush, que lê de manhã textos bíblicos

na Casa Branca, chama the walk, o caminho,

ao percurso que iniciou depois daquele

dia de 1986. E escolheu um tom

quase messiânico para explicar o ataque

ao Iraque: «A liberdade que prezamos

não é uma oferta de América ao mundo,

mas uma oferta de Deus à Humanidade.»

Se muitos consideram a sua decisão um

atentado ao Direito internacional, ele

apresenta-se como tendo uma espécie de

legitimidade do Além. Mas, uma vez mais,

foi indiferente ao Papa.

Os analistas americanos dizem que

sempre se soube que George W. travaria

esta guerra, com ou sem o 11 de Setembro.

E não apenas pelo petróleo. Para ele,

a batalha tem um não-sei-quê de pessoal.

Sempre poderá ir um pouco mais longe

do que o pai, a quem muitos criticam não

ter derrubado Saddam na Guerra do Golfo

de 1991. Bush pode agora voltar ao seu

discurso do 11 de Setembro: «Encontrámos

a nossa missão e o nosso momento.»

Claro que ele fala sempre da «larga coligação»

que o seu país lidera, mas sabendo

que se trata apenas de uma figura de

estilo. Para o melhor ou para o pior, o resultado

desta guerra será dele. ■

VISÃO 21 de Março de 2003 53

REUTERS/WIN MCNAMEE


GUERRA DO GOLFO II O resistente

JACQUES CHIRAC

O homem do ‘não’

Em menos de um ano, deixou de ser a «anedota nacional»

para se tornar no herói dos franceses e ser olhado por

meio mundo como uma espécie de super-homem da paz

RUI TAVARES GUEDES

Ohomem tem um lema: «Na vida

política como na vida em geral,

enfrentamos altos e baixos. É preciso

menosprezar os altos e valorizar

os reveses.» Aos 70 anos de idade, e

após quatro décadas na primeira linha da

política francesa, compreende-se que seja

este o lema de Jacques Chirac: poucos, como

ele, sobreviveram a tantas derrotas e

mortes anunciadas, traições, suspeitas e

processos de intenções.

Em França, monsieur le Président é hoje

a única verdadeira unanimidade nacional.

As sondagens dão-lhe uma taxa de

aprovação da opinião pública superior à

maioria de circunstância (82%) com que,

em Maio do ano passado, derrotou Jean-

-Marie Le Pen na segunda volta das presidenciais.

A sua última entrevista televisiva,

dada no gabinete do Palácio do Eliseu –

onde reafirmou a decisão de vetar no

Conselho de Segurança das Nações Unidas

qualquer resolução que abrisse as portas

a uma intervenção militar no Iraque –,

foi seguida por uma assistência recorde de

17,5 milhões de espectadores. O apoio é

tão esmagador que até os seus mais ferozes

críticos se tornaram adeptos entusiastas:

Marie Georges Buffet,

secretária-geral do Partido

Comunista Francês,

endereçou-lhe elogios públicos;

François Hollande,

líder dos socialistas,

manifestou-se «orgulhoso»

com o seu desempenho,

e Jack Lang, o ex-ministro

de Mitterrand e de

Jospin, que muitos acreditam

que será candidato

ao Eliseu nas próximas

eleições, não fez a coisa

por menos e afirmou-se

«a cem por cento» com

as propostas de Chirac

para o conflito iraquiano.

Fora de fronteiras, um

grupo de intelectuais eu-

FESTA DE ANOS

A 29 de Novembro último,

Jacques Chirac celebrou 70

anos e, pela primeira vez desde

que entrou na vida política,

recebeu felicitações de todo

o mundo. Duas foram significativas:

• Tony Blair ofereceu-lhe uma

caneta Churchill e enviou-lhe

uma carta a prestar homenagem

ao que qualificou de

«grande homem»

• Durão Barroso enviou uma

mensagem, lembrando que

Chirac sendo Sagitário, como

sua mulher e sua mãe, deve

ser «uma excelente pessoa»

ropeus (como o cineasta espanhol Pedro

Almodóvar, o escritor alemão Günther

Grass, a prémio Nobel italiana de Medicina

Rita Levi Montalcini e o escritor sueco

Per Olof Enquist) chegou mesmo ao ponto

de publicar uma carta aberta no Le

Monde agradecendo a forma como o Presidente

francês tem enfrentado os EUA

nos últimos tempos. Debaixo do título

«Continue, Jacques Chirac», os intelectuais

pediam-lhe para manter a sua acção

«de apoio à paz, à legalidade internacional

e ao desarmamento», não hesitando em

utilizar, caso fosse necessário, o direito de

veto de que a França usufrui na ONU.

As únicas vozes discordantes vieram da

direita francesa, de alguns poucos deputados

da União por um Movimento Popular

(UMP), a coligação que representa a tradicional

base de apoio eleitoral de Chirac.

Mas essa parece ser a sina do Presidente

francês: surpreender, surpreender sempre,

mesmo mudando de campo político caso

seja necessário.

A estranha consagração

A consagração de Jacques Chirac torna-

-se surpreendente quando se observa o estado

em que ele se encontrava há precisamente

um ano, quando tentava ser reeleito

para o Eliseu após um

primeiro mandato (então

ainda de sete anos) marcado

por escândalos sucessivos

e uma coabitação com

um governo socialista que

quase o tinha empurrado

para um papel decorativo

só comparável ao da rainha

de Inglaterra.

Nessa época, alguns dos

principais best-sellers das livrarias

de Paris eram obras

de investigação jornalística

ou de ajuste de contas político

relatando ou denunciando

os aspectos mais

sombrios de Chirac: as suas

ligações a ditadores africanos,

as redes de interesses e

PRESIDENTE DE FRANÇA

A persistência de Jacques

Chirac em recusar a guerra

tem-lhe valido elogios

de todo o mundo. Mesmo

dos seus antigos adversários

de jogos de favores em que se movimentava,

os desvios de dinheiro durante a sua

longa gestão da Câmara de Paris. Nos bonecos

do Guignol (o Contra-Informação

gaulês) ele era o Super-Mentiroso. E se nas

sondagens parecia ter garantida a vitória

na primeira volta, era apenas para ser claramente

derrotado pelo socialista Lionel

Jospin na ronda decisiva. Em nenhum plano

aparecia aquilo que entrará para os livros

de História como o «sismo Le Pen»:

o candidato da extrema-direita foi o segundo

mais votado, beneficiando da grande

divisão de votos entre os eleitores de esquerda.

Chirac ficava assim com o caminho

aberto para a reeleição, apesar de ter

obtido a mais baixa votação alguma vez

averbada por um Presidente francês: apenas

19,8 por cento.

A verdade é que começava nesse momento

– de forma absolutamente inesperada

– mais uma vertiginosa aceleração para

o cume, na montanha-russa de Chirac.

54 VISÃO 21 de Março de 2003


Mas nada a que o Presidente francês

não esteja habituado desde que fez a sua

entrada na vida política, a 28 de Novembro

de 1962, ao ser nomeado chefe de gabinete

do primeiro-ministro Georges

Pompidou, após estudos de Ciências Políticas

e o serviço militar em Argel. Em pouco

tempo, o impetuoso Chirac, que nos

tempos universitários chegou a «namorar»

a militância comunista, torna-se um

dos mais fiéis colaboradores de Pompidou

– são os dias em que ganha o apodo de

«Bulldozer», tal a forma «diplomática»

como tratava rapidamente de qualquer

problema.

Esse estilo impetuoso viria mais tarde a

revelar-se decisivo, quando, após a morte

de Pompidou, então no Eliseu, Chirac comete

a sua primeira traição: em vez de

apoiar Chaban-Delmas para a presidência,

muda-se com mais 43 deputados gaulistas

para as hostes de Valéry Giscard

d’Éstaing. A recompensa não tardou: Gis-

card bate Mitterrand e nomeia Chirac primeiro-ministro.

Só que o «casamento» não dura muito

tempo. Menos de dois anos depois, corta

também com Giscard, bate com a porta,

sai do governo e transforma completamente

o partido gaulista, alterando as suas

siglas de UDR para RPR. E, passados poucos

meses, toma a decisão de se candidatar

às primeiras eleições para maîre (presidente

da câmara) de Paris, cargo que conquista

contrariando todas as sondagens.

Completadas as primeiras subidas e

descidas, a montanha-russa nunca mais

pára, e o palácio do Hôtel de Ville, junto

do Sena, torna-se uma espécie de retaguarda,

aonde regressa sempre que os

seus sonhos terminam em pesadelo: como

nas eleições presidenciais de 1981,

em que é eliminado logo à primeira volta,

ou em 1988, quando sofre uma humilhante

derrota face a Mitterrand, numa

altura em que a «sua» direita detinha a

maioria sociológica do «hexágono».

O seu sonho de chegar ao Eliseu só é

atingido em 1995, quando, num sprint digno

das melhores lendas da Volta à França,

bate o seu antigo amigo Balladur à primeira

volta e Jospin à segunda. Mas a glória

mostra-se efémera, pois a sua tentação pela

montanha-russa não o larga: ao fim de

dois anos na Presidência, dissolve o Parlamento,

convoca legislativas antecipadas

com o propósito de reforçar a maioria de

direita e... vê os socialistas de Lionel Jospin

obrigarem-no a cinco anos de humilhante

coabitação.

É nessa altura que a sua mulher, Bernadette,

profere uma frase que ficará célebre:

«Os franceses não amam o meu marido.»

Agora, ninguém o diria. Até porque, com

o seu teimoso «não» à guerra de Bush, o

septuagenário Chirac conseguiu aquilo

que muitos já julgavam impossível: colocar

de novo a França no primeiro plano

da política internacional. ■

VISÃO 21 de Março de 2003 55

REUTERS/PHILIPPE WOJAZER


GUERRA DO GOLFO II O tirano

SADDAM HUSSEIN

O fim do ‘Grande Pai’?

Após quase 35 anos de poder absoluto, o ainda Presidente do Iraque

enfrenta o último desafio da sua vida política

FILIPE FIALHO

Humor negro é algo que nunca faltou

a Saddam Hussein. Quando o

televisor de um dos seus compatriotas

se avariava, a recomendação

presidencial era invariavelmente a

mesma: «Ponham um retrato meu no

ecrã!» Nos próximos dias, caso se mantenham

as emissões televisivas com as ladainhas

do costume em louvor do homem

que governa em Bagdad desde 1968, os

iraquianos vão ter a oportunidade de desobedecer.

Um gesto im-

pensável caso não estivesse

em curso uma operação

militar que todos sabem

destinar-se a depor o homem

que é simultâneamente

Chefe do Estado,

comandante-chefe das

Forças Armadas, presidente

do Conselho Supremo

da Revolução e secretário-

-geral do Partido Baas,

mas que prefere ser tratado

como Papá Saddam,

Grande Professor ou

Grande Pai. E a entrada

das tropas americanas, inglesas

ou australianas, é

apenas a primeira oportunidade

do ajuste de contas

entre a generalidade da

população iraquiana e

«aquele que se revela» –

significado de «Saddam»

em árabe. Não será de estranhar

que enquanto a

coligação ocidental bombardeia

palácios, quartéis,

ministérios ou centros de

telecomunicações, os civis

iraquianos tenham como

alvo as omnipresentes estátuas,

painéis, fotos e gravuras

do Presidente. Um

cenário que poderá assemelhar-se

ao ocorrido em

1989, quando os cidadãos

dos países do antigo bloco

CRONOLOGIA

DE UM DITADOR

1937(Abril) • Nasce em

Al Oja, Tikrit, a norte

de Bagdad

1956 (Maio) • Envolve-se

num golpe palaciano para

derrubar o rei Faiçal II

1959 (Julho) • Participa

numa tentativa fracassada

para assassinar o Presidente

Abdul-Karim Qassem

1968 (Julho) • Assume

o cargo de vice-presidente

1972 (Junho) • Ordena

a nacionalização do petróleo

1979 • Torna-se Chefe

de Estado

1980 (Setembro)

• Manda invadir o Irão

1988 (Março) • Ordena

o esmagamento da rebelião

curda com armas químicas

1990 (Agosto) • Invade

o Kuwait

1991 (Janeiro) • Início

da Guerra do Golfo

1991 (Fevereiro)

• Tropas iraquianas retiram

do emirado

1998 (Dezembro)

• Recusa cooperar com os

inspectores da ONU e Bagdad

volta a ser bombardeada

2003 (20 Março) • Início

da nova Guerra do Golfo

de Leste vandalizaram as imagens de

Marx, Lenine e Estaline – sendo este último

uma das figuras políticas que Saddam

mais admira, a par de Maquiavel.

Nascido em 1937, no seio de uma família

de agricultores pobres de Al Oja, uma aldeia

perto de Tikrit, diz a lenda negra que a mãe

de Saddam tentou abortar quando estava

grávida – uma intenção motivada pela morte

do marido logo nos primeiros meses de

gestação do futuro ditador. O menino converteu-se

em enteado por via do novo matrimónio

da mãe, e depressa manifestou

vontade de fugir aos traba-

lhos da terra e à tutela familiar.

É ainda nesta fase que

conhece um tio que haveria

de ajudá-lo nos estudos, levando-o

para Bagdad e

moldando-o politicamente.

«Há três coisas que não deviam

existir neste mundo:

as moscas, os persas e os judeus»

é uma das máximas

que o tio Khairallah Tulfah,

um antigo oficial do exército

que odiava o Ocidente,

lhe terá inculcado para a vida.

Aluno dedicado, Saddam

só não conseguiu entrar

para a Academia Militar

em 1953, mas o tempo

e a perseverança fariam

dele um déspota precoce e

esclarecido nos objectivos

políticos: aos 17 anos assassina

um primo, aos 19

participa num regicídio

fracassado (contra o rei

Faiçal II), aos 22 envolve-

-se noutra tentativa de golpe

de Estado (desta vez

contra o Presidente Abdul

Karim Kassem), aos 31

torna-se vice-presidente

do Iraque e aos 42 é já o

senhor supremo do país.

Pelo meio, conheceu as

masmorras de Bagdad e o

exílio na Síria e no Egipto

(onde terá flirtado com a

CIA) e especializou-se nas artes da tortura

e em manobras palacianas para eliminar

todo e qualquer opositor.

Pagar com a traição

Um dos episódios que melhor demonstram

esta faceta foi a relação que manteve

com o primo Ahmed Hassan al-Bakr.

Este general tornou-se Presidente do Iraque

na sequência do golpe que em Julho

de 1968 instalou o Partido Baas no poder,

e decidiu recompensar o jovem familiar

com o segundo posto do regime. Saddam

assumiu a chefia dos serviços de segurança

e tratou de colocar os seus peões, quase

todos naturais de Tikrit, nas estruturas

de poder através de uma intrincada rede

de informadores e espiões. Apesar das

purgas, das perseguições e dos assassínios

(ficaram célebres em Bagdad os enforcamentos

público de judeus), era então

apontado como o Kennedy do Médio

Oriente: jovem, bem parecido, mulherengo,

carismático e com uma enorme capacidade

para «vender» os seus feitos.

A nacionalização dos poços de petróleo

e a recessão económica mundial dos anos

70 ajudaram-no de forma decisiva. Os

proventos do ouro negro permitiram-lhe

construir escolas, estradas e fábricas, colocar

os iraquianos no terceiro lugar entre

os povos com maior rendimento per capita

do mundo e reivindicar exclusivamente

para si o poder.

É então que coloca o Presidente al-

-Bakr em prisão domiciliária (a versão oficial

para o afastamento são «razões de

saúde») e o força a assinar a resignação

em Julho de 1979. Nos dias e semanas seguintes,

mais de quatro centenas de oficiais

das forças armadas e dezenas de dirigentes

do Partido Baas são executados

por «dissidência» ou «traição». O ambiente

internacional também contribuía

para que praticamente ninguém criticasse

o novo Presidente. Em particular no vizinho

Irão, onde o Xá foi nessa altura deposto

pelos ayatollahs liderados por Khomeini,

convertendo o país numa teocracia

que a generalidade dos países ocidentais

condenava. Aliás, foi esta animosidade

56 VISÃO 21 de Março de 2003


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NOS ANOS 70

Saddam numa

pose de sedutor

de cinema


REUTERS

REUTERS


GUERRA DO GOLFO II O tirano

Qusai Saddam Hussein

Odai Saddam Hussein

O FIM DO ‘GRANDE PAI’?

contra o novo Governo de Teerão que levou

Saddam Hussein a reaproximar-se

dos EUA e de várias chancelarias europeias,

adquirindo armas para iniciar em

Setembro de 1980 a guerra contra o Irão.

Nos oito anos seguintes, o balanço do

conflito saldou-se em milhão e meio de

mortos e os dois países ainda mantêm um

diferendo mediado pela ONU e pela Cruz

Vermelha Internacional devido aos milhares

de prisioneiros de guerra que cada

um dos regimes mantém nos respectivos

cárceres. Insatisfeito com as suas proezas

O filho mais novo do Presidente, 37 anos, é a

eminência parda do regime. Além de ser membro

da direcção do Partido Baas, controla a generalidade

das organizações militares e de segurança:

a Guarda Republicana, a polícia política

(a Mukhabarat), a unidade de élite que tem

por missão zelar pela vida de Saddam Hussein

(a Himaya) bem como a agência responsável

pela vigilância de qualquer individualidade suspeita

de dissidência ou oposição (a Amn al-

-Khass). Ao contrário do seu irmão Odai, Qusai

faz questão de ser discreto, raramente aparece

em público, e, nos últimos anos, tem sido apontado

como o delfim político de Saddam. Possui

bons contactos no mundo árabe, em particular

junto do Presidente da Síria, Bashar Assad.

Primogénito de Saddam Hussein, 39 anos, controla

a generalidade dos meios de comunicação

social, tem um exército privado de 30 mil homens,

chefia o Comité Olímpico Iraquiano e

muitas outras entidades desportivas e culturais.

A sua queda para a violência é já uma lenda –

o pai chegou a metê-lo na prisão por ter assassinado

um dos guarda-costas presidenciais, mas

a condenação à morte foi comutada para um

exílio dourado na Suíça durante 12 meses. Em

Dezembro de 1996, sobreviveu a um atentado

que o deixou quase paraplégico. Nada que o tenha

afastado de uma vida boémia, feita de mulheres,

carros de corrida e animais selvagens –

gosta de aparecer na televisão rodeado de leões

ou ursos...A Comissão Europeia e várias organizações

não governamentais acusam-no de ser o

principal beneficiário de uma rede de corrupção

e tráfico de petróleo, tabaco e divisas.

bélicas, no ano em que Bagdad e Teerão

assinaram o cessar-fogo Saddam encarregou-se

de virar as suas tropas para a minoria

curda que se revoltou no Norte do

Iraque, e mais de 180 mil pessoas foram

mortas através do uso de armas químicas

e biológicas em 280 ocasiões.

Ouro para uma carruagem

Concluídas estas duas aventuras militares

e no dia em que celebrou o seu 52.º aniversário,

Saddam Hussein achou-se no direito

de exigir aos compatriotas que doassem

ao erário público o ouro que tinham

em casa. Um suposto contributo para a

exaurida economia iraquiana que o Presi-

SENHOR DE DE BAGDAD

Saddam sempre gostou

de ser adorado pelas

multidões. Mas nunca

se livrou da fama de ter

vários duplos para

o substituir nesse papel

dente haveria de derreter pouco depois numa

carruagem dourada e na qual chegou a

desfilar em Bagdad, à boa maneira dos monarcas

absolutos. Um pormenor na sua

longa lista de excentricidades – desde gostar

de ser cumprimentado pelos súbditos

numa área compreendida entre os mamilos

e as axilas ou a sua tendência para coleccionar

armas ou chapéus à prova de bala.

O maior devaneio da sua carreira política

chamou-se Kuwait e acabaria por converter

a sua personagem num alvo a abater.

A invasão do emirado durou sete meses,

mas o seu exército foi neutralizado em

mês e meio após a entrada em acção de

uma força multinacional liderada pelos

58 VISÃO 21 de Março de 2003


EUA e que incluiu vários países árabes.

Apesar da derrota militar e de ter perdido

ainda o controlo de 14 das 18 províncias

do país, Saddam sempre afirmou que a

Mãe de Todas as Batalhas (forma como se

refere à I Guerra do Golfo) só teve um

vencedor: ele próprio. Porque foi essa a

vontade de Deus, como revelou o profeta

Maomé a Saddam Hussein no encontro

que ambos tiveram a 22 de Outubro de

1990, segundo a versão presidencial.

A história ensina que a sobrevivência

do regime de Bagdad só foi possível graças

a uma ordem da Casa Branca. O pai

do actual chefe máximo dos EUA, George

Herbert Bush, mandou os soldados e

os blindados regressarem a casa quando

se encontravam a menos de duas horas da

capital iraquiana por já terem cumprido a

missão de libertar o Kuwait. Uma decisão

da qual se deve hoje arrepender e que permitiu

a Saddam consolidar ainda mais o

seu poder, apesar do isolamento diplomático

a que ficou votado e às sanções decretadas

pela ONU. E se o povo iraquiano

passou a lidar cada vez mais com a fome,

o analfabetismo ou a tirania, a verdade

é que Saddam foi incensado nos últimos

13 anos como um deus vivo, seja nos

bunkers decorados à moda de Luis XVI

ou nos incontáveis palácios e mesquitas

erguidos em seu nome. A partir de 1996,

FALEH KHEIBER/REUTERS

GUERRA DO GOLFO II

Contradições

financeiras

do Presidente

No mesmo dia em que se iniciava a nova

Guerra do Golfo, 21 famílias palestinianas

da Cisjordânia e da Faixa de Gaza receberam

uma prenda especial. Um cheque no

valor de, aproximadamente, 10 mil euros

oferecido pelo Presidente do Iraque. A boa

acção de Saddam Hussein teve por destinatários

os parentes de jovens combatentes

mortos pelas tropas israelitas, alguns

deles suicidas e activistas islâmicos do Hamas,

grupo colocado na lista negra de organizações

terroristas elaborada pela Administração

Bush.

Desde o início da Intifada palestiniana

contra o Estado hebraico, em Setembro

de 2001, o Governo de Bagdad já enviou

para os territórios ocupados mais de 35

milhões de euros, mas esta última dádiva

não deixa de ser surpreendente se se tiver

em conta que boa parte dos 400 soldados

iraquianos há quase um mês que

não recebe o pré, sobretudo os que estão

na fronteira com o Curdistão. Motivo que

leva Washington e alguns analistas militares

a considerarem que, nessa zona, deverão

registar-se deserções em massa

nas fileiras de Saddam.

o Programa Petróleo por Alimentos passou

a acudir às necessidades humanitárias

do país, mas o cinismo do Presidente chegou

ao ponto de ele afirmar na televisão

que os seus compatriotas «não podem

pensar apenas no pão», sob pena de se

«transformarem em vermes ou aves». Ou

de impor cortes drásticos no sistema de

racionamento quando ele próprio decide

fazer dieta. Algo que ocorre com alguma

frequência e que até já levou o Goveno

iraquiano a tentar importar uma máquina

de liposucção sob a égide da ONU. Resta

saber qual o tipo de vida que este amante

dos luxos ocidentais pretende fazer de

agora em diante. ■

VISÃO 21 de Março de 2003 59


GUERRA DO GOLFO II

PLANOS

O Iraque

depois

de Saddam

A seguir ao derrube do «raïs»

de Bagdad, Washington ficará

responsável por um país complicado

e dividido. Um olhar sobre o projecto

americano de reconstrução

do Iraque... e do Médio Oriente

ITSUO INOUYE/AP

Uma das grandes – e pertinentes –

reservas mantidas pelos que se

opõem a esta nova guerra no Iraque

é o que acontecerá depois.

Mesmo que a Administração Bush não

erre ao admitir um êxito militar rápido

por parte dos americanos, a paz no pós-

-guerra revelar-se-á seguramente complicada.

Mas alguns dos que apoiam a guerra

acreditam que a destruição do regime

de Saddam Hussein trará grandes benefí-

cios para o Médio Oriente. Apesar de ter

deixado transpirar uma tonelada de cenários

para vencer o exército de Saddam,

a Administração dos EUA pouco disse

sobre o modo de gerir o perigoso rescaldo.

Sobre isso, o exclusivo tem pertencido

ao próprio Bush, que costuma descrever,

sempre da mesma maneira, a sua

grande antevisão do Iraque: um país

transformado pela guerra nas cores americanas

da democracia, prosperidade e

CONQUISTA

A guerra, segundo

vários observadores,

poderá ser o mais

fácil. O pior será

governar depois

o Iraque

paz. E, segundo ele, essa grande visão deverá

estender-se depois a toda aquela

parte do mundo, onde o «exemplo profundo

e inspirador» (a libertação do Iraque)

criaria «um novo palco para a paz

no Médio Oriente» e «mostraria o poder

da liberdade para transformar essa região

vital e levar esperança e progresso à vida

de milhões de pessoas». Resumindo, é

aquilo que Bush considera «uma batalha

pelo futuro do mundo muçulmano».

60 VISÃO 21 de Março de 2003


Estes objectivos de Bush constituem

uma estreia absoluta para um país – os

EUA – que nunca se importou muito com

a forma como os Estados árabes eram governados,

desde que o petróleo continuasse

a correr barato para os depósitos das

«banheiras» americanas, e para um Presidente

que chegou à Casa Branca manifestando

desprezo pela reconstrução de países.

Vejamos o que dizem os memorandos

pós-guerra de Washington

1. Quem vai governar o Iraque?

Até os mais visionários da Administração

reconhecem que conquistar o Iraque

promete ser mais fácil do que devolvê-lo

aos iraquianos. Mas muita coisa depende

da forma como a guerra progredir. Os planos

para o pós-guerra requerem inevitavelmente

uma adaptação à medida que se

avança. Mas tem havido uma divisão

constante no seio da Administração sobre

as opções preferidas. Tanto em grandes

como em pequenas questões, registam-se

divergências entre o Departamento de Estado

e a CIA contra o Pentágono e o gabinete

do vice-presidente. Só a 20 de Janeiro

o Departamento de Defesa assumiu as

operações de pós-guerra no novo Gabinete

de Reconstrução e Assistência Humanitária,

designando Jay Garner, um general

na reforma e amigo de secretário da Defesa,

Donald Rumsfeld, como patrão da paz.

O principal especialista em Iraque do Departamento

de Estado, Ryan Cricker, falado

para ir para Bagdad como embaixador,

pode não assumir o cargo por haver na

Defesa tanto poder do pós-guerra.

Bush referiu-se a um leque amplo de intenções

americanas quando apontou como

modelo para o novo Iraque a reconstrução

do Japão e da Alemanha após a

Segunda Guerra Mundial. Embora não o

digam em público, os funcionários da Casa

Branca admitem em privado que o plano

é, pura e simplesmente, a conquista do

Iraque. A Administração gosta de lhe chamar

libertação. Mas significaria uma ocupação

total à moda antiga por forças dos

EUA, que governariam o país até este estar

pronto a ser devolvido aos iraquianos.

Os responsáveis dizem que o plano prevê

forte controlo militar, sob a autoridade

global do comandante da invasão, general

Tommy Franks. «A única coisa que está

em questão agora», diz um funcionário

do Departamento de Estado, «é quanto

tempo vai durar essa governação».

Sobre isso, Bush tem permanecido

opaco: «Vamos ficar no Iraque enquanto

for preciso e nem mais um dia.» Quanto

DAVID GUTTENFELDER/AP

lBAGDAD

A reconstrução da sociedade civil é uma das tarefas mais difíceis dos planos americanos

tempo será isso, depende de decisões difíceis

que ainda não foram tomadas sobre

o papel dos EUA. Deverá a América estar

mais preocupada em assegurar a estabilidade

ou em evitar a impressão de ocupação?

Deverão os EUA estabelecer estruturas

políticas básicas e retirar, ou ficar

mais tempo para tentar construir a sociedade

civil? Segundo todos os esquemas,

um efectivo completo de tropas americanas

– qualquer coisa entre 50 e 200 mil –

formaria a autoridade central por um mínimo

de seis meses, e um número menor

iria provavelmente permanecer durante

dois anos, embora alguns peritos afirmem

que teriam de ficar 20 a 90 mil durante

anos.

2. Ocupar durante quanto tempo?

Os chefes do Pentágono querem entrar

e sair rapidamente. Devem ter franzido o

sobrolho quando Bush falou do Japão.

Essa reconstrução demorou sete anos aos

EUA. Não é esse o modelo, insiste o subsecretário

da Defesa para a Política, Douglas

Feith. «Envolveríamos os iraquianos

logo que possível, e transferiríamos a responsabilidade

para entidades iraquianas

logo que fosse viável», diz.

Os estrategos estão a tentar facilitar a

transição. Apostam que uma abertura feroz

– aquilo a que chamam uma «campanha

de choque e temor» – anulará a vontade

de resistência do Iraque e porá rapidamente

fim ao regime de Saddam com

pouca destruição das infra-estruturas do

país. Alguns responsáveis militares até

murmuram que o plano de guerra deixa

de lado demasiadas redes de transporte e

energia como dádiva para as necessidades

do pós-guerra. Mas se as hostilidades se

arrastarem, a reconstrução do Iraque pode

revelar-se tão dispendiosa e complicada

como os quatro anos de reconstrução

da Alemanha de Hitler.

3. Acções imediatas

Nos primeiros dias do pós-Saddam será

necessária uma grande presença militar

dos EUA. Alguém terá de prestar a assistência

humanitária de que os civis iraquianos

precisarão. Quase 60% dos iraquianos

dependem das senhas de racionamento do

Governo. Os «libertadores» não serão bem

recebidos se não fornecerem rapidamente

aos 25 milhões de habitantes do país rações,

água, abrigo e cuidados médicos.

Outras missões imediatas passam pela

vigilância das fronteiras, impedir os iraquianos

de ajustarem contas entre si, impedir

as três principais comunidades do país

– curdos, sunitas e xiitas – de combaterem

e encontrar quaisquer armas de destruição

maciça que o Iraque possua. O Pentágono

já está preocupado com a dinâmica dessa

busca. «Temos de encontrar e mostrar ao

mundo as armas de Saddam», diz um responsável

da Defesa – de uma forma, acrescenta,

que não deixe suspeitas de que os

EUA forjaram as provas. Essa é uma das

razões pelas quais o Pentágono, ao contrário

do que é habitual, decidiu deixar 500

jornalistas de todo o mundo acompanharem

as forças americanas na invasão.

4. Comando de emergência

Garner, sob o comando de Franks, será

encarregado das questões civis. Irá coordenar

a reconstrução e a administração

civil e – rapidamente, espera Washington

– transferir a assistência humanitária dos

militares para a ONU e as agências não

governamentais. Inicialmente, falou-se de

nomear uma personalidade civil para eliminar

o ónus de uma ocupação militar,

mas um responsável da Casa Branca diz

que «um czar civil não é o que as pessoas

têm em mente». Os EUA acham que mais

um anel na cadeia de comando iria afectar

a eficácia da operação.

VISÃO 21 de Março de 2003 61



GUERRA DO GOLFO II O futuro

O IRAQUE DEPOIS DE SADDAM

Garner e Franks terão o controlo

total do país enquanto forem tomadas

as decisões mais críticas sobre o

futuro. Fontes da Administração di-

zem que os EUA colocarão conselheiros

nos ministérios iraquianos a

fim de ligar directamente o gabinete

de Garner aos assuntos quotidianos.

Os diplomatas árabes informados

sobre os planos denegriram estes

conselheiros como sendo comissários

ao estilo comunista. Mas Washington

diz que o seu papel será ajudar

a reformar a burocracia iraquiana.

Alguns poderão ser americanos

de origem iraquiana, e trarão para a

tarefa a necessária competência técnica

e a familiaridade com a democracia

ocidental. Fontes da Administração

dizem esperar dar a um

americano de origem árabe um papel

altamente visível: o general John

Abizaid, um dos poucos oficiais superiores

americanos que falam árabe,

foi recentemente promovido a

segundo adjunto de Franks. E possui

uma agenda carregada.

5. Reforma das forças

de segurança

O pesado aparelho de agentes que levava

a cabo a repressão de Saddam – talvez

5 mil nos vários serviços de segurança especiais

– será saneado. Mas o Iraque continuará

a precisar de um exército para preservar

a unidade do Estado e impedir a interferência

dos vizinhos. Os duros da equipa

de Bush queriam uma limpeza completa.

As cabeças mais frias advertiram que se

o exército fosse dissolvido, os EUA iriam

enfrentar milhares de soldados esfomeados

e desempregados e não teriam forças competentes

para ajudar a policiar o país.

O Pentágono só preparou um plano rudimentar

para reabilitar o grosso do exército,

uma estratégia cheia de calão militar

desenxabido. Parte de um documento a

que tivemos acesso prevê uma abordagem

em três fases: «Estabilização, transição,

transformação.» Um funcionário céptico

diz: «Desafio-o a indicar a diferença entre

transição e transformação.»

Anulação do Partido Baas. No regime de

Saddam, o partido sustenta a estrutura monolítica

de poder político. Eliminar o exército

secreto de espiões, operacionais locais,

delatores e informadores de Saddam seria

difícil e perigoso. Os funcionários de Bush

concordam na necessidade de um proces-

JEROME DELAY/AP

lMESQUITA DA MÃE DE TODAS AS GUERRAS

O que vão fazer os americanos com os apoiantes de Saddam?

so de limpeza, mas ainda discutem até que

profundidade este deve ir.

Os serviços secretos dos EUA juntaram

as suas bases de dados para preparar listas

de iraquianos importantes, divididos

em três categorias. Primeiro, a elite culpada:

o núcleo de Saddam – responsáveis

militares, da segurança, serviços secretos

e funcionários políticos, mais os membros

da família – que serão capturados, julgados

e punidos por um tribunal para crimes

de guerra. Segundo, os arrependidos:

funcionários superiores cuja fidelidade a

Saddam é menos certa e que podem ser

reabilitados através de julgamentos locais

ou comissões da verdade desde que repudiem

o ditador durante a guerra. Finalmente,

o grupo dos dissidentes: os líderes

governamentais e económicos que em

privado se opõem a Saddam e serão precisos

para gerir o país depois dele poderiam

receber uma amnistia geral. Washington

reuniu até agora mais de 2 mil

nomes, mas não diz quantos se inserem

em cada grupo. Os ocupantes podem ter

de impedir as represálias contra os membros

do partido que poderiam afectar o

funcionalismo público de que um novo

governante precisará.

6. Gestão do petróleo

Visto que a maior parte do mundo

acredita que os EUA cobiçam

as reservas petrolíferas do país (as

segundas maiores do mundo),

Washington será julgada pelo seu

comportamento nesta matéria.

Tem corrido o boato de que as forças

britânicas serão encarregadas

de tomar os campos petrolíferos

durante as hostilidades, a fim de

poupar os EUA à propaganda adversa.

Mas funcionários superiores

dos EUA dizem que esse papel das

forças britânicas não foi fixado.

Bush prometeu que os recursos

petrolíferos do Iraque seriam usados

«para benefício dos seus proprietários:

o povo iraquiano». Embora

alguns assessores do Pentágono

esperassem que as vendas de

petróleo iriam ajudar a pagar a

guerra, outros, no Departamento

de Estado, defendem que a política

de apropriação seria condenável,

sugerindo que as operações petrolíferas

sejam coordenadas por uma

comissão internacional até poderem

ser devolvidas ao Iraque. Mas

Washington espera que as receitas

de petróleo no pós-guerra ajudem

a financiar a reconstrução, aliviando a carga

aos contribuintes americanos.

7. Devolver o poder

O desafio mais complicado será decidir

como e quando o controlo político será devolvido

aos iraquianos. Não há bons projectos

para transformar um regime autoritário

num regime democrático. Mas o Iraque

tem desvantagens especiais. Muitos especialistas

em questões iraquianas, tanto

no mundo árabe como no Ocidente, temem

que os EUA estejam a interpretar mal

as realidades ao pensarem impor a democracia

num país profundamente tribal, vingativo

e cheio de ressentimento. O vazio

deixado pelo colapso do punho de ferro de

Saddam pode desencadear lutas pelo poder

e vinganças capazes de conduzir a uma

guerra civil prolongada e até a uma divisão

do país. Não há nenhum democrata à espera

de entrar se o ditador partir. Sunitas,

xiitas e curdos disputariam a sua quota de

poder. Os exilados iraquianos disputariam

a supremacia aos que estão no país e que

desconfiam deles. O Iraque não possui um

órgão tradicional como a Loya Jirga do

Afeganistão, capaz de dar uma forma rápida

à governação interna. Daí que os duros

62 VISÃO 21 de Março de 2003


da Administração tenham feito pressão para

que se deixe o Congresso Nacional Iraquiano

(o controverso grupo de exilados

que agrupa as principais facções da oposição)

organizar previamente um governo

provisório. A Casa Branca acabou por decidir

contra isso, fazendo com que os exilados

se sintam traídos.

A curto prazo, dizem os responsáveis,

Garner apressar-se-á a nomear um conselho

consultivo de iraquianos, equilibrado

sensivelmente a meio por meio entre figuras

do exílio e dirigentes que possam surgir

no interior. Terá um papel largamente

simbólico, e uma vez surgidos os partidos

políticos e os novos dirigentes, poderão

ter lugar eleições locais e nacionais.

Washington não ditará, disse Bush, a

forma precisa do novo governo do Iraque;

isso é com os iraquianos, desde que não

seja outra ditadura. Embora o Pentágono

espere que os rudimentos sejam feitos em

seis meses, a maioria dos especialistas diz

que serão precisos pelo menos dois anos.

Belos conceitos, mas funcionarão na

prática? Gary Samore, um funcionário do

Conselho de Segurança Nacional da Administração

Clinton, diz não conseguir

imaginar os iraquianos a tolerar um governador

americano por mais de um par de

meses. Outros dizem que o verdadeiro perigo

não é que os EUA fiquem demasiado

tempo, mas que não fiquem o tempo suficiente.

A democracia, diz Amin Huweidi,

um antigo embaixador egípcio no Iraque,

não pode ser imposta no Iraque «carregando

num botão. É um processo que demora

muito tempo». Muitos europeus concordam

e vêem no Afeganistão os resultados

pouco satisfatórios da última invasão de

Washington: um país ainda longe de estar

estabilizado, democrático e até pacífico,

agora ameaçado de esquecimento depois

da sua «libertação». De facto, o orçamento

de Bush para 2003 nem sequer pediu ao

Congresso o dinheiro que os EUA se comprometeram

a facultar este ano para a reconstrução

do Afeganistão.

8. A democracia irá florescer?

Bush acha que o êxito no Iraque

pode mudar todo o panorama

da região de duas maneiras –

incentivando os reinos escleróticos

e os regimes repressivos a

abraçarem a democracia e contribuindo

para «pôr em marcha»

a paz entre israelitas e palestinianos.

Bush adoptou aqui a teologia

neoconservadora: os EUA invadem

uma parte disfuncional

AP

DAVID GUTTENFELDER/AP

lRUAS DE BAGDAD

Apesar da «libertação» ser uma das bandeiras de Bush, o Presidente dos EUA

nunca explicou como será feita a democratização do país

do mundo para a reparar, e o choque da

guerra irá finalmente deixar o mundo árabe

com melhor saúde. É uma ideia audaciosa,

mas não um plano de trabalho. Nem

Bush nem qualquer funcionário da Administração

deram pormenores sobre como

irá ocorrer a onda de democratização.

Na região, os árabes simplesmente não

compram isso. Não confiam em Bush, e estão

natural e profundamente cépticos com

as tentativas americanas de impor a democracia

pela força. Mesmo que as coisas pudessem

mudar para melhor, diz Khalil Shikaki,

director do Centro Palestiniano de

Estudos Políticos, em Ramallah, «era preciso

ser-se verdadeiramente ingénuo para

acreditar que a actual Administração dos

EUA iria investir esforços sérios na promoção

da boa governação na região».

Entre os árabes, a visão de um pós-guerra

no Médio Oriente está cheia de temores.

Muitos estão convencidos de que a guerra

JAY GARNER

O homem

escolhido para

governar o Iraque

a seguir à guerra

irá alimentar a instabilidade regional e desencadear

nova onda de antiamericanismo.

As fileiras terroristas encontrariam novos

recrutas para espalhar a violência na

região. As forças fundamentalistas podem

provocar acções repressivas que abafem

qualquer abertura política. Ou, se os regimes

permitirem uma ténue democracia, os

fundamentalistas bem organizados podem

chegar ao poder. «As consequências da

guerra», diz o ministro dos Negócios Estrangeiros

da Arábia Saudita, príncipe

Saúd Al-Faiçal, «vão ser trágicas».

A previsão de Bush de que a eliminação

de Saddam incentivará o processo de paz

no Médio Oriente pode ser ainda mais longínqua.

Embora o líder do Iraque tenha recompensado

as famílias dos suicidas palestinianos,

esse dinheiro não é certamente

um factor significativo no seu prolongado

conflito com Israel. «Quando assentar a

poeira da guerra», diz Richard Murphy, especialista

em Médio Oriente do Conselho

de Relações Externas, «continuarão a ter

queixas um contra o outro que não desejarão

aplacar».

Bush colocou a si mesmo um grande desafio.

Assumiu o compromisso mais arriscado

do país numa geração. Prometeu aos

americanos que esta guerra vai fazer mais

bem que mal. Pareceu invulgarmente confiante

quando falou, mas os desejos são uma

coisa e a realidade é outra, especialmente

numa região habituada a miragens. ■

© TIME/VISÃO

GUERRA DO GOLFO II

VISÃO 21 de Março de 2003 63


GUERRA DO GOLFO II Há 12 anos

RECORDAÇÃO

Golfo, parte I

A guerra de 1991 teve como resultado visível

a libertação do Kuwait. Mas o conflito de 43 dias

que causou «apenas» 340 baixas entre as forças

aliadas não destronou o ditador de Bagdad,

agora na mira do filho do Bush de há 12 anos

Quando começou efectivamente a

Guerra do Golfo? Quando os primeiros

tanques atravessaram o

deserto do Sul do Iraque e invadiram

o Kuwait para se apoderarem das

suas ricas reservas petrolíferas? Ou muitos

anos antes, quando as autoridades imperialistas

britânicas retalharam o Médio

Oriente?

Apesar de os analistas terem evidenciado

até à exaustão a pesada herança deixada

pelo poder colonial europeu, que traçou

as fronteiras dos actuais Estados do

Golfo sem respeitar etnias, tribos e a multissecular

história da região, oficialmente

a Guerra do Golfo começou quando, em

2 de Agosto de 1990, os blindados de

Saddam Hussein cruzaram a fronteira

com o Emirado do Kuwait.

A riqueza do pequeno Estado governado

por Jaber al-Ahmad al-Jaber contrastava

em 1990 com a difícil situação económica

do Iraque, resultado de uma sangrenta

guerra de sete anos contra o Irão.

Foi durante esse conflito que Saddam estabeleceu

um arsenal e um poderio militares

ímpares na região. Mas os cofres estavam

vazios, e o preço do petróleo, perigosamente

baixo, impedia a recuperação.

Em 17 de Julho, Saddam acusou o Kuwait

e os Emirados Árabes Unidos de

inundarem de petróleo o mercado internacional,

mantendo os preços demasiado

baixos. E, apontando directamente o dedo

ao vizinho Kuwait, acusou-o de «secar»

o campo petrolífero de Rumaila,

uma reserva junto à fronteira disputada

pelos dois países. O ministro dos Negócios

Estrangeiros iraquiano insistiu então

no perdão de 30 mil milhões de dólares

da dívida externa do seu país, compensação

por aqueles alegados crimes. Enquanto

ainda ecoavam os discursos, os tanques

de Bagdad tomavam posições junto da

fronteira com o Emirado.

No dia 25, a embaixadora americana

April Glaspie encontra-se com Saddam e

dá-lhe a conhecer a posição do seu Governo:

os EUA não assistirão passivos ao decorrer

dos acontecimentos. As negociações

entre o Iraque e o Kuwait também

não correm pelo melhor e são interrompidas

a 1 de Agosto. No dia seguinte, tudo se

precipita: os primeiros tanques atravessam

a fronteira, obrigando o emir ao exílio.

Americanos enviam tropas

Após a invasão, as reacções fizeram-se

sentir em capitais de todo o mundo.

George Bush (pai do actual Presidente

dos EUA) protesta de imediato contra a

acção militar, manda congelar os bens

dos dois países na América e põe em alerta

as suas forças militares estacionadas no

Médio Oriente. Na Arábia Saudita, o país

com as maiores reservas de petróleo do

mundo, instala-se o pânico – e se Saddam

decide também ocupar o país, tornando-

-se dono e senhor de metade das reservas

petrolíferas mundiais?

O pedido de ajuda militar aos EUA é

feito pelo reino saudita a 7 de Agosto. Enquanto

soldados americanos das equipas

de intervenção rápida começam a preparar-se

para uma viagem até às areias do

deserto, o Conselho de Segurança da

ONU faz passar uma resolução condenando

a invasão e impondo um embargo

comercial ao país. A União Soviética, a viver

a Primavera de Gorbachev, não se

opõe aos americanos, e começa a formar-

-se uma vasta coligação internacional.

Para os americanos, a operação militar

é a maior de sempre após a Guerra do

Vietname. Cerca de 230 mil soldados recebem

guia de marcha para a Arábia Saudita

e é estabelecida a maior ponte aérea

de sempre entre dois países. Aviões F15,

F16, F111 e F117 são enviados para o

Golfo, juntamente com o mais variado

material de suporte. A máquina de guerra

americana é posta em movimento.

Entretanto, no Kuwait e no Iraque,

Saddam manda prender cidadãos de países

ocidentais – americanos, ingleses, mas

também portugueses e suíços – e ordena

que sejam colocados em instalações militares

estratégicas, funcionando como escudos

humanos contra possíveis ataques

das forças dos EUA. Permanecerão detidos

até Dezembro. Os primeiros relatos

sobre a situação dentro do Emirado também

são desanimadores: pilhagens, tortura,

assassínios e roubos são prática comum

das forças ocupantes.

A aliança

Em Novembro, Bush decide um reforço

da presença militar americana no Golfo,

duplicando o número de efectivos

(atingirá os 500 mil homens). No dia 29,

64 VISÃO 21 de Março de 2003

AP/J.SCOTT APPLEWHITE


o Conselho de Segurança das Nações

Unidas aprova por maioria (com os votos

contra de Cuba e do Iémen e a abstenção

da China) a resolução 678, que estabelece

o dia 15 de Janeiro para a retirada das tropas

iraquianas do Kuwait. Lançado o ultimato,

os EUA reforçam o seu dispositivo,

chamando reservistas que são designados

para postos entretanto deixados vagos ou

para reforçarem os batalhões já presentes

na região. A operação Escudo do Deserto

começa a ganhar os contornos de uma

vasta operação militar.

Na frente diplomática as coisas também

não correm bem a Saddam. Dois terços

dos 21 Estados-membros da Liga Árabe

condenaram a invasão do Kuwait, fazendo

eco das posições dos EUA, Inglaterra,

França, URSS e Japão. O Egipto e outros

CONFIANÇA NA VITÓRIA

No Dia de Acção de Graças, durante uma visita a um acampamento de militares norte-

-americanos estacionados na Arábia Saudita, George Bush lança presentes aos soldados

12 países árabes oferecem tropas para enfrentar

Saddam e libertar o Kuwait, entretanto

transformado em 19.ª província iraquiana.

Do lado das fileiras de Saddam

permanecem apenas a Jordânia, a OLP,

Argélia, Sudão, Tunísia e Iémen.

Perante o reforço da presença militar

da coligação internacional, Saddam alarga

os efectivos do seu exército, que passam

de 500 mil para 680 mil homens.

O que mais preocupa então os aliados é a

possibilidade de Saddam utilizar armas

químicas, biológicas ou mesmo nucleares,

já que as informações recolhidas pela CIA

e pelos agentes secretos infiltrados no terreno

asseguram que Bagdad possui armas

de destruição maciça. A evidência tinha

sido recolhida anos antes, em 1986, quando

60 mil curdos foram bombardeados

com armas químicas pelo exército do seu

próprio país, em Halabja. Outro motivo

de receio é um ataque do Iraque a Israel:

em resposta à agressão, o Estado judaico

poderá utilizar armas nucleares, atingindo

a guerra proporções inimagináveis.

No campo da diplomacia é tentada uma

última jogada. Além das iniciativas de

franceses e russos, que fazem constantes

peregrinações a Bagdad tentando uma saída

para a crise – como a que propunha

que Saddam obtivesse alguma vantagem

territorial, anexando por completo o campo

petrolífero de Rumaila e duas pequenas

ilhas ao largo da costa kuwaitiana

–, no dia 9 de Janeiro o secretário de Estado

americano, James Baker, encontra-se

em Genebra com o ministro dos Negócios

Estrangeiros do Iraque, Tareq Aziz.

VISÃO 21 de Março de 2003 65



GUERRA DO GOLFO II

GOLFO,PARTE I

Mas apesar das grandes expectativas, o encontro

é um falhanço. Dentro de dias, os

tambores da guerra voltariam a soar.

O ataque

A 16 de Janeiro, 24 horas após o expirar

do prazo dado pelo Conselho de Segurança,

os primeiros aviões americanos começaram

o bombardeamento: a operação

Escudo do Deserto passa a Tempestade do

Deserto. Os raids partiram de bases sauditas

e de outras plataformas mi-

litares, como os porta-aviões

estacionados no Golfo.

A operação aérea foi planeada

num bunker do quartel-general

da Real Força Aérea

Saudita. Após a invasão

do Kuwait, uma célula de analistas

americanos foi constituída

com a missão de definir

os alvos a abater. Destruir

a rede de comando de Saddam,

inutilizar os radares e os

mísseis antiaéreos, acabar

com as fábricas e laboratórios

onde eram produzidas armas

de destruição maciça, arrasar

pistas de aterragem e infra-estruturas

portuárias e rodoviárias

e humilhar a sua força de

elite, a Guarda Republicana,

foram os objectivos definidos.

No segundo dia de bombardeamentos,

Saddam declara

que a «mãe de todas as batalhas»

está em curso e ordena o

lançamento de mísseis Scud

contra Israel e a Arábia Saudita.

Mísseis Patriot americanos

interceptam alguns, mas a cidade

de Telavive é atingida,

provocando a ira dos israelitas.

Bush é capaz de controlar

o seu aliado, que se mantém à

margem do conflito – evitando

assim o princípio do fim da coligação,

da qual faziam parte países árabes.

Os ataques dos americanos são eficazes

e o poderio de Saddam é reduzido após a

intensa campanha aérea. No início de Fevereiro

de 1991, cerca de 120 caças iraquianos

refugiam-se no Irão, deixando às

forças da coligação internacional o controlo

dos céus sobre o Tigre e o Eufrates.

A batalha terrestre

Após 39 dias de bombardeamentos

acompanhados por escaramuças ao lon-

Início • 2 de Agosto de

1990, invasão do Kuwait

Fim • 3 de Março de 1991,

Iraque aceita cessar-fogo

Baixas americanas

• 148 mortos em combate

e 145 em acidentes

Baixas militares

iraquianas • cerca

de 100 mil

Prisioneiros de guerra

iraquianos • 71 mil

Países da coligação •

Kuwait, EUA, Arábia Saudita,

Inglaterra, França, Holanda,

Egipto, Síria, Omã, Qatar,

Bahrein, Emirados Árabes

Unidos, Canadá, Bélgica, Itália

(que mandaram efectivos

para o combate), Israel,

Afeganistão, Bangladesh,

Checoslováquia, Alemanha,

Honduras, Níger, Roménia

e Coreia do Sul

Apoiantes do Iraque •

Jordânia, Iémen, OLP, Sudão,

Tunísia e Argélia

go da fronteira entre o Iraque e a Arábia

Saudita e tentativas de acordos de paz

patrocinados pela URSS, começa a batalha

terrestre. O general Norman

Schwartzkopf, comandante-chefe da

operação Tempestade no Deserto, conduz

então uma rápida ocupação, com o

apoio de meios aéreos, que em apenas

cinco dias resulta na conquista do território

do Kuwait. A 27 de Fevereiro, 43

dias depois do início da ofensiva americana,

a bandeira do Emirado adeja de

novo em Kuwait City.

Mas o preço da presença dos militares

iraquianos manter-se-á durante bastante

mais tempo. Antes da retirada, centenas

66 VISÃO 21 de Março de 2003


de poços de petróleo são incendiados e as

imagens de intensas colunas de fumo preto

a subir nos céus enchem os ecrãs de todo

o mundo. A 3 de Março, o general

Schwartzkopf dita aos iraquianos os termos

do cessar-fogo. Nenhum do material

deixado para trás poderá ser recuperado

pelas tropas derrotadas e é criada uma zo-

na de exclusão aérea no Sul do Iraque,

para proteger as tropas americanas ainda

ali estacionadas.

A Guerra do Golfo custou cerca de 60

mil milhões de dólares, mas 48 mil milhões

foram suportados pela Arábia Saudita,

Kuwait e Japão. Cerca de 100 mil iraquianos

perderam a vida, enquanto as

O REGRESSO

A reacção de dois soldados

norte-americanos do Estado

de Nova Iorque quando

descobrem que no saco

de plástico ao seu lado

se encontra o corpo

de um companheiro, morto

em combate durante o mês

de Março de 1991, horas

antes do fim do conflito

baixas dos aliados se cifraram em 340

mortos, 300 dos quais eram militares

americanos. Durante os 43 dias de guerra

registaram-se cerca de 116 mil descolagens

de aviões das forças aliadas. Os números,

como os de todas as guerras, são

aterradores. Mas serão certamente ultrapassados

pelos que aí vêm. ■

VISÃO 21 de Março de 2003 67

AP/DAVID C. TURNLEY


GUERRA DO GOLFO II Em 1991

lCHEGADA A KUWAIT CITY

«Era meio-dia de 27 de Fevereiro quando o Batalhão Lwa, do Kuwait, entrou nos limites da capital»

MEMÓRIA

A libertação do Kuwait

Imagens que marcaram o diário do enviado especial

de O Jornal na zona de conflito

Aguerra era já certa quando Carlos

Cáceres Monteiro, actual director

da VISÃO, aterrou em Bagdad,

no início de Janeiro de

1991. Os habitantes tentavam sair da capital

iraquiana por todos os meios, encaixotavam

tudo aquilo que se pudesse partir

com os bombardeamentos previsíveis,

relembravam os maus momentos passados

na guerra com o Irão. E, no entanto,

«a cidade do medo» vivia a contagem final

com aparente calma. «Ainda há pouco»,

escrevia o enviado especial de O Jornal,

«sobre as cúpulas policromáticas das

mesquitas e os terraços das casas flutuavam

os cânticos lamentosos dos muezines

e os restaurantes da beira do Tigre serviam

o peixe do rio, o magfsouz.»

Cáceres Monteiro, então com 42 anos,

aterrava com a experiência de repórter

noutros palcos de guerra, vários blocos e

canetas de escriba, um telefone-satélite

que faria a «felicidade sem fios» de dois

kuwaitianos atraídos pela parabólica liga-

da ao gerador do carro, e uma máquina

fotográfica que não parou de disparar. Ao

longo de um mês e meio, havia de percorrer

centenas de quilómetros entre o Iraque,

o Kuwait, o Egipto e a Jordânia, de

onde enviou reportagens para O Jornal e

a TSF, estórias sempre com gente dentro.

Mas, se foi no campo jordano de Azraq

que viu «o pavor da guerra nos olhos»

dos refugiados, dois episódios marcam de

forma indelével o seu diário de guerra: a

rendição de um grupo de soldados iraquianos

e o «dia 1» da libertação de Kuweit

City. «Viemos a saber que estavam ali

escondidos há 53 dias. Alguns deles agitam

panos brancos presos nas pontas de

paus», escreveria. «Estamos prestes a entrar

na capital do Kuwait. [...] O bombardeamento,

a pouca distância, dá o pano

de fundo trágico, quase patético, desta cena,

com os iraquianos sentados no meio

do deserto.» Doze anos depois, Cáceres

Monteiro está de novo na área, agora como

enviado especial da VISÃO. ■

LIBERTAÇÃO, ‘DIA 1’

«As mulheres soltavam

gritos de júbilo, à tradicional

maneira árabe»

lO FIM DO PESADELO

«É indiscritível a manifestação de alegria

dos soldados»

68 VISÃO 21 de Março de 2003

CÁCERES MONTEIRO

CÁCERES MONTEIRO


SUL DO IRAQUE

«O bombardeamento, a pouca distância,

dá o pano de fundo trágico»

CÁCERES MONTEIRO

‘MARCHA DA LIBERTAÇÃO’

«O ambiente nesta coluna

[militar] é de vitória mas,

apesar disso, muito bélico.

É uma marcha de arma

apontada»

GUERRA DO GOLFO II

lRENDIÇÃO NO DESERTO

«Todos [os soldados iraquianos] têm os olhos

brilhantes. Será mais de terror do que de tristeza»

VISÃO 21 de Março de 2003 69

CÁCERES MONTEIRO

CÁCERES MONTEIRO

CÁCERES MONTEIRO

CÁCERES MONTEIRO


GUERRA DO GOLFO II

CRONOLOGIA

Anos de tensão

O Iraque começou a dar que falar há quase 13 anos, quando

invadiu o Kuwait. O exército de Saddam foi expulso, mas

o regime não foi derrubado. E o braço-de-ferro continuou

1990

17 JUL Saddam Hussein acusa o

Kuweit e os Emirados Árabes Unidos

(EAU) de produção excessiva de

petróleo, fazendo assim baixar os

preços

2 AGO O exército iraquiano invade

o Kuweit. O Conselho de Segurança

(CS) da ONU impõe um embargo

económico ao Iraque

7 AGO O presidente dos EUA,

George Bush (pai), envia tropas para

o Golfo Pérsico

1991

17 JAN Uma coligação liderada

pelos EUA lança uma devastadora

guerra aérea sobre o Iraque

26 FEV O Kuweit é libertado. Dois

dias depois, Bagdad aceita um

cessar-fogo

2 MAR Muçulmanos xiitas revoltam-se

contra Saddam, no Sul do Iraque. Mais

tarde, no Norte, curdos associam-se

à revolta.Ambas as insurreições são

selvaticamente esmagadas, após um

mês de combates

ABRIL O Iraque começa a entregar

relatórios sobre armas de destruição

maciça, enquanto a ONU acusa

Saddam de esconder mísseis e

instalações nucleares. EUA, França e

Reino Unido declaram território

curdo livre uma área de 30 mil

quilómetros quadrados no Norte do

Iraque e restringem os voos acima

do paralelo 36

1992

27 AGO Os EUA, apoiados pelo

Reino Unido e pela França,

restringem os voos no Sul do Iraque,

para proteger os rebeldes xiitas

1994

Numa tentativa de ver levantadas as

sanções, o Iraque reconhece a

independência do Kuweit, aceitando

as fronteiras delimitadas por uma

comissão da ONU

1996

9 DEZ A ONU permite que o Iraque

venda (limitadamente) petróleo, no

primeiro levantamento de sanções

desde 1990

1997

29 OUT O Iraque exige que os

inspectores americanos da ONU

abandonem o país; estes saem, mas

regressam a 20 de Novembro

AP/DOMINIQUE MOLLARD

1990

13 JAN O Iraque deixa

temporariamente de cooperar,

alegando que a equipa da ONU tem

demasiados inspectores americanos

e britânicos

22 JAN O Iraque recusa inspecções

em palácios presidenciais

20–23 FEV Kofi Annan, secretário-

-geral da ONU, assegura a

cooperação iraquiana e a circulação

sem restrições dos inspectores

31 OUT O Iraque põe cobro à

cooperação com a UNSCOM, que

abandona o país

14 NOV O Iraque permite que

recomecem as inspecções

16 DEZ Inspectores de armamento

são expulsos do Iraque. Horas mais

tarde, começam quatro dias de

bombardeamentos americanos e

britânicos sobre Bagdad

1999

O Iraque começa a treinar centenas

de milhares de civis, desde

adolescentes até septuagenários,

para se defender de um ataque

americano

17 DEZ A ONU substitui a UNSCOM

pela UNMOVIC (Comissão de

Monitorização, Verificação e

1992 • Armas químicas destruidas

17 JANEIRO 91 • Ataque a Bagdad 1991 • Poços de petróleo incendiados 1998 • Bombardeamento de Clinton

Inspecções). O Iraque rejeita a

resolução

2000

1 MAR Hans Blix assume o lugar de

administrador executivo da

UNMOVIC

10 AGO Hugo Chávez, presidente

da Venezuela, encontra-se com

Saddam na primeira visita de um

chefe de Estado ao Iraque desde a

Guerra do Golfo

22 SET Um charter francês torna-se

o primeiro voo internacional a

ignorar um pedido da ONU para

esperar por autorização, aterrando

em Bagdad e dando origem a uma

série de voos (com e sem

aprovação) de países ansiosos por

furar as sanções

NOV O Iraque rejeita novas

propostas de inspecção de

armamento

5 NOV O Iraque organiza dois voos

comerciais domésticos, de Bagdad

para Baçorá e Mossul, desafiando as

restrições do espaço aéreo. Os EUA

não levantam objecções, mas a

jogada é vista como mais uma

provocação

2001

16 FEV Na sua primeira intervenção

militar, George W. Bush manda

aviões americanos e britânicos

bombardear defesas antiaéreas

perto de Bagdad, no primeiro

ataque a norte do paralelo 33 desde

Dezembro de 1998

27 FEV O ministro dos Negócios

Estrangeiros iraquiano rejeita uma

proposta americana para emendar

as sanções da ONU, alegando que

70 VISÃO 21 de Março de 2003

AP/MICHEL LIPCHITZ

epa

REUTERS


tudo não passa de um golpe para

justificar a manutenção do embargo

4 JUN O Iraque suspende

temporariamente as exportações de

crude que não sejam para os vizinhos

Turquia e Jordânia, como protesto por

uma decisão do CS que alargava em

apenas um mês o programa pelo qual

Bagdad podia vender petróleo

3 AGO O secretário de Defesa

americano, Donald Rumsfeld, diz

que o Iraque reconstruiu as defesas

antiaéreas à volta de Bagdad desde

os últimos bombardeamentos, no

início do ano

23 SET Negando qualquer ligação aos

ataques de 11 de Setembro, o vice-

-presidente iraquiano, Taha Yassin

Ramadan, diz acreditar que os EUA

atacarão o seu país para impor a sua

vontade. E acrescenta: «Estamos

confiantes em que a América caminha

em direcção ao fim.»

2002

29 JAN No seu discurso sobre o

Estado da União, Bush pede para se

evitar que Irão, Iraque e Coreia do

Norte adquiram armas químicas,

biológicas ou nucleares. «Estados

como estes, e os seus aliados

terroristas, constituem um eixo do

mal pronto a ameaçar a paz do

mundo», diz

MARÇO O vice-presidente dos EUA,

Dick Cheney, recebe um aviso

público da parte do Rei jordano,

Abdullah II, de que alargar a guerra

contra o terrorismo ao Iraque podia

desestabilizar a região e deitar a

perder tudo o que se conseguiu no

Afeganistão. Cheney recolhe

advertências semelhantes durante a

sua visita ao Médio Oriente

14 MAI Numa vitória para os EUA,

o CS aprova por unanimidade uma

série de sanções contra o Iraque,

apertando o embargo militar ao

regime de Saddam e facilitando a

entrada de bens de primeira

necessidade

5 JUN Após conversações com Kofi

Annan, o Iraque rejeita as propostas

de inspecções de armamento

1 AGO Em carta enviada a Annan, o

Iraque convida Hans Blix a discutir

questões técnicas sobre

desarmamento

6 AGO Annan escreve aos dirigentes

iraquianos pedindo que aceitem as

inspecções

26 AGO Cheney alerta para as

graves consequências de não se agir

rapidamente contra Saddam,

acrescentando que a lógica de quem

se opõe a um ataque preventivo

está «cheia de falhas»

12 SET Discursando na ONU, Bush

pede aos líderes mundiais que sejam

mais duros para com o Iraque no

que respeita às inspecções e deixa

claro que se a ONU não estiver

disposta a agir, os EUA fá-lo-ão

16 SET Numa carta a Kofi Annan,

o MNE iraquiano, Naji Sabri, diz que

Bagdad autorizará o regresso dos

inspectores para «acabar com

quaisquer dúvidas» ainda existentes

sobre armas de destruição maciça.

Washington considera isto uma

táctica para ganhar tempo

16 OUT Bush assina uma resolução

do Congresso americano

autorizando o uso de forças

militares, se necessário, para obrigar

o Iraque a destruir as suas armas

biológicas e químicas e abandonar o

programa de armas nucleares

5 NOV Começa o Ramadão

8 NOV Numa surpreendente

votação unânime, o CS aprova uma

nova (e dura) resolução tendo em

vista forçar Saddam a desarmar ou

enfrentar «graves consequências»,

que poderiam significar a guerra

13 NOV Numa amarga carta ao

secretário-geral, o Iraque aceita

relutantemente as exigências e

reitera não possuir armas de

destruição maciça. Na véspera, o

parlamento iraquiano havia

recomendado a Saddam que

rejeitasse a resolução

27 NOV Responsáveis da ONU

declaram que as primeiras

inspecções no Iraque deverão

recomeçar neste dia, embora a

resolução do CS aponte para que se

iniciem até 23 de Dezembro

3 DEZ O vice-secretário de Defesa

americano, Paul Wolfowitz,

encontra-se com altos dirigentes

turcos, garantindo aos jornalistas

que a Turquia terá um papel a

desempenhar no novo conflito do

Golfo (Ancara teria disponibilizado

as suas bases aéreas às forças

americanas). Mas um dia depois o

gabinete do primeiro-ministro

Abdullah Gul declara que ainda não

há uma decisão final sobre o

assunto e que não se comprometeu

em nada

4 DEZ Termina o Ramadão

24 DEZ Donald Rumsfeld começa a

preparar as forças militares para o

assalto ao Iraque

2003

2000 • Hugo Chávez visita Saddam

27 JAN Hans Blix apresenta um

duro relatório na ONU afirmando

que Bagdad não deu provas de uma

«aceitação genuína» das exigências

GUERRA DO GOLFO II

1998 • Inspectores da ONU retiram 2003 • Provas reais?

de desarmamento

28 JAN No seu discurso sobre o

Estado da União, Bush acusa o

Iraque de esconder armas de

destruição maciça e avisa as forças

armadas americanas para se

prepararem

4 FEV Colin Powell sublinha na

ONU que Saddam constitui um

perigo iminente. A França e a

Alemanha pedem mais tempo para

os inspectores

14 FEV Hans Blix garante que a sua

equipa não encontrou armas de

destruição maciça

1 MAR A UNMOVIC ordena ao

Iraque a destruição de todos os seus

mísseis Al Samoud II e de 380 outros

engenhos explosivos que haviam

sido ilegalmente importados

14 MAR Falha mais uma semana de

intensa diplomacia americana na

tentativa de persuadir os membros

necessários do CS a votarem por

uma resolução autorizando a força.

A Administração Bush critica a

França por anunciar que vetará

qualquer opção pela guerra

16 MAR Bush, Blair e Aznar

encontram-se numa cimeira na Base

das Lajes, Açores. Os três líderes e

Durão Barroso anunciam no final

que a janela da diplomacia estará

aberta apenas por mais um dia

17 MAR Os EUA desistem de levar

ao CS a votação de nova resolução

que autorize o uso da força contra o

Iraque; à 1 da manhã de 18 de

Março (hora continental

portuguesa), Bush faz um discurso

onde dá a Saddam e filhos um

ultimato de 48 horas para

abandonarem o país, preparando os

americanos para a II Guerra do

Golfo

VISÃO 21 de Março de 2003 71

REUTERS/FALEH KHEIBER

REUTERS

REUTERS/JUAN CARLOS SOLORZANO


GUERRA DO GOLFO II De Bagdad para Lisboa

IRAQUIANOS EM PORTUGAL

Imigrantes de luxo

A pequena, abastada e bem inserida comunidade iraquiana

contesta frontalmente a guerra, mas receia falar por temer

represálias sobre os familiares que residem no seu país

PAULA SERRA

‘ Ainda no domingo falei com um

primo meu que está no Iraque.

A guerra nunca acabou para o

povo iraquiano. Todos os dias

o país está a ser bombardeado, mas

quando esta grande ofensiva americana

começar, ainda vai ser pior. Só que, mesmo

já estando habituadas, as pessoas

querem ver um fim a tudo isto.» Tal como

outros iraquianos contactos pela VI-

SÃO, M. pede o anonimato por razões

de segurança, sobretudo por ainda ter

muitos familiares a residirem no Iraque.

Teme, por isso, represálias se assinar a

sua opinião sobre o «o terrível regime de

Saddam Hussein».

M. é um homem de negócios na casa

dos 40 anos, que deixou o Iraque quando

tinha 5 e que desde os 23 que não o

visita. Chegou a Portugal em 1989. Solteiro,

tem dois irmãos e uma irmã (todos

a morarem fora do nosso país) e tem interesses

no sector imobiliário nos arredores

de Lisboa.

Apesar de não gostar do Governo de

Saddam Hussein, M. defende que «os

americanos não têm qualquer legitimidade

para atacar o Iraque». As inspecções

da ONU, diz, «estavam a resultar».

E interroga-se: «Se a guerra dos americanos

é contra Saddam, porque não o tiraram

de lá em 1991?» Quem vai sofrer

nesta guerra, na sua opinião, «é o povo»,

e afirma que «se os americanos

querem fazer alguma coisa contra o Governo

iraquiano, então que o façam.

O Governo ainda vive melhor do que

antes de 1991.» Acentua que «é ao povo,

e não aos governantes, que falta comida

e medicamentos, devido aos embargos

dos EUA».

O dinar era equivalente a cerca de 3,3

dólares; agora a nota verde americana

equivale... a 2 mil dinares. «Um ordenado

médio no Iraque ronda os três dólares

por mês», revela M.

Considera «incrível» que os americanos

já estejam a negociar os contratos de

reconstrução do Iraque. «Ainda nem começou

a guerra e os melhores negócios já

estão nas mãos de Dick Cheney...»

Tal como outros iraquianos contactados

pela VISÃO, M. pensa que Portugal

«é um país pacífico, com um excelente

clima e um povo muito simpático.»

E acrescenta: «Aqui nunca me considerei

estrangeiro, como acontece noutros países

da Europa. Nem sequer após o 11 de

Setembro senti qualquer constrangimento.

Os portugueses sabem que nós não temos

nada que ver com Bin Laden, e muito

menos com o terrorismo. Noutros países,

muitos de nós ficámos detidos só por

causa do nome ou por sermos muçulmanos.

Até agora, nunca me senti perseguido,

ninguém me fez qualquer pergunta

sobre a minha vida privada, nem sobre as

minhas contas bancárias...»

Uma elite de 150 pessoas

Números oficiais dizem que em finais

de 2002 vivia em Portugal centena e

meia de iraquianos. Cifra muito reduzida

se comparada com a da vizinha Espanha

ou a de outros países da UE, como

a Alemanha ou a Inglaterra, onde as

comunidades iraquianas são vastas.

Também ao contrário de Espanha, Portugal

não funcionará como uma «placa

giratória» para iraquianos que procuram

abrigo na UE ou nos EUA, já que a generalidade

dos que se encontram no nosso

país vivem com as famílias há mais de 10

anos e no mesmo local.

Lisboa conta com o maior aglomerado

de iraquianos do País (96), seguindo-

-se Setúbal (43) e Faro (6). Por outro lado,

a centena e meia dos iraquianos fixados

em Portugal pode ser considerada

uma elite do mundo dos negócios (hotelaria

e o imobiliário), predominando os

diplomados em universidades britânicas

e americanas. Entre eles contam-se ainda

intelectuais como o professor Tariq

Al-Koudayri, 73 anos, engenheiro químico

reformado, que trabalhou para a

ONU durante 18 anos.

Este professor universitário, que con-

UM ‘LAWRENCE’

PORTUGUÊS

João Mariano

da Fonseca, 80 anos,

nasceu em Bagdad,

ainda nos tempos

do império otomano

tinua a publicar artigos sobre questões

humanitárias e técnicas na imprensa de

lingua árabe, trocou um emprego na

Universidade de Bagadad, dois anos

após a subida de Saddam ao poder, por

uma consultadoria numa empresa petrolífera

em Beirute. Já representante da

ONU no Líbano, a invasão israelita obrigou-o

a procurar refúgio em Viena, onde

residiu até 1993 ainda como funcionário

da ONU.

Nesse mesmo ano fixou-se nos arredores

de Lisboa, «que já conhecia quando

visitava amigos que tinha em Portugal»,

como o patriarca da família Al-Ba-

72 VISÃO 21 de Março de 2003


ker, um homem de negócios iraquiano

ligado ao sector hoteleiro.

A VISÃO tentou falar com esta outra

família, que considera porém o momento

«inoportuno» para prestar declarações.

Os abastados Al-Baker possuem vários

empreendimentos turísticos em

Portugal Continental e na Madeira, incluindo

a Marina de Cascais e a herdade

da Apostiça, no distrito de Setúbal.

Esta «casta» de homens ricos que é a

comunidade iraquiana em Portugal está

bem inserida nos hábitos locais, apesar

de continuar totalmente familiarizada

com as principais praças financeiras internacionais.

Poucos voltaram ao Iraque, quer por

razões políticas quer simplesmente porque

os afazeres lhes deixam pouco tempo

para passar nas suas terras natais, entretanto

devastadas pela pobreza.

Não querendo confessá-lo, muitos

não aceitam falar aos media porque possuem

dupla e tripla nacionalidade, um

tabu na sua comunidade. E a maioria teme

perder os privilégios que lhe são facultados

pelo facto de terem um segundo

ou até terceiro passaporte, normalmente

de países islâmicos.

GUERRA DO GOLFO II

Apesar de maioritariamente muçulmanos,

os iraquianos residentes em Portugal

não frequentam com regularidade

as mesquitas, fazendo as suas orações

quase sempre em casa.

Saddam, Sharon e Bush, todos iguais

Tariq Al-Koudayri, casado com uma

americana e também com nacionalidade

americana, é um dos poucos iraquianos

que conservam apenas o seu passaporte

de origem e que, sempre que necessário,

renova a autorização de residência

no nosso país. É também um dos

poucos que acedem a falar aberta-

VISÃO 21 de Março de 2003 73

LUÍS BARRA


GUERRA DO GOLFO II De Bagdad para Lisboa

IMIGRANTES DE LUXO

▲ lTARIK AL-KOUDAYRI

mente à VISÃO sobre o Iraque, o regime

de Sadam e as razões que fizeram de

Portugal a sua segunda pátria.

Portugal lembra-lhe «sobretudo muito

o Líbano», país que nunca teria abandonado

se não tivesse ocorrido a guerra

com Israel, na década de 70.

Foi, aliás, no Líbano que se licenciou

em Engenharia, tendo tirado mais tarde

uma especialização nos EUA. Alguns

dos seus antigos colegas assumiram posições

relevantes na administração iraquiana,

mas Al-Koudayri tornou-se personna

non grata.

Ao descrever a situação no seu país,

Al-Koudayri sente uma mistura de sentimentos:

detesta o regime de Saddam,

mas é frontalmente contra uma guerra

que «só afectará o meu povo». E acrescenta:

«Não vejo qualquer diferença entre

Saddam Hussein, Ariel Sharon ou

George W. Bush. Saddam é um psicopata,

Sharon não é um ditador per se, mas

o seu background é o de um fanático, e

com Bush passa-se o mesmo.» Evita falar

sobre as suas convicções religiosas

ou políticas: «É algo que considero do

foro privado. Todas as religiões são pela

paz, mas infelizmente demasiadas pessoas

usam-nas para outros fins.»

Para Al-Koudayri, «o futuro do Iraque

é uma incerteza». E explica: «Bush não

incluiu nenhuma verba no orçamento

para ajudar a reconstrução do Afeganistão.

Quanto ao Iraque, pensa que será

diferente.» E acrescenta:

«O problema no meu país agravou-se

desde que invadiu o Kuwait – a tensão

aumentou e atingiu todas as camadas da

população. A maior parte da riqueza ficou

nas mãos de Saddam. Até ao início

da guerra com o Irão tínhamos reservas

no valor de 35 mil milhões de dólares; a

partir daí, todos os projectos industriais

«Não vejo qualquer diferença entre Saddam Hussein, Ariel Sharon ou George W. Bush»

foram destruídos, os mercados internacionais

fechados. O país perdeu todo o

seu desenvolvimento.»

Na sua opinião, os EUA querem

controlar o Iraque como sucedeu nos

anos 50. «Em 1958, com a queda da

Monarquia, o Ocidente perdeu o controlo

do país, incluindo as principais

bases inglesas.»

Segundo Al-Koudayri, o objectivo é

«estabelecer bases no Iraque, porque é

um dos Estados da zona onde existem

mais pessoas com educação, e inúmeras

riquezas, que não se limitam ao petróleo».

E, à laia de remate: «Uma das coisas que

os americanos sempre mais temeram,

além do comunismo, foi o pan-arabismo.

Entrar no Iraque será uma forma de controlar

não só a Ásia Central mas também

o Médio Oriente, por meio de governos

locais que apoiem a política americana.

O Iraque será uma ponte para isso.»

Um ‘Lawrence’ português

João Mariano da Fonseca nasceu há

80 anos em Bagdad. É filho de um português

que chegou à região ainda antes

da I Guerra Mundial e de mãe iraquiana.

Conheceram-se quando ele foi preso

pelos turcos (do então Império Otomano)

na cidade que é hoje a capital

do Iraque.

Mariano da Fonseca, que possui

uma das maiores colecções

de arte islâmica em Portugal, viveu

no Iraque praticamente toda

a vida. Frequentou o colégio

americano e formou-se em Engenharia,

tendo-se depois especializado-se

em refrigeração em

Bombaim, na Índia, país onde

conheceu a sua mulher. Acabou

por voltar a trabalhar para empresas

estrangeiras sediadas em

Bagdad, «porque, depois da primeira

revolução, os estrangeiros

não podiam trabalhar para empresas

locais, e apesar de tudo,

eu tinha nascido lá».

A convite do governo português

anterior ao 25 de Abril, foi

o primeiro cônsul do nosso

país em Bagdad. Mas foram sobretudo

o seus contactos e o

facto de ser iraquiano de nascimento

que lhe permitiram abrir

muitas portas para empresas

portuguesas que durante os

anos 60, mas sobretudo 70, fizeram

negócios no Iraque e

noutros países da região.

Apesar de ter voltado ao Iraque na década

de 80, deixou definitivamente o

país em 1977, quando «já não era seguro

morar lá». A família tinha vindo em

1975 para Portugal, mas o seu objectivo

teria sido imigrar para o Brasil.

Quando lhe perguntamos qual é a sua

nacionalidade de preferência, Mariano

da Fonseca responde peremptório:

«Sinto-me aquilo que sou: iraquiano,

português e inglês. E gosto muito de comida

árabe, que é uma mistura de comida

grega, europeia e árabe propriamente

dita. Enfim, bizantina...» ■

74 VISÃO 21 de Março de 2003

BRUNO RASCÃO


BRUNO RASCÃO

CASAL LUSO-IRAQUIANO

À espera do ataque

Como Shamiram e Raul Silva viveram as últimas horas

do ultimato de Bush a Saddam

‘ Que é aquilo? Já estão a atacar?»

Os negros olhos de Shamiran

exorbitam de inquietação ao verem

no pequeno ecrã tropas especiais

americanas em acção. Ao saber

que são imagens de arquivo, a iraquiana

não esconde o alívio. Que dará de novo

lugar a ansiedade sempre que aparecerem

directos da sua Bagdad natal. São 22 e 30

de quarta-feira, 19. Faltam duas horas e

meia para expirar o ultimato dado por

Bush a Saddam. Em Portugal não será fácil

encontrar outra casa onde a iminência

da guerra esteja a ser vivida com tanta

preocupação.

Raul Silva, 43 anos, e Shamiran, 33, conheceram-se

em Bagdad em 1995 e casaram-se

há quase três anos. Para trás, ela

deixou os pais e três irmãos, cujo bem-estar

a aflige. Sobretudo depois de um telefonema

feito nessa tarde para o pai. «Liguei-lhe

para desejar um feliz Dia do Pai

e percebi que ele estava a chorar. Foi chamado

para ir combater.»

Com o seu pai, 66 anos, operário de betoneiras,

vão também para a frente os seus

dois irmãos, de 35 e 37. Para estes, é já a

terceira mobilização, depois do conflito

Irão–Iraque e da I Guerra do Golfo. Shamiran

preocupa-se em saber «como é que

a minha familía sobreviverá se os homens,

que são quem a sustenta, vão combater».

Shamiran sabe o que é estar no meio de

uma guerra. Em 1991, a casa familiar foi

destruída por um míssil americano. «Só

ficou uma parede de pé.»

Música no coração

Bagdad e o Cacém estão separados por

milhares de quilómetros, mas a decoração

da sala de estar da família Silva reduz a

distância. Os móveis portugueses estão repletos

de porcelanas e estatuetas iraquianas.

Mas se não fosse o embargo, o casal

dificilmente se teria conhecido.

Em Fevereiro de 1992, Raul Silva leu

num jornal que o famoso músico iraquiano

Munir Bashir estava impossibilitado

de obter cordas para o alaúde, devido

às sanções económicas. O português

achou o episódio «ridículo» e

prontificou-se, junto da embaixada do

Iraque a providenciar as cordas «através

de um amigo que tinha um bazar em

Tânger». Um ano depois recebe uma

chamada da representação diplomática

iraquiana expressando-lhe gratidão pelo

gesto e endereçando-lhe um convite do

Governo de Bagdad para visitar o país.

Em Setembro parte para o Iraque, on-

GUERRA DO GOLFO II

PREOCUPAÇÃO

Na noite em que

começou a guerra,

o casal acompanhou

as notícias pela CNN

de contacta com as carências provocadas

pelo embargo. De regresso a Lisboa, tenta

dar conhecimento daquilo que presenciara.

Sem sucesso. «Na altura não interessava

que houvesse milhares de crianças

a morrerem no Iraque.»

Indiferente ao silêncio das instituições,

Raul Silva continuou a viajar para o Iraque

até 1996, sempre «carregado de medicamentos,

leite e papas», que ia pessoalmente

entregar aos hospitais e maternidades.

Hoje, não hesita em classificar Saddam

de «grande responsável pela situação

de miséria em que o Iraque se encontra».

No entanto, é às sanções económicas que

atribui as maiores culpas.

É numa dessas estadas em Bagdad que

conhece Shamiran, uma cristã licenciada

em Hotelaria e Turismo e recepcionista

no hotel em que estava hospedado. Desde

que está em Portugal, Shamiran passou

a usar jeans e blusas e adoptou o peixe

cozido com batatas como prato de eleição

e o Centro Comercial Colombo como

sítio ideal para passear. E confessa-se

adepta do Boavista.

À medida que os ponteiros avançam, as

espreitadelas aos diversos canais noticiosos

tornam-se mais frequentes. «Com que

direito querem os americanos reconstruir

o nosso país e dizer como hão-de ser as

coisas? É a nossa terra, não a deles.»

Shamiran não gosta do líder iraquiano,

mas prefere-o a um regime islâmico. «É

verdade que no Iraque não há democracia,

mas não é como no Irão ou no Afeganistão,

onde as mulheres têm de andar

com a burqa ou o chador...». ■

TIAGO FERNANDES

VISÃO 21 de Março de 2003 75


GUERRA DO GOLFO II Entrevista

MÁRIO SOARES

Por uma mediação do Papa

O anterior Presidente da República defende a continuação da luta pela paz,

com o Sumo Pontífice e a diplomacia do Vaticano a mediarem o conflito

lMÁRIO SOARES

«Os objectivos invocados para fundamentar o ataque pelos EUA foram mudando»

JOSÉ CARLOS DE VASCONCELOS

Considerado um dos «pais» da democracia

portuguesa, decerto o

mais influente desde o 25 de

Abril, aos 78 anos Mário Soares

continua, com raro vigor, na primeira linha

de vários combates cívicos, mantendo-se

o político português mais conhecido

e prestigiado um pouco por todo o

mundo. Presidente da República durante

dez anos, após ter sido, além do mais,

primeiro-ministro, fundador e secretário-geral

do PS, tem levantado a voz em

defesa das causas que considera justas e

intervido activamente no debate sobre a

questão do Iraque. Não se querendo

pronunciar, de acordo com um propósito

manifestado quando deixou Belém,

sobre a política interna, em especial sobre

as opções e posições do seu sucessor,

o actual membro do Conselho de

Estado e deputado ao Parlamento Europeu,

falou-nos da dramática situação

que agora se vive.

VISÃO: Confirmaram-se os piores temores

e a guerra está aí. Como a comenta?

MÁRIO SOARES: Acho que esta guerra

é ilegítima, é ilegal, é imoral – e, além

disso, é inútil. Os objectivos invocados

para a fundamentar pelos Estados Unidos

foram mudando ao longo do tempo.

Primeiro começaram por ser as armas de

destruição maciça, que não se provou

que os iraquianos tivessem. Depois, invocou-se

uma alegada ligação do Iraque à

Al-Qaeda, sobre a qual também não há

nenhuma prova. De seguida veio a luta

contra o terrorismo, quando esta guerra

só pode provocar mais terrorismo. Em

quarto lugar afirmou-se tratar-se de restabelecer

a democracia em todo o Médio

• Esta guerra

é ilegítima, é ilegal,

é imoral – e, além

disso, é inútil

76 VISÃO 21 de Março de 2003

LUÍS VASCONCELOS


Oriente, o que obviamente

não se

conseguirá com esta

guerra: na melhor

das hipóteses o

Iraque irá transformar-se

num protectorado

norte- americano.

E, finalmente,

os EUA disseram

que a guerra se

destinava a destruir

o poder de Saddam

Hussein. Mas, para

isso, era melhor levá-lo ao Tribunal Penal

Internacional (TPI), o que não custaria

tantos sacrifícios humanos nem tanta devastação

ambiental e do insubstituível

património histórico do Iraque.

V: Mas é sabido que os Estados Unidos,

sob esta Administração Bush, são contra

o TPI...

MS: São, de facto, contra o TPI e as Nações

Unidas. E esta guerra é a primeira

Guerra do Império, feita como tal e para

a dominação do mundo. É uma guerra

que pretende atingir as Nações Unidas

e também a União Europeia – não

falo da NATO, que essa já não tem razão

de ser.

V: Entende que ainda é possível fazer alguma

coisa para evitar que a guerra continue

ou assuma os piores contornos?

MS: Como disse o Papa, é preciso continuar

a lutar pela paz. E é indispensável

haver, o mais depressa possível, uma

mediação do conflito – para o parar.

Ora, seriam exactamente o Papa e a diplomacia

do Vaticano as entidades

ideais para alcançar esse objectivo; e até

para que esta guerra não assuma o carácter

de guerra religiosa.

V: Mas acha que ainda há condições para

o Papa e a diplomacia do Vaticano mediarem

o conflito e tentarem pôr termo à

guerra?

MS: Claro que há. Porque é que não há-

-de haver?

V: Quais podem ser as consequências

desta guerra, ao nível da ONU e do Direito

Internacional?

MS: No plano das Nações Unidas é necessário

que elas, apesar da machadada

que levaram com esta guerra preventiva,

não se deixem destruir. Não podemos esquecer

que não foi preciso nenhum veto

do Conselho de Segurança: no Conselho

• Através da opinião

pública manifesta-se

a cidadania global.

E vai sair caro aos

governos que, contra

ela, apoiaram a guerra

de Segurança houve

uma maioria

moral a favor da

paz. E foi só por isso

que os Estados

Unidos e a Inglaterra

não apresentaram

uma segunda

moção e realizaram,infelizmente

nos Açores, a Cimeira

da Guerra

– foi assim, Cimeira

da Guerra, que

toda a imprensa mundial a classificou.

V: E quanto à União Europeia?

MS: No meu entender, deve prosseguir

os seus esforços para criar uma verdadeira

união política e não se deixar atingir

pelas divisões entre Estados membros.

Divisões que infelizmente se manifestaram,

através da Carta dos Oito.

V: A Itália de Berlusconi estava entre os

países que de início apareceram na primeira

linha de apoio à posição de Bush.

Entretanto, quase «desapareceu»...

MS: Isso foi porque certamente o Papa

lhe puxou as orelhas num encontro que

tiveram. Berlusconi saiu pela porta baixa,

como no teatro. Um homem de negócios

como ele compreendeu que estava

a fazer um mau negócio num país como

a Itália.

V: Dada a situação no terreno, pensa que

a opinião pública mundial, que tem sido

tão importante, continua a ter um papel

a desempenhar e uma palavra a dizer?

MS: Sim, sim. A opinião pública mundial

é um fenómeno novo. Manifesta-se

através dela a cidadania global, uma

vontade manifestada em rede contra a

guerra e a favor da paz. Vontade sobretudo

impressionante nos países cujos

governos apoiaram a guerra – o que lhes

vai sair necessariamente caro...

V: Para além da opinião pública em geral,

grandes figuras mundiais têm tomado

posição.

MS: Sim. Não é só a opinião pública,

não são só as massas, as grandes figuras

têm-se manifestado contra esta guerra.

Desde o Papa, que já referi, até Gorbachev,

de Nelson Mandela a Jimmy Carter.

E, também, desde o New York Times

até países tão dependentes dos Estados

Unidos como o Paquistão, a Turquia e o

México. ■

GUERRA DO GOLFO II

FREITAS DO AMARAL

Dez votos

Finalmente começou a

guerra, como todos já tínhamos

previsto, porque

anunciada e decidida há

meses. Resolvida contra tudo e

contra todos. Juridicamente ilegal,

militarmente desnecessária,

pelo menos por enquanto,

e politicamente perigosa como

poucas.

Mas, uma vez que a guerra aí

está, resta-me formular dez votos

muito sinceros:

1 – Que seja curta;

2 – Que provoque poucas

baixas;

3 – Que não atinja vítimas

inocentes;

4 – Que seja orientada

exclusivamente para alvos

militares;

5 – Que elimine todas

as armas de destruição

maciça que porventura

existirem;

6 – Que seja conduzida

segundo o princípio

da proporcionalidade, isto é:

sem excessos;

7 – Que respeite as leis

da guerra e designadamente

as convenções de Genebra;

8 – Que contribua para

a estabilidade do Médio

Oriente e não desemboque

num conflito de civilizações;

9 – Que crie condições para

a resolução do problema

israelo-palestiniano,

nomeadamente com

exigências de moderação

a Ariel Sharon;

10 – Que não venha a

provocar grandes aumentos

do preço do petróleo,

que muito prejudicariam,

sobretudo, a Europa

e Portugal.

VISÃO 21 de Março de 2003 77


GUERRA DO GOLFO II Reacções em Portugal

lREUNIÃO DO CONSELHO DE ESTADO

Ninguém advogou o envolvimento de forças armadas portuguesas no cenário de guerra

PAZ INSTITUCIONAL

Tropa faz a ponte

Jorge Sampaio recusou o envolvimento militar português no Iraque.

Mas o ministro da Defesa, Paulo Portas, garante a capacidade das Forças Armadas

PEDRO VIEIRA *

Oenvolvimento ou não das Forças

Armadas Portuguesas na coligação

militar para derrubar Saddam

Hussein tornou-se o ponto

nevrálgico do entendimento entre o Presidente

da República e o primeiro-ministro,

na crise do Iraque. Jorge Sampaio rejeitou

liminarmente esse envolvimento no «caso

de não haver uma resolução específica do

Conselho de Segurança». Durão Barroso,

desde a visita à Áustria, há algumas semanas,

repetiu, vezes sem fim, que Portugal

não enviaria militares seus para o Golfo

Pérsico. Num depoimento à VISÃO, porém,

o ministro da Defesa, Paulo Portas

fez questão de deixar claro que as Forças

Armadas Portuguesas «já provaram e são

capazes de cumprir as missões que o poder

político lhes atribui».

Ao que a VISÃO apurou, o Pentágono

teria chegado a sondar a disponibilidade

de Portugal para enviar efectivos para o

Iraque. Fontes oficiais não só não nos

confirmaram essa iniciativa, como adiantaram

que essa disponibilização nunca

chegou a ser ponderada. Apenas teorica-

mente esse envio foi admitido, no quadro

daquilo que o Governo definiu como

«resposta graduada». Isto é, se o uso da

força contra o Iraque tivesse sido especificamente

aprovado pelo Conselho de Segurança,

ficaria aberta a porta para um

consenso entre o Presidente da República,

o Governo e, por certo, o próprio Partido

Socialista para a participação das

Forças Armadas portuguesas no conflito.

Sampaio em casa

Não foi esse o desfecho do processo

diplomático e, deste modo, Portugal, no

78 VISÃO 21 de Março de 2003

GONÇALO ROSA DA SILVA


JORGE SAMPAIO

Unidade na diversidade

Na Declaração dirigida ao País, às 20 e 30 do

último dia 19, após a reunião do Conselho de

Estado, o Presidente da República, Jorge Sampaio,

assumiu divergências com o primeiro-

-ministro, Durão Barroso, puxou dos galões ao

deixar subentender que impusera ao Governo

a não participação de militares portugueses

no conflito e dirigiu um forte apelo à «unidade

nacional». Eis os temas-chave dessa Declaração,

na qual evitou a polémica acerca do

fundamento jurídico para a prestação de facilidades

na Base das Lajes.

Guerra

«A guerra deve ser sempre um último recurso,

só surgindo como admissível uma

vez esgotados todos os meios políticos para

a evitar. Por isso, só é legítima, face ao

Direito Internacional, nos casos claramente

tipificados na Carta das Nações Unidas.»

Regime de Saddam

«Tal [o facto de a guerra ser o último recurso]

não significa, como é óbvio, qualquer complacência

com o regime iraquiano, que tem uma

longa e deplorável história de actuações atentatórias

à paz e à segurança internacionais,

de flagrante desrespeito pelos direitos humanos

e de desafio à autoridade do Conselho de

Segurança. É obrigação do Iraque respeitar

escrupulosamente não apenas a letra, como o

espírito das resoluções das Nações Unidas,

procedendo a um desarmamento completo e

abstendo-se de manobras dilatórias.»

Nações Unidas

«Defendi sempre que seria necessário esgotar

os caminhos pacíficos de solução, cabendo

ao Conselho de Segurança, e só a

este, decidir as opções a tomar, uma vez

avaliado o trabalho dos inspectores. (...) É

necessário, tão cedo quanto possível, que

as Nações Unidas reassumam o papel central

que lhes cabe como ponto de referência

indispensável para as questões relativas

à paz e à segurança mundiais.»

plano militar, ficou-se pela cedência de

facilidades na Base das Lajes. Combates,

só pela televisão. Como milhares de portugueses,

também Jorge Sampaio seguiu

o início da ofensiva, na noite de 19 para

20, na sua residência particular, depois

de já conhecer o texto da declaração

proferida mais tarde pelo primeiro-ministro.

Durante a tarde, o Presidente da

Constituição

«É esta [a decisão do Conselho de Segurança,

uma vez avaliado o trabalho dos

inspectores], inquestionavelmente, a via

que respeita a Carta das Nações Unidas e

o Direito Internacional, que corresponde à

tradição jurídico-cultural portuguesa reflectida

na Constituição, e a que mais adequadamente

corresponde aos interesses de um

Estado como o nosso, proporcionando-lhe

o sistema legal para defesa da sua soberania

e para a regulação dos seus relacionamentos

internacionais.»

Forças Armadas Portuguesas

«Tendo em conta a inexistência de um

mandato expresso das Nações Unidas, as

Forças Armadas Portuguesas não participarão

neste conflito, não colaborarão nele,

nem Portugal fará parte da coligação militar

que se criar. Foi esta a minha posição,

desde a primeira hora, para o caso de não

haver uma resolução específica do Conselho

de Segurança.»

Base das Lajes

«[Sem mencionar a Base das Lajes] Prestaremos

aos nossos aliados facilidades de

trânsito, à semelhança de outros países europeus,

alguns dos quais têm expressado,

aliás, fortes reservas a uma acção militar

contra o Iraque.»

O papel do Presidente

«Foi este [não participação das Forças Armadas

e cedência das Lajes] o entendimento que

estabeleci com o Senhor Primeiro-Ministro.

Outra posição do País não teria sido, para

mim, aceitável. Com a legitimidade que me

advém da eleição directa, compete-me resolver

divergências ou conflitos institucionais

quando surjam. Não fui eleito para me limitar

a opinar sobre eles. Fui eleito para encontrar

soluções, para estimular e construir entendimentos

que assegurem, em circunstâncias como

esta, a unidade nacional.»

República ouviu o Conselho de Estado,

ao longo de quatro horas. Dos 18 conselheiros,

só não estiveram presentes Alberto

João Jardim e José Manuel Galvão

Teles. Devido a compromissos internacionais,

Ferro Rodrigues e Vítor Constâncio

abandonaram a sessão antes do

seu termo. Ao que a VISÃO apurou, a

reunião não produziu novidades de

GUERRA DO GOLFO II

Relação transatlântica

«A via de consenso (...) teria sido o caminho

desejável para preservar a unidade da

Europa e da Aliança Atlântica. (...) Será necessário

determinação para ultrapassar [as

divisões políticas provocadas por esta crise],

quer no plano europeu quer no domínio

do relacionamento transatlântico, dois

pilares afinal indispensáveis para – num

quadro de recíproca confiança, de efectiva

cooperação e de respeito mútuo – se defender

o progresso e a estabilidade internacional.»

Europa

«A Europa tem que refazer a sua unidade,

reafirmar com força um projecto comum,

avançar nos caminhos da sua integração,

reforçar a sua capacidade de afirmação

externa.»

P.V.

monta quanto às posições conhecidas.

Na quinta-feira, 20, Jorge Sampaio

cumpriu a agenda prevista, tendo feito

uma declaração de circunstância, na visita

ao Grande Oriente Lusitano, na

qual se dirigiu aos maçons: «Partilho

das vossas preocupações pela hora difícil

que vivemos e perfilho a inspiração

humanista com que encarais a cons-

VISÃO 21 de Março de 2003 79

LUÍS BARRA


DURÃO BARROSO

Que seja

depressa e bem

Era noite cerrada, passavam 15 minutos das

quatro da manhã de 20 de Março, quando o

primeiro-ministro se dirigiu aos portugueses

para falar de guerra: «Acaba de ser desencadeada

pelos Estados Unidos da América e por

alguns dos seus aliados uma acção militar

contra o regime iraquiano.» O chefe do Governo

garantiu que não existiam motivos para

alarme e apelou à coesão nacional.

Regime iraquiano

«Este é um conflito que não desejámos. Tudo

fizemos para o evitar, por meios políticos e

diplomáticos. Infelizmente não foi possível. A

responsabilidade cabe exclusivamente ao regime

iraquiano e à sua obstinação em não

cumprir as resoluções impostas, desde há 12

anos, pelas Nações Unidas.»

Acção militar

«Nesta hora difícil, Portugal reafirma o apoio

aos seus aliados, com quem compartilha os

valores da Liberdade e da Democracia, e faz

TROPA FAZ A PONTE

▲ AVIÕES DOS EUA NAS LAJES

trução de um futuro melhor.» Ao almoço,

teve como convidados Nuno Morais

Sarmento, ministro da Presidência, e Figueiredo

Lopes, da Administração Interna,

para falarem sobre os imigrantes.

Noitada de Durão

Já passava das duas da

manhã, e tinha expirado o

prazo do ultimato dado

por Bush a Saddam, quando

Durão Barroso abandonou

o seu gabinete no

palacete de São Bento.

Foi para casa convencido

de que nenhuma ofensiva

seria desencadeada nessa

madrugada. Na tarde anterior

recebera informações

concisas sobre a iminência

dos ataques, mas a

hora H mantinha-se – à

americana – classified

Presidente e Governo

concordaram com

a utilização da base aérea

pelos americanos

votos para que esta seja uma acção tão rápida

quanto possível e que cumpra todos os

seus objectivos. Espero e desejo que a vida

dos inocentes possa ser poupada e que o

conflito termine com o mínimo de sofrimento

para todas as partes.»

Participação portuguesa

«Como sempre dissemos, Portugal não en-

(confidencial). Durão acabou por ficar

pouco menos de uma hora em casa. Logo

à entrada percebeu que, a 4 777 quilómetros

de distância, no Iraque, começavam

a cair as primeiras bombas.

O primeiro-ministro telefonou ao seu

staff e a alguns dos membros do Governo.

Repetiu que a guerra tinha começa-

volverá neste conflito quaisquer forças militares.

Cabe-nos, no âmbito político, honrar os

compromissos para com os nossos aliados

através do apoio já disponibilizado.»

Segurança

«Acompanhamos em permanência o desenvolvimento

das operações, prevenindo, com tempo,

quaisquer repercussões para o nosso país. O

Governo tudo fez e fará para reforçar a segurança

dos portugueses, por forma a garantir a tranquilidade

da vida nacional. Podem estar certos

de que não existem motivos para alarme.»

Paz

«O Governo português, pensando no desfecho

do conflito, dará o seu contributo para a

construção da paz, esperando fazê-lo no quadro

das Nações Unidas e da União Europeia,

e deseja que desta crise possa resultar um

mundo mais livre e mais seguro.»

Unidade nacional

«Estou certo de que os portugueses contribuirão

com o seu esforço responsável para que,

nesta hora difícil para o mundo, possamos

fortalecer a nossa coesão e afirmar a nossa

unidade nacional. É esse o nosso dever para

com Portugal.» S.S.

do a Figueiredo Lopes, Paulo Portas,

Marques Mendes, José Luís Arnaut, Nuno

Morais Sarmento e Martins da Cruz.

E manteve-se em contacto com eles

grande parte da noite, que acabou às 5 e

10 da manhã.

Depois do discurso de George W.

Bush, às 3 da manhã, Durão Barroso

80 VISÃO 21 de Março de 2003

GONÇALO ROSA DA SILVA

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES


voltou a São Bento, na companhia do filho

mais velho, Luís, 18 anos, que insistiu

em acompanhá-lo. Às 4 e 15, três minutos

chegaram-lhe para reafirmar que

Portugal não envolverá quaisquer forças

no conflito e garantir que não existem

motivos para alarme. Foi o primeiro líder

europeu a fazer uma declaração pública

após o início dos bombardeamentos.

A comunicação de dez parágrafos

que leu ao País tinha sido escrita previamente

e o Presidente da República já a

conhecia. Durão e o filho ficaram ainda

três quartos de hora em São Bento, depois

da comunicação, seguindo a acção

militar pela televisão. Às dez e meia, o

primeiro-ministro estava de novo na residência

oficial. Duas horas depois,

voou de Falcon até Bruxelas, para participar

na Cimeira da Primavera.

A moção da T-shirt...

Na Assembleia da República, na tarde

de quinta-feira, 20, o Bloco de Esquerda fazia

render o seu talento mediático. Os três

deputados bloquistas surgiram na bancada

envergando T-shirts pretas com os dizeres

«Não, em nosso nome». Acabaram por

deixar o hemiciclo depois de perderem

uma votação que os obrigava a não estarem

naquele preparo sob a cúpula da sala

do plenário. Marques Guedes, do PSD,

chegou a ironizar: «O que é que trarão vestido

quando discutirmos o nudismo...»

... e a censura da oposição

Hoje, sexta-feira, devem ser apresentadas

quatro moções de censura ao Governo,

subscritas pelo PS, PCP, Bloco e

Verdes para serem discutidas no próximo

dia 26. Na sua moção, o PS defende

como prioridade «o empenhamento nas

boas relações entre Portugal e os EUA,

bem como entre os EUA e a União Europeia»,

e responsabiliza o Governo pela

quebra do «consenso nacional de

mais de duas décadas na política externa».

O PCP, por seu turno, lembra que

sempre condenou os comportamentos

de Saddam Hussein «quando os EUA o

apoiavam e armavam». A ideia de que

os «EUA devem necessariamente solicitar

a Portugal autorização para o uso da

Base das Lajes nestas novas condições»,

consta da moção do Bloco de Esquerda.

Os Verdes apontam para «as vítimas

inocentes desta orgia de violência» e para

«a catástrofe humanitária e ecológica»

que aí vem. ■

* COM INÊS RAPAZOTE E SÓNIA SAPAGE

lBLAIR ENTRE PAPANDREU E SIMITIS

Consenso quanto ao futuro do Iraque abafou divergências entre os Quinze

Oprimeiro-ministro reafirmou a

«prioridade» da União Europeia,

após a Cimeira de ontem, 20, à

noite, em Bruxelas, dedicada ao

Iraque. «Para Portugal, não há nada mais

importante no domínio externo que a

UE.» Mas acrescentou que a Europa não

deve fechar-se «sobre si mesma», mas privilegiar

a «parceria transatlântica».

Apesar das divergências das últimas

semanas, polarizadas, so-

bretudo, pela França e

pela Inglaterra, os Quinze

decidiram voltar-se

para o futuro e definir as

condições e objectivos da

reconstrução do Iraque.

Entre esses objctivos, o

primeiro-ministro português

apontou o desarmamento

completo de Bagdad,

o reconhecimento

dos direitos do povo iraquiano

e de várias minorias,

o papel da ONU no

auxílio humanitário e na

reconstrução do Iraque,

GUERRA DO GOLFO II

CIMEIRA EUROPEIA

UE tenta colar os cacos

O futuro do Iraque marcou o Conselho da Primavera

dedicado à «estratégia de Lisboa»

sobre a competividade e o conhecimento

Turquia: Os Quinze

apelam à preservação

da integridade territorial

do Iraque

Durão Barroso: Para

Portugal, não há nada mais

importante no domínio

externo do que

a União Europeia

Paris: Só a ONU tem

legitimidade para coordenar

a reconstrução do Iraque

soluções para o Médio Oriente, o aprofundamento

do diálogo com o mundo

árabe e islâmico, e o reforço da Política

Externa de Segurança e Defesa. Dirigindo-se,

em concreto, à Turquia e a outros

países da região, os Quinze apelaram à

preservação da integridade territorial

do Iraque.

Ainda antes do início da cimeira, a futura

administração do Iraque suscitou

uma tomada de posição

da França. Para Paris, só

as Nações Unidas têm legitimidade

para tratar da

coordenação da comunidade

internacional sobre

«as questões de estabilização

e reconstrução do Iraque».

Uma observação a

que não é alheia a nomeação

do general norte-americano

na reserva, Jay

Garner, um amigo do secretário

da Defesa, Donald

Rumsfeld, para administrador

civil provisório

do Iraque. ■ P.V.

VISÃO 21 de Março de 2003 81

FRANCOIS LENOIR/REUTERS


GUERRA DO GOLFO II

CONTRA BUSH

E DURÃO

Os protestos frente

à embaixada

americana

PROTESTOS

A outra superpotência

Os manifestantes globais querem derrotar a guerra,

gritando palavras de ordem e organizando protestos

em simultâneo em todo o mundo. O primeiro alvo

foram as embaixadas dos EUA

PAULO PENA E LUÍS RIBEIRO

Estava prometido: assim que caíssem

as primeiras bombas em

Bagdad, os opositores da guerra,

reunidos no Fórum Social Mundial,

sairiam às ruas das principais cidades

do mundo. Assim foi. Ontem, quinta-feira,

20, Lisboa viu cinco telas brancas

gigantes caírem das ameias e torreões

do Castelo de São Jorge, uma caravana

de automóveis a debitar o som

das sirenes antiaéreas e uma concentração

de 2 mil pessoas em frente da

embaixada dos EUA.

Voltaram os cartazes que exibem Durão

Barroso com o chapéu do Tio Sam,

empunhando uma pistola. Voltaram os

gritos de «paz sim, guerra não». À porta

da residência oficial do primeiro-ministro

(ausente em Bruxelas, onde participa

numa reunião do Conselho Europeu),

a caravana automóvel da União

de Sindicatos de Lisboa, da CGTP, pôs

as buzinas a gritar. Antes, no ponto de

partida, às quatro da tarde, no Rossio

(agora baptizado de Praça da Paz), alternavam-se

discursos contra a guerra,

com altifalantes sindicalistas a incentivar

o combate ao Pacote Laboral e às

privatizações. Mas «sinto repúdio pelo

que está a acontecer no Iraque», diz Vítor

Oliveira, 55 anos, enquanto se esconde

atrás de um cartaz negro com a

inscrição «irracionais», emoldurada por

esqueletos de borracha «para as pessoas

perceberem o que é a guerra». Para os

que já perceberam, trata-se de organizar

a resistência. A apresentadora de televisão

Maria João Seixas e a jornalista

Diana Andringa juntaram-se às autarcas

de Palmela, Ana Teresa Vicente

(PCP), de Salvaterra, Ana Cristina Ribeiro

(BE), à professora universitária

Isabel Allegro e às socialistas Ana Catarina

Mendes e Maria Carrilho, para lançarem

um apelo – que lembra as manifestações

pela autodeterminação de Timor:

colocar lençóis brancos nas janelas

e varandas.

No alto da colina do Castelo, os panos

não resistiram muito tempo. Alguns

elementos da Polícia Municipal (PM),

trajando à civil, acabaram com a acção

lPANOS BRANCOS NO CASTELO DE SÃO JORGE

Os opositores à guerra querem vê-los nas janelas e varandas de todo o País

82 VISÃO 21 de Março de 2003

LUÍS BARRA

GONÇALO ROSA DA SILVA


de protesto «por ordem da Presidência

da Câmara». Enrolaram as faixas brancas

e levaram-nas para uma carrinha,

ante os olhares incrédulos das manifestantes.

Quando questionado, o comandante

da PM adiantou que devolveria

os materiais logo que os repórteres presentes

guardassem os blocos e as máquinas

fotográficas. Diana Andringa

não conteve uma exclamação indignada:

«Sabe que neste país há liberdade

de imprensa?!»

‘Querem petróleo...?’

Por volta das seis da tarde, efectua-se

a grande concentração em frente da

embaixada dos EUA, onde já se acotovelavam

centenas de manifestantes, dezenas

de agentes fardados e mais alguns

à paisana. As bandeiras brancas misturavam-se

com as vermelhas do PCP, os

discursos intercalavam-se com as palavras

de ordem «Bush, escuta, os povos

estão em luta» e «A-ssa-ssi-no» — durante

horas, o silêncio não encontrou

ali lugar.

Camané deixou-se adormecer, na véspera,

com a televisão ligada. Às duas e

35 da madrugada, acordou com os mísseis

lançados sobre Bagdad. «O mais

importante é mudar as consciências das

pessoas que estão a fazer a guerra. Por

isso, estou aqui», afirmou o fadista-sensação.

O seu produtor, José Mário Branco,

é mais contundente: «Esta guerra é

um assalto à mão armada do novo império.

Nós estamos a exercer o nosso direito

de cidadania, contra a vergonha

deste Governo.»

«Se calhar não conseguimos mudar

nada, mas, pelo menos, tentamos», declarou

Lúcia Moniz, actriz e cantora, à

porta da embaixada americana. Por seu

lado, Pedro Namora, o advogado ex-

-aluno da Casa Pia, quer mostrar ao

mundo que os portugueses «não estão

adormecidos» perante o que classifica

como um «crime». «Em que mundo

vão viver as nossas crianças? Num em

que vale a lei do mais forte e não a da

razão?»

Já a pensar nas manifestações que, no

sábado, 22, prometem encher as ruas

das principais cidades do planeta (em

Lisboa, a concentração está marcada

para as 15 horas, no Marquês do Pombal),

vão-se afinando as gargantas e a

criatividade. Entre as dúzias de cartazes

exibidos na quinta-feira, um sobressaía:

«Se quiserem petróleo, vão buscá-lo à

Galiza!» ■

GUERRA DO GOLFO II

COMUNICAÇÃO SOCIAL

Às cegas?

Os portugueses seguem os ataques a Bagdad

através dos cinco jornalistas portugueses

que se mantêm na capital iraquiana

LUÍS RIBEIRO

Corremos o risco de ficar sem os

nossos olhos em Bagdad. Os cinco

jornalistas portugueses, assim

como os quase 300 de todo o

mundo, que permanecem na capital iraquiana

viram ontem, quinta-feira, serlhes

retirado o direito de usarem os videofones

e os telefones-satélite. Elementos

ao serviço do regime de Saddam revistaram

os quartos de repórteres, que tiveram

de esconder os equipamentos.

O videofone é uma máquina do tamanho

de um vídeo – ao qual se pode ligar

uma câmara de televisão e um microfone

– que codifica os sinais recebidos de áudio

e vídeo, de forma a poderem ser transmitidos

por uma linha telefónica RDIS. Em

zonas onde não é possível usar uma linha

fixa, utiliza-se o telefone-satélite para

transmitir esses sinais, através do serviço

Global Area Network, da Inmarsat, um

sistema de satélites de comunicação. O

problema desta tecnologia salta à vista:

imagens de fraca qualidade, devido ao

facto de as linhas telefónicas (pensadas

lBAGDAD DEBAIXO DE FOGO

Por quanto tempo vai ser possível ver estas imagens?

para transportarem apenas a voz) terem

uma pequena largura de banda.

A apreensão dos videofones é mais um

obstáculo a quem já não tem a vida facilitada.

Bush, no seu discurso do ultimato,

aconselhou os jornalistas a abandonarem

o Iraque, dando a entender que a sua segurança

não estava garantida. Isto porque,

além dos bombardeamentos americanos,

subsistia a hipótese de estes profissionais

serem usados como escudos humanos,

ou sofrerem retaliações do regime

iraquiano. Mas os jornalistas portugueses

que optaram por continuar em Bagdad

(Paulo Camacho e Renato Freitas, da

SIC, Carlos Fino e Nuno Patrício, da

RTP, e Daniel do Rosário, da Rádio Renascença

e do Expresso) têm estado entre

os melhores – aliás, a SIC e a RTP foram

mesmo as primeiras estações televisivas

de todo o mundo a cobrir, em directo,

o bombardeamento do palácio presidencial.

Segundo a Rede Globo, os dois

canais portugueses transmitiram as imagens

dez minutos antes da CNN, o canal

norte-americano que se notabilizou durante

a (primeira) Guerra do Golfo. ■

VISÃO 21 de Março de 2003 83

FALEH KHEIBER/REUTERS


GUERRA DO GOLFO II

SEGURANÇA

Em estado

‘Bravo’

As Forças Armadas

adoptaram o segundo

grau de emergência.

Mas sem alarmismos

ALEXANDRA CORREIA

As forças militares portuguesas entraram

ontem, quinta-feira, em

estado «Bravo». O que significa

um reforço da segurança interna

e externa das unidades. Há um maior controlo

nas entradas, condiciona-se o estacionamento

de viaturas perto dos edifícios militares,

examina-se cuidadosamente o correio

e aumenta-se a segurança em instalações

estratégicas como as barragens, as

centrais eléctricas, os depósitos de combustíveis

e de água. O estado «Bravo» é o segundo

numa escala de quatro. Ainda assim,

as medidas adicionais de segurança, em

Portugal, são moderadas, sem alarmismos.

Nas ruas, há mais polícias, nos portos e

aeroportos mais agentes do Serviço de Estrangeiros

e Fronteiras (SEF). Áreas simbólicas,

como, por exemplo, o Santuário de

Fátima, ganham uma «atenção especial».

Os sinais mais parecidos com um vago «estado

de sítio» são as metralhadoras, nas

mãos de três guardas, junto dos portões da

embaixada dos Estados Unidos, em Lisboa.

Nos aeroportos, porém, a segurança está

bem mais apertada. Os passageiros, além do

habitual sistema de detecção de metais, são

agora revistados manualmente. As aeronaves

são inspeccionadas, através de diferentes

sistemas de vigilância. Joaquim Carvalho,

director de Segurança no Instituto Nacional

de Aviação Civil, explica ainda que se

dá maior atenção a determinados voos,

com um potencial de risco superior. É o caso

das viagens para os Estados Unidos ou

em companhias aéreas norte-americanas.

«De momento, o tráfego europeu está normalíssimo.

As medidas em carteira, além de

garantirem a segurança do voo, pretendem

dar confiança aos passageiros», diz.

Sempre alerta

A grande azáfama para segurar o País verifica-se,

especialmente, nos gabinetes.

lEMBAIXADA DOS EUA EM LISBOA

A única face visível da «anormalidade»

A governadora civil de Lisboa, Teresa Caeiro,

diz que não é habitual falar várias vezes

ao dia com o delegado regional da Protecção

Civil, com os bombeiros, com as forças

policiais. Não é habitual, mas acontece, por

estas horas. «Aumentámos o nosso grau de

sensibilidade e alerta», afirma. Citado pela

Lusa, o ministro da Administração Interna,

Figueiredo Lopes, sublinhou que «não houve

indicações de que o território e os interesses

nacionais estivessem sob a ameaça

do terrorismo», mas a vigilância é permanente.

«Não estamos em alerta máximo,

estamos em atenção adequada à situação

internacional», garantiu.

A Câmara Municipal de Lisboa encontra-se

em alerta «amarelo», ou seja, todos

os serviços da autarquia se mantêm em permanente

contacto com a direcção municipal

da Protecção Civil. Este alerta, segundo

um comunicado da Câmara, «compreende

a iminência de situações de emergência que

podem potenciar o desenvolvimento de

consequências mais gravosas».

Ao serviço 24 horas por dia está o Gabinete

Coordenador da Segurança, órgão do

Ministério da Administração Interna

A nostalgia do ‘bunker’

Houve, em tempos, um bunker no Palácio de

São Bento. Não era propriamente um bunker,

porque tinha janelas e este tipo de abrigos não

se podem dar a esses luxos. Mas era o nome

que os sociais-democratas davam à sala de 50

metros quadrados, no rés-do-chão da residência

oficial. Bunker, porque, com Cavaco Silva,

era ali que se reuniriam as entidades competentes

para fazerem face a uma crise. Bunker

porque a sala, embora com janelas para o jardim,

tinha, atrás de uma porta de cofre, um ar

soturno. E o recheio resumia-se a uma mesa,

umas cadeiras, dois telefones, dois vídeos e três

televisões antigas na parede.

(MAI), liderado pelo general Leonel Carvalho.

Coordena-se ali a informação proveniente

das diversas forças policiais, que aumentaram

os seus efectivos. «Estamos a tomar

medidas parecidas com as que activámos

depois do 11 de Setembro de 2001»,

diz Leonel Carvalho.

O MAI mantém um contacto estreito

com Ministério da Defesa, onde funciona

um outro órgão, em grande actividade nesta

altura, o Conselho Nacional de Planeamento

Civil de Emergência. Todos os sectores

fundamentais do País passam por aqui,

assegurando-se, em caso de crise, que comunicações,

saúde, transportes, indústria,

agricultura e protecção civil continuem a

funcionar.

No Ministério da Saúde, funciona uma

task-force. É coordenada pelo secretário de

Estado da Saúde, Carlos Martins, e inclui

responsáveis da direcção-geral da Saúde,

do INEM, do Instituto Nacional do Sangue,

etc. E no Ministério dos Negócios Estrangeiros,

a recém-criada Célula de Gestão

de Crises estará sempre em funcionamento,

enquanto houver guerra, a tratar informação

classificada. ■

Mas nunca foi usada. Guterres decidiu remodelá-la

e criar uma sala de Conselho de Ministros.

Afinal, as reuniões habituais do Executivo «laranja»

eram, na altura, realizadas no piso nobre,

«sem privacidade». A porta de cofre foi

substituída por uma com barreira acústica,

duas janelas passaram a portas e mudou-se o

mobiliário.Aí passaram a reunir-se os ministros

«rosa». Hoje, com o regresso do PSD ao poder,

renasceu o gabinete de crise. Não em São Bento,

mas no Largo das Necessidades. A explicação,

irónica, é de um socialista: «Martins da

Cruz, que foi assessor de Cavaco Silva, deve ter

sentido a nostalgia daquela sala de crise.»

84 VISÃO 21 de Março de 2003

LUÍS BARRA


Aguerra está no terreno. Além do resto: 1) contra os

mais elementares princípios humanistas (e cristãos)

de valorizar a paz como bem supremo e só a

fazer num caso extremo, como último recurso, o

que manifestamente não era o caso; 2) contra o direito à

vida e à tranquilidade de populações indefesas que foram

as maiores vítimas do execrando tirano de Bagdad e agora

são as maiores vítimas daqueles que por este meio o querem

derrubar, mas não só; 3) contra o Direito Internacional,

a carta da ONU e a própria ONU, sabendo os EUA

que o Conselho de Segurança rejeitaria a moção que, por

isso mesmo, desistiram de apresentar; 4) contra a opinião

(como as sondagens confirmam) da imensa maioria dos cidadãos

do mundo, que, por toda a parte, se manifestam, e

da generalidade dos grandes vultos e figuras morais de todo

o mundo, incluindo dos EUA.

A guerra está no terreno, se de guerra se pode falar, dada

a imensa desproporção de forças em

confronto, a óbvia fraqueza iraquiana,

não obstante as farroncas do ainda por

cima arrogante ditador. E uma das coisas

que se irá ver é se o Iraque tem ou

não armas de destruição maciça: recorde-se

que G. W. Bush garantiu que sim,

apesar de os inspectores das Nações

Unidas não as terem encontrado e haverem

pedido mais tempo para prosseguir

o seu trabalho, após o Iraque haver, inclusive,

destruído mísseis cujo alcance

ultrapassava em 30 km o limite imposto pela ONU. Espero

que, ao menos, de facto, o Iraque não tenha essas armas,

a guerra seja breve, os bombardeamentos visem só

alvos militares e os responsáveis pelo regime, haja o menor

número possível de vítimas inocentes. Confesso que é,

sobretudo, nisto que penso quando escrevo esta crónica.

Penso nas crianças, nas mulheres, nos homens, nos jovens

e nos velhos, em toda essa imensidão de pessoas concretas,

que não são pontos num mapa, números de estatísticas,

abstractas vítimas de uns abstractos e tecnocratas danos

colaterais, em toda essa imensidão de pessoas concretas,

repito, que têm rosto, nome, família, problemas, aspirações,

sonhos! São elas que sobretudo contam e são as

mais esquecidas pelos donos do mundo.

Não posso deixar de comentar, entretanto, a posição portuguesa.

Em particular, a intervenção do Presidente da

República, dado que, na nossa edição semanal de ontem,

quinta-feira, já se falou da deplorável «farsa» das Lajes:

farsa – infelizmente não cómica mas dramática... – em

sentido teatral, vicentino, de que o nosso primeiro-ministro

não foi encenador, nem actor, mas mero contra-regra.

Na sua comunicação ao País, Jorge Sampaio reafirmou de

JOSÉ CARLOS DE VASCONCELOS

Unidade, mas que unidade?

❝Jorge Sampaio

reafirmou de forma clara

a sua posição quanto

à guerra em curso. Mas

apelou a uma unidade

que não se sabe qual é ❞

GUERRA DO GOLFO II

forma clara a posição já antes por si assumida, contra a

guerra e o ataque dos EUA ao Iraque, à revelia do Conselho

de Segurança, ou, em última análise, contra ele; posição, como

se sabe, diametralmente oposta àquela a que o Governo

«amarrou» Portugal. Mais, deixou subentendido que o Executivo

teria querido ir mais longe, pretendendo não só permitir

a incondicional utilização da Base das Lajes, como

permitiu, com a sua concordância, não só apoiar a posição

de Bush, como apoiou, mas ainda comprometer as nossas

Forças Armadas com a chamada «coligação militar» aliada.

Não o «autorizando», ou estabelecendo com Durão Barroso

um consenso nos termos do qual isso não chegaria a ser-

-lhe proposto, e em compensação ele, Presidente, se limitaria

a declarações como as que proferiu – Jorge Sampaio agiu

seguramente, com a convicção de estar a fazer o melhor para

o País; e do mesmo passo mostrou o seu entendimento

dos poderes presidenciais e o estilo com que os exerce.

No mínimo, porém, terá de admitir

que a generalidade dos seus eleitores,

considerando essencial ser ele o Chefe

de Estado de todos os portugueses sem

distinções, esperavam que, na defesa de

certas posições essenciais, pusesse, pelo

menos, o mesmo vigor com que, de modo

estranho, disse ser «ridículo» classificar

de «conflito institucional» a frontal

divergência entre a posição do Governo

e a sua sobre matéria tão importante.

No final do meu último comentário escrevi que a atitude de

Sampaio neste «embate» daria aos portugueses a medida daquilo

de que era capaz e para que servia ou não o Presidente.

Cada um fará o seu juízo, que não é simples, nem – para mim

– a preto e branco... Quanto à avaliação do seu apelo, a propósito

da guerra em curso, à «unidade nacional», cabe perguntar:

unidade à volta de quê? Da sua posição ou da posição

do Governo? Ou entende o Presidente que, a partir de agora,

a posição do País é a do Governo e todos a devem apoiar?

Não creio. Primeio, porque não pode haver unidade em torno

de um posição que é, além do mais, contra o Direito Internacional

e a ONU; e, depois, porque a ser assim, ele próprio nunca

devia ter falado, ou, pelo menos, não devia ter reafirmado

o que reafirmou.

Deste modo, julgo que o Presidente apenas quis fazer

– mas de forma infeliz, ou um pouco desastrada – um

compreensível apelo à não dramatização da situação.

É ilegítimo, creio eu, a partir daqui, os partidos que sustentam

o Governo concluírem que os da oposição deviam

retirar as suas anunciadas moções de censura. No entanto,

a interpretação que fazem das palavras de Sampaio devem

servir de incentivo para que, em algumas suas intervenções,

ou parte delas, seja mais claro e menos ambíguo.

VISÃO 21 de Março de 2003 85


GUERRA DO GOLFO II Tomadas de posição

REACÇÕES NO MUNDO

Mobilização geral pela paz

Enquanto as ruas de muitas capitais são palco de um protesto quase globalizado

contra a guerra, os governos tomam posição em lados opostos da trincheira

Um pouco por todo o planeta,

com especial incidência na Europa,

milhões de activistas antiguerra

têm vindo a mobilizar-se

– sobretudo desde a madrugada de dia

20 – para protestarem contra a invasão

Contagem decrescente

Da Cimeira dos Açores aos dias da guerra

DOMINGO, 16

18h35: Depois de

uma reunião a quatro,

na Base das Lajes,

George W. Bush, Tony

Blair, José María Aznar

e Durão Barroso

anunciaram um prazo

de 24 horas para

a solução diplomática

da crise no Iraque.

19h15: Saddam

responde à Cimeira

dos Açores, dizendo

que é uma grande

mentira que o Iraque

do Iraque por uma poderosa coligação

militar liderada pelos EUA. De uma forma

geral, nas capitais do Velho Continente

foi marcado encontro ao fim da

tarde de quinta-feira diante das embaixadas

da superpotência mundial, mas

possua armas de

destruição maciça e

admite que os seus

homens responderão

aos ataques, retaliando

onde quer que haja

céu, água ou terra.

22h00: O inspector das

em Paris, por exemplo, a grandiosa Praça

da Concórdia foi o ponto escolhido

por milhares de franceses antiguerra para

expressarem a sua revolta e o apoio à

posição oficial do Presidente e do Executivo

do seu país.

Nações Unidas, Hans

Blix, reage ao ultimato,

afirmando que lhe

parece haver divisões

nos discursos dos quatro

líderes.

SEGUNDA-FEIRA, 17

15h05: Os EUA, a

Grã-Bretanha e a

Espanha decidem

retirar a sua resolução,

desistindo, assim, de

ter o apoio das Nações

Unidas.

86 VISÃO 21 de Março de 2003

BRENDAN MCDERMID/REUTERS


Em Roma, uma vigília nocturna foi

convocada para diante da embaixada

americana e um sit-in para junto da Câmara

de Deputados. O alinhamento do

Governo de Berlusconi com as teses da

Administração Bush não encontrou qualquer

eco junto de uma população italiana

que encheu as cidades da «bota» de

bandeirolas com a palavra pace (paz) e

desde o início da crise se tem desdobrado

em manifestações de repúdio tanto da

opção do Executivo como da própria política

de Washington. Recorde-se que no

célebre 13 de Fevereiro, dia do protesto

global antiguerra, 3 milhões de pessoas se

18h00: O secretário-

-geral das Nações

Unidas, Kofi Annan,

anuncia que os

inspectores e o pessoal

humanitário devem

abandonar o Iraque.

18h08: Em Portugal,

o Presidente da

República, Jorge

Sampaio, convoca

o Conselho de Estado

para quarta-feira,

dia 19.

18h27: À semelhança

do PS, do BE e do PEV,

concentraram na capital da Itália, naquela

que foi uma das maiores movimentações

de massas civis de que há memória

na história da civilização ocidental. E um

mês mais tarde, um milhão seguiu-lhes o

exemplo na capital económica do país,

Milão. Na última quarta-feira, Nápoles

foi cenário de uma manifestação de grandes

proporções.

Ainda no mesmo país – onde a firme

posição contra a guerra manifestada pelo

Vaticano (o Papa considerou o conflito

ilegal) encontrou grande eco e contribuiu

para consciencializar os mais indecisos

–, o Movimento dos Disobbedien-

o PCP dá a conhecer

a intenção de entregar

uma moção de censura

ao Governo, no

Parlamento.

21h00: Robin Cook, um

dos ministros de Tony

Blair, apresenta a sua

WASHINGTON E JACARTA

A polícia da capital federal americana procedeu

a detenções durante uma marcha de protesto

rumo à residência do secretário da Defesa,

Donald Rumsfeld. Na distante Indonésia,

numa outra manifestação antiguerra, eram

visíveis retratos de George W. Bush com caninos

de vampiro e a legenda «Autêntido Demónio»

ti, partidários da desobediência civil,

pretende impedir por meio de acções

não-violentas a descolagem de aviões de

apoio logístico às forças anglo-americanas

envolvidas no assalto ao Iraque. Estes

disobbedienti têm, nas últimas se-

demissão, na Câmara

dos Comuns. Dez horas

depois, o ministro

da Saúde segue-lhe

o exemplo.

TERÇA-FEIRA, 18

01h00: George W. Bush

dá um prazo de

48 horas a Saddam

Hussein e aos filhos

para abandonarem

o território e aconselha

as tropas iraquianas

VISÃO 21 de Março de 2003 87


BEAWIHARTA/REUTERS



GUERRA DO GOLFO II

MOBILIZAÇÃO GERAL PELA PAZ

manas, conseguido penetrar por diversas

vezes em bases aéreas e destruir reservas

de combustível para aeronaves.

Na Grécia, milhares de manifestantes

concentraram-se dia 20 frente à representação

diplomática de Washington em

Atenas, protegida por uma cordão de

agentes do corpo de intervenção da polícia.

Na véspera à noite, ao expirar o

prazo do ultimato, decorrera no mesmo

local uma vigília à luz das velas e ao som

de cânticos pacifistas e anti-imperialistas.

Na segunda cidade helénica, Salónica,

centenas de fiéis haviam-se reunido

na catedral para uma vigília de oração,

ao que se seguiu uma ocupação temporária

do consulado britânico por duas

dezenas de militantes do Fórum Social

Grego.

Espanhóis e ingleses

contra os governos

Em Espanha, não obstante o alinhamento

do Executivo de José María Aznar

com os principais senhores da guerra,

é muito forte a mobilização contra o

novo conflito do Golfo – e, por tabela,

contra o próprio Governo de Madrid,

que atingiu níveis de popularidade baixíssimos

e impossíveis de prever aquando

da sua reeleição por maioria absoluta.

Por isso mesmo, a Plataforma Espanhola

Contra a Guerra convocou manifestações

não apenas para diante da embaixada

americana na capital, mas

igualmente para junto de alguns edifícios

governamentais e das sedes do PP,

o partido do poder.

Na «frente interna» do principal parceiro

bélico de George W. Bush – a Grã-

-Bretanha – está convocada uma grande

manifestação de repúdio para amanhã,

sábado, em Londres. Uma campanha de

desobediência civil pacífica foi entretanto

lançada pela Coligação contra uma


CONTAGEM DECRESCENTE

a não morrerem por um

regime que vai cair.

11h10: John Denham

torna-se no terceiro

ministro britânico a

abandonar o Governo

por causa da crise

iraquiana.

14h00:Uma televisão

FRANCK PREVEL/AP

MURAD SEZER/AP

iraquiana transmite a

notícia de que Saddam

Hussein rejeita o

ultimato e não

pretende exilar-se.

15h00: Debate mensal,

antecipado, com o

primeiro-ministro Durão

Barroso, na Assembleia

Guerra no Iraque, sob a forma de paragens

de trabalho nas empresas e sit-ins

nas universidades.

Curiosa e digna de registo foi a actuação

de uma militante pacifista que conseguiu

infiltrar-se na base aérea de Leuchars

da RAF e avariar à martelada um

avião Tornado. As imediações de outra

base – a de Fairford – vêm acolhendo

desde há um mês um «campo da paz»

ali instalado por um grupo de activistas.

Em declarações, na quarta-feira, ao jor-

da República (a data

inicial era 26 de Março).

22h00: Tony Blair ganha

o apoio da Câmara dos

Comuns, apesar de 139

deputados do Partido

Trabalhista terem votado

contra a proposta do

primeiro-ministro.

nal francês Le Monde, uma porta-voz

desse movimento sublinhou que «a

maioria das pessoas no Reino Unido está

horrorizada com o que se passou ontem

à noite [no Iraque], mas a sua opinião

é ignorada pelo pequeno grupo que

governa».

Também uma base aérea – a de Antuérpia

– foi o local escolhido por manifestantes

belgas para darem a conhecer

a sua repulsa pela intervenção militar

anglo-americana no Iraque.

QUARTA-FEIRA, 19

07h00: Há relatos

de grandes

tempestades de areia,

no deserto do Kuwait,

onde as forças

britânicas avançam.

08h00: Mais um

ministro, David Kidney,

abandona o Governo

do Reino Unido.

11h30: Tropas

americanas entraram

na zona desmilitarizada

da fronteira, entre

o Kuweit e o Iraque.

14h30: Reúne-se

o Conselho de Estado,

88 VISÃO 21 de Março de 2003

PETR JOSEK/REUTERS


Nos próprios EUA, os opositores à

guerra anunciaram a intenção de promover

acções de protesto por todo o país.

A principal preocupação destes activistas

é não entrarem em choque com uma população

que, compreensivelmente, apoia

os seus soldados (o que não é o mesmo

que apoiar a Administração).

Na Austrália, o movimento antiguerra

convocou manifestações nas principais

cidades e os estudantes universitários

entraram em greve após o discurso de

no Palácio de Belém,

do qual resultará, horas

depois, uma declaração

do Presidente

a República.

20h30: Jorge Sampaio

recorda a ilegalidade

da acção militar, caso

aconteça sem o aval

das Nações Unidas,

mas apela à «unidade

nacional».

Bush e do primeiro-ministro John Howard

na madrugada de 20.

Intervenção ‘injustificável e ilegítima’

Se as pessoas anónimas dão assim a

conhecer a sua posição face à intervenção

militar dos aliados anglo-saxónicos

no Médio Oriente, os governantes fazem

o mesmo através dos canais «regulares»

postos à sua disposição.

Assim, o ministro dos Negócios Estrangeiros

do Irão (um dos países incluí-

QUINTA-FEIRA, 20

00h01: Tony Blair é

avisado pelos EUA de

que a ofensiva militar

pode começar nas duas

horas seguintes.

02h35: Bush faz uma

declaração ao mundo,

admitindo que a guerra

PARIS, ANCARA E PRAGA

Nas capitais francesa, turca e checa,

respectivamente, foram em número

de muitos milhares os manifestantes

que saíram na quinta-feira à rua

para manifestar o seu repúdio pela guerra

conduzida por Washington contra o Iraque

dos por Bush naquilo que designa por

«eixo do mal») considerou «injustificáveis

e ilegítimas» as operações militares

contra o país vizinho, com o qual esteve

envolvido numa longa guerra na década

já começou e o povo

iraquiano vai ser

libertado.

04h15: Também Durão

Barroso se dirige ao

País, num depoimento

de três minutos: «Este

é um conflito que não

desejámos», disse.

E: «Não há motivos

para alarme.»

12h00: Durão Barroso

parte para Bruxelas,

onde o espera a

Cimeira da Primavera,

com os restantes chefes

de Governo europeus

VISÃO 21 de Março de 2003 89


ARND WIEGMANN/REUTERS

REUTERS


GUERRA DO GOLFO II Tomadas de posição

MOBILIZAÇÃO GERAL PELA PAZ

de 80. A velha hostilidade Irão-Iraque leva

porém Teerão a não alinhar ao lado de

Bagdad, reservando-se à primeira República

Islâmica a ser implantada no mundo

o direito de «não intervir em benefício

quer de um quer de outro campo».

Historicamente muito crítico da política

externa de Washington, o Governo

chinês tem mantido nesta crise uma posição

moderada. Embora seja membro

permanente do Conselho de Segurança

das Nações Unidas, a China não anunciou

– ao contrário da França e da Rússia

– a intenção de vetar o projecto de

resolução anglo-hispano-americano que

«legitimaria» a intervenção militar no

país de Saddam e que não chegou afinal

a ser posto à votação por decisão dos

próprios proponentes, receosos de uma

mais que provável derrota. Apesar desta

prudência, na sequência do ataque Pe-

GERHARD

SCHRÖDER

O chanceler

alemão foi

um dos líderes

que mais se

empenharam

no combate

à dinâmica

belicista

de Washington

JACQUES CHIRAC

Coube ao

Presidente francês

a liderança

mediática

da campanha

contra a «guerra

de Bush»

quim pediu o fim imediato da acção militar

e a retoma dos esforços para resolver

a crise pacificamente, através da via

diplomática e da acção dos inspectores

de armamento da ONU. Kong Quan,

porta-voz do Ministério das Relações

Exteriores, declarou quinta-feira em

conferência de imprensa que a guerra é

uma violação da Carta da ONU e do Direito

internacional.

Num dos países mais críticos da intervenção,

a Alemanha, o chanceler (social-democrata)

Gerhard Schröder acorreu

ao seu gabinete de trabalho em plena

madrugada de 20, pouco depois de

lançado o ataque anglo-americano contra

o Iraque. Dali entrou posteriormente

em contacto com Jacques Chirac e Vladimir

Putine, respectivamente líderes

francês e russo, com quem compartilha

os pontos de vista. A Alemanha afirmou

oficialmente estar consternada com o

início da campanha militar e ofereceu

• PAÍSES QUE APOIAM

A ACÇÃO MILITAR

EUROPA

• Albânia Envio de tropas

• Bulgária Cedência de bases e espaço aéreo;

envio de um grupo de descontaminação em caso de

utilização de armas químicas ou biológicas pelo Iraque

• Croácia Bases e espaço aéreo; apoio logístico

• Dinamarca

• Espanha Aznar foi um dos impulsionadores da

Carta dos Oito em apoio das intenções americanas;

tropas não-combatentes; apoio logístico

• Estónia

• Eslováquia Envio de grupo de descontaminação

• Grã-Bretanha Desde a primeira hora o maior aliado

dos EUA, exigiu o desarmamento imediato do Iraque;

envio de tropas, aviões e navios

• Holanda

• Hungria Cedência de bases, espaço aéreo e apoio

logístico

• Itália Berlusconi é um dos principais defensores

europeus da intervenção; espaço aéreo e apoio

logístico

• Letónia Apoio logístico

• Lituânia

• Macedónia

• Polónia Envio de tropas

• Portugal Para Durão Barroso, o Iraque é o

responsável pela situação; apoio logístico

• República Checa Grupo de descontaminação

• Roménia Bases aéreas e grupo de descontaminação

• Ucrânia Grupo de descontaminação

AMÉRICAS

• Bolívia

• Colômbia

• El Salvador

• Equador Desfeitas as hipóteses de solução pacífica,

põs-se ao lado dos EUA

• Estados Unidos da América

• Guatemala

• Honduras

• Nicarágua

• Panamá

ÁFRICA*

• Eritreia

• Etiópia

*Os restantes países estão contra a intervenção

90 VISÃO 21 de Março de 2003


OCEANIA

• Austrália Seguiu sempre Washington e Londres;

tropas, aviões e navios

MÉDIO ORIENTE

• Arábia Saudita Aliada tradicional dos EUA,

ofereceu asilo político a Saddam para evitar a guerra;

bases e espaço aéreo

• Azerbaijão

• Bahraim Apoio logístico

• Emirados Árabes Unidos Tropas e base aérea

• Geórgia

• Israel Principal aliado dos EUA, muito interessado

na queda de Saddam

• Jordânia Bases, espaço aéreo e apoio logístico

• Kuwait Depois da invasão iraquiana que

desencadeou a I Guerra do Golfo, apoia a 2.ª edição

do conflito; bases, espaço aéreo e apoio logístico

• Qatar Bases, espaço aéreo e apoio logístico

• Turquia Bases, espaço aéreo e tropas; negociações

difíceis para o estacionamento de soldados dos EUA

• Uzebequistão

ÁSIA

• Afeganistão

• Coreia do Sul

• Filipinas

• Japão Considera justificada a acção militar

• Taiwan

• PAÍSES QUE NÃO APOIAM

EUROPA

• Alemanha Apesar de não apoiar, ajudará

os aliados em caso de utilização de armas biológicas

ou químicas pelos iraquianos

• Áustria

• Bélgica Sempre apostou numa resolução

diplomática

• França Actual «rosto» da paz; a ameaça de vetar

a guerra no Conselho de Segurança irritou os EUA

• Grécia

• Irlanda

• Luxemburgo

• Noruega

• Suíça

• Suécia

• Rússia Com a França e a Alemanha, defendeu

a continuação das inspecções

AMÉRICA

• Argentina Se em 1991 enviou forças, desta vez

ficou de fora

• Brasil Considera Bush «irresponsável» e afirmou

que um ataque ao Iraque seria ilegítimo

• Canadá Partidário da negociação e do exílio

de Saddam; só participaria na guerra com total apoio

da ONU

• Chile Membro não-permanente do CS,

GUERRA DO GOLFO II

Os países apoiantes

dos EUA são desta vez

muito menos do que em 1991.

As principais novidades

são a cisão da Europa

e a ultrapassagem da ONU

• SEM INFORMAÇÂO

decepcionado pela incapacidade de encontrar

uma saída diplomática

• Cuba

• México

• Venezuela Repúdio da guerra «em qualquer

das suas expressões»

MÉDIO ORIENTE

• Irão Incluído pelos EUA no Eixo do Mal, defendeu

a continuação das inspecções

• Síria

ÁSIA

• Coreia do Norte No Eixo do Mal de Bush

• China Desde o início contra a intervenção militar;

de acordo com as teses francesas e russas

• Índia

• Indonésia

• Malásia

• PAÍSES INDECISOS

ÁSIA

• Paquistão

• Tailândia

AMÉRICA

• Peru

OCEANIA

• Nova Zelândia

VISÃO 21 de Março de 2003 91

VISÃO



GUERRA DO GOLFO II Tomadas de posição

MOBILIZAÇÃO GERAL PELA PAZ

ajuda humanitária à população iraquiana.

«Agora tudo tem de ser feito para se

evitar um desastre humanitário» no

país, defende uma nota divulgada pelo

Governo social-democrata e «verde»

germânico. Mas Berlim acrescentou que

continuará a autorizar forças americanas

a sobrevoarem a Alemanha e a transitarem

pelo seu território.

Quanto à França, que ameaçou vetar

uma nova resolução do Conselho de Segurança

da ONU autorizando o uso da

força contra o Iraque, expressou a sua

«mais profunda preocupação com o início

da operação militar».

Terceiro elemento da troika abertamente

antiguerra juntamente com Chirac

e Schröder, o Presidente da Federação

Russa, Vladimir Putine, disse que

não havia justificação para uma campanha

militar no Iraque, a qual classificou

de «erro político». Falando na quinta-

-feira no Kremlin, em Moscovo, Putine

pediu o fim dos devastadores bombardeamentos

de Bagdad e outros alvos iraquianos

e reiterou a intenção de conti-

RICK RYCROFT/AP

nuar empenhado na busca de uma solução

política para a crise. Horas antes,

uma importante personalidade da vida

política russa já se havia referido ao ataque

à velha Mesopotâmia como «um erro

trágico» (até mesmo na perspectiva

dos EUA), passível de vir a prejudicar as

relações de Washington com outras capitais,

inclusive com Moscovo.

«Do ponto de vista da comunidade

internacional [a acção militar], é ilegítima,

injustificada e uma ameaça à estabilidade

mundial», afirmou a referida autoridade.

O ataque «é mal concebido,

indevido e pode prejudicar algumas das

importantes parcerias americanas e suas

relações exteriores», argumentou.

O Governo russo vem, desde o início

da crise, criticando a posição dos EUA

de querer desarmar o Iraque por via da

força.

Em Nova Iorque, o embaixador iraquiano

na ONU, Mohammed Aldouri,

reiterou alguns dos argumentos dos países

que mais frontalmente questionam a

legalidade da guerra, classificando a intervenção

militar anglo-americana no

Iraque de «violação do Direito interna-

cional». Aldouri disse que pediria ao

Conselho de Segurança e à ONU, como

um todo, que fizessem as forças aliadas

responder pelo ataque ao seu país.

Alinhados com a América

Numa declaração algo tardia, feita na

tarde de 20, o primeiro-ministro britânico,

Tony Blair (que se debate com sérias

dificuldades internas), veio reiterar aquilo

de que já toda a gente estava ao corrente:

que forças armadas do seu país

participam na ofensiva bélica ao lado

dos americanos e que o objectivo da

guerra é derrubar Saddam Hussein.

Outro dos aliados de Washington e

grande apoiante da acção militar, o chefe

do Governo da Espanha, José María

Aznar, convocou uma reunião ministerial

para quinta-feira. Aznar, que conversou

com Bush e Blair horas antes do

bombardeamento do Iraque, disponibilizou

duas bases aéreas para os EUA,

mas as forças armadas espanholas não

se envolverão no conflito.

Na Ásia, o Japão e as Filipinas ofereceram

apoio ao ataque, mas a Malásia e líderes

muçulmanos da região condenaram a

92 VISÃO 21 de Março de 2003


acção e advertiram que os americanos pagariam

um dia por ela um preço elevado.

Quanto ao primeiro-ministro japonês,

Junichiro Koizumi, reiterou o seu

«apoio moral» a Washington, contra-

SYDNEY

E MADRID

Tanto australianos

como espanhóis

quiseram

manifestar

publicamente

e de forma

inequívoca

que não estão

ao lado dos

respectivos

governos no

presente conflito

riando a opinião pública largamente

maioritária no seu país. «Compreendo e

apoio o início do uso da força pelos

EUA», afirmou Koizumi em conferência

de imprensa.

lBERLIM

Numa bricadeira com o nome de Bush, estudantes alemães dizem ser precisas árvores, não arbustos

GUERRA DO GOLFO II

Na vizinha Coreia do Sul, o Presidente

Roh Moo-Hyun, afirmou que o seu

Executivo trabalharia para minimizar o

impacto da guerra no país e ofereceria

ajuda e tropas quando cessassem as hostilidades.

O primeiro-ministro tailandês, Thaksin

Shinawatra, afirmou que Banguecoque

não participa na guerra mas está disponível

para colaborar na reconstrução

do Iraque após o termo das hostilidades.

Que o governante não transmite a opinião

da totalidade dos seus compatriotas

é atestado pelo facto de o Grupo de Muçulmanos

para a Paz ter afirmado que os

americanos «atraíram mais inimigos do

que nunca, não só no mundo muçulmano

mas também entre os budistas».

‘Data negra da História’

Quanto à Índia, pertence ao número

dos países que desaprovam a intervenção

militar, mas manteve o silêncio.

Já o Paquistão, seu vizinho e inimigo,

declarou através do ministro da Informação,

Rashid Ahmed, que não apoia a

guerra contra o Iraque e manifestou a

intenção de continuar a fazer pressão

pela paz.

Outros países muçulmanos expressaram

forte oposição. Numa posição unânime,

o vice-primeiro-ministro da Malásia,

Abdullah Ahmad Badawi, disse na

televisão que o ataque é «uma data negra

da História», e a oposição conservadora

disse pela voz do líder do Partido

Islâmico que «esta guerra desprezível

põe em evidência a maldade da América

e dos seus aliados».

A Presidente da Indonésia, Megawati

Sukarnoputri, afirmou que seu Governo

se opõe fortemente ao ataque e exortou

as Nações Unidas a convocar uma reunião

para analisar a situação mundial.

Por seu turno, líderes islâmicos reagiram

com cólera ao ataque ao Iraque. O pequno

grupo radical Hizbut Tahrir exortou

mesmo à guerra santa «para defender

a dignidade de um país muçulmano

e do seu povo».

Já a homóloga filipina de Megawati,

Gloria Arroyo, disse que Manila integra

a «coligação da vontade», referindo-se

algo ambiguamente ao facto de o seu

país estar do lado dos EUA.

A posição dos paises não-alinhados,

cujo movimento é presentemente dirigido

por Cuba, Malásia e África do Sul,

consideram, finalmente, «um acto ilegítimo

de agressão» a «acção militar unilateral

dos EUA e aliados». ■

VISÃO 21 de Março de 2003 93

ANDREA COMAS/REUTERS

HERBERT KNOSOWSKI/AP


GUERRA DO GOLFO II “E aqui vai uma frase de paleio de situação no dito dossier, máí nada”

PROTESTO CONTRA

A GUERRA

Mal foi anunciado

que as tropas

britânicas estavam

prontas a ir para

o Iraque, a reacção

dos londrinos não

se fez esperar

GRÃ-BRETANHA

O futuro de Blair

As próximas semanas decidirão se o primeiro-ministro

sobrevive a Saddam Hussein

Era pegar ou largar. Se o Parlamento

votasse a retirada das tropas

britânicas estacionadas no Iraque

estaria, ao mesmo tempo, a decidir

a saída do seu primeiro-ministro, avisou

Tony Blair quando, na terça-feira,

18, se apresentou aos deputados, pedindo

luz verde para avançar para a guerra,

mas sem o sine qua non que muitos políticos

do seu partido tinham exigido:

uma resolução do Conselho de Segurança

da ONU a sancionar o ataque.

Blair deitou mão a tudo o que pôde.

O artigo do jornal Times sobre a votação

dizia que ele «nunca fez um discurso

mais difícil, nem mais importante nem

melhor» e soubera escolher o tom: dirigira-se

«não à plateia, mas ao coração».

Aparentemente, saiu-se bem. Até uma

das suas colegas de Governo não conseguiu

conter as lágrimas, emocionada,

quando o ouvia.

«Quem irá festejar e quem irá chorar,

se retirarmos as nossas tropas?», perguntou

aos deputados. No final, fizeram-se

as contas e o pior tinha passado:

ao contrário do que previam alguns analistas,

não ficara dependente dos conservadores

para atacar o Iraque. É verdade

que 139 trabalhistas não foram sensíveis

aos seus argumentos e votaram contra,

entre eles 17 que, por sinal, até tinham

estado a seu lado nos debates anteriores.

Mas a inversa também foi verdadeira:

94

conseguiu recuperar alguns dos seus críticos.

Por agora, a situação estava salva.

Mais a mais, Blair entrara no Parlamento

já com uma baixa, apesar de o

ataque ainda não ter começado. O ministro

dos Assuntos Parlamentares, Robin

Cook, juntara-se aos outros membros

do Governo que decidiram demitir-

-se por causa do apoio da Grã-Bretanha

a este ataque. Foi uma saída que, segundo

a imprensa britânica, teve «dignidade

e força destrutiva». Mas não feriu mortalmente

o primeiro-ministro.

Três horas antes da votação, já o Ministério

do Interior se antecipara, colocando

na sua página da Internet instruções

aos britânicos sobre o que deviam

ter em casa, como prevenção para a hipótese

de um ataque terrorista. Precisariam

de uma lanterna, algumas latas de

comida, garrafas de água e cobertores.

As recomendações ficaram bem aquém

das que receberam os cidadãos

dos Estados Unidos.

Aí, o Governo elaborou

uma brochura de

56 páginas, com o título

Estão prontos? E mesmo

os que não estivessem

deveriam passar a ter à

mão não só víveres para

três dias, como sacos-cama,

rádios de pilhas e até

T-shirts de algodão que

REUTERS/TOBY MELVILLE

possam transformar-se em máscaras de

gás improvisadas. Em Londres, não só

as instruções foram menos drásticas, como

até teve que ficar a aguardar para

outro dia o simulacro de atentado ao

Metro, pois a polícia da capital tinha tarefas

de segurança mais urgentes.

No dia seguinte à votação, Blair apareceu

de surpresa numa reunião do grupo

parlamentar do seu partido para tentar

minorar os estragos. Garantiu que,

desta vez, e ao contrário da Guerra do

Golfo, só serão atacadas as instalações

militares e os edifícios do Governo.

E, num gesto de boa vontade para com

os seus dissidentes, nomeou até uma das

suas colegas mais críticas, Clare Short,

para o gabinete especial que criou para

a guerra ao Iraque.

Nas próximas semanas a evolução

dos ataques irá, certamente, voltar a levá-lo

ao Parlamento. E terá de, de novo,

fazer contas. Além disso, corre o risco

de a moda da rebeldia que atingiu a sua

bancada a propósito do Iraque venha a

pegar, mesmo para questões internas e,

aparentemente, bem mais pacíficas.

A próxima lei a ser votada será a que

contém um novo modelo de gestão hospitalar.

Uma centena de trabalhistas

anunciaram já que são contra. ■

TONY BLAIR

No Parlamento,

dirigiu-se «não

à plateia, mas

ao coração»,

escreveu-se

no jornal Times

REUTERS/PAUL MCERLANE


GUERRA DO GOLFO II

AMÉRICA

O epicentro, a 10 000 km da frente

A vida em Manhattan não difere muito da normalidade: Bagdad fica longe e...

Washington não parece perto

LÚCIA GUIMARÃES • NOVA IORQUE

‘ Ohhhh!». A exclamação uníssona

encheu o restaurante. O

ecrã de TV grande anunciava

o início dos combates terrestres

e novos bombardeamentos a Bagdad.

Mas a emoção da plateia de 20 pessoas

era reservada ao ecrã pequeno, que exibia

a final da partida de básquete entre a equipa

universitária da Califórnia e a de Connecticut.

Estava a ganhar a Califórnia.

Com licença, lembram-se de que o país

está em guerra? A pergunta não foi feita e

seria frívola naquele momento. Nenhum

par de olhos desviava a atenção para

Christiane Amanpour, da CNN, em Kuwait

City. Nova Iorque, capital mundial

dos alvos do terror, parecia demasiado

ocupada para se concentrar no maior esforço

bélico jamais mobilizado pelos

EUA. A cena no popular bar irlandês, perto

de Times Square, não parecia perturbar

os frequentadores. Christiane Amanpour

continuou os seus movimentos labiais

emudecidos pelo controlo remoto.

O que pensar de uma guerra que mobiliza

polícias com máscaras de gás, reúne

numa operação militar governantes de

três Estados mas fracassa na captura da

imaginação popular? A cidade amanheceu

na quinta-feira, 20, um pouco mais

cautelosa, mas não subjugada pela gravidade

da guerra. O troféu limão vai para o

tablóide Daily News, que na sua primeira

edição bradou: «Bom Dia, Bagdad.»

‘Surf‘e rotina

Alertados pelo primeiro bombardeamento,

na noite anterior, muitos nova-iorquinos

que não tinham necessidade de se

dirigir a Manhattan evitaram a ilha. Os

aeroportos registaram atrasos por causa

de um temporal. Os governadores de Nova

Iorque, Connecticut e New Jersey convocaram

uma conferência de imprensa

conjunta na estação ferroviária de Grand

Central e posaram diante de um contigente

da Guarda Nacional que foi trazido para

aumentar a visibilidade da Operação

Atlas de prevenção ao terrorismo. Vendedores

de bilhetes de metro, uma espécie

lIMAGEM RARA, NO ROCKFELLER CENTER

Não muito longe dali, na Broadway, havia quem preferisse ter os televisores sintonizados no surf...

em extinção por causa dos cartões magnéticos,

passaram a dispor de máscaras de

gás nos seus cubículos envidraçados.

As escolas mantiveram horários de rotina

e alguns professores queixaram-se da

falta de planos de emergência. Numa

grande loja de equipamentos electrónicos

da Broadway, as televisões não estavam

sintonizadas nas notícias. Os monitores

de alta definição exibiam cenas de surf.

«Deus ama-te.» A frase, disparada contra

a repórter pelo pregador na carruagem

de metro, tinha um tom de audácia. Deus

costuma ser invocado sem parcimónia

pelos pedintes, mas em pleno Alerta Laranja

o tipo que impingia folhetos em nome

de Jesus Cristo estava a cometer uma

gaffe contra a etiqueta antiterror.

Na estação de Times Square, um polícia

relaxado dizia que nada mudou depois

do disparo do primeiro míssil de cruzeiro.

«O nosso patrulhamento já foi intensificado

há mais de um mês», comentou.

Lá em cima, o contigente policial

agressivo e o protesto pacifista eram o

único sinal de que a guerra havia começado.

No passeio em frente do auditório da

MTV, adolescentes esperavam ansiosas o

início do show ao vivo. Um quarteirão

abaixo, turistas acotovelavam-se para

comprar bilhetes de teatro com desconto.

Mais a sul, Wall Street exibia o seu lado

maníaco-depressivo. A bolsa caiu 135

pontos de manhã, por conta de uma frase

do discurso de Bush: «A campanha pode

ser mais longa do que alguns previram.»

E fechou com um ganho de 21 pontos,

depois de os corretores colados aos ecrãs

de TV terem concluído que a vitória será

rápida e indolor.

Ao saltar da última viagem de metro do

dia, fui saudada pelo cantor habitual da

estação da Rua 79. «Smile», entoou, começando

os versos da canção popular.

O chapéu no chão à sua frenta continha

alguns trocos. O seu sorriso lembrava os

adjectivos usados por inúmeros jornalistas

remanescentes em Bagdad. Ao descreverem

o silêncio que precedeu os mísseis,

eles repetiam: estranho e assustador. ■

VISÃO 21 de Março de 2003 95

AP/TINA FINEBERG


GUERRA DO GOLFO II Depoimentos

REACÇÕES

O que eles disseram

O conflito visto por algumas personalidades

D. JOSÉ POLICARPO

CARDEAL-PATRIARCA

DE LISBOA

Igrejas são só para orar

(...) «Neste momento, a atitude

da Igreja só pode ser a

da oração mais intensa, pedindo

a Deus que inspire os

decisores a reporem, o mais rapidamente

possível, a paz; na nossa oração, terão um lugar

muito particular as vítimas desta guerra,

na população civil. Peço às comunidades cristãs

que intensifiquem a oração pela paz e aos

párocos que zelem para que as igrejas sejam

apenas espaço para expressão da nossa oração

e da nossa esperança, sob a sua responsabilidade

pastoral.»

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES

ROMANO PRODI

PRESIDENTE

DA COMISSÃO EUROPEIA

Mau momento

para a PESC

(...) «Hoje [20.03] resta-nos

desejar que a guerra seja

curta, que haja o menor número

de vítimas possível e que a região não

seja demasiado afectada. (...) A integridade

territorial do Iraque deve ser respeitada. A

Comissão está disposta a prestar ajuda humanitária,

de forma rápida e eficaz, sob auspícios

internacionais, onde ela for mais necessária.

As Nações Unidas tiveram um papel

crucial e continuarão a tê-lo no futuro. (...) Há

que reconhecer que este é um mau momento

para a Política Externa e de Segurança Comum,

para a União Europeia em geral, para a

autoridade das Nações Unidas, para a NATO

e para as relações transatlânticas.»

AP/YVES LOGGHE

PAULO PORTAS

MINISTRO DA DEFESA

E PRESIDENTE DO CDS-PP

Forças Armadas

preparadas

«A decisão de estar com os

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES

aliados decorre de uma

orientação política de um

Governo que preza a relação transatlântica e

que ainda no ano passado publicou um Con-

ceito Estratégico de Defesa Nacional em que

as armas de destruição maciça e o terrorismo

são considerados ameaças globais a sociedades

como a nossa. A não participação militar

no teatro das operações decorre da orientação

expressa pelo Governo, no sentido de que

graduaria a nossa participação em função da

existência ou não de uma nova resolução expressamente

habilitante do uso da força. Ou

seja, não decorre de qualquer menor vontade,

menor preparação ou menor capacidade das

Forças Armadas Portuguesas, que as têm, já

provaram e são capazes de cumprir as missões

que o poder político lhes atribui.»

FERRO RODRIGUES

LÍDER DO PARTIDO

SOCIALISTA

Lamento atitude

do Governo

«Hoje [dia 20 de Março] é

um dia de luto para a União

Europeia, para as Nações

Unidas e para a Humanidade. A extrema violência

ilegítima começou a fazer-se sentir no

Iraque, à margem do Direito Internacional e

contra o Conselho de Segurança. Lamento

profundamente a atitude do Governo português

(…). Lamento ainda profundamente

que os EUA estejam na primeira linha da

violação do Direito Internacional e do fortalecimento

da base social do terrorismo internacional

que importa combater e não estimular.»

LUÍS BARRA

CARLOS CARVALHAS

LÍDER DO PARTIDO

COMUNISTA

PORTUGUÊS

Força contra o direito

«O início da guerra no Iraque

representa uma derrota

moral e ética para os EUA e

para Durão Barroso. A força impôs-se ao direito

(…). É uma guerra inglória, imoral e evitável

e que devia envergonhar aqueles que,

nos Açores, colocaram a nossa bandeira nos

preparativos de uma guerra junto dos falcões

que sempre a desejaram (…). Estamos certos

de que os portugueses não aceitam ficar associados

a esta guerra e à carnificina.»

BRUNO RASCÃO

VERA JARDIM

EX-MINISTRO

DA JUSTIÇA DO PS

Guerra é uma

precipitação

«Como afirmou o Presidente

da República, a guerra é

sempre uma tragédia (…).

O primeiro-ministro deu o seu apoio a uma

guerra lançada de forma unilateral e à margem

das Nações Unidas. As soluções diplomáticas

para desarmar o Iraque por meios

pacíficos não foram esgotadas. O PS sempre

entendeu que o regime iraquiano é um

perigo para a paz mundial, mas considera

esta guerra uma precipitação.»

GUILHERME SILVA

LÍDER DA BANCADA

DO PSD

Poupar os civis

«Esperamos e desejamos

que possa ser poupada a

vida de inocentes e que este

conflito termine com o

menor sofrimento possível para todas as

partes. Saddam Hussein pôde evitar a

guerra. Não quis evitar a guerra. Cabe agora

aos Estados Unidos, e aos seus aliados

na acção militar, tudo fazerem para que as

populações civis, as pessoas inocentes, o

povo do Iraque, já tão martirizado pela ditadura,

não seja atingido. O objectivo é desarmar

o Iraque, o que, como os factos demonstram,

impõe o derrube do ditador de

Bagdad.»

PAULO PEDROSO

PORTA-VOZ DO PS

Executivo quebrou

consenso

«O Governo atrelou o País

a uma guerra ilegítima que

visa impor o domínio americano

naquela parte do

mundo. A guerra foi precipitada. Ainda havia

condições para negociar a paz (…). Foi

o Executivo que quebrou o consenso e a

unidade ao apoiar incondicionalmente os

EUA.»

96 VISÃO 21 de Março de 2003

INÁCIO LUDGERO

LUIS BARRA

LUIS BARRA


www.visaoonline.pt

GUERRA DO GOLFO II

OPINIÃO DOS LEITORES

Uma maioria contra a maioria

Os comentários e as mensagens que chegaram à VISAOONLINE

e à nossa redacção dão conta da larga insatisfação com a ofensiva lançada contra

o Iraque e o apoio do Governo português

Como é possível [George W. Bush] dizer

que vai iniciar a guerra e ao mesmo tempo

que vai lançar alimentos e medicamentos?

Ambos têm escasseado durante 11 anos e

agora é que os vão mandar. Juntamente com

as bombas? Lamento profundamente que o

meu país se tenha aliado a tão miserável

guerra, de contornos que nada têm a ver

com terrorismo, mas sim com interesses puramente

económicos. Em meu nome não.

ISABEL SANTOS

A segurança e a organização mundial, já

de si algo frágeis, recebem um golpe que será

provavelmente demasiado forte. O quero,

posso e mando estará legitimado no futuro.

Desejava que o mal menor de não ver

o nosso nome envolvido nesta brutalidade

pudesse ser uma realidade. Somos pequenos

mas temos consciência.

FRED ROCHA

Recuso aceitar ter como meu defensor,

do meu país e da Europa, o Presidente dos

EUA, George Bush. Recuso acreditar que

Bush e a sua administração ataquem o iraque

por razões humanitárias, para libertar o

povo iraquiano de um ditador. E Sharon?E

Eduardo dos Santos? E Mugabe? Recuso o

conceito de guerra preventiva. Preventiva é

a conversação e o diálogo.

JOSÉ ANTÓNIO SANTOS

O século do povo começa agora. É preciso

demonstrar aos governantes que o exército

da paz está atento. A posição do Governo

português envergonha. É preciso sair, protestar

e lutar pacificamente pela plaz. Caramba!

Será que o Papa é terrorista?

MARTA MARTINEZ

Quando vejo nos artigos de primeira página

o nosso primeiro-ministro ao lado dos primeiros-ministros

de Espanha e Inglaterra e

com o Presidente dos Estados Unidos da

América, resta-me apenas dizer: que pequeno

que é o nosso cherne no meio dos tubarões!

NUNO GUSTAVO

A França e a Alemanha pretendem fazer

um directório para governar a União Europeia.

Que me lembre, não vi ninguém comentar

o perigo de os dois maiores países

da Europa pretenderem ter um ascendente

sobre os restantes, quebrando, eles sim, a

unidade da Europa, que se baseia na igualdade

das nações. Esse é um perigo real para

a Europa e, por isso, renovo o meu apoio

à posição do Governo português que foi

hábil e corajoso.

GABRIEL MOREIRA

Não vale a pena declarar-me contra

uma guerra que, contra tudo e contra todos,

teima em avançar. Não existem regras?

Em termos caseiros, para que votei

eu em Sampaio? Na minha empresa, se

desobedecesse ao meu patrão, seria posto

no olho da rua. Afinal de contas, foi o que

fez Durão Barroso em relação a Sampaio.

Por que carga de água não é este último

despedido?

MANUEL ARAÚJO BALHAU

Hoje [19 de Março] é Dia do Pai. No Iraque

é dia da mãe de todas as guerras. (...)

Aqui, em Portugal, lá, no Iraque, as crianças

têm pai. Umas vão continuar a poder tê-lo,

outras vão para sempre perdê-lo. Para milhões

de crianças, haverá menos pais e haverá

muita guerra. Cairão bombas que esmagarão

flores que nascem. Morrerão

crianças que nunca chegaram a nascer. Hoje

é Dia do Pai. Hoje é dia da guerra. Onde

está Deus? Onde está o Pai?

JOSÉ BRANDÃO

Sr. Durão Barroso, como se sentirá quando

milhares de inocentes morrerem? Como

se sentirá se eventualmente acontecerem

atentados na Europa? A responsabilidade

será de Saddam, não é? Oxalá que

não caia nenhum dos nossos filhos, pois, se

isso vier a acontecer, também cá poderão

nascer alguns terroristas.

JOÃO MATEUS

Será que Bush prometeu [a Durão Barroso]

substituir os fundos estruturais que a

comunidade europeia não lhe dará, castigando-o

pela sua atitude separatista dentro

da UE? Cá estaremos para ver. Se estivermos.

ANTÓNIO MELO

Claro que é mais fácil e cómodo ficar

na indiferença ou então tomar partido pelo

lado francês. Todas as evoluções conquistadas

na posição do sr. Hussein foram

conseguidas não à custa da benevolência

da comunidade internacional mas sim à

custa da força e da ameaça. Esta é a única

linguagem que este senhor entende e

respeita.

JOSÉ HENRIQUES

É certo e sabido que os EUA têm necessidade

de ter as suas guerras para satisfazer

a sua indústria belicista. Também é certo

que o que está em causa nesta lamentável

situação é o petróleo, não o desarmamento

do tirano Saddam. É lamentável que quem

não partilha deste ideário seja considerado

de esquerda. Freitas do Amaral, prémios

Nobel da Paz são o quê?

ÁLVARO MATOS

Gostaria francamente de ver uma só medida

não bélica que pudesse resolver a situação.

Parece-me curto falar em via pacífica

e diplomática sem explicitar qual a receita

para forçar Saddam a colaborar. Talvez

houvesse uma solução se deixasse de haver

tanto fanatismo contra democracias tolerantes

e tanta tolerância com regimes fanáticos.

FERNANDO COSTA

O Governo de Durão Barroso pode ser

co-responsabilizado pelo genocídio de

um povo já tão martirizado pela sanguinária

dinastia Hussein. Que Deus lhe

perdoe.

A. FERREIRA DIAS

VISÃO 21 de Março de 2003 97


GUERRA DO GOLFO II

Era esperada mas, apesar disso, entre essa espera e o actual

acto do começo da guerra vai uma distância semelhante

à que sentimos quando alguém que amamos está

com uma doença que sabemos fatal e o momento irreversível

da sua morte.

Não há dúvida, sobretudo para quem seguiu a evolução do

Iraque nos últimos 30 anos, que Saddam Hussein foi um ditador

implacável e sanguinário, não tendo quaisquer limites à sua

violência.

Mas as ditaduras não se destroem de fora para dentro. A libertação

de um povo é feita pelas suas próprias mãos. Nós, portugueses,

sabemos que essa possibilidade de decidirmos o nosso

próprio destino é o cerne do processo de libertação. A tentativa

de estabelecer uma equivalência com o processo de Timor-

-Leste não colhe porque Timor estava nas mãos de uma potência

estrangeira. Exit o argumento de que outros países vão libertar

o Iraque.

A mudança de regime num país é um longo

processo que não pode deixar de assentar

na cultura e nas tradições de um povo. Todos

os que aplicaram «manuais» à feitura da democracia

acabaram por ver uma manobra de

«ricochete» em que voltaram à cena, ainda

que disfarçados, alguns dos velhos hábitos do

regime anterior.

Na Rússia, aos privilégios da «nomenklatura»

vieram a suceder as várias máfias que atiram cerca de 60%

da população para a pobreza. No Koweit que na I Guerra do

Golfo ia tornar-se «democrático», as mulheres não têm direito

de voto! Exit o argumento de que a guerra vai mudar o regime

do Iraque.

Uma guerra como a que acaba de começar não tem qualquer

justificação. É certo que, aparentemente, tudo partiu do trágico

dia 11/9. E nos últimos dias o presidente Bush voltou a invocar

essa data. A meus olhos, prostituiu-a, transformando esse memento

de dor e perda do povo americano num «trunfo» do seu

póquer político. Atitude inadmissível num líder político. Hoje

dos verdadeiros líderes políticos esperam todos os que se dedicam

às ciências políticas «competência, compaixão e cuidado».

A vingança pertence aos piores instintos e não tem lugar entre

povos civilizados.

Não chega, porém, o apelo aos valores éticos contemporâneos

para tornar esta guerra imoral. Ela é-o também por violar

a legalidade das relações internacionais tais como, desde há 50

anos, os povos livres de então a definiram e institucionalizaram

na Organização das Nações Unidas.

Todos os que no mundo reconhecemos os progressos científicos

e tecnológicos da era da globalização, reconhecemos, ao

mesmo tempo, a desordem internacional a que tem dado ori-

MARIA DE LOURDES PINTASILGO

A guerra ilegal e a libertação dos povos

❝Bush prostituiu

o 11 de Setembro,

transformando-o

num ‘trunfo’

do seu póquer

político ❞

gem. Por isso, pensamos e tentamos imaginar instituições reguladoras

que garantam o acesso de todos os homens e mulheres

aos possíveis benefícios da globalização. Ora a ONU e, em particular,

o seu Conselho de Segurança, é a única instituição reguladora

dos conflitos entre Estados. A sua legalidade tem de ser

defendida face à guerra de agressão que os Estados Unidos, o

Reino Unido e a Espanha unilateralmente decidiram. Este trabalho

deve começar já.

E a primeira reivindicação é a da «soberania» da ONU em

relação ao Iraque, imediatamente após o fim da guerra. Nem

por uma hora é aceitável a «soberania» dos EUA sobre o Iraque.

Os impérios coloniais, mesmo breves, terminaram. Já temos

que lidar a plano mundial com a sua hegemonia em

áreas em que está em jogo a sobrevivência das pessoas e do

próprio planeta. Que, ao menos, a hegemonia territorial seja

contida!

O tempo para pensar o futuro – conceitos

e instituições – é o trabalho urgente para

quem sente que esta guerra lhe diz respeito.

E a quem?

A todos os que, em todos os países, têm

mostrado a sua repulsa pela guerra, especialmente

com as características de ilegitimidade

de que esta vem ferida. A sua palavra, os seus

gestos, não podem ser filtrados pelas censuras

mais ou menos claras de que padecem

quem as quer fazer ignorar. Os povos podem exprimir-se como

entenderem desde que o façam, em cada situação, dentro dos limites

legais. E os poderes políticos – os que não são ditaduras,

claro! – têm o dever de os ouvir e de tomar em linha de conta

o que exprimem.

Reconheço na última declaração do Presidente da República

o desejo de interpretar o sentir da maioria dos portugueses –

mais de 60%. Porque essa declaração não foi, em alguns órgãos

de imprensa devidamente interpretada. Dela foram publicados

excertos como se de um artigo de qualquer de nós se tratasse.

Ora o que o PR declarou à Nação, tendo como princípios orientadores

os que constam do art. 7.º da Constituição, foi a aplicação

dos seus actos próprios tais como formulados na referida

Constituição: «exercer as funções de Comandante Supremo das

Forças Armadas»; «declarar a guerra (...) e fazer a paz».

Foi nesse contexto que declarou: «Tendo em conta a inexistência

de um mandato expresso das Nações Unidas, as Forças

Armadas Portuguesas não participarão neste conflito, não colaborarão

nele, nem Portugal fará parte da coligação militar

que se criar.»

É óbvio que uma tal declaração vale como lei, melhor, retira

qualquer legitimidade a todos os órgãos do Estado que tivessem

a veleidade de agir contrariamente à sua letra e ao seu

espírito.

98 VISÃO 21 de Março de 2003

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