Carta Aberta ao Presidente da República

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Carta Aberta ao Presidente da República

Roberto de Albuquerque Cezar

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Carta Aberta ao Presidente da República

Ricardo Gondim

Carta Aberta ao Presidente da República

Senhor Luis Inácio Lula da Silva.

São Paulo, 6 de junho de 2005.

Excelentíssimo Senhor,

Permita-me tratar-lhe por você. Não por desrespeito, mas para lembrar-me de suas origens –

comuns a mim e a milhões de outros brasileiros.

Também preciso me apresentar. Sou pastor de uma fraternidade de mais de cem igrejas que

se espalham por vários estados brasileiros; sou nordestino como você e resido em São Paulo.

Meu pai foi preso político na ditadura de 1964.

Militei por sua candidatura para presidente em todas eleições. Como a comunidade

evangélica havia aprendido, na ditadura militar, a manter-se submissa e conformada aos

descalabros do regime, resolvi, contra toda expectativa de meus pares, filiar-me ao Partido

dos Trabalhadores. Sofri alguns preconceitos, mas nunca hesitei em minha decisão.

Precisávamos da coragem de lutar contra a ideologia que tentou nos domesticar por quase

trinta anos.

Desde que o PT recebeu dinheiro dos banqueiros para financiar sua candidatura, desfiliei-me

do partido. Isso aconteceu há mais de seis anos. Senti, na época, que precisava manter-me

livre, para cumprir o meu mandato cristão de ser uma voz profética e denunciar o que

julgasse errado.

Presidente, agora rompo, programática e emocionalmente com seu governo e passo a ser um

ferrenho opositor seu.

Não estou trocando de amores. Alguns maridos abandonam o casamento por se apaixonarem

por outras mulheres. Não cortejo ninguém, pelo contrário, sinto-me só e sem nenhum líder

ou partido que cative meu coração.

Como batalhei por sua eleição e fui um entusiasta de seu governo, sinto que lhe devo

explicações por esse divórcio tão radical.

1. Não rompo por achar suas metáforas tolas e, muitas vezes,

levianas. Estou decepcionado por notar que seu discurso sobre

justiça social foi apenas bravata (você sempre gostou dessa

expressão, que pena). Suas ações para reverter o abismo social

que envergonha nosso país, não passaram de assistencialismos.

Por outro lado, suas iniciativas assistencialistas atolaram na

burocracia, nos interesses dos coronéis regionais, nos labirintos da

corrupção e na incompetência dos seus liderados.


2. Não rompo por discordar de suas alianças com as oligarquias

políticas já encasteladas no poder há anos. Entendo que há

necessidade de se negociar no jogo político. Estou decepcionado

por você ter jogado fora seu capital político. Milhões de eleitores

acreditaram que seu governo traria mudanças estruturais. Mas

você não se esforçou para mudar o DNA social, político e tributário

de minha pátria amada. As filas da previdência ainda são um

pontapé na dignidade dos inválidos, idosos e doentes. As estradas

que deveriam escoar a riqueza nacional continuam destruídas. As

escolas públicas, sucateadas, lembram que nosso futuro é uma

falência adiada. Poucos países convivem com uma carga tributária

tão pesada e com uma contrapartida de tão poucos benefícios.

Nossa igreja trabalha em favelas e sei que o problema da miséria

não se resolverá distribuindo cestas de alimentação. O lucro dos

grandes bancos continua na estratosfera e não há política eficaz de

financiamento da moradia popular – casas se amontoam nos

ribeiros fétidos, nos viadutos e nas periferias urbanas. Não há

política de segurança pública eficaz no seu governo. Os brasileiros

vivem assustados com os seqüestros, tiroteios, furtos, roubos e

corrupção das polícias.

3. Não rompo por considerá-lo desonesto. Porém, estou alarmado

com a atitude de seu governo em manter a cabeça enterrada na

areia. Em nome da governabilidade, você e seus assessores de

confiança se esforçam em alianças com políticos da pior espécie,

para abafar o pedido generalizado de que se estanque a

hemorragia da corrupção. Tanto eu como outros milhões de

admiradores seus, esperávamos mais dignidade ética, mais

transparência política e atitudes mais corajosas para que o “custo

Brasil” não seja ainda mais onerado pela propina . Lula, você vem

agindo exatamente igual a todos os outros que lhe antecederam e

não foi para isso que eu e milhões de brasileiros lhe elegemos.

Diante desses poucos argumentos, que me são muito caros, precisava dizer-lhe, antes de

tornar notório, que não tenho mais confiança em seu governo nem no seu partido.

Sinceramente,

Ricardo Gondim.

São Paulo - São Paulo.

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