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Corrida das Tartarugas - Unisinos

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As tartaruguinhas marinhas (Prof. Marcos Villela Pereira – UFPEL)<br />

Não ousaria falar em destino. Não com o fatalismo que recheia essa<br />

palavra, pelo menos. Mas quero falar do inevitável, de algumas coisas que fazem<br />

parte da trajetória de cada um, a viagem sem volta da história em movimento, da<br />

impossibilidade de permanência. Em algum lugar, Rainer Maria Rilke escreveu um<br />

pequeno poema que diz algumas coisas disso aí. Não tem título, não sei quem<br />

traduziu, não sei de onde tirei:<br />

Como os pássaros,<br />

Alguns que moram nos grandes sinos<br />

Dos Campanários<br />

Súbito, pelo sentimento da retumbância<br />

São desalojados e impelidos em seu vôo<br />

No ar da manhã<br />

E escrevem a bela forma de seu susto<br />

Ao redor <strong>das</strong> torres:<br />

Não podemos permanecer em nossos corações<br />

Quando os sinos soam.<br />

Este jogo começa com um preâmbulo de fatos. Tudo são fatos. Só posso<br />

falar em fatos. Mas eles traduzem o intradutível: os acontecimentos. Os fatos que<br />

precedem o início do jogo é a grande tartaruga marinha fêmea, prenhe de muitos<br />

ovos, rastejando pela praia, com dificuldade. Ela já acasalou e foi feliz (isso é decisão<br />

minha, não precisava). Veio à praia fazer seu ninho. Bem longe do alcance da água,<br />

cava lentamente um grande buraco. Ali, deposita seus ovos e os cobre com a areia<br />

quente. Não é ela quem vai chocá-los, mas o calor do sol. Sua parte está feita, sua<br />

tarefa, cumprida. Lava as mãos para o destino da ninhada. Nosso ponto de partida é<br />

o ninho.


1.Clara e gema<br />

A vida está se formando, um indivíduo está acontecendo. Clara e gema vão<br />

dando origem a alguém. Tudo se desenvolve no interior do ovo, vizinho de outros<br />

ovos, dentro do ninho. Tudo é muito particular, os processos são muito semelhantes.<br />

Ainda não há nada singular, a história ainda não começou. O estado presente <strong>das</strong><br />

coisas não passa de uma materialidade se diferenciando, tudo é muito primário, muito<br />

primitivo: o calor do sol sobre a areia, a umidade do chão, o tempo decorrendo,<br />

eterno... o ovo não passa de um ovo, ele ainda não é ninguém. Leva tempo até que<br />

ninguém venha a ser alguém. Espera. Fica uma rodada sem jogar.<br />

4. Ainda no ovo, querendo sair<br />

Pronto, já temos alguém. E esse alguém está começando seus movimentos,<br />

descobrindo suas necessidades e suas vontades. Ele está querendo vir a ser. Seu<br />

primeiro movimento de desenhamento de si, sua primeira atitude em favor de si é sair<br />

do ovo. O ovo foi útil, foi fundamental. Mas, para ser alguém, de verdade, precisa sair<br />

dali de dentro. A natureza da história é, justamente, abandonar ovos, desfazer figuras,<br />

deixar lugares e constituir outros, produzir novos, habitar diferentes. Por mais<br />

acolhedor, seguro, quentinho que seja o ovo, ele não dá a menor possibilidade. Ainda<br />

que a tentação seja grande, é preciso abandoná-lo. Mesmo porque, com as coisas<br />

acontecendo, a gente não cabe mais nele e ele se desmancha. Mas, esperar que ele<br />

se desmanche é muito pouco: vale a pena quebrar a casca e sair, com vontade,<br />

impelido pelo próprio movimento. Então, duas possibilidades: tomar a iniciativa ou<br />

deixar-se à mercê do tempo. Se a escolha for por deixar-se à mercê, volta para o<br />

início da trilha: tudo bem, é um jeito de viver, esse de ser levado, aos trambolhões,<br />

pelas coisas. Mas é um jeito burro... por que abrir mão de ter a prerrogativa de si? Se<br />

a escolha for por fazer seu caminho, boa idéia: avança para a casa número seis.<br />

7. Saindo do ninho<br />

Pensou que era só sair do ovo e pronto? Ledo engano... Os ovos (lembra?)<br />

estão cobertos de areia. Tem que cavar, cavar, cavar para, então, sair para céu<br />

aberto. Aquele sair do ovo era só um ensaio. A história não é fácil: não existe o felizes<br />

para sempre, não existe para sempre. Cada passo é um passo em direção a outro<br />

passo. Passos que se sucedem. Tem passos que já vêm prontos, modelos de


caminhar. E tem passos que ninguém ensina, que ninguém aprende: são passos<br />

únicos em cada desenho. Um detalhe: não dá para ser original o tempo todo; mas não<br />

tem por que deixar-se levar pelos passos pré- estabelecidos, também, o tempo todo.<br />

Bueno, onde estávamos? Ah, na saída do ovo: o fulano saiu do ovo e encontrou-se<br />

envolvido por areia, muita areia. Não dá tempo de tomar fôlego. Não há fôlego. Tem<br />

que cavar, continuar cavando. Diria que esses são os primeiros passos da<br />

tartaruguinha. Sair do ovo foi uma atitude de escolha por si. Sair do ninho será, de<br />

verdade, o primeiro movimento de constituição desse si escolhido, o primeiro<br />

desenho, a primeira figura, o primeiro exercício proposital. Se ela tivesse se deixado à<br />

mercê do crescimento, permanecendo no ovo até não caber mais nele e a casca<br />

quebrar-se por pressão involuntária, talvez não houvesse, também, a conseqüente<br />

iniciativa de cavar (porque ela se deixaria, novamente, à mercê). Mas não é o nosso<br />

caso. Nossa tartaruguinha está decidida e vai cavar, está cavando. Prêmio estímulo -<br />

avança uma casa: são uns punhados de areia tirados do caminho.<br />

11. No exterior do ninho, de cara pro sol<br />

Tudo (o ovo, o ninho de areia, a praia) ainda é dentro. Estar na praia, na<br />

superfície do ninho, ainda é estar dentro. É exterior com relação ao interior do ovo, ao<br />

interior do ninho. Mas ainda não é fora. Até agora, os movimentos têm sido<br />

movimentos primários de constituição de si, de auto-apropriação, de escolha. Até<br />

agora, a tartaruguinha esteve aprendendo as dimensões desse si que está<br />

escolhendo. E, ao sair do ninho, ao chegar na superfície da areia, ela conseguiu<br />

espichar o olho e olhar o mar. O mar é o fora, o não- lugar para onde ela vai. Na areia<br />

aberta, ela está na borda, na fronteira entre o dentro e o fora. Foi difícil chegar aqui.<br />

E, como disse antes, cada passo leva a outro passo, que leva a outro passo. Por<br />

enquanto, ela ainda não chegou a nenhum lugar em que possa ficar um tempo: todos<br />

os lugares a que chegou (o ovo, o ninho, a areia) são lugares que, ao serem<br />

descobertos, percebidos, habitados, precisam logo ser abandonados. Seu horizonte já<br />

abriu, seu olhar já alcança mais longe, ela já percebe que seu mundo mais imediato (<br />

cada um dos nichos descobertos e abandonados) é um pedaço habitado de um<br />

mundo maior. Cada figura sida é um lugar habitado, demarcado no espaço mais<br />

amplo. Provavelmente, não se desse conta disso. Provavelmente, pensava que a vida<br />

era assim mesmo e que o mundo era daquele tamanho. O que ficou para trás, o ovo e<br />

o ninho, são estados de retenção, figuras para<strong>das</strong> de uma história. Ovos são bons


para incubar a vida, para proteger o indivíduo enquanto ele se forma: não para<br />

sempre. Ninhos são bons para a gente viver um tempo, para curtir um pedaço da<br />

história. Mas temos de abandoná-Ios, sair fora, desfazê-Ios para, depois, fazer novos.<br />

Então, fez-se a luz e a tartaruguinha entendeu que a vida é para ser vivida, que sua<br />

história deve ser trabalhada, escolhida, produzida dentro de um campo ilimitado de<br />

potencialidade. Sua figura vivida é finita. Porém, sua potência de vir a ser é ilimitada.<br />

E é isso que se descortina diante dela, ali parada, de cara pro sol, de frente pro mar.<br />

O susto é grande. O futuro se agita dentro dela, um vulcão parece querer explodir. Ela<br />

fraqueja. Até que restabeleça seu ímpeto de viver, de vir a ser, fica uma rodada sem<br />

jogar .<br />

14. A caminho do mar<br />

Lá vai ela!.. Lá vamos nós! Correndo o quanto podem correr nossas pequeninas<br />

pernas. Fugindo do calor do sol, dos olhos ávidos <strong>das</strong> gaivotas, abandonando tudo<br />

que fomos, correndo em direção a tudo que virá, lá vamos nós. Um movimento<br />

irreversível. ..jamais poderemos voltar ao que éramos. E não podemos vacilar.<br />

Quando sabemos que exjste o mar, não há como disfarçar e recusá-Io: somos<br />

tartaruguinhas marinhas. Queremos o mar.<br />

E lá vamos nós, deixando para trás tudo o que fomos, indo em direção ao que<br />

ainda não somos. Mas, no caminho, uma força veio de fora e interferiu tudo: uma<br />

gaivota se atirou e, num vôo rasante, catou a tartaruguinha no bico e levou embora<br />

para o seu ninho, para ser almoçada pelos seus filhotes. Pena. Um raio nos atingiu e<br />

fomos condenados ao ninho. De outro, mas ninho. Pena. Volta para o início e<br />

recomeça sua história.<br />

18. A caminho do mar<br />

Nem sempre a vida é drama. Sempre é trágica, pela radicalidade com que pode<br />

ser vivida. Drama é o final infeliz da casa catorze. Tragédia é a irreversibilidade de<br />

qualquer ato vivido. E há que aprender com isso. O vôo rasante da gaivota, a fome<br />

que ela tem, são inevitáveis. Precisamos contar com isso, aprender com isso. Não<br />

sairemos impunes da vida. Sairemos com marcas, como as casas marca<strong>das</strong> deste<br />

jogo. A interferência sempre vem. No meio do caminho, entre o ninho e o mar, não<br />

temos onde nos esconder, onde nos refugiarmos. Voltar para o ninho é perder to<strong>das</strong><br />

as conquistas até então consegui<strong>das</strong>. Cavar um novo ninho pode acabar com as


eservas de força que temos para chegar ao mar. Precisamos ir em frente. Enfrentar a<br />

gaivota, o sol forte, as poucas forças: essas são as condições que nos atravessam e<br />

com as quais fazemos nossa história. Esta casa serve para fortalecer a tartaruguinha:<br />

não tem punição nem prêmio. É só para dar referência. Aliás, dizer que, no caminho,<br />

não há referência. Não há certificado de garantia nem manual de instruções: as<br />

regras do caminhar são resultado da alquimia de forças vivi<strong>das</strong>, forças que vêm de<br />

dentro e de fora. Apenas uma palavra: vai em frente !<br />

Chegada: o mar!<br />

Fim da primeira etapa. Um ninho foi desfeito e um impulso projetou a<br />

tartaruguinha no mar. Só que o mar é lugar nenhum, é tudo e nada, ao mesmo tempo.<br />

A vida começa aqui, no mar, onde tudo está por fazer. A tartaruguinha, é verdade,<br />

não pode escolher em ser médica ou professora ou modelo: ela vai ser tartaruga. Mas<br />

vai escolher seus caminhos, seus parceiros, suas viagens. E vai construir seus ninhos<br />

muitas vezes. E vai desfazê-Ios a cada vez. Vai sair do mar e voltar ao mar repeti<strong>das</strong><br />

vezes. E, assim, vai ser sua vida: no mar absoluto vai desenhar uma trajetória<br />

singular, vai fazer uma história que será só dela. E vai cruzar sua história com outras<br />

histórias, de tartarugas, de peixes, de homens, de correntes marítimas, enfim: vai<br />

fazer histórias. E novos ovos virão, com clara e gema, para alimentar as aves de<br />

rapina ou produzir novos indivíduos parentes da tartarugona-mãe.

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