O ermitão de Muquen - a casa do espiritismo

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O ermitão de Muquen - a casa do espiritismo

íntimo da alma murmurava um adeus talvez eterno, quando ouvimos na

estrada a batida de um animal, e alguns segundos depois um cavaleiro

aparece e pára à porta do rancho.

— Senhores, nos diz ele depois de saudar-nos, se ainda há cômodo

para alguém no rancho, espero que me permitirão fazer-lhes companhia de

pouso por esta noite.

— Com muito gosto; o rancho é de todos os viandantes, e se a sua

comitiva não é muito grande, cremos que não ficará mal acomodada.

Em poucos instantes descarregou-se a pequena bagagem do nosso

novo companheiro de pouso, o qual, como a sua comitiva constava de duas

pessoas, ele e seu camarada, aceitou o convite, que lhe fizemos, de jantar

do nosso caldeirão.

Entre pessoas desconhecidas e que nada têm a se dizerem, de

ordinário a conversação se trava por perguntas. Começamos pois por

perguntar-lhe donde vinha.

— De bem longe, nos respondeu ele; venho da famosa romaria de

Nossa Senhora da Abadia do Muquém na província de Goiás, de que os

senhores decerto hão de ter notícia.

— Por certo, respondi-lhe eu; muito tenho ouvido falar nessa afamada

romaria, e, segundo tenho ouvido dizer, é uma das mais bonitas e

concorridas que temos.

— Sem dúvida alguma. É uma maravilha que é preciso ver-se para

dela formar uma perfeita idéia. Ainda que não seja por devoção, mesmo por

espírito de curiosidade vale a pena fazer-se essa viagem para ver como

aquele lugar completamente desabitado no fundo dos sertões, onde apenas

existe uma capelinha e um casebre sem habitantes, converte-se de repente

em uma cidade cheia de vida, de rumor e movimento, composta de barracas,

toldas, carros-de-bois, e ranchos cobertos de capim. Reúne-se ali todos os

anos, na época da festa, uma população de cerca de dez mil pessoas, que

vêm de distâncias enormes, até do Pará e Rio Grande do Sul, umas por

devoção e para cumprirem promessas, outras para fazerem comércio, pois

que nesses dias aquele lugar torna-se uma feira imensa, onde se compra,

vende-se e permuta-se toda a qualidade de mercadorias. Aí os sertanejos do

norte de Goiás, e das extremas das províncias da Bahia, Pernambuco, Piauí e

Maranhão, vão-se prover de fazendas, quinquilharias, ferragens e vinhos que

compram aos negociantes de Meia Ponte e Goiás que conduzem daquele

ponto essas mercadorias. Os romeiros também vendem aos negociantes

destas duas cidades, e aos de Minas e S. Paulo, grande quantidade de

couros, solas, animais cavalares, redes fabricadas pelos índios, escravos,

ouro em pó e diamantes.

A importância do produto da venda dos donativos feitos pelos romeiros

anda anualmente por 8 a 10 contos, não incluindo-se nessa quantia as

dádivas em dinheiro, que também muito avultam.

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