A um Poeta

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A um Poeta

Um povo imbecilizado e

resignado, humilde e

macambúzio, fatalista e

sonâmbulo, burro de carga, besta

de nora, aguentando pauladas,

sacos de vergonhas, feixes de

misérias, sem uma rebelião, um

mostrar de dentes, a energia dum

coice, pois que nem já com as

orelhas é capaz de sacudir as

moscas;

Um povo em catalepsia

ambulante, não se lembrando

nem donde vem, nem onde está,

nem para onde vai; um povo,

enfim, que eu adoro, porque

sofre e é bom, e guarda ainda na

noite da sua inconsciência como

que um lampejo misterioso da

alma nacional, reflexo de astro

em silêncio escuro de lagoa

morta.

Guerra Junqueiro


“A música é o barulho que pensa.”

Victor Hugo


“Aqui estamos pois diante de ti, mundo oficial, constitucional, burguês, proprietário,

doutrinário e grave!

Não sabemos se a mão que vamos abrir está ou não cheia de verdades. Sabemos que

está cheia de negativas. (…)

Donde vimos? Para onde vamos? – Podemos apenas responder:

- Vimos donde vós estais, vamos para onde vós não estiverdes.”

As Farpas – Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão


A um Poeta

Tu que dormes, espírito sereno,

Posto à sombra dos cedros seculares,

Como um levita à sombra dos altares,

Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno

Afugentou as larvas tumulares...

Para surgir do seio desses mares

Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! É a grande voz das multidões!

São teus irmãos, que se erguem! São

canções...

Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,

E dos raios de luz do sonho puro,

Sonhador, faze espada de combate!

(Antero de Quental)


“No seu pavor, eles largam as armas, que

caem todas no solo; tal era a força que tinha

a voz da deusa! Os inimigos de Ulisses

voltam as costas, fogem para a cidade, já não

tendo senão um desejo, o de fugir.

Entretanto, o nobre Ulisses, modelo de

resistência, toma impulso com um um grito

terrível, lança-se como a águia de voo

altaneiro.” Odisseia - Homero


“O seu nome é Revolução: revolução não quer

dizer guerra, mas sim paz: não quer dizer licença,

mas sim ordem, ordem verdadeira pela

verdadeira liberdade. Longe de apelar para a

insurreição, pretende preveni-la, torná-la

impossível: só os seus inimigos, desesperando-a,

a podem obrigar a lançar mãos das armas. Em si,

é um verbo de paz, porque é o verbo humano por

excelência.”

Antero de Quental


“Fugiu do cemitério aos companheiros:

Anda agora purgando seus pecados

Glosando aos cagaçais pelos outeiros.” -

Bocage


Grândola, vila morena

Terra da fraternidade

O povo é quem mais ordena

Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade

O povo é quem mais ordena

Terra da fraternidade

Grândola, vila morena

Em cada esquina, um amigo

Em cada rosto, igualdade

Grândola, vila morena

Terra da fraternidade

Terra da fraternidade

Grândola, vila morena

Em cada rosto, igualdade

O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira

Que já não sabia a idade

Jurei ter por companheira

Grândola, a tua vontade

Grândola a tua vontade

Jurei ter por companheira

À sombra duma azinheira

Que já não sabia a idade


“Mas eu que já esperava altas

mudanças,

Melhor tempo aguardei; e na algibeira

Meti a petição e as esperanças.”

Nicolau Tolentino


“Aprende a nadar, companheiro

aprende a nadar, companheiro

Que a maré se vai levantar

que a maré se vai levantar

Que a liberdade está a passar por aqui

que a liberdade está a passar por aqui

que a liberdade está a passar por aqui

Maré alta

Maré alta

Maré alta”

Sérgio Godinho


Canta camarada canta

canta que ninguém te afronta

que esta minha espada corta

dos copos até à ponta

Eu hei-de morrer de um tiro

Ou duma faca de ponta

Se hei-de morrer amanhã

morra hoje tanto conta

Tenho sina de morrer

na ponta de uma navalha

Toda a vida hei-de dizer

Morra o homem na batalha

Viva a malta e trema a terra

Aqui ninguém arredou

nem há-de tremer na Guerra

Sendo um homem como eu sou

(Fernando Lopes Graça)


Era um Abril de amigo Abril de trigo

Abril de trevo e trégua e vinho e húmus

Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo

ainda só ardor e sem ardil

Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas

era um Abril na rua Abril a rodos

Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças

era um Abril de clava Abril em acto

em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo

Abril de boca a abrir-se Abril palavra

esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo

Abril de mão na mão e sem fantasmas

esse Abril em que Abril floriu nas armas.

Manuel Alegre


"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados

sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos

acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo,

vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não

quiser sair, fica aqui!“

Salgueiro Maia


“É estranho na Europa qu a liberdade venha com

os militares. É a primeira vez. Mas deve dizer-se

que Portugal não era um país europeu. Nas

condições em que estava Portugal, o golpe de

Estado trouxe a liberdade.”

Corrado Incerti – Enviado especial de L’Europeo, a

26/04/1974


Eu vi Abril por fora e Abril por

dentro

vi o Abril que foi e Abril de agora

eu vi Abril em festa e Abril lamento

Abril como quem ri como quem

chora.

Eu vi chorar Abril e Abril partir

vi o Abril de sim e Abril de não

Abril que já não é Abril por vir

e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que

perde

Abril que foi Abril e o que não foi

eu vi Abril de ser e de não ser.

Abril de Abril vestido (Abril tão

verde)

Abril de Abril despido (Abril que

dói)

Abril já feito. E ainda por fazer.

Manuel Alegre


Se por vinte annos, nesta furna scura,

Deixei dormir a minha maldição,

- Hoje, velha e cançada de amargura,

Minh’alma se abrirá como um vulcão.

E, em torrentes de colera e loucura,

Sobre a tua cabeça ferverão

Vinte annos de silencio e de tortura,

Vinte annos de agonia e solidão…

Maldita sejas pelo Ideal perdido!

Pelo mal que fizeste sem querer!

Pelo amor que morreu sem ter nascido!

Pelas horas vividas sem prazer!

Pela tristeza do que eu tenho sido!

Pelo esplendor do que eu deixei de ser!

Olavo Bilac


“Era uma vez um país

de tal maneira explorado

pelos consórcios fabris

pelo mando acumulado

pelas ideias nazis

pelo dinheiro estragado

pelo dobrar da cerviz

pelo trabalho amarrado

que até hoje já se diz

que nos tempos do passado

se chamava esse país

Portugal suicidado.”

Ary dos Santos


“Presto as minhas homenagens às Forças Armadas, que restituíram ao país a voz

e a alegria, num acto histórico que jamais poderemos esquecer. Compete agora

ao povo, aos trabalhadores, organizar a democracia.”

Mário Soares, 28/04/1947


“Este dia é um canteiro

com flores todo o ano

e veleiros lá ao largo

navegando a todo o pano.

E assim se lembra outro dia febril

que em tempos mudou a história

numa madrugada de Abril,

quando os meninos de hoje

ainda não tinham nascido

e a nossa liberdade

era um fruto prometido,

tantas vezes proibido,

que tinha o sabor secreto

da esperança e do afecto

e dos amigos todos juntos

debaixo do mesmo tecto.”

José Jorge Letria


"Terra Pátria serás nossa,

Mais este sol que te cobre,

Serás nossa,

Mãe pobre de gente pobre.

O vento da nossa fúria

Queime as searas roubadas;

E na noite dos ladrões

Haja frio, morte e espadas.

Terra Pátria serás nossa

Mais os vinhedos e os milhos,

Serás nossa,

Mãe que não esquece os filhos.

Com morte, espadas e frio,

Se a vida te não remir,

Faremos da nossa carne

As searas do porvir.

E se a loucura da sorte

assim nos quizer perder,

Abre os teus braços de morte

E deixa-nos aquecer.“

Carlos Oliveira


Ouvi banqueiros fascistas

agiotas do lazer

latifundiários machistas

balofos verbos de encher

e outras coisa em istas

que não cabe dizer aqui

que aos capitães progressistas

o povo deu o poder!

E se esse poder um dia

o quiser reoubar alguém

não fica na burguesia

volta à barriga da mãe!

Volta à barriga da terra

que em boa hora o pariu

agora ninguém mais cerra

as portas que Abril abriu!

José Carlos Ary dos Santos


“D'ahi a mola occulta, a força ingenita,

A causa porque tu, no ardor da guerra,

Revolves sem cessar o céu, a terra,

A alma e o coração,

E fazes e desfazes, sem descanço,

Systemas, religiões, philosophias;

Depões a Deuses, reis e tiranias,

Em nome da Rasão!...”

Manuel de Arriaga


“A Águia procura

o vértice,

o instante,

onde o dia é

vertigem

e o sol se despenha.”

José Alberto Oliveira


"Homem, se homem queres ser

E não uma sombra triste,

Olha para tudo o que existe

Com olhos de bem ver.

Nada,

Nada receies saber.

Ao que não amas, resiste.

Mesmo vencido, persiste

E acabarás,

E acabarás por vencer.

Quere,

Quere e poderás poder.

Vai por onde decidiste.

A liberdade consiste

No que a razão

No que a razão

No que a razão te impuser.“

Armindo Rodrigues


Levanta-se do túmulo a voz dos

teus heróis,

Cintila em tua fronte o brilho

desses sóis,

Até o próprio mar t’incita a

combater!

Nun’Álvares arranca a espada de

glória

E diz-te em voz serena: “Em busca

da vitória

Meu belo Portugal, combate até

morrer!”

Florbela Espanca

“Fala o canhão. Estala o riso da metralha

Os clarins muito ao longe tocam a reunir.

O Deus da guerra ri nos campos de batalha

E tu, ó Pátria minha, ergues-te a sorrir!

Vestes alva cota bordada e rosicleres

Desfraldas a bandeira rubra dos combates,

Levas no heróico seio a alma das mulheres

E ergue-se contigo a alma de teus vates!


“Só há liberdade a sério quando houver

a paz o pão

habitação

saúde educação

só há liberdade a sério quando houver

liberdade de mudar e decidir

quando pertencer ao povo o que o povo

produzir.”

Sérgio Godinho


“Os Cavaleiros tende em muita estima,

Pois com seu sangue intrépido e fervente

Estendem não sòmente a Lei de cima,

Mas inda vosso Império preminente.

Pois aqueles que a tão remoto clima

Vos vão servir, com passo diligente,

Dous inimigos vencem: uns, os vivos,

E (o que é mais) os trabalhos excessivos.”

Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões


Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um

crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer.

Bernardo Soares – Livro do Desassossego


“Como sabe, é a festa popular, é a

Alegria, é o ambiente de

confraternização entre o Povo e as

Forças Armadas, como só se

presenciou, em 1910, depois da

proclamação da República. É, pois,

a saída de uma longa noite e o

começo de uma nova vida, com

todos os problemas daí

resultantes. Temos, agora, de

reconstruir urgentemente o País.”

Mário Soares, in Flama, 1974


Porque os outros se mascaram mas tu

não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos

caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se

vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos

abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou

Meu corpo ao seu desejo violento

E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem

Todas as formas e começam

Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando

de novos sonhos a vida.

Alexandre O’Neill


“Venham mais cinco,

duma assentada que eu pago já

Do branco ou tinto,

se o velho estica eu fico por cá

Se tem má pinta,

dá-lhe um apito e põe-no a andar

De espada à cinta,

já crê que é rei d’aquém e além-mar

Não me obriguem a vir para a rua

Gritar

Que é já tempo d’ embalar a trouxa

E zarpar

A gente ajuda, havemos de ser mais

Eu bem sei

Mas há quem queira, deitar abaixo

O que eu levantei

A bucha é dura, mais dura é a razão

Que a sustem só nesta rusga

Não há lugar prós filhos da mãe

Não me obriguem a vir para a rua

Gritar

Que é já tempo d’ embalar a trouxa

E zarpar

Bem me diziam, bem me avisavam

Como era a lei

Na minha terra, quem trepa

No coqueiro é o rei.”


Uma gaivota voava, voava,

Asas de vento,

Coração de mar.

Como ela, somos livres,

Somos livres de voar.

Uma papoila crescia, crescia,

Grito vermelho

Num campo qualquer.

Como ela somos livres,

Somos livres de crescer.

Uma criança dizia, dizia

“quando for grande

Não vou combater”.

Como ela, somos livres,

Somos livres de dizer.

Somos um povo que cerra

fileiras,

Parte à conquista

Do pão e da paz.

Somos livres, somos livres,

Não voltaremos atrás.


“Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo”

Sophia de Mello Breyner Andresen


“MATILDE

Mas eles ainda não foram julgados! Que espécie

de Deus é o vosso que condena antes de ouvir?

Que gente sois, senhores, que Reino é este em

que tive a triste sorte de nascer?

Sr. Marechal: quanto vale, para vós, a vida dum

homem?

BERESFORD

De que homem, minha senhora?

De qualquer homem.

MATILDE

BERESFORD

Depende do seu peso, da sua influência, das

vantagens ou dos inconvenientes que, para mim,

resultem da sua morte.

E nada mais?

MATILDE

BERESFORD

Não há mais nada a considerar, minha senhora.”

Luís de Stau Monteiro, Felizmente Há Luar!


“Mas há sempre uma candeia

dentro da própria desgraça

há sempre alguém que

semeia

canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste

em tempo de servidão

há sempre alguém que

resiste

há sempre alguém que diz

não.”

Manuel Alegre


“A terra é feita de céu

A mentira não tem ninho.

Nunca ninguém se perdeu.

Tudo é verdade e caminho.”

Fernando Pessoa


“Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso

em serenos sobressaltos,

como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se

agitam,

como estas aves que gritam

em bebedeiras de azul.”

António Gedeão


E vós, ó militares, para o quartel

(sem que, no entanto, vos deixeis

purgar

ao ponto de não serdes o que deveis

ser:

garantes de uma ordem democrática

em que a direita não consiga nunca

ditar uma ordem sem democracia).

E tu, canção-mensagem, vai e diz

o que disseste a quem quiser ouvir-te.

E se os puristas da poesia te acusarem

de seres discursiva e não galante

em graças de invenção e de

linguagem,

manda-os àquela parte. Não é tempo

para tratar de poéticas agora.

Jorge de Sena


Somos muitos mil para recordar e continuar Abril!

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