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V Encontro Nacional da Anppas<br />

4 a 7 de outubro de 2010<br />

Florianópolis - SC – Brasil<br />

_______________________________________________________<br />

O lugar da natureza e o esvaziamento da dimensão social na luta entre<br />

assentados rurais e o aterro sanitário de Igarassu – Pernambuco<br />

Tarcísio Augusto Alves da Silva<br />

Sociólogo (UFRPE), Msc em Serviço Social (UFPE), Doutorando em Sociologia (UFPE), professor<br />

Assistente I da UFAL – Campus Sertão<br />

deescada@yahoo.com.br<br />

Resumo<br />

O trabalho discute o conflito socioambiental instaurado com a construção de um aterro sanitário às<br />

margens do rio Arataca em um município da Mata Norte do estado de Pernambuco e a<br />

mobilização de assentados rurais na denúncia dos riscos ambientais provenientes dessa<br />

instalação. Discute-se, na mobilização promovida por esses sujeitos, a centralidade que o apelo à<br />

natureza recebe em detrimento da dimensão social do conflito.<br />

Palavras-chaves: Conflito, assentamento rural, natureza.<br />

Introdução<br />

A luta pela terra tem sido resignificada em várias experiências de assentamentos rurais em<br />

decorrência de processos de expropriação de agricultores, ocasionados por práticas<br />

desenvolvidas por grupos de interesse privado e por políticas públicas que ameaçam a qualidade<br />

de vida e as perspectivas de reprodução social destes sujeitos e de suas comunidades.<br />

A desvalorização imobiliária e os riscos ambientais provocados pela localização de lixões e<br />

aterros sanitários nas proximidades desses assentamentos nos permite considerar que a luta pela<br />

terra se renova em condições diferenciadas da mobilização pela reforma agrária e, têm na<br />

questão ambiental uma variável a ser considerada no discurso e nas ações desenvolvidas por<br />

aqueles que se veem vitimizados pelos efeitos negativos resultantes dos resíduos oriundos do<br />

modelo de produção e consumo hegemônico e, de políticas públicas e interesses privados que se<br />

constituem como solução à destinação desses resíduos.<br />

Nas cidades de Araguaína (TO) e Goiana (PE), dois casos bastante emblemáticos<br />

chamam atenção quanto a essa situação. Neles, assentados rurais se veem ameaçados pela


presença de aterros sanitários que tornam-se vetores de problemas de saúde pública pela<br />

transmissão do mau cheiro ou pela ameaça a algum recurso natural determinado pela localização<br />

deste tipo de empreendimento ou por sua ingerência. Em consequencia desses fatores, os<br />

agricultores se sentem pressionados a abandonar o lugar onde vivem como resultado da<br />

manifestação de práticas de injustiça ambiental.<br />

A configuração de conflitos socioambientais, nestes casos, externaliza, por outro lado, uma<br />

relação cidade-campo movida por um paradigma que vê no rural a parte subordinada desse<br />

processo, justificando, portanto, a destinação de tais passivos as populações nele residentes.<br />

Esses conflitos ganham roupagens diferenciadas daqueles ocasionados, unicamente, pela<br />

questão agrária uma vez que encontram na natureza um forte apelo ao entendimento do campo<br />

enquanto espaço e patrimônio ambiental a “ser preservado contra usos predatórios, produtivos ou<br />

não” (WANDERLEY, 2000:100).<br />

No desenvolvimento de tais conflitos, um forte apelo à defesa da natureza como estratégia<br />

de luta pelos assentados pode deixar em segundo plano a dimensão social do litígio e ocasionar a<br />

ineficácia da ação dos vitimizados quando o discurso dos experts preconiza, por meio da técnica,<br />

a salvaguarda dos recursos naturais, até então, percebidos como ameaçados pelos assentados.<br />

Para ilustrar tal situação, o presente trabalho busca examinar, a partir de um estudo de<br />

caso, o conflito socioambiental entre a CTR (Central de Tratamento de Resíduos Sólidos de<br />

Pernambuco) e os agricultores do Assentamento Engenho Ubu, localizado nos limites dos<br />

municípios Igarassu e Goiana (Pernambuco). Intencionamos ainda analisar as estratégias de luta<br />

desenvolvidas por esses assentados para a desativação do aterro sanitário e a centralidade da<br />

defesa da natureza no tom dado a essas estratégias.<br />

A pesquisa que dá conteúdo a esse trabalho vem sendo realizada no âmbito do<br />

acompanhamento do conflito desde 2008 e tem como sujeitos os agricultores vitimizados, técnicos<br />

da CTR-PE, técnicos de órgãos de meio ambiente do estado de Pernambuco. Os dados<br />

coletados, por meio de entrevistas semi-estruturadas e pesquisa documental (jornais, e<br />

documentos oficiais), foram sistematizados por meio da análise de conteúdo. O foco da análise<br />

compreendeu e privilegiou a percepção de risco dos atingidos e o processo mobilizatório<br />

desencadeado por estes.<br />

1. Conflitos socioambientais, Estado e a vitalidade de espaços rurais<br />

Conflitos socioambientais podem ser entendidos como a disputa entre grupos sociais pela<br />

defesa de distintas formas de inter-relacionamento com meio ambiente. Little (2004:01) defende


que um conflito socioambiental se define “quando o cerne do conflito gira em torno das interações<br />

ecológicas”. Complementar a essa assertiva, Acselrad (2004a:10) afirma que: “os conflitos<br />

ambientais eclodem quando impactos indesejáveis, transmitidos pelo ar, pela água ou pelo solo,<br />

comprometem a coexistência localizada entre distintas práticas sociais de uso do território e de<br />

seus recursos”.<br />

A eminência e a centralidade de tal tipo de conflito, nas sociedades hodiernas, refletem,<br />

sobretudo a visibilidade que a questão socioambiental vem tomando nos mais diversos contextos<br />

seja, no cotidiano dos indivíduos e de suas comunidades ou, no espaço da academia. Isso<br />

porque, para Brandenburg (2004:01) mesmo que na história do pensamento brasileiro já tenha se<br />

identificado preocupações preservacionistas “não há, em período anterior a década de 70,<br />

manifestações de cunho ecológico que coloque em questão, o padrão industrial de<br />

desenvolvimento, a relação sociedade-ambiente, ou mesmo os instrumentos que intermediam<br />

essa relação”.<br />

No entanto, no bojo do processo que torna a questão socioambiental no Brasil pauta das<br />

grandes agendas de discussão, a compreensão que grupos minoritários e socialmente excluídos<br />

vem construindo desse fenômeno coloca-os como sujeitos indispensáveis na análise e dinâmica<br />

dos conflitos que tem na disputa pelos recursos disponibilizados pela natureza seu móvel.<br />

O aporte para entendimento da problemática dos conflitos socioambientais sob a<br />

perspectiva desses grupos não pode se realizar sem considerar a injustiça ambiental enquanto um<br />

componente da relação sociedade-natureza mediada pela assimetria de poder entre classes, do<br />

papel desempenhado pelo Estado, na ingerência de políticas públicas, e nos interesses privados<br />

de apropriação dos recursos naturais.<br />

É assim que, um movimento de justiça ambiental se constituiu denunciando o acesso<br />

desigual ao meio ambiente como resultado da “lógica perversa de um sistema de produção, de<br />

ocupação do solo, de destruição de ecossistemas, de alocação espacial de processos poluentes,<br />

que penaliza as condições de saúde da população trabalhadora, moradora de bairros pobres e<br />

excluída pelos grandes projetos de desenvolvimento (ACSELRAD, 2004b:15).<br />

Os conflitos socioambientais definidos nesta lógica não se referem simplesmente a uma<br />

tensão de interesse dentro de um mesmo segmento social. Seu recorte problematiza, portanto, o<br />

desenvolvimento de litígios que ocorrem pela distribuição desigual dos riscos ambientais em que<br />

as classe menos favorecidas, grupos étnicos, pobres e trabalhadores são compelidos a aceitar, a<br />

tolerar e a submeter-se a perda de seu território ou, a sua degradação, em função dos interesses<br />

privados ou de uma lógica institucional que orienta as políticas públicas a beneficiar determinados<br />

setores à revelia do bem estar e da qualidade de vida de determinadas comunidades. Foi assim,<br />

que no campo, a antiga precariedade social (WANDERLEY, 2004) dos espaços rurais no Brasil<br />

tendeu a reforçar os processos de expropriação de populações rurais em relação aos recursos<br />

naturais e aos territórios a que estas se encontram circunscritas.


Embora tal aceitabilidade, tolerância e submissão devam ser compreendidas num contexto<br />

de carências, das dificuldades de emprego e do baixo grau de politização de muitas dessas<br />

populações, os sujeitos das denúncias pelos impactos ocasionados pela poluição, contaminação<br />

de rios e do solo, decorrentes de práticas de terceiros, são os membros das comunidades<br />

atingidas.<br />

Em vista do comprometimento das práticas sociais do grupo e da ameaça a sua<br />

reprodução social, diante da expropriação dos recursos naturais de seu território, tais sujeitos são<br />

impulsionados a posicionar-se perante a visibilidade de situações que tornam o lugar onde vivem<br />

ambientalmente desfigurado e incapaz de assegurar a sua reprodução social.<br />

Para Leite Lopes et al. (2004), no entanto, pessoas só se mobilizam quando um dano<br />

materializa-se de fato e afeta seu cotidiano, transformando-se assim um problema ambiental em<br />

uma questão social. Isso se deve porque a proximidade a fonte poluidora, ou a uma situação de<br />

risco ambiental, não é suficiente para que a população se mobilize para impedir que os males ali<br />

expostos possam ser disseminados. Concorre para isso o fato que a comunidade possa encarar,<br />

em um primeiro momento, que os males ali produzidos podem ser aceitáveis desde que alguma<br />

vantagem possa ser adquirida. Seria o caso de se ter garantido empregos em detrimento dos<br />

males que atividade a ser desenvolvida possa causar ao meio ambiente.<br />

A assertiva de Leite Lopes et al. (2004) deve ser entendida com alguma ressalva quando<br />

observadas as especificidades que cada contexto pode conduzir. Acreditamos que a depender do<br />

grau de organização e politização da comunidade, a rejeição e resistência as práticas de injustiça<br />

ambiental, expressas na poluição, expropriação de recursos naturais e na produção de situações<br />

de risco em territórios ocupados por uma dada população, possam se materializar<br />

independentemente de que os males cheguem a se manifestar.<br />

Importante observar que, em muitas situações, a história de luta dos sujeitos se torna uma<br />

variável determinante para que eles se mobilizem em torno da defesa de seu território. A memória<br />

de lutas anteriores e a relação que estes possuem com o lugar pode colaborar para tornar a<br />

percepção de tais atores mais sensível as alterações provocadas por atividades desenvolvidas por<br />

terceiros e, portanto mais dispostos a garantir a perenidade das condições de reprodução do<br />

grupo amparadas em um discurso de defesa da natureza presente nesse território.<br />

Na especificidade da experiência de assentamentos rurais a hipótese de que a história de<br />

luta pela terra fornece aos sujeitos que dela participam um apoderamento sobre questões políticas<br />

e de direitos deve ser ainda amplamente testada a fim de que se possa efetivamente reconhecer<br />

sua validade. No entanto, o impacto dos assentamentos rurais sobre uma dada região já tem sido<br />

constatado pelas alterações nas diversas formas de sociabilidade. Ou seja, os impactos dos<br />

assentamentos rurais sobre uma região se refletem nas possibilidades de rearranjo ou nas<br />

alterações nas relações de poder local (MEDEIROS e LEITE, 2004).


Esse fato evidencia que para além das relações de submissão que o trabalho assalariado<br />

na agricultura possa conduzi,r as experiências de reforma agrária tornam-se um importante<br />

canalizador das transformações sociais por que passa o mundo rural brasileiro. Porém, no<br />

contexto da atual questão socioambiental a luta pela terra tende a tomar um novo sentido,<br />

reforçando a ideia de que ela não pode se limitar ao momento em a terra foi adquirida, mas da sua<br />

defesa permanente enquanto um recurso necessário a fixação do homem do campo e da<br />

manutenção de um modo vida rural.<br />

Isso implica dizer que a reforma agrária e a posse da terra não significam a permanência<br />

dessa população no campo. As dificuldades de assessoramento técnico, o pouco acesso ao<br />

crédito e aos mercados consumidores, as precárias condições de produção associadas aos<br />

impactos provocados por outras atividades econômicas nas proximidades dos assentamentos<br />

podem estender essa luta para novas situações onde a conquista da terra cede espaço a sua<br />

defesa ou, ao próprio abandono da propriedade.<br />

É assim que, no amplo leque de elementos que compõem a questão socioambiental, a<br />

defesa pela terra adquirida emerge a partir de novas demandas que não apenas aquelas<br />

relacionadas a necessidade de infraestrutura mas, a manutenção das amenidades e das<br />

qualificação ambiental dos espaços rurais conquistados a partir da reforma agrária. Isto requer<br />

das comunidades de assentados rurais a formação de uma consciência ambiental que lhes<br />

permita interagir com os espaços rurais dentro de uma lógica que rompa com as tradicionais<br />

sociabilidades da agricultura mercantil de base monocultural.<br />

A exemplo de muitas famílias de assentados rurais do Nordeste brasileiro que, antes de<br />

terem garantido o acesso a terra, viveram durante muito tempo de suas vidas no trabalho da<br />

agricultura da cana-de-açúcar a vivencia nos assentamentos tendem, em muitos casos, reproduzir<br />

os padrões deletérios de uso dos recursos naturais, sobretudo da terra. Ainda assim, experiências<br />

diversas de assentamentos rurais tem promovido práticas inovadoras quanto a implementação de<br />

um modelo de agricultura ambientalmente sustentável e economicamente viável do ponto de vista<br />

social e que favorecem a constituição de uma consciência ambiental por parte dos agricultores.<br />

Para Scherer-Warren (2005:99), porém “não existe uma consciência ecológica mais<br />

abrangente entre as populações rurais. Ela apenas aparece quando é diretamente relevante para<br />

as condições de sobrevivência do próprio grupo”.<br />

Neste sentido, continua a autora:<br />

Entre as populações rurais, quando a luta pela sobrevivência se expressa na luta<br />

contra a expropriação do próprio habitat, da terra, e outros meios de produção;<br />

contra ameaça à identidade cultural e comunitária, esta luta vem acompanhada da<br />

necessidade de preservação do meio ambiente e surge a possibilidade histórica<br />

de ecologização de seus movimentos. As populações a serem atingidas por<br />

barragens (camponeses, ribeirinhos e indígenas) vêem-se ameaçadas de perder a<br />

terra, seu principal meio de produção e garantia de sua sobrevivência. Os


seringueiros (posseiros e índios), quando lutam contra a derrubada da floresta<br />

pelos pecuaristas e madeireiros e os ribeirinhos quando, se manifestam contra a<br />

poluição dos rios provocada por mineradoras ou agroindústrias estão defendendo<br />

seus meios de produção, sua fonte de vida. Porém cada vez mais tem consciência<br />

de que ao defender a floresta e o rio, estão também defendendo as fontes de vida<br />

planetária (2005:102).<br />

Essa consciência das populações rurais vem reforçada por outro lado, por um movimento<br />

de valorização dos espaços rurais, sobretudo a partir da disseminação de experiências de<br />

assentamentos de reforma agrária que permitem aos pequenos agricultores o acesso a terra e a<br />

um lugar para morar e produzir. Dessa vitalidade do ambiente rural, representada pela<br />

possibilidade de trabalhadores rurais converterem-se em pequenos agricultores, também emerge<br />

um espaço de atores coletivos onde a paisagem é dinamizada pela presença de diversos grupos<br />

sociais, do fortalecimento do comércio e da presença do Estado através de órgãos de assistência<br />

e da fiscalização ambiental. Isso ocorre naquele rural muito mais próximo de cidades em que<br />

novos atores passam a compor a cena, sejam oriundos das populações urbanas que se utilizam<br />

deste espaço para lazer, seja de outros profissionais que se inserem nos espaços produtivos do<br />

campo.<br />

No bojo da vitalidade e dinamismo de muitas áreas rurais “os conflitos refletem o confronto<br />

entre concepções distintas a respeito do que é o rural e dos usos que podem ser dados aos<br />

espaços rurais” (WANDERLEY, 2000:99). Neste sentido, o Estado enquanto canalizador de<br />

políticas púbicas, também surge como um desses atores e pode, ao mesmo tempo, atuar na<br />

melhoria desses espaços ou, ao ainda, através dessas mesmas políticas, promover a depreciação<br />

desse território quando aloca aparelhos públicos ( a exemplo de aterros sanitários, lixões e<br />

penitenciárias) nas proximidades de comunidades rurais. Como veremos a seguir, a possibilidade<br />

de ver o lugar onde vivem se tornar uma zona de sacrifício 1 e ameaçado por impactos indesejados<br />

que põem em risco as amenidades rurais da localidade, fez com que um grupo de assentados<br />

procurasse denunciar os riscos ambientais que a construção e operação do aterro sanitário de<br />

Igarassu (PE) trouxeram.<br />

2. A história do Assentamento Ubu e a formação de uma consciência<br />

ambiental entre agricultores<br />

O Engenho Ubu é um dos inúmeros casos de engenho de açúcar que se apresentava<br />

improdutivo, no início da década de 1990, no estado de Pernambuco. A falência do<br />

1 Zona de sacrifício é uma expressão utilizada pelo Movimento de Justiça Ambiental pra designar áreas onde empreendimentos privados e<br />

aparelhos públicos se localizam provocando danos e riscos ambientais as populações próximas. Nos critérios de alocação desses empreendimentos<br />

compreendem-se os territórios de populações pobres.


empreendimento se deu em decorrência da disputa interna pela direção da empresa entre irmãos,<br />

e da crise do setor sucroalcooleiro. Nele funcionavam uma destilaria e uma fábrica de tapetes que<br />

empregavam trabalhadores da lavoura, no cultivo da cana, e outros profissionais, como pedreiros,<br />

eletricistas, almoxarifes e trabalhadores especializados na fabricação dos tapetes.<br />

Figura 1 – Mapa de localização do conflito no estado de Pernambuco.<br />

Fonte: Torres e Filho (2006:353).<br />

Situado em uma região privilegiada do ponto de vista de sua localização (entre terras da<br />

zona da Mata Norte (Goiana, Itaquitinga) e a Região Metropolitana de Recife (Igarassu e<br />

Itapissuma), é cortado pela Br 101 Norte, apresentando excelentes condições para o<br />

desenvolvimento de atividades agrícolas, conforme o diagnóstico socioambiental da CPRH, ao<br />

observar que:<br />

Local do conflito<br />

(Igarassu/Goiana)<br />

Com exceção dos assentamentos Santo Antônio do Norte, Pituaçu, Fazenda Boa<br />

Vista, Engenho Ubu e Sítio Inhamã, onde existe relativa abundância de água<br />

durante todo o ano, nos demais, a falta desse recurso, sobretudo na estação seca,<br />

constitui forte limitação à atividade agropecuária (CPRH, 2003:118).<br />

A luta pelas terras ocorreu, no início do ano de 1994, quando trabalhadores rurais e<br />

agricultores advindos de outros assentamentos, como Pitanga I e II, (em Paulista e Abreu e Lima<br />

– PE) que já se demonstravam insuficientes para as necessidades das famílias que ali viviam, em<br />

razão do estrangulamento das terras para além de sua capacidade econômica, organizaram-se


para realizar um acampamento no Engenho Ubu, determinando a continuidade da luta pela terra<br />

para os filhos desses agricultores.<br />

Dessa forma, o acampamento que deu origem ao assentamento Ubu iniciou-se nos<br />

primeiros meses do ano de 1994, com reuniões promovidas pelo sindicato de trabalhadores rurais<br />

de Igarassu e da CPT (Comissão Pastoral da Terra). Anteriormente a estes momentos já haviam<br />

ocorrido palestras promovidas por estas instituições com a finalidade de discutir a situação local<br />

de desemprego provocada pela crise do setor açucareiro, assim como para arregimentar pessoas<br />

interessadas em participar de invasões de terra.<br />

Segundo o senhor Pedro, 68 anos, uma das lideranças dos assentados, que está ali desde<br />

os primeiros momentos de ocupação:<br />

[...] a gente conseguiu arrebanhar pessoas que nós mesclamo que vinham de<br />

vários lugares pra não ficar uma coisa central, somente de um canto. Grande parte<br />

daqui foi uma desova lá de Pitanga um, dois e três, que lá já tava imprensado pra<br />

os parceleiro e seus filhos né?, que vão casando e vão ficando, né?, então<br />

enxameou pra cá. Feito o sistema da abelha, né?, quando, entendeu? Aí<br />

enxameou pra cá e a gente tamos aqui, a gente se deu ao luxo de se assinar com<br />

todos os povos que vieram de todos os lugares, tem de tudo quanto é região. É<br />

uma concentração de várias experiências [...].<br />

Como presidente do sindicato de trabalhadores rurais de Igarassu, na época, o senhor<br />

Pedro, hoje também um dos assentados, lembra que as primeiras reuniões que foram realizadas<br />

objetivam sensibilizar os trabalhadores e desempregados da região quanto à situação em que se<br />

encontravam as usinas e engenhos da Mata Norte, devido ao fechamento de algumas e à crise<br />

pela qual atravessam outras. Ele resume a finalidade das reuniões exortando: “Nois procurava um<br />

lugar pra ocupar”.<br />

Na escolha da localidade para realizar o acampamento, o mesmo ressalta que:<br />

[...] a tendência do pessoal era acampar nas matas que ainda resta, né?,<br />

chamada Mata do Ronca, né?, lá nas Matas do Ronca. E a gente viu que não ia<br />

ter sucesso porque hoje ninguém pode mexer numa mata porque vamos ferir<br />

a natureza [...] aí a gente pediu que o pessoal formasse uma comissão e tal, aí a<br />

gente começou a ver isso aqui, por isso o assentamento se chama Engenho Ubu.<br />

A gente viu que tinha mais de 80% de sua área improdutiva, a usina tava falida faz<br />

10 anos, isso aqui era uma destilaria que fazia aguardente, aí a gente trouxe o<br />

pessoal, tiramos uma comissão e fomos à FETAPE e mostramos ao pessoal que o<br />

lugar não era lá, porque as mata, ninguém pode tocar, que é uma coisa intocável<br />

mó da questão da natureza hoje, que as matas têm que ser respeitada, e aqui,<br />

apesar de já ser uma área já toda desmatada, né?, por conta da cana de açúcar,<br />

aí a gente trouxe pra cá. Um pessoal entendeu que o lugar era aqui, mas ainda<br />

tem gente que acha que o lugar é nas matas porque vai ganhar dinheiro mais fácil,<br />

né?


A partir disso, a história deste assentamento compreendeu um circuito de acontecimentos<br />

que unificaram a pressão pela reforma agrária a incorporação de uma agenda ambiental, a partir<br />

da preservação dos recursos naturais e da produção de alimentos orgânicos. A confluência entre<br />

esses elementos permitirá que no desenvolvimento das experiências vividas pelos assentados, a<br />

questão ambiental não passe despercebida. Assim, por exemplo, na história do assentamento<br />

registra-se uma denúncia, feita pelos próprios assentados, aos órgãos de fiscalização ambiental e<br />

ao INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) sobre a venda de areia realizada<br />

por alguns parceleiros e que teria provocado sérias erosões dentro do assentamento, assunto que<br />

trataremos mais adiante.<br />

Tais fatos, de certo modo, pronunciam uma consciência ou preocupação ambiental por<br />

parte, principalmente, das lideranças do assentamento que permitiram a estas buscar enfrentar,<br />

posteriormente, as ameaças que o aterro sanitário representará para as suas vidas.<br />

A incorporação da preocupação ambiental nos discursos das lideranças sindicais é parte<br />

constitutiva desse processo, começa a ser materializada em muitas experiências de invasão de<br />

terras que se efetuaram a partir de então e tenderam a ter um significado importante na trajetória<br />

do assentamento aqui estudado.<br />

Essa referência às preocupações com o meio ambiente é uma constante na história do<br />

assentamento, tornando-se, portanto, um diferencial quando observamos a trajetória de outras<br />

formas de ocupações de terra tanto na Mata Norte quanto na Mata Sul do estado. Na<br />

especificidade do Assentamento Engenho Ubu, essa dimensão da questão ambiental se<br />

manifestou em diversos momentos de sua história, iniciando pela não ocupação da Mata do<br />

Ronca ( nas proximidades da antiga fábrica de tecidos paulista), na identificação de parceleiros<br />

que vendiam areia e na reação à construção e ao funcionamento do aterro sanitário de Igarassu.<br />

Se comparada à experiência de ocupação desenvolvida pelas famílias de Pitanga,<br />

verificaremos, por parte dos agricultores de Ubu, fortes vínculos com o debate sobre as questões<br />

ambientais. Uma hipótese inicial, que pode ser considerada neste fato, é que no Brasil a questão<br />

ambiental recebe maior visibilidade, tanto da sociedade em geral como dos movimentos sociais, a<br />

partir da Rio-92, o que permitiu, portanto, que suas questões fossem gradualmente sendo<br />

incorporadas aos discursos e demandas desses movimentos, de forma que, no período em que os<br />

assentados de Pitanga se organizaram, este tema, por mais que tenha recebido atenção do<br />

movimento ambientalista, ainda era um tanto periférico no movimento de trabalhadores rurais de<br />

Pernambuco.


3. A chegada do “Bicho” e a constituição de um conflito socioambiental<br />

Em 2005, a comunidade de assentados do Engenho Ubu, localizada entre os municípios<br />

da Zona da Mata Norte (Goiana e Taquitinga) e a Região Metropolitana do Recife (Itapissuma e<br />

Igarassu), em Pernambuco, foi surpreendida com a construção irregular de um aterro sanitário,<br />

que não possuía licenciamento ambiental (CPRH, 2007), nas proximidades do rio Arataca. A luta<br />

pela terra, que se pensava ter sido finalizada, cruza-se agora com a luta contra “o bicho” – termo<br />

utilizado pelos assentados do Engenho Ubu para se referirem ao aterro sanitário construído nas<br />

proximidades do assentamento.<br />

O acontecimento mobilizou parte dos assentados, principalmente aqueles situados em<br />

áreas mais próximas ao empreendimento, de forma que se iniciou um processo de denúncia das<br />

irregularidades encontradas com a construção do aterro (falta de licença para a construção).<br />

Apesar de a empresa ter sido notificada pela CPRH (Agência Estadual de Meio Ambiente e<br />

Recursos Hídricos), por não possuir licenciamento ambiental, as atividades mantiveram sua<br />

continuidade e, dias após, foi emitida, pelo mesmo órgão, a documentação liberando tal licença.<br />

A partir daí, a mobilização dos assentados buscava impedir a continuidade da construção<br />

do aterro sanitário apelando tanto para a sensibilização da opinião pública quanto para a justiça e<br />

órgãos de fiscalização ambiental, alegando que o funcionamento do aterro traria sérios prejuízos à<br />

comunidade, sobretudo porque afetaria as águas do rio Arataca, que é um importante recurso<br />

hídrico para a região e para a prática agrícola e da pesca desenvolvida no assentamento.<br />

Em 20 de dezembro de 2005, foi realizada uma audiência pública para discutir o EIA/RIMA<br />

(Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental), garantindo-se à população que,<br />

“de acordo com o projeto, a área de 85,31 hectares destinada ao aterro - e localizada nas terras<br />

da Usina São José - fica a 2 km de distância do rio e não há risco de contaminação 2 ”. Todavia, tal<br />

garantia, expressa nos documentos técnicos, não foi suficiente para evitar que, nas primeiras<br />

semanas de funcionamento do aterro, segundo os assentados, uma de suas células<br />

transbordasse e afetasse o rio.<br />

Com esse fato, a desconfiança na avaliação e nos pareceres técnicos passa a ser cada<br />

vez mais uma constante de maneira a imprimir sua marca no conflito socioambiental então<br />

instaurado. Atrelado a isso, a ausência de informações precisas, quanto ao que seria construído<br />

no local, e, a falta de diálogo tanto da empresa quanto dos órgãos fiscalizadores para com os<br />

assentados favoreceu a constituição de um contexto de desconfiança por parte dos agricultores<br />

que questionam a viabilidade da obra pelos riscos ambientais que ela promoverá ao rio Arataca.<br />

2 Jornal do CPRH, dez 2005.


Nesta conjuntura, dois tipos de discurso vão se construindo no conflito, de um lado, aquele<br />

que apregoa a necessidade do empreendimento para a região enquanto resposta aos problemas<br />

ambientais gerados pela ausência de espaços qualificados para destinar o lixo e, de outro, o que<br />

denuncia os riscos ambientais da instalação do aterro sanitário nas proximidades do rio Arataca.<br />

Observamos assim que no confronto de saberes o conflito que começa a se estabelecer na<br />

região entre leigos e peritos expõe, de um lado, o saber técnico sobre a segurança do<br />

empreendimento que busca viabilizá-lo construindo um discurso de inferência de um reduzido<br />

impacto ambiental, do uso de tecnologia de ponta que garante o controle sobre as atividades<br />

realizadas, a adequação da comunidade aos incômodos formados pela necessidade de gerir a<br />

destinação final do lixo de forma eficiente, as possibilidades de geração de emprego, aumento da<br />

receita para o município, etc. e, de outro, o inconformismo dos agricultores em não aceitarem ver<br />

seu território desconfigurado pela presença de um empreendimento que tende a provocar um<br />

sentimento de mal-estar entre os moradores pela dispersão de odores, do comprometimento da<br />

vida do rio, pela alteração dos hábitos da comunidade e pela ameaça as amenidades 3 rurais<br />

existentes no assentamento que favoreciam a qualidade de vida dos seus moradores.<br />

4. Um apelo à natureza: o esvaziamento da dimensão social na luta entre<br />

assentados rurais e o aterro sanitário de Igarassu<br />

As primeiras ações efetivas contrárias a instalação do aterro nas proximidades do rio<br />

Arataca ocorreram após a audiência pública, de 20 de dezembro de 2005, para discutir o<br />

EIA/RIMA. Embora as ações promovidas não envolvessem, inicialmente, medidas de<br />

enfrentamento entre os assentados e os responsáveis pelo aterro, elas buscavam sumariamente<br />

coletar informações que pudessem, primeiro, esclarecer quanto ao que na verdade estava sendo<br />

construído.<br />

A mobilização social dos agricultores contra o empreendimento alcançou os espaços<br />

públicos, com a participação em audiências públicas e reuniões (no Centro Mariápolis, em<br />

Igarassu, em finais de dezembro de 2005, nas audiências realizadas na Assembleia Legislativa do<br />

Estado (03), na Secretaria de Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente – SECTMA (01), na CPRH<br />

(Agência Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos) (02), no IBAMA (Instituto Brasileiro do<br />

Meio Ambiente) (01)).<br />

3 Nas proximidades do aterro existe uma estação elevatória que capta água de uma barragem no rio Arataca, construída pela<br />

COMPESA (Companhia Pernambucana de Saneamento). O local era utilizado pelos moradores e visitantes como um espaço de lazer<br />

que também era explorado por algumas pessoas como fonte de renda, com a venda de bebidas e tira-gosto para os visitantes. Com o<br />

anúncio do funcionamento do aterro e o perigo de contaminação das águas do rio Arataca, tal espaço deixou de ser frequentado pela<br />

população.


Gradativamente, a estratégia de buscar no plano do discurso (estratégia argumentativa) a<br />

desinstalação do aterro foi cedendo espaço às ações que se pautaram pelo plano de<br />

enfrentamento direto, ações, através das quais se pudessem dar maior visibilidade ao problema. É<br />

desse modo, que várias atividades começaram a ser realizadas em paralelo as formas anteriores<br />

de luta. Assim, alguns atos de repercussão pública foram desenvolvidos, e o primeiro ocorreu em<br />

07 de abril de 2006, com a paralisação da Br 101 Norte por duas vezes. Nela, participantes do<br />

movimento enfrentam pela primeira vez a polícia de forma a reconstruírem-se muitas das cenas<br />

do processo de ocupação da terra.<br />

Mesmo com o ato de coação da polícia, o movimento intitulado “Salve as águas do Rio<br />

Arataca” mantém de pé as ações, solicitando apoio de entidades e o posicionamento de órgãos<br />

públicos e da mídia quanto aos problemas por eles enfrentados. Encaminham-se, em 27 de abril<br />

de 2006, abaixo-assinados e material denunciando o aterro a vários setores da sociedade.<br />

Um outro ato de enfrentamento foi o fechamento da chave de distribuição de água da<br />

adutora do rio Arataca, interligada ao Sistema Botafogo, responsável pelo abastecimento dos<br />

municípios de Olinda, Paulista e Abreu e Lima, em 11 de outubro de 2007. No caso deste ato, os<br />

agricultores buscavam alertar a população e pedir providências da COMPESA (Companhia<br />

Pernambucana de Saneamento) para que se posicionasse contrária a instalação do aterro, tendo<br />

em vista que a adutora, que se encontra nas terras do assentamento, está também próxima ao<br />

aterro, embora a uma distância maior do que um dos mananciais do rio que se localiza<br />

relativamente próximo (50 metros) dele.<br />

No mesmo ano, em 13 de dezembro, os agricultores protestaram em frente à Assembleia<br />

Legislativa de Pernambuco (ALEPE) outras ações foram desenvolvidas posteriormente como:<br />

distribuição de panfletos, realização de reuniões com a comunidade do assentamento, teatros e<br />

um cortejo simbólico representando a morte do rio Arataca, também dentro da comunidade.<br />

No tocante às estratégias argumentativas além da participação nas audiências públicas e<br />

reuniões, foi encaminhada à justiça, na Vara Civil da Comarca de Igarassu, (PE) uma ação<br />

popular solicitando a desativação do aterro por meio de um processo que aguarda julgamento<br />

desde 19 de dezembro de 2007. Além disso, também foi encaminhada à Procuradoria Geral da<br />

República solicitação de areviguação de responsabilidades civis, criminais e administrativas,<br />

assim como, foi realizada denúncia à OEA (Organização dos Estados Americanos); divulgação de<br />

notícias sobre o movimento com a criação de um grupo de discussão na internet 4 ; a edição de um<br />

vídeo com fotos da localidade e depoimentos da comunidade e lideranças locais.<br />

Outro momento importante da mobilização dos assentados ocorreu entre os dias 25, 26 e<br />

27 de abril de 2008, quando, na parcela de Severino Raimundo, 49 anos, foi realizada uma<br />

4 A página pode ser acessada no seguinte endereço: http://groups.google.com/group/salvemasaguas


jornada de estudo específico sobre o aterro e formas de solidariedade entre a Escola de<br />

Educadores Sociais do Recife (ONG), a Associação de Moradores e Produtores Rurais do Ubu e<br />

o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Goiana. Foi por ocasião desta jornada que se realizou um<br />

cortejo fúnebre em protesto contra o aterro, percorrendo toda a vila do engenho onde residem os<br />

antigos moradores (“os de dentro”).<br />

O ato que buscou sensibilizar “os de dentro” evidenciou o quanto a percepção de risco e<br />

perigo pode ser relativizada dentro do próprio grupo e confirma a contribuição que a literatura<br />

sobre risco tem trazido, ou seja, a percepção de risco é terminantemente influenciada pela<br />

trajetória dos indivíduos e grupos, por suas experiências e visões de mundo. Fato este que tem<br />

implicação na pouca participação desses sujeitos (antigos moradores do engenho) no processo de<br />

luta e mobilização quanto ao aterro, na passividade, no silenciamento e na facilidade de<br />

aliciamento dos moradores pela gestão do empreendimento.<br />

Ainda em abril de 2008, o lixão e o aterro de Igarassu foram visitados, a pedido dos<br />

agricultores, por um representante do Ministério Público Estadual (André Silvane), juntamente com<br />

a promotora de Igarassu. Na ocasião da visita se fizeram-se presentes representantes da<br />

comunidade e da SERQUIP – Serviço, Construções e Equipamentos LTDA - (uma das<br />

consorciadas do aterro). Ao final desta visita, os agricultores, que esperavam uma posição<br />

favorável do poder público, ouviram do promotor o aconselhamento a conviver com o aterro,<br />

registrar e encaminhar para o Ministério Público os problemas que viessem a ser causados pelo<br />

empreendimento.<br />

Apesar de toda a mobilização feita contra a construção e instalação do aterro sanitário nas<br />

proximidades do rio, em 18 de abril de 2008, este começa a funcionar, recebendo o lixo de parte<br />

de cidades da região da Mata Norte.<br />

Registram-se ainda, em 2008, a entrega de uma cópia da ação popular ao então<br />

presidente da República, Luiz Inácio da Silva, por ocasião de uma das suas passagens por<br />

Pernambuco.<br />

O desenrolar dos fatos em relação ao aterro com a morosidade da justiça, o favorecimento<br />

dos órgãos de fiscalização ambiental ao empreendimento e o posicionamento favorável do poder<br />

público e de seus representantes, começou a alimentar a descrença dos agricultores tanto nestas<br />

instituições quanto nas ações mobilizatórias ancoradas apenas na legalidade e no discurso de<br />

convencimento.<br />

Se o desencadeamento inicial das ações movidas pelos agricultores contra o aterro<br />

sanitário voltou-se apenas para a preocupação com a contaminação do rio, estes vão percebendo<br />

paulatinamente que, mesmo que este recurso hídrico não seja contaminado, a localização do<br />

aterro permanece como um indicativo de que a qualidade de vida do assentamento estaria sendo<br />

aos poucos comprometida.


A opção de não focar o problema no fato de que os agricultores seriam afetados, mas sim<br />

o rio, está, portanto, relacionada ao entendimento de que o apelo ao social seria insuficiente e de<br />

que só surtiriam efeitos práticas de mobilização que estivessem incorporando a dimensão<br />

ambiental do problema para dar-lhe legitimidade. Daí porque, tornar a questão ambiental em um<br />

problema político seria o percurso mais lógico, pois traria maior poder de sensibilização do que<br />

partir da questão social e pensar em segundo plano sua dimensão ambiental.<br />

Tal posição explicita uma tendência de algumas práticas de luta ambiental em que, embora<br />

o pano de fundo esteja centrado em problemas sociais, a desvalorização e a posição social de um<br />

grupo, podem não ser a estratégia política mais correta quando se tem em vista o<br />

entrecruzamento dessas duas dimensões: o social e o ambiental. Em que pese esta consideração<br />

quando uma minoria étnica, uma população pobre ou um grupo socialmente desprovido do poder<br />

de ser ouvido pelo poder público se vê ameaçada por práticas de grupos privilegiados, interesses<br />

econômicos ou políticas governamentais desenvolvimentistas, estes optam por não evidenciar a<br />

sua vulnerabilidade social, ou a ampliação desta como consequência de tais práticas, mas a<br />

degradação ambiental, a extinção de alguma espécie exótica ou a exaustão de um recurso<br />

natural. Essa lógica se fundamenta na ideia de que, enquanto estes grupos estiverem advogando<br />

a defesa de um modo de vida, eles serão pouco ouvidos, mas, quando estes fazem apologia à<br />

natureza, um outro valor é reconhecido e dado à sua causa.<br />

Desse modo, ao que parece, em algumas situações, esses grupos percebem que,<br />

enquanto se mantiverem discursando como seringueiros, indígenas, camponeses ou<br />

trabalhadores, não serão ouvidos; porém, quando estes assumem em seu discurso a defesa da<br />

mata, das águas, enfim, se declaram defensores da natureza, eles têm maior probabilidade de se<br />

fazerem ouvir.<br />

No caso específico dos agricultores do Assentamento do Engenho Ubu, essa atitude faz<br />

com que, ao mesmo tempo em que são desviados do estigma social de baderneiros e invasores,<br />

por terem sido “sem terra” e acampados, se permita a construção da imagem de ambientalistas e<br />

defensores do meio ambiente. Dessa forma, uma recepção maior da sociedade pode ser<br />

associada a essa causa se comparada, por exemplo, à luta pela terra.<br />

Pode ser por isso que a reforma agrária, por sua vez, tenha sido apontada, por brasileiros,<br />

segundo pesquisa de opinião realizada em 2006 pelo ISER (Instituto de Estudos da Religião)<br />

(CRESPO, 2006), como um dos principais problemas do país, estando, por outro lado, as<br />

preocupações com o meio ambiente numa posição acima deste problema, conforme indica a<br />

mesma pesquisa. Uma suposição inicial sobre isso pode estar associada ao fato de a natureza e<br />

seus recursos serem considerados bens difusos enquanto a luta pela terra significaria uma<br />

bandeira específica de luta relacionada, portanto, a um único segmento social que seriam os<br />

trabalhadores rurais sem terra ou agricultores.


Desse modo, os agricultores referiam-se ao aterro enquanto um mal em virtude de sua<br />

localização. A posição, portanto, em que o aterro se situa é vista, em primeiro plano, como<br />

negativa pelos danos que podem ser causados ao rio Arataca, em virtude da proximidade daquele<br />

em relação à sua margem, em determinados trechos, e é expressa de maneira reativa e<br />

secundária, pela mesma proximidade em relação ao assentamento. Tal fato exprime que a<br />

mobilização dos assentados busca evocar muito mais um discurso ambiental que<br />

necessariamente social para denunciar os males por eles identificados. Para Leite Lopes (2006),<br />

“Tanto trabalhadores quanto partes das populações atingidas por danos ambientais passam a<br />

utilizar-se também da questão ambiental como repertório de seus interesses e reivindicações”<br />

(p.32). É nesse sentido que a defesa da natureza aparece no repertório discursivo dos assentados<br />

como elemento mais expressivo de sua reivindicação do que mesmo as repercussões imediatas<br />

no campo social dos efeitos do aterro sobre suas vidas.<br />

Não se opera, necessariamente, nessa reflexão a dissociação entre homem e natureza,<br />

mas se observa que, embora os riscos e possíveis danos, que futuramente as atividades ali<br />

desenvolvidas possam acarretar àquele recurso natural, não estejam comprovados tecnicamente,<br />

ainda assim a sensibilização política se centra na natureza degradada e não no grupo que se vê<br />

vitimizado por aquele licenciamento.<br />

Na verdade, as lideranças reconhecem que o aterro é um empreendimento bem vindo,<br />

pela necessidade que a sociedade tem de destinar o produto final de seu consumo que, em geral,<br />

são os resíduos desse processo. O gargalo se encontra na escolha do local onde ele fora<br />

construído e no desenvolvimento das ações que foram ali projetadas, a exemplo da ausência de<br />

informações fidedignas a serem repassadas à comunidade, da consulta e participação dela<br />

quanto à escolha daquela localidade e dos riscos e incômodos em potencial a que poderiam estar<br />

submetidos por ocasião do pleno funcionamento do aterro.<br />

Por fim, a história da luta contra o aterro de Igarassu é marcada por três momentos. O<br />

primeiro corresponde à fase inicial (período que vai de meados de 2005 a novembro de 2008) em<br />

que ocorre uma desnaturalização do risco (LEITE LOPES et. al. 2004) através das observações<br />

feitas pelos assentados. Nela, ocorrem as primeiras mobilizações dos agricultores que vão do<br />

questionamento da escolha do local de instalação junto aos órgãos estaduais e federais de meio<br />

ambiente até as estratégias de mobilizações mais radicais, como a paralisação da Br 101 Norte,<br />

no sentido Recife/Goiana(PE), e o fechamento da chave de distribuição d’água da Adutora do rio<br />

Arataca para o Sistema Botafogo. As dificuldades encontradas nesse percurso serviram de mola<br />

para a desmotivação do grupo quanto ao enfrentamento do aterro.<br />

A desmotivação anunciada anteriormente delimitará um período de tempo em que a<br />

problemática do aterro ficará latente, dando-se início a uma segunda fase – A latência do conflito<br />

(entre o final de 2008 e julho de 2009). Nela, a questão do aterro sanitário não será pauta de


discussão em reuniões das associações, não ocorrerão novos enfrentamentos, tampouco<br />

surgiram novos atores interessados em promover o debate ou polemizar publicamente sobre o<br />

assunto.<br />

A característica principal desse momento está relacionada a um silenciamento<br />

generalizado tanto por parte dos agricultores quanto por parte das demais instituições e pessoas<br />

que haviam proferido intenções e ações de solidariedade e apoio ao movimento dos assentados<br />

do Engenho Ubu. Apesar da alusão a esta fase de silenciamento, internamente as lideranças<br />

serão algumas vezes questionadas quanto aos encaminhamentos das estratégias e ao porquê de<br />

tudo estar tão inerte.<br />

Essa segunda fase do conflito é consequência da desmotivação e descrença dos<br />

assentados em relação à possibilidade de desativação e transferência do aterro para outra área,<br />

mas também se relaciona com a dificuldade que as lideranças encontram para envolver os antigos<br />

moradores na luta. A fase de latência tem um tempo de existência relativamente curto, pois, em<br />

julho de 2009, com o aumento do fluxo do lixo originado do Recife (PE), em consequência do<br />

fechamento do lixão da Muribeca, em Jaboatão dos Guararapes (PE), para o aterro, a dispersão<br />

do mau cheiro se intensifica. Ao final deste período, nas primeiras semanas do mês de agosto de<br />

2009, começa a terceira fase (Período de restauração) do conflito, dessa vez motivado pela<br />

resistência que acontecerá por parte dos vereadores de Igarassu à chegada do lixo de Recife.<br />

O desenvolvimento do conflito demonstra que as relações de poder têm sido marcadas por<br />

uma assimetria que conflui para a determinação de manifestações de injustiça ambiental. Estas,<br />

por sua vez, são aspectos que orientam a lógica de tal conflito quando se avaliam, inicialmente, os<br />

critérios de escolha da localização do empreendimento. Sabedor de que a proximidade de<br />

pequenos núcleos populacionais em que vivem pessoas de baixa renda não serviria de argumento<br />

contra a presença daquele empreendimento, o movimento opta, quase que inconscientemente,<br />

por não apelar para este argumento e sim para a dimensão ambiental do risco ao qual o rio estaria<br />

exposto.<br />

5. Considerações finais<br />

No caso estudado verificamos que a proximidade do aterro sanitário em relação a um<br />

importante recurso hídrico da região (rio Arataca) tem sido denunciado pelos agricultores pela<br />

possibilidade de um risco ambiental ocorrer pela ingerência e pelos limites de proximidades das<br />

atividades do empreendimento para como o rio (50 metros em alguns trechos). Todavia, as<br />

repostas dos especialistas, ao problema, têm sido respaldadas por órgãos ambientais,<br />

argumentando-se que as condições técnicas de controle e mitigações de impactos ambientais<br />

estão previstas, caso algum desastre venha a acontecer.


Considerando que as ações de denúncias dos agricultores têm maior centralidade na<br />

defesa do recurso natural e por consequencia da natureza, o efeito esperado desses pleitos não<br />

tem recebido respaldo dos órgãos ambientais tendo em vista que a percepção do vitimados tem<br />

sido subestimada ou mesmo desqualificada frente aos documentos técnicos apresentados.<br />

A centralidade dos argumentos na defesa do rio Arataca deslocou, possivelmente, um<br />

aspecto pouco explorado pelo Movimento Salve as Águas do Rio Arataca que seria justamente o<br />

fato de que os moradores se sentiriam prejudicados pelos odores que o empreendimento traria e,<br />

consequentemente, pelas doenças respiratórias que, já o percebem algumas famílias, afetam<br />

seus filhos na fase de operação da empresa.<br />

A defesa da natureza expressa na preocupação pela contaminação dos recursos hídricos<br />

da região, externalizada em todo momento deixa, portanto, em segundo plano os aspectos sociais<br />

do problema, promovendo, mais uma vez, o esvaziamento do questionamento dos critérios<br />

político-sociais que definiram a localização do aterro e a consequente vitimização dos assentados.<br />

Observa-se, no entanto que uma outra dimensão, mais imediata, do problema tem sido<br />

pouco problematiza entre os assentados, ou seja, o mal cheiro e as inconveniências de viver<br />

próximo ao um aterro é um argumento pouco explorado pelos agricultores esvaziando assim a<br />

dimensão social do problema e a assunção do conflito a partir de uma prática de injustiça<br />

ambiental.<br />

6. Referências<br />

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23, Nºs 01 e 02, jan.–dez./2004.

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