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harvard business review

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OGO<br />

URO<br />

36 <strong>harvard</strong> <strong>business</strong> <strong>review</strong>


cincO<br />

estRatéGias letais<br />

paRa tRUciDaR<br />

a George stalk, Jr. e Rob lachenauer<br />

cOncORRência<br />

abril 2004<br />

U<br />

m venceDOR nO mUnDO DOs neGóciOs<br />

JOGa DURO e nãO se DescUlpa pOR issO.<br />

A Toyota atacou as três maiores montadoras americanas bem onde a defesa<br />

delas é mais fraca. Com isso, passou de carros compactos para veículos médios<br />

e grandes e, por fim, para o último modelo rentável de Detroit: utilitários<br />

esportivos. Nesse embate, desafiou as rivais a imitar um sistema de produção<br />

que garante a ela, a Toyota, produtividade e qualidade inigualáveis.<br />

A Dell também é incansável, e implacável, ao<br />

lidar com a concorrência. Em meados de 2003,<br />

no dia seguinte ao anúncio de fracos resultados<br />

pela Hewlett-Packard devido à guerra de preços<br />

no mercado de computadores, a Dell cortou<br />

ainda mais os preços, num golpe ágil e certeiro<br />

num duro adversário já abatido.<br />

A Wal-Mart é notória pela atitude intransigente<br />

com fornecedores. Em 1996, a Rubbermaid,<br />

empresa com faturamento de US$ 2 bilhões<br />

que anos antes fora a mais admirada no<br />

ranking da Fortune, rebelou-se contra a pressão<br />

da Wal-Mart para que os fornecedores baixassem<br />

os preços. Resultado? A Wal-Mart simplesmente<br />

baniu a Rubbermaid (comprada em 1999<br />

pela Newell em meio a dificuldades). A Wal-Mart<br />

também não deixa barato com a concorrência.<br />

Anos atrás, com a Kmart mergulhada numa concordata,<br />

lançou uma cópia da linha de produtos<br />

da empresária Martha Stewart — vendida pela<br />

Kmart —, pressionando assim uma das poucas<br />

áreas de sucesso da combalida adversária.<br />

37


Jogo duro: cinco estratégias letais para trucidar a concorrência<br />

Pouquíssima gente negaria que nomes como Toyota,<br />

Dell e Wal-Mart simbolizam o sucesso empresarial na última<br />

década. Mas as ressalvas que provocam — capas recentes<br />

na BusinessWeek traziam títulos como “É possível<br />

parar a Toyota?”, “A Wal-Mart é poderosa demais?” e “O<br />

que você não sabe sobre a Dell” — sugerem que nem tudo<br />

é pureza em sua escalada para o sucesso.<br />

É que a Toyota, a Dell e a Wal-Mart jogam duro. O que<br />

queremos dizer com isso? Quem joga duro busca única e<br />

exclusivamente a vantagem competitiva e os benefícios<br />

que ela traz: maior fatia de mercado do que a concorrência,<br />

grandes margens, rápido crescimento e todo o valor<br />

intangível de estar no comando. São empresas que dão as<br />

cartas, vão em busca de confrontos com a concorrência,<br />

marcam o ritmo da inovação, testam as fronteiras do possível.<br />

Jogam para ganhar — e ganham.<br />

Já quem joga com mais comedimento pode fazer boa<br />

figura — pode registrar lucros decentes e até receber menções<br />

favoráveis na imprensa especializada —, mas não<br />

tem aquela determinação intensa de ganhar o jogo. Não<br />

aceita que às vezes é preciso ferir os rivais, e correr o risco<br />

de sair ferido, para conseguir o que se quer. Em vez de<br />

correr — com rapidez e inteligência —, parece parado,<br />

só observando. Joga por jogar. Pode não sair totalmente<br />

derrotado, mas com certeza não vence o jogo.<br />

Talvez seja um reflexo das tendências recentes da ciência<br />

da administração, que agora também amoleceu o<br />

discurso. Com efeito, a retórica em torno de uma constelação<br />

de questões menos tangíveis — liderança, cultura<br />

corporativa, cuidados com o cliente, gestão do conhecimento,<br />

gestão de talentos, empowerment e afins — é que<br />

estimulou o surgimento do jogador sensível.<br />

Vejamos o título de um punhado de livros de negócios<br />

recentes: Quem Mexeu no Meu Queijo? (ora, você é um<br />

homem ou um rato?); Fish! A Remarkable Way to Boost<br />

Morale and Improve Results; Servant Leader. Hug Your Customers.<br />

Obras de temática sensível responderam provavelmente<br />

por quatro de cada cinco títulos na lista de bestsellers<br />

americana dos últimos dez anos — e mais ainda<br />

nos últimos cinco anos. Não é uma tendência boa para<br />

o pessoal de sua empresa que lê esse tipo de coisa ou é<br />

despachado para ouvir palestras dos autores.<br />

Digamos que a expressão jogo duro seja difícil de engolir<br />

para alguns. No mundo dos negócios, lembra um<br />

industrialismo troglodita — como o de Andrew Carnegie<br />

despachando milícias e embarcações armadas para combater<br />

sindicatos em cidades operárias. Lembra a era dos<br />

magnatas. Soa como o jogo jogado pelo antigo presidente<br />

da Sunbeam, Al Dunlap, que respondia pelo apelido<br />

“Chainsaw” (moto-serra), batizou as memórias de Mean<br />

Business (“negócio mesquinho”) e foi proibido pela comissão<br />

de valores americana de voltar a ocupar qualquer<br />

posto executivo numa empresa de capital aberto.<br />

Mas jogar duro não significa ir além do que a lei permite.<br />

Enron e WorldCom podem ter dado a impressão de<br />

que jogavam duro, mas na verdade usavam uma tática<br />

clássica do jogo mais brando: manipular (legal ou ilegalmente)<br />

os resultados para sair melhor na foto. Quem joga<br />

um jogo duro não trapaceia.<br />

Mas pode incomodar. Afinal, jogar duro num esporte<br />

como o beisebol significa ameaçar um rebatedor agressivo<br />

arremessando a bola a 160 quilômetros por hora muito<br />

perto do corpo dele. No boxe, significa lutar sem luvas,<br />

como um John L. Sullivan. No basquete, é fazer uma finta<br />

desconcertante que deixe o adversário estatelado no chão<br />

de uma quadra coberta de cacos de vidro.<br />

O jogo duro não é só intenso. É eficiente. Limpa o mercado.<br />

Torna a empresa forte e vibrante. Gera produtos e<br />

serviços de custo mais acessível e clientes mais satisfeitos.<br />

Faz a concorrência suar. Um rival menos preparado vai<br />

chiar, vai dizer que quem joga duro pega pesado demais,<br />

que sua vantagem não é justa, que prejudica a concorrência.<br />

Pode até exigir restrições comerciais. Pode levar sua<br />

queixa à imprensa — ou à Justiça. Pode fazer cena e posar<br />

de ofendido. Enquanto isso, bilhões de dólares de seus<br />

acionistas estarão escorrendo sem parar pelo ralo.<br />

Quem joga duro é imune a essas coisas. Para tal tipo de<br />

jogador, tudo isso não passa de choradeira.<br />

manifestO<br />

DO JOGO DURO<br />

A nosso ver, chegou a hora de reequilibrar esses dois tipos<br />

de jogo. Jogadores comedidos que sobreviveram até aqui<br />

— a maioria das companhias aéreas, a indústria automobilística<br />

nos Estados Unidos, a indústria fonográfica, para<br />

dar alguns exemplos — estão em sérios apuros. A turma<br />

do jogo duro vem tomando seu lugar a um ritmo inusitado.<br />

O entra-e-sai de empresas do ranking Fortune 100<br />

nunca foi tão rápido. Nesse mundo mais veloz e mais implacável,<br />

jogar duro não é uma opção: é um requisito imprescindível<br />

para vencer.<br />

Pronto para reaprender as regras básicas para ganhar e<br />

perder? Comece com o Manifesto do Jogo Duro, que traz as<br />

linhas mestras para quem quer se tornar um bom jogador.<br />

Busque incessantemente a vantagem competitiva. O<br />

mundo dos negócios está cheio de ruínas de empresas cuja<br />

vantagem competitiva, outrora robusta, simplesmente<br />

George Stalk, Jr., (stalk.george@bcg.com) é vice-presidente<br />

sênior do Boston Consulting Group e autor de inúmeros livros<br />

e artigos, incluindo “Time — The Next Source of Competitive<br />

Advantage” (HBR July–August 1988), vencedor do McKinsey<br />

Award. Rob Lachenauer (lachenauer.rob@bcg.com) é<br />

vice-presidente do Boston Consulting Group. Os autores, que<br />

estão finalizando um livro sobre estratégias de jogo duro, já<br />

deram consultoria a diversas empresas citadas no artigo.<br />

38 <strong>harvard</strong> <strong>business</strong> <strong>review</strong>


evaporou. Já quem joga duro está sempre lutando para<br />

aumentar a distância entre seu desempenho e o da<br />

concorrência. São empresas que não se saciam com a<br />

vantagem competitiva de hoje. Querem a de amanhã.<br />

Muito se fala sobre a vantagem competitiva, mas<br />

poucas empresas sabem definir exatamente qual a<br />

vantagem que possuem, e muito menos quantificá-la.<br />

Já quem joga um jogo duro sabe, empiricamente, qual<br />

a sua vantagem, e a explora de forma impiedosa.<br />

Uma empresa que busca incessantemente a vantagem<br />

competitiva é algo de admirar. A Wal-Mart é,<br />

acima de tudo, uma empresa de logística. Nos anos<br />

1970, firmou sua vantagem no varejo popular com<br />

uma rede de armazéns operando no sistema cross-docking.<br />

Mercadorias oriundas de fornecedores só eram<br />

aceitas em cargas que enchessem todo um caminhão.<br />

Cruzado o pátio de desembarque, eram embarcadas<br />

nos caminhões da Wal-Mart, que partiam para as lojas<br />

sem nenhum espaço de carga ocioso.<br />

Mas a Wal-Mart não se contentou com essa drástica<br />

redução nos custos de transporte. Adotou a filosofia do<br />

preço baixo para estabilizar a demanda e reduzir mais<br />

os custos. Instalou supercomputadores para monitorar<br />

e analisar as compras do público, os preços da concorrência<br />

e outras informações. Os dados eram enviados<br />

via satélite das lojas para fornecedores e para depósitos,<br />

ajudando a manter os caminhões sempre cheios e<br />

as prateleiras abastecidas. Fornecedores tinham hora<br />

certa para entregar a carga nos depósitos; se perdessem<br />

a vaga, a carga podia ser devolvida até que surgisse<br />

outra — ou recusada. A Wal-Mart também usou dados<br />

de vendas e estoque para avisar a empresas como a Rubbermaid<br />

que produtos iria comprar — seja qual fosse a<br />

opinião delas sobre o merchandising de sua linha.<br />

A Wal-Mart continua a burilar o sistema, que ainda não<br />

dá sinais de desgaste. Com seu esforço intenso e incessante<br />

para aumentar a eficiência, espera-se que o custo de fornecedores<br />

e os preços para o público declinem sem cessar.<br />

Busque a vantagem competitiva “extrema”. Para quem<br />

joga duro, há algo muito mais importante do que a vantagem<br />

competitiva. É a vantagem competitiva extrema, algo<br />

que determina o desfecho da história. Diferentemente<br />

da vantagem simples, que pode ser efêmera, a vantagem<br />

extrema coloca sua empresa além do alcance das adversárias,<br />

que provavelmente vão acusar de injusta essa vantagem<br />

— não porque seja, mas porque por mais que tentem,<br />

não conseguem equipará-la. Muitas vezes, quem joga o<br />

jogo duro tem um sistema econômico invencível ou uma<br />

relação especial com um cliente, ou fornecedor, fora do<br />

alcance da concorrência. Ou, ainda, competências como a<br />

rapidez no desenvolvimento de produtos ou um conhecimento<br />

superior da clientela que é impossível imitar.<br />

O sistema de produção da Toyota, por exemplo, é tão<br />

melhor que o de qualquer montadora que a empresa faz<br />

propaganda dele. Ele permite à Toyota produzir, em volu-<br />

abril 2004<br />

JOGO DURO<br />

O<br />

manifestO<br />

Reaprenda os comportamentos fundamentais<br />

para vencer:<br />

• concentre-se incessantemente na vantagem<br />

competitiva<br />

• Busque a vantagem competitiva “extrema”<br />

• evite atacar diretamente<br />

• explore a vontade de vencer das pessoas<br />

• conheça a zona de cautela<br />

as<br />

estRatéGias<br />

aplique os golpes em surtos de intensidade<br />

implacável:<br />

• arrase os santuários de lucro da concorrência<br />

• plagie com orgulho<br />

• engane a concorrência<br />

• Desfira um ataque maciço e arrasador<br />

• eleve os custos da concorrência<br />

mes tanto altos como baixos, uma grande variedade de<br />

veículos de alta qualidade a custos muito reduzidos. A<br />

Toyota tem tanta confiança de que seu sistema não pode<br />

ser imitado que convida os concorrentes a visitarem suas<br />

fábricas. Seus executivos já disseram: “Podem nos estudar<br />

o quanto quiserem”. Depois de décadas de tentativas, nenhum<br />

rival igualou o sistema Toyota. Ela continua ampliando<br />

as fronteiras dessa sua vantagem com um novo<br />

tipo de linha de montagem flexível. Chamada Global<br />

Body Line, custa 50% menos para ser instalada e pode ser<br />

modificada para adaptar-se a um novo modelo por uma<br />

cifra 70% inferior à do sistema anterior.<br />

O retorno da Toyota foi espetacular. Sua fatia global<br />

do mercado subiu de 5% em 1980 para mais de 10% hoje,<br />

com cada ponto valendo cerca de US$ 10 bilhões em faturamento.<br />

A Toyota, que há pouco desbancou a Ford do<br />

posto de segunda maior montadora do mundo (em termos<br />

de volume), diz que sua meta de participação no mercado<br />

global é de 15% até 2010. Alguém duvida?<br />

Evite atacar diretamente. Pode ser um paradoxo, mas<br />

quem joga duro evita o confronto direto. É sinal de in-<br />

39


Jogo duro: cinco estratégias letais para trucidar a concorrência<br />

Um rival menos preparado vai fazer cena e<br />

posar de ofendido. para quem joga duro,<br />

issO nãO passa De<br />

chORaDeiRa.<br />

teligência. A história mostra que para uma força militar<br />

ter razoável certeza de sucesso num ataque direto, seu<br />

poderio deve ser várias vezes maior que o do adversário.<br />

Não é uma perspectiva que agrada o jogador que pega<br />

pesado. Ainda que tenha poder de fogo, ele prefere a força<br />

econômica inerente a um ataque indireto.<br />

O sucesso da Southwest Airlines com sua incomum estratégia<br />

de rotas é um caso clássico de ataque indireto.<br />

Companhias aéreas tradicionais concentram sua força<br />

competitiva em grandes eixos aeroportuários. A United<br />

Airlines, por exemplo, tem quase mil vôos chegando e<br />

saindo do aeroporto de O’Hare, em Chicago, todo dia. A<br />

Southwest decidiu não atacar as grandes empresas nesse<br />

campo já bem defendido. Preferiu fixar-se em aeroportos<br />

pequenos, mais distantes. Passou ao largo de Boston, por<br />

exemplo, ao oferecer vôos a partir de Manchester, em New<br />

Hampshire, e Providence, em Rhode Island. Em vez de<br />

tentar obter vagas no O’Hare ou no LaGuardia, de Nova<br />

York, foi se instalar no Midway, de Chicago, e em Islip, em<br />

Long Island. É claro que não houve batalhas sangrentas<br />

contra as grandes do setor pelo controle desses locais.<br />

Com a Southwest estabelecida nos aeroportos menores,<br />

as grandes enfrentavam um dilema: como reagir ao<br />

sucesso da rival em aeroportos pequenos sem perder sua<br />

cadeira cativa em aeroportos maiores? Seria sensato competir<br />

diretamente nos aeroportos pequenos, nos quais a<br />

Southwest já havia obtido uma vantagem competitiva?<br />

Ou seria melhor criar linhas próprias para concorrer, fora<br />

dos grandes centros? Seja qual fosse o caso, as grandes<br />

estariam jogando o jogo da Southwest. E, na verdade, até<br />

agora nenhuma grande empresa aérea conseguiu solucionar<br />

esse dilema. Inúmeras tentativas de enfrentar a Southwest<br />

diretamente já fracassaram — entre elas a da Continental<br />

Lite. Enquanto isso, a Southwest continua a avançar<br />

em cidades pequenas. Seu notório sucesso após a tragédia<br />

de 11 de setembro de 2001, quando muitas rivais entraram<br />

em colapso, só confirma a astúcia de sua estratégia.<br />

Explore a vontade de vencer das pessoas. Além de<br />

inteligência, jogar duro exige coragem. Em geral a vitória<br />

é de quem a deseja mais. Apesar da fachada pública de<br />

“não-estou-nem-aí” que exibe, o fundador da Southwest,<br />

Herb Kelleher, joga duro, e a Southwest é uma empresa<br />

que joga duro. Que ninguém se iluda ao ver sua imagem<br />

“sensível” na mídia ou seu símbolo na bolsa, LUV (que<br />

soa como “love”). É verdade que num meloso vídeo de<br />

treinamento, um personagem diz aos funcionários: “[Ter]<br />

espírito é envolver nossa mente, nosso coração e nossa<br />

alma para fazer a coisa certa. O espírito da Southwest é<br />

você”. Mas, num anúncio dirigido ao mundo inteiro —<br />

inclusive aos funcionários —, a Southwest certa vez alardeou:<br />

“Viemos. Vimos. E arrasamos.”<br />

É um grande mantra para o jogador agressivo. Para<br />

obter a vantagem competitiva e buscar a vantagem competitiva<br />

extrema, quem joga duro tem de ser voltado à<br />

ação e estar sempre impaciente com a situação atual. Felizmente,<br />

é possível cultivar o desejo de vencer e transformar<br />

um jogador comedido num jogador que joga duro.<br />

Para tanto, uma saída é adotar estratégias do gênero<br />

descrito abaixo. Isso em si já ajuda a liberar o natural<br />

desejo de vencer das pessoas. Mas, para realmente transformar<br />

um jogador comedido num jogador agressivo, é<br />

preciso criar e manter nas pessoas a atitude do jogo duro.<br />

E isso fica mais difícil à medida que aumenta sua vantagem<br />

sobre a concorrência e seu pessoal se acomoda.<br />

Como disse Kelleher numa carta a todos os funcionários<br />

no início dos anos 1990: “A ameaça número 1 somos nós<br />

mesmos. Não podemos deixar que o sucesso gere acomodação,<br />

arrogância, cobiça, preguiça, indiferença, preocupação<br />

com o que não seja essencial, burocracia, hierarquia,<br />

brigas internas ou cegueira diante das ameaças<br />

apresentadas pelo mundo exterior”.<br />

40 <strong>harvard</strong> <strong>business</strong> <strong>review</strong><br />

michael miller


Para evitar essa acomodação, é preciso cultivar um sentido<br />

de urgência. Certa vez, em resposta ao lançamento<br />

de vôos rivais da United em várias cidades da Califórnia<br />

servidas pela Southwest, Kelleher despachou uma carta<br />

aos funcionários com o título “Início das hostilidades”.<br />

Ao observar que a United tinha mais de 100 aviões que<br />

poderiam ser “lançados contra nós” nas rotas disputadas,<br />

ele advertia: “A cotação de nossas ações, nossos salários,<br />

nossos benefícios, a segurança do nosso emprego, nossas<br />

oportunidades de expansão (...) tudo isso está em jogo”.<br />

Em várias cidades onde a competição era mais feroz, o<br />

pessoal da Southwest vinha trabalhar com uniforme de<br />

guerra — de capacete, até.<br />

Conheça a zona de cautela. Jogar duro inclui explorar<br />

os limites, sondar a estreita faixa — tão rica em possibilidades<br />

— entre zonas nas quais a sociedade diz claramente<br />

que se pode jogar o jogo dos negócios e zonas claramente<br />

proibidas. O jogador que joga duro se aventura perto da<br />

fronteira, seja fixada por leis, seja por convenções sociais,<br />

e avança mais do que qualquer adversário ousaria.<br />

Para explorar os limites, porém, é preciso saber onde<br />

eles estão. Esse talvez seja o aspecto mais complexo e intimidador<br />

do jogo duro. Logo, quem joga duro faz a lição<br />

de casa. Esse jogador conhece seu setor como a palma da<br />

mão. Tem assessores jurídicos e contábeis para ajudá-lo a<br />

decidir o que pode ou não pode fazer. Mas as respostas<br />

muitas vezes não são nada claras.<br />

Antes de agir, um punhado de diretrizes pode ajudá-lo<br />

a manobrar pela zona de cautela:<br />

• Sua ação infringe alguma lei? Nem é preciso dizer que<br />

jogar duro não significa jogar sujo: você arremessa uma<br />

bola para bem perto de um rebatedor, mas não mira a<br />

cabeça dele; você arremessa forte, mas não cospe na bola<br />

para que ganhe efeito. Tenha em mente, porém, que muitos<br />

estatutos legais não são de clareza cristalina. Ao forçar<br />

agressivamente os limites da legislação corrente, por<br />

exemplo, o jogador que pega pesado pode às vezes obter<br />

tremendas vantagens competitivas.<br />

• Sua iniciativa será boa para os clientes? Se for, ainda<br />

que seja alvo de objeções, pode ser considerada aceitável<br />

por tribunais ou legisladores. Se não for, corre o risco de<br />

criar um exército de insatisfeitos ansiosos para derrubá-lo.<br />

• A concorrência será atingida diretamente? Colocar um<br />

concorrente numa situação na qual ele cause danos a si<br />

mesmo é aceitável. Um exemplo é induzir um rival a investir<br />

numa área na qual ele não tem chances de vitória.<br />

Por outro lado, prejudicar abertamente um rival — como<br />

ao comprar um importante fornecedor e cortar o suprimento<br />

daquele rival — pode atrair a ira de outros entes<br />

do setor, ainda que o ato tenha sido legal.<br />

• A ação vai incomodar certos grupos especiais? Organizações<br />

formadas por indivíduos que não querem ser<br />

clientes mas desejam impor seu ponto de vista sobre possíveis<br />

clientes podem criar onerosos fiascos de relações<br />

públicas para uma empresa. Foi o caso de ecoterroristas<br />

abril 2004<br />

Jogo duro: cinco estratégias letais para trucidar a concorrência<br />

americanos que puseram fogo num punhado de Hummers<br />

e outros utilitários esportivos.<br />

A Microsoft costuma jogar na zona de cautela. Ora<br />

ganha, ora perde. Vive atolada em processos por seu aparente<br />

desprezo pelo prejuízo que é capaz de infringir aos<br />

concorrentes ao se recusar a compartilhar a área de trabalho,<br />

ou desktop, do computador. Mas sua defesa, apoiada<br />

por muitos, alega que tal filosofia beneficia o consumidor,<br />

o que sem dúvida reduziu o impacto dos numerosos ataques<br />

legais desfechados por concorrentes e autoridades.<br />

Ainda que soe repetitivo, voltamos a afirmar que jogar<br />

duro não significa desobedecer a lei, nem mesmo explorar<br />

brechas nela. Não se trata de maquiar balanços, violar<br />

contratos, roubar segredos industriais ou adotar uma política<br />

de preços predatória. Não se trata de ser cruel.<br />

Quer dizer, não muito. O melhor do jogo duro é ver<br />

seus concorrentes se contorcendo.<br />

estRatéGias<br />

DO JOGO DURO<br />

Como se tornar um jogador agressivo? Embora haja incontáveis<br />

maneiras de jogar duro, há um punhado de estratégias<br />

clássicas de uma eficiência atemporal para gerar<br />

a vantagem competitiva. Esses métodos funcionam melhor<br />

quando empregados em surtos de intensidade implacável<br />

com o objetivo de efetuar uma mudança dramática<br />

em sua posição competitiva — seguida da consolidação<br />

dos ganhos e da preparação para o próximo ataque.<br />

Devaste os santuários de lucro das rivais. Santuários<br />

de lucro são áreas nas quais uma empresa ganha mais<br />

dinheiro, nas quais pode acumular riqueza em silêncio,<br />

tal como um urso armazena gordura para o inverno. Se<br />

uma rival tenta invadir um território seu, sua resposta é<br />

um ataque à parte mais gorda desse invasor, que não deve<br />

tardar a captar a mensagem.<br />

Há inúmeras maneiras de devastar um santuário de lucros<br />

de um concorrente — inundando o mercado de anúncios,<br />

por exemplo, ou com um corte generalizado de preços.<br />

Mas os golpes mais eficientes são os cirúrgicos. Alguns<br />

deles podem levá-lo às profundezas da zona de cautela, e<br />

é preciso ponderar a legalidade de cada iniciativa. Por ser<br />

uma estratégia competitiva muito delicada, é natural que<br />

empresas que a usaram com sucesso não estejam dispostas<br />

a descrever detalhes. O seguinte exemplo, modificado,<br />

representa um caso assim.<br />

Há alguns anos a fabricante de aspiradores de pó VacuCorp<br />

enfrentava um problema: uma rival, a SweepCo,<br />

estava invadindo seu mais polpudo santuário de lucros, a<br />

linha de produtos vendidos a grandes cadeias varejistas.<br />

Para isso, vendia a preço menor aos mesmos compradores.<br />

A VacuCorp resolveu dissecar as operações da Swe-<br />

41


Jogo duro: cinco estratégias letais para trucidar a concorrência<br />

epCo. Seus executivos examinaram tudo na rival — produtos,<br />

preços, design, distribuição — e por fim encontraram<br />

o que queriam numa fábrica da SweepCo em Iowa.<br />

Lá era fabricado um modelo horizontal de aspirador, que<br />

repousa sobre rodinhas, tem uma longa mangueira e um<br />

fio que parece estar sempre enroscado. Como a maioria<br />

dos fabricantes não fazia mais esse modelo, para a SweepCo<br />

era um rico santuário de lucros. Pelos cálculos da<br />

VacuCorp, o aspirador, que gerava apenas 25% da receita<br />

da SweepCo, trazia 80% do lucro.<br />

Era tudo que a VacuCorp precisava saber. A empresa<br />

rojetou um modelo horizontal com menos peças e componentes<br />

mais baratos que os da SweepCo e lançou o aspirador<br />

a um preço inferior ao da rival. Em seguida, esperou.<br />

Toda vez que a SweepCo tentava abocanhar uma<br />

das contas nacionais da VacuCorp com preços menores,<br />

a VacuCorp atacava uma das grandes contas da SweepCo<br />

com seu próprio modelo de preço inferior. Depois de várias<br />

escaramuças, a SweepCo captou a mensagem. Parou<br />

de tentar roubar a clientela da VacuCorp. E a paz reinou<br />

sobre o setor de aspiradores de pó.<br />

Para devastar o santuário de lucros do concorrente, é<br />

preciso estar bem informado. Você deve saber, entre outras<br />

coisas, quais os custos e qual a rentabilidade — os seus<br />

e os do concorrente — por categoria, por divisão geográfica<br />

e por conta. Isso permitirá que você burile a estratégia<br />

de ataque, ajustando os preços para infligir o maior dano<br />

possível.<br />

É preciso atenção aos limites legais da estratégia de<br />

preços. Uma linha sutil, porém real, separa uma política<br />

de preços agressiva de outra predatória. Saiba, acima de<br />

tudo, que o ataque a um santuário de lucros do concorrente<br />

deve provocar uma forte reação. Fique extremamente<br />

atento aos primeiros indícios de fracasso ou sucesso,<br />

pois a reação de seu rival pode ser atacar os seus<br />

santuários de lucro. Talvez ele tenha mais recursos financeiros<br />

do que você supunha, ou um “padrinho” que o proteja.<br />

Quando decidir atacar a fera, não seja imprudente.<br />

Plagie, com orgulho. Quem joga com brandura costuma<br />

achar que suas idéias brilhantes são sagradas. Quem<br />

joga duro não cai nessa. Esse jogador está disposto a roubar<br />

e a usar qualquer boa idéia que encontrar pela frente,<br />

desde que não esteja protegida por robustas patentes. Ray<br />

Kroc não inventou o McDonald’s, mas pegou a idéia de<br />

Dick e Maurice McDonald ao comprar a pequena rede<br />

de lanchonetes da dupla. Os fundadores da Home Depot,<br />

Arthur Blank e Bernie Marcus, não inventaram a primeira<br />

rede de lojas de material de construção dos EUA, mas<br />

adotaram o conceito do grande armazém da Handy Dan<br />

Home Improvement, na qual trabalhavam.<br />

Mas o plagiarismo linha-dura não consiste apenas em<br />

se apropriar de uma boa idéia. É preciso aprimorá-la.<br />

Harry Cunningham, fundador da Kmart, teria certa vez<br />

admitido que Sam Walton “não só copiou nossos conceitos,<br />

como os fortaleceu”.<br />

Também é importante que você tome para si a idéia.<br />

É preciso incorporá-la a sua organização e fazer com que<br />

seu pessoal a adote. Não basta reproduzir os detalhes — é<br />

só perguntar às companhias aéreas que tentaram, em vão,<br />

imitar a Southwest. Tudo isso significa que plagiar não é<br />

tão fácil como parece.<br />

No fim da década de 1990, caía a procura por serviços<br />

de manutenção nas revendedoras Ford. A montadora, que<br />

tinha margens bastante altas nas peças de reposição instaladas<br />

pelos mecânicos das revendas, não conseguia entender<br />

o porquê. Enviou uma equipe para sondar a concorrência e<br />

descobriu que uma montadora, a Honda, erguera um braço<br />

de serviços especialmente forte. O segredo compunha-se<br />

de duas partes: vincular a compra de um novo veículo ao<br />

atendimento pós-venda e condensar as centenas de reparos<br />

possíveis num menu único, simples e fácil de entender.<br />

Com base em suas preferências e quilometragem, os clientes<br />

Honda podiam escolher um pacote de serviços de manutenção<br />

com tanta facilidade como pedir um combinado<br />

no McDonald’s. A Ford decidiu fazer o mesmo.<br />

Mas o problema é que os revendedores e os engenheiros<br />

da Ford eram grupos entrincheirados. Havia engenheiros<br />

de alto cacife que julgavam que se uma peça precisava de<br />

vistoria a cada 53.247 quilômetros, era isso e ponto. Nada<br />

de arredondar prazos para aglutinar a manutenção como<br />

num cardápio de lanchonete! Já os revendedores, também<br />

de espírito independente, tinham um único objetivo em<br />

mente: vender carros novos, em geral negligenciando a<br />

área de serviços. No fim, a Ford copiou e aprimorou o programa<br />

da Honda e fez um marketing agressivo direcionado<br />

a compradores de carros novos. Mas não foram os<br />

detalhes do programa que garantiram o sucesso. Foi o empenho<br />

da Ford para convencer seus engenheiros e, sobretudo,<br />

a enorme rede de 5 mil concessionárias.<br />

Há quem não goste de ser chamado de imitador pela<br />

concorrência ou pela imprensa, mas quem joga duro não<br />

dá a mínima. É gente que sabe que se Steve Jobs tivesse<br />

ignorado a interface do usuário que viu nos laboratórios<br />

da Xerox PARC a Apple Computer não teria nascido. Sabe<br />

que se Kiichiro Toyoda não tivesse aprendido com a Ford<br />

as técnicas precursoras do sistema just-in-time a Toyota<br />

não teria ultrapassado a rival Nissan na década de 1950<br />

nem se tornado a tremenda rival que é para as montadoras<br />

americanas.<br />

E não é só a concorrência que se pode imitar. É possível<br />

pegar idéias de uma região e transplantá-la para outra,<br />

como fez a Ryanair ao adotar na Europa o modelo da Southwest.<br />

Também é possível transplantar um modelo de<br />

um setor para outro, como fez a Hillenbrand, que aplicou<br />

os métodos do Sistema de Produção Toyota à fabricação<br />

de caixões e transformou o segmento funerário.<br />

Engane a concorrência. Você tem uma ótima estratégia,<br />

mas julga que não tem tempo para implantá-la<br />

antes que a concorrência consiga neutralizá-la ou resistir<br />

a ela. Quem joga duro sabe enganar os rivais para ganhar<br />

42 <strong>harvard</strong> <strong>business</strong> <strong>review</strong>


tempo — ou qualquer outra vantagem competitiva.<br />

Pense na finta, uma tática fundamental em vários esportes,<br />

do basquete ao futebol. Uma finta de corpo, por<br />

exemplo, em que o jogador finge que vai lançar ou conduzir<br />

a bola para um lado, mas não o faz. O objetivo é sempre<br />

o mesmo: fazer o rival se posicionar ou se movimentar de<br />

maneira que se desequilibre e tenha sua capacidade de<br />

defesa reduzida.<br />

Manobras semelhantes ocorrem nos negócios, embora<br />

não se fale muito sobre isso. A indústria da alta tecnologia<br />

há anos emprega essas fintas. Para atrair potenciais<br />

consumidores e distrair a concorrência, por exemplo, um<br />

fabricante de software pode soltar um “vaporware” que<br />

ainda não está pronto para o mercado. Na indústria automobilística<br />

às vezes se cria um protótipo só para confundir<br />

a concorrência.<br />

Levar essa tática longe demais — para além da zona de<br />

cautela — pode trazer problemas, sobretudo se ela ilude<br />

não só a concorrência como também investidores. Mas<br />

certas fintas, em especial as que desnorteiam a concorrência<br />

sobre suas atividades, são uma estratégia fundamental<br />

do jogo duro.<br />

A Wausau Paper era uma fabricante de papel não-revestido<br />

com fraco desempenho, máquinas obsoletas e altos<br />

custos de produção. Ao descobrir que a empresa tinha<br />

uma fatia fora do comum do mercado em Chicago, seu<br />

novo presidente resolveu investigar. O fato era que a fatia<br />

de mercado ali era alta porque a fábrica ficava nas proximidades<br />

e conseguia abastecer o distribuidor diariamente.<br />

Essa se tornou a base de uma nova estratégia: a Wausau<br />

passaria a oferecer a entrega em 24 horas para seus distribuidores<br />

nas principais cidades do meio-oeste americano<br />

e incentivar o pedido de pequenos volumes, alguns com a<br />

especificação personalizada.<br />

A clientela reagiu com entusiasmo à oferta de melhor<br />

atendimento e mais opções. A frustração com os fornecedores<br />

tradicionais — prazos de entrega longos e pouco<br />

confiáveis, serviço precário, poucas opções — era tão alta<br />

que os distribuidores migraram com prazer para a Wausau,<br />

ainda que tivessem de pagar mais. Alguns pediam<br />

os produtos genéricos tradicionais da Wausau, ao lado de<br />

novos produtos customizados, graças à entrega agilizada.<br />

A Wausau teve de agir rápido para prender a clientela<br />

antes que a concorrência a alcançasse e copiasse a estratégia.<br />

Para ganhar tempo, recorreu a uma pequena artimanha<br />

abril 2004<br />

Jogo duro: cinco estratégias letais para trucidar a concorrência<br />

O JOGaDOR qUe JOGa DURO se<br />

aventURa peRtO Da fROnteiRa,<br />

seja fixada por leis, seja por convenções sociais, e<br />

avança mais do que qualquer adversário ousaria.<br />

(nisso, contou com a ajuda da mentalidade tradicionalista<br />

do setor). Suas rivais, que mantinham os preços num nível<br />

baixo produzindo grandes volumes de artigos padronizados<br />

em máquinas muito rápidas, de início ficaram confusos com<br />

a disposição da clientela de pagar mais para obter serviços<br />

e opções substancialmente melhores e maiores.<br />

A Wausau precisava prolongar esse estado de confusão<br />

para que a concorrência não tomasse nenhuma atitude<br />

— ou tomasse a atitude errada — enquanto ela executava<br />

sua nova estratégia. À imprensa especializada, os executivos<br />

da Wausau disseram que conseguiram acelerar as<br />

entregas mantendo grandes estoques do artigo acabado<br />

e ampliando os turnos — o que era verdade. Mas a empresa<br />

não revelou que tinha realizado também uma mudança<br />

de grande envergadura na estratégia e nas operações.<br />

Como esperava, a maioria na concorrência ignorou<br />

sua iniciativa.<br />

Além dessa falsidade ativa, a Wausau também partiu<br />

para uma falsidade passiva ao permitir que as rivais pensassem<br />

que continuavam à frente da adversária que sempre<br />

fora fraca. A Wausau logo conquistou distribuidores<br />

sensíveis à rapidez da entrega e que precisavam de produtos<br />

especiais de margens elevadas, mas muitos deles continuaram<br />

a comprar produtos genéricos, de preços competitivos,<br />

de fabricantes menos voltados ao serviço. Esses<br />

fornecedores acharam a nova divisão do mercado inteiramente<br />

aceitável. Por que haveriam de minar o próprio<br />

desempenho com a adoção da onerosa produção em pequenos<br />

lotes?<br />

Além disso, para satisfazer a demanda de clientes que<br />

queriam continuar comprando seus produtos genéricos, a<br />

Wausau passou a adquirir da concorrência rolos inteiros<br />

43


Jogo duro: cinco estratégias letais para trucidar a concorrência<br />

de papel padronizado, que cortava, reembalava e agregava<br />

a sua linha de produtos — para a felicidade da concorrência.<br />

Com isso, a Wausau reduziu sua produção de papéis<br />

padronizados e aumentou a dependência que elas tinham<br />

desses produtos de baixas margens.<br />

Desfira um ataque maciço e arrasador. Embora o jogador<br />

que pega pesado prefira o ataque indireto, às vezes<br />

ele supera a concorrência com o tipo oposto de ataque.<br />

Um ataque maciço e arrasador deve ser equivalente a<br />

uma martelada: concentrado, direto e rápido. Logo, a empresa<br />

deve ter certeza absoluta de que está pronta para<br />

empregá-lo. Em tese pode haver uma vantagem competitiva<br />

substancial. Mas tal vantagem está disponível de<br />

imediato? A soma das divisões de uma empresa pode ser<br />

maior do que a do concorrente. Mas tais divisões conseguem<br />

agir em uníssono numa batalha?<br />

Assim, a empresa que se decide pelo ataque maciço<br />

deve estar pronta para mudar totalmente suas operações.<br />

Como a empresa talvez não enfrente a pressão competitiva<br />

aguda que em geral obriga à reformulação radical, o<br />

processo pode dar a impressão de uma grande virada de<br />

uma empresa já de sucesso. Essa situação paradoxal torna<br />

essa estratégia incômoda para líderes entrincheirados que<br />

não possuem visão nem coragem para jogar o jogo duro.<br />

No início da década de 1990, a Anheuser-Busch atacou<br />

a liderança da Frito-Lay em batatinhas fritas e salgadinhos<br />

de milho. A grande cervejaria havia notado que a Frito-<br />

Lay, uma divisão da PepsiCo, tinha se desviado da rota ao<br />

entrar no segmento de biscoitos e bolachas. Num exemplo<br />

clássico de ataque direto, a Anheuser-Busch começou a<br />

colocar sua nova marca de salgadinhos, a Eagle, nas prateleiras<br />

de tradicionais distribuidoras de cerveja, supermercados<br />

e lojas de bebidas, onde a Frito-Lay era comparativamente<br />

fraca.<br />

Infelizmente para a Anheuser-Busch, quem acabava de<br />

assumir a direção da Frito-Lay era Roger Enrico, já calejado<br />

pela batalha contra a Coca-Cola como chefe da Pepsi-<br />

Cola North America. Enrico percebeu que as fortes marcas<br />

da Frito-Lay e seu enorme porte lhe davam uma nítida<br />

vantagem econômica sobre a Anheuser-Busch. Mas, para<br />

aproveitar ao máximo essa vantagem competitiva, precisaria<br />

deixar a Frito-Lay pronta para a guerra, redirecionando<br />

pesados investimentos dentro da empresa.<br />

Enrico cortou pela metade o sortimento nas linhas de<br />

produtos da Frito-Lay — nada de bolachas, nada de biscoitos<br />

— e concentrou a energia da empresa, sem falar em<br />

seus 10 mil entregadores, na seção de salgadinhos de supermercados<br />

de todo o país. A considerável verba publicitária<br />

da Frito-Lay, que fora balcanizada em diversos feudos regionais,<br />

foi consolidada numa única soma colossal.<br />

Enrico investiu pesado na qualidade dos produtos, que<br />

estava perdendo terreno para a da Eagle. Numa reunião<br />

decisiva, ordenou ao pessoal de operações que descartasse<br />

uma partida de batatas de qualidade inferior no valor de<br />

US$ 30 milhões, em vez de utilizá-la na produção. Fez tam-<br />

bém as primeiras demissões em massa na história da empresa<br />

— mas contratou mais vendedores. E, como havia<br />

cortado custos, conseguiu reduzir os preços.<br />

Com todas essas armas na mão — produtos melhores,<br />

atendimento melhor e preços menores —, Enrico começou<br />

a pressionar um dos santuários de lucro da Eagle:<br />

batatinhas fritas vendidas em supermercados. A Frito-Lay<br />

soltou em campo o pelotão de vendas. Certos vendedores<br />

passavam o dia inteiro nos maiores supermercados,<br />

repondo sem parar o estoque de produtos da Frito-Lay.<br />

Em 1996, quando a poeira baixou, a Anheuser-Busch<br />

O melhor do jogo duro é<br />

veR seUs cOncORRentes<br />

se cOntORcenDO.<br />

havia fechado a divisão de salgadinhos Eagle. No fim, a<br />

Frito-Lay acabou comprando quatro fábricas da Eagle —<br />

a preços atraentes.<br />

Para empregar uma estratégia assim, a empresa muitas<br />

vezes libera forças que estão latentes na organização, como<br />

fez Enrico na Frito-Lay. Mas tais forças devem representar<br />

uma vantagem competitiva real, ainda que não concretizada.<br />

É preciso, por exemplo, ter uma nítida vantagem de<br />

custos antes de atacar. Do contrário, a concorrência pode<br />

revidar com cortes de preços e frustrar o ataque.<br />

É claro que raramente se deseja eliminar os concorrentes.<br />

Um concorrente fraco é melhor do que aquele que sai<br />

da concordata em melhores condições de lutar. É preciso<br />

estar preparado para o escrutínio público. A política de<br />

vendas da Frito-Lay em supermercados foi investigada<br />

— e isentada — pela Comissão Federal de Comércio dos<br />

44 <strong>harvard</strong> <strong>business</strong> <strong>review</strong>


EUA. Antes de cair, é possível que a concorrência berre e<br />

esperneie.<br />

Eleve os custos da concorrência. Se você tem uma excelente<br />

compreensão de seus custos, pode usar a política<br />

de preços para levar a concorrência a crer que está tomando<br />

atitudes rentáveis quando, na verdade, está elevando<br />

os custos. Por mais implausível que pareça, elevar<br />

os custos de um concorrente sem que ele perceba é uma<br />

das marcas de um verdadeiro jogador do jogo duro.<br />

Anos atrás, a fabricante de componentes automotivos<br />

Federal-Mogul percebeu uma queda nos lucros. Dennis<br />

Gormley, seu presidente à época, decidiu examinar de<br />

perto as estruturas de custos e preços. Até ali, a direção<br />

da empresa vinha supondo que as vendas de rolamentos<br />

para motor, em baixos volumes, à Caterpillar, à Cummins<br />

e à John Deere eram muito mais rentáveis, devido às altas<br />

margens brutas, do que a venda em altos volumes à Ford,<br />

à GM e a outras montadoras.<br />

Gormley levou um choque. Ao contrário do que diziam<br />

os relatórios do sistema padronizado de custos da empresa,<br />

as vendas em baixos volumes tinham custos indiretos<br />

muito maiores por unidade do que as vendas em<br />

altos volumes. Ou seja, os custos de peças de baixo volume<br />

tinham sido subestimados e, os lucros, superestimados.<br />

Isso significava que a estratégia da Federal-Mogul de aumentar<br />

a rentabilidade com a venda de mais peças de baixos<br />

volumes estava tendo o efeito exatamente oposto ao<br />

desejado. Aliás, no caso de certas peças vendidas em baixo<br />

volume, a Federal-Mogul estava “despachando dinheiro”.<br />

Para resolver o problema, a empresa poderia simplesmente<br />

ter cedido as atividades de baixos volumes a uma<br />

rival, a JP Industries (JPI), que era mais fraca que a Federal-Mogul<br />

em rolamentos em altos volumes e mais forte<br />

no nicho de baixos volumes — e aparentemente também<br />

ignorava como era pequeno o lucro nas vendas de baixo<br />

volume. Mas isso seria equivalente a entregar à rival um<br />

santuário de lucros a partir do qual poderia ter atacado<br />

a Federal-Mogul, agora numa posição mais atraente no<br />

setor de altos volumes.<br />

Gormley bolou um plano para ceder o segmento de<br />

baixos volumes de forma a manter a JPI enredada involuntariamente<br />

nesse nicho. A estratégia: elevar os preços<br />

da Federal-Mogul no setor de baixo volume a um patamar<br />

suficientemente alto para que a Federal-Mogul perdesse<br />

a maioria das disputas, mas baixo o bastante para manter<br />

as margens de lucro da JPI reduzidas. Dessa forma a JPI<br />

conquistou um contrato atrás do outro, para seu próprio<br />

prejuízo. Suas vitórias a distraíam de qualquer plano de<br />

atacar a divisão de altos volumes da Federal-Mogul, e reduziram<br />

sua capacidade financeira de lançar um ataque,<br />

se decidisse fazê-lo.<br />

É claro que a Federal-Mogul não queria que a JPI se lançasse<br />

num ciclo destrutivo de custos maiores e margens menores.<br />

Isso poderia levá-la, no desespero, a tentar aumentar<br />

as vendas no segmento de alto volume para gerar caixa. Foi<br />

abril 2004<br />

Jogo duro: cinco estratégias letais para trucidar a concorrência<br />

por isso que, aqui e ali, para evitar que a JPI se espatifasse<br />

ou percebesse a cilada em que tinha caído, a Federal-Mogul<br />

saía vitoriosa em um contrato de baixos volumes e cedia à<br />

JPI uma vitória no setor de altos volumes.<br />

Elevar os custos do concorrente funciona bem em certas<br />

situações, sobretudo quando a complexidade de um<br />

negócio introduz custos que podem ser alocados erroneamente.<br />

Uma grande diferença de volume entre os produtos<br />

ou serviços de maior e menor venda de uma empresa<br />

— como no caso da Federal-Mogul e da JPI — pode resultar<br />

nesse erro de alocação.<br />

Essa é uma estratégia arriscada, que pode colocar a própria<br />

empresa em jogo. Há muita margem de erro, e a análise<br />

dos custos reais versus custos aparentes de um produto,<br />

serviço ou cliente precisa ser correta — assim como<br />

a estratégia que dela resulta.<br />

mentaliDaDe<br />

DO JOGO DURO<br />

Essas cinco táticas não esgotam as possibilidades da estratégia<br />

do jogo duro. Há outras. Aliás, qualquer estratégia<br />

que garanta a você uma vantagem competitiva extrema,<br />

porém dentro da lei, é um lance de jogo duro. Mas é importante<br />

ressaltar que jogar duro não é só uma questão<br />

de lances empreendidos, mas também da atitude no jogo.<br />

Uma cartilha com as regras do jogo de nada servirá se<br />

você tiver escrúpulos em usá-la.<br />

Examine primeiro o quão duro você é consigo mesmo.<br />

Você exige ouvir a verdade de clientes, fornecedores, parceiros<br />

de negócios, acionistas e funcionários? Você encara<br />

sem hesitar os problemas capazes de derrubar sua empresa?<br />

Você está constantemente insatisfeito com a situação<br />

presente, por melhor que pareça?<br />

Se você joga duro na própria casa, você está pronto para<br />

desafiar a concorrência. De novo, não estamos falando de<br />

crueldade: o jogo duro é agressivo, não sádico. Sim, você<br />

quer que seus rivais se contorçam, mas não de maneira tão<br />

visível que você seja encarado como um troglodita. Aliás,<br />

você deseja que as pessoas no seu mundo — as mesmas<br />

das quais você exige respostas francas — aplaudam sua<br />

vitória. E muitas aplaudirão, pois sairão ganhando com a<br />

riqueza que suas estratégias geram.<br />

Algumas talvez até venham a compartilhar sua intensa<br />

paixão pela vitória, de maneiras que a concorrência pode<br />

julgar desleais. Essa mentalidade não é muito comum hoje<br />

em dia, quando pedir desculpas pela vitória é quase tão<br />

comum quanto celebrá-la. Então, o que você acha?<br />

Você é capaz de jogar duro?<br />

Reprint r0404c–p<br />

Para pedidos, veja página 97.<br />

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