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REVISTA ELETRÔNICA<br />

Edição Especial<br />

Rios e História<br />

1 9 7 0 - 2 0 1 0<br />

1970 - 2010<br />

Educação e Ci<strong>da</strong><strong>da</strong>nia<br />

UNIVERSIDADE FEDERAL<br />

DE MATO GROSSO<br />

NÚCLEO DE DOCUMENTAÇÃO<br />

E INFORMAÇÃO HISTÓRICA<br />

REGIONAL - NDIHR<br />

UFMT<br />

ANOS


Edição Especial<br />

Rios e História<br />

UNIVERSIDADE<br />

FEDERAL DE<br />

MATO GROSSO<br />

NÚCLEO DE<br />

DOCUMENTAÇÃO<br />

E INFORMAÇÃO<br />

HISTÓRICA REGIONAL<br />

NDIHR<br />

O RIO COMO FIGURA DE PENSAMENTO<br />

POÉTICO-CULTURAL<br />

10<br />

RESUMO<br />

ABSTRACT<br />

Yvette Sánchez<br />

Professora <strong>da</strong> Universi<strong>da</strong><strong>de</strong> <strong>de</strong> Sankt Gallen<br />

e <strong>da</strong> Universi<strong>da</strong><strong>de</strong> <strong>da</strong> Basiléia, Suíça.<br />

e-mail: yvette.sanchez@unisg.ch<br />

O motivo do <strong>rio</strong> inspira um rico tecido <strong>de</strong> valores (e ambivalências) simbólicos, metafóricos e alegóricos, e, com<br />

in<strong>de</strong>pendência do gênero <strong>da</strong> fonte que se examine, freqüentemente impõe uma expressão lírica. O estado líquido<br />

fomenta o lirismo, acrescentando <strong>da</strong> maneira mais natural padrões sonoros e rítmicos, inclusive aos textos em prosa.<br />

Para ilustrar a conexão <strong>da</strong> predominante capaci<strong>da</strong><strong>de</strong> <strong>de</strong> criação discursiva do <strong>rio</strong>, com seu cau<strong>da</strong>l <strong>de</strong> metáforas<br />

com uma con<strong>figura</strong>ção antropomorfa, se analisará uma série <strong>de</strong> textos amazonenses que evocam este<br />

exuberante sistema fluvial. Entre estes se incluem os ensaios <strong>de</strong> Peregrino Júnior entregados à "marcha viscosa e<br />

tar<strong>da</strong> <strong>de</strong> cobra-gran<strong>de</strong> sem pressa" do Amazonas, e também os <strong>rio</strong>s pequenos e insignificantes, até miseráveis, <strong>de</strong><br />

curso sujo e seco, <strong>de</strong> um João Cabral <strong>de</strong> Melo Neto. Paralelamente se consi<strong>de</strong>rarão também as variantes<br />

peninsulares, soberanas e apassiveis, do Douro (Miguel Torga) e do Tejo (Fernando Namora).<br />

Palavras-chave: <strong>rio</strong>s na literatura, literatura brasileira, literatura portuguesa.<br />

The river as a subject inspires a rich texture of symbolic, metaphorical and allegorical values (and ambivalences),<br />

and, apart from the genre of the source examined, frequently imposes lyrical expression. Its liquid state foments a<br />

ten<strong>de</strong>ncy toward lyricism, adding sound patterns and rhythms in a most natural way, even in prose texts. A series of<br />

Amazonian texts evoking this exuberant fluvial system are analysed to illustrate the connection between the<br />

powerful capacity for discursive creation about the river and its torrent of metaphors having an anthropomorphic<br />

con<strong>figura</strong>tion, Peregrino Júnior's essays are among these, including those <strong>de</strong>voted to the Amazon's "viscous and<br />

sluggish march of the great-snake without haste", mentioning also small, insignificant, and even miserable rivers, with


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a dirty dry course, referring to João Cabral <strong>de</strong> Melo Neto. Parallel to também para a escritura, que é dita<strong>da</strong> pelas águas que fluem, à<br />

this, the Douro River's (Miguel Torga) and the Tejo's (Fernando qual nos propomos <strong>de</strong>dicar aqui especial atenção.<br />

Namora) sovereign and calm peninsular variants are consi<strong>de</strong>red. O fenômeno natural inci<strong>de</strong> na respectiva expressão literária<br />

<strong>da</strong> correnteza <strong>de</strong>scontrola<strong>da</strong> e impaciente, produzindo um ecoar<br />

Keywords: Rivers in literature, Brazilian literature, Portuguese <strong>de</strong> palavras que nos arrasta até águas calmas, as quais inspiram<br />

literature. uma lírica pausa<strong>da</strong>, mais <strong>de</strong>vagar e mais medita<strong>da</strong>. Essa analogia<br />

<strong>de</strong> tipo hidrográfico-literária, do <strong>rio</strong> <strong>como</strong> forjador dominante do<br />

INTRODUÇÃO<br />

discurso, certamente corre o perigo <strong>de</strong> puxar o motivo a um âmbito<br />

4<br />

estereotípico .<br />

Há muito tempo que o motivo do <strong>rio</strong>, junto com sua longa<br />

Em tempos <strong>de</strong> transformações que nos levam mais e mais a um<br />

mundo virtual e global, se impõe uma discussão sobre a<br />

percepção modifica<strong>da</strong> do espaço, inclusive do espaço<br />

tradição simbólica, traz consigo também imagens verbais cifra<strong>da</strong>s,<br />

por exemplo, o advérbio “mansamente” em relação com a<br />

correnteza tranqüila ou a “corrente cau<strong>da</strong>losa”, que vai<br />

literá<strong>rio</strong>. Neste sentido, Poétique <strong>de</strong> l'espace <strong>de</strong> Gastón Bachelard incorporando todo tipo <strong>de</strong> componentes <strong>da</strong> flora e <strong>da</strong> fauna<br />

(2000), <strong>de</strong> fato, <strong>de</strong>veria ser re-escrita. Em particular, o movimento<br />

5<br />

circun<strong>da</strong>nte . Um verso <strong>como</strong> “as águas do <strong>rio</strong> corriam<br />

no espaço é um tema que nos impulsiona rumo a novos territó<strong>rio</strong>s mansamente” (SOUZA 2000, p. 147 e 151) po<strong>de</strong> ser encontrado em<br />

1<br />

<strong>da</strong> teoria <strong>da</strong> cultura e <strong>da</strong> literatura . O <strong>rio</strong> <strong>como</strong> motivo literá<strong>rio</strong> – um numerosos textos sobre <strong>rio</strong>s, por exemplo, também nos famosos<br />

assunto já bem estabelecido - interessa pelas suas bifurcações, poemas sobre o Douro do espanhol Antonio Machado. E na<br />

pela presença dos meandros, pelos re<strong>de</strong>moinhos e pelas suas<br />

6<br />

“incomparável festa dos sentidos”, no idílico ambiente colorido do<br />

correntezas <strong>de</strong> profundi<strong>da</strong><strong>de</strong>.<br />

7<br />

<strong>rio</strong> Pequeno (MACHADO apud HERMANNS/ SCHARF 1994, p. 152) ,<br />

Foi um colóquio latino-americanista em Poitiers, com o título que Ana Maria Machado põe em cena no último capítulo do seu<br />

2<br />

<strong>de</strong> Mémoire <strong>de</strong>s fleuves, fleuves <strong>de</strong> mémoire , que me induziu a romance Tropical sol <strong>da</strong> liber<strong>da</strong><strong>de</strong>, faz-se acúmulo <strong>de</strong> uma massa<br />

pensar não tanto no conteúdo simbólico, mas sim nos tipos <strong>de</strong> <strong>de</strong> substância orgânica flutuante, que freqüentemente é<br />

3<br />

discurso tecidos em torno dos <strong>rio</strong>s e <strong>como</strong> motivam o escritor . Já relaciona<strong>da</strong> com a paisagem fluvial <strong>da</strong> floresta virgem e cuja<br />

nos primeiros passos <strong>de</strong>ssa pesquisa fica claro que –<br />

in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente do gênero literá<strong>rio</strong> – sempre predomina a<br />

8<br />

<strong>de</strong>scrição ocupa mais ou menos duas páginas do livro .<br />

expressão literária: o conteúdo lírico essencial. Em L'eau et les rêves,<br />

Bachelard (1942¹; 1985) fala <strong>de</strong> uma 'poética <strong>da</strong> água'. O líquido e<br />

SIMBOLISMO<br />

o <strong>rio</strong> incorporam <strong>de</strong> forma natural mo<strong>de</strong>los sonoros e rítmicos,<br />

Antecipemos alguns importantes aspectos simbólico-<br />

também ao campo <strong>da</strong> prosa.<br />

metafóricos <strong>de</strong> caráter tópico, que o complexo <strong>de</strong> motivos do <strong>rio</strong><br />

O <strong>rio</strong>, uma <strong>da</strong>s gran<strong>de</strong>s metáforas gerais <strong>da</strong> história <strong>da</strong> <strong>de</strong>ve sustentar; estes têm sido utilizados - e também analisados - até<br />

cultura – com similar vali<strong>da</strong><strong>de</strong> universal à que possuem caminho, a sacie<strong>da</strong><strong>de</strong>, inclusive <strong>de</strong> modo inflacioná<strong>rio</strong>, na literatura.<br />

mar, navio, árvore, re<strong>de</strong>, espelho ou labirinto -, representa um<br />

A observação contemplativa do <strong>rio</strong> possui inicialmente um<br />

motivo <strong>de</strong> caráter unificador com um efeito dominante: tanto para efeito incitante sobre a imaginação. Muito é o que <strong>de</strong>ve simbolizar;<br />

os valores metafóricos e simbólicos <strong>de</strong> tempo e memória, <strong>como</strong> segundo Jorge Manrique, a própria vi<strong>da</strong>: “Nuestras vi<strong>da</strong>s son los ríos


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/ que van a <strong>da</strong>r a la mar, / que es morir: [...]” ; com isto, Manrique se Poucas vezes se apresenta <strong>de</strong> forma feminina (<strong>como</strong> a água<br />

10<br />

coloca na tradição do pantha rei, 'tudo flui', <strong>de</strong> Heráclito . O movimento<br />

implica o <strong>rio</strong> <strong>como</strong> cronótopo, que existe em espaço e<br />

tempo (em oposição às montanhas estáticas). Apesar <strong>de</strong> simbolizar<br />

tempo (fluxus temporis), paralelamente ele é também uma<br />

metáfora <strong>de</strong> dissolução e atemporali<strong>da</strong><strong>de</strong>, tal <strong>como</strong> foi mo<strong>de</strong>la<strong>da</strong><br />

na filosofia do tempo <strong>de</strong> Bergson, com sua divisão dicotômica <strong>de</strong><br />

temps e durée. Essa ambivalência fun<strong>da</strong>mental naturalmente tem<br />

a ver com o polifacetismo protéico do <strong>rio</strong>: <strong>de</strong> uma consistência<br />

notável, contínuo, mas também – em cachoeiras ou bifurcações<br />

11<br />

nas correntes profun<strong>da</strong>s - <strong>de</strong>scontínuo, o <strong>rio</strong> conota lembrança e<br />

esquecimento (Lete), nascimento (fonte) e efemeri<strong>da</strong><strong>de</strong><br />

(<strong>de</strong>sembocadura), contenção (leito do <strong>rio</strong>) e ultrapassagem<br />

(inun<strong>da</strong>ção). Fora isso, representa fronteiras (geográfico-políticas),<br />

espelho <strong>da</strong> Natureza (Narcísio), misté<strong>rio</strong>, inconsciência, sonho,<br />

12<br />

fonte <strong>de</strong> inspiração, viagem , refúgio, sensuali<strong>da</strong><strong>de</strong> e nostalgia,<br />

tristeza, <strong>como</strong> também catarse <strong>de</strong> iniciação.<br />

(BACHELARD 1985, p. 7 e 20)) ou andrógina; muitas imagens <strong>da</strong><br />

virili<strong>da</strong><strong>de</strong>, <strong>da</strong> potência, inclusive <strong>da</strong> penetração <strong>da</strong> paisagem<br />

15<br />

confirmam esta clara atribuição .<br />

Diversos pontos <strong>de</strong> vista <strong>de</strong>terminam – também num tríplice<br />

passo semiótico – o contato humano com o <strong>rio</strong>: ele é observado<br />

com atitu<strong>de</strong> digna <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a margem; medita-se sobre o <strong>rio</strong>, o sujeito<br />

16<br />

se entrega e é absorvido por ele <strong>como</strong> numa simbiose espiritual, ou<br />

se dissolve nele. Mais imediato é o contato numa viagem <strong>de</strong><br />

navio pelo <strong>rio</strong>, levado e protegido por uma envoltura. Ou<br />

<strong>de</strong>ixamo-nos molhar, tomando banho nele. Má<strong>rio</strong> <strong>de</strong> Andra<strong>de</strong><br />

<strong>de</strong>screve o contato sensual do homem com o <strong>rio</strong> na primeira<br />

página <strong>de</strong> seu romance–rapsódia Macunaíma: nu, num banho<br />

coletivo, o 'herói sem nenhum caráter' mergulhava para se<br />

<strong>de</strong>liciar beliscando as mulheres; os responsáveis seriam os<br />

guaiamuns.<br />

O <strong>rio</strong> também toma sua sabedoria <strong>de</strong> um mundo <strong>da</strong> lógica<br />

causal, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que representa consciência, fluxo <strong>de</strong> <strong>pensamento</strong>,<br />

fluxo <strong>da</strong> fala e sistemas <strong>de</strong> ramificações complexas. Em síntese: o<br />

<strong>rio</strong>, na sua <strong>figura</strong>ção, proporciona um mo<strong>de</strong>lo explicativo perfeito e<br />

uma <strong>de</strong>nsa re<strong>de</strong> <strong>de</strong> associações; inclusive a cibernética e a<br />

inteligência artificial se apóiam com freqüência em diagramas <strong>de</strong><br />

<strong>rio</strong>s, que imitam os processos <strong>da</strong> clássica administração <strong>de</strong> <strong>da</strong>dos<br />

E também espertava quando a família ia tomar<br />

banho no <strong>rio</strong>, todos juntos e nus. Passava o tempo do<br />

banho <strong>da</strong>ndo mergulho, e as mulheres soltavam<br />

gritos gozados por causa dos guaiamuns diz-que<br />

habitando a água-doce por lá (ANDRADE 1984, p. 6.).<br />

(fluxogramas). A energia que parte <strong>de</strong>le se reflete, a<strong>de</strong>mais, em No romance <strong>de</strong> Ana Maria Machado, a percepção do<br />

to<strong>da</strong>s as línguas que conheço, na metáfora do fluxo <strong>da</strong> corrente e entorno tropical é conduzi<strong>da</strong> através dos sentidos, em primeiro<br />

<strong>da</strong> energia elétrica. E, finalmente, o <strong>rio</strong> também não se <strong>de</strong>tém<br />

diante do discurso literá<strong>rio</strong>, <strong>como</strong> no stream of consciousness ou no<br />

lugar no contato tátil <strong>da</strong> protagonista com a água do <strong>rio</strong>:<br />

roman fleuve.<br />

[...] salpicando o rosto com gotas do <strong>rio</strong>, vendo,<br />

O observador se i<strong>de</strong>ntifica intensamente com o <strong>rio</strong> e projeta<br />

nele traços antropomorfos. Já a mitologia antiga o concebia <strong>como</strong><br />

ouvindo, cheirando e sentindo na pele tudo o que<br />

conseguia perceber (MACHADO 1988, p. 153).<br />

encarnação dos <strong>de</strong>uses. Essas divin<strong>da</strong><strong>de</strong>s físicas (Rhenus, Ro<strong>da</strong>nus,<br />

13<br />

Danubius, Iberus) geralmente foram representa<strong>da</strong>s com corpos<br />

<strong>de</strong> homens nus e com barba. Conseqüentemente, o sexo dos <strong>rio</strong>s<br />

i<strong>de</strong>ntifica-se, por regra geral, inequivocamente <strong>como</strong> o masculino.<br />

Pela freqüência do contato corporal representado na<br />

literatura e em outras artes, <strong>como</strong> o mergulho do homem no<br />

elemento líquido, não surpreen<strong>de</strong> que Bachelard chegue inclu-<br />

sive a falar <strong>de</strong> uma 'poesia do na<strong>da</strong>r' (BACHELARD 1985, p. 49).<br />

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CORPUS<br />

A seleção e organização do corpus <strong>de</strong> textos sobre os <strong>rio</strong>s são<br />

<strong>de</strong> um volume tal que – inclusive estabelecendo o século XX <strong>como</strong><br />

limite – só po<strong>de</strong> ser realiza<strong>da</strong> <strong>de</strong> forma pontual. Aqui foi leva<strong>da</strong> a<br />

cabo parcialmente com base em crité<strong>rio</strong>s geográficos, salvo, é<br />

claro, quando se trata <strong>de</strong> <strong>rio</strong>s arquetípicos não <strong>de</strong>signados<br />

nominalmente, em relação aos quais uma longa lista <strong>de</strong> poetas<br />

<strong>de</strong>dica a sua meditação <strong>de</strong> tipo predominantemente filosófica,<br />

<strong>como</strong> é o caso do brasileiro João Guimarães Rosa ou do poeta<br />

português Eugênio <strong>de</strong> Andra<strong>de</strong>. A maioria dos escritores <strong>de</strong>dica sua<br />

atenção a paisagens concretas e seus <strong>rio</strong>s são i<strong>de</strong>ntificados com<br />

nomes. Os brasileiros Inglês <strong>de</strong> Sousa, Peregrino Júnior, Márcio<br />

Souza, Milton Hatoum, Raul Bopp ou João <strong>de</strong> Jesus Paes Loureiro se<br />

encontram em torno do predominante sistema fluvial do<br />

Amazonas. Mas também paisagens fluviais mais mo<strong>de</strong>stas, <strong>como</strong> a<br />

do Capibaribe <strong>de</strong> João Cabral <strong>de</strong> Melo Neto, são toma<strong>da</strong>s <strong>como</strong><br />

cená<strong>rio</strong>s <strong>da</strong> ação e <strong>como</strong> fonte <strong>de</strong> inspiração. Na península<br />

ibérica, poetas <strong>como</strong> António Ramos Rosa e Casimiro <strong>de</strong> Brito, ou o<br />

romance O <strong>rio</strong> triste <strong>de</strong> Fernando Namora, cantam o estuá<strong>rio</strong><br />

lisboeta do gran<strong>de</strong> Tejo ou do Vindimia <strong>de</strong> Miguel Torgas, o<br />

corpulento Douro.<br />

Nesse contexto, <strong>de</strong>scartamos conscientemente o crité<strong>rio</strong><br />

genérico, em função <strong>da</strong>s características trans-genéricas do<br />

discurso, geralmente <strong>de</strong> tipo lírico, <strong>de</strong> todos os textos sobre os <strong>rio</strong>s.<br />

CARACTERÍSTICAS LÍRICAS<br />

Rosa. “A terceira margem do <strong>rio</strong>” (em Primeiras Estórias, 2001, pp.<br />

79-85) põe em cena o <strong>rio</strong> <strong>como</strong> refúgio. Um pai abandona sua<br />

numerosa família para passar a viver numa pequena canoa e<br />

jamais volta a pôr o pé na terra ou retorna à sua casa. Não<br />

preten<strong>de</strong> ir a lugar nenhum; simplesmente se propõe a ficar nesse<br />

<strong>rio</strong> quieto e largo – “[...] por aí se esten<strong>de</strong>ndo gran<strong>de</strong>, fundo,<br />

17<br />

calado que sempre . Apenas come, e também não fala com<br />

ninguém. Porém, ninguém consegue esquecê-lo. O eu-narrador, o<br />

filho solitá<strong>rio</strong>, gostaria <strong>de</strong> imitar o pai ausente e estabelecer a<br />

mesma simbiose com o <strong>rio</strong>, simbiose que é evoca<strong>da</strong> <strong>de</strong> forma<br />

quase ritual através <strong>da</strong> constante repetição ou chamamento do<br />

<strong>rio</strong> onipresente.<br />

Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o <strong>rio</strong>-<strong>rio</strong>-<strong>rio</strong>,<br />

o <strong>rio</strong> – pondo perpétuo. (p. 84)<br />

[...] nessa água, que não pára, <strong>de</strong> longas beiras: e, eu,<br />

<strong>rio</strong> abaixo, <strong>rio</strong> a fora, <strong>rio</strong> a <strong>de</strong>ntro – o <strong>rio</strong>. (p. 85)<br />

Des<strong>de</strong> que os textos recriem o <strong>rio</strong>, ten<strong>de</strong>m na sua maioria a<br />

criar longas uni<strong>da</strong><strong>de</strong>s <strong>de</strong> sentido e a utilizar medi<strong>da</strong>s <strong>de</strong> versos e<br />

<strong>figura</strong>s retóricas mais simples, tal <strong>como</strong> as reiterações <strong>de</strong> palavras<br />

que foram cita<strong>da</strong>s.<br />

Na sua correspondência com a correnteza e com o seu<br />

dócil fundo arenoso, se apresenta o ritmo ondulado <strong>da</strong> passagem<br />

do romance <strong>de</strong> Ana Maria Machado transcrita a seguir. A areia<br />

clara do leito do <strong>rio</strong> copia num <strong>de</strong>senho o movimento <strong>da</strong>s on<strong>da</strong>s<br />

na superfície <strong>da</strong> água; aos cumes <strong>da</strong>s vagas correspon<strong>de</strong>m os<br />

acentos regulares <strong>da</strong> ênfase (MACHADO 1988, p. 336):<br />

A limpi<strong>de</strong>z <strong>de</strong> suas águas revelava as areias claras do<br />

Claramente diferençável é, por sua vez, a imponente - em fundo, on<strong>de</strong> às vezes <strong>da</strong>va até para ver os <strong>de</strong>senhos<br />

parte também exuberante - escritura <strong>de</strong> um poema <strong>de</strong> tema fluvial ondulados, que a própria correnteza fazia.<br />

amazonense <strong>da</strong> lírica sóbria, com um fundo <strong>de</strong> compromisso<br />

sócio-político, <strong>de</strong> João Cabral <strong>de</strong> Melo Neto. Por outra parte, As duplicações marcam <strong>de</strong> modo recorrente a imagem<br />

encontra-se uma expressão lírica intimista em outro texto em prosa retórica dos textos dos <strong>rio</strong>s, por exemplo, no pequeno volume <strong>de</strong><br />

do Brasil, no conto <strong>de</strong> trama extraordinária <strong>de</strong> João Guimarães poemas Cobra Norato, que Raul Bopp escreveu <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> longas<br />

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viagens à região do Amazonas em 1931 . Nas duas estrofes cita<strong>da</strong>s<br />

à continuação, se repete um gerúndio que sublinha a notável<br />

quali<strong>da</strong><strong>de</strong> acústica dos versos, que fluem quase sem signos <strong>de</strong><br />

pontuação, enfatizando com um tom base <strong>de</strong> nasalação (BOPP<br />

1998, p. 149 e 163).<br />

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Vulto crescido nos sonhos<br />

sumindo em curvas do <strong>rio</strong>.<br />

Oh! Monarca <strong>de</strong> menarcas<br />

em arcas <strong>de</strong> amor guar<strong>da</strong>do.<br />

Mentira dita e redita<br />

que quem mentiu acredita (ibi<strong>de</strong>m, p. 48).<br />

Agora são os <strong>rio</strong>s afogados<br />

bebendo o caminho<br />

A água resvala pelos atoleiros<br />

afun<strong>da</strong>ndo afun<strong>da</strong>ndo [...]<br />

A segun<strong>da</strong> parte <strong>da</strong> estrofe está <strong>de</strong>termina<strong>da</strong> pela<br />

paronomásia (em parte uma <strong>de</strong>rivatio), a qual contribui para o tom<br />

básico do poema, geralmente brincalhão, <strong>de</strong> ironia distante, refletindo<br />

os meandros, as “curvas do <strong>rio</strong>”, <strong>de</strong> forma retórica, sobretudo nos dois<br />

Rios escondidos sem filiação certa últimos versos que resolvem a dicotomia <strong>de</strong> mentira e ver<strong>da</strong><strong>de</strong>.<br />

vão <strong>de</strong> mu<strong>da</strong> na<strong>da</strong>ndo na<strong>da</strong>ndo<br />

Entram resmungando mato a<strong>de</strong>ntro [...]<br />

O poema <strong>de</strong> Paes Loureiro conclui com a agonia do <strong>rio</strong>, ao<br />

longo <strong>da</strong> qual o herói havia viajado e em cujo espelho se havia<br />

A construção alitera<strong>da</strong> <strong>da</strong> segun<strong>da</strong> estrofe brinca não só<br />

com as nasalações, mas também com o fonema 'd'. Os pequenos<br />

afluentes sem filiação certa se per<strong>de</strong>m no último verso, no mato,<br />

numa enfática aliteração do 'm' e um 'resmungar' onomatopéico.<br />

mirado (“Quebrou-se o espelho <strong>da</strong>s águas”). Foi acossado pela<br />

poluição ambiental, “Os <strong>rio</strong>s morrendo <strong>de</strong> se<strong>de</strong>”; as poluentes<br />

substâncias químicas, respectivamente, a proparoxitonia,<br />

<strong>de</strong>senvolvem o ritmo do poema até torná-lo pesado:<br />

A cui<strong>da</strong>dosa elaboração <strong>da</strong> sonori<strong>da</strong><strong>de</strong> foi her<strong>da</strong><strong>da</strong> por [...] dióxidos na vazante.<br />

João <strong>de</strong> Jesus Paes Loureiro, quando retoma o mito do Cobra Norato Florente <strong>de</strong> sílica,<br />

(sessenta anos <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> Bopp) no poema “A história luminosa e<br />

on<strong>da</strong>s <strong>de</strong> ácido fosfórico<br />

19<br />

triste do Cobra Norato” . É, sobretudo, o próp<strong>rio</strong> <strong>rio</strong>, um poeta e<br />

corroem a alma dos <strong>rio</strong>s (ibi<strong>de</strong>m, p. 58).<br />

mestre autodi<strong>da</strong>ta, que ensinou o eu lírico a compor poemas e<br />

canções:<br />

Também em outros poemas, Paes Loureiro volta uma e<br />

outra vez a confrontar os mitos <strong>de</strong> origem <strong>de</strong> uma floresta virgem<br />

Pesco meus versos boiando<br />

intata (“Senta<strong>da</strong> a beira do <strong>rio</strong>, / a Lara cortava escamas / na lua,<br />

nas águas em preamar, para pregá-las / nos peixes, <strong>como</strong> espelhinhos”; presente em “Ropois<br />

tudo o que eu sei cantar, mance <strong>da</strong>s três flautas”; ibi<strong>de</strong>m, p. 32.) com preocupações<br />

quem me ensinou foi o <strong>rio</strong>,<br />

que, sem ouvir, apren<strong>de</strong>u<br />

e soube, sem estu<strong>da</strong>r (LOUREIRO 1991, p. 42).<br />

ecológicas referentes à poluição <strong>da</strong>s águas (“Deslen<strong>da</strong> rural VI”<br />

(ibi<strong>de</strong>m, p. 30)). Nesse mesmo sentido, o homem do “Cântico XLIII”<br />

(ibi<strong>de</strong>m, p. 68) aparece <strong>de</strong>primido e preocupado ao olhar o <strong>rio</strong>, a<br />

E segui<strong>da</strong>mente oferece uma amostra <strong>da</strong>s suas<br />

floresta e o mito (mediante paronomásia e assonância):<br />

capaci<strong>da</strong><strong>de</strong>s, quando fala do seu herói Cobra Norato, cuja <strong>figura</strong><br />

onírica e 'Monarca <strong>da</strong>s menarcas' <strong>de</strong>saparece nos meandros do<br />

<strong>rio</strong> (ou 'arcas <strong>de</strong> amor').<br />

O homem face ao <strong>rio</strong><br />

à mata<br />

Ao mito...<br />

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A natureza acústica dos poemas <strong>de</strong>dicados ao Amazonas <strong>de</strong> atribuições <strong>de</strong>vem ser toma<strong>da</strong>s com cautela, resulta surpreen<strong>de</strong>nte<br />

Bopp e Paes Loureiro apenas se diferencia <strong>da</strong>quela dos textos em prosa, a predominância do fonema 'r' (<strong>rio</strong>) em textos sobre os <strong>rio</strong>s.<br />

que trabalham com os mesmos meios <strong>poético</strong>-retóricos. Dois Em outro trecho com força lírica, <strong>de</strong> Torga, no qual a<br />

proparoxítonos enfatizam, junto com um 'r' líqüido, a potência <strong>da</strong> água no<br />

conto “Causas <strong>de</strong> beira do <strong>rio</strong>” <strong>de</strong> Peregrino Júnior (JÚNIOR 1998, p. 143):<br />

consoante oclusiva 'p' se associa ao 'r', trata-se <strong>da</strong> i<strong>de</strong>nti<strong>da</strong><strong>de</strong> do <strong>rio</strong>:<br />

O Douro margina apenas a provocação. Cansado do<br />

Pensava ela, olhando o <strong>rio</strong> túrgido, tão largo na luz esforço erosivo <strong>da</strong>s Ca<strong>da</strong>va<strong>da</strong>s e do salto <strong>da</strong> valeira,<br />

mansa do entar<strong>de</strong>cer. As águas túmi<strong>da</strong>s corriam alapar<strong>da</strong>-se <strong>de</strong>baixo <strong>da</strong> ponte, espreguiça-se <strong>de</strong>pois,<br />

vagarosas <strong>de</strong>baixo <strong>da</strong> ponte. e afasta-se a passo <strong>de</strong> anjo <strong>da</strong> balbúrdia. A sua missão<br />

é outra. Único <strong>rio</strong> que entra e sai <strong>de</strong> Portugal a roer<br />

A aliteração com evi<strong>de</strong>nte predominância do fonema<br />

pedra, o <strong>de</strong>stino encarregou-o <strong>de</strong>ssa exemplari<strong>da</strong><strong>de</strong><br />

líqüido 'r' – tal <strong>como</strong> existe na “phonétique imaginaire <strong>de</strong> l'eau”<br />

20<br />

(BACHELARD 1985, p. 257) – está onipresente nos textos dos <strong>rio</strong>s,<br />

viril e tenaz e também <strong>de</strong> <strong>da</strong>r nome às léguas abruptas<br />

<strong>de</strong> xisto que nele se refletem [...] (TORGA 2000, p. 133).<br />

assim também em O gran<strong>de</strong> sertão: Vere<strong>da</strong>s, <strong>de</strong> Guimarães<br />

Rosa, on<strong>de</strong><br />

O volume <strong>de</strong> poemas <strong>de</strong> João Cabral <strong>de</strong> Melo Neto (O cão<br />

sem plumas (1950) / O <strong>rio</strong> (1954) / Morte e vi<strong>da</strong> Severina (1956). Em Der<br />

[...] se escuta barulho <strong>de</strong> fortes águas, que vão<br />

rolando <strong>de</strong>baixo <strong>de</strong> terra. O senhor dorme sobre um<br />

<strong>rio</strong>... (GUIMARÃES ROSA 1986, p. 222).<br />

Fluss, 1993) segue o mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> uma poesia simples, sóbria e popular,<br />

que parece <strong>de</strong>smascarar outros <strong>rio</strong>s e discursos saturados, às vezes<br />

21<br />

excessivos . Nos anos 50, o brasileiro toma <strong>como</strong> motivo <strong>de</strong> um trítico<br />

lírico, com caráter <strong>de</strong> bala<strong>da</strong>, o <strong>rio</strong> Capibaribe <strong>da</strong> sua terra<br />

E nem sequer se <strong>de</strong>tém diante do majestoso Douro, que é Pernambuco. O eu e o <strong>rio</strong> compõem uma uni<strong>da</strong><strong>de</strong>, uma expressão<br />

dominado pela força <strong>de</strong> uma tormenta.<br />

madura, lúci<strong>da</strong> e aprazível. A antropomorfização geral do <strong>rio</strong> que se<br />

Por todo o Douro a trovoa<strong>da</strong> passara <strong>como</strong> um<br />

encontra em textos líricos é aqui aplica<strong>da</strong> também aos animais e às<br />

plantas: o Capibaribe é um “cão sem plumas”, <strong>como</strong> um pássaro que<br />

furacão. A bra<strong>da</strong>r por montes e vales, fulminou, não po<strong>de</strong> voar. A metáfora do título se explica a partir <strong>de</strong> um <strong>de</strong>svio<br />

primeiro, e alagou e arrasou, <strong>de</strong>pois. À voz dos<br />

trovões, <strong>de</strong>sciam dos altos torrentes tumultuosas,<br />

dos atributos do cão, do pássaro e <strong>da</strong> árvore (MELO NETO 1993, p. 15):<br />

que escavavam socalcos, aluíam pare<strong>de</strong>s,<br />

a r r a n c a v a m c e p a s , e d e i x a v a m a t r á s ,<br />

escancara<strong>da</strong>s, as entranhas <strong>da</strong> terra. (TORGA<br />

2000, p. 224).<br />

Um cão sem plumas<br />

é quando uma árvore sem voz.<br />

É quando <strong>de</strong> um pássaro<br />

suas raízes no ar.<br />

É quando a alguma coisa<br />

Nos seus estudos sobre os elementos, Gaston Bachelard <strong>de</strong>dica roem tão fundo<br />

especial atenção à água e o seu mo<strong>de</strong>lado acústico-lingüístico. Assim,<br />

até o que não tem.<br />

no já citado L'eau et les rêves (1985, p. 250, 253, 255) atribui à água a<br />

vogal 'a': água, aqua, apa, Wasser. Do mesmo modo, as consoantes<br />

O ambiente é triste. Lama, escombros, homens ossudos,<br />

líqüi<strong>da</strong>s <strong>de</strong>vem compor paisagens aquáticas. A pesar <strong>de</strong> que estas pobreza, carências, plantações e engenhos <strong>de</strong> açúcar e uma<br />

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<strong>de</strong>cadência geral domina a paisagem seca e pedregosa que e miste<strong>rio</strong>so passa a primeiro plano. Além disto, se assinala a sua<br />

percorre o <strong>rio</strong> triste e silencioso. Primeiro a secura - areia e pedras -, <strong>de</strong>sor<strong>de</strong>m, o seu caráter inacabado, e até sua <strong>de</strong>composição<br />

<strong>de</strong>pois o pântano do sertão, contrastam com a exuberante (“pútrido hálito <strong>da</strong>s águas” e “águas paludiais”); entretanto, <strong>de</strong><br />

vegetação <strong>da</strong> floresta virgem nos outros textos. O Capibaribe repente o seu “cau<strong>da</strong>l” volta a ser “reluzente” e “majestoso”.<br />

acompanha um “<strong>rio</strong> <strong>de</strong> gente” (ibi<strong>de</strong>m, p. 69), migrantes fugindo É persistente a ênfase na ambivalência do <strong>rio</strong>: “o <strong>rio</strong> que os<br />

do campo rumo ao mar e à gran<strong>de</strong> ci<strong>da</strong><strong>de</strong> Recife, ou melhor, nutre e os mata” é pia batismal e tumba ao mesmo tempo, amigo<br />

rumo à sua meta<strong>de</strong> em <strong>de</strong>composição, a “capital mendiga” (ibi- (“eles só têm um companheiro, um consolo, um amparo: o <strong>rio</strong>”<br />

<strong>de</strong>m, p. 80), <strong>da</strong> aglomeração sem nome, <strong>da</strong> “vila <strong>de</strong> lama”. A (Peregrino Júnior, “Hidrofilia amazônica”; em JÚNIOR 1998, p. 221)) e<br />

23<br />

dimensão social do texto é evi<strong>de</strong>nte .<br />

Com o mesmo caráter seco e elemental do leito do <strong>rio</strong>, se<br />

inimigo.<br />

con<strong>figura</strong> a retórica <strong>da</strong> limitação e <strong>da</strong> coesão, sem ornamentos<br />

A água, para os caboclos <strong>da</strong> Amazônia, é Poesia e é<br />

(“sem plumas”). Os poemas <strong>de</strong> João Cabral <strong>de</strong> Melo Neto<br />

Terror, é Alegria e Misté<strong>rio</strong>, - é a Vi<strong>da</strong> em suma (ibi<strong>de</strong>m,<br />

obe<strong>de</strong>cem a uma clara forma métrica: sessenta estrofes com<br />

pp. 221-222).<br />

sessenta versos, quatro vezes o mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> rima abcb, com maior<br />

freqüência assonante que consonante, para que, mesmo assim,<br />

não se <strong>de</strong>senvolva um excesso <strong>de</strong> musicali<strong>da</strong><strong>de</strong>, obstruindo a<br />

cômo<strong>da</strong> leitura dos versos.<br />

O <strong>rio</strong> serve à população pobre <strong>como</strong> espaço <strong>de</strong> projeção<br />

dos seus <strong>de</strong>sejos. Sua dinâmica admite que uma criança veja nele<br />

um filme, ou que um grupo <strong>de</strong> migrantes compelidos a ir a pé a<br />

Nos ensaios acentua<strong>da</strong>mente líricos <strong>de</strong> Peregrino Júnior, o<br />

Amazonas, ao qual todo o Brasil <strong>de</strong>ve sua existência (“O Brasil é<br />

uma dádiva do <strong>rio</strong> Amazonas”), leva “águas fun<strong>da</strong>s <strong>de</strong> óleo negro<br />

e pesado” e avança numa “marcha viscosa e tar<strong>da</strong> <strong>de</strong> cobragran<strong>de</strong><br />

sem pressa” (Peregrino Júnior, “Imaginação do homem <strong>da</strong><br />

Amazônia”; em ibi<strong>de</strong>m, pp. 217 e 214), que repentinamente volta<br />

Recife veja nele o meio <strong>de</strong> transporte anelado, trem ou carro.<br />

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a ser “bravia”; segundo Milton Hatoum, ele é <strong>de</strong> uma cor preto-<br />

CAUDAL DE METÁFORAS<br />

verdosa e brilhante (“lâmina”; em HATOUM 1989, p. 128.); ou,<br />

segundo Inglês <strong>de</strong> Sousa, na sua superfície rutilam à luz do dia –<br />

com efeito metálico – “cintilações <strong>de</strong> cobre polido”; ou também é<br />

Se tomarmos no seu conjunto um bom número <strong>de</strong> textos<br />

sobre os <strong>rio</strong>s com o intuito <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>lar um protótipo sobre as águas<br />

que fluem, fica evi<strong>de</strong>nte a ambivalência <strong>da</strong>s suas características,<br />

segundo já mencionamos no início. Inclusive no caso dos <strong>rio</strong>s<br />

aludidos nos textos citados: aos <strong>rio</strong>s imponentes, <strong>de</strong>sbor<strong>da</strong>ntes <strong>de</strong><br />

força, os escritores sempre contrapõem a sua letargia<br />

(“preguiçoso”, “meio adormecido”), monotonia, melancolia,<br />

solidão e silêncio. Mas também essa “mansidão” e só “aparente”.<br />

O <strong>rio</strong> <strong>de</strong>ve suportar epítetos <strong>como</strong> “insidioso”, “mudável”,<br />

“inconstante”, “duvidoso”, “indômito”, “bravio”, “soturno”,<br />

“viscoso e tardo”, e também “traiçoeiro”; vale dizer, o imprevisível<br />

pálido e cinza escuro, “manchado <strong>de</strong> pingos par<strong>da</strong>centos” ou<br />

inclusive preto e, mesmo assim, transparente (“águas negras,<br />

duma admirável transparência” (SOUSA 2000, pp. 123, 155 e 190)).<br />

24<br />

Márcio Souza, por sua vez, <strong>de</strong>s<strong>figura</strong> a paleta <strong>da</strong>s cores e, no seu<br />

Galvez, imperador do Acre (1977) vê o Amazonas <strong>de</strong> cor<br />

amarela<strong>da</strong>.<br />

Neste sentido, os textos portugueses quase não se<br />

diferenciam dos brasileiros. Primeiro é o estuá<strong>rio</strong> do Tejo que<br />

repousa na sua imobili<strong>da</strong><strong>de</strong> cinza escura, cheia <strong>de</strong> expectativas,<br />

<strong>de</strong>pois o <strong>rio</strong> flui majestático, porém, é também inconstante,<br />

provoca <strong>de</strong>sassossego e é imprevisível, e po<strong>de</strong> engolir ou “cuspir<br />

25<br />

cadáveres” . Em concordância com isto, o Tejo <strong>de</strong> Fernando<br />

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26<br />

Namora irradia uma tristeza fosca . Só numa ocasião sai <strong>da</strong> sua comparações com o processo <strong>de</strong> pôr or<strong>de</strong>m no seu caótico matecontenção<br />

habitual e reflete a paixão amorosa do protagonista, rial <strong>de</strong> texto, tentando escrever <strong>de</strong> uma forma compreensível para<br />

salpicando as margens <strong>da</strong> ci<strong>da</strong><strong>de</strong> embriaga<strong>da</strong> com seu o leitor. Capítulos e parágrafos encontram uma correspondência<br />

resplendor fogoso (NAMORA 1982, p. 46). nos “afluentes” e “braços dos afluentes”. O discurso preten<strong>de</strong> se<br />

Igualmente lábil é o Douro <strong>da</strong> cor dos tijolos <strong>de</strong> Miguel<br />

Torga, num momento “morno” e “pesado” e no instante seguinte,<br />

<strong>de</strong>itar num curso fluvial claro.<br />

novamente “risonho e alegre”, “esplendoroso”. Somos alertados<br />

Quantas vezes recomecei a or<strong>de</strong>nação <strong>de</strong> episódios,<br />

sobre o motivo do ser / parecer – “ocultava por <strong>de</strong>baixo do sorriso<br />

e quantas vezes me surpreendi ao esbarrar no mesmo<br />

turístico um calvá<strong>rio</strong> <strong>de</strong> lágrimas e fome” (TORGA 2000, p. 52) – e,<br />

para concluir, sobre o dom <strong>da</strong> trans<strong>figura</strong>ção: “O Douro tem essa<br />

27<br />

estranha mão trans<strong>figura</strong>dora” (ibi<strong>de</strong>m, p. 259) .<br />

início, ou no vaivém vertiginoso <strong>de</strong> capítulos<br />

entrelaçados, formados <strong>de</strong> páginas numera<strong>da</strong>s <strong>de</strong><br />

forma caótica.<br />

Certamente seria interessante averiguar qual é o efeito<br />

discursivo que o cená<strong>rio</strong> do meandro tem em uma obra.<br />

Entretanto, até agora encontrei só ocasionalmente textos em<br />

português que abor<strong>da</strong>ssem esse tema tão relevante <strong>da</strong> relação<br />

Por cima <strong>de</strong> tudo, a correspondência é apoia<strong>da</strong> numa<br />

metáfora textual <strong>da</strong> re<strong>de</strong> fluvial (“tei” e “malha”) (ibi<strong>de</strong>m, pp. 62 e<br />

70).<br />

<strong>de</strong> sistemas fluviais, bifurcações, ramificações e labirintos<br />

aquáticos (que também diz relação com uma perspectiva CORPOREIDADE<br />

geográfica); esse assunto já chamou a atenção <strong>de</strong> Alexan<strong>de</strong>r von<br />

Humboldt nos seus comentá<strong>rio</strong>s sobre o <strong>rio</strong> Negro (apud SEIDERER<br />

1999, pp. 232-234).<br />

Contudo, Milton Hatoum, no final do seu romance<br />

publicado em 1989, Relato <strong>de</strong> um certo Oriente, faz referência à<br />

relação entre meandros e estrutura textual (HATOUM 1989, p. 165).<br />

As metáforas ambivalentes e os paradoxos mencionados<br />

acima estão marcados pela humanização e pelo paradigma <strong>de</strong><br />

uma forte corporei<strong>da</strong><strong>de</strong> do <strong>rio</strong>; nesse sentido, por exemplo, o<br />

gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> analogias permite confirmar a riqueza <strong>de</strong>sse<br />

repertó<strong>rio</strong>, em crescimento permanente: fortes chuvas tropicais<br />

“engravi<strong>da</strong>m o ventre do <strong>rio</strong>”, “lento e grosso”, “farto” (Peregrino<br />

Pensava (ao olhar para a imensidão do <strong>rio</strong> que traga a Júnior, “A mata submersa”, em JÚNIOR 1998, Pp. 161 e 166). Em<br />

floresta) num navegante perdido em seus meandros, outro conto já citado, “Causas <strong>de</strong> beira do <strong>rio</strong>”, o mesmo autor<br />

remando em busca <strong>de</strong> um afluente que o conduzisse ao utiliza pela segun<strong>da</strong> vez a comparação com o ventre, mas nesse<br />

leito maior, ou ao vislumbre <strong>de</strong> algum porto. Senti-me caso para se referir ao “ventre estéril <strong>da</strong>quele <strong>rio</strong>”. No sentido <strong>da</strong><br />

<strong>como</strong> esse remador, sempre em movimento, mas<br />

perdido no movimento, aguilhoado pela tenaci<strong>da</strong><strong>de</strong> <strong>de</strong><br />

querer escapar: movimento que conduz a outras águas<br />

ain<strong>da</strong> mais confusas, correndo por rumos incertos.<br />

metáfora do ventre, Inglês <strong>de</strong> Sousa acusa os <strong>rio</strong>s Canumã e<br />

Amazonas <strong>de</strong> querer “<strong>de</strong>vorar as margens” (SOUSA 2000, p. 146)<br />

numa cobiça voraz. No âmbito <strong>de</strong>sse isótopo <strong>da</strong> boca se<br />

compreen<strong>de</strong> também a metáfora consoli<strong>da</strong><strong>da</strong> na utilização geral<br />

A imagem do remador confuso, perdido nos meandros e<br />

nos cursos dos <strong>rio</strong>s procurando o reto <strong>rio</strong> principal ou o porto<br />

seguro, induz o narrador em primeira pessoa a estabelecer<br />

<strong>da</strong> língua, sobre o <strong>rio</strong> banhando suas margens, aplicando o verbo<br />

'lamber': “[...] terra <strong>de</strong> pântanos <strong>de</strong>sbeiçados, que as águas<br />

crispa<strong>da</strong>s <strong>de</strong> enchentes lambem e afogam” (JÚNIOR 1998, p. 166).<br />

Com suas línguas, os <strong>rio</strong>s lambem e falam e cantam. Raul Bopp<br />

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<strong>de</strong>staca repeti<strong>da</strong>mente suas capaci<strong>da</strong><strong>de</strong>s onomatopéicas para pelas imagens corporais nos chega, não por acaso, numa era na<br />

gemer, numa espécie <strong>de</strong> balão idiomático, “Ai, glu-glu-glu”, ou na qual a virtualização ameaça com a <strong>de</strong>saparição do tangível;<br />

estância a seguir do poema Cobra Norato (BOPP 1998, p. 167 e porém, observa-se também uma tendência oposta na fotografia,<br />

160): na arte do ví<strong>de</strong>o e na performance, que contrapõe à perfeição<br />

i<strong>de</strong>aliza<strong>da</strong> <strong>de</strong> um corpo imaculado, exercitado, sim, malhado, a<br />

[...] que me faça ouvir <strong>de</strong> novo representação <strong>da</strong> multiplici<strong>da</strong><strong>de</strong> anatômica até a <strong>de</strong>cadência<br />

a conversa dos <strong>rio</strong>s<br />

que trazem queixas do caminho<br />

e vozes que vêm <strong>de</strong> longe<br />

surra<strong>da</strong>s <strong>de</strong> ai ai ai [...].<br />

<strong>da</strong>s criaturas.<br />

O <strong>rio</strong> nos põe diante dos olhos <strong>como</strong> topos consoli<strong>da</strong>do,<br />

finalmente, a nossa própria mortali<strong>da</strong><strong>de</strong>; ele <strong>de</strong>semboca e se dis-<br />

solve no oceano. Cabe só se perguntar se com isto chegamos ao<br />

À capaci<strong>da</strong><strong>de</strong> <strong>de</strong> dormir – ao menos às vezes o <strong>rio</strong> dá a<br />

impressão <strong>de</strong> dormir (ANDRADE 1985, p. 16) - se somam<br />

final <strong>da</strong> via fluvial <strong>de</strong> uma “direção única” (SEIDERER 1999, p. 284)<br />

ou se nos <strong>de</strong>smarcamos <strong>da</strong> lineari<strong>da</strong><strong>de</strong> do circuito <strong>da</strong>s águas.<br />

características dérmicas e musculares do corpo humano, que os<br />

escritores associam a águas que fluem e lhes outorgam uma<br />

Tradução do alemão para o português: Pablo Diener<br />

dimensão <strong>de</strong> sensibili<strong>da</strong><strong>de</strong> tátil. Assim, em Macunaíma, se fala<br />

repeti<strong>da</strong>mente <strong>da</strong> “pele do <strong>rio</strong>” (ANDRADE 1984, p. 36).<br />

NOTAS<br />

Obviamente não só se atribui corporei<strong>da</strong><strong>de</strong> ao <strong>rio</strong>, mas também<br />

espirituali<strong>da</strong><strong>de</strong> (ele po<strong>de</strong>, por exemplo, experimentar sobressalto,<br />

“silêncio <strong>da</strong>s águas assusta<strong>da</strong>s” (BOPP 1998, p. 185)), inclusive <strong>de</strong><br />

28<br />

tipo extra-sensorial , e igualmente po<strong>de</strong> <strong>de</strong>sempenhar o papel <strong>de</strong><br />

palco <strong>de</strong> acontecimentos transcen<strong>de</strong>ntais, sobretudo nas<br />

correntezas profun<strong>da</strong>s, on<strong>de</strong> se <strong>de</strong>ixam ouvir vozes miste<strong>rio</strong>sas,<br />

geradoras <strong>de</strong> mitos: “Escutando, [...] a mata e as estrelas<br />

conversando em voz baixa com o <strong>rio</strong>, foi que os caboclos criaram<br />

29<br />

a sua mitologia [...]” . Ao seu retorno <strong>da</strong> gran<strong>de</strong> ci<strong>da</strong><strong>de</strong> à floresta<br />

virgem, Macunaíma regozija-se no espetáculo <strong>da</strong>s luzes dos<br />

afogados que <strong>da</strong>nçam samba no fundo do <strong>rio</strong>: “Noite chega<strong>da</strong>,<br />

enxergando as luzinhas dos afogados sambando manso nas<br />

ipueiras <strong>da</strong> cheia [...].” (ANDRADE 1984, p. 136).<br />

Tanto a i<strong>de</strong>ntificação metafísica <strong>como</strong> a física homem-<strong>rio</strong> é<br />

onipresente nos textos analisados, mas com uma corporei<strong>da</strong><strong>de</strong><br />

que rejeita o sublime, que sofre as fadigas <strong>da</strong> existência, as<br />

<strong>de</strong>pressões e os quebrantos, os mesmos que experimenta todo ser<br />

30<br />

vivente, situando-se mais e mais no foco <strong>da</strong> atenção . O<br />

constante interesse <strong>da</strong>s disciplinas <strong>da</strong>s artes, dos meios e <strong>da</strong> cultura<br />

1<br />

Essa questão foi exposta recentemente pelo romanista Ottmar Ette num<br />

livro cuja leitura é particularmente recomendável: Literatur in Bewegung.<br />

Raum und Dynamik grenzüberschreiten<strong>de</strong>n Schreibens in Europa und<br />

Amerika (2001). Ver também Aurel Schmidt, Von Raum zu Raum. Versuch<br />

über <strong>da</strong>s Reisen (1998).<br />

2<br />

5-7 <strong>de</strong> junho <strong>de</strong> 2002. As atas do colóquio serão publica<strong>da</strong>s<br />

proximamente.<br />

3<br />

Trata-se, por outra parte, <strong>de</strong> enriquecer as fontes latino-americanas com<br />

material europeu proce<strong>de</strong>nte <strong>da</strong> península ibérica, permitindo que se<br />

estabeleça um entrelaçamento 'transatlântico' <strong>de</strong> <strong>rio</strong>s.<br />

4<br />

Particularmente quando o motivo do <strong>rio</strong> permanece no campo dos<br />

bastidores, p. ex., <strong>como</strong> um lócus amoenus idílico-bucólico.<br />

5<br />

Num trecho do romance <strong>de</strong> Márcio Souza, Galvez, imperador do Acre<br />

(1983), a massa <strong>de</strong>ste lastro / <strong>de</strong>sta carga (<strong>de</strong> partículas e outras<br />

substâncias que se encontram na água) é avalia<strong>da</strong> estatisticamente – o<br />

que constitui um procedimento freqüente nas <strong>de</strong>scrições do Amazonas -,<br />

chegando a volumes superlativos <strong>de</strong> “aproxima<strong>da</strong>mente 620 milhões <strong>de</strong><br />

tonela<strong>da</strong>s no ano” (cit. <strong>de</strong> Galvez, Kaiser Von Amazonien. Colônia:<br />

Kiepenheuer & Wietsch, 1983, p. 97).<br />

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6<br />

A i<strong>de</strong>alização <strong>da</strong> paisagem provavelmente seja resultado <strong>da</strong>s fluviais alegóricas, um tanto anêmicas, ganham um aspecto mais<br />

lembranças <strong>de</strong> infância <strong>da</strong> protagonista. corpóreo, humanizado e carnal, e nesse sentido também mortal, em<br />

7<br />

diferença do <strong>rio</strong> Gran<strong>de</strong>, que leva “[...] águas mais lentas no seu leito síntese, tem mais physis.<br />

16<br />

preguiçoso, mas raso e bem estreito, cheio <strong>de</strong> curvas manhosas” Nesse contexto apoiamos apenas parcialmente a afirmação que Ute<br />

(MACHADO, Tropical sol <strong>da</strong> liber<strong>da</strong><strong>de</strong> (1988), apud HERMANNS/ SCHARF Sei<strong>de</strong>rer (1999), p. 300, <strong>de</strong>riva <strong>da</strong> proposta <strong>de</strong> Bachelard, segundo a qual<br />

1994, p. 152). “[...] a crescente <strong>de</strong>nsi<strong>da</strong><strong>de</strong> do texto literá<strong>rio</strong>, que conduz à forma lírica,<br />

8<br />

"Mas seus misté<strong>rio</strong>s -e encantos- estavam [...]. Nos troncos leves que<br />

passavam arrastados [...]. Nas plantas aquáticas que se fechavam em<br />

só se consegue na distância <strong>da</strong> água. A proximi<strong>da</strong><strong>de</strong> do <strong>rio</strong> seduz à<br />

narrativi<strong>da</strong><strong>de</strong>”.<br />

colônias tão compactas que, apesar <strong>de</strong> to<strong>da</strong> a sua beleza flori<strong>da</strong>, <strong>da</strong>vam<br />

17<br />

Só para dormir amarra a canoa, mas não à beira do <strong>rio</strong> e sim em uma<br />

medo, <strong>como</strong> se fossem uma falsa terra que se apartava em volta <strong>da</strong> “ponta-<strong>de</strong>-ilha”. Observa-se a construção rítmica em três dos epítetos.<br />

canoa até paralisá-la. No lugar on<strong>de</strong> pacas e capivaras vinham beber 18<br />

O seu contemporâneo Gustvo Cruls (Rio <strong>de</strong> Janeiro, 1888-1959) também<br />

água e on<strong>de</strong> um dia se viram rastros <strong>de</strong> onça. [...] Em um outro veado escreveu, por sua vez, o romance Amazônia miste<strong>rio</strong>sa (1925) <strong>de</strong>pois <strong>de</strong><br />

galheiro que na<strong>da</strong>va e fugia assustado com a aproximação <strong>da</strong> canoa. uma viagem à região do Amazonas.<br />

[...] Nos ninhos <strong>de</strong>pendurados em precá<strong>rio</strong> equilíb<strong>rio</strong> sobre a correnteza. 19<br />

Em todos os cipós que pendiam <strong>da</strong>s árvores <strong>como</strong> se fossem cobras, pelo<br />

Na edição bilíngüe Cantares Amazônicos / Gesänge Amazoniens, 1991,<br />

pp. 42-61<br />

meio <strong>de</strong> barbas-<strong>de</strong>-velho." (ibi<strong>de</strong>m, pp. 335-336).<br />

20<br />

9<br />

A citação se encontra na célebre terceira estrofe <strong>da</strong>s "Coplas por la<br />

As consoante líqüi<strong>da</strong>s não só são uma metáfora dos fonéticos. A isto<br />

muerte <strong>de</strong> su padre" (1477) <strong>de</strong> MANRIQUE 1989, p. 121.<br />

caberia acrescentar a água <strong>de</strong> Tristan Tzara, <strong>como</strong> 'espelho <strong>da</strong> voz', que<br />

reproduz tons miméticos <strong>da</strong> natureza. A quali<strong>da</strong><strong>de</strong> <strong>de</strong> líqüido <strong>como</strong><br />

10 A fórmula, que não aparece literalmente em Heráclito, refere-se ao princípio <strong>da</strong> língua: “Le langage doit être gnflé d'eaux”. “Une nuée <strong>de</strong><br />

"movimento eterno e sem regras <strong>de</strong> todo o perceptível" (SEIDERER, Ute fleuves impétueux emplit la bouche ari<strong>de</strong>” (apud BACHELARD 1985, p.<br />

(ed.). Pantha rhei. Der Fluss und seine Bil<strong>de</strong>r, 1999, p. 282). 258).<br />

11<br />

Por sua vez, o <strong>rio</strong> impõe ao narrador em primeira pessoa no romance best- 21<br />

Desconstrói também os <strong>de</strong>senhos do Capibaribe nos mapas oficiais: Os<br />

seller <strong>de</strong> Paulo Coelho, Na margem do <strong>rio</strong> Piedra eu sentei e chorei (1994), a “olhos” do <strong>rio</strong> são tingidos <strong>de</strong> azul (ibi<strong>de</strong>m, p. 14) numa passagem do<br />

lembrança <strong>de</strong> uma história <strong>de</strong> amor, apesar <strong>de</strong> cultivar também o <strong>de</strong>sejo poema que evoca também a i<strong>de</strong>alização <strong>de</strong> pessoas <strong>de</strong> pele clara, <strong>de</strong><br />

<strong>de</strong> jogá-la no <strong>rio</strong> e <strong>de</strong>sse modo esquecê-la. O título do romance utiliza o cabelo loiro e <strong>de</strong> olhos azuis.<br />

início antológico do salmo: “Junto aos <strong>rio</strong>s <strong>de</strong> Babilônia, ali nos assentamos 22<br />

e nos pusemos a chorar.” (Salmo 137, 1).<br />

A metáfora amazonense <strong>da</strong> cobra <strong>de</strong> Peregrino Júnior segue também o<br />

mo<strong>de</strong>lo <strong>da</strong> zoomorfização.<br />

12<br />

Também com a “nostalgia do retorno” e o passeio <strong>rio</strong> acima, às fontes. 23<br />

SEIDERER 1999, p. 299.<br />

Na terceira parte <strong>da</strong> trilogia, o autor sente uma simpatia silenciosa com<br />

respeito a essas pessoas (MELO NETO 1993, p. 82).<br />

13<br />

Tiber, Nilus, Eri<strong>da</strong>nus (Pó) etc., também pertencem a este Olimpo fluvial. 24<br />

Vai do avermelhado, ver<strong>de</strong> e azul até cinza, marrom escuro e preto.<br />

14<br />

Com a exceção <strong>de</strong> Cobra Narato <strong>de</strong> Raul Bopp (em Poesia completa<br />

(1998)), no qual o Amazonas, em relação com os mitos <strong>da</strong> criação, é<br />

<strong>de</strong>scrito <strong>como</strong> enti<strong>da</strong><strong>de</strong> feminina, <strong>como</strong> ventre materno on<strong>de</strong> a vi<strong>da</strong><br />

25<br />

Mais <strong>de</strong> um <strong>rio</strong> exige a sua Ofélia”. NAMORA 1982. Cf. NAMORA 1989, pp.<br />

228, 265 e 297.<br />

vegetal po<strong>de</strong> se <strong>de</strong>senvolver.<br />

26<br />

Namora trata no seu romance do <strong>de</strong>saparecimento <strong>de</strong> um indivíduo, sem<br />

15<br />

Nos poemas <strong>de</strong> épocas poste<strong>rio</strong>res, por exemplo na sátira barroca<br />

espanhola (Quevedo, Góngora, Lope e Castillo Solórzano), as divin<strong>da</strong><strong>de</strong>s<br />

<strong>de</strong>ixar nenhum rastro - um acontecimento amplamente difundido<br />

através <strong>da</strong> imprensa -, cujo cadáver foi encontrado no <strong>rio</strong> (foi visto pela<br />

19


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NDIHR<br />

última vez no transbor<strong>da</strong>dor no qual havia conhecido a sua mulher há grenzüberschreiten<strong>de</strong>n Schreibens in Europa und Amerika. Weilerswist,<br />

muitos anos); não foi possível esclarecer se cometeu suicídio ou se foi Velbrück Wissenschaft, 2001.<br />

assassinado por motivos políticos.<br />

27<br />

Com a dinâmica <strong>da</strong>s águas que fluem se <strong>de</strong>senvolve sua multiplici<strong>da</strong><strong>de</strong><br />

ótica: quebram, rutilam, refletem, refratam, serpeiam. Jamais têm uma<br />

GUIMARÃES ROSA, João. O gran<strong>de</strong> sertão: Vere<strong>da</strong>s. Rio <strong>de</strong> Janeiro, Nova<br />

Fronteira, 1986 (1956¹).<br />

superfície plana, mas sim uma ruptura constante (apoia<strong>da</strong> em __________. Primeiras Estórias. Rio <strong>de</strong> Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2001.<br />

complexos fenômenos eletrostáticos) altera a sua superfície. Com<br />

freqüência equivalente trabalham os escritores com chaves óticas, com<br />

efeitos <strong>de</strong> luz e sombra (lua e <strong>rio</strong> conformam uma conjunção prova<strong>da</strong>), e<br />

HATOUM, Milton. Relato <strong>de</strong> um certo Oriente. São Paulo, Companhia <strong>da</strong>s<br />

Letras, 1989.<br />

com um amplo espectro <strong>da</strong>s cores dos <strong>rio</strong>s.<br />

HERMANNS, Ute / SCHARF, Kurt (eds.). Nach<strong>de</strong>nken über eine Reise ohne<br />

28<br />

Para esta dimensão metafísica veja-se: BACHELARD 1939. En<strong>de</strong>: Brasilien literarisch. Berlin, Babel, 1994.<br />

29<br />

Peregrino Júnior, “Hidrofilia amazônica”; em JÚNIOR 1998, p. 222. “São as<br />

vozes secretas <strong>da</strong>s florestas e dos <strong>rio</strong>s, que cantam nas vozes<br />

subterrâneas do seu mundo inte<strong>rio</strong>r [...]” (ibi<strong>de</strong>m).<br />

JÚNIOR, Peregrino. Peregrino Júnior e as histórias <strong>da</strong> Amazônia. Ed. <strong>de</strong><br />

Arnaldo Niskier. Rio <strong>de</strong> Janeiro, Aca<strong>de</strong>mia Brasileira <strong>de</strong> Letras, 1998.<br />

30<br />

A muita distância <strong>da</strong> dimensão <strong>da</strong>s divin<strong>da</strong><strong>de</strong>s fluviais, menciona<strong>da</strong>s LOUREIRO, João <strong>de</strong> Jesus Paes. Cantares Amazônicos / Gesänge<br />

ante<strong>rio</strong>rmente, carrega<strong>da</strong>s <strong>de</strong> digni<strong>da</strong><strong>de</strong> e com caráter alegórico, no Amazoniens. Sankt Gallen/ Berlin/São Paulo, Edition diá, 1991.<br />

campo <strong>da</strong> antigüi<strong>da</strong><strong>de</strong> e <strong>da</strong> I<strong>da</strong><strong>de</strong> Média oci<strong>de</strong>ntal.<br />

MACHADO, Ana Maria. Tropical sol <strong>da</strong> liber<strong>da</strong><strong>de</strong>. Rio <strong>de</strong> Janeiro, Editora<br />

Nova Fronteira, 988.<br />

REFERÊNCIAS<br />

MANRIQUE, Jorge. Poesía completa. Barcelona, Ediciones 29, 1989.<br />

ANDRADE, Má<strong>rio</strong> <strong>de</strong>. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter [edição<br />

MELO NETO, João Cabral <strong>de</strong>. Der Fluss. Berlim / Sankt Gallen / São Paulo,<br />

Edition dia, 1993.<br />

crítica <strong>de</strong> Telê Porto Ancona Lopez], Buenos Aires, Colección Archivos,<br />

1984.<br />

NAMORA, Fernando. O <strong>rio</strong> triste. Rio <strong>de</strong> Janeiro, Editorial Nórdica, 1982.<br />

BACHELARD, Gaston. L'eau et les rêves. Paris, José Corti, 1985 (1942¹); trad.<br />

em português: A água e os sonhos. São Paulo, Martins Fontes, 2002.<br />

SCHMIDT, Aurel. Von Raum zu Raum. Versuch über <strong>da</strong>s Reisen. Berlim,<br />

Merwe Verlag, 1998.<br />

SEIDERER, Ute (ed.). Pantha rhei. Der Fluss und seine Bil<strong>de</strong>r. Leipzig, Reclam,<br />

__________. Poétique <strong>de</strong> l'espace. Paris, PUF, 1957; trad. em português: A<br />

poética do espaço. São Paulo, Martins Fontes, 2000.<br />

1999.<br />

SOUSA, Herculano Inglês <strong>de</strong>. O missioná<strong>rio</strong>. São Paulo, Editora Ática, 2000<br />

BOPP, Raul. Poesia completa <strong>de</strong> Raul Bopp. Rio <strong>de</strong> Janeiro, José Olympo /<br />

São Paulo: Edusp, 1998.<br />

(1891¹).<br />

SOUZA, Márcio. Galvez, imperador do Acre, Rio <strong>de</strong> Janeiro, Editora<br />

COELHO, Paulo. Na margem do <strong>rio</strong> Piedra eu sentei e chorei. Rio <strong>de</strong> Janeiro,<br />

Editora Rocco, 1994.<br />

MarcoZero, 1983.<br />

ETTE, Ottmar. Literatur in Bewegung. Raum und Dynamik<br />

TORGA, Miguel. Vindimia. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000 (1945¹).<br />

20<br />

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