Por Exemplo, Com O Recente Caso - Visão Judaica

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Por Exemplo, Com O Recente Caso - Visão Judaica

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editorial

VISÃO JUDAICA • março 2006 Adar/Nissan 5766

Publicação mensal independente da

EMPRESA JORNALÍSTICA VISÃO

JUDAICA LTDA.

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HANA KLEINER

Diretor de Redação

SZYJA B. LORBER

Publicidade

DEBORAH FIGLARZ

Arte e Diagramação

SONIA OLESKOVICZ

Webmaster

RAFFAEL FIGLARZ

Colaboram nesta edição:

Andrew Klavan, Aristide Brodeschi,

Breno Lerner, Bruce S. Ticker, Daniel

Pipes, Edda Bergmann, Gustavo

Erlichman, Jacob Dolinger, Joseph

Eskenazi Pernidji, Pilar Rahola, Sérgio

Feldman, Shelomo Alfassa, Ted Feder,

Tila Dubrawsky, Tom Gross e Yossi

Groisseoign

Esta publicação pode conter termos sagrados.

Portanto, trate-a com respeito.

Os artigos assinados não representam

necessariamente a opinião do jornal,

mas a dos autores e colaboradores

www.visaojudaica.com.br

as últimas semanas assistimos

sistematicamente a uma inversão

de valores, em que o relativismo

moral, claudica e engoda

muita gente. Assim foi,

por exemplo, com o recente caso

do filme palestino Paradise Now (Paraíso

Agora), concorrente ao Oscar

de 2006 como melhor filme estrangeiro,

e que [felizmente] não levou

a cobiçada estatueta. É certo que se

pressionou para que o filme fosse

excluído pela Academia de Hollywood.

Houve até um abaixo-assinado

com 32 mil assinaturas recolhidas,

mas a Academia, que nunca

retirou um filme indicado (à exceção

de um único caso, por fraude na

inscrição), preferiu deixá-lo disputar

e não levar nada. O mais provável

é que os que elegem os filmes tenham

feito um exame de consciência, ana-

Inversão de valores e o engodo

Nossa capa

lisando os aspectos nocivos da película,

que relata a trajetória de dois

jovens palestinos cooptados para se

tornarem homens-bomba até a cena

final quando embarcam num ônibus

cheio de crianças que irão explodir.

Nesse caso, prevaleceu o bom senso

e não se chancelou com o Oscar a

“obra de arte” que glorifica o terrorismo

e a morte.

Outro exemplo é que mesmo sem

ter nada a ver com a crise das charges,

o povo judeu foi escolhido

pelo Irã para “ser culpado” pelas

caricaturas supostamente difamatórias

publicadas na Dinamarca. O

Irã decidiu promover um concurso

com ilustrações que neguem ou minimizem

o Holocausto. Para surpresa

geral, na emissora BandNews, de

São Paulo, dia 7/2, às 6h32, o

apresentador da rádio disse que a

iniciativa iraniana era uma “resposta

adequada às provocações européias”.

Uma estranha fusão de ignorância

e anti-semitismo! E para

não perder o costume de culpar os

judeus por todos os males da humanidade,

a Síria distribuiu notícia

afirmando que Israel é o responsável

pela gripe aviária! E tem mais:

O verborrágico Mahmoud Ahmadinejad,

presidente do Irã culpa quem

pela destruição da mesquita xiita do

domo dourado no Iraque? Israel e

os Estados Unidos! Já o aiatolá Ali

Khamenei, detentor da última palavra

em todas as questões relativas

ao Estado do Irã, fez um apelo aos

xiitas para que eles não se vinguem

nos muçulmanos sunitas [que efetivamente

a destruíram] pelo ataque

à mesquita, mas nos “criminosos

sionistas, americanos e ociden-

A capa reproduz a obra de arte cujo título é “Rainha Esther” com raashan (reco-reco), elaborada

com a técnica pastel seco em uma tela de dimensões 65 X 50 cm, criação de Aristide Brodeschi.

O autor nasceu em Bucareste, Romênia, é arquiteto e artista plástico, e vive em Curitiba desde

1978. Já desenvolveu trabalhos em várias técnicas, dentre elas pintura, gravura e tapeçaria.

Recebeu premiações por seus trabalhos no Brasil e nos EUA. Suas obras estão espalhadas por

vários países e tem no judaísmo, uma das principais fontes de inspiração. É o autor das capas do

jornal Visão Judaica. (Para conhecer mais sobre ele, visite o site www.brodeschi.com.br).

Datas importantes

11 de março

13 de março

14 de março

15 de março

18 de março

25 de março

1º de abril

8 de abril

Shabat / Parashá

Tetasavê Zachor

Jejum de Esther

Purim

Shushan Purim

Shabat / Parashá Ki

Tissá Pará

Shabat Mevarechim /

Parashá Vayak’el /

Pecudê Hachodesh

Shabat/Parashá Vayicrá

Shabat Hagadol /

Parashá Tsav

Mudança de horários na Sinagoga do CIP

(Curitiba) para as orações em abril:

MATUTINAS (Tefilá Shacharit) dia 13 (1º de Pêssach)

— 7h30; dia 14 (2º de Pêssach) 9h30;

dia 15 (Shabat de Pêssach) 9h30; dia 20 (8º

dia de Pêssach) 9h30 e Izkor 11h; dia 21 (Isru

Chag) 8h30.

VESPERTINAS (Tefilá Minchá) do dia 1º ao dia

14 — 18h e Cabalat Shabat 19h30; dia 15 —

17h30; do dia 16 ao dia 30 —17h45.

Acendimento das

velas em Curitiba

março / abril 06

Véspera de Shabat

DATA HORA

10/3 18h20

17/3 18h12

24/3 18h05

31/3 17h58

7/4 17h50

alecimento

Dia 6/3/2006 (6 de

Adar) – Malka

Racaela Kolber

Mantelmacher, aos

80 anos. Sepultada

no Cemitério Israelita

do Umbará.

tais”! Aí, é preciso que se diga, o

engodo se sobrepõe a tudo mais…

Outro exemplo recente dessa distorção

de valores nos é apresentado

pela jornalista Pilar Rahola, num artigo

que está nesta edição do VJ.

Conta ela que Javier Solana, político

espanhol e representante da Política

Externa e da Segurança Comum

da União Européia pediu ao governo

de seu país a equiparação dos

atos de islamofobia — um tipo de

racismo, esclarece Rahola — aos

delitos de anti-semitismo — que é

algo muito mais complexo, acrescenta

ela, explicando em detalhes por

que ambos não são iguais. Equipará-los,

é “rebaixar o Holocausto a

uma pura intolerância, uma banalização

do horror”. VJ convida todos

a lerem seu corajoso texto.

Humor Judaico

A Redação

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Os privilegiados

Em Moscou se espalha a notícia de que a cidade

seria abastecida de carne. Imediatamente se

forma uma enorme fila diante do açougue central,

e a multidão passa toda a noite à espera de

que no dia seguinte, o açougue abra.

De manhãzinha, apresenta-se um funcionário

do governo, e adverte:

— Os que forem judeus podem ir embora, porque

a carne não será vendida para os judeus.

A terça parte dos presentes sai das filas e

volta para suas casas.

Três horas depois, o estabelecimento ainda

está fechado. Apresenta-se novamente o funcionário

e anuncia:

— Só há carne para os membros do Partido

Comunista. Quem não tiver suas carteiras do partido

pode ir embora.

Boa parte dos presentes se retira. Ficam só os

antigos membros do PC, ainda numerosos.

Mais três horas, com o açougue fechado, o

funcionário reaparece, e diz:

— Camaradas, agora que estamos só nós do

Partido, devo dizer-lhes com franqueza que não

temos carne.

Ouve-se, então, no fim da fila, uma voz que

protesta:

— Esses judeus são sempre favorecidos!

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○


Sérgio Feldman *

erusalém está presente em

toda a religião judaica, desde

as orações, passando

pelo ciclo da vida e pelas

festas, até no sonho do Milênio:

o messianismo judaico. Em tudo se

vê e em todo o Judaísmo se insere Jerusalém.

Não há Judaísmo sem Jerusalém.

Vejamos alguns exemplos. A liturgia judaica

é complexa; vamos explicá-la sucintamente,

sem complicar muito e tentar

inserir a Cidade Sagrada nela.

Há mais de dois mil anos os judeus

repetem inúmeras orações e oram a

D-us, através de uma coletânea de orações

denominada Sidur. O Sidur (vem

da palavra Seder = ordem; pois há uma

ordem nas orações), foi sendo ordenado

de maneira lenta e gradual através

dos séculos, com acréscimos diversos

durante o desenrolar da História. Há

costumes diferentes entre judeus europeus

e judeus africanos ou asiáticos.

Os judeus de origem ibérica (sefaradim

= a de Sefarad ou Espanha, de onde

vieram e de onde migraram à África do

Norte e ao Oriente Médio) têm orações

e ordem de leituras, ligeiramente diferente

das orações dos judeus de origem

germânica ou européia ocidental

(ashkenazim = de Ashkenaz ou Alemanha,

que é o ponto de origem dos judeus

da Europa Oriental, que migraram

à Polônia e Rússia na Idade Média). Não

são diferenças agudas, mas detalhes e

algumas orações adicionais, poesias

(piutim), ou hinos sacros ao lado de

orações criadas por sábios e poetas medievais

ou modernos. No núcleo dos sidurim

há trechos que são universais aos

livros de orações judaicos, de todas as

origens: a matbeia shel tefilá (carimbo

ou moeda da oração = espécie de esqueleto

do corpo de orações) equivale

à parte central das orações. Esta não

muda e não há variações sensíveis. A

oração principal se denomina “Grande

Oração” ou Amidá (de pé = é feita parada,

de pé) ou também Shemone Esre

(que significa dezoito, pois tinha dezoito

bênçãos na sua versão original).

Esta oração foi criada no Cativeiro da

Babilônia ou no início do Período do Segundo

Templo.

Em todos os trechos do Sidur, a presença

de Jerusalém é constante.

O espaço e tempo de Jerusalém são

absolutos no Sidur. O corpo e a alma

da cidade permeiam o texto da oração.

Alguns exemplos para ilustrar. Na

metade da Grande Oração / Amidá ou

Shemone Esre há um trecho que roga a

D-us que: “volte a Jerusalém e que nela

habite” (simbolicamente significa que

reconstrua o Templo), e que reúna os

filhos de Israel e traga-os “dos quatro

cantos da terra” e “reúna os dispersos

do Teu povo Israel”. É surpreendente ver

que o amor a Sion (relativo à Jerusalém,

pois um de seus nomes vem do

monte Sion, de onde os peregrinos viam

a cidade) ou sionismo, permeia todo o

(Uma viagem ao imaginário judaico - parte dois)

Se eu me esquecer de ti,

ó Jerusalém...(II)

Judaísmo. Na seqüência, a oração exalta

a justiça divina e conclui dizendo da tristeza

e do luto do povo “em luto por

ela”... (ela = Jerusalém). Um luto milenar

pela cidade amada e que está em

ruínas. Na conclusão da benção, afirma

de maneira simbólica e dentro de

uma expectativa messiânica: “Louvado

sejas Tu, ó Eterno, que reconstrói Jerusalém”.

Esta oração é proferida todos os

dias da semana, sendo levemente alterada

nos sábados (Shabat) e nas Festas

(Chaguim). Ou seja: há dois milênios os

judeus rogam a D-us que reconstrua Jerusalém,

por três vezes ao dia, sem cessar,

em suas orações. Mas isso não ocorre

somente na Grande Oração.

Na celebração do casamento judaico

há algumas etapas. A principal seria

celebrada sob a cobertura da Chupá (pálio

nupcial ou uma espécie de “pequena

tenda” sob a qual é celebrada a

união). Esta cerimônia pode ser feita

até a céu aberto desde que se tenha o

pálio nupcial cobrindo o espaço onde

estejam os noivos. A última das etapas

desta cerimônia é a quebra do copo,

pelo noivo. Há diversas versões sobre o

significado deste gesto: a mais aceita

é que o copo relembra a destruição de

Jerusalém e o fato que ainda esteja em

ruínas. Ainda que a cidade esteja reconstruída,

deve se lembrar que os judeus

só retomaram a sua posse em

1948. Por milênios a desejaram e sonharam

com a sua reconstrução. Em

meio à alegria do casamento os judeus

recordam da sua cidade sagrada e abandonada,

que segue em ruínas. Vale frisar

que Jacob Lauterbach, na década

de 20 do século XX, em artigo polêmico

questionou esta interpretação do símbolo.

Porém, para nosso objetivo, vale

a tendência predominante.

Outra recordação de Jerusalém, de

sua sacralidade e da “nostalgia judaica”

pela cidade destruída e abandonada,

está em alguns salmos. O mais famoso

e repetido é o conhecido: “Se eu

me esquecer de ti ó Jerusalém, que

minha destra perca a sua destreza”.

Inúmeros salmos a recordam e exaltam.

Muitos são inseridos nas rezas diárias

ou em festas. Assim sendo, a relação

entre orações, Judaísmo e Jerusalém é

absoluta. Há dezenas de exemplos que

declinamos de citar para não nos tornarmos

exaustivos.

Um destes Salmos é repetido diariamente

nas orações em ação de graças

após as refeições (Bircat Hamazon): relata

o retorno a Sion (Shivat Tzion), ou

seja, a volta do Exílio da Babilônia e a

alegria de rever e reerguer a Cidade

Sagrada e o projeto de reconstrução do

Templo (que viria a ser o Segundo Templo).

A consecução do sonho messiânico.

Na consciência e na memória judaica,

fica o conceito de que “se foi possível

no passado”, pode e deve ser possível

novamente num “futuro próximo”.

O retorno citado nas rezas é o primeiro

retorno dos judeus à sua pátria

ancestral (ocorrido no século VI antes

da Era Comum, perto de 530 a.E.C.) no

qual liderados por Zerubavel (descendente

da Casa de David) e o sacerdote

Josué (Yeoshua), um grupo de pioneiros

retornou do Exílio da Babilônia

(ocorrido entre c. 586 e 536 a.E.C.) a

Jerusalém. Esta experiência histórica

e esta “primeira reconstrução” da cidade

Sacra moldam a “história do futuro”,

ou seja, dá o modelo do que

virá a ser o retorno a Jerusalém, no

imaginário judaico.

Passados alguns séculos do retorno

a Sion (Shivat Tzion), os judeus expulsos

de sua terra a partir das revoltas

contra Roma e da destruição do Segundo

Templo por Tito em 70 d.E.C., terão

a esperança contida nos escritos proféticos

e o sonho messiânico alentando-os

que “voltariam a Sion”, tal como

no retorno a Sion, e reconstruiriam sua

cidade amada. Some-se esta descrição,

às profecias messiânicas de retorno e

de reconstrução e temos uma rica e

sensível inspiração para os sonhos de

retorno. Ter o privilégio de retornar a

Sion e ser um dos que receberia o Messias

no pátio do Templo, era um sonho

de gerações. Durante a prolongada

Diáspora (Golá ou Galut), que se prolongou

por quase dois mil anos, os judeus

anelaram o sonho de voltar a Jerusalém.

Muitos anciões migravam para

Israel, para serem sepultados no Monte

das Oliveiras e estar “in loco”, na

hora da reencarnação dos “ossos secos”

(Ezequiel 37).

No Seder de Pessach (ceia festiva

da Páscoa Judaica) se conclui a leitura

da Hagadá (narrativa tradicional do

Êxodo através de leituras, canções e

trechos rabínicos) entoando: “O ano que

vem em Jerusalém” (Leshaná habaá bi

Ierushalaim). O Messias virá em breve

e no ano próximo seremos plenamente

livres e viveremos em Jerusalém. Já em

9 de Av (Tishá be Av) os judeus portavam

(alguns ainda o fazem) inúmeros

sinais de luto. Trata-se de uma data

trágica. Nas sinagogas em 9 de Av se

repetem gestos de luto, orações de

pesar e se jejua pela destruição da Cidade

Sagrada duas vezes: em 586 a.E.

C. e em 70 d.E.C. Dois mil anos de luto

e a ritualização de um dia de jejum

durante todos este tempo pranteando

a Cidade Sagrada. Trata-se de uma tristeza

milenar e de um respeito imenso.

Um sonho de “reencontro” que nenhum

povo, religião ou grupo teve em qualquer

época da História, por nenhuma

cidade. Orar e chorar por uma cidade

destruída há dois mil anos.

Em minha opinião, quem melhor retrata

esta paixão do povo judeu por sua

Jerusalém é o poeta e filósofo sefaradi

Iehudá Halevi. Viveu em Al Andaluz, (na

Espanha atual) no século XI d.E.C., em

Toledo. Cristãos e muçulmanos se digladiavam

na Península Ibérica e em

seguida na Terra Santa, nas Cruzadas.

Iehudá escreve um poema sacro dedicado

a Sion (relativo à Jerusalém). Exalta

a cidade sagrada e diz de suas “sau-

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

A Jerusalém dourada, cantada em salmos e orações, está intrinsecamente

ligada ao povo judeu

dades por Sion”. Nunca a havia visto e

constrói uma imagem baseada no imaginário

judaico medieval: ruínas, ervas

daninhas, e uma dor milenar. Um vazio

e um abandono total. Iehudá sonha com

a cidade a almeja vê-la. No final de

sua vida vai ao Egito e de lá, ascende a

Jerusalém (o termo hebraico Aliá = subida,

significa sair da diáspora e migrar

para Israel). Sobe espiritualmente

e fisicamente.

A parte final do relato biográfico é

uma mescla de um pouco de história e

muita lenda. Ao contemplar a cidade é

morto por um cavaleiro árabe (ou cristão)

envolvido numa das guerras ou cruzadas

que ocorreram nesse período.

Jerusalém está presente em inúmeras

obras e trechos de obras até nos

séculos XIX e XX. Alguns autores judeus

se inspiraram em sua magia e em seu

simbolismo para desenvolver o nacionalismo

judaico: o Sionismo. O Sionismo

é uma síntese do novo (nacionalismo

europeu) e do velho (Judaísmo e

Messianismo), sob um pano de fundo

laico e contemporâneo. Não há como

separar Jerusalém do Judaísmo e nem

negar que Sionismo e Judaísmo sejam

no fundo, a mesma coisa.

Ainda que possa haver judeus que

neguem o Sionismo e não se identifiquem

com Israel. São opções judaicas

válidas a nível individual, até mesmo

se assimilar e deixar de ser judeu ou viver

uma vida judaica alijada de Israel.

Ainda que seja legítimo que se critiquem

as políticas do Estado judaico: o governo

de Israel pode errar como erra qualquer

governo. Isso é na esfera da política.

Os críticos de Israel não po-

dem separar os judeus de sua cidade

e o Judaísmo de seu amor

a Sion. Trata-se de um todo.

Separar os judeus de Jerusalém

é retirar destes a

sua alma, a cidade que inspirou

sua História, seus ideais

e seus valores.

“Se eu me esquecer de ti,

ó Jerusalém, que minha destra

perca a sua destreza”.

3

(Este artigo é dedicado

ao meu dileto amigo

Antonio Carlos

Coelho, tal como na

primeira parte. Desta

vez, amplio a

dedicatória aos meus

filhos André, Ariel e

Marina e à minha

esposa Iara. Os quatro

aprenderam junto

comigo a “paixão” por

Jerusalém).

* Sérgio Feldman

é doutor em História pela

UFPR e professor de

História Antiga e Medieval

na Universidade Federal

do Espírito Santo. Exprofessor

adjunto de

História Antiga do Curso

de História da

Universidade Tuiuti

do Paraná.


4

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

O KKL chega aos 104 anos

m 29 de dezembro de

2005, o KKL - Keren Kayemet

LeIsrael (Fundo Ambiental

de Israel) festejou

104 anos de atividade incessante

em prol do povo judeu

e da Terra de Israel. Foi em 19

de Tevet de 5766, o aniversário judaico

do KKL que a instituição celebrou

o tradicional Dia do Primeiro

Sulco, em honra do primeiro sulco

lavrado nas terras da colônia agrícola

judaica mais antiga, Petach Tikva.

O presidente mundial do KKL,

Yehiel Leket, declarou a propósito da

celebração do 104° aniversário:

“Olhamos para trás com orgulho pelas

conquistas do KKL, e colocamos

nossas vistas adiante, dispostos a

assumir os desafios que nos esperam:

colaborar com projetos nacionais e

desenvolver novos projetos verdes:

reflorestamento,preservação

de

espaços

abertos e

meio ambiente

em

geral, projetos

azuis

relacionados

com a

água e projetosmarronsrelacionados

com o solo”.

Nos últimos

anos

cresceu a

necessidade

de preservar

e melhorar a qualidade do

meio ambiente em Israel, e de proteger

os bosques e espaços abertos

diante de um desenvolvimento descontrolado.

O KKL assumiu o desafio

das tarefas tradicionais de florestamento,

preparação dos solos

para a agricultura, novas populações

e construção de reservatórios de

água. Além disso, investiram-se

grandes esforços no desenvolvimento

de parques, áreas de piqueniques,

pontos de observação e trilhas para

caminhadas, prestando particular

atenção a sua adaptação às necessidades

especiais de determinados

setores da população e baseando

seu trabalho numa ação sustentável.

Este trabalho é o que de fato

converteu o KKL na maior organização

verde do país.

Em sua mensagem, o presidente

do KKL ainda expressou seu agradecimento

aos amigos do mundo inteiro,

que ajudam o Keren Kayemet

LeIsrael em sua nobre tarefa de desenvolver

o país.

“Faço chegar à grande família que

trabalha no KKL, e a todos nossos

colaboradores e amigos em Israel,

meus melhores desejos de que possam

prosseguir com sua maravilhosa

tarefa para o bem das nossas crianças

e da próxima geração de Israel”,

observou Leket.

Em seu centésimo quarto ano, o

KKL continua sendo uma organização

relevante e ativa que cumpre com

abnegação e eficiência as missões

nacionais que lhe atribuem. Um relatório

sobre os projetos relacionados

com o desenvolvimento de solos

na década anterior, recentemente

entregue ao diretor geral do KKL,

Yitzhak Eliashiv, e aos membros do

Diretório, descreve uma ampla gama

de atividades em todo o país. E assinala

que nos dez últimos anos

(1996–2005), a Divisão de Desenvolvimento

de Solos investiu cerca

de US$ 700 milhões, dos quais US$

428 milhões foram com fundos do

KKL; em outras palavras, quase US$

43 milhões de fundos do KKL cada

ano. Na década passada dedicou-se

grandiosos orçamentos ao desenvolvimento

e melhoria de:

1. Projetos de preservação da

natureza e paisagismo; 2. Parques e

sítios turísticos e de recreação; 3.

Estradas e caminhos (sobretudo, estradas

de segurança e rotas paisagísticas);

4. Reservatórios; 5. Projetos

de educação ecológica e sionista

em Israel e no exterior.

Os resultados destes grandes investimentos

se percebem em todo o

país, tanto na melhoria da qualidade

de vida de seus habitantes como

no meio ambiente.

O KKL trabalha com a ajuda de

seus amigos e colaboradores no mundo

inteiro.

Esta é a situação real no presente,

quando se enfatiza o desenvolvimento

e promoção do Neguev.

As seguintes citações são só algumas

das idéias expressadas por

quem viu esta atividade conjunta

ao longo do país e em cada acontecimento

importante:

Horst Koehler, presidente da Alemanha:

“A árvore é um símbolo da

vida e esperança, e por isso me sinto

honrado e gratificado por ser o

primeiro hóspede estrangeiro que

planta um broto no Bosque das Nações”

(plantando uma árvore no Bosque

das Nações, fevereiro de 2005).

Irina Yarmushan, jovem soldada

da base militar de Shomera: “Fiz aliá

do Casaquistão faz três anos, e me

sinto orgulhosa de prestar serviço no

exército. É muito emocionante encontrar

gente que não nos conhece,

mas que se preocupa conosco através

do KKL. Sinto-me muito ligada

com os judeus da diáspora e sinto

como se eles estivessem aqui, conosco”

(No ato de dedicação de uma

área para os soldados e seus pais no

norte de Israel, doada pelos Amigos

do KKL no Canadá).

Lyle Oberg, ministro da Infra-Estrutura

de Alberta, Canadá: “O que

temos visto durante nossa visita

pode ser definido como um ato de

magia no âmbito da agricultura e da

pesquisa agrícola. Foi quase utópico

ver os hortos e campos que dão

frutos no deserto. Existe uma grande

sinergia entre Alberta e Israel.

Estou muito impressionado por tudo

o que vocês fizeram em Israel através

do KKL” (durante um passeio organizado

para uma delegação do Canadá,

para a cooperação com o KKL

em projetos ecológicos).

Miri Golan, presidente do Centro

Israelense de Origami: “Uma das características

mais definidoras do origami

é que não se desecarta nem se

desperdiça papel. O KKL, em seu caráter

de organização verde líder em

Israel, foi o associado natural para

esta atividade, porque a ausência de

desperdícios constitui uma mensagem

ecológica importante. O KKL

desenvolveu jogos de pássaros de

origami para que as famílias possam

usufruir criando passarinhos de papel”.

(Atividade para famílias no Vale

de Hula, Sucot, 2005).

Bat El Rokach, 12 anos, de Nissanit.

“Foi muito divertido. Saímos

em excursão e os guias nos explicaram

as coisas especiais que há aqui,

como o manancial e os animais.

Aprendemos sobre a tarefa do KKL e

foi realmente interessante. Aqui podemos

sair das casas quando caem

os projéteis Kassam”. (Num acampamento

de verão do KKL, especialmente

destinado a crianças de localidades

na linha de fogo).

Kjell Magne Bondevik, primeiro

ministro da Noruega: “Plantar uma

árvore é um investimento para o futuro;

espero que as relações entre

Noruega e Israel continuem se desenvolvendo

e gerando novas ramificações,

como esta árvore” (plantando

um medronho (arbutus andrachne)

no Bosque das Nações).

Yossi Dulah, presidente da Câmara

Municipal de Kfar Tabor: “O parque

é como um diamante incrustado

no coração de nossa comunidade, a

cujo serviço estamos dia-a-dia. Quero

expressar minha gratidão ao KKL

da América do Norte e a vocês, queridos

amigos em Israel. Com vossa

ajuda somos co-participes da construção

de Israel e da criação de um

futuro para todos nós”. (A uma delegação

do “Espírito israelense” na

dedicação de un parque doado pelo

KKL da América do Norte).

Ute Lehmann, de Frankfurt: “O

que se vê aqui (o lago Hula), e em

especial o que o KKL tem construído

e desenvolvido para os visitantes

nesta área durante o ano passado,

é realmente impressionante. O desenvolvimento

deste lugar é ótimo.

Até agora, nesta viagem vi umas 120

espécies diferentes de pássaros.

Amo este país e a sua gente muito

profundamente, e isso é o que importa

verdadeiramente”. (Giro de observadores

de pássaros de Israel para

uma delegação de Amigos do KKL

da Alemanha).

Chen Yung Long, embaixador da

República Popular da China em Israel:

“Esta é minha primeira visita, e

me causou uma grande impressão.

Simplesmente, aqui fizeram milagres

no deserto; nós, na China, podemos

aprender muito de vocês e certamente

podemos gerar projetos conjuntos.

Depois de tudo, temos grandes

extensões desérticas”. (Dia aberto no

Aravá, na Estação de Pesquisa e Desenvolvimento

do KKL).

Meir Huss, instrutor na Associação

dos Deficientes Visuais de Haifa:

“Em qualquer momento em que

nossos membros deixam suas quatro

paredes, trata-se de uma experiência

singular para eles, em especial as

saídas para a natureza, e em particular

num dia tão claro de inverno”.

Amos Ben-Eliezer, de Kiriat Haim:

“Sinto-me aqui como um peixe na

água. Para mim, um passeio como

este é um sonho; estas são coisas

que conheço, e tudo é fascinante. A

descrição do trabalho cotidiano na

creche Lavi do KKL, e as variedades

de árvores e arbustos escolhidos

para plantá-los me falam diretamente

ao coração. Estou planejando um

jardim modelo próximo da Sociedade

para Cegos em Haifa, para que os

deficientes visuais possam tocar,

cheirar e saborear uma variedade de

plantas usadas para diversos fins,

como nos lugares especiais do KKL”.

(Tu Bishvat para um grupo de deficientes

visuais num local do KKL no

norte do país).

Shmulik Rifman, presidente do

conselho regional de Ramat Hanéguev:

“Nesta região há 23 granjas.

Vêm visitantes de todas partes, para

conhecer o vinho, os queijos, o azeite

de oliva e as hospedagens junto

a paisagens esplêndidas. Sentimos

que o desenvolvimento e o turismo

ocupam um lugar mais destacado na

vida cotidiana dos habitantes da

região. Sem o KKL, o desenvolvimento

das granjas particulares e a agricultura

regional estariam paradas há

muito tempo”. (Visita às granjas no

Neguev, dezembro de 2005).


ministro de Justiça da

França, Pascal Clément,

confirmou que a juíza de

instrução que investiga o

seqüestro, a tortura e o

assassinato de Ilan Halimi, um jovem

judeu, comerciante de móveis

por um bando armado, considerou “o

anti-semitismo” como “causa agravante”

do crime.

A mãe de Ilan, o judeu de 23 anos

assassinado em Paris, declarou dia 20/

2 ao jornal israelense Haaretz: “Se o

meu filho não fosse judeu, não teria

sido assassinado”. Um dos assassinos

de Ilan reconheceu diante da Justiça

que “decidiram atacar Ilan porque ele

era judeu, e os judeus são ricos”, declarou

Clément num encontro com o

Conselho de Representantes das Instituições

Judaicas da França (CRIF). O

grupo se fazia chamar “os bárbaros”,

e era integrado por jovens de um subúrbio

ao norte de Paris, a maioria de

confissão muçulmana.

Youssef Fofana, originário da Costa

do Marfim, 25 anos e chefe do grupo

criminoso, foi detido na Costa do Marfim,

na África, para onde fugiu após a

repercussão do crime. Ele está sendo

extraditado para a França. Interrogado,

Fofana negou ter agido por antisemitismo,

ainda que seu grupo tenha

tentado seqüestrar desde dezembro pelo

menos outras seis pessoas, das quais

quatro eram judeus. Policiais viajaram

a Abidjan para prendê-lo, pois tratavase

de pegar o homem mais procurado

da França, em meio ao impacto que

provocou o caso na opinião pública.

Vários jornais franceses noticiaram o

assassinato em suas capas e prosseguiram

com as últimas revelações do

caso. O Libération deu a manchete: “A

pista anti-semita”, enquanto Le Parisien

destaca “a grande inquietude da comunidade

judaica”.

O primeiro-ministro, Dominique de

Villepin, assegurou aos dirigentes do

CRIF que se saberá de “toda a verdade”

sobre o assassinato de Ilan. Villepin

recordou que a luta contra o

anti-semitismo é “um dever moral” e

uma “prioridade absoluta”. O chefe

do Governo acrescentou que as agressões

anti-semitas caíram na França

47% em 2005, após a onda de ataques

contra interesses e pessoas judias

em 2003 e 2004.

O corpo de Ilan foi descoberto na

periferia de Paris em 13 de fevereiro,

amarrado e com uma venda nos olhos,

com sinais de violência e queimaduras

em 80 por cento de seu corpo. O jovem

faleceu a caminho do hospital.

A mãe da vítima, Ruth Halimi, disse

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

Assassinato de jovem francês

teve motivação anti-semita

que a Polícia escondeu uma possível

motivação anti-semita do crime “porque

temia reavivar a confrontação com

os muçulmanos”. “Dissemos aos policiais

que houve outras três tentativas

de seqüestro de jovens judeus, mas

eles insistiam em considerar que o

móvel era puramente criminoso”, queixou-se

Ruth Halimi.

Os familiares não pagaram nenhum

valor a pedido da polícia francesa: “Cinco

dias antes de encontrar Ilan, a polícia

nos disse para que não respondêssemos

às mensagens. Ilan talvez não

tivesse sido assassinado se tivéssemos

respondido”, declarou Ruth Halimi ao

jornal Haaretz.

A quadrilha atraiu Ilan por meio de

uma garota atraente que o fez crer que

estava interessada nele, numa visita à

loja de móveis onde trabalhava, no centro

de Paris. Ao aceder ao encontro

marcado com ela, aconteceu o seqüestro.

O seqüestro, a tortura e o assassinato

de Ilan Halimi, levou a Polícia Judiciária

de Paris a pedir, na semana

seguinte, aos comerciantes que “desconfiem”

de “garotos e garotas jovens

e bonitos” que tentassem elogiá-los.

Cerimônia

O presidente francês, Jacques Chirac,

e o primeiro-ministro, Dominique

de Villepin, assistiram à cerimônia religiosa

numa sinagoga de Paris em homenagem

ao jovem judeu torturado e

assassinado. Cerca de 1.500 pessoas

lotaram as dependências da Sinagoga

da Vitória, e centenas delas se amontoaram

na entrada diante da impossibilidade

de ter acesso ao interior do

centro religioso.

Vários membros do Governo, assim

como o líder do Partido Socialista, François

Hollande, confortaram a comunidade

judaica francesa, abalada pelo

crime. Chirac consolou a mãe de Halimi

logo após entrar na Sinagoga, na

qual o rabino leu uma mensagem antes

que o ato religioso acabasse com

um canto de paz.

O crime brutal revelou a conexão

existente entre a criminalidade comum

e a ideologia anti-semita estimulada por

setores islâmicos, nos explosivos subúrbios

parisienses, onde a violência procura

justificar a delinqüência dos imigrantes

excluídos da sociedade. Seqüestrado,

Halimi foi levado para Bagneux,

subúrbio do sul de Paris. Entre seus captores,

incluíam-se muçulmanos “politizados”

(um deles, filho de um jornalista

egípcio, correspondente estrangeiro na

França). Lá o rapaz ficou três semanas

trancado no porão de um imóvel.

A gangue telefonou várias vezes para

a família de Halimi pedindo um resgate

de 500 mil euros (cerca de R$ 1,2

milhão), depois abaixado para 200 mil

euros (R$ 500 mil); fazia-a ouvir versos

do Corão enquanto, ao fundo, Ilan gritava

submetido às mutilações. Enviaram

fotos do seqüestrado, sempre com

os olhos vendados. Em suas mensagens,

diziam: “Os euros ou preparem as pompas

fúnebres”.

Culminando o horror, parentes e

vizinhos dos seqüestradores, ao saberem

da existência de um refém judeu

nas redondezas, ofereceram colaboração,

tomando parte nas torturas.

Quando a gangue percebeu que

a família, de classe média baixa não

poderia pagar o resgate exigido, incendiou

o corpo da vítima e abandonou-a

agonizante no dia 13 de fevereiro. Halimi

foi encontrado perto dos trilhos do

trem da estação Sainte-Genevieve-des-

Bois, fora de Paris, amarrado a uma

árvore. Estava nu, amordaçado, manietado,

faminto, com queimaduras e cortes

em 80% de seu corpo. A caminho

do hospital, Ilan morreu por causa dos

ferimentos.

Segundo a polícia, a gangue “manteve-o

nu e amarrado por semanas. Cortaram

pedaços de sua carne, dedos e

orelhas, e no final jogaram um líquido

inflamável em seu corpo e o incendiaram.

Foi um dos assassinatos mais cruéis

que já vimos”, disseram os policiais. Um

dos jovens torturadores detido confessou

que seus cúmplices revezavam-se

para apagar cigarros na testa da vítima

dizendo que odiavam judeus.

A polícia encontrou com um dos suspeitos

folhetos do Comitê de Caridade

Palestino (associado ao Hamas), e descobriu

que a gangue já havia tentado

VJ INDICA

Paisagens da memória

Ruth Klüger

Editora 34

raptar outro judeu antes,

ferido um judeu de 50

anos que teve de ser hospitalizado,

e jogado uma

granada de mão contra

um médico judeu.

O ministro do Interior

Nicolas Sarkozy, declarou

à Assembléia Nacional

que a gangue visava judeus,

convencida de que

“judeus têm dinheiro”. O

primeiro-ministro Dominique

de Villepin chamou a

polícia à responsabilidade

por ter recusado inicialmente

as motivações antisemitas

do seqüestro.

A Justiça já implicou Ilan Halimi

17 pessoas na morte de

Halimi, das quais 14 foram

presas e acusadas pela circunstância

agravante de crime cometido devido

à religião da vítima. Entre os presos

estão os seqüestradores, o porteiro do

imóvel onde a vítima foi torturada, membros

do bando, e três mulheres utilizadas

como iscas nesta e outras tentativas

de seqüestro, além de um suposto

“braço direito” do grupo, suspeito de

crimes de extorsão.

No dia 26 de fevereiro, em protesto

a esse crime hediondo, o CRIF, a Associação

SOS-Racismo e a Liga Contra o

Racismo e o Anti-semitismo (Licra) organizaram

uma passeata: entre 200 mil

(cálculos dos organizadores) e 33 mil

pessoas (cálculos da polícia), incluindo

políticos como o ministro Sarkozy e o

ex-premiê Lionel Jospin, artistas e intelectuais,

participaram do protesto

contra o racismo e o anti-semitismo na

capital parisiense.

LIVRO

Viena 1938. Uma menina de sete anos ouve gritos daqueles que celebram a

anexação da Áustria pela Alemanha nazista. Vivendo no interior da comunidade

judaica, Ruth Klüger viu sua cidade natal ser convertida gradualmente

em uma espécie de prisão. Deportada em 1942 junto com sua mãe para o

campo de Terezin, foi transportada num trem de carga em 1944, aos doze

anos de idade, para Auschwitz-Birkenau. De lá escapa no último minuto, ao ser

escolhida para compor um grupo de trabalhos forçados em Christianstadt. É um relato autobiográfico

inesquecível e um acerto de contas exemplar com o acontecimento histórico mais terrível

do século XX.

5


6

O revisionista David

Irving: oscilação em negar

o Holocausto

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

Tribunal Regional de Viena

condenou dia 20/2 o

revisionista britânico David

Irving a três anos de prisão

sem condicional por negar

o Holocausto e a política

de extermínio nazista durante a

Segunda Guerra Mundial.

Diante do tribunal, Irving se declarou

culpado de negar o Holocausto -

crime previsto no código penal austríaco

-, o que deu ao historiador popularidade

nos círculos revisionistas

de extrema direita, especialmente

neonazistas, racistas e

até entre radicais islâmicos.

A condenação, por unanimidade,

por parte dos oito membros

do júri se baseia em dois

discursos públicos feitos na

Áustria em 1989, quando Irving

negou a existência de câmaras

de gás em Auschwitz e disse

que a “Noite dos Cristais”, a primeira

grande perseguição violenta

contra os judeus da Alemanha

em 1938, não foi cometida

pelos nazistas.

Ao dar o veredicto, o juiz Peter Liebetreu

disse que “a confissão (prévia

de Irving) não pareceu um ato de arrependimento,

e por isso não se levou

em conta no peso da condenação”.

Revisionista condenado a três anos

de prisão por negar o Holocausto

David Irving se declara culpado, mas depois volta a negar o genocídio dos judeus

“Estou comovido, muito comovido”,

disse Irving à imprensa após o veredicto,

na saída do edifício, onde estavam

partidários do historiador revisionista

para mostrar apoio.

A acusação contra Irving prevê punição

de até 10 anos de prisão, mas

muitos analistas previam que com a

aceitação das acusações e a contrição

pública do acusado, declarandose

culpado, a condenação seria de

apenas alguns meses, por isso a decisão

final supera amplamente as suposições

iniciais.

Condenado, volta a negar

O britânico David Irving, entretanto,

reiterou na quinta-feira 2/3, os comentários

que negam a existência do

Holocausto, uma semana depois de ter

sido condenado a três anos de prisão

pelo tribunal austríaco por ter negado

a morte de seis milhões de judeus durante

a Segunda Guerra Mundial.

“Não há evidência de um extermínio

organizado em massa”, declarou

Irving, de 67 anos, numa entrevista à

Agência de Imprensa Austríaca, concedida

na prisão de Viena onde está encarcerado.

E negou a existência de “um

programa contra os judeus” durante o

Terceiro Reich alemão, ao mesmo tempo

que destacou que “não foi contra

todos os judeus, ex professo”.

“Se tivesse existido um programa,

200.000 judeus não poderiam ter emigrado

entre 1933 e 1939”, declarou.

“Teria sido melhor se o líder nazista,

Adolf Hitler, e o chefe das SS, Heinrich

Himmler, tivessem trocado judeus por

moeda estrangeira”.

“Devemos reagir. Ninguém pode ignorar

isto”, afirmou a promotoria britânica

depois de uma série de comentários

semelhantes feitos na quarta-feira

1º/3, por Irving em uma entrevista concedida

à BBC.

Irving se declarou culpado no começo

do julgamento, em fevereiro, de

ter negado o Holocausto em 1989, mas

garantiu que havia mudado de opinião

e que reconhecia a existência das câmaras

de gás em Auschwitz.

Na quinta-feira 2/3, o historiador

criticou a lei pela qual foi condenado,

qualificando a mesma de ridícula

e absurda, além de comparar o comportamento

da Áustria com o da Alemanha

nazista.

“Estou preso aqui, apesar de apenas

ter utilizado a minha liberdade de

expressão. Deveriam se vingar com

seus próprios cidadãos, não com os estrangeiros”,

disse.

Em suas primeiras declarações, Irving

se dissera culpado das acusações contra

ele, de acordo com seu advogado, Elmar

Kresbach, ao entrar no tribunal.

Em seu discurso de abertura, durante

o julgamento, o promotor Michael

Klackl afirmou que Irving “é tudo menos

um historiador, é um ambicioso falsificador

da história”.

O promotor acusou o polêmico britânico

de tentar difundir uma versão

falsa da história da Segunda Guerra

Mundial, segunda a qual “não houve

câmaras de gás, nem nenhum assassinato

sistemático de massas organizado

pelos nazistas”.

Michael Klackl lembrou que, por diversas

vezes, Irving se referiu publicamente

às câmaras de gás dos campos

de concentração e ao extermínio promovido

pelos nazistas como um conto

de fadas e uma mentira. O promotor

também disse que o britânico já negou

o assassinato de milhões de pessoas.

Na versão de Irving, houve crimes

isolados durante o nazismo, mas relativamente

poucos. Ao fazer um resumo

das teses defendidas nos livros do acusado,

o promotor destacou que ele afirma

que a maioria das vítimas dos campos

de concentração morreu de causa

natural, como epidemias.


egundo o Sêfer

Yetzirá, cada

mês do ano judaico

tem uma

letra do alfabeto

hebraico, um signo do

Zodíaco, uma das doze

tribos de Israel, um sentido e um

membro controlador do corpo que

correspondem a ele.

Adar é o décimo segundo mês do

Calendário Judaico.

A palavra Adar é cognata ao hebraico

Adir, que significa “força”.

Adar é o mês da boa sorte para o

povo judeu. Nossos Sábios dizem a

respeito de Adar: “Sua mazal [sorte]

é forte”.

Purim, o dia festivo de Adar, este

ano nos dias 13 e 14/3, comemora a

“metamorfose” da aparente má sorte

dos judeus (como pensava Haman)

para boa. “Quando chega Adar, nós

intensificamos em júbilo”. A Festa de

Purim assinala o ponto alto na alegria

do ano inteiro. O ano judaico

começa com o júbilo da redenção de

Pêssach e termina com a alegria da

redenção de Purim. “O júbilo quebra

todas as barreiras”.

O júbilo de Adar é o que faz deste

mês o mês “grávido” do ano (i.e.,

sete dos dezenove anos no ciclo do

calendário judaico são “anos embolísmicos”

– “grávidos” com um mês

de Adar adicional).

Quando há dois Adars, Purim é

celebrado no segundo Adar, para conectar

a redenção de Purim com a

redenção de Pêssach. Assim, vemos

que o segredo de Adar e Purim é “o

fim está cunhado no início”.

Letra: kuf

A letra kuf significa “macaco”

(kof), o símbolo do riso no mês de

Adar. Segundo a expressão “como um

macaco no rosto do homem”, o kuf

também simboliza a fantasia, um costume

aceito em Purim. Antes do milagre

de Purim, o próprio D-us “ocultava

Sua face” de seus filhos Israel

(em toda a história de Purim, como

está relatada no Livro de Ester, Seu

nome não aparece uma vez sequer).

Ao esconder inicialmente a própria

identidade, fingindo ser outra pessoa,

a essência interior do verdadeiro

“eu” da pessoa torna-se revelado. Em

Purim, atingimos o nível da “cabeça

desconhecida” (“a cabeça que não

se conhece nem é conhecida dos

outros”), o estado de total ocultação

existencial do ser pelo ser, pelo

mérito de “dar à luz” um supremo

novo ser.

A palavra kuf também significa

“buraco da agulha”. Nossos Sábios

ensinam que nem mesmo no sonho

mais irracional pode-se ver um elefante

passando pelo buraco de uma

agulha. Mesmo assim, em Purim

vive-se esta grande maravilha que,

na Cabalá e Chassidut, simboliza a

verdadeira essência infinita da luz

transcendente de D-us entrando no

contexto finito da realidade física

e revelando-se por completo à

alma judaica.

Mazal: dagim (Peixes)

Peixes são criaturas do “mundo

oculto” (o mar). Assim também são

as almas de Israel, “peixes” que nadam

nas águas da Torá. A verdadeira

identidade e sorte de Israel é invisível

neste mundo. A revelação de Purim,

a revelação da verdadeira identidade

de Israel, reflete a revelação

do Mundo Vindouro (o milagre de

Purim é entendido para refletir neste

mundo o supremo milagre: a ressurreição

no Mundo Vindouro).

A palavra “dag” (singular de “dagim”)

é interpretada para representar

o “tikun” (retificação) de da’ag

– “preocupar-se”. Na Torá, a palavra

para peixe – dag – na verdade aparece

escrita uma vez como da’ag: na

época de Nechemia, alguns judeus

não observantes profanaram a santidade

do Shabat vendendo peixe no

mercado de Jerusalém. Seu “peixe”

tinha se transformado em excessiva

“preocupação” pelo ganho do próprio

sustento. Na direção oposta, o

peixe do júbilo de Purim, a forte

(embora inicialmente oculta, como

peixe) mazal de Adar, converte toda

a preocupação na alma do homem na

suprema alegria da redenção com o

novo nascimento do ser, da “cabeça

desconhecida”.

Tribo Naftali

Na Cabalá, o nome Naftali é lido

como duas palavras: nofet li, “doçura

é para mim”. A mitsvá em Purim, de

atingir o nível da “cabeça desconhe-

cida” ao beber vinho, etc., é expresso,

nas palavras de Nossos Sábios,

como: “A pessoa em Purim é

obrigada a tornar-se doce, até que

seja incapaz de diferenciar entre

‘maldito seja Haman’ e ‘abençoado

seja Mordechai’”.

Esta é a expressão de júbilo e

riso ao nível de Naftali – nofet li.

Nosso Patriarca Yaacov abençoou

seu filho Naftali: “Naftali é um cervo

enviado [mensageiro], que dá

[expressa] palavras eloqüentes”.As

“palavras eloqüentes” de Naftali provocam

júbilo e riso aos ouvidos de

todos que escutam. Ao final da Torá,

Moshê abençoou Naftali: “A vontade

de Naftali está satisfeita…” Na

Chassidut é explicado que “vontade

satisfeita” (seva ratzon) refere-se ao

nível da vontade na dimensão interior

de keter, onde toda experiência

é puro deleite, o estado de ser

no qual a pessoa não deseja nada

além de si mesma.

As três letras que compõem o

nome Haman possui seis permutações.

Haman = 95; 6 x 95 = 570 =

rasha (perverso), razão pela qual Haman

é chamado “Haman, o perverso”.

570 (também) Naftali, que leva

alegria e risos ao jogar o jogo de

seis permutações de Haman. Na Cabalá,

está explicado que a “eloqüência”

de Naftali reflete sua sabedoria

para permutar palavras em geral

(bem como examinar gematriot, tais

como arur Haman [“maldito seja

Haman”] = 502 = baruch Mordechai

[“bendito seja Mordechai”], o “jogo

mais prazeroso” (sha’ashu’a) do estudo

de Torá).

Como foi explicado previamente,

os meses de Tishrei e Cheshvan correspondem

(segundo o Arizal) às duas

tribos de Ephraim e Menashe, os dois

filhos de Yossef. Yaacov abençoou

seus dois netos Ephraim e Menashe

para serem como peixes: “E eles serão

como peixes no meio da terra”.

Estas duas tribos (o início do ano a

partir de Tishrei) refletem-se em Adar

e Naftali (o final do ano a partir de

Nissan), pois Adar divide-se em dois

(assim como Yossef se divide em dois)

peixes (Ephraim e Menashe). O apoio

numérico para isso é que quando

Ephraim (331) e Menashe (395) se

combinam com Naftali (570): 331

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

O Mês de Adar

– de 1º a 29 de março

Purim, a festa da sorte e da alegria

mais 395 mais 570 = 1296 = 36 ao

quadrado = 6 para o quarto poder.

Sentido: Riso (tzchoc)

O riso é a expressão da alegria

desenfreada, que resulta de testemunhar

a luz saindo da escuridão – “a

vantagem da luz sobre as trevas” –

como é o caso do milagre de Purim. O

epítome do riso na Torá é o caso de

Sara no nascimento de Yitschac (cujo

nome deriva da palavra tzchok): “D-us

fez-me rir, quem quer que

me escute rirá comigo”.

Dar à luz aos 90 anos

(e Avraham aos 100),

após ser estéril e fisicamente

incapaz

de ter filhos é testemunhar

a Divina

Luz e o milagre emergindo

da total escuridão.

A palavra em hebraico

para “estéril” é composta das

mesmas letras (na mesma ordem)

que a palavra para “trevas”.

Purim vem da palavra pru,

“crescei e multiplicai-vos”. Sobre

Yitschac, a personificação do riso na

Torá, diz-se que “o temor [fonte de

reverência, i.e., D-us] de Yitschac”.

Esta expressão também pode ser lida

como “o temor rirá” – a essência do

medo se metamorfoseará na essência

do riso. Quanto a Purim, o temor

de (o decreto de) Haman se transforma

no riso exuberante da Festa

de Purim.

Controlador: o baço

Nossos Sábios declaram explicitamente

que “o baço ri”. À primeira

vista, isso parece paradoxal, pois o

baço é considerado o local do “humor

negro”, a fonte de todos os estados

de depressão e desespero. Assim

como descrevemos acima, todos

os fenômenos de Adar e Purim são

essencialmente paradoxais, pois todos

eles derivam da “cabeça desconhecida”,

e todos eles representam

estados de transformação existencial

e metamorfose. A “metodologia”

na Torá que “modela” estes fenômenos

é a sabedoria da permutação,

como foi descrito acima. No que diz

respeito ao “humor negro” – “mará

shechorá” – suas próprias letras

permutam-se para grafar “hirhur sameach”

– “um pensamento feliz!”.

(www.chabad.org.br).

7


8

Elias Canetti

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

* Joseph Eskenazi

Pernidji é advogado e

escritor. Livros publicados:

pela Imago Editora: “Girassóis

de Van Gogh – As flores do sol”

(crônicas); “Das Fogueiras da Inquisição

às Terras do Brasil – a viagem de 500 anos

de uma família judia”; “Homens e Mulheres

na Guerra do Paraguai”; “A Saga dos

Cristãos-Novos” pela Editora Relume

Dumará :“Tribunal da História -

Julgando as Controvérsias

da História Judaica

(co-autoria com

diversos autores).

Um olhar sobre Elias Canetti

Joseph Eskenazi Pernidji*

ilho de judeus sefaradim,

Elias Canetti, prêmio Nobel

de Literatura em 1981,

nasceu em Ruschuk, na

Bulgária. Filho de um Canetti

e de uma Arditi, teve, na sua primeira

infância, a vida típica das famílias

de judeus balcânicos de origem

hispânica. Sua língua materna

foi o ladino1 , na qual se expressavam

não só seus pais como toda a

sua parentela.

No início do

século XX, dada a

proximidade com

o império austro-húngaro,sobretudo

os judeus

gregos e

búlgaros tinham

uma grande atração

pela cultura

alemã (austríaca).

Viena com

seus doutores e

suas universidades

era tida por

eles como centro

cultural da Europa.

Canetti, ironicamente,

em

um de seus ensaios,

escreveu

que em Viena, em

cada duas pessoas, uma era “doutor”.

Ao receber o prêmio Nobel, no

discurso de recepção que foi proferido

pelo Dr. Johannes Edfelt, este

lhe atribuiu como pátria a língua

alemã. Se entendermos que a língua

é um dos elementos marcantes da

nacionalidade, sem dúvida, Elias

Canetti é um autor alemão, pois neste

idioma escreveu toda a sua obra.

Embora fosse um crítico mordaz

das famílias sefaradim por se atribuírem

as mesmas um halo de

nobreza por conta da

sua descendência

espanhola, não

esqueceu o ladino

de sua infância

na qual

emitiu as suas

primeiras palavras.

O alemão

herdado

de sua mãe

foi a sua grande

paixão.

As obras seminais

de Canetti

são o romance

“Auto-da-fé” e “Massa e Poder”. São

produções de eminente caráter psicossocial,

escritas no mais puro alemão

literário e constituem o que hoje

o público chamaria de uma leitura

difícil. Os seus mais honestos tradutores

confessam que o leitor não poderá

apreender inteiramente o pensamento

introspectivo de Canetti se

não conhecer os originais. Sua linguagem

o aproxime de Joyce e de

Musil2 . Filho espiritual de Karl Klaus3 ,

foi considerado por Thomas Mann um

autor adiante do seu tempo. A sua

incursão na dramaturgia teatral revelou

o “teatro do absurdo”, linha

mais tarde seguida por Ionescu. Se

os críticos literários esmiuçaram a

sua obra e dela tiraram as mais diversas

conclusões, para entender

Canetti é preciso ler a sua autobiografia

escrita por volta dos anos 60,

muito após a publicação dos livros

que o tornaram famoso. Trata-se de

uma trilogia iniciada com “Die gerettete

Zunge Geschichte einer Jugend”

(“A Língua Absolvida”), passando

por “Die Fackel im Obr Lebengeschichte,

1921-1931” (“Uma Luz

em Meu Ouvido”), e terminando com

“Das Augenspiel Lebengeschicht:

1931-1937” (“O Jogo dos Olhos”).

Seu romance “Die Blendung”, cuja

tradução literal seria O Cegamento,

ao passar para o inglês, o francês e

os idiomas latinos em geral, foi traduzido

como “Auto-de-Fé”. Isto porque

o personagem Kien se confunde

com a sua biblioteca, ao ponto de

perguntar-nos se a figura principal

do romance não seria a própria biblioteca.

São livros que falam, que

discutem entre si e com o seu dono.

Depois de muitas peripécias, o romance

termina num verdadeiro holocausto

em que, entre labaredas de

fogo, se queimam os livros e seu proprietário.

As letras saem dos livros

implorando por sua vida. Tudo termina

como se fora um grande autode-fé,

com Kien soltando entre as

chamas uma gargalhada tão estrepitosa

como nunca havia soltado em

toda a sua vida.

Na sua juventude, passou por

Manchester, Zurique, Frankfurt, Berlim,

fixando-se, na maior parte do

tempo, em Viena. Nas vésperas da

invasão da Áustria por Hitler, mudouse

para a Inglaterra onde terminou

seus dias em 1984. Embora tenha

passado mais de 40 anos de sua vida

na Inglaterra, não se nota em sua

obra reflexos da sua “vida inglesa”.

Diferentemente de outros refugiados

do nazismo, que encontraram guarida

na Inglaterra e nos Estados Unidos,

Canetti se revelou passivo durante

a Segunda Guerra Mundial.

Dedicou um tempo enorme à sua

guerra particular contra o grande

poeta T.S. Elliot.

Sejam quais forem as influências

que exerceram sobre ele essas cidades,

foi, na verdade, um vienense sob

todos os aspectos. Caráter introspectivo,

desde muito cedo revelou seu

talento, sua genialidade e, sobretudo,

sua ânsia de saber. Do saber, no

seu mais profundo sentido, numa

sede inesgotável de aprender cada

vez mais sobre todos os assuntos que

explorava a sua mente inquiridora.

Não se rendeu às teorias de Freud

e ironizava o chamado “ato falho”

que, segundo ele, passou a ser moda

vienense. Na verdade, entretanto,

viveu um típico drama freudiano nas

relações com sua mãe. Mulher voluntariosa,

bela e profundamente culta,

influiu poderosamente na educação

de Canetti, mantendo com o mesmo

diálogos altamente eruditos, discutindo

os clássicos e os autores da

época. Paixão e ódio conturbaram

esse relacionamento. Considerandose

ligado à mãe por um elo que o

escravizava, lutou para libertar-se de

sua influência, luta esta que terminou

num afastamento definitivo.

Freqüentador dos círculos mais

intelectualizados de Viena, mantinha

visitas constantes aos famosos “cafés”

da cidade onde, em longas conversas,

escolhia os seus interlocutores,

pois não tolerava tagarelices de

autores ou personagens menores dentro

da sua ótica cáustica de julgamento.

Arrasava sem piedade ícones

da literatura aceitos pelo grande público,

levando ao ridículo autores

como Stephan Zweig e Emil Ludwig.

Desprezou Heine e, quando em Berlim,

recebeu com frieza a “Threepenny

Opera”, de Bertolt Brecht.

Canetti era um grande conversador.

A discussão de qualquer assunto

assumia em sua mente o caráter

de uma batalha. E na batalha

haveria, obrigatoriamente, vencedores

e perdedores.

Seu desprezo pelo dinheiro em si e

por todos aqueles que constituíam o que

ele chamava a burguesia dos comerciantes,

industriais e banqueiros, cortava-lhe

a própria carne, pois era nessa

classe que se situava a sua família.

Não hesitou em apontar tipos avarentos

e homens de negócio de ori-

gem sefaradi conhecidos de sua família,

descrevendo-os como verdadeiros

monstros. Uma das figuras era

de tal modo miserável que, apesar de

milionário, vestia-se de mendigo

para pedir esmolas, e na sua velhice

carcomida, queimava cédulas para

não deixá-las para seus herdeiros,

personagem este que coabitava com

aquela que viria a ser a sua primeira

mulher, Veza, também de uma família

tradicional sefaradi, os Calderón.

Ao traçar o perfil do Harpagão, que

vivia achando que lhe roubavam o

dinheiro, valeu-se, como em outras

ocasiões, do ladino para caracterizar

tipos e pessoas de origem sefaradi:

“Me arrovaron las parás” (Me roubaram

o dinheiro).

Essas tiradas em ladino aparecem

de vez em quando, aqui e ali, na sua

autobiografia. Sempre considerou o

ladino, embora o usasse freqüentemente

com seus parentes, uma língua

de cozinha, e demonstrou sua

enorme surpresa quando, ainda jovem,

em férias na sua cidade natal, encontrou

uma enorme efervescência em

torno da imigração para Israel e um

intenso proselitismo sionista. O que

lhe chamou atenção foi um primo seu

que fazia fervorosos discursos em ladino.

Pela primeira vez, percebeu que

o ladino também poderia ser usado

não só para atrair as massas como em

produções literárias.

Por mais que se vasculhe a obra

de Canetti, não encontraremos nela

qualquer influência da cultura judaica

mesmo nas maiores introspecções

filosóficas ou quando desnuda o seu

próprio eu na sua autobiografia. Ao

contar a sua vida nos anos 30, o

nome de Hitler passa de raspão em

uma das páginas da trilogia.

Quando escreveu, entretanto,

“Massa e Poder”, muito antes da autobiografia,

analisou o nacional-socialismo

de Hitler, determinando que

só foi possível ao povo alemão segui-lo

pelo que ele considera o centro

da alma germânica, isto é, a adoração

e o respeito pelo exército, a

massa do poder.

Na sua percepção, ainda que pareça

estranho, atribuiu como causa

do holocausto, da passividade ou

mesmo do apoio dado pelo povo alemão,

a monstruosa inflação que se

apoderou da Alemanha depois da

Primeira Guerra Mundial. Considerando

o dinheiro o centro da atenção

do homem, a sua desvalorização, o

seu valor reduzido a nada, criaria uma

sensação de vazio, fazendo com que


as mentes passassem a não dar importância

à âncora em que se haviam

agarrado durante toda a vida.

Essa sensação de rejeição a um dinheiro

que nada valia e que fora

o sustentáculo de uma nação, deteriorou

os espíritos. Com a propaganda

de que os judeus eram

os “donos do dinheiro”, a massa

da população foi induzida a crer

que a destruição dos judeus era

tão descartável como o dinheiro

sem valor. Do mesmo modo que se

queimavam em protesto as cédulas

em praça pública, a fim de extirpar

o mal, também se poderia

queimar e destruir os judeus.

Esta percepção ilustra bem

como funcionava a mente de Canetti.

Um dos seus críticos chegou

à conclusão que o cerne do

seu pensamento foi o eterno “combate

do homem contra a morte”. É

esse combate que garante a sobrevivência

da espécie.

Judeus como Walter Benjamin

e Stephan Zweig se suicidaram por

não terem suportado a perda de

suas raízes alemãs e austríacas. O

fato de Canetti ter nascido numa

família sefaradi, adotando-lhe costumes

e culinária, falando sua língua,

não deixou de impregnar-lhe

um sentido de vida que pode ser

traduzido em raízes que não perdeu.

Talvez isto explique, juntamente

com o seu perene “combate

à morte”, não ter ele apelado para

o suicídio, apesar de seu “mundo”

ter ruído diante dos próprios olhos.

O LEITOR

ESCREVE

Pesar por Ilan Halimi

Prezados Amigos:

Queremos expressar o nosso profundo

pesar pela morte trágica de

Ilan Halimi, em Paris. Os nossos corações

se sensibilizam com sua família,

os amigos e a Comunidade Judaica.

Gostaríamos que vocês soubessem

que compartilhamos essa dor e

pesar com vocês, e nesses dias lembramo-nos

de vocês em nossas orações

com amor. Tais atos de terrorismo

não podem ser tolerados pela comunidade

mundial, e nós já enviamos

uma carta à Embaixada da França

em Brasília, e para o Cônsul Geral

da França em São Paulo, solicitando

que sejam tomadas providências da

parte das autoridades francesas contra

o crescente número de atos de

Canetti, quando enfadado,

costumava cortar abruptamente as

conversas. Em sua mente vinhalhe

a lembrança de seu avô que

quando achava que as crianças,

com suas brincadeiras, haviam

passado do limite, gritava em ladino:

“Ya basta!”

Ficou-lhe na memória o perfume

das famosas rosas búlgaras e

quando esteve junto ao leito de

morte de sua mãe, levou-lhe rosas

que a inebriavam, fazendo-lhe recordar

os aromas dos jardins de

sua terra natal. Os gritos e as correrias

das crianças entre os irmãos

e primos voltavam-lhe à mente e

nesse fugidio momento respirava

a melodia do ladino. Mas, na verdade,

tudo não passava de um

pequeno traço da pátria búlgara

e de sua origem sefaradi. Navegou

para o porto das celebridades

através de uma pátria adotiva que

foi a língua alemã.

É em “Uma Luz em Meu Ouvido”,

que Canetti cria a fantasia

das “máscaras acústicas”. Era possível

ouvir luzes e imagens e através

dessa audição construir perfis

de seres humanos sem a necessidade

de vê-los ou tocá-los. A

sensibilidade do poeta parnasiano

é também capaz de dar asas à

profundidade do amor, que lhe

chega aos ouvidos como as luzes

de Canetti. A lira de Olavo Bilac

ouviu estrelas:

violência na França. Unidos com vocês

em sua dor.

Irmãs Adola e Nechama

Irmandade Evangélica de Maria no

Brasil Curitiba - PR

Ótima impressão

Senhores editores:

Adorei a seção “Receitas de Griffe”.

Tomei a liberdade de salvar as

que eu não conhecia nos Meus Documentos

do computador. Tive uma ótima

impressão do jornal Visão Judaica.

Parabéns.

Fani Grün Kaufmann Por e-mail

Nota da Redação: Que bom que

gostou. Só que agora, após

quatro anos, a seção “Receitas

com Griffe” foi substituída pela

coluna “Papo de Cozinha”,

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!”...

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

Assim é que um conceito eminentemente

filosófico encontra

sua expressão na sensibilidade da

veia poética. Em outras palavras,

podemos também inverter a proposição,

isto é, a filosofia da linguagem

tem também a sensibilidade

da poesia. Canetti foi um

gênio. Tudo o que escreveu o fez

com elegância de palavras. Seu

jogo com as palavras é inimitável.

Alguns de seus textos são tão

luminosos e sonoros, que foram

usados como poesia pura em libretos

de composições musicais.

O sefardismo e o ladino podem

não ter importância em sua obra,

mas deixaram marcas inolvidáveis

no homem.

Notas:

1 Língua usada pelos judeus sefaradim,

baseada em quase sua

totalidade, no espanhol da Idade

Média.

2 Autor austríaco de “O Homem Sem

Qualidades”.

3 Grande polemista austríaco das

primeiras décadas do século XX,

autor de “Os Últimos Dias da Humanidade”

e diretor e redator do

jornal satírico “A Tocha”.

assinada pelo gourmand Breno

Lerner.

Anti-semitismo

Amigos:

É com espanto que vejo surgir em

pleno século 21 um arremedo de Hitler,

o “presidente” do Irã, Mahmoud

Ahmadinejad, sem que o mundo lhe

dê um basta. A toda hora surge com

seu anti-semitismo, suas ameaças de

exterminar Israel e o seu povo judeu.

E continua a desafiar o Ocidente com

seu projeto diabólico de obter armas

nucleares, querendo enganar a todos

com a “estória da carochinha” de que

se trata de energia para fins pacíficos.

Desde quando um dos maiores produtores

de petróleo precisa de outra

fonte de energia?

Manoel Cardoso Telles São Paulo – SP

Para escrever ao jornal Visão Judaica basta passar um fax pelo telefone 0**41 3018-8018

ou um e-mail para visaojudaica@visaojudaica.com.br

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

Calendário de Eventos

Keilá do Paraná

Março/06

9

Obs: Todos os eventos desta programação, à exceção

do dia 26/3, serão realizados no CIP, na Travessa

Agostinho Macedo, 248.

Sexta-feira e sábado - Dias 10 e 11

SEMANA DA MULHER JUDIA

Um final de semana preparado especialmente para as

associadas, com Cabalat Shabat, palestras, tarde de

beleza, café colonial, aula de yoga e a primeira edição

do Prêmio Golda Meir.

Segunda-feira - Dia 13 - 19h

GRANDE COMEMORAÇÃO DE PURIM

Traga seus filhos fantasiados e divirta-se! Leitura da

Meguilá na sinagoga do CIP, comidas típicas e muita

alegria.

Terça-feira - Dia 14

LEITURA DA MEGUILÁ NA EIBSG

Purim na Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmann

Leitura da Meguilá de manhã e o tradicional baile à

fantasia infantil à tarde.

Domingo - Dia 19 - 15h30 e 16h

IDADE DO OURO

Início das atividades. Venha saber a programação super

especial que o grupo da terceira Idade terá em 2006.

Inauguração do Painel da Wizo – conheça a história da

Wizo no Paraná.

Quarta-feira - Dia 22 – 20h

ISRAELI DEGREE

Viver, estudar e se formar em Israel. Conheça tudo sobre

graduação, pós-graduação, mestrado e doutorado em

Israel, em uma noite de sfihas promovida pela Agência

Judaica e pela Hagashmá.

Sábado - Dia 25 – 20h

FESTA GREGA

Divirta-se em uma festa temática com muita comida,

música e diversão!

Local: Cip - Trav. Agostinho Macedo, 248.

Domingo - Dia 26 – 16h30

INAUGURAÇÃO DA NOVA SEDE DO ICJBS

Conheça a sede do Instituto Cultural Judaico-Brasileiro

Bernardo Schulman e saiba mais sobre o trabalho

dessa instituição.

Local: Rua Cruz Machado, 126.


10

Uma declaração de guerra

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

povo palestino declarou guerra a Israel.

Eles iniciaram formalmente um estado

de guerra ao eleger os candidatos

do Hamas para a maioria dos assentos

no Parlamento dos territórios palestinos,

ao mesmo tempo em que expulsaram assim

do poder o Fatah. Não só deram um voto de

confiança ao Estatuto do Hamas para a destruição

de Israel, como porta-vozes do Hamas disseram que

não haverá nenhuma mudança ele. Nem o Hamas

se desarmará, declarou outro líder do Hamas à agência

Associated Press.

O que poderia ser mais claro?

A menos que o Hamas sofra uma mudança fundamental

de filosofia, qualquer semelhança com um

processo de paz terminou e os palestinos provavelmente

podem esquecer do progresso econômico.

A eleição do Hamas é um retrocesso para representar

qualquer mudança fundamental; nunca

foi um processo crível de paz. Os palestinos cometeram

mais que meia-dúzia de atos de guerra

contra Israel desde que os líderes de Israel e da

Autoridade Palestina aceitaram fazer uma trégua

há quase um ano.

Não foi nenhuma surpresa que alguns repórteres,

políticos e outros observadores ficaram chocados

com os resultados da eleição. Eles freqüentemente

têm isso como erros nos desdobramentos do

Oriente Médio. Está claro que um grande segmento

do mundo árabe ainda se opõe mesma à existência

de Israel e está atolado num sistema tribal que

inclusive se previne da democracia. Esse é não o

lugar comum das atitudes de todos os indivíduos

árabes. Não há dúvida que palestinos comuns tenham

se inteirado sobre a corrupção do partido

Fatah, que liderou a Autoridade Palestina, primeiro

sob o despotismo de Yasser Arafat e depois com a

ineficácia de Mahmoud Abbas. Mas é preciso saber

quantos apoiadores do Hamas compartilham com

sua hostilidade para com Israel.

As lideranças israelenses já disseram que não

negociarão com o Hamas enquanto este permanecer

comprometido com a destruição de Israel. Este

curso da ação eleva-se a um nível de sensibilidade

que é óbvio e evidente. O governo palestino também

poderia perder anualmente até US$ 1 bilhão

em rendas dos Estados Unidos, Israel e das nações

européias por causa da posição do Hamas com re-

Bruce S. Ticker*

lação a Israel, mas eles poderiam ser compensados

pelo Irã, pela Arábia Saudita e caridade islâmica,

de acordo com reportagens.

As chances de o Hamas vir a tornar-se um parceiro

para a paz são ínfimas. Reportagens contam

que o Hamas realizou quase 60 atentados a bomba

fatais ao longo dos últimos cinco anos. Uma mulher

foi eleita em virtude da morte de três de seus filhos,

que foram mortos em ataques a israelenses.

Após a eleição ela disse que sacrificaria seus filhos

remanescentes se for necessário.

O Hamas também venceu em quarto dos seis distritos

com assentos que representam Jerusalém Oriental,

o que significa que tem muitos simpatizantes no que

agora é considerada parte integrante de Israel.

Se o Hamas consolidar o controle, há razões

para temer que eles lancem ataques de Gaza a Israel

e em assentamentos na Margem Ocidental. O

registro da violência do Hamas salienta a desconfiança

que se tem em superar e até mesmo revisar

seus planos e políticas para relações mais amigáveis

com Israel. Os líderes do Hamas podem até

agir de um modo num nível diplomático, mas poderiam

estar simultaneamente atrás de atos de violência

contra Israel.

Enquanto isso, o Hamas parece ser ido a uma

guerra civil com os partidários do Fatah que não

querem participação do Hamas.

O resultado de eleição não deveria ser nenhuma

surpresa para qualquer um que siga os eventos

do Oriente Médio nos últimos cinco anos, até mesmo

como um acaso. Os palestinos rejeitaram uma

oferta que lhes teria dado a maior parte do que

agora eles exigem; lançaram uma guerra que deixou

mortos 1.000 israelenses, além de 2.500 mortos

entre os seus próprios; e desde a última trégua

em fevereiro, israelenses foram assassinados em

seis atentados e em um ataque a tiros.

Abbas, o presidente da Autoridade Palestina,

pode ter sido perfeitamente sincero em procurar

estabelecer a paz com Israel, mas por alguma razão

ele não controlou terrorismo em seu meio.

Até o mês passado, era impossível quantificar

quantos palestinos desejam a destruição de Israel,

mas no dia 25 de janeiro, uma maioria esmagadora

de palestinos votou em uma força que demonstra

claro como um cristal que Israel deve ser demolido.

Agora isso é uma declaração de guerra.

* Bruce S. Ticker é comentarista e publica a coluna “Crisis: Israel”. É editor comunitário do The

Philadelphia Jewish Voice (www.pjvoice.com). Este artigo foi originalmente publicado, em inglês,

no dia 9 de fevereiro de 2006.

O mundo inteiro

amalucou

Já por várias vezes na história

mundial, países e regiões, reinados

ou vassalagens amalucaram e

destruíram tudo o que existia das

civilizações anteriores.

Hoje estamos atravessando um

período desses, não passível de

análise e nem muito menos de discernimento.

Há poucos anos atrás Gorbachev

teve que sair correndo do Afeganistão

e jogar a União Soviética

esfacelada para o lado acidental

para não perder o trem.

O que vinha acontecendo, inclusive

com a ajuda do Papa, a

União das Repúblicas Socialistas

Soviéticas se desmantelou e foi

para o Ocidente.

No Afeganistão existiam estátuas

enormes esculpidas em pedra,

de civilizações anteriores,

antagonizadas pelo “Taleban” e

pelos muçulmanos fanáticos, integralistas

e desconhecidos de

tudo o que não era islâmico ou

muçulmano e olhe lá.

Tinha se formado no país um

interesse de desestabilização

nacional e de conseqüências imprevisíveis

em relação às estátuas,

pois representavam várias

divindades diferentes e diferenciadas,

cultos diversos e contraditórios

em relação oficial ao

“Taleban”, aquele que não podia

ser posto em dúvida ou sofrer

classificações.

Era certo e se acabou, aquelas

estátuas gigantes, imponentes que

desafiavam o tempo e o espaço,

os séculos e os milênios impunha

no ar sua presença e com o tempo

sua posição.

Suas origens não eram tão definidas

assim, sua grandiosidade

era acima em espaço e amplitude

cultural e amplexos humanos, algo

muito especial.

Muito foi falado, muito foi

escrito, muito se discutiu, e o

governo do país não aceitou de

forma alguma que aquelas estátuas

fizessem parte de sua cultura,

de seu repertório cultural e

acompanhassem seu desenvolvimento

ou atraso.

Eram coisas atrasadas mentais,

não faziam parte de suas origens

religiosas, definidas muçulmanas,

Edda Bergmann*

islâmicas, fechadas, sem abertura

para o mundo.

Não podiam e não deveria pertencer

a ninguém, a nenhuma outra

cultura, pois lá ninguém pode

nem deve aparecer.

Quando existem muçulmanos,

o mando é deles, foi o que ficou

definido pelo governo, intransigente,

incoerente, incapaz de

análises ou de avaliações, incapaz

de entender ou se esforçar

para tentar entender o mundo,

mesmo que em pequena parte, e

em pequena escala.

As estátuas foram destruídas

e a duras penas, inclusive apesar

de sua solidez, foram demolidas.

O mundo assim chamado civilizado

reclamou, foram precisos

vários dias, mas a história acabou.

Todos os jornais do mundo

noticiaram, mas o islamismo, o

“Taleban” e o Afeganistão foram

implacáveis.

Estátuas de outras civilizações

“aqui não”, aqui só existimos nós

e somos os únicos que conhecem

as verdadeiras leis, verdadeiros

caminhos e verdadeiros meios pelos

quais se conhece a verdade.

A verdade é uma e única, e é a

nossa.

A nossa verdade é a que vence

os séculos.

Em seus sonhos, em seus ideais,

em suas imposições pelas quais

todos devem pensar da mesma forma,

todos devem sonhar e ter atitudes

iguais.

O islamismo não pergunta, decreta,

não define, dita regras e estabelece

preceitos. Até aí, tudo

bem, mas não tolera civilizações

diferentes e diferenciadas como

os buracos enormes das estátuas

que foram de outras civilizações

no Afeganistão.

Enormes buracos vazios e destruídos.

Ninguém reclamou?

No mundo ninguém achou que

aquilo era conhecimento ou o poder

dos séculos.

Dois pesos e duas medidas.

Mas o mundo foge por que as

civilizações se digladiam e se

olham a si mesmas apenas através

de um vidro prateado, ou melhor,

de um espelho.

* Edda Bergmann é vice-presidente Internacional da B’nai B’rith.


Atos anti-semitas no Paraguai

e na Argentina geram protestos

umerosas pichações

anti-semitas apareceram

em Assunção, no

Paraguai, gerando reações

imediatas do governo

e da B’nai B’rith paraguaia junto à

comunidade judaica.

Entre os dias 10 e 11 de fevereiro

várias suásticas, figuras de Hitler e inscrições

anti-semitas foram pintadas em

diversas partes de Assunção, incluindo

a casa do diretor do jornal mais importante

do país, o ABC Color. O governo

apoiou imediatamente a iniciativa da

B’nai B’rith paraguaia e da comunidade

judaica, anunciando uma profunda investigação

e condenando o vandalismo

dos grupos nazistas, enquanto que a

B’nai B’rith e a comunidade judaica publicaram

um comunicado no qual se

exorta o Governo para que o Paraguai

aprove o quanto antes uma lei antidiscriminatória

que proteja todos os cidadãos

contra a discriminação e a xenofobia

e toda a forma de racismo.

O Diário ABC Color publicou que o

governo repudia as pichações anti-semita

e quer saber quem está por trás

delas, conforme assinalou o ministro do

Interior, Rogelio Benitez. Anunciou que

policiais ficarão em postos chaves da

cidade nos horários noturnos para identificar

os responsáveis e pediu também

aos cidadãos que denunciem se tiverem

informação a respeito.

“Vemos com profunda preocupação

a proliferação destas imagens (como a

suástica e cara de Hitler), que perturbam

a sociedade paraguaia e a comunidade

judaica residente no país”, expressou

o ministro Benitez no Palácio

de Lopez. Disse que o governo não tem

indícios de que no Paraguai exista um

grupo organizado que simpatize com as

idéias anti-semitas, mas igualmente

repudia e rechaça este tipo de manifestações

aparentemente isoladas.

Indicou que é preocupante esta campanha

nazista e antijudaica “justo agora

no momento político atual (eleições

internas coloradas) e a reivindicação que

pudessem estar havendo alguns movimentos

para sistemas de governo que

entendemos totalmente anulados como

os totalitários, que estão na contramão

do governo democrático”.

Esclareceu que o governo não recebeu

nenhuma queixa pela aparição dos

símbolos anti-semitas pintados em portões

e muros de alguns setores da capital. Expressou

que a sociedade paraguaia nunca

rechaçou uma comunidade por motivos religiosos,

políticos e econômicos.

“Em solidariedade com o povo e a

comunidade judaica rejeitamos a aparição

símbolos e solicitamos à população

que denuncie”, se tem conhecimento de

quem realiza as pichações, comentou.

Após conversar com o presidente

Nicanor Duarte Frutos, Benítez convo-

cou os jornalistas acreditados no Palácio

de Lopez para informar também que

ordenou aumentar a presença policial

em horários noturnos em determinados

setores da cidade para tentar identificar

os responsáveis por estas pichações.

“Acompanhamos a inquietude da

comunidade judaica” no Paraguai que,

seguramente, se sente preocupada por

este tipo de manifestações que vão na

contramão da história”, disse.

Nota da B’nai B’rith do Paraguai

As entidades abaixo assinadas,

diante da aparição de agressões com

símbolos nazistas e antijudaicos, ocorridos

recentemente, resolve:

1. Condenar os atos vandálicos de antisemitismo,

racismo, e discriminação,

que encerram as agressões a

edifícios públicos e privados por

parte de extremistas que pintaram

cruzes gamadas e outros símbolos

altamente antijudaicos de uma das

maiores ideologias do ódio da história:

o nazismo.

2. Expressar nossa solidariedade com

todas as pessoas, instituições, e

empresas que foram agredidas por

aqueles que crêem no ódio e na intolerância.

3. Sendo que no Paraguai sempre conviveram

em perfeita harmonia um

cadinho de culturas, religiões e etnias;

e sendo este um país amante

da paz; em nossa condição de paraguaios,

nos unimos a todas as pessoas

de bem, pluralistas e democráticas

para enfrentar e rejeitar estas

manifestações contrárias ao sentimento

majoritário de nossa pátria.

4. Respaldar a decisão do Governo Nacional

de tomar todas as medidas

dentro do marco legal que rege a

República para que os culpados destes

atentados vandálicos sejam identificados

e levados diante da Justiça

e caia sobre eles todo o peso da lei.

5. Assim mesmo, exortamos às autoridades,

Poder Executivo e o Poder

Legislativo, que em nosso país se

dê no menor prazo possível uma legislação

antidiscriminatória que permita

enfrentar com instrumentos

legais apropriados todas as manifestações

de incitação ao ódio, discriminação

religiosa, racismo, xenofobia

e anti-semitismo.

Assunção 13 de fevereiro de 2006

B’nai B’rith do Paraguai, União Hebraica

oo Paraguai, Aliança Israelita do

Paraguai e Damas Israelitas do Paraguai.

Na Argentina

Na manhã de 16 de fevereiro de

2006, o Centro Cultural Israelita I. L.

Peretz (Icuf – Idisher Cultur Frarband),

localizado na Rua O‘Higgins, 2061, em

Lanus, Província de Buenos Aires, foi

novamente agredido com a pichação de

uma suástica na porta de seu edifício.

Do ataque anterior aa instituição até

este, passaram-se só dez meses, mas

desta vez foi à luz do dia, como que

desafiando a instituição e satisfeitos

com a impunidade com que contam, já

que nunca são surpreendidos em flagrante,

nem presos ou condenados.

Este atentado é parte de uma sucessão

de atos de cunho anti-semita

que vem se repetindo no país. Foi o

quinto ataque de características antisemitas

no transcurso dos últimos doze

meses que recebem as instituições culturais

judaicas do Icuf.

Após o quarto atentado a Federação

das Entidades Culturais Judaicas da

Argentina solicitou audiência com o

ministro do Interior, Aníbal Fernández,

mas a instituição ainda está à espera

que se marque a audiência.

As entidades estão preocupadas

com a facilidade e a leviandade com

que se realizam os atos anti-semitas

e perguntam ao governo porque este

não pode ainda desarticular os grupos

neonazistas?

É imprescindível buscar as causas

profundas da permanente reaparição

deste tipo de grupos ou organizações,

assim como seus mentores ideológicos,

seus inspiradores locais, seus responsáveis

e suas fontes de financiamento,

destaca a Federação.

Numa nota oficial assinada pelo

presidente e pelo secretário geral da

Federação das Entidades Culturais Judaicas

da Argentina, respectivamente,

Daniel Silber e Marcelo Horestein, a

entidade afirma que “esses grupos não

serão erradicados da sociedade, se a

própria sociedade não promover ações

enérgicas de todo caráter (legal, jurídico,

político, social, educativo e cultural)

para desentranhar de seu seio

este tipo de questões”.

“É imprescindível que o Estado —

através de todos os seus instrumentos

— opere rapidamente, realizando todas

as gestões derivadas de suas obrigações,

uma vez que detém o poder de

Justiça”, prossegue a nota.

“Repudiamos energicamente todas as

expressões discriminatórias de qualquer

natureza”, prossegue a nota observando

ainda que “não conseguirão que baixemos

nossos braços, pelo contrário nos

fortalecem a seguir lutando contra todo

tipo de discriminação, para alcançar um

mundo mais justo que mereça ser vivido

por todos, respeitando as diferenças e

diversidade de opiniões”.

Por fim, a nota diz: “Exigimos das

autoridades nacionais e provinciais a

maior celeridade na investigação e esclarecimento

deste novo episódio de

uma velha história”.

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

Dez sites nota 10!

Gustavo Erlichman*

11

- Guy Shachar adora viajar, explorar e observar.

Após voltar de sua primeira viagem para a Ásia ele

decidiu trazer o Oriente distante para todos. Em seu

site você pode fazer um tour por diversas sinagogas

e bairros judaicos espalhados pelo mundo, ou ainda,

conhecer as mais belas paisagens de Israel. Visite:

www.guyshachar.com

- Que tal ouvir as rádios israelenses sem precisar

entrar nos sites das emissoras? Agora isso já é possível!

Basta visitar o site http://israelradio.lihi.co.il

e fazer o download do programa. Com apenas um

clique, você poderá ouvir qualquer rádio de Israel.

Experimente!

- Um novo site do museu “Casa de Anne Frank”

foi lançado com o apoio da atriz britânica Emma

Thompson, que estava promovendo seu filme em...

Amsterdã. O site possui uma réplica da árvore que

Anne viu de onde estava escondida, no qual os visitantes

podem deixar seu nome em uma das folhas

ou adicionar uma história, ou um poema sobre o

que Anne significa para cada um deles. “A Árvore de

Anne Frank” é o terceiro site produzido pelo museu,

e pode ser acessado em www.annefranktree.com

- O site IsraelMall.net tem como missão criar uma

ligação social e econômica entre os amigos de Israel

e seus familiares e amigos que moram no país.

- No site Hebrew Verbs você poderá aprender

gratuitamente a conjugação de mais de 300 verbos

hebraicos em todos os tempos. O site, disponível em

inglês e hebraico, pode ser visitado em www.hebrewverbs.co.il

- Que tal aprender o idioma aramaico via internet?

Muito parecido com o hebraico, o curso tem seu

ponto forte na alfabetização. Veja em:

www.assyrianlanguage.com

- O “Free Muslim Coalition” é uma organização

sem fins lucrativos composta por muçulmanos e árabes

americanos que promovem uma interpretação

moderna do Islã. Além disso acreditam na democracia,

nos direitos da mulher e no combate ao terrorismo

e ao anti-semitismo. Veja o site da organização

em www.freemuslims.org

- Diretamente de Israel, uma grande relação de

rádios e podcasts com notícias sobre Israel, judaísmo,

Torá, aliah e comentários do criador do site,

Marty Roberts. Visite: www.israelnewsradio.net

- Que tal ler o Tanach diretamente na tela do

seu computador? No TanakhML.org isso é possível.

Basta ter as fontes hebraicas instaladas no seu computador!

Visite o site em: www.tanakhml.org

- Alfie Kaye é um comediante canadense especialista

em humor judaico. Em seu site você poderá

ter acesso ao seu acervo de piadas em inglês e iídiche.

Veja mais em: www.alfiekaye.com

*Gustavo Erlichman é consultor de internet e

criador do site judaico PLETZ.com


12

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

Como a

mídia árabe

retrata os

judeus Al-Watan,

A reação extremada pela publicação das caricaturas

do profeta Maomé na imprensa européia conduziu a

ameaças de morte, revoltas e ataques às embaixadas

dinamarquesas e outras instituições européias ao longo

do mundo muçulmano.

Ao mesmo tempo, alguns jornais muçulmanos e árabes

e sites na Web têm aumentado suas publicações

de caricaturas virulentamente anti-semitas e temas

antiisraelenses:

O site da Web da Liga Árabe-Européia publicou várias

caricaturas estridentemente antijudaicas —

incluindo uma mostrando Anne Frank, que descreveu o

Holocausto, na cama com Hitler — supostamente numa

tentativa para mostrar aos europeus sobre o que pode

acontecer quando a liberdade de imprensa em suas sociedades

é levada muito longe.

Um jornal do Bahrein publicou uma caricatura com

um queijo dinamarquês amoldado como uma Estrela

de David numa tentativa de culpar a controvérsia

das charges a uma “denominada penetração sionista”

na Dinamarca.

O jornal diário Hamshahri, de grande circulação em

Teerã, anunciou deliberadamente uma competição inflamatória

para encontrar e publicar as 12 “melhores”

caricaturas sobre o Holocausto.

Anti-semitismo na imprensa muçulmana e árabe praticamente

não é um fenômeno novo. Em jornais ao longo

do mundo muçulmano, os judeus são descritos habitualmente

em caricaturas controlando assassinos manipuladores

que trabalham para arruinar o mundo islâmico

e matar os árabes. As caricaturas mostram judeus como

nazistas, narizes em forma de ganchos, e vestidos de

forma estereotipada com chapéus pretos e barbas.

As seguintes caricaturas são exemplos do anti-semitismo

na imprensa muçulmana e árabe, incluindo caricaturas

que apareceram tanto antes como durante a

recente controvérsia.

Website da Liga Árabe Européia, em 2 de

fevereiro de 2006. Tradução: "Escreva isto

no seu diário, Anne!"

Qatar, 6 de janeiro de 2006

Ar-Rai, Jordânia, em 5 de novembro de 2005

Al-Yawm, Arábia Saudita, 1º de dezembro de 2005 Al-Watan, Arábia Saudita, em 11 de fevereiro de 2006. Tradução: "A

mídia ocidental"

Al-Watan, de Omã, em 3 de fevereiro de 2004. Tradução: "À

esquerda, no alto - Festa do Sacrifício"

Al-Ittihad, Emirados Árabes Unidos, em 24 de janeiro de

2006. Tradução: Ao alto - O roubo; sobre a arma - O

Holocausto

Al-Wifaq, Irã, em 6 de fevereiro de 2006. Tradução: O

demônio judaico/israelense diz: "Eu não admito para a

liberdade de expressão, exceto o Holocausto"

Al-Bayan, Emirados Árabes Unidos, 22 de dezembro de 2005

Akhbar al-Khalij, Bahrein, em 29 de janeiro de 2006. Tradução:

Bandeira no queijo - Boicote produtos dinamarqueses. À direita -

A penetração do Sionismo na Dinamarca

Tishrin, Síria, em 21 de abril de 2002. Explicação: O livro na mão esquerda

do estereótipo judeu é a Torá


sta foi a reação típica da

maioria dos iranianos um

dia após do primeiro turno

das eleições presidenciais

no Irã, quando ouviram

que os dois candidatos

que se enfrentariam no segundo turno

eram o veterano político aiatolá Ali-

Akbar Hashemi Rafsanjani e o até então

pouco conhecido prefeito ultra-extremista

de Teerã, Mahmoud Ahmadinejad.

A surpresa foi toda esquecida pelo

choque maior após as eleições, quando

Ahmadinejad derrotou o ex-presidente,

uma espécie de figura ícone na teocracia

governante numa vitória que desmoronou

o poder que estava consolidador

nas mãos dos clérigos islâmicos.

Com refletores agora apontados

para a figura pequena e barbuda, num

surrado terno cinza, como uma marca

registrada, o passado obscuro de Ahmadinejad

está causando profunda ansiedade

exterior, e no Irã crescente preocupação

por causa das políticas e

orientação do novo presidente.

Nascido no deserto, no lugarejo de

Garmsar, a leste de Teerã, em 1956,

Ahmadinejad é o quarto filho de uma

família de proletários, de um total de

sete crianças. Seu pai, um ferreiro, mudou-se

com a família para Teerã quando

Ahmadinejad tinha apenas um ano

de idade. Ele viveu nos bairros toscos

do sul de Teerã, que eram um coquetel

de pobreza, frustração e xenofobia no

auge do regime elitista do xá, um chão

muito fértil para o crescimento do fundamentalismo

islâmico.

Depois de concluir a escola secundária,

Ahmadinejad foi para Universidade

Elm-o Sanaat em 1975 para estudar

engenharia. Logo, o vendaval de

revolução islâmica conduzido pelo aiatolá

Ruhollah Khomeini varreu-o da sala

de aula para a mesquita e ele juntouse

a uma geração de fundamentalistas

muçulmanos dedicados à causa da revolução

mundial islâmica.

Estudantes ativistas da Universidade

Elm-o Sanaat na época da revolução

iraniana foram dominados por ra-

Ahmadinejad? Quem é ele?

dicais islâmicos ultra-conservadores.

Ahmadinejad logo tornou-se um de seus

líderes e fundou a associação dos estudantes

islâmicos naquela universidade

após a queda do regime do xá.

Em 1979 ele se tornou o representante

dos estudantes da Elm-o Sanaat

junto ao Departamento para Fortalecer a

Unidade entre Universidades e Seminários

Teológicos, que depois ficou conhecido

como OSU. O OSU foi idealizado pelo

aiatolá Mohammad Beheshti que era na

ocasião o maior confidente de Khomeini

e uma figura chave na liderança clerical.

Beheshti queria que o OSU organizasse

os estudantes islâmicos para se contraporem

rapidamente à influência ascendente

da Oposição Mojahedin-e Khalq

(MeK) entre estudantes universitários.

O OSU teve um papel central no ataque

desvairado à embaixada dos Estados

Unidos em Teerã, em novembro de 1979.

Membros do conselho central do OSU, que

incluíam Ahmadinejad e também Ibrahim

Asgharzadeh, Mohsen (Mahmoud) Mirdamadi,

Mohsen Kadivar, Mohsen Aghajari,

e Abbas Abdi, eram recebidos regularmente

pelo próprio Khomeini.

De acordo com outros membros do

OSU, quando a idéia de atacar violentamente

a embaixada norte-americana em

Teerã foi levada ao comitê central do

OSU por Mirdamadi e Abdi, Ahmadinejad

sugeriu que se atacasse violentamente

a embaixada soviética ao mesmo tempo.

Uma década depois, a maioria dos

líderes do OSU reagrupou-se em torno

de Khatami, mas Ahmadinejad permaneceu

leal aos ultra-extremistas.

Durante a turbulência nas universidades

em 1980, à qual Khomeini chamou

de “Revolução Cultural Islâmica”,

Ahmadinejad e o OSU tiveram um papel

crítico na remoção de professores

e estudantes dissidentes, muitos dos

quais foram presos e mais tarde executados.

As universidades permaneceram

fechadas por três anos e Ahmadinejad

juntou-se aos Guardas Revolucionários.

No início dos anos 80, Ahmadinejad

trabalhou na “Segurança Interna”

do departamento do CGRI (Corpo da

Guarda Revolucionária do Irã) e ganhou

notoriedade como interrogador cruel e

torturador. De acordo com o website estatal

Baztab, os aliados do presidente

Mohammad Khatami, que estava deixando

o poder, revelaram que Ahmadinejad

trabalhou durante algum tempo

como executor na conhecida Prisão de

Evin, onde foram executados milhares

de prisioneiros políticos nas punições

sangrentas dos anos oitenta.

Em 1986 Ahmadinejad tornou oficial

graduado da Brigada Especial dos

Guardas Revolucionários e foi locado na

Guarnição de Ramazan, perto de Kermanshah,

no Irã ocidental. A Guarnição

de Ramazan era a sede das “operações

extraterritoriais” dos Guardas Revolucionários,

um eufemismo para ataques de

terrorista além das fronteiras do Irã.

Em Kermanshah, Ahmadinejad envolveu-se

nas operações terroristas estrangeiras

do regime clerical e conduziu

muitas operações extraterritoriais

do CGRI. Ahmadinejad tornou-se depois

um dos mais altos chefes das forças do

CGRI. Ele foi o autor inteligência dominante

numa série de assassinatos no

Oriente Médio e na Europa, intelectual

do assassinato do líder curdo iraniano

Abdorrahman Qassemlou que foi morto

a tiros por oficiais dos Guardas Revolucionários

em um apartamento de Viena,

julho de 1989. Ahmadinejad foi

quem planejou o ataque, de acordo com

fontes dos Guardas Revolucionários.

Ahmadinejad serviu durante quatro

anos como prefeito das cidades de Maku

e Khoy no noroeste do Irã. Em 1993

ele foi designado pelo ministro de Cultura

islâmica e Orientação Ali Larijani,

um oficial da mesma categoria dos Guardas

Revolucionários, como o seu conselheiro

cultural. Meses depois, ele foi

designado como governador da então

recém-criada província de Ardebil.

Em 1997 a administração de Khatami

recém-instalada, removeu Ahmadinejad

de seu posto e o devolveu à Universidade

de Elm-o Sanaat para lecionar,

mas sua atividade principal foi organizar

a Ansar-e Hezbollah, um grupo radi-

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

cal de vigilantes islâmicos violentos.

Desde que se tornou prefeito de

Teerã em abril de 2003, Ahmadinejad

usou sua posição para construir uma

forte rede forte de radicais islâmicos,

organizando-os como “Abadgaran-e

Iran-e Islami” (literalmente, Fomentadores

de um Irã islâmico). Trabalhando

em colaboração íntima com a Guarda

Revolucionária, o Abadgaran pôde

ganhar as eleições municipais em

2003 e a eleição parlamentar

em 2004.

Eles devem suas vitórias

mais à multidão

pobre e à desilusão

geral com a facção

“moderada” do

regime, do que à sua

bem-lubrificada máquina

política e militar.

O Abadgaran vende

a imagem de um

grupo fundamentalista

neo-islâmico cujos jovens membros

querem reavivar os ideais e as políticas

do fundador da República islâmica,

aiatolá Khomeini. Foi um dos vários

grupos ultra-extremistas cujas organizações

estavam às ordens do aiatolá

Khamenei para derrotar a facção

do presidente Mohammad Khatami em

fim de mandato, após as eleições parlamentares

em fevereiro de 2000.

O registro de Ahmadinejad é típico

dos homens escolhidos pela “entourage”

de Khamenei para colocar

uma nova face nova à identidade extremista

da elite clerical. Mas além

da fachada superficial poucos duvidam

que a república islâmica sob seu novo

presidente se mova com maior velocidade

e determinação ao longo do caminho

das políticas radicais que incluam

mais abusos de direitos humanos,

enquanto continuar patrocínio do

terrorismo, e os passos para obter

armas nucleares. (Agência Iran Focus.

Este artigo pode ser lido no original,

em inglês, no website http://

www.iranfocus.com/modules/news/

article.php?storyid=2605).

13

Mahmoud Ahmadinejad

O passado sujo de

Ahmadinejad (no círculo):

prisão, torturas e morte

de inimigos do regime


14

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

* Daniel Pipes é diretor

do Fórum do Oriente Médio e

colunista premiado dos jornais

New York Sun e The Jerusalem

Post. O presente artigo foi

publicado no New York Sun em

7 de fevereiro de 2006 e traduzido

por Márcia Leal. Título original em

inglês: Cartoons and Islamic

Imperialism. O texto em português

desse artigo encontra-se em

http://pt.danielpipes.org/

article/3402

Caricaturas e imperialismo islâmico

Daniel Pipes*

este o ponto principal na

polêmica das doze caricaturas

dinamarquesas do

profeta Maomé: o Ocidente

defenderá seus costumes

e valores, entre eles a

liberdade de expressão, ou os muçulmanos

conseguirão impor seu estilo

de vida aos ocidentais? Em última

análise, não há transigência possível:

ou o Ocidente conserva sua

civilização, inclusive o direito de

insultar e blasfemar, ou não.

Para ser mais claro, os ocidentais

consentirão na duplicidade

moral que libera os muçulmanos

para insultarem o Judaísmo, o Cristianismo,

o Hinduísmo, e o Budismo,

enquanto Maomé, o Islã e seus

fiéis se mantêm imunes a injúrias?

Os muçulmanos publicam regularmente

charges muito mais ofensivas

que as dinamarquesas. Eles terão

o direito de despejar insultos

enquanto se preservam de indignidades

semelhantes?

O alemão Die Welt tocou nesse

ponto em um editorial: “Os protestos

dos muçulmanos seriam levados

mais a sério se fossem menos hipócritas.

Quando a televisão síria exibiu

em horário nobre documentários

dramatizados que mostravam rabinos

como canibais, os imãs guardaram

silêncio”. Aliás, os imãs sequer

esboçaram um protesto quando

muçulmanos pisotearam a cruz

do Cristianismo que figura na bandeira

da Dinamarca.

O âmago da questão, porém, não

é a hipocrisia muçulmana, mas o supremacismo

islâmico. O editor dinamarquês

responsável pela publicação

das charges, Flemming Rose, explicou

que, se os muçulmanos insistem

em “que eu, um não-muçulmano, tenho

de me submeter aos seus tabus

(...), eles estão exigindo minha

submissão”.

Precisamente. Com

razão Robert Spencer

encorajou o

mundo livre a dar

apoio “irrestrito à

Dinamarca”. Para

o informativo

Brussels Journal,

“agora somos todosdinamarqueses”.

Alguns governos

concordam:

Noruega: “Não nos

desculparemos porque em um país

como a Noruega, que garante a liberdade

de expressão, não podemos

pedir desculpas pelo que os jornais

publicam”, comentou o primeiro-ministro

Jens Stoltenberg.

Alemanha: “Por que o governo alemão

deveria se desculpar [pela publicação

dos cartuns em jornais alemães]?

Essa é uma expressão da liberdade

de imprensa”, disse o ministro

do Interior Wolfgang Schauble.

França: “Caricaturas de cunho

político são excessivas por natureza.

E eu prefiro o excesso da caricatura

política ao excesso da censura

de opinião”, observou o ministro do

Interior Nicolas Sarkozy.

Outros governos apresentaram

desculpas injustificadas:

Polônia: “Os limites da liberdade

de expressão, tal como ela deve ser

compreendida, foram ultrapassados”,

afirmou o primeiro-ministro Kazimierz

Marcinkiewicz.

Reino Unido: “A republicação dos

cartuns foi desnecessária, inoportuna,

desrespeitosa e incorreta”, declarou

o ministro do Exterior Jack Straw.

Nova Zelândia: “Uma ofensa gratuita”,

foi como o ministro do Comércio

Jim Sutton definiu as caricaturas.

Estados Unidos: “Incitar o ódio

religioso ou étnico dessa maneira

não é aceitável”, disse Janelle Hironimus,

uma assessora de imprensa do

Departamento de Estado.

Estranhamente, no momento em

que a “Velha Europa” reencontra sua

espinha dorsal, a Anglosfera hesita.

Foi tão deplorável a reação do governo

americano, que ganhou o

apoio da organização islamista mais

importante do país, o Council on

American-Islamic Relations. Mas nisso

não há surpresa nenhuma, pois

Washington sempre deu tratamento

preferencial ao Islã e por duas outras

vezes igualmente vacilou em

casos de insultos a Maomé.

Em 1989, Salman Rushdie recebeu

um decreto de morte do aiatolá

Khomeini por satirizar Maomé em seu

livro “Os Versos Satânicos”, um romance

na tradição do realismo mágico.

Em vez de sair na defesa do

romancista, o presidente George H.

W. Bush equiparou “Os Versos Satânicos”

ao decreto, considerando

ambos “ofensivos”. O então secretário

de Estado, James A. Baker III,

qualificou a sentença de morte com

um simples “lamentável”.

Para piorar, em 1997, quando

uma israelense distribuiu um cartaz

de Maomé retratado como um porco,

o governo americano abandonou

vergonhosamente o princípio da liberdade

de expressão. Em nome do

presidente Bill Clinton, o porta-voz

do Departamento de Estado Nicholas

Burns disse que a mulher em questão

era “ou doente, ou (...) perversa”

e afirmou que ela merecia “ser

levada à Justiça por esses ataques

ultrajantes ao Islã”. Então o Departamento

de Estado é favorável a que

se processe criminalmente o direito

à liberdade de expressão? Ainda mais

absurdo foi o contexto dessa declaração

indignada. Como observei na

ocasião, depois de vasculhar várias

Reação judaica

ao concurso de

charges do Irã

Começaram a

surgir em alguns

sites judaicos

charges bem

humoradas fazendo

piadas a respeito do

concurso de charges

que um jornal do Irã

lançou para negar o

Holocausto. Eis aqui

dois exemplos

dessas caricaturas

muito engraçadas.

semanas de informes emitidos pelo

Departamento de Estado, “nada encontrei

que se aproximasse desses

vitupérios em referência aos horrores

praticados em Ruanda, onde centenas

de milhares de pessoas perderam

a vida. Ao contrário, Burns foi cauteloso

e diplomático todo o tempo”.

Os governos ocidentais deveriam

fazer um curso intensivo em legislação

islâmica e a historicamente

ininterrupta compulsão muçulmana

de subjugar os não-muçulmanos.

Eles poderiam começar pela leitura

do livro de Efraim Karsh, Islamic Imperialism:

A History (Yale), a ser lançado

em breve.

Os povos que desejam continuar

livres devem apoiar a Dinamarca

sem reservas.


xiste uma forte razão

para dizer que as charges

dinamarquesas sobre

Maomé, que têm causado

um alarido tão estrondoso,

são comentários justos. Certamente,

aqueles que não viram essas charges

podem ficar certos de que elas são relativamente

suaves, se comparadas às

charges sobre outros temas que aparecem

com regularidade na imprensa européia.

Ainda assim, os não muçulmanos

teriam mais simpatia com os muçulmanos

que as acham ofensivas, se

não fosse pelo impressionante padrão

duplo e a hipocrisia do mundo muçulmano,

quando se trata de aceitar e de

aplaudir ofensas horríveis contra os judeus,

e, em um grau menor, extensivo

também aos cristãos.

Os argumentos dos muçulmanos –

porém não a forma fanática e violenta

de muitos dos seus protestos – seriam

certamente levados mais a sério se eles

também fizessem objeções à forma

como a televisão da Síria descreve os

rabinos como canibais. Ou se no sábado

passado, o Semanário Muçulmano Britânico

não tivesse publicado a caricatura

de um Ehud Olmert com o nariz em

forma de anzol.

Ou se o “Vale dos Lobos”, o filme

mais caro já feito na Turquia, não tivesse

sido lançado com uma grande aclamação

local. No filme, soldados americanos

no Iraque irrompem em uma boda

e metem chumbo em um menino diante

de sua mãe, matam aleatoriamente dezenas

de pessoas inocentes com o fogo

de suas metralhadoras, baleiam o noivo

na cabeça e arrastam os sobreviventes

para a cadeia, onde um médico judeu

corta os seus órgãos e os vende para

pessoas ricas em Nova Iorque, Londres

e Tel-Aviv. Ou se um grupo muçulmano

belga e holandês não tivesse colocado

no seu site na Internet fotografias de

Anne Frank na cama com Hitler. Ou se,

na Arábia Saudita, não fosse ilegal a

simples exibição de uma cruz ou de uma

estrela de David. E quando se trata de

charges em jornais – o motivo da atual

inquietação – os países muçulmanos são

os líderes mundiais em incentivar o ódio,

sem sequer um mínimo de protesto em

outras partes, além do incêndio de edifícios,

ameaças de degolar turistas europeus,

e a queima da bandeira dinamarquesa

(a qual, coincidentemente,

mostra um símbolo cristão, a cruz). Chega

de respeito religioso. As charges publicadas

em setembro passado em

Jyllands Posten, um jornal sobre o qual

dificilmente alguém de fora da Dinamarca,

um dos menores países da Europa,

sequer ouviu falar, são suaves se comparadas

às charges rotineiramente produzidas

sobre os judeus nos países onde

alguns dos piores protestos contra a Dinamarca

estão agora sendo encenados.

Os árabes que atormentam judeus

não se limitam – como os inimigos de

Israel no Ocidente tratam de argumentar

- apenas a ataques políticos ao Sionismo.

Eles estão direcionados contra

os judeus em geral, e são tão horríveis

e desumanos quanto os que foram produzidos

sob o domínio nazista.

Poderíamos esperar tais imagens

demoníacas de um país governado por

alguém que nega o Holocausto, como

o é o Irã, ou um regime sem princípios

como a Síria. Mas estas imagens vis

podem ser encontradas nos meios de

comunicação de países supostamente

moderados pró-ocidentais, como Jordânia,

Catar, Arábia Saudita, Omã,

Bahrain e Egito.

Al-Watan (Oman) publicou caricaturas

do tipo nazista de judeus com nariz

em forma de gancho e costas curvadas,

que não usam sapatos e que

suam profusamente.

Akhbar Al-Khalij (Bahrain) tem mostrado

caricaturas anti-semitas de judeus

de chapéus pretos e suando, enquanto

manipulam os EUA a fazer a

aposta que eles desejam.

Al Ahram, um dos principais jornais

diários do Egito, tem publicado charges

de judeus rindo enquanto ficam bebendo

sangue (o Senado americano aprovou

US$ 1,84 bilhões para um pacote

de ajuda para o Egito para 2006, o segundo

mais alto do mundo).

O cartunista oficial da Autoridade

Palestina tem retratado os judeus em forma

de cobras, historicamente uma maneira

anti-semita da Europa Medieval.

O site na Internet da Autoridade

Palestina tem publicado repetidamente

charges de judeus assassinando crianças

não judias.

Algumas das charges não apenas se

parecem àquelas publicadas pelos nazistas.

Elas são literalmente copiadas

dos originais nazistas. Por exemplo, uma

charge do Arab News (um jornal diário

da Arábia Saudita, publicado em inglês

e considerado como uma das publicações

mais moderadas do mundo árabe),

mostra ratos usando estrelas de

David e solidéus, penetrando furtivamente

para frente e para trás, através

dos buracos na parede de um edifício

chamado de “Casa Palestina”. As imagens

usadas são praticamente idênticas

às do conhecido filme nazista “Jew

Süss” — uma cena na qual os judeus

são mostrados como vermes que devem

ser erradicados pelo extermínio em

massa. Em outras ocasiões os judeus

são os nazistas. O jornal jordaniano Ad-

Dustur, por exemplo, publicou uma charge

mostrando as estradas de ferro que

levavam ao campo de extermínio em

Auschwitz-Birkenau — mas ao invés das

bandeiras nazistas, aparecem as bandeiras

israelenses, e uma placa onde

se lê: “Campo israelense de extermínio”.

Supostamente, a Jordânia é um

país moderado, em paz com Israel.

Para marcar a designação do dia

27 de janeiro como o “Dia da Memória

do Holocausto”, o cartunista do Al-Yawm

(da Arábia Saudita) superpôs a suástica

nazista sobre a estrela de David.

O judaísmo tampouco é poupado. O

Daily Star em Beirute publicou uma tira

mostrando um grande Talmud com uma

baioneta sendo disparada contra um

homem idoso com turbante árabe, saindo

dele em seguida um jato de sangue.

Outras tiras cômicas árabes têm mostrado

judeus com sacos de dinheiro, espalhando

morte, terror e doenças. As

charges dinamarquesas relativamente

suaves têm sido republicadas em vários

jornais europeus de tal modo que

os leitores possam descobrir o motivo

de todo o alvoroço (é difícil para os

leitores julgar a história sem ter visto

as caricaturas). Mas não em jornais na

Inglaterra ou em qualquer outro grande

jornal dos EUA, países que aparentemente

estão agora intimidados demais

para correr os riscos que poderão

advir dessas reproduções.

Além disso, editores do The Guardian

e do The Independent em Londres, por

exemplo, apareceram na BBC dizendo

que eles jamais sonhariam em publicar

caricaturas que os muçulmanos considerassem

ofensivas, mas esses mesmos

jornais não hesitaram em publicar charges

ofensivas aos judeus (sangue árabe

sendo espalhado sobre o Muro das

Lamentações no The Guardian, a carne

de criancinhas árabes sendo comidas

por Ariel Sharon no The Independent, e

assim por diante).

O The New York Times apressou-se em

elogiar a frívola peça encenada na Broadway

que mostra Jesus tendo sexo homossexual

com Judas, mas não ousou reproduzir

a caricatura dinamarquesa mostrando

um ponto sério que é o do mau uso

feito pelos terroristas islâmicos dos ensinamentos

do profeta Maomé.

Com gente protestando nas ruas de

Londres, cantando em uníssono “Europa

você vai pagar, o seu 11 de Setembro

está a caminho” e segurando cartazes

“Cortem as cabeças daqueles que

insultam o Islã” e “Preparem-se para o

verdadeiro Holocausto” talvez não seja

surpresa que os fracos espíritos do Oci-

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

Simpatia pelos que desenham

Anne rank na cama com Hitler?

Tom Gross*

dente estejam se acovardando.

Entretanto, este é um assunto

que extrapola muito as caricaturas,

e se desejam que as liberdades ocidentais

sobrevivam, muçulmanos e

não muçulmanos moderados devem

parar de ceder às ameaças. Mark

Steyn, da Jewish World Review, lembrou-nos

das palavras mais conhecidas

de um famoso personagem de ficção

dinamarquês: “Ser ou não ser, eis a

questão”. Exatamente.

15

* Tom Gross é

correspondente

no Oriente Médio do

Jewish World Review.

Tradução: Mina Seinfeld

de Carakushansky e

enviado por Luiz

Nazário.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Palestinos disfarçados

de soldados israelenses

assaltam em Nablus

Zaher Hamouz acordou a 1h30 da manhã ao som de uma

batida forte na porta da frente de sua casa. Olhou pela

janela e viu dois soldados israelenses. Ou pelo menos, assim

pensou. Os pistoleiros mascarados vestiam fardas completas

do exército de Israel, amarraram-no e esvaziaram

sua casa, enquanto faziam de Hamouz a quarta vítima de

uma gangue de ladrões que tiram proveito do conflito para

roubar casas. A vítima disse que os homens falavam um

hebraico com acento pesado, misturado com árabe e exigiram

entrar na casa. Os “soldados” disseram que tinham informação

sobre um homem procurado ali dentro. Quando

Hamouz os deixou entrar eles o vendaram e amarraram suas

mãos e de seu filho de 12 anos. Então ameaçaram sua esposa

a entregar pertences valiosos da casa. A mulher disse

que passou a suspeitar deles quando um dos homens começou

a ler um jornal árabe que estava sobre a mesa.

“Eu disse: ‘Como você sabe ler árabe, mas não fala?”’,

contou ela. “E então ele apontou a arma dele para mim e

disse: ‘cale-se’. “Foi quando eu soube que eles não eram

israelenses, mas sim ladrões”, concluiu ela.

Hind Al-Masri, a mulher de Hamouz, disse os homens

levaram cerca de 1000 NIS (New Israeli Shekalim) e uma

parte de suas jóias. Quando a família foi registrar queixa na

polícia, descobriu que eles não eram os únicos.

“Isto aconteceu três vezes antes — pessoas com uniformes

de soldados israelenses e dizendo que são israelenses”,

disse Said Abu Ali, o administrador de Nablus.

“É uma desgraça que algo assim aconteça aqui num

um tempo difícil para nós. Os palestinos precisam ajudar

uns aos outros”.

A polícia estaria investigando os casos e prometeu levar

os responsáveis à justiça, disse Ali. Entretanto, ainda não

há nenhuma pista direta das identidades dos ladrões, e nenhuma

idéia de como eles conseguiram obter os uniformes.

As Forças de Defesa de Israel (IDF) disseram que não

tiveram nenhum conhecimento dos casos.

Al-Masri disse estar preocupada com o fato de que as notícias

das artimanhas de ladrões levarão muitos a resistir aos

soldados israelenses no futuro, o que poderia conduzir à violência.

Como se pode saber se são israelenses ou ladrões? O

que acontece se israelenses reais vêm e nós não os deixamos

entrar?”, ela disse. “Nós não sabemos quem são os soldados e

quem não são. É um problema.” (Haaretz).

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16 (com

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

VISÃO

Político português quer medidas drásticas

Ribeiro e Castro, político em Portugal, propõe

que o embaixador do Irã em Lisboa

seja considerado persona non grata. O líder

do CDS-PP pediu dia 18/2 ao Governo

que expulse o embaixador do Irã em Portugal

na seqüência das declarações que fez

sobre o Holocausto. “Nós tomamos nota

da reação do Governo português e do Ministério

dos Negócios Estrangeiros, mas não

nos parece suficiente. Achamos que o Embaixador

do Irã deve ser considerado persona

non grata e deve ser reenviado para

o seu país”. A posição de José Ribeiro e

Castro foi assumida depois de ter visitado

a Sinagoga de Lisboa, onde teve um encontro

com responsáveis da comunidade judaica

em Portugal. No dia 16/2, o embaixador

foi chamado ao Palácio das Necessidades

por Freitas do Amaral, depois de ter questionado

o número de vítimas do Holocausto

ao afirmar que para incinerar seis milhões

de pessoas seriam necessários 15 anos. (Israel

Blajberg-Rio de Janeiro).

Ciganos contra negação do Holocausto

Líderes ciganos da Alemanha enviaram

carta de protesto à embaixada do Irã em

Berlim, por causa das declarações do presidente

Ahmadinejad, que considerou o

Holocausto “um mito” e se pronunciou a

favor da extinção de Israel. O presidente

do conselho central de ciganos, Romani

Rose, disse na carta que manifestações

como essa constituem “uma propaganda de

ódio”. Rose considerou em sua mensagem

que o Holocausto, durante a Segunda Guerra

Mundial, consumado pelo nazismo, provocou

a morte de 500 mil ciganos em campos

de concentração, além de 6 milhões de

judeus. “O governo de Teerã deve respeitar

a verdade histórica se quer fazer parte da

comunidade internacional”, escreveu na

carta ao embaixador iraniano na Alemanha,

Seyed Shamseddin Jaregani. Na Europa vivem

cerca de 10 milhões de ciganos, muitos

deles de religião muçulmana. (ANSA).

Árvore em homenagem a padre

panorâmica

Em memória do padre Andrea Santoro, assassinado

em 5/2 na Turquia, o Fundo Kerem

Kaiemet LeIsrael (KKL) da Itália, plantou

uma árvore em Jerusalém. A iniciativa

foi de Emanuele Pacifici, membro da comunidade

judaica de Roma e presidente

da Associação Amigos do Yad Vashem, que,

ao receber a notícia do assassinato do sacerdote

contatou o KKL e escreveu uma

carta de solidariedade ao cardeal Camillo

Ruini, bispo vigário para a diocese de

Roma. Em entrevista, Pacifici disse que

experimentou uma imensa dor pelo que

sucedeu ao padre Andrea Santoro, morto

enquanto rezava, exatamente como sucedeu

ao seu pai, rabino-chefe de Gênova,

que foi preso enquanto rezava, torturado

e deportado a Auschwitz, de onde nunca

mais regressou. Pacifici, que quando era

menino salvou-se da perseguição nazista

graças às religiosas de Santa Marta em Settignano

(Florença), explica que na tradi-

informações das agências AP, Reuters,

AP, EE, jornais Alef na internet, Jerusalem

Post, Haaretz e IG)

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• Yossi Groisseoign

ção religiosa de Israel a árvore é símbolo

da vida. Em memória dos que arriscaram a

vida para salvar judeus desde 1962 se planta

uma árvore na Avenida dos Justos, junto

ao Yad Vashem, em Jerusalém.

(Catholic.net).

Hagadá de 600 anos salva por

muçulmanos e católicos

Réplicas de uma Hagadá (que conta a história

da saída do povo judeu da escravidão

no Egito) escrita há 600 anos, e que

está hoje em Saravejo, na Bósnia, foram

colocadas à venda. A Hagadá sobreviveu à

Inquisição espanhola, à guerra da Bósnia

e aos estragos do tempo. Jacob Finci, presidente

da comunidade judaica local disse

que decidiu imprimir 613 réplicas porque

são 613 as mitzvót (preceitos) que cada

judeu deve cumprir. “Serão usadas para o

próximo Pêssach, (a Páscoa judaica). O original

está exposto no Museu Nacional de

Sarajevo, junto com manuscritos sagrados

de outras religiões da Bósnia, o islã, o

cristianismo ortodoxo e o catolicismo romano.

Em 1492, um judeu refugiado da

Espanha levou o livro à Itália, de onde

chegou à Bósnia pelas mãos de um rabino,

até que um descendente, Joseph Kohen,

vendeu-a ao Museu Nacional em 1894.

Durante a 2ª Guerra Mundial, um católico.

diretor do museu e seu colega muçulmano,

salvaram a Hagadá de um oficial nazista.

Ficou escondida numa aldeia nas

montanhas, sob do piso numa mesquita até

o final da guerra. (Associated Press).

Reconhecimento à igreja búlgara

O livro ‘The Power of Civil Society in a Time

of Genocide: Proceedings of the Holy Synod

of the Bulgarian Orthodox Church on the Rescue

of the Jews in Bulgaria 1940-1944’ [‘O

Poder de Sociedade Civil no Tempo de Genocídio:

Procedimentos do Sínodo Santo da

Igreja Ortodoxa Búlgara no Salvamento dos

judeus na Bulgária 1940-1944’] um projeto

de Centro de Estudos Judaicos da Universidade

de Sofia, apoiado pela B'nai B'rith Internacional,

foi apresentado na reunião da

Conferência de Presidentes das Maiores

Organizações Judaicas, na Bulgária. A obra

conta como toda a comunidade judaica daquele

país, composta por 50 mil pessoas

foi salva do nazismo graças à intervenção

dos líderes da igreja, de parlamentares,

intelectuais e dos cidadãos comuns. Lideranças

judaicas norte-americanas que estiveram

em contato com autoridades na Bulgária

e na Romênia ficaram impressionados

com o renascimento da vida judaica

nestes países. (B'nai B'rith Internacional).

Auschwitz em quadrinhos

Maus, reeditado pela Companhia das Letras,

com tradução de Antonio de Macedo

Soares, é a história de Vladek Spiegelman,

judeu polonês que sobreviveu ao campo de

concentração de Auschwitz, narrada por ele

próprio ao filho Art. “Rato” em alemão,

Maus, é considerado um clássico contem-

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porâneo das histórias em quadrinhos. Foi

publicado em duas partes, a primeira em

1986 e a segunda em 1991. Em 1992, o

livro ganhou o Prêmio Pulitzer de literatura.

Na nova tradução, a obra foi relançada

com as duas partes reunidas num só volume.

Nas tiras, os judeus são desenhados

como ratos e os nazistas têm feições de

gatos; poloneses são porcos e americanos,

cachorros. Esse recurso, aliado à ausência

de cor dos quadrinhos, reflete o espírito

do livro: trata-se de um relato incisivo e

perturbador, que evidencia a brutalidade

da catástrofe do Holocausto. As ilustrações

de Art Spiegelman, porém, evitam o

sentimentalismo e interrompem algumas

vezes a narrativa para dar espaço a dúvidas

e inquietações. De vários pontos de

vista, uma obra sem equivalente no universo

dos quadrinhos e um relato histórico

de valor inestimável. (PublishNews).

Eliminada bitributação entre Brasil e Israel

O presidente Lula assinou o decreto nº

5.576, datado de 8/11/2005, promulgando

a Convenção entre o Governo da República

Federativa do Brasil e o Governo do

Estado de Israel que visa evitar a dupla

tributação e prevenir a evasão fiscal em

relação ao imposto sobre a renda. A convenção

foi celebrada em 12 de dezembro

de 2002 e evitará que companhias israelenses

que atuam no Brasil sejam obrigadas

a pagar Imposto de Renda duas vezes;

assim como as empresas barsileiras que

prestam serviços não deverão pagar este

mesmo imposto em Israel. Antiga reivindicação,

sua promulgação por decreto será

benéfica e trará resultados no incremento

do intercâmbio comercial entre os dois países.

(Câmara de Comércio Brasil-Israel).

China pede ajuda de

Israel às Olimpíadas

O comandante da Polícia Nacional israelense,

Moshé Karadi, viajou a Beijing (Pequim)

para colaborar com os preparativos para os

jogos de 2008, que serão realizados naquele

país. O governo chinês solicitou a ajuda dos

especialistas de Israel para a prevenção e

luta contra o terrorismo, os distúrbios e as

desordens. Karadi se entrevistou em Shanghai

com os principais diretores da segurança

chinesa, os quais lhe solicitaram informações

sobre os métodos e técnicas utilizadas

em Israel. (La Tercera de Chile).

Prefeito de Londres punido

O prefeito de Londres, Ken Livingstone, foi

punido dia 3/3 com quatro semanas de suspensão

do cargo por haver comparado um

jornalista judeu com um guarda de um campo

de concentração nazista. O Comitê de

Normas de Conduta da Inglaterra, comissão

disciplinar que averiguou o caso, impôs

o castigo ao concluir que Livingstone

atuou de forma “ofensiva” e “insensível”

e, assim, manchou a reputação da Prefeitura.

O advogado do prefeito, Tony Child,

tachou a decisão de “muito decepcionante”

e adiantou que pretende recorrer ao

Tribunal Superior. O fato aconteceu em

fevereiro do ano passado, quando Livingstone

foi abordado pelo repórter Oliver Finegold,

do vespertino londrino Evening

Standard, na saída de um evento. Ao in-

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vés de responder ás perguntas do repórter,

que depois se verificou ser judeu, o

prefeito se incomodou a tal ponto que comparou

Finegold com um “criminoso de guerra”

e “um guarda de um campo de concentração”

nazista. (Agência EFE).

Prefeito de Londres II

Conhecido por sua personalidade obstinada,

Livingstone se recusou a apresentar

desculpas apesar dos pedidos de diversos

correligionários, entre eles o primeiro-ministro,

Tony Blair, e dos líderes da comunidade

judaica. Livingstone insistiu nos comentários

que comparavam o trabalho do

jornalista com o de um guarda de um campo

de concentração, apesar de ter sido

informado que o jornalista era judeu e considerava

ofensivo que lhe perguntassem se

era um criminoso de guerra alemão e argumentou

que só expressou sua opinião

sobre o Associated Newspapers, grupo

editorial dono do Evening Standard. A diretora

do Evening Standard, Veronica Wadley,

celebrou a decisão do Comitê de Normas

de Conduta da Inglaterra, e ressaltou

que o repórter se comportou “de maneira

impecável”. O Fórum Judeu de Londres também

expressou sua satisfação com o veredicto.

(Agencia EFE}.

Vice de Chavez: recebe Hamas 'com prazer'

O vice-presidente venezuelano, José Vicente

Rangel, declarou que seu país receberia

“com prazer” os líderes do Hamas, organização

que venceu as eleições palestinas.

“Qual é o problema?”, perguntou Rangel.

“Eles acabam de vencer uma eleição”,

disse. Os EUA, a União Européia e as Nações

Unidas têm declarado que não dialogarão

com o Hamas se o grupo não renunciar

à violência e reconhecer a existência

de Israel. A carta de fundação do Hamas

prega a destruição do Estado judeu e o

Hamas é considerado oficialmente uma organização

terrorista pelos EUA e pela Europa,

razão pela qual paira sobre os palestinos

a ameaça de ser cortada a ajuda

financeira internacional. O American

Jewish Congress, sediado em Nova York,

pediu aos países latino-americanos que não

recebam o Hamas, justificando que uma

recepção “prematura” não seria conveniente

para a paz. (Uol).

antasias nazistas levam à prisão

No domingo e na segunda-feira de Carnaval,

em duas ações diferentes, a Polícia

Militar prendeu 47 pessoas, usando fantasias

que divulgavam o nazismo, nos bairros

de Bento Ribeiro e Marechal Hermes, no

Rio de Janeiro. No domingo foram presas

36 pessoas com fantasias contendo desenhos

de Hitler de perfil, águia nazista com

suástica e cruzes gamadas. Na segunda-feira

foram presas outras 11 pessoas, entre elas

5 menores de idade usando coletes com o

desenho de Hitler de frente segurando um

fuzil AK-47 e uma enorme suástica nas costas.

Em outro caso não relacionado, no

mesmo dia, foram apreendidos diversos

porretes e cassetetes com outros grupos. O

caso está sendo acompanhado pela Federação

Israelita do Estado do Rio de Janeiro e

pelo Secretário de Segurança, Marcelo Zaturansky

Itagiba. (FIERJ).


Relativismo moral

e Holocausto

Pilar Rahola*

Dois fatos, próximos no tempo e espírito,

devolveram à primeira linha a questão

do Holocausto: por um lado, as imprecações

filonazistas do presidente do Irã, obcecado

por sua judeufobia; de outro, a condenação

à prisão do grande teórico do negacionismo, o

pretendido historiador David Irving. No meio, numa confusão

de valores própria destes tempos de pensamento débil,

a petição de Javier Solana para equiparar o delito de antisemitismo,

tipificado em muitos países democráticos, com

a islamofobia. E, na atmosfera deste relativismo moral que

impregna o pensamento do politicamente correto europeu,

a convicção de que o código penal protege a religião

judaica sobre as outras. Assim se expressava, não faz muito,

o presidente do Conselho Islâmico da França, e são

muitos os jornalistas que o analisam nestes termos. Dessa

perspectiva, o ignominioso concurso iraniano de caricaturas

do Holocausto, seria equiparável ao escândalo das

caricaturas dinamarquesas.

Por que não é assim? E dito em linguagem mais combativa,

por que significa uma autêntica banalidade imoral

a petição de Javier Solana? De início porque o crime

de anti-semitismo não protege uma religião, nem fornece

blindagem para os golpes da liberdade de expressão, mas

ataca o ódio atávico que conduziu ao intento do extermínio

de todo um povo. A tipificação do delito de antisemitismo

não protege o D-us judeu, porém a memória de

seis milhões de vítimas, assassinadas por sua condição

de identidade, com independência de suas crenças religiosas.

Recordemos que em Auschwitz os judeus morriam

mesmo se eram crentes ou se eram ateus, anciãos, jovens

ou crianças, revolucionários ou conservadores, nascidos

na Grécia ou fugidos dos progroms russos. Era igual. Eram

judeus, e essa era a culpa que os condenava à morte.

Específico e sem comparação, o ódio contra os judeus

representou a única indústria de extermínio que o ser

humano jamais conhecera. Quando Ahmadinejad escarnece

do Holocausto e professa sua fé negacionista, não

está atacando uma crença religiosa. Está glorificando uma

brutal e planejada matança. O assassinato de dois terços

da população judaica européia. Ou seja: glorifica o horror.

Por isso o anti-semitismo é crime nos países que mantêm

uma mínima decência com a memória. E por isso mesmo,

as ditaduras indecentes fazem apologia do esquecimento,

a zombaria ou a negação.

Quando Javier Solana, em viagem a uma ditadura teocrática

islâmica como é a Arábia Saudita, pede a equiparação

da islamofobia — que é uma forma de racismo — com

o anti-semitismo — que tem sido uma arma mortífera de

enorme eficácia —, demonstra até que ponto tem misturado

os valores. E demonstra também, como, sob a pressão

violenta do Islã radical, estamos dispostos a fazer concessões

morais. Faria melhor Solana em falar dos direitos humanos

na Arábia Saudita. Longe disso, converte o fundamentalismo

em interlocutor, cai na chantagem que nos estabelece

o integrismo e, rebaixando o Holocausto a uma

pura intolerância, banaliza o horror. Está, pois, dentro do

politicamente correto. Como tal, é um exemplo a mais da

derrota moral das sociedades livres. Puro, lamentável e

perigoso relativismo moral.

* Pilar Rahola é jornalista, escritora e tem programa na

televisão espanhola. Foi vice-prefeita de Barcelona,

deputada no Parlamento Europeu e deputada no

Parlamento espanhol. Publicado na Revista El Temps,

de Barcelona. Tradução: Szyja Lorber

Tila Dubrawsky*

este mês destaca-se a

festa alegre de Purim

com sua heroína, a

Rainha Esther. Tanto o

dia de jejum que antecede

a festa (Taanit Esther)

quanto a história escrita em pergaminho

(Meguilat Esther) testemunham

o papel vital que esta

mulher singular teve no desenrolar

do milagre de Purim.

O Talmud pergunta, onde encontramos

menção da Rainha Esther

na Torá? (Deuteronômio

31:18) “Veanochi hasteir astir panai

bayom hahu” – “Esconderei

minha face naquele dia” - nos

dias de Esther terá ocultamento

da face Divina.

A história de Purim aconteceu

após a destruição do primeiro

Templo Sagrado, quando a era da

profecia estava se fechando. Quando

as pessoas não mais viam milagres

abertos. Era uma época de

encobrimento da luz Divina. O

nome de D-us nem sequer aparece

uma vez na Meguilá e é possível a

gente concluir que todo o drama

e seu final feliz foram orquestrados

por seres humanos e suas escolhas,

coincidências extraordinárias

e a sorte de ter uma rainha

judia no palácio.

Nossos sábios nos ensinam que

a queda de uma folha da árvore é

coreografada, o sopro do vento é

controlado e o vôo de um mos-

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

Purim

e a força da mulher

quito é traçado pelo Mestre do

Universo. Nada é acidental ou

coincidência na vida. Todas as

atividades e acontecimentos são

dirigidos pela própria mão de D-us.

Quanto mais quando um poder

mundial como Rei Achashverosh

da época, aprova um decreto sugerido

pelo seu primeiro ministro,

Haman, que incitado por um ódio

fervoroso contra Mordechai é determinado

a exterminar todo o

povo judeu em um dia só.

O desafio está em nós conseguirmos

revelar a intenção e a

mão Divina em cada evento e em

cada momento da nossa vida

mesmo quando não vemos mares

se abrindo, ou arbustos queimando

ou pragas atingindo os

nossos inimigos.

Meguilá - o nome do rolo de

Purim vem da palavra gilui, revelação,

pois foi a nossa heroína Esther

que conseguiu desvendar a

máscara Divina. Ela compreendeu

que D-us a colocara em posição

de proeminência e influência social

para poder servir ao seu povo.

No momento mais crucial, Esther

não vacilou. Ela arriscou a sua

própria vida, pois a continuidade

do seu povo era mais preciosa,

acima de tudo para ela.

A Rainha Esther compreendeu

que o decreto de Haman não havia

começado aqui no plano físico

e, sim, que o Mestre do mundo

em cujo controle está o coração

de todos os reis e ministros

17

estava querendo impulsionar o

povo judeu a um nível espiritualmente

superior. Então, primeiramente,

teriam de estreitar os laços

com o Rei dos Reis, O Todo

Poderoso. Ela concordou em

enfrentar o rei, com a condição

que o povo se unisse e voltasse a

D-us em oração e jejum tornando

se desta forma merecedores da

salvação Divina. Foi a Rainha Esther

que conduziu o povo a uma

notável elevação espiritual e a

conseqüente redenção.

Hakorei et hameguila lemafreia

lo yotsei. (Shulchan Aruch) Se ao

ler a Meguilá de Esther nós pensarmos

que estas milagrosas coincidências

só fazem parte do nosso

passado e não dizem nada a

respeito da nossa vida atual - não

cumprimos com o nosso dever. A

essência da Meguilá de Esther é

aprender a olhar cada evento do

nosso cotidiano com cuidadosa

consideração e constantemente

procurar a intenção divina em

todos os momentos.

Igual a heroína de Purim, nós

mulheres judias temos a força de

infundir o nosso lar, a nossa comunidade

e o nosso mundo com

a luz das nossas mitsvot e trazer

esperança, salvação e redenção.

Faço votos que assim como em

Purim houve luz, alegria, regozijo

e honra para todos os judeus, que

assim seja para conosco, em breve,

com a vinda de Mashiach.

* Tila Dubrawsky é esposa do Rabino Yossef Dubrawsky, diretor do Beit Chabad de Curitiba, mãe, avó,

coordenadora de programas educacionais e culturais, orientadora de pureza e harmonia familiar para

noivas e mulheres de todas as idades.


18

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

“JEST, The Jewish, Earnest

Way to Stop Tobacco

Smoking” é o título do livro

escrito por Abraham Bohadana

com ilustrações de

David Szjanbrum Bohadana.

“Usando um pouco de humor,

o livro explora de que

modo princípios judaicos

tradicionais podem ajudar fumantes a parar

de fumar e evitar recaídas. Em resumo, ‘JEST’

(que significa “Piada”, em inglês) conta as aventuras

de um casal de judeus não-religiosos lutando

para deixar o cigarro. Aos poucos, uma

abordagem não-moralizante aparece, suscetível

de agradar fumantes em geral, religiosos

ou não.” O livro é vendido apenas pela internet

http://jestonline.com.

Para quem não se lembra, a família Bohadana

morou 2 anos em Curitiba, e hoje reside em

Nancy, França. Abraham trabalha hoje no Hospital

da Universidade de Nancy e é Diretor de

Pesquisa no Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa

Médica (INSERM em francês). Segundo

ele: “Moramos 2 anos em Curitiba, foi curto,

mas marcante a ponto de passarmos uma parte

de nossas férias aí”.

A Escola Israelita Brasileira “Salomão Guelmann”

começa no dia 13/3 a vender produtos

para a ocasião. A ‘lojinha” estará funcionando

na entrada do CIP, das 14 às 18h de segunda

a sexta-feira até o dia 11/4.

A Wizo vai inaugurar seu painel “Memória Wizo”

dia 19/3 às 16h no CIP (Travessa Agostinho

Macedo, 248) e convida toda a comunidade

párea prestigiar o evento.

O Instituto Cultural Judaico-Brasileiro “Bernardo

Schulman” está convidando a comunidade

para a inauguração de sua nova sede,

Rua Cruz Machado, 126, local da Sinagoga

Francisco Frischmann. Será dia 26/3 às 16h30.

Nos dias 4 e 5 de abril, às 20h30, no miniauditório

do Teatro Guaira, o Grupo Apoio reapresentará

a peça teatral humorística “Na era

da válvula”, que foi sucesso na temporada

passada. Os espetáculos serão em benefício

das entidades filantrópicas Wizo e Pioneiras.

O ingresso custará R$10,00 e uma lata de leite

em pó por casal.

Para conscientizar, esclarecer e debater o

Terrorismo Internacional e a Importação

do Anti-Semitismo para a América Latina,

a B’nai B’rith de São Paulo, promove duas

palestras com convidados internacionais.

Que tal seguirmos o exemplo?

15 de março, às 20h30 - ”Internacionalização

do terrorismo” - Palestrante: Ely

Karmon - Ph.D em Ciências Políticas pela

Universidade de Haifa, Pesquisador Senior

do Instituto contra Terrorismo de

Israel, Autor do livro: “Coalizões entre

Organizações Terroristas: Revolucionários,

Nacionalistas e Islâmicos” (2005).

6 de abril, às 20h3: ”Importação do antisemitismo”

- Palestrante: Fábio Landa -

Doutor em psicanálise pela Université Paris

VII-Jussieu - Pós-doutor por Paris IV-

Sorbonne - Pós-doutor pela Ecole de Hautes

Etudes en Sciences Sociales-Paris. Local:

Sede da B´nai B´rith do Brasil - Rua

Caçapava, 105. São Paulo.

Por conta da forte procura de visitantes,

o governo de Israel anunciou que

abrirá o seu primeiro escritório de Turismo

da América Latina no Brasil. O anúncio

é uma resposta à alta demanda de

turistas brasileiros em peregrinação à

Terra Santa. Somente no ano passado,

19.764 pessoas visitaram o país, o que

representou um aumento de 73% se comparado

a 2004.

Ainda não foi definido um local para

sediar o escritório. Segundo o governo

israelense, duas cidades apontadas foram

São Paulo e Rio de Janeiro, esta

com maiores possibilidades de receber

as instalações. A abertura de um escritório

de representação no Brasil coincidirá

com a de outro em Atlanta, nos

Estados Unidos.

Marcus Moraes, jornalista, correspondente

da Jewish Telegraphic Agency

(JTA) no Brasil e colaborador do ALEF,

em janeiro representou o Brasil no

Young Jewish Leadership Diplomatic Seminar

(Seminário Diplomático de Jovens

Lideranças Judaicas), junto com

Abrahão Kano (Rio) e Fabio Szperling

(São Paulo). Sediado no luxuoso novo

prédio do Ministério de Relações Exteriores

de Israel (Mizrad HaChutz), o

evento foi realizado em Jerusalém. Ao

longo de palestras, conferências,

workshops, o grupo de 25 jovens ativistas

judeus da América Latina, Estados

Unidos e Europa puderam trocar experiências

vividas em nossas comunidades,

além de aprender e debater exaustivamente

diversas questões judaicas

com diplomatas, políticos, historiadores,

sociólogos, antropólogos etc.

Duas pitadas bem brasileiras rechearam

o seminário: o jornalista Marcos Losekann,

da TV Globo, e o porta-voz do

Departamento de Informação israelense

Ilan Sztulman. Losekann apresentou sua

visão com correspondente latino-americano

não-judeu em Jerusalém, enaltecendo

a ampla liberdade profissional que

goza no Estado Judeu, cuja prosperidade

comparou à da Europa. Já Sztulman

palestrou sobre a “guerra” travada entre

Israel e a imprensa tendenciosa. Diversos

outros temas foram abordados

pelos demais conferencistas, incluindo

o aumento do anti-semitismo em todo

o mundo e a atual situação política no

Oriente Médio.

Apesar do clima conturbado com o afastamento

do primeiro-ministro Ariel Sharon

e a liderança interina de Ehud Olmert,

as eleições palestinas e a vitória

do Hamas, a expectativa das novas eleições

israelenses e o atentado terrorista

em Tel-Aviv, a agenda ainda teve espaço

para a posse da nova chanceler Tzipi

Livni, visitar as instalações de uma fábrica

israelense de high-tech, entrevistar

militares que patrulham a fronteira

de Israel com o Líbano, conhecer alguns

locais sagrados cristãos (Igreja do Santo

Sepulcro, Via Dolorosa e Sinagoga de

Caphernaum), dialogar com um diplomata

israelense druso, bem como o novo

prédio do Yad Vashem.

De 13 de março a 13 de abril, a Unicenp

realiza a Expo Einstein: Nem tudo é relativo.

O evento tem o apoio do Instituto

Cultural Judaico-Brasileiro “Bernardo

Schulman” e estará instalado na Sala de

Eventos do Centro Universitário Positivo,

na Rua Professor Pedro Viriato Parigot

de Souza, 5.300, com entrada franca.

Funcionará de segunda a sexta-feira,

das 10 ás 18h e aos sábados, domingos

e feriados das 11 ás 13h.

Colabore com notas para a coluna. Fone/fax 0**41 3018-8018 ou e-mail: visaojudaica@visaojudaica.com.br

Prof. Israel Blajberg, veterano Rubens

Andrade (Presidente da Associação

dos Ex-Combatentes), tenente Luise

Betty Burdman e o veterano Sérgio

Pereira (herói de Monte Castelo

condecorado com a Bronze Star)

Membros da comunidade israelita foram

agraciados com a Medalha Jubileu

de Ouro da Vitória na Segunda

Guerra Mundial. A tenente dentista

dra. Luise Betty Burdman, da Odontoclinica

Central do Exército, e o professor

Israel Blajberg, do Instituto

de Geografia e Historia Militar do

Brasil, foram agraciados com a Medalha

Jubileu de Ouro da Associação

dos Ex-Combatentes do Brasil, durante

solenidade realizada em 23 de

fevereiro. A tenente Luise Betty

Burdman foi agraciada em reconhecimento

aos bons serviços prestados

no atendimento aos veteranos e seus

familiares na Odontoclinica Central

do Exercito, e o professor Israel Blajberg

em razão do trabalho desenvolvido

na preservação da memória

dos Ex-combatentes.

Esteve presente à solenidade o Veterano

da Marinha do Brasil Melquisedec

Affonso de Carvalho, Diretor

Cultural da Associação, o qual integrou

inúmeros comboios no Atlântico

Sul durante o conflito, tendo sido

um dos homenageados em 2005 na

solenidade Heróis Brasileiros Judeus

da 2ª Guerra Mundial, no Grande Templo

Israelita.

Em 14 de fevereiro, mais de

30 jovens de diferentes cidades

brasileiras embarcaram

para Israel, a fim de participar

do Programa das Classes

Brasileiras de Ayanot, mantido

por Na’amat Pioneiras-

Brasil. Os planos eram muitos,

e diziam respeito a cres-

O grupo de brasileiros que embarcou este ano cimento pessoal, a aprofun-

para as classes de Ayanot

damento de estudos, aprendizado

de novas línguas, aumento

do círculo de amizades, possibilidade de uma maior aproximação

com sua cultura e tradição, entre outros. Todos os alunos foram unânimes

em afirmar que este seria um ano de muito aprendizado, descobertas e

crescimento. Mais informações em www.naamat.org.br/


grupo radical islâmico

Hamas, que tem praticado

atentados terroristas

em Israel, assumiu como

partido majoritário no Parlamento

palestino e rapidamente rejeitou

o pedido do presidente Mahmoud

Abbas para procurar esforços na pacificação

com o Israel.

A posse no parlamento, eleito em

janeiro, garantiu ao Hamas a formação

de um governo que está em rota de

colisão potencial com Abbas e delineia

um boicote das potências mundiais a

menos que renuncie à violência e seu

objetivo de destruir Israel.

Israel está considerando restrições

mais duras aos palestinos para aplicar

pressão no Hamas. Fontes israelenses

confiáveis disseram que se o novo governo

não reconhecer Israel, parar a

violência e aceitar os acordos de paz,

seria visto como uma “entidade hostil”.

Falando na abertura da sessão do

Parlamento, Abbas disse que o novo

governo deve reconhecer os tratados de

paz já assinados com Israel e procurar

ele próprio por um status de conversações,

mas ele não fixou condições para

formar um gabinete.

“A presidência e o governo continuarão

respeitando nosso compromisso às

Para Eid, a crise interna do Fatah

foi uma das razões para a vitória do

grupo extremista nas eleições palestinas.

Mas a principal foi que, nos últimos

anos, nós, palestinos, temos ouvido

da Autoridade Nacional Palestina

tantas promessas, inclusive de combate

a corrupção, e nada aconteceu.

Os palestinos ficaram cheios dessa situação

- explicou.

Segundo o diretor do órgão, muitos

cidadãos de “mente aberta”, democráticos,

votaram no Hamas porque acreditaram

que o movimento é o único capaz

de realizar mudanças. Entretanto,

o povo palestino ainda não teria entendido

que levar o Hamas ao poder “é um

negociações como uma escolha política

estratégica”, pragmática, disse Abbas.

“Nós fomos eleitos numa agenda

política diferente”, disse para o líder

do Hamas, Ismail Haniyeh, que se tornou

primeiro-ministro numa sessão

transmitida por TV unindo por vídeo a

Margem Ocidental e a Faixa de Gaza,

suspendendo as orações muçulmanas.

O Hamas ganhou o controle do Conselho

Legislativo palestino nas eleições

parlamentares de 25 de janeiro batendo

a longa dominação do Fatah de Abbas

que foi amplamente acusado de corrupção

e malversação. O Hamas obteve 74

cadeiras no parlamento de 132 membros.

Representantes do Hamas disseram

que o grupo apresentará logo um projeto

ao Parlamento, incluindo uma proposta

para uma trégua de longo prazo com

Israel se este se retirar das terras conquistadas

na guerra de 1967. Israel,

entretanto já rejeitou essa proposta porque

espera primeiro o reconhecimento e

a cessão da violência e dos atentados.

O grupo tem repetidamente dito

que não rescindirá sua chamada para

a destruição de Israel ou reconhecerá

o estado judeu. O Hamas, que aderiu

em grande parte a uma trégua durante

os últimos anos recusou abandonar

suas armas.

desastre”. Para exemplificar, Eid citou

uma história pessoal:

- Um amigo israelense que conheci

há pouco, disse-me estar muito satisfeito

com o resultado das eleições. Ele

disse que vamos levar o Hamas e eles,

israelenses, vão levar o Likud para um

novo conflito sangrento e, daqui a uns

cinco anos, estaremos mais aptos a nos

comprometer e procurar uma solução

para o Oriente Médio. E é isso mesmo.

Eid afirmou ainda ter certeza que,

no próximo mês, os membros da segurança

palestina vão lutar pelos seus

salários. “A ANP precisa, todo mês, de

40 milhões de dólares. Quem vai pagar

por isso se de acordo com as leis da

Europa ou dos Estados Unidos, eles não

podem apoiar o Hamas? De onde vão

tirar o dinheiro?”, indagou.

Eid apontou o povo palestino como

único culpado dessa situação. Para ele,

a falta de estratégia da população é

uma das razões para o “caos”.

“Temos que entender que as pessoas

estão insatisfeitas. Com certeza,

a sociedade civil, os acadêmicos.

Mas parece que nós (sociedade civil e

acadêmicos) somos considerados a

Trégua é trapaça

O Exército descobriu um lançador

de morteiro de 60 milímetros com oito

mísseis que apontavam para Giló, bairro

de Jerusalém, segundo fontes que

citaram o dretor do Shin Bet (Agência

de Segurança Interna Israelense) Yuval

Diskin, dia 19 de fevereiro.

Diskin, que falou ao Comitê de Defesa

e Relações Exteriores da Knesset

disse aos parlamentares que é a primeira

vez que se descobre uma arma

balística apontada para Jerusalém. O

morteiro havia sido roubado de uma

base do Exército israelense. O diretor

do Shin Bet disse que a chamada trégua

(hudna) que oferece o Hamas por

10 anos, é uma trapaça ao dizer que

apesar de vários indícios de moderação,

o Hamas é uma ameaça estratégica

para Israel.

O objetivo da organização terrorista,

enfatizou Diskin, é a total destruição

de Israel. Se permitirmos que o

estado do Hamas se levante, predigo

que será uma atração para as organizações

de Jihad internacionais.

O Conselho das Comunidades da

Judéia e Samária disse que os comentários

do diretor do Shin Bet reforçam

a certeza de que o estabelecimento de

um estado palestino é uma verdadeira

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

Hamas assume o governo, mas

não quer abandonar o terrorismo

O diretor do Grupo Palestino

de Monitoramento dos Direitos

Humanos, Bassem Eid, entrevistado

pelo Globo Online, disse que um

“terremoto político” atingiu os

territórios palestinos, referindo-se

à vitória do Hamas nas eleições

promovidas pela Autoridade

Palestina. “Acho que o próprio

Hamas ficou chocado e surpreso de

como eles conseguiram um número

tão grande de votos”, disse.

Bassem Eid: vitória do Hamas é

como um ‘terremoto político’

minoria dos palestinos. Pensei que

fôssemos a maioria, mas eu acho que

estava errado”.

Bassem Eid ressaltou que vai levar

tempo até que a população palestina

perceba o desastre que trouxe para si.

Em algumas semanas, um novo cenário

deve surgir, com a transferência de

ameaça para a existência de Israel.

Enquanto os serviços de segurança

informavam que há ao menos 73

alertas de possíveis ataques terroristas

e que a Jihad Islâmica se ocupa

pouco a pouco do vazio deixado pelo

Hamas desde sua assunção ao parlamento

palestino.

O Exército continua com operações

de grande escala na área de Schem para

encontrar terroristas da Jihad Islâmica.

Um de seus comandantes foi morto

num fogo cruzado recentemente. (El

Reloj.com e Jerusalem Post).

poder do Fatah para o Hamas. Para Eid,

não há a menor possibilidade de ambos

os movimentos trabalharem juntos.

“Eles são inimigos e você nunca trabalha

com seu inimigo. Hamas e Fatah

são dois maiores inimigos do Oriente

Médio. Nunca veria os dois cooperando

um com o outro”, completou.

19

Atentado com suicida-bomba em um ônibus de israel, reivindicado pelo Hamas


20

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

...Temperado com sal puro e santo

- Êxodo 30:35

A história e a trajetória

do sal antecedem a

história do homem

Breno Lerner*

Evidências históricas e as observações

de animais até hoje mostram

que os animais pré-históricos já procuravam

sal mineral para lamber, mantendo

assim o equilíbrio sódio x

potássio, fundamental para a vida.

É razoavelmente provável que o homem,

desprovido de instintos, aprendeu

a consumir sal com os animais.

Fato é que o sal é o mais antigo

tempero e preservante que o homem

conhece em sua história.

No ano 2700 a.C., portanto 4700

anos atrás, o primeiro tratado de farmacologia

conhecido, foi escrito por

Tzao-Kan-Mu, na China, e já descrevia

40 tipos diferentes de sal e pelo

menos dois diferentes métodos de

extração e refino do sal.

Por sua importância para a vida

humana, o sal é objeto de diversas

histórias, fábulas, contos e lendas.

Seus significados e simbolismos são

incontáveis em religiões e mitos de

todos os povos do planeta.

O homem precisa repor entre 5 e

10g de sal todo dia, para manter

seu equilíbrio fisiológico. Isto representa

1,8 a 3,6 kg por ano, ou

seja, a humanidade consome, ao

menos, entre 11 e 22 milhões de

toneladas de sal ao ano.

Obviamente este consumo todo

não é unicamente

do sal in natura.

Obtemos reposição

de sal nos alimentos

que ingerimos,

a carne, por

exemplo, é uma

boa fonte de sal.

Por outro lado falamos

da reposição

mínima necessária,

o consumo total

é bastante superior,

seja pelo

uso como tempero,

seja com ingrediente

e uso industrial.

A produção

mundial é es-

timada em 225 milhões de toneladas

métricas. Apenas nos Estados Unidos,

15 milhões de toneladas de sal

são utilizadas anualmente para degelo

e controle de neve e rodovias.

O sal foi elemento importante na

economia mundial, prova disto são

a via Salaria, entre Roma e Ascolli, a

route du Sel na Provence, a via Salarium

na Turquia, a ruta do Sal no país

Basco, a cidade de As-Salt (depois

conhecida como Saltus) na Jordânia,

Salzburg e suas quatro minas de sal

na Áustria, a cidade de Tulz (sal em

turco) na fronteira da Eslovênia com

a Croácia, as tristemente famosas minas

de sal da Sibéria, todas nominadas

por sua importância no fabrico

e comércio do sal. Um registro histórico

da route du Sel aponta que,

apenas no ano de 1776, saíram de

Nice 35.000 mulas carregadas de sal,

para outras cidades.

Na Grécia, a troca de sal por escravos,

gerou a frase “não vale o sal

que come...”. Os romanos tinham especial

preocupação com suas minas

de sal e algumas delas estão em atividade

até hoje, como por exemplo,

a mina de Wieliczka na Polônia, com

seus 300 km de túneis a 150 m abaixo

da terra e sua surpreendente catedral

de sal, um dos pontos que mais

atrai turistas no país. Herodes manteve

o monopólio do sal retirado das

minas do Mar Morto e construiu o

porto de Cesárea para, principalmente

exportar o sal para ou outros domínios

romanos.

A expressão Salarium, que todo

mundo atribui ao pagamento dos legionários

em sal, hoje é questionada

por alguns historiadores, que preferem

entender que vem do entendimento

que este pagamento era para

repor as necessidades básicas do

soldado, principalmente o sal.

Os egípcios foram o primeiro

povo a registrar uso culinário e como

conservante do sal. Pinturas de 1450

a.C registram o fabrico de sal. Receitas

da época já levavam sal e seu

uso em conservas e panificação, conhecido.

Era utilizado também na

mumificação. Uma receita antiqüíssima

de dentifrício misturava berinjela

tostada em pó e sal.

Economicamente, como vimos

acima, o sal movimentou legiões e

povos para que povos tivessem meios

de produção e comércio do sal.

Na Etiópia, o sal foi usado como

padrão monetário por quase mil anos,

até 1935. Uma cotação do século XVI

da Guela ou Hew – barra de sal usada

como padrão – valia 16 kg de trigo.

Na Bíblia encontramos mais de

trinta citações ao sal, a mais famosa

e conhecida, em Gen 19:26, onde a

mulher de Lot transforma-se em uma

coluna de sal.

Homero chamou-o de divino, Platão

de substância dos deuses.

Shakespeare menciona o sal 37 vezes

em suas obras. Suas características

divinas são refletidas nas diversas

superstições sobre azar ao derramar-se

sal, não passar o saleiro de

mão em mão, etc

Curiosamente, Leonardo da Vinci

coloca um saleiro derramado na

frente de Judas, em sua Última Ceia.

Entre os judeus, derrubar sal na mesa

para nele passar a Challá, é uma forma de

lembrar da destruição do templo.

Cervantes, pela boca de Dom Quixote,

dizia que um homem tem que

comer uma pitada de sal com seus

amigos para depois conhecê-los.

Cícero recomendava não confiar

em um homem a não ser que já tivesse

partilhado sal com ele.

Pitágoras afirmava que o sal era

filho da pureza de seus pais, o sol

e o mar.

Archestratus, o grande cozinheiro

grego ensinava que a melhor

forma de contentar um homem

faminto era colocar em sua frente

um bom pedaço de assado de carne,

temperada unicamente com sal,

qualquer outra comida ou tempero

seriam supérfluos.

A adição de iodo ao sal praticamente

eliminou da sociedade moderna

(ou pelo menos dos países que

adotaram esta medida) as síndromes

decorrentes de sua falta, entre elas

o bócio (que era endêmico, por

exemplo, no Brasil) e tendência a

retardo mental.

Apresentada esta rápida história,

uma receita com sal, muito sal:

Pargo no sal grosso

1 pargo com 2 a 3 quilos (pode

ser substituído por enchova ou

vermelho)

2 limões cortados em fatias finíssimas

3 a 4 quilos de sal grosso

Um punhado de ervas para peixe

(coentro, salsinha, endro, tomilho)

bem batidas

Claras de 2 ovos

Peça ao peixeiro para limpar e

destripar o peixe, abrindo-o também

pelas costas. Recheie o peixe com

as rodelas de limão. Numa assadeira

faça um berço de sal grosso de 2 cm

de altura. Coloque o peixe, verticalmente

(“de pé”) sobre o sal. Misture

o restante do sal com as claras e as

ervas. Cubra o peixe, construindo

paredes de sal ao seu redor. Não deixe

nem um pedacinho descoberto.

Asse em forno alto por 40 minutos.

Leve a assadeira à mesa. Com um martelinho

quebre a crosta de sal que sairá

com a pele do peixe. Sirva os files ou

pedaços, com azeites aromatizados

que você pode fazer em casa.

Coloque azeite em garrafas bonitas

e aromatize-os com:

1- Tomilho e endro (um amarrado

com dois ou três ramos de

cada).

2- 2 colheres de sopa de alho torrado

bem picado (pipoca de alho).

3- 2 pimentas dedo de moça ou

de cheiro (faça uns furinhos nas

pimentas).

Deixe as garrafas em local que receba

sol por dois dias, depois guarde-as

num armário por mais uma semana

antes de servir.

Para acompanhar, grossas fatias de

tomate (o Momotaro é excelente para

assar), berinjela (pré-grelhadas) e

cebola roxa (faça uma pilha começando

pela berinjela grelhada, depois

tomate e a cebola por cima) assadas

com bastante azeite e manjericão.

Um vinho branco do Loire vem

bem a calhar. Se não, um dos excelentes

espumantes secos que o Brasil

já anda fabricando.

* Breno Lerner é editor e gourmand, especializado em culinária judaica. Escreve para revistas, sites e jornais. Dá regularmente cursos e workshops. Tem

três livros publicados, dois deles sobre culinária judaica.


ilme que glorifica o terrorismo

fica sem a estatueta do Oscar

ontrariando a opinião

de toda a mídia

simpatizante e a

crítica internacional

(a maioria da esquerda),

que previa a conquista da estatueta

de melhor filme estrangeiro

para Paradise Now, o Oscar 2006,

que aconteceu no domingo 5/3 premiou,

na categoria, um filme sulafricano,

“Tsotsi”, derrubando assim

as pretensões de abrandar a

imagem do terrorismo e convertêlo

num símbolo de luta legítima

(!?). Um grupo de israelenses que

teve filhos mortos em atentados

a bomba praticados por palestinos

havia apelado à Academia de

Artes e Ciências Cinematográficas

de Hollywood para que desclassificasse

da disputa de filme

estrangeiro o longa palestino Paradise

Now, que aborda as motivações

dos atentados a partir dos

personagens de dois terroristas.

O pedido à Academia de Hollywood

baseou-se no fato de o

filme explorar os ataques terroristas

contra Israel.

Em entrevista coletiva, Yossi

Mendelvich, Yossi Zur e Ron Ker-

32 mil assinaturas pediram desqualificação da

película palestina Paradise Now

Desabafo de um pai

Após ganhar o prêmio Globo de Ouro, veio o

desabafo de Yossi Tzur, pai de um filho assassinado

num atentado num ônibus, diante de um filme

que glorifica o terrorismo.

O filme Paradise Now (O Paraíso Agora) mostra

o caminho que dois jovens palestinos tomam

para se tornar suicidas-bomba, até o momento

que eles sobem a bordo um ônibus cheio de crianças,

em Tel Aviv.

O filme parece profissional. Foi feito com grande

atenção aos detalhes, mas é extremamente

perigoso — não só para o Oriente Médio, mas

para o mundo inteiro.

Meu filho Asaf, de quase 17 anos de idade, era

um estudante da escola secundária que freqüentava

o décimo primeiro grau e amava informática.

Um dia após a escola ele embarcou num ônibus

para voltar para casa, como sempre fazia. No caminho,

um homem-bomba se explodiu no ônibus.

Foram mortas 17 pessoas, 9 delas escolares

com 18 anos de idade ou menos. Meu filho Asaf foi

morto na explosão.

Eu assisti ao filme Paradise Now tentando entender

o que estava tentando dizer, que mensagem

trazia?

Que o assassino é humano? Ele não é.

Que ele tem dúvidas? Ele não tem nenhuma.

Afinal de contas, ele está disposto a se matar junto

com as suas vítimas.

Que os israelenses são culpados por esta matança

brutal? São os israelenses culpados pelas

Torres Gêmeas em Nova York, o night club da Indonésia,

o hotel no Egito, a loja na Turquia, o restaurante

no Marrocos ou em Tunis, o hotel na Jor-

man, três dos pais de vítimas, reuniram

32 mil assinaturas numa petição

on-line contrária à indicação

do filme. Paradise Now, cujos protagonistas

são habitantes da

Cisjordânia recrutados para um

atentado suicida em Tel Aviv, é o

primeiro longa palestino a ser indicado

ao Oscar (até recentemente,

a Academia não considerava a

Palestina um país; em 2003, a inscrição

de Intervenção divina, de

Elia Suleiman, na categoria filme

estrangeiro, foi recusada exclusivamente

por causa disso).

Hany Abu-Assad, o diretor de

Paradise Now, é um israelense de

origem árabe (nascido em 1961,

em Nazaré), bem como os atores

principais, Ali Suliman e Kais Nashef.

As filmagens ocorreram nos

territórios da Autoridade Palestina,

com equipe técnica de lá. O

produtor é um judeu israelense e

a produção foi basicamente bancada

por recursos europeus.

Yossi Zur, cujo filho adolescente

Asaf foi morto na explosão de

um ônibus, acusou o filme de apresentar

de forma favorável os métodos

violentos adotados por gru-

pos radicais palestinos para chamar

atenção para sua causa.

Nunca na história recente do

Oscar uma indicação já concedida

foi revogada a pedido de alguém.

Isso aconteceu apenas nos primeiros

anos da premiação, geralmente

a pedido do próprio estúdio. Um

precedente em 1993 ocorreu por

violação de regras.

As maiores cadeias exibidoras

de Israel, inicialmente, evitaram

mostrar Paradise Now, por medo

de sofrerem boicotes na porta dos

cinemas ou simplesmente de perderem

dinheiro. O filme, apesar

da controvérsia, era o favorito

para o Oscar da categoria, ou pelo

menos assim se dizia.

O israelense Yossi Zur, cujo

filho adolescente morreu na explosão

de um ônibus, acusa o filme

de fazer um retrato simpático

da tática usada por alguns palestinos

há mais de cinco anos. “O

que eles chamam de Paradise Now,

nós chamamos de 'inferno agora',

todos os dias”, declarou. “É a

missão de um mundo livre não premiar

filmes como esses.”

dânia, as estações subterrâneas em Londres, e a

de trem na Espanha? E a lista segue sem parar.

O que faz este filme merecedor de um prêmio?

Será que as pessoas que premiaram este

filme com o Globo de Ouro, fariam o mesmo se o

filme fosse sobre jovens de Arábia Saudita que

aprendem como pilotar aviões nos EUA e então

usar rituais islâmicos para se prepararem para

sua missão sagrada, e então colidir seus aviões

com as Torres Gêmeas na cidade de Nova York?

Este filme ganharia um prêmio então?

Este filme tenta dizer que o assassinato suicida

é legítimo quando você sente que esgotou todos

os outros meios. Um assassino suicida sobe

a bordo um ônibus e mata 15 ou 20 pessoas inocentes,

então o que dizer de um assassino suicida

que entra numa cidade com uma bomba biológica

e mata 10.000 pessoas ou 100.000 pessoas?

Isso ainda é legítimo? De onde alguém extrai essa

linha de pensamento?

Eu acredito que o mundo deveria recusar essa

linha de uma pessoa. Até mesmo matança de uma

só pessoa não é legítima. Meu filho tinha quase 17

anos, ele amava surfar e amava música alta. Mas

agora ele se foi porque um assassino suicida decidiu

que é legítimo explodir-se em um ônibus

abarrotado de gente.

Conceder um prêmio a este tipo de filme dá

aos diretores um selo de aprovação para que possam

esconder-se atrás dele. Agora eles podem

dizer que o mundo vê as implicações suicidas

desta mensagem, essa que escolheram para premiar

este filme com um prêmio que passa a fazer

parte da maléfica cadeia de terror e cúmplice dos

próximos assassinatos suicidas, ainda que matem

17 pessoas ou 17.000 pessoas.

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

Ministro da Educação em Israel

O ministro da Educação, Fernando

Haddad, esteve em Israel dia

1º/3, no terceiro dia de uma viagem

a três países da Oriente Médio.

O objetivo foi discutir acordos

de cooperação e parcerias,

principalmente na área de ensino

superior. O roteiro começou

dia 27/2 em Beirute, no Líbano.

No dia seguinte, 28/2, Haddad

passou por Damasco, na Síria,

onde manteve reunião de trabalho

com o ministro da Educação

do país para discutir, entre outras

questões, formas de estimular

o estudo do árabe em universidades

brasileiras e do português

em universidades sírias. Já

existe um acordo cultural e educacional

entre os dois países sobre

este e outros temas firmado

em 3 de dezembro de 2003 e que

entrou em vigor em 1º de janeiro

do ano seguinte (2004).

(Agência Brasil).

Ministro da Educação II

Na quarta-feira, dia 1º/3, o ministro

brasileiro teve compromissos

com autoridades israelenses

dos ministérios da Educação e das

Relações Exteriores, em Jerusalém.

No dia 2/3, pela de manhã,

no Monte Scopus, ele se reuniu

com o reitor da Universidade Hebraica

de Jerusalém. Depois seguiu

para Tel-Aviv, onde foi se

encontrar com dirigentes do Ministério

da Educação, Cultura e

Esportes. Durante a viagem ao

Oriente Médio, além das parcerias

na área de ensino superior,

Fernando Haddad discutiu acordos

em educação a distância e

ensino técnico e profissional. (Da

Agência Brasil).

Israel pesquisa contra

a gripe aviária

Estão sendo realizados em Israel

testes com sangue e saliva de 13

aves mortas encontradas em Gaza

e entregues pela Autoridade Palestina.

Se for confirmada, a

gripe aviária poderá afetar a saúde

e as finanças não apenas dos

palestinos em Gaza, mas também

em Israel, conforme alertam as

autoridades. Uri Madar, chefe da

Divisão de Agricultura do Escritório

do Distrito de Erez disse que

“é interesse de Israel assegurar

que o padrão agrícola de Gaza seja

mantido”. Ao ser notificado pelos

palestinos da morte das aves, e

preocupado, pediu que elas fossem

enviadas para laboratórios

veterinários israelenses. No entanto,

as autoridades ainda não

sabem se com o novo governo do

21

OLHAR ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

HIGH-TECH

○ ○

Hamas o estreito contato com os

palestinos sobre assuntos deste

tipo terá continuidade. (Jerusalem

Post).

Internet em Israel

Em Israel 47% da população está

conectada à Internet e desse percentual

cerca de 88% dos navegadores

dispõem de conexão de

banda larga, de acordo com a

empresa TNS de telepesquisa. No

total, são 3,4 milhões de pessoas

que navegam na Internet diariamente.

A mesma empresa informa

que o uso mais comum é

para busca de informações

(93,5%), para busca de informações

sobre turismo e viagens

(59%) e para para leitura de notícias

(74%). (Arutz 7).

Grapefruit baixa o colesterol

Uma variedade híbrida da fruta

grapefruit, desenvolvida em Israel

baixa o nível de colesterol

oferecendo menos riscos de ataque

de coração. Um grapefruit por

dia — particularmente a variedade

vermelha — pode ajudar

manter o controle das doenças

do coração, de acordo com um

novo estudo de pesquisadores israelenses

da Universidade Hebraica

de Jerusalém. Doenças cardíacas

são as que mais matam

mulheres nos Estados Unidos, e

o mês de fevereiro foi designado

como o mês americano do coração.

A equipe de pesquisadores

conduzida pela doutora Sheila

Gorinstein, da Universidade Hebraica,

descobriu que pacientes

que comem o equivalente a um

grapefruit por dia tinham níveis

de colesterol mais baixos do que

os que não comiam — devido às

propriedades antioxidantes da

fruta. O elevado nível de colesterol

do sangue é o principal fator

de risco para doenças do coração.

(Israel21c).

Esperança contra câncer

Roger Oscrason, da Suécia, sofre

de câncer e está sendo tratado

com um novo medicamento desenvolvido

com base na descoberta

dos Prêmios Nobel Hershko e

Chernobar, de Israel. O medicamento

chama-se Velcadea. Roger

tem um tipo de leucemia muito

difícil de ser tratada e este, segundo

ele, é o primeiro medicamento

que realmente funciona

sem ter muitos efeitos colaterais.

Roger iniciou o primeiro tratamento

há um ano. E quando a leucemia

voltou, um ano depois, passou

a tomar o Velcadea num novo

tratamento que vai durar até abril.

(Da internet).


22

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

* Jacob Dolinger é doutor em

Direito Privado e professor titular

de Direito Internacional Privado

na UERJ e professor visitante de

várias escolas de Direito nos

Estados Unidos e da Academia de

Direito Internacional. Fonte:

Artigo publicado no Boletim ASA

– n o 71 – julho/agosto de 2001

p.3.

VJ INDICA

Jacob Dolinger *

o Pentateuco não há distinção

entre regras de natureza

legal e de natureza moral;

ambas são apresentadas via

revelação e se equiparam no que tange

à sua autoridade. A forma imperativa

é igualmente empregada à

proibição contra o homicídio e o roubo

e à ordem de amar o semelhante.

Um sistema unificado de lei e moral,

apesar de se reconhecer coercibilidade

para um e não para o outro.

Na visão profética de Isaías, Amós

e Miquéias, a perda da soberania e o

exílio se dão devido a corrupção social,

pecados de natureza social, econômica

e política, a violação de normas

jurídico-morais de comportamento,

sem referência a questões de

culto ou ao pecado da idolatria.

No período talmúdico se reconhece

claramente que não há um regime

de coerção para garantir determinadas

formas comportamentais desejadas.

Tanto na Mishná como na Tossefta

— os dois códigos editados

no final do século II

da era atual, sobre os

quais foram subseqüentemente

elaborados e

editados o Talmud de

Jerusalém e o Talmud

da Babilônia —, encontram-sereferências

a certas situações

em que, apesar de

justificado, uma parte

não tem recurso legal contra

a outra parte, só lhe res-

ILME

Modigliani - Paixão pela Vida

Título original: Modigliani

EUA, 2004, 128 minutos

Direção: Mick Davis

Atores: Andy Garcia, Elsa Zylberstein e Omid Djalili

Distribuição: Universal, drama, DVD, colorido.

A Ética no Judaísmo

tando taromet, ressentimento contra

quem prejudicou.

Os sábios talmudistas invocaram

freqüentemente o conceito de

v’assissá haiashar v’hatov — e farás o

que é justo e bom —, encontrado

no Deuteronômio 6, 18, para fundamentar

uma série de normas de comportamento

nas relações humanas,

introduzindo coercibilidade em algumas

delas. Destacam-se as regras

sobre o preço excessivo, a ona’á, que

faculta ao comprador reivindicar a

anulação da transação pela qual o

vendedor cobrou mais de um sexto

acima do preço do mercado. Outra

regra criada com base no ideal do

justo e do bom é o direito do proprietário

da terra executada por dívidas

de reavê-la mais tarde, mediante

o pagamento do valor de sua

dívida. A angústia de quem perde sua

terra ou sua casa inspirou a inovação

talmúdica.

Os juízes da época talmúdica, e

todos que se seguiram àquela era,

se esforçavam para estimular as partes

que compareciam perante as cortes

a ir além da estrita obrigação

legal e isto se traduziu em diversas

máximas. Uma delas é aquela que diz

que a parte está isenta, de acordo

com as leis do homem, mas obrigada,

de acordo com as leis do Céu

(dinei shamaim), significando que,

apesar de o tribunal não ter como

coagir a parte a cumprir com o iashar

v’tov, mesmo assim exercia alguma

pressão verbal para induzi-la a cumprir

com o que é justo e bom.

SINOPSE

A história se passa na Paris dos anos 1920, a cidade mítica por onde circulavam artistas como Pablo Picasso,

Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Diego Rivera e Amedeo Modigliani – pintor judeu de origem italiana

interpretado por Andy Garcia. O filme mostra os dramáticos últimos anos da vida do artista, período em que

pintou as suas telas mais famosas e da sua paixão doentia por Jeanne Hebuterne – musa retratada em vários

trabalhos. Filmado na França, Reino Unido, Alemanha, Romênia e Itália. Legendas em Português.

Outra fórmula muito empregada

em mais de dois mil anos de jurisprudência

judaica é a famosa máxima

lifnim meshurat hadin – além da

obrigação legal -, significando que,

apesar de não haver base jurídica para

forçar-me a uma determinada atitude

ou omissão, se eu quero me comportar

além da estrita letra da lei,

preocupando-me com o nível moral

de meu comportamento, devo agir

de determinada forma para com o

nível moral de meu comportamento,

devo agir de determinada forma para

com meu co-contratante, meu vizinho,

ou a pessoa que nem conheço

e cujo objeto perdido eu achei, levando-me

até a indenizar a pessoa

que teve prejuízo por um conselho

que lhe dei (nenhuma relação com a

malpratice profissional, eis que o Talmud

trata aqui de conselho gratuito

[BM 24b e 30b e BK 99b]).

Uma análise terminológica comparativa

dos conceitos de tsedek e

chessed torna mais fácil compreender

a distinção entre o din (a lei) e o

lifnim meshurat hadin (além da obrigação

legal). Tsedek significa justiça,

o ato correto, paralelo a emet,

verdade. Tsedek e/ou emet representam

os atos verdadeiros e corretos

que cada um está obrigado a cumprir,

equivalendo ao din, à lei.

Chessed representa o ato caridoso,

paralelo a hen — graça ou favor

— e a rachamim —misericórdia. Chessed

e/ou rachamim (apesar de, numa

análise mais profunda, serem distintos)

representam atos benevolentes,

são expressões da boa vontade e de

amor (“E amarás teu semelhante...”),

e materializam o lifnim meshurat hadin,

atos que vão além da estrita

observância da lei, do din.

Consequentemente, o tsadik é o

homem justo que cumpre a lei, de

acordo com os princípios emanados

do tsedek-emet, já o chassid (o chassid

mencionado no Talmud, não o

judeu pertencente a um dos grupos

chassídicos, oriundos do movimento

do Baal Shem Tov, do século XVIII)

é a pessoa que age com chessed-rachamim,

uma pessoa bondosa, rápida

para fazer um favor, uma pessoa

que vai além das exigências da lei,

agindo lifnim meshurat hadin.

Moisés é o homem da lei, e seu

irmão, Aaron, o homem que amava a

paz, perseguia a paz, e reconciliava

as pessoas umas com as outras por

meio de concessões e de renúncias

além da exigência da lei. Aaron

acrescentava seu chessed ao din do

irmão Moisés.

No campo das transações comerciais,

não tendo fundamento legal

para forçar o inadimplente a cumprir

seu compromisso, a corte endereça

uma censura-maldição a

quem não honra a palavra empenhada

(mi shepara). Em circunstâncias

menos graves a censura se materializa

cognominando o faltante

como mechussar emuná (destituído

de lealdade). Uma censura mais

branda é a que proclama que determinado

comportamento da pessoa

envolvida “não é do agrado dos

sábios de Israel”. Por outro lado,

aquele que paga uma dívida já prescrita

(pela shmitá que ocorria a

cada sete anos) executa um ato que

“agrada aos sábios de Israel”.

A punição pelo uso de pesos e

medidas adulterados é mais grave do

que por relações sexuais vedadas,

pois o comerciante nunca mais saberá

a quem locupletou para fazer a

restituição. O Talmud diz que no julgamento

final a primeira pergunta

que se faz à alma é se ela conduziu

seus negócios com boa fé.

Finalmente, qualquer palavra

que possa induzir outra pessoa a

uma impressão errônea sobre qualquer

situação é proibida (onaat devarim),

mesmo sem acarretar prejuízo

monetário.

Uma clássica regra da moral judaica,

contida no Pirkei Avot — a

Ética dos Pais — é citar a autoria de

tudo que se diz e escreve. Como todos

os conceitos aqui expostos derivam

do Talmud faz-se tão somente

uma referência às obras consultadas

para elaborar uma concisa apresentação

do tema: Menachem Elon

(ed.), The Principles of Jewish Law;

Saul Berman, Law and Morality, verbete

na obra pré-citada; Aaron Kirschenbaum,

Equity in Jewish Law;

Boaz Cohen, Jewish na Roman Law –

A Comparative Study; Moshe Silberg,

Law and Morals in Jewish Jurisprudence

(Harvard Law Review, 1961);

Itzhak Halevi Herzog, Moral Rights

and Duties in Jewish Law, Studies in

Jewish Jurisprudence; Nahum Rakover,

Ethics in the Market Place.


centenária mesquita de

domo dourado foi destruída

por terroristas e

milhares de artigos são

escritos sobre o infame ato.

Ao mesmo tempo, um governo sobrerano

— não criminosos — destrói uma

centenária sinagoga no Tadjiquistão para

erguer no local o “palácio” presidencial

e ninguém nem ouviu falar sobre isto.

Onde está a indignação judaica?

Declaração Especial do International

Sephardic Leadership Council (Conselho

das Lideranças Sefaraditas Internacionais):

Pessoas decentes em todo o mundo

ficaram horrorizadas com a destruição

da mesquita de domo dourado semanas

atrás, mas no mesmo dia, a destruição

de uma sinagoga ativa por um

governo progressista, supostamente

baseado em leis civis, não foi notada.

Em 22 de fevereiro de 2006, uma

mesquita ativa, muito adorada por sua

congregação muçulmana, foi destruída

depois que uma poderosa bomba explodiu

dentro dela, demolindo o domo

dourado em seu teto. Este era um dos

mais famosos santuários religiosos do

Iraque. Os terroristas detonaram poderosos

explosivos, destruindo a maior

parte do edifício, e levando milhares

de pessoas a entupir as ruas por todo o

país em protesto. (Este ataque, 95 quilômetros

ao norte de Bagdá, causou

enorme indignação internacional).

Em 22 de fevereiro de 2006, uma

sinagoga ativa, muito amada por sua

comunidade judaica, foi destruída depois

que pesados equipamentos de demolição

e construção rasgaram seu teto,

e esmagando paredes de concreto jogadas

em seu santuário. Esta era a única

sinagoga ativa no Tadjiquistão, um país

situado ao norte do Afeganistão e ao

Sul da Rússia.

A sinagoga foi destruída para que

o governo possa construir um grande

palácio para o seu presidente. “Se os

judeus querem ter [reconstruir] a sinagoga,

deixe-os pagar por isso com

seus próprios fundos”, disse Shamsuddin

Nuriddinov, diretor do Departamento

de Assuntos Religiosos da Cidade

de Dushanbe, (Este ataque, 450 quilômetros

ao norte de Kabul, Afeganistão,

NÃO causou nenhuma indignação

internacional).

De acordo com o Google News, 2.930

artigos apareceram pela mesquita destruída,

enquanto somente seis existem

sobre a sinagoga destruída e esses seis

são realmente só um resumo mencionado

que foi repetido através da distribuição

de matérias por agência de notícias

aos jornais americanos.

Com referência à mesquita destruída,

declarações foram emitidas por líderes

através do mundo. O presidente

Bush disse: “Estendo minhas profundas

condolências ao povo do Iraque pela

brutal bombardeio da Mesquita Dourada

em Samarra... O povo americano se

empenha em trabalhar com o povo do

Iraque para reconstruir e restaurar a

Mesquita Dourada de Samarra para sua

antiga glória”. Ele acrescentou: “Os Estados

Unidos estão prontos a fazer tudo

a seu alcance para ajudar o Governo do

Iraque a identificar e levar à Justiça

aqueles responsáveis por esse terrível

ato”. Há cerca de 150 judeus no Tadjiquistão,

a maioria idosos judeus de

Bukhara. Quando as notícias sobre a

destruição da sinagoga do Tadjiquistão

chegaram à comunidade de Bukhara nos

Estados Unidos, encontrou-a chocada;

pessoas cujos filhos cresceram naquela

sinagoga reagiram com lágrimas.

Membros da comunidade de Bukhara

em Atlanta, Georgia, contaram de

sua preocupação com os cemitérios judaicos

que estão próximos à sinagoga

e o que acontecerá a eles.

Com referência à sinagoga destruída,

nenhuma declaração foi feita por

qualquer governo de qualquer país ao

redor do mundo.

A única organização judaica a falar

sobre isso foi o International Sephardic

Leadership Council, do qual o autor deste

texto é seu diretor executivo.

Enquanto a mídia cobria cerca de

mil torcedores israelenses de um time

de basquete de Tel Aviv manifestandose

no sábado à noite contra a demolição

da quadra histórica do time, ninguém

na grande mídia protestou contra

a destruição do centro da vida judaica

no Tadjiquistão.

Primeiro o governo destruiu a mikvê

(o banho ritual), depois o açougue kosher

e agora a sinagoga inteira.

Enquanto o Iraque é 97% islâmico,

o Tadjiquistão chega a ser 85% islâmico

e está crescendo. E enquanto os

muçulmanos iraquianos reclamam dizendo

que a comunidade próxima da mesquita

do domo dourado está lá há 1000

anos, a comunidade judaica em torno

do Tadjiquistão tem estado lá por 2000

anos. E enquanto a mesquita do domo

dourado no Iraque foi construída em

1905, a sinagoga no Tadjiquistão foi

construída 100 anos antes também.

Todavia todos estão quietos sobre

isso. Incluindo organizações judaicas.

A destruição da sinagoga do Tadjiquistão

é o mais ignominioso ato cometido

por um estado soberano contra sua população

judaica desde o final da Segunda

Guerra Mundial. A União Soviética

e seus Estados sucessores podem ter

oprimido e perseguido suas comunida-

des judaicas, mas mesmo na culminância

dos expurgos anti-semitas de Stalin

eles não procuraram apagar nenhum

elemento da existência judaica como faz

o governo do Tadjiquistão.

É uma mensagem sinistra para a

comunidade judaica, essa de viver sob

um governo que tenta reconstruir sua

imagem política, econômica e social,

destruindo a única sinagoga do país.

Onde está a indignação!?

Há uma coisa boa a respeito do anti-semitismo:

Ele deixa saber quem são os maus sujeitos.

Direita, esquerda, preto, branco, esquisito ou correto,

no minuto em que alguém começa a papagaiar

sobre a maldade dos judeus, você sabe que

seu trem foi arrastado até a Estação do Indivíduo

Desagradável.

Toda intolerância está errada, é claro, mas

há algo sobre esta forma particular de preconceito

que é estranhamente seguro como um sinal

de maldade mais profunda. Talvez seja porque os

judeus tenham contribuíram tanto para o código

de ética moral da humanidade, que isso de odiálos

como grupo étnico seja menosprezar as restrições

da própria moralidade.

Qualquer que seja a razão, verdade, o antisemitismo

virulento é um bom indicador da presença

do mal, e sou tentado a acreditar que

quando D-us fez dos judeus Seu povo eleito, é

para isto que Ele os escolheu: ser uma espécie

de Sistema de Detecção Precoce de Vilania para

todo o mundo.

Infelizmente, em Seu infinito amor por Sua criação,

suspeito que o Grande Amigo possa ter superestimado

nossa inteligência. Talvez pensasse que

depois de Hitler nós teríamos, você sabe, entendido.

Ao invés disso, nós ainda vemos pessoas aparentemente

inteligentes acalmando, pedindo desculpas

para e até mesmo abraçando tipos repugnantes

que deveriam disparar o Grande Alarme.

É por isso que eu acho que o sistema poderia

usar mais sinos e apitos — um barulho de buzina

estridente talvez, ou até mesmo um circuito fechado

para os moralmente prejudicados. Desse

modo, quando o presidente iraniano Mahmoud

Ahmadinejad diz que o Holocausto é um “mito”

ou que Israel deve “ser riscado do mapa”, você

ouviria uma buzina estridente e palavras apareceriam

no ar sob sua cara: “Oi, eu sou um louco

malvado... Por favor, deixe de negociar comigo

agora e aja para inutilizar minha capacidade nuclear

por qualquer meio necessário”.

Ou o que você acha sobre quando o líder venezuelano

— e aliado antiamericano do Irã —

Hugo Chavez adverte que os “descendentes desses

que crucificaram Cristo… arrebataram para

si as riquezas de todo o mundo”? Buzinaço. A

legenda dele: “Oi, eu sei que vocês esquerdistas

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

Sem protestos, sinagoga é destruída

Shelomo Alfassa *

* Shelomo Alfassa, é Diretor Execurtivo

do International Sephardic Leadership Council

Forty Five John Street / Suite 711 New York, NY 10038 USA

347-350-7695

http://www.sephardiccouncil.org

23

O International Sephardic Leadership Council está baseada no coração

da vibrante comunidade sefaradita do Oriente Médio em Nova York,

uma comunidade altamente comprometida com o judaísmo, integrada

por mais de 75.000 judeus sírios, egípcios, libaneses, turcos e norteafricanos;

uma das maiores, mais fortes e de crescimento mais rápido

entre as comunidades sefaraditas do mundo.

Tradução: Szyja Lorber

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Por que D-us escolheu os judeus

Andrew Klavan*

ainda estão encantados com as idéias do socialismo

— muito bem. Mas pessoalmente, sou um

grosseirão e um amigo da tirania. Oh, e o Sr.

Belafonte? Vá para casa antes que você faça um

asno de si próprio”.

Agora eu entendo que a situação no Oriente

Médio é moral e politicamente complexa, como

é a situação na América do Sul. Eu sei que pessoas

honradas podem manter opiniões contraditórias

sobre os assuntos nestes lugares. Mas

quando a miséria entrincheirada de uma área

quase tão grande quanto os Estados Unidos é

culpada regularmante de 5 milhões de pessoas

num país do tamanho de uma caixa de sapatos,

ou quando as doenças do mundo estiverem recaindo

sobre menos que 1% de sua população,

começo a tornar-me suspeito.

Se fosse só uma questão de odiar os judeus,

nós poderíamos dizer: “Sinta-se livre, odeie todo

mundo, bata você mesmo”. O problema é o sofrimento,

a matança de inocentes e realmente a

destruição de nações inteiras que parecem seguir

inevitavelmente quando o anti-semitismo tem

permissão para expandir-se além do esgoto da

mente que o contém. A história também está

cheia de pessoas desprezíveis que pensaram que

todos os seus problemas seriam resolvidos se eles

pudessem matar bastante judeus - ou assassinos

como Pôncio Pilatos, que pensou que isso era

apenas uma questão de matar o judeu certo —

sem que percebecessemos que suas Soluções Finais

não são finais e nem são nenhuma solução.

Eles são, freqüentemente, a primeira, e às vezes

a última, placa da estrada que indica o caminho

para um inferno terrestre.

Então, eis aqui um plano. Da próxima vez

que você expressar uma opinião sobre o que está

errado com o mundo, dê uma olhada em volta

para ver quem está assentindo com a cabeça. Se

é algum palhaço que pensa que o Estado judeu

deveria ser empurrado para o mar, ou que os

judeus mataram Cristo, ou estão conspirando para

subverter a economia mundial, ou o governo, ou

a mídia, eu lhe peço que considere que você pode

estar errado. Não há nenhuma vergonha em mudar

sua opinião. Entrar no passo dos tolos mal

intencionados — isso é vergonhoso, e também é

perigoso. D-us lhe deu um sistema de detecção

antecipada. Use-o.

* Andrew Klavan é escritor especializado em novelas sobre crimes e pode ser lido em

www.andrewklavan.com

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○


24

Haddad-Adel, presidente

do parlamento iraniano

VISÃO JUDAICA março 2006 Adar/Nissan 5766

Irã quer apoio do Brasil ao seu projeto nuclear

Aldo Rebelo: “todas as nações têm direito à energia atômica para fins pacíficos”

presidente do parlamento iraniano,

Gholam Ali Haddad-

Adel, esteve em Brasilia nos

dias 21 e 22 de fevereiro buscando

apoio do governo brasileiro para

seu programa nuclear. Neste sentido

sua vinda foi inócua, pois o Brasil apóia

a decisão de encaminhar o caso ao Conselho

de Segurança das Nações Unidas

para eventual aplicação de sanções.

Segundo a agência de notícias iraniana

Irna, o presidente do Parlamento

do Irã, Gholamali Haddad Adel, manteve

conversa com o deputado Aldo

Rebelo (PCdoB), presidente da Câmara

Federal, a quem afirmou que a República

Islâmica do Irã crê que o “governo

brasileiro é independente, justo

e contrário ao unilateralismo e espera

dele que esta postura se reflita

em sua atitude para com o projeto

nuclear iraniano”.

Haddad Adel fez referência, em

seguida, à posição que o Irã mantém

ao reclamar seus direitos de possuir

um programa nuclear “com fins pacíficos”,

explicando que “ao parecer, Irã

e Brasil compartilham pontos de vista

no debate da exploração pacífica da

energia atômica, e nós esperamos que

isso se reflita no voto do Brasil nos

foros internacionais”.

No dia 18 de fevereiro, o grupo terrorista

Hamas, cuja Carta de fundação prega a destruição

do Estado de Israel e o assassinato

dos judeus, assumiu como partido da maioria

a legislatura da nova Autoridade Palestina.

Ismail Haniyeh foi escolhido como o

primeiro-ministro da nova Autoridade Palestina.

Boa parte da mídia tem descrito

este líder terrorista como “pragmático”

ou “moderado”.

O jornal The Washington Post apresentou

este perfil de Haniyeh:

Nascido no campo de refugiados de Shati,

em Gaza, Haniyeh formou-se na Universidade

Islâmica da Cidade de Gaza em 1987

com grau em literatura árabe, e tornou-se

um associado próximo do fundador do Hamas,

xeque Ahmed Yassin.

Haniyeh foi expulso por Israel para o

sul do Líbano em 1992, voltou a Gaza um

ano depois e tornou-se o decano da Universidade

Islâmica. Em 1998, ele se encarregou

do escritório de Yassin.

Como pragmático, ele serviu de ligação

entre o Hamas e a Autoridade Palestina,

estabelecida em 1994 e dominada pelo movimento

rival Fatah.

O The New York Times o descreve como

"considerado menos radical que outros, ele

Durante sua visita à Câmara Federal

em Brasília, Haddad Adel fez alusão

às já centenárias relações bilaterais,

que considerou como “um capital

adequado para impulsionar a cooperação

e fortalecer as relações bilaterais”.

Por sua vez, Aldo Rebelo, declarou

aludindo ao interesse de Brasília em fortalecer

as relações com Teerã: “Exaltamos

a civilização persa como uma civilização

clássica e sobressalente, e admiramos

a luta que tem mantido o povo

iraniano pela independência e a liberdade.

Irã e Brasil têm múltiplas capacidades

para impulsionar as relações

nas diferentes dimensões políticas, econômicas

e culturais”.

Rebelo disse o seguinte sobre os

princípios de seu país na política externa:

“Cremos que todos os povos do

mundo têm direito à independência

como uma das facetas dos direitos humanos

e que todas as nações têm direito

por igual ao desenvolvimento econômico,

social, cultural, tecnológico e

científico e que ferir esse direito significa

a inobservância de uma das dimensões

dos direitos humanos”.

Com referência à postura nuclear do

Brasil, Aldo Rebelo, ainda segundo a

Irna, disse: “Brasília se opõe às armas

atômicas, mas utiliza esta ciência para

usos pacíficos já que é da opinião que

as atividades pacíficas no âmbito da

Agência Internacional de Energia atômica

é um direito de todas as nações”.

Haddad Adel convidou seu colega

brasileiro a viajar ao Irã e participar da

conferencia internacional para a defesa

do povo palestino que acontecerá em

Teerã em abril. A conversa entre Haddad

Adel e Rebelo teve lugar sem a presença

da imprensa.

Durante sua visita, Haddad Adel foi

ao estúdio da TV Câmara, onde, num

programa falou dos posicionamentos do

Irã no cenário internacional e falou sobre

as relações entre Brasília e Teerã.

Confronto na Universidade de

Brasília

Segundo noticiou o jornal “Correio

Brasiliense”, de 22 de fevereiro, “Sem

apoio das autoridades, o visitante aproveitou

uma palestra proferida na Universidade

de Brasília-UNB para conquistar

a simpatia dos estudantes”, no que

também não teve êxito pleno segundo

o próprio artigo do jornal (“A reação

dos estudantes indica que a operação

teve êxito apenas parcial”).

O representante iraniano falou para

cerca de 100 pessoas presentes no auditório

da reitoria da UNB, boa parte

O “pragmático” do Hamas

detém várias altas posições administrativas na

Universidade Islâmica da Cidade de Gaza”.

A BBC diz: “Mas ele é considerado um moderado

no ranking do movimento cuja posição

na lista teve a intenção de popularizá-lo para

atrair os votos dos eleitores palestinos...”.

A Associated Press e a Reuters descrevem-no

de forma semelhante como um “pragmático”

com um background administrativo.

Quem é Ismail Haniyeh?

Haniyeh foi um dos líderes mais antigos

do Hamas em Gaza durante mais de

dez anos. Ele serviu como chefe do escritório

do líder do Hamas, xeque Ahmed Yassin,

mas buscou uma posição de liderança

mais alta ainda após a morte

de Yassin. Ele foi várias

vezes preso e deportado

para o Líbano por suas atividades

terroristas.

Em 2003 o Hamas assumiu

um horrível atentado a

bomba em um ônibus, no

qual foram mortos 23 israelenses.

Em resposta, Haniyeh

foi colocado na lista

dos mais procurados por Israel.

Por muito pouco escapou

de um ataque israelen-

Ismail Hanyeh, o novo

primeiro-ministro palestino

escolhido pelo Hamas

se quando estava reunido com Yassin e outros

líderes terroristas.

De acordo com a Jewish Virtual Library

(Biblioteca Virtual Judaica

www.jewishvirtuallibrary.org) Haniyeh sempre

privilegiou a violência ao invés da diplomacia,

e disse que a vitória do Hamas nas eleições

municipais em 2005 era a prova de que

a maioria dos palestinos apóia o terrorismo

contra o Israel.

O Estatuto do Hamas

Não há nenhuma indicação de que Haniyeh

esteja interessado em mudar o Estatuto

da organização que ele tinha ajudado a

conduzir por muitos anos.

Como a Reuters informou: Eles

(os Estados Unidos e outros na

comunidade internacional) estão

ameaçando cortar a ajuda a qualquer

governo que passe pelo Hamas,

a menos que o grupo renuncie

à violência e abandone seu

compromisso estatutário da destruição

de Israel. “Estas exigências

são injustas aos palestinos”,

declarou Haniyeh.

Terrorismo

Também não há nenhuma indicação

de que Haniyeh pense

delas árabes do corpo diplomático, e

diplomatas e embaixadores da Rússia,

România, e Áustria, e alguns poucos

professores. A tônica de sua apresentação

foi a de que o Irã e o Brasil possuem

fortes elementos em comum, como

a preocupação com a questão ambiental,

a consolidação de uma democracia

real, e a hegemonia norte-americana.

Ele evitou falar sobre as controversas

declarações de seu presidente sobre

Israel, mas, ao afirmar que o Irã, como

a China, Grécia [sic] e Índia, têm uma

cultura ininterrupta de 7.000 anos, foi

questionado por membro da comunidade

israelita local que o lembrou que Ciro, o

Grande, rei da Pérsia, havia libertado os

judeus persas e os ajudado a retornar a

Israel e a reconstruir o Templo em Jerusalém,

ao contrário do atual presidente

iraniano islâmico Ahmadinejad que declarou

que Israel deve ser varrido do mapa.

Duas senhoras da Comunidade Judaica

de Brasília ergueram cartazes

onde se lia “Israel tem o direito de existir

em paz”, o que tomou o apresentador

de surpresa, e que o fez dizer que

o "Irã nada tem contra os judeus, mas

que ao longo de 37 anos (sic) tem sido

vítima (vivido sob o receio) de Israel".

que o Hamas deveria abandonar o terrorismo.

Pelo contrário, após a retirada israelense

de Gaza foi perguntado ele se o Hamas

deixaria a luta armada. Haniyeh disse

o seguinte:

“Estas armas libertaram a terra, e por

estas armas nós continuaremos o ‘processo

de libertação’”.

Respeitando acordos

Tanto os Acordos de Oslo como o Mapa

da Estrada do Médio exigem que os palestinos

reconheçam Israel e renunciem ao terror.

Há os que dizem que Haniyeh aceitará

estes acordos uma vez que eles foram assinados

pela Autoridade Palestina. Porém,

tudo o que ele tem dito sobre isso é:

“Acordos que prejudicam nossa gente nós

os deixaremos de fora. Acordos que servem

o interesse de nosso povo, nós manteremos”.

Hoje, não há nenhuma evidência que indique

que Haniyeh esteja a favor de mudar

Estatuto do Hamas sobre rejeitar a violência,

ou reconhecer Israel. Sem estes passos

básicos, é difícil ver como alguém pode defini-lo

com precisão como “pragmático”.

Se os jornais ou a mídia local descrever

Haniyeh como “pragmático” ou “moderado”

pergunte-lhes por carta, ou por e-mail, com

que base eles estão afirmando isso.

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