VJ OUT 06 - Visão Judaica

visaojudaica.com.br

VJ OUT 06 - Visão Judaica

2

editorial

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Publicação mensal independente da

EMPRESA JORNALÍSTICA VISÃO

JUDAICA LTDA.

Redação, Administração e Publicidade

visaojudaica@visaojudaica.com.br

Curitiba PR Brasil

Fone/fax: 55 41 3018-8018

Dir. de Operações e Marketing

SHEILLA FIGLARZ

Dir. Administrativa e Financeira

HANA KLEINER

Diretor de Redação

SZYJA B. LORBER

Publicidade

DEBORAH FIGLARZ

Arte e Diagramação

SONIA OLESKOVICZ

Webmaster

RAFFAEL FIGLARZ

Colaboram nesta edição:

Ali Kamel, Aristide Brodeschi, Breno

Lerner, Celso Lafer, Charles

Krauthamer, Daniel Benjamin Barenbein,

Dominic Lawson, E. Casanova, Edda

Bergmann, Edgard Leite Castro, Jane

Bichmacher de Glasman, Jeff Jacoby,

João Pereira Coutinho, Joseph Farah,

Marcos Aguinis, Moisés Bronfman,

Nahum Sirotsky, Paula R. Stern, Pilar

Rahola, Ralf Dahrendorf, Roberto

Musatti, Sérgio Feldman e Yossi

Groisseoign

O jornal Visão Judaica não tem responsabilidade

sobre o conteúdo dos artigos, notas, opiniões ou

comentários publicados, sejam de terceiros

(mencionando a fonte) ou próprias e assinadas

pelos autores. O fato de publicá-los não indica

que o VJ esteja de acordo com alguns dos

conceitos ou dos temas.

www.visaojudaica.com.br

Este jornal é um veículo independente

da Comunidade Israelita do Paraná

A fetidez da cloaca anti-semita invade a política

ão é a primeira vez que isso

acontece. Aqui no Paraná, em

eleições passadas, a cloaca dos

anti-semitas já foi aberta algumas

vezes para deixar exalar

a sórdida fetidez do caráter de seus

proprietários, e exibir a público, de

maneira extravagante, mas criminosa,

o racismo de que se alimentam e

depois defecam para todos os lados,

agora usando os modernos meios de

informação, como a internet. O caso

mais recente — e que ainda cheira

muito mal — ocorreu no dia do primeiro

turno das eleições, 1º de outubro,

a poucas horas do início do

Iom Kipur, o dia mais santificado do

povo judeu. Uma página eletrônica

da rede mundial, produzida aqui em

Curitiba, pretensamente de “notícias

políticas” e, serviçal, ao que tudo

indica, de um poderoso senhorio

com interesses eleitorais, publicou

um trecho do infame “Protocolos dos

Sábios de Sião”.

Objetivos? Atacar

a campanha

Nossa capa

do senador Osmar Dias, que surpreendeu

pelo seu desempenho e foi

para o segundo turno das eleições,

atemorizando seus adversários. E

ofender os judeus como um todo

porque o ex-governador Jaime Lerner

apóia o senador, e dois outros

membros da comunidade — Gerson

Guelmann e Cila Schulman, especialistas

em campanhas — trabalham

com Osmar Dias.

Osmar Dias é candidato do PDT,

em coligação com o PSB, partido

ao qual o Jaime Lerner é filiado. As

primeiras pesquisas davam desvantagem

ao senador no 1º turno, o

que, efetivamente, acabou não

acontecendo. As oposições fizeram

mais de 57% e, no 2º turno, as

chances aumentam para Osmar.

Como diz Gerson Guelmann, “infelizmente

o Paraná tem uma triste

tradição de dar abrigo a uma escumalha

de há muito catalogada nos

manuais da psicopatologia. De tempos

em tempos sofremos ataques e

somos vítimas de manifestações de

ódio, muito freqüentemente dissimulados

em críticas ou manifestações

de ordem política, exatamente

em razão da projeção de membros da

comunidade local, da qual o Jaime

Lerner é um dos expoentes”.

A cloaca de plantão tem nome e

é “Gazeta de Novo” — uma espécie

de contrafação que tenta ganhar

carona no título do jornal de maior

circulação no Paraná. E o dono dessa

fossa de imundícies na internet

ainda teve a desfaçatez de assinar

seu nome embaixo: Guilhobel Aurélio

Camargo. O material anti-semita

ficou no ar até a noite do dia 5 de

outubro quando foi retirado, talvez

em razão da queixa-crime formulada

na Polícia Federal ou em função das

medidas tomadas junto à Justiça.

Para quem desconhece, os “Protocolos”

é um “livro” apócrifo comprovadamente

falso, escrito na Rússia czarista,

que reúne mentiras medievais

e toda a sorte de calúnias contra o

povo judeu que a maldade humana

foi capaz de engendrar com o único

A capa reproduz a obra de arte cujo título é “Título; “A benção de Sucot”, elaborada com

a técnica óleo sobre tela com dimensões de 60 X 80 cm, criação de Aristide Brodeschi. O

autor nasceu em Bucareste, Romênia, é arquiteto e artista plástico, e vive em Curitiba desde

1978. Já desenvolveu trabalhos em várias técnicas, dentre elas pintura, gravura e tapeçaria.

Recebeu premiações por seus trabalhos no Brasil e nos EUA. Suas obras estão espalhadas por

vários países e tem no judaísmo, uma das principais fontes de inspiração. É o autor das capas

do jornal Visão Judaica. (Para conhecer mais sobre ele, visite o site www.brodeschi.com.br).

Datas importantes

13 de outubro

14 de outubro

15 de outubro

21 de outubro

22 de outubro

23 de outubro

28 de outubro

4 de novembro

11 de novembro

Falecimentos

Hoshaná Rabá

Shemini Atsêret

Simchat Torá

Shabat Bereshit

1º dia de Rosh Chodesh

2º dia de Rosh Chodesh

Shabat Nôach

Shabat Lech Lechá

Shabat Vaierá

Dia 14//7 — 18 de Tamuz de 5766 – Maria Lawder,

aos 91 anos de idade,sepultado no Cemitério Israelita

do Umbará.

Dia 1º/10 — 9 de Tishrei de 5767 — Lieselote Jakobovitz,

sepultada no Cemitério Israelita de Santa

Cândida.

Humor

Na direção

Um adolescente tirou carteira

de motorista e foi acertar com o

pai, um rabino, como poderia usar

o carro da família. O rabino estipulou

as condições:

— “Antes de qualquer trato,

você tem que trazer boas notas,

estudar a Bíblia e cortar o cabelo”.

Um mês depois, o jovem tornou

a conversar com o pai, que

lhe disse:

— “Estou orgulhoso por suas

notas, por seus novos conhecimentos

da Bíblia, mas falta cortar

o cabelo”.

O rapaz argumentou:

— “Sabe pai, Sansão tinha

cabelos compridos, Abraão também,

e até Moisés tinha cabelos

compridos”.

Resposta do rabino:

— “Certíssimo! E todos eles

andavam a pé”.

propósito de difundir o ódio. Baseiase

nas mais obscurantistas, néscias

e fantasiosas teorias sobre uma alucinada

conspiração judaica mundial

para dominar os governos, a mídia,

a economia, os bancos, etc.

Nesse episódio, o cinismo é tanto

que grafaram errado o nome da

“obra” e o site dava a entender que

se tratava de algo escrito pelos próprios

judeus!: “O Protocolo (sic) dos

Sábios do Sião é uma obra prima do

planejamento do povo judeu”, e ainda

dizia-se revoltado (o site) por seu

uso, mesmo após 100 anos, “pelo

povo judeu como ‘mandamentos’ - e

em campanhas políticas no Paraná

contra tudo aquilo que nos é de mais

caro”. E encerrava não sem antes convidar

o leitor para visitar o site Rádio

Islam, um dos mais racistas do

mundo, cujo responsável já esteve

preso e processado na Suécia. O caso

é gravíssimo e espera-se, tanto das

lideranças da comunidade, quanto

das autoridades, a necessária atitude

com as devidas punições.

A Redação

Acendimento das

velas em Curitiba

outubro/

novembro 2006

Véspera de Shabat

e Festas

DATA HORA

13/10 * 18h01

14/10 ** 18h57

20/10 18h05

27/10 18h09

3/11 18h14

10/11 19h19

17/11 19h24

* Shemini Atsêret

** Simchat Torá

Obs.: A partir do dia 5/11 inícia o horário

brasileiro de verão. As datas já estão

ajustadas nesta tabela.


VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Torá: polêmicas e interpretações (I)

Sérgio Feldman *

autoria da Torá é com

certeza um tema polêmico

e que resulta em discussões

agudas e ideológicas.

Na concepção judaica

tradicional não resta dúvida que

a Torá inteira foi Revelada a Moisés

ao sopé do Monte Sinai. Portanto, seu

autor seria D-us, que usou de Moisés,

para transmiti-la a seu povo e através

deste a humanidade inteira.

A Torá que em princípio seria composta

dos primeiros cinco livros da

Bíblia hebraica (ou Pentateuco),

comporia um conjunto mais amplo

com outros livros e que os judeus

denominam Tanach (uma sigla que

tem como letras componentes o T de

Torá, o N de Neviim ou Profetas, e o

CH de Ketuvim ou Escritos), que denominamos

como Bíblia Hebraica ou

como a denominam os cristãos “Antigo

Testamento” (AT). Os livros dos

Profetas e os demais textos canonizados

(Salmos, Provérbios, Cântico

dos Cânticos e muitos outros), compõem,

junto com a Torá, um conjunto

considerado sacro e divinamente

inspirado, se não for até mesmo considerado

também Revelação. Este fato

nem sempre é aceito e por vezes a

ele se agregam considerações e interpretações

adicionais que alteram

seu significado místico e transcendental.

Quem é o autor da Torá? A

resposta tradicional seria D-us, através

de Moisés. Sua palavra tem uma

importância transcendental: origina

o Judaísmo, define sua forma de ser,

leis e regras do cotidiano ao criar as

613 Mitzvot (248 preceitos positivos

e 365 negativos). Não há Judaísmo

sem a Torá, não há Torá sem Judaísmo.

Seria seu decreto de fundação e

sua Carta Magna. Uma aura sacra se

superpõe sobre seu nome.

O efeito civilizador deste texto

na história do mundo ocidental é

imenso: está inserido em textos

posteriores, seja legislação religiosa

ou civil, e em regras morais e

éticas de muitas culturas e civilizações.

Falar da Torá e divagar sobre

questões e dúvidas é no mínimo

uma ousadia, senão um desrespeito.

Equivaleria às palavras do

papa sobre o Alcorão e sobre o Islã:

uma afronta e pode parecer a muitos

judeus uma atitude herética.

Ainda assim há a possibilidade de

se analisar, de maneira respeitosa e

cuidadosa, as opiniões divergentes

da opinião oficial do Judaísmo tradicional

ortodoxo.

A visão cristã tradicional: a

Patrística e a Torá

O que os cristãos achavam disto?

O Cristianismo nasceu no seio do Ju-

daísmo e utilizou as mesmas fontes.

Há uma divergência crucial entre

judeus e cristãos: quem seria o herdeiro

do Pacto com D-us e da Revelação?

O Judaísmo mantém a sua escolha

por D-us e a Lei do Sinai, como

prova de sua escolha. O Cristianismo

não nega a Lei e nem o Pacto,

mas trata de descaracterizar sua validade:

uma nova etapa surgira a

partir de Jesus. Um novo Pacto (Brit

há Chadaha em hebraico) substitui

o antigo. E uma camada adicional

de leis e regras surge e se superpõe

a Lei Antiga: os Evangelhos e a mensagem

dos apóstolos. Negar o Judaísmo,

sem destruí-lo; absorver

seus conteúdos de uma maneira

cristã. A exegese cristã trata de

mostrar através do “Antigo Testamento”

ou Tanach (AT), que a vinda

de Jesus, já estava prevista na Revelação

e no Pacto “antigos”.

A exegese (interpretação ou análise

do texto) cristã faz uma espécie

de desconstrução do texto do Tanach

(AT). Os padres fundadores da

Igreja escrevendo 1500 anos depois

de Moisés, e quase um milênio após

Ezra, o escriba, ter editado a Torá,

esquecem do contexto histórico e

geográfico do mundo bíblico, para

achar profecias que já falavam de

Jesus e que antecipavam a nova religião

no texto do AT ou Tanach.

Os conflitos entre judeus e cristãos

ocorreram inicialmente dentro

das sinagogas, já que os primeiros

cristãos eram judeus. Mas os judeuscristãos

não tardam a romper com a

Sinagoga mãe e se tornar uma religião

a parte. Em seguida, competem

com o Judaísmo sobre a análise

do AT e sua interpretação. São

polêmicas agudas e por vezes trágicas,

pois se iniciam em debates e

podem acabar em conflitos de rua:

em Alexandria ou Antioquia e em

muitas cidades helenizadas do

Oriente. Aos cristãos transparece a

Verdade de sua fé e a razão de ser

de profecias e fatos do AT, como

uma profecia, de fatos que viriam a

ocorrer. O texto do Tanach seria uma

prévia, uma espécie de anúncio antecipado

de fatos do NT (Novo Testamento).

Isso cria um clima de

confronto e uma rivalidade ímpar.

Algumas das interpretações cristãs

podem ser descritas. A cena tradicional

de Abraão que recebe os

três anjos em sua tenda (Gênesis,

c. 18), seria um símbolo: trata-se

da aparição da Trindade. Uma inversão

radical das crenças e das interpretações

judaicas.

Outra duas narrativas servem de

palco para a negação do Pacto antigo

e a afirmação do Novo Pacto: a

venda da primogenitura de Esaú para

Jacob (Gênesis, c. 25), e a obten-

ção da benção paterna por Jacob,

com ajuda da mãe dos gêmeos, Rebeca

(Gênesis, c. 27).

Na exegese cristã qual seria o

significado destas narrativas: o primogênito

Esaú significaria os judeus

e o secundogênito Jacob simbolizaria

os judeus. Fica evidente

que se trata de uma interpretação

simbólica e que através de simbolismo

poder-se-ia provar praticamente

qualquer tese ou opinião, já

que a alegoria utilizada, desvia-se

de maneira absoluta do contexto,

da época e da realidade dos fatos

e dos autores literários.

Dentro desta e de outras leituras

e exegeses, ocorreram debates e conflitos

entre judeus e cristãos, sobre

o real significado da Torá e do Tanach

ou “AT”. Isso se estende até a Idade

Média. São famosas as disputas medievais

entre sábios dos dois lados.

Um exemplo foi a disputa de Barcelona

ocorrida na corte dos reis de

Aragão, entre Nachmânides e um judeus

convertido denominado Pablo

Christiani, ocorrida em 1263.

Os curiosos deveriam ler a obra

de Hyam Maccoby, editada pela Imago

Editora: “O Judaísmo em julgamento:

os debates judaico-cristãos

na Idade Média”. Nesta obra o autor

analisa de maneira isenta e crítica

as opiniões dos dois lados e seus

argumentos. Trabalha também com

as disputas de Paris (1240) e de

Tortosa (1413-1414).

As divergências e as críticas

judaicas: Spinoza e a Torá

Em artigo de nossa autoria, publicado

na VJ há algum meses, denominado:

“Entre heréticos e dogmáticos

(I): o caso de Spinoza”, falamos

da visão deste sábio sobre a

razão de ser e o sentido do texto

sagrado. Spinoza viveu na Holanda,

no século XVII, num clima que alternava

livre pensamento e choques ideológicos

agudos entre os filósofos e

a Igreja calvinista. Sua obra se inseria

nesta vasta polêmica.

Usaremos de um

trecho de nosso artigo

anterior para

ilustrar o que dissemos.

[Início da citação]

Uma destas

obras é o “Tratado

Teológico Político”

(c. 1670) no qual

Spinoza se utilizava

de análises dos exegetas

judeus, com

Ibn Ezra, mas direcionava

suas conclusões

de uma maneira

muito mais crítica.

Nesta obra demonstrava entre outras

teses que a Bíblia Hebraica não teria

sido escrita por Moisés, tal como

afirma a Tradição. Negava a veracidade

absoluta de todo seu conteúdo,

inaugurando a “crítica bíblica”.

No seu entendimento a razão de se

ter escrito a Bíblia seria inculcar em

seus leitores, a noção de obediência

aos poderes constituídos: Estado

e instituições religiosas.

Isto irritou a muita gente, pois

questionava não só o judaísmo tradicional,

mas também as doutrinas

calvinistas, que era neste período,

a Igreja protestante mais importante

na Holanda. Assim sendo, esta

obra (Tratado Teológico Político)

foi censurada e proibida de circular,

mas seguiu sendo editada e

lida, apesar das proibições das calúnias

que sofreu. Sua influência é

incomensurável. Um marco na História.

[fim da citação].

A guisa de reflexão final

Todas estas disputas só salientam

ainda mais a enorme importância

da Torá no mundo judaico-cristão

e na formação de valores e de

mentalidades. Não se pode adotar

uma postura radical e fundamentalista

e nem se fazer a apologia das

absolutas verdades de esta ou de

outra interpretação. A Torá serve

como ponto de partida para uma renovação

do Judaísmo, a partir do

século XIX. Por um lado: os que negaram

a veracidade da Torá e sua validade

como guia espiritual dos judeus,

acabaram por se desligar do

Judaísmo. Por outro lado, os

que fizeram a crítica e seguiram

no seio do Judaísmo,

reinterpretando a Tradição

milenar, criaram novas expressões

religiosas e culturais.

Um Judaísmo que

se insere na tradição do

debate, da diversidade e

da busca de solução para os

problemas humanos.

3

* Sérgio Feldman é

doutor em História pela

UFPR e professor de

História Antiga e Medieval

na Universidade Federal do

Espírito Santo, em Vitória, e

ex-professor adjunto de

História Antiga do Curso

de História da Universidade

Tuiuti

do Paraná.


4

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

A verdade sobre Edward Said

Jeff Jacoby *

dward Saïd, o mais renomado

intelectual palestino, demonstrou

não passar de uma

grande fraude. A experiência,

aparentemente, não lhe ensinou

nada. Durante décadas Saïd passou por

ser um exilado – um árabe nascido e

criado em Jerusalém, expulso por Israel

na guerra árabe-israelense de

1948. Esta foi a história que ele sempre

contou, permeando sua narrativa

com detalhes cheios de emoção.

“Sinto-me cada vez mais deprimido”

relembrava em março de 1998

“quando eu lembro minha linda velha

casa, cercada de pinheiros e laranjais

em al-Talbiyeh, nas redondezas

de Jerusalém”. Num documentário

da BBC ele relembrou seus anos

no Colégio St. George, uma escola

preparatória inglesa em Jerusalém. Ele

e um rapaz de nome David Ezra costumavam

sentar no fundo da sala de

aula. Ele disse, em outra entrevista

em 1997, que ele poderia identificar

as peças de sua antiga casa familiar

“onde, ainda garoto, ele lia Sherlock

Holmes e Tarzan e onde ele e sua e

sua mãe liam Shakespeare”. Tudo isto

foi perdido quando sua família fugiu

de Talbiyeh, em dezembro de 1947,

expulsos “por carros de som israelenses

[que] avisavam que os Árabes deveriam

abandonar a vizinhança”.

Mas como Justus Reid Weiner mostrou

em Commentary, um influente

jornal, a trágica história de Saïd era,

em grande parte, fabricada. Os Saïds

tinham morado no Egito, e não na

Palestina. Edward Saïd cresceu e estudou

num bairro elegante do Cairo,

onde seu pai tinha um próspero negócio.

Freqüentemente a família visitava

parentes em Jerusalém. Edward

nasceu numa destas visitas em 1935.

Mas em sua certidão de nascimento

a residência dos Saïds foi registrada

como sendo no Cairo. O espaço reservado

para um endereço na Palestina

ficou em branco.

Weiner investigou a expulsão dos

árabes de Talbiyeh em 1947 e nada

foi encontrado. Ele checou também

os registros de estudantes no Colégio

St. George e não havia nenhuma

menção a Edward Saïd. Ele entrevistou

David Ezra, o estudante que teria

sentado nas últimas fileiras com

Saïd... Bem, por causa de suas dificuldade

de ler Ezra sempre sentou nas

primeiras filas.

Saïd ocupava uma posição superior

no mundo das letras: mantinha

uma cadeira de Inglês e Literatura

na Universidade de Colúmbia, era um

professor muito procurado e foi, por

diversas vezes, Presidente da Associação

de Línguas Modernas, membro

do Conselho de Relações Exteriores,

e fellow da American Academy of

Arts and Science.

Mas ele sempre foi reconhecido,

principalmente, como um campeão

da causa palestina. Por muitos anos

foi membro do Conselho Nacional

Palestino, o “Parlamento no Exílio”

da OLP e conselheiro privado de Yasser

Arafat. Ele ata-

cava brutalmente

Israel e defendia

a causa palestina

em todos os fóruns

imagináveis,

desde editoriais

de jornal até

transmissões para

testemunhar perante

o Congresso.

E suas palavras

tinham grande

força moral – não era ele uma vítima

da usurpação sionista? Não tinha ele

sofrido expulsão e exílio?

Quando o mundo percebeu que

não, sua autoridade moral foi reduzida

a nada. Era como se “soubéssemos

que Elie Wiesel tivesse passado a

guerra em Genebra e não em Auschwitz”,

como disse um observador.

Poderíamos pensar que este constrangimento

teria convencido Saïd a parar

de mentir a seu próprio respeito.

Mas suas mentiras continuaram.

Durante uma visita ao Líbano em

julho, Saïd foi visto jogando pedras

sobre a fronteira de Israel. Atirar pedras

em Israel era um passatempo comum

para turistas árabes no sul do

Líbano desde a retirada israelense em

maio. O apedrejamento despertou

pouco interesse internacional apesar

de vários israelenses terem sido

feridos, alguns séria e definitivamente.

Mas quando a Agência France

Presse divulgou uma foto do mundialmente

famoso intelectual palestino

se juntando à violência, conseguiu

manchete em todo o mundo.

Um professor que

dissemina mentiras

é como um médico

que receita veneno

ou um juiz que

aceita dinheiro de

uma das partes

Saïd foi criticado, até mesmo em lugares

onde era geralmente elogiado.

O Beirut Daily Star demonstrou consternação

de que “alguém que trabalhara

tanto para acabar com os estereótipos

contra os árabes, se mostrasse

violento... Se permitisse levar

pela turba a jogar pedras sobre a fronteira

internacional”. No próprio campus

de Said o Columbia Daily Spectator

atacou sua “ação violenta e hipócrita”

como “estranha a esta ou a qualquer

outra instituição de ensino”.

Sua resposta foi desprezar o incidente

como simplesmente “um gesto

simbólico de contentamento” –

e, mais uma vez, mentir. Suas pedras,

disse ele tinham sido “jogadas num

espaço vazio”. Algumas testemunhas

tinham outra versão.

O London Te-

legraph publicou

que Saïd “estava a

menos de dez metros

de soldados

israelenses numa

torre de observação

azul e branca

de dois andares,

onde estavam hasteadas

bandeiras

israelenses”. Ao saber

que havia fotógrafos franceses por

ali o Professor mostrou-se surpreso:

“Eu não tinha idéia de que havia

pessoal da mídia por ali, ou que eu

fosse o alvo de sua atenção”. Mas a

AFP tem outra versão – como souberam

dois professores de Colúmbia, Awi

Federgruen e Robert Pollack. Eles escreveram

suas conclusões para o Espectator

de que “as fotos de Saïd jogando

as pedras foi entregue a esta

agência exatamente pelo próprio professor

Saïd”.

Para alguém que havia escrito que

os intelectuais precisam “dizer a verdade,

da maneira mais direta, honesta

e simples possível”, Saïd parece

ter passado maus momentos mentindo

sobre os fatos a seu respeito. Talvez

por que ele soubesse que não

haveria nenhum preço a pagar, profissionalmente,

por suas enganações.

Quando Weiner expôs as falsidades

de Saïd, a resposta de Colúmbia

foi – não fazer absolutamente nada!

“Surpreendentemente o professor

Saïd não foi nem apoiado nem criticado

pelo Presidente [da Universi-

dade]”, escreveu Weiner num ensaio

em Academic Questions, o jornal da

National Associations of Scholars. “Nem

o Diretor, nem a junta de administradores,

nem o Senado da Universidade

sequer mencionaram a dissimulação

de Saïd”.

Para quem conheça a história de

Colúmbia esta falta de interesse pela

mentira de um de seus professores

é impressionante, pois Saïd não foi

o primeiro do Departamento de Inglês

a ser descoberto numa série de

mentiras públicas. Na década de 50,

um instrutor chamado Charles Van

Doren ganhou aplausos nacionais

por sua brilhante apresentação no

show “Twenty-One” da NBC. Estes

aplausos se tornaram desprezo quando

o show foi denunciado como manipulação,

e Colúmbia esclareceu

imediatamente que não poderia

manter em seus quadros tal mentiroso.

“É uma questão de moral, honestidade

e integridade do ensino”,

disse o diretor John G Palfrey, e

acrescentou “se estes princípios merecem

ser conservados, Van Doren

não pode permanecer”. (Como Weiner

acentuou: “enquanto Van Doren

pode ter sido iludido pelos produtores

do programa a participar

de uma competição desonesta, Saïd

foi o único responsável por suas

mentiras”). Por que os dois pesos

e duas medidas?

Em relação a meros mortais, Colúmbia

ainda insiste em honestidade.

Há alguns meses atrás um estudante

de 19 anos que mentiu que

havia sofrido um acidente de carro

para ter mais tempo para uma prova,

foi suspenso por dois anos. Já Saïd,

cuja lenda de exílio e perda de propriedade

foi muito mais elaborada e

iludiu muito mais gente, não sofreu

nenhuma censura disciplinar.

Um professor que dissemina mentiras

é como um médico que receita

veneno ou um juiz que aceita dinheiro

de uma das partes. Todos são

ameaças à sociedade, todos traem

seus cargos. Médicos que matam podem

ter seu registro caçado; juízes

corruptos podem ser impedidos de

julgar. Mas um professor que mente

– ao menos em Colúmbia – permanece

livre para continuar enganando.

É de admirar que Edward Saïd continue

dizendo mentiras?

* Jeff Jacoby é colunista do jornal The Boston Globe desde 1994, e antes fora editorialista-chefe do Boston Herald. Graduou-se na George Washington

University e na Boston University Law School. Foi advogado e trabalhou em campanhas eleitorais para o Senado americano. Além de seu trabalho como

jornalista, é comentarista político da Boston’s National Public Radio (WBUR-FM) e por anos manteve um programa de televisão. O presente artigo escrito

quando Said ainda era vivo, foi traduzido por Heitor de Paola e está publicado, no original em http://www.bigeye.com/jj092800.htm


Jane Bichmacher de Glasman* pulsão dos judeus da Espanha. A hebraico, os textos escritos em um

m 12 de outubro de

1492 a América foi

descoberta pelo genovês

Cristóvão Colombo”.

A frase que está na ponta

da língua desde a nossa infância,

pode ser uma sucessão de erros.

Pesquisas recentes revelam que o

continente americano já havia recebido

visitantes (de fenícios a

chineses, passando por vikings),

que Colombo não era italiano... e

que sequer seu nome era esse!

O lugar de nascimento de Colombo

é incerto e as suas origens permanecem

envoltas em enigma sem

que surjam documentos decisivos. A

partir de finais do século XIX, e do

centenário de 1892, foi considerado

natural de Gênova. Atualmente,

historiadores diversos levantam hipótese

de ele ser português, catalão,

basco, galego ou mesmo grego,

e certamente de ascendência judaica.

Conhecia as línguas clássicas

(mantinha um diário em latim e outro

em grego) e o hebraico; não escrevia

italiano, mas uma forma aportuguesada

do castelhano.

O ano de 1492 é divisor de águas

na história em geral e na judaica,

polêmica começa na proximidade

entre estes dois fatos muito relevantes

em datas muito juntas. A discussão

esquenta com o livro do historiador

Mascarenhas Barreto, “O

Português Cristóvão Colombo, Agente

Secreto do Rei Dom João II”, em

que afirma que o descobridor

era português

e judeu.

Colombo vivia em

meios judaicos, tinha

muitos amigos e mestres

judeus. A navegação

era ensinada em

academias judaicas, e

os primeiros navegadores

foram judeus e árabes. A viagem

de Colombo foi arranjada e patrocinada

por judeus - e não pelo

ouro dos monarcas, como se diz.

E curiosamente, a sua frota zarpou

dois dias após o prazo estabelecido

pelos monarcas para os judeus

abandonarem o reino. Sabe-se que

com Colombo viajaram muitos cristãos

novos.

Segundo Oscar Villar Serrano em

seu livro “Cristóbal Colón: el secreto

mejor guardado” na correspondência

que mantiveram Colombo e

seu filho Fernando há muitas pro-

idioma “ininteligível” e as despedidas

eram uma benção judaica. Colombo

recomendava ao seu filho que

diante das pessoas se comportasse

como mandava a lei canônica, “mas

entre nós, temos que conservar nossos

costumes” (sic).

O irmão de Cristóvão

Colombo foi queimado

em Valência em 1493

por ser judeu e, curiosamente,

foi a própria

Igreja que propôs canonizar

o descobridor pelo

fato de ter cristianizado

os indígenas de América,

mas desistiu ao saber

que ele era judeu.

Cristóvão Colombo seria Salvador

Fernandes Zarco, que existiu de fato,

nobre ilegítimo natural da vila alentejana

de Cuba em Portugal, neto de

João Gonçalves Zarco, navegador

português de ascendência judaica -

o que justifica os nomes com que

ele batizou ilhas (São Salvador e

Cuba) e o fato de nunca escrever italiano,

mas sim um “portunhol”.

Decifrando a misteriosa assinatura

críptica de 27 sinais com que

Colombo sempre escreveu seu

nome, Barreto acredita ter desven-

em particular. A chegada de Colomvas de sua origem judaica. As cardado a cabala judaica do nome e

bo às Américas “coincide” com a extas estavam fechadas com letras em da identidade do navegador. Para

Diáspora

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

A assinatura cabalística do

judeu sefaradi Cristóvão Colombo

professora Sônia Blommfeld foi

a convidada da B’nai B’rith do

Brasil para falar sobre ‘Diáspora:

ontem, hoje e amanhã’,

tema do Concurso Fábio Dorf

2006, promovido pelo quarto ano consecutivo

pela B’nai B’rith para todas as escolas

judaicas de educação formal do Brasil.

Em sua análise, a docente da Universidade

Nacional de Brasília, destacou as informações

resultantes das pesquisas genéticas,

como a de que o DNA dos judeus,

ashkenazim (provenientes da Alemanha e

Europa Oriental) e dos sefaradim, (originários

da Península Ibérica, expulsos pela

Inquisição) é o mesmo, correspondendo a

ancestrais que viveram três mil anos atrás

no Oriente Médio. E, ainda mais interessante:

o DNA que mais se assemelha ao dos

judeus é o dos palestinos.

Hoje estão em andamento dois grandes

projetos envolvendo a análise de DNA,

coordenados pelo Yad Vashem (Museu do

isso, o pesquisador utilizou o método

da leitura espelhada, na qual

o ponto e a vírgula podem significar,

em espanhol antigo, Colon, e

em hebraico, Zarco.

Colombo é uma forma latinizada

do seu apelido. Na sua assinatura hierática

lê-se Xpo ferens (“portador de

Cristo”) além de siglas que originaram

interpretações variadas, mais convencionais

ou mais esotéricas. Colombo

seria até um nome errado, pois

nas suas assinaturas aparece o símbolo

“:” (“colon” em muitas línguas,

como o castelhano e o inglês), que

justifica o seu nome em castelhano:

“Colón”. Ele nunca assinou Colombo...

Mascarenhas Barreto explica que

Cristóvão a decifração em latim é:

Fernandus, ensifer copiae Pacis Juliae,

illaqueatus cum Isabella

Sciarra Camarae, mea soboles

Cubae sunt que significa:

Fernando, duque de

Beja e Isabel Sciarra da

Câmara são os meus pais

de Cuba.

A assinatura dele

era contraditória, isto é,

possuía mensagens católicas,

em latim e mensagens

em hebraico, comenta

José Rodrigues dos

Santos, autor de Codex 632.

Judeus de diferentes regiões têm mesmo

DNA dos ancestrais do Oriente Médio

Holocausto) de Jerusalém, que está solicitando

aos judeus de todo o mundo que

enviem o seu material genético para a formação

de um banco genético.

A diferença conceitual entre diáspora

(dispersão) e galut (exílio) foi abordada pela

conferencista, ao falar da destruição do 2º

Templo de Jerusalém, e a expulsão dos judeus

pelos romanos em 70 d.e.c, quando teve

início a Diáspora e, com ela o surgimento

do judaísmo rabínico, das sinagogas, e da

normatização da legislação judaica.

No entanto, ela destacou que “é preciso

lembrar a presença constante dos judeus

na terra de Israel, mesmo após este

período, seja de camponeses, seja decorrente

da constante migração de judeus da

Europa e de outros países do Oriente Médio,

em geral por questões religiosas”. E

acrescentou que no século XVI, por exemplo,

Safed se tornou um importante centro

religioso e espiritual, suplantando Jerusalém

(de onde, de tempos em tempos,

os judeus eram expulsos novamente).

Em relação à trajetória das comunidades

judaicas da Diáspora há diversos momentos

importantes a ressaltar. Um deles é

a haskalá, uma verdadeira ‘revolução’ nos

usos e costumes dos judeus, em decorrência

dos novos conceitos trazidos pelo iluminismo

europeu, e pela Revolução Francesa,

com o surgimento da idéia de Estado-Nação,

de cidadania, e de que as pessoas

irmanadas em seus ancestrais míticos

ou físicos deveriam ter seu estado, ou seja,

nasce a idéia da ‘nação judaica’.

Para os judeus, em especial a partir

da França, teve início esse movimento de

modernização da religião, uma adaptação

aos novos tempos, com ênfase na educação

laica, e nos idiomas das regiões em

que viviam, e no hebraico, em detrimento

do iídiche, que passa a figurar em canções

e peças de teatro, enfim, maior inserção

na vida local.

Paralelamente à liberdade, igualdade e

5

* Jane Bichmacher

de Glasman é doutora em

Língua Hebraica, Literaturas

e Cultura Judaica, professora,

fundadora e ex-coordenadora

do Setor de Hebraico da

Universidade Estadual do Rio

de Janeiro - UERJ, fundadora

e ex-diretora do Programa de

Estudos Judaicos da UERJ,

professora e coordenadora

do Setor de Hebraico

UFRJ (aposentada), e

também escritora.

fraternidade, preconizada pela Revolução

Francesa, surge também a concepção moderna

de racismo.

A participação dos judeus nas mudanças

dos séculos XIX e XX foi intensa, a ponto

de sugerir que estes seriam muito mais

numerosos do que são na realidade.

Outras questões abordadas na palestra

foram, a Diáspora frente ao recrudescimento

do anti-semitismo, o uso de falsificações

como os ‘Protocolos dos Sábios de Sião’, e

de mentiras sobre usos e costumes judaicos

que tem sido explorado pelos meios de comunicação,

em especial pelas TVs árabes, que

possuem cada vez mais penetração no mundo

ocidental, que têm sido difundidos nas

escolas, universidades, entre políticos e formadores

de opinião em geral.

A palestra foi encerrada com um filme,

mostrando a importância do tripé: povo,

terra e Torá, destacado pela professora Sônia

como resposta à crescente perda da

identidade judaica nos dias de hoje.


6

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

urpresa: acaba de ser divulgada

uma fatwa contra o

Hezbolá, assinada por Abdala

Ben Jabrín, importante

xeque wahabita da Arábia Saudita.

Assegura que viola a lei corânica

quem apóia esta organização, quem

se junta, prega ou reza por ela. Segue

um documento assombroso publicado

em 12 de julho por outro

xeque, o kuwaitiano Hamid al Alí,

que condena as ambições imperiais

do Irã instrumentadas pelo Hezbolá

a partir do Líbano. Estes pronunciamentos

são apenas a parte visível

do iceberg que liga velhos e novos

conflitos dentro da família árabe e

muçulmana, ocultos até agora pelo

fragor da obsessiva luta contra a

existência de Israel.

É necessário advertir que nem

todos os árabes querem um Estado

palestino e, mais: há árabes que ainda

detestam os palestinos, como prova

a inexpugnável cerca egípcia que

impede a fuga dos palestinos até o

Sinai ou as proibições que impedem

os palestinos, em quase todos os Estados

árabes, de comprar propriedades

ou gozar dos mesmos direitos que

possuem os demais habitantes. Basta

recordar que foram assassinados

pelas tropas jordanianas, sírias e libanesas

cinco ou seis vezes mais

palestinos que todos os que caíram

em seus enfrentamentos com Israel

desde há mais de meio século.

Para entender o Hezbolá convém

ter em conta as quatro correntes de

opinião que prevaleceram na área

sucessivamente, em tão só um século.

Tratarei de ser breve e claro.

Hezbolá, o fator confuso

Marcos Aguinis *

Antes da Primeira Guerra Mundial,

cinco países que agora são Síria, Líbano,

Israel, Jordânia e os territórios

palestinos constituíam uma província

pobre e marginal do império

turco. O movimento nacional judeu,

que havia começado a desafiar a

opressão turca desde o final do século

XIX para constituir um Lar Nacional

Judeu na antiga terra de Israel,

determinou que após a Primeira

Guerra Mundial a Grã Bretanha fosse

escolhida pela Liga das Nações para

exercer seu mandato sobre o que

então começava a chamar-se Palestina.

Este nome ressuscitava a denominação

romana imposta pelo imperador

Adriano, em substituição do

combativo nome de Judéia.

O movimento nacionalista árabe,

que nasceu na Síria em princípios do

século XX e foi teorizado por personalidades

cristãs e pro ocidentais,

disse que a “Palestina” era uma invenção

dos sionistas, para separá-la

da Síria. Com efeito, o nacionalismo

árabe de então considerava que toda

essa região constituía uma grande

Síria, opinião que subsiste nesse país.

Por isso suas tentações para dominar

o Líbano e Israel.

Essa primeira corrente de opinião

foi substituída pela que difundiu o

presidente egípcio Gamal Abdel Nasser

sobre o pan-arabismo, que além

de secular era autoritário e estatizante.

Nasser fundou a República

Árabe Unida, que ligou por alguns

anos o Egito com Síria e que devia

incorporar rapidamente o resto dos

países árabes. A insensata Guerra dos

Seis Dias acabou com esse sonho.

Começou a crescer uma terceira

tendência, que incluía a OLP. Pre-

É grande a semelhança que guarda o Hezbolá do nazismo, tanto na simbologia, comos nos

gestos, militarismo e no anti-semitismo

tendia um perfil nacional diferenciado

para cada país. À OLP, entretanto,

não lhe bastava criar um Estado

palestino na Cisjordânia e Gaza, que

durante 19 anos estiveram sob a

ocupação egípcio-jordaniana sem que

se fizesse nada para estabelecê-lo, porém

pretendia incluir nesse Estado todo

Israel, e conquistar a Jordânia. Por

isso, em 1971, Yasser Arafat, que havia

formado na Jordânia um Estado

dentro do Estado, atacou o governo e

foi repelido num setembro chamado

desde então Setembro Negro. A tropas

jordanianas assassinaram ao redor de

20.000 palestinos e depois outros caíram

ante as balas sírias quando tentaram

refugiar-se no Norte.

No Líbano, a OLP fez um outro

Estado dentro do Estado, até que a

guerra civil e a intervenção de Israel

a expulsaram. Nessa época nasceu o

Hezbolá como uma enganosa alternativa

pacífica, por seu compromisso

com a assistência religiosa e social.

Não se limitava a ela, mas a desencadear

uma ação terrorista sustentada

pelo Irã teocrático de Khomeini.

Inaugurou os crimes suicidas

mediante a matança das forças de paz

francesas e norte-americanas que tinham

chegado ao Líbano para controlar

a atroz guerra civil. Em seguida,

havia executado os dois atentados

de Buenos Aires (embaixada de

Israel e Amia), com o possível apoio

da embaixada iraniana. Este fato

marcou a escolha de objetivos civis

para gerar infinito pânico. Ao mes-

mo tempo, iniciou a interminável

série de ataques contra as populações

civis em Israel. Esta é a quarta

e última corrente de opinião, que

obscurece as outras três.

Obscurece porque esta tendência

ambiciona a reconstrução do grande

califado medieval, que uniria cinqüenta

nações muçulmanas sob uma

só condução teocrática. Não importa

a diferenciação nacional, mas a

imposição da sharia (lei islâmica) e

uma guerra perpétua contra os infiéis

de qualquer denominação.

É curioso que o Hezbolá, uma organização

xiita, fanática e dependente

do Irã, conte com o manifesto

apoio da Síria, que é uma cruel

ditadura castrense secular baseada na

minoria alauíta. Profundas contradições

separam ambos regimes. Contudo,

os dois têm em comum seu

desprezo pelos sunitas e por Israel.

A Síria invadiu o Líbano em 1975 da

mão da Falange cristã que combatia

a OLP, porque também detestava a

OLP, que interferia com seus interesses

no Líbano, e desejava um Estado

independente na Palestina, espaço

que a Síria continuava considerando

seu, ainda que não o expressasse

de forma transparente.

O Hezbolá pedala com um pé no

Irã e outro na Síria, mercê de três

elementos comuns: ódio a Israel,

ódio aos Estados Unidos e posição

ambígua sobre a criação de um Estado

palestino em Gaza e Cisjordânia

(ambigüidade dissimulada com os pro-


testos pelo sofrimento palestino, ao

que não se apressa a colocar fim, porque

sempre os terroristas fazem algo

para frustrar a solução negociada).

Chama também a atenção o fato

de que quando não quer ter enfrentamentos

com Israel, basta não atacá-lo.

A Síria, por exemplo, não protagonizou

nem um só tiroteio com

Israel desde a guerra do Iom Kipur.

Em troca, hostiliza de forma cínica

esse país por meio do Hezbolá, Hamas

e a Jihad Islâmica a partir do

Norte (Líbano) e do Sul (Gaza). Quando

se produziu a retirada israelense

da zona de segurança que mantinha

no Líbano, em vez desse território

ser ocupado pelo exército libanês,

como ordenaram as Nações Unidas,

o fez com celeridade extrema o Hezbolá,

graças à proteção com que lhe

brindaram as tropas sírias estabelecidas

no vale de Bekaa.

Só agora se pode observar que os

serviços de inteligência israelenses

foram ineficazes em perceber a preparação

da guerra em grande escala

que o Hezbolá efetuava durante seis

febris anos. Com a acumulação impressionante

de armamento, construção

de bastiões, de túneis enormes

e um controle absoluto da área,

além da instalação de bases para lançar

mísseis em bairros densamente

povoados, inclusive edifícios de

apartamentos e até escolas, tudo

para servir-lhe de atroz escudo.

A Síria foi expulsa pela maioria

da população libanesa após o assassinato

do premiê Harari. Mas se algo

desejava a rancorosa Síria era que

depois de sua retirada estalasse o

caos. Seu afilhado Hezbolá acaba de

produzi-lo, precisamente.

O grupo xiita Hezbolá cometeu graves violações do direito internacional

humanitário com seus ataques deliberados contra a população civil israelense

durante o recente conflito no Oriente Médio, segundo uma afirmação da

Anistia Internacional (AI) feita em setembro.

Em relatório divulgado em sua sede em Londres, a organização humanitária

acredita ser necessário que a ONU comece uma investigação exaustiva e

imparcial sobre as violações cometidas durante o conflito.

Segundo a AI, durante os 34 dias de conflito, o Hezbolá lançou cerca de 4

mil foguetes contra o norte de Israel, matando 43 civis e deixando 33 gravemente

feridos, enquanto outras milhares de pessoas tiveram que buscar abrigo.

Aproximadamente 25% dos foguetes foram disparados contra regiões urbanas

e alguns tinham milhares de fragmentos de metal, acrescenta o relatório,

intitulado “Na linha de fogo: os ataques do Hezbolá contra o norte de Israel”.

Em suas reuniões com a AI, o Hezbolá afirmou que seus ataques com foguetes

contra o norte de Israel eram uma represália pelos ataques israelenses

contra a população civil do Líbano.

“A escala dos ataques do Hezbolá contra cidades e povoados israelenses, o

caráter indiscriminado das armas utilizadas e as declarações dos dirigentes

do grupo confirmando sua intenção de atacar civis, deixam perfeitamente

claro que o Hezbolá violou as leis da guerra”, afirmou a secretária-geral da AI,

Irene Khan, no texto divulgado pela ONG.

“O fato de Israel também ter cometido violações graves não justifica as

cometidas pelo Hezbolá. A população civil não deve pagar o preço da conduta

ilegítima de nenhuma das duas partes”, acrescenta.

O relatório se baseia na investigação feita pela AI nos terrenos de Israel e

Líbano, em entrevistas a vítimas, declarações oficiais e conversas com autoridades

dos governos dos dois países e com altos dirigentes da milícia xiita.

(Agência EFE)

Os ataques de Israel para bloquear

suas fontes de abastecimento (aeroportos,

estradas, estações de radar

e edifícios inteiros controlados

por esta organização) provocaram

“O Hezbolá pedala com um pé no Irã e outro

na Síria, mercê de três elementos comuns:

ódio a Israel, ódio aos Estados Unidos e

posição ambígua sobre a criação de um

Estado palestino em Gaza e Cisjordânia”

Anistia Internacional: Hezbolá

violou os direitos humanos

com ataques a civis

horríveis danos humanos e materiais

a um belíssimo país como o Líbano.

Um país fraco que não pôde aplicar

a ordem das Nações Unidas, porque

o Hezbolá, graças à caudalosa intervenção

sírio-iraniana se converteu

numa força mais poderosa que seu

exército nacional.

Calcula-se que cerca de 80 por

cento da população libanesa, incluídos

os xiitas, percebem que as

ações do Hezbolá foram o causador

da tragédia, um sanguinário câncer

que lhes nasceu nos anos

80 e que os levou a esta

guerra mediante seu fabuloso

arsenal de armas e

seus incessantes ataques a

Israel. Todavia, os libaneses

não podem extirpar

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

este câncer por si só.

Além disso, cresce uma tensão

religiosa transnacional que tomara

não se transforme em conflagração

aberta: os xiitas e os sunitas se assassinam

no Iraque e em outras regiões

onde competem pelo poder do

mundo islâmico.

Nunca tantos países árabes e

muçulmanos se mantiveram tão imóveis

como nesta lamentável operação

de limpeza policial que realiza

Israel dentro de um país árabe. Só

há discursos: nenhuma ação firme.

Eles parecem agradecer o maldito

trabalho que não se atrevem a realizar

eles mesmos.

O Hezbolá é um perigo para o Líbano

e demais países árabes que não

desejam ser dominados pelo Irã nem

fundir-se num totalitarismo fundamentalista.

Mas Israel tampouco poderá

varrer o Hezbolá por completo,

ainda que se empenhe durante outras

semanas que aumentarão o luto

de ambas as partes. Só conseguirá

debilitá-lo. Então é provável que o

governo libanês, com suas forças armadas,

apoiadas por tropas estrangeiras,

talvez pela OTAN, se encarregue

de acabar a tarefa: confiscar o

armamento acumulado em túneis ou

áreas civis para que o Líbano possa

se reconstruir e voltar a ser um dos

países mais belos, pacíficos, cultos

e progressistas do Oriente Médio.

* Marcos Aguinis é escritor, conferencista, médico psicanalista,

foi ministro da Cultura da Argentina, onde desempenhou um

papel fundamental na redemocratização do país. É autor dos

livros “La cruz invertida” e “La gesta del marrano”. Publicado no

jornal La Nación, de Buenos Aires. Tradução: Szyja Lorber

7


8

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Ali Kamel *

o ano passado, escrevi um artigo

cujo título era “O mesmo

mundo”. Eu dizia que não vivíamos

num mundo pior, cheio de

guerras e desventuras: o mundo

sempre foi assim. Há dias venho criando

coragem para comentar o que se

passa hoje no Oriente Médio, mas, cada

vez que começo a estudar o assunto

mais de perto, a sensação de que tudo

é apenas uma repetição do passado

me deixa prostrado. É impressionante

como ali a História se repete, e não

como farsa, como queria Marx, mas

sempre como tragédia.

Lembremos 1978. A OLP estava

abrigada no Líbano e, de lá, prosseguia

em sua luta para retomar não

apenas as terras que Israel conquistou

na guerra árabe-israelense, mas

para pôr fim ao país inteiro, “varrendo-o

do mapa”, na retórica ainda

viva na boca de muitos. Em março

daquele ano, um grupo de terroristas

ligados ao Fatah seqüestrou um

Imagem obtida por jornal australiano mostra os membros do

Hezbolá usando roupas civis para se misturar rapidamente com

a população, sobre um veículo com arma anti-aérea

ônibus com crianças que faziam um

passeio de um dia ao Norte de Israel.

Seguiram para Tel Aviv e, na entrada

da cidade, ao se depararem com uma

barreira, saltaram do veículo, iniciaram

um tiroteio e lançaram mísseis

contra o ônibus, matando 35 pessoas.

Israel, então, empreendeu um ataque

ao Líbano, invadindo o país dez quilômetros

além da fronteira. O mundo

reagiu em coro contra Israel, o Conselho

de Segurança da ONU passou a

resolução 425, impondo a imediata

retirada das tropas israelenses do Líbano

e criando uma força internacional

de paz. Em junho, Israel deixou

o Líbano, mas, nos quatro anos

seguintes, a força de paz não cumpriu

os seus objetivos, e os ataques

da OLP a Israel e as conseqüentes retaliações

continuaram.

Em 1981, um cessar-fogo foi conseguido

pelos EUA, mas foi apenas

formal: nos 11 meses que se seguiram,

houve 270 ataques a Israel. Em

abril de 1982, uma mina matou um

oficial do exército israelense, e a resposta

veio rapidamente, na forma de

ataques aéreos e bombardeios. Em

junho, houve uma tentativa de assassinar

o embaixador de Israel no

Reino Unido, o que deflagrou nova

invasão do Líbano, com o objetivo

de afastar o perigo da OLP, armada

até os dentes. A história é bem conhecida:

Israel ficou lá por três anos,

as lutas foram cruentas, houve o

massacre de Sabra e Chatila e a OLP

acabou indo, com Arafat e tudo, para

a Tunísia. Reagan acreditou que a

força de paz da ONU não daria jeito

e mandou para lá uma nova força,

Ciclos

composta por marines e soldados da

França e Itália. No fim, os marines

carregaram o maior peso, até que o

recém-fundado Hezbolá, financiado

pelo Irã, reintroduziu, após 900 anos

de hibernação, a prática dos atentados

suicidas: um carro-bomba levou

pelos ares a embaixada americana,

matando 17 diplomatas e 40 funcionários

libaneses, e, meses depois,

outros dois carros-bomba mataram

241 marines, no aeroporto de Beirute,

e 56 soldados franceses, a alguns

quilômetros de distância. Houve

as retaliações de praxe, e Reagan

tirou de lá os marines, apenas quatro

meses depois.

Israel se estabeleceu, então,

numa faixa da fronteira, criando uma

zona de segurança, até que, em

2000, saiu inteiramente do Líbano,

cumprindo integralmente a resolução

425 da ONU.

Como em 1982, quando o presidente

de origem cristã, pró-Israel,

Bashir Guemayel, foi assassinado

numa explosão de carro-bomba atribuída

à Síria, ano passado foi morto

o ex-primeiro ministro do Líbano

Rafik Hariri, não pró-Israel, mas pró-

Ocidente, também numa explosão de

carro-bomba. Como tudo se parece...

O assassinato de Hariri também foi

atribuído à Síria, que acabou deixando

o território libanês, depois de

uma presença de mais de trinta anos.

Bem, hoje a história se repete.

Como a OLP no passado, o Hezbolá

cresceu, dominou o Sul do Líbano,

armou-se com 12 mil foguetes e recomeçou

a atacar israelenses. Quando

um ataque matou oito soldados

e seqüestrou outros dois, Israel invadiu

novamente o Líbano, para pôr

fim à ameaça armada. No momento,

estamos na fase da costura de uma

nova resolução da ONU, que, provavelmente,

criará uma nova força internacional

de paz, e acabará, de uma

forma ou de outra, determinando que

Israel saia do país. Depois, bem, não

quero me arriscar a dizer o que virá

depois para não parecer praga.

Porque não se trata disso. Esse

artigo pode parecer pessimista, mas

não é. Eu o chamaria de realista. Essa

guerra já dura 58 anos, o que parece

uma eternidade. Mas, se olharmos para

trás, veremos que conflitos mais longos,

que pareciam insolúveis, hoje

não passam de História. Nós, seres

humanos, somos assim: uma hora a

gente cansa. Não sou médico, mas sei

que, quando um mal se torna crônico,

a razão é única: a causa não foi

debelada. É o que acontece por lá.

Um bom remédio é que a democracia

alcance os países árabes:

quando os povos tiverem o comando

de seus destinos, duvido que concordem

com grupos fanáticos terroristas

que atiram foguetes em vizinhos

sabendo de antemão que a reação

será um pesado bombardeio sobre

suas cabeças. É também preciso

deixar D-us fora do conflito, porque

sabemos todos que D-us não tem

partido. É fundamental que os dois

lados se aceitem como uma realidade

inamovível e mais fundamental

que cedam naquilo que lhes é mais

caro. Enquanto isso não acontecer,

o conflito persistirá, repetindo-se de

forma monótona. E trágica.

* Ali Kamel é jornalista, editor-chefe do Jornal Nacional, e publicou este artigo em sua coluna no jornal O Globo (http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/

alikamel.asp). O artigo foi escrito antes da nova Resolução da ONU, antes da criação da nova força internacional de paz e antes da retirada do exército

israelense do Sul do Líbano. E-mail: ali.kamel@oglobo.com.br

Fatah ameaça matar líderes do Hamas

Palestinos brigam entre si e em quatro dias houve 14 mortos e 150 feridos

esde o dia 1º/10, quando começaram

os confrontos armados

entre o Fatah e o Hamas,

quase 150 palestinos ficaram

feridos em distúrbios na Cisjordânia

e em Gaza, e 14 morreram.

As Brigadas dos Mártires de Al-

Aqsa, facção armada vinculada ao

movimento Fatah, emitiram uma nota

ameaçando matar dirigentes do Hamas,

entre eles Khaled Mashaal, líder

do grupo islâmico que vive no exílio.

Em comunicado enviado aos meios

de comunicação vários dirigentes do

Hamas são responsáveis pela recente

explosão de violência nas ruas palestinas,

que deixou 14 palestinos mortos

e quase 150 feridos.

As Brigadas indicaram que

Mashaal, residente em Damasco, assim

como o ministro do Interior do

Governo palestino, Said Siyam, e

Youssef Zahar, também funcionário

deste ministério, são os responsáveis

pelas recentes mortes.

“Nós das Brigadas de Al-Aqsa

anunciamos, com toda nossa força e

sinceridade, aos que governam o

povo em nossa pátria e na diáspora,

que executaremos os responsáveis

pela revolta: Khaled Mashaal, Said

Siyam e Youssef Zahar”.

Desde o dia 1º, quando começaram

os confrontos armados entre

milicianos do Fatah e membros da

nova força criada pelo Ministério do

Interior e leal ao Hamas, quase 150

palestinos ficaram feridos em distúrbios

na Cisjordânia e em Gaza.

Além disso, vários militantes do

Fatah fecharam na terça-feira, 3/10,

várias escolas no centro da Faixa de

Gaza, e instaram os professores e alunos

a abandonar as salas de aula, sem

dar-lhes mais explicações.

Seguidores do Fatah, presidido

por Mahmoud Abbas, também

bloquearam a estrada Saladino, um

dos principais cruzamentos da Faixa

de Gaza, queimaram pneus, levantaram

barricadas e efetuaram vários

disparos para o ar enquanto gritavam

“Abaixo, abaixo com o Hamas”.

Representantes de ambos os gru-

pos continuaram trocando acusações,

enquanto aumentam os chamados

por eleições antecipadas.

O ex-ministro palestino Sufian

Abu Zaid, do Fatah, pediu a formação

de um novo governo de união

nacional na Autoridade Nacional Palestina

(ANP) ou eleições.

As diferenças entre ambos os

grupos incluem principalmente a

negativa do Hamas de aceitar o

reconhecimento de Israel, para

que se forme um novo gabinete

palestino e se acabe assim com o

boicote da comunidade internacional.

A suspensão da ajuda estrangeira

impediu o pagamento

de 165 mil funcionários públicos

durante meses.


Acima de qualquer crítica

Nada no mundo pode ou deveria

estar acima de suspeitas, dúvidas, reflexões,

reclamações e tentativas de

melhoras. Partindo do princípio de

que tudo foi criado no mundo por D-us

de forma imperfeita, logo qualquer

coisa está aberta a contestação. Inclusive

a religião. Afinal, ela passou

por compilações humanas. E é mais

do que justo que tenhamos nossas

dúvidas. Como aprendi uma vez em

um shiur uma criança que não pergunta

em uma Yeshiva e não tem no

final da aula nenhuma questão a ser

retirada, esta sim é problemática. Não

existe no judaísmo engolir tudo de

cor e aceitar qualquer coisa que lhe

digam por aceitar.

Mas parece que existem no mundo

forças que querem estar acima

de qualquer crítica, e que não aceitam

que lhes apontem seus defeitos.

Não querem progredir. Querem

estancar na mediocridade, mas

aceitam criticar os outros e se postar

como os melhores do mundo.

Um dia foi assim com o catolicismo.

Na Idade Média. Chegaram a

queimar cientistas que discordassem

de sua forma de pensar em fogueiras

públicas. Mas este tempo passou.

A igreja evoluiu, e hoje sabe

lidar com a problemática dos questionamentos

e críticas.

Hoje, quem vive na era das pedras

é o Islã radical. Acima de qualquer suspeita.

Ai daquele que ousar tecer um

comentário negativo sobre a religião

de Maomé. Dizer a verdade hoje pode

custar muito caro.

Hoje, os muçulmanos estão envolvidos

em 99% dos conflitos do mundo.

Realizam atentados nos cinco

continentes, e são responsáveis por

diversos genocídios, principalmente

na África, a saber, casos como o da

Argélia, Sudão e Somália.

Nos últimos cinco anos apenas,

42 nações tiveram que lidar de um

jeito ou de outro com a violência

causada por grupos islâmicos. Desde

1920 existe a Irmandade Muçulmana

e seu sonho de reconstruir o

Califado mundial. Desde a década de

40 existe a aliança entre nazismo e

islamismo, tratada e pactuada pelo

Mufti de Jerusalém. Nada é novidade,

somente que agora as forças res-

Daniel Benjamin Barenbein*

ponsáveis pela jihad resolveram acelerar

o processo de tentativa de conquista

do mundo.

Então, como explicar que o Islã

se revolte tanto com a charge dinamarquesa

no ano passado e com as

palavras do Papa no último mês, se

elas absolutamente só dizem a verdade

dos fatos?

Ambos os pronunciamentos apenas

criticam o Islã por ter sido cooptado

por terroristas e ditadores que

querem conquistar e impor o islamismo

a força para o mundo.

Ao invés de absorver estas críticas

e tentar se melhorar, ou então responder

educadamente e dentro da lei

as mesmas, o Islã somente comprovou

que se trata de uma verdade o

que é dito, quando a resposta do

mundo muçulmano foi a agressão,

violência e morte.

E qual a moral para protestar que

este grupo teria, se diariamente nos

meios de mídia árabes circulam centenas

de charges antijudaicas, anti-

Israel e antimundo ocidental, da

mesma forma que está na boca dos

sheiks que se pronunciam nas mesquitas,

nos programas de TV e rádio?

O que pessoas normais e civilizadas

fazem diante de comentários

na mídia que considerem injuriosos

contra sua etnia ou religião? Protestam,

enviam cartas, se manifestam

juridicamente, e até em casos

muito graves, acionam a polícia.

Imagine o que seria do mundo se

nós judeus fossemos agredir fisicamente

cada um que nos atacasse na

mídia? Acho que teríamos que fazer

plantão 24 horas de arrastões, invasões

de prédios, seqüestros e etc.

Basta ver a força e a quantidade de

anti-semitismo presente nos meios de

mídia, na política e nas universidades

de todo o mundo, inclusive do

Brasil. Ai deste mundo se agíssemos

como nossos inimigos o fazem...

Somente ditaduras querem calar

a boca daqueles que discordam dela

pela violência, pelo assassinato, pela

imposição de idéias e comportamentos.

É a maneira nazista de ser.

E depois este islamo-fascismo ainda

reclama dos ataques que recebe.

Em que mundo vivemos... para onde

caminhamos?

* Daniel Benjamin Barenbein é é jornalista, trabalha no site de combate a

distorção na imprensa, “De Olho na Mídia” (www.deolhonamidia.org.br). É

coordenador do movimento juvenil Betar de SP e exerce voluntariamente

cargos de Hasbará na Organização Sionista de São Paulo, Espaço K e Aish

Brasil, e orador nas sinagogas Beit Menachem e Kehilat Achim Tiferet.

Possui um livro publicado na internet sobre neonazismo digital:

www.varsovia.jor.br

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

A causa de Israel

Edgard Leite Castro *

m 1967, o filósofo marxista

Herbert Marcuse proferiu uma

série de conferências na Universidade

Livre de Berlim, reunidas

em “O fim da utopia” (Siglo XXI, 1968).

No decorrer dos debates defendeu de forma

incisiva a causa de Israel. “Não posso

esquecer”, afirmou, que os judeus “por séculos

foram perseguidos e oprimidos e que

seis milhões deles foram aniquilados não

faz muito tempo. E quando se cria para

esses seres humanos um espaço no qual

não precisam mais temer a perseguição e

a opressão, tal coisa constitui um objetivo

com o qual me declaro identificado...

celebro coincidir nisto com Jean-Paul Sartre,

que disse: ‘o único que deve ser evitado,

a qualquer preço, é uma nova guerra

de extermínio contra Israel’”.

Essa identificação com Israel possui profundidade

histórica. Os movimentos revolucionários

europeus lutaram sempre contra o

sistema social e econômico expropriador que

engendrou, entre outras violências, a intolerância

étnica e religiosa. Especialmente

contra o anti-semitismo, gerador de atrocidades

e reprodutor da ignorância. Para

os que viveram o final da guerra havia clareza

de que a partilha da Palestina fora

uma grande vitória da justiça e uma ação

libertadora. A decisão das Nações Unidas

reconheceu direitos, tanto dos judeus que

ali viviam quanto dos árabes. Convidouos

à coexistência e entendimento. Israel

representou não apenas a realização de

uma esperança milenar e o reconhecimento

universal da dolorosa trajetória de um

povo, mas o triunfo humanista da tolerância.

“Existe na esquerda”, portanto,

continuou, “uma identificação muito forte

e muito compreensível com Israel”.

Mas Marcuse lembrou que desde o início

“os representantes árabes — e não

quaisquer representantes — declararam firmemente,

e em voz alta, que se deve fazer

contra Israel uma guerra de extermínio...”.

Tal atitude se identificava com as forças

que tinham sido derrotadas em 1945. A

afirmação de Ahmadinejad [presidente do

Irã], proclamando a necessidade do extermínio,

ou a do Hamas [movimento no

poder na Autoridade Palestina desde as

eleições legislativas de janeiro], recusando

a resolução da ONU, de 1947, dão continuidade,

portanto, a primitivos movimentos

reacionários. Marcuse levantou ainda

uma outra questão. A atitude de intolerância

foi evidente desde o princípio,

mas a posição dos soviéticos, a partir de

determinado momento, perturbou um entendimento

correto do assunto. Segundo

ele, “o conflito entre Israel e os Estados

9

árabes se converteu desde muito em um

conflito entre os EUA e a União Soviética,

e saiu do âmbito local”. Isso propiciou que

“fosse fácil identificar Israel com imperialismo,

e a causa árabe com anti-imperialismo”.

Fácil, mas não verdadeiro. No que

diz respeito a Israel, segundo Marcuse,

“propostas de entendimento foram formuladas

por Israel reiteradamente e essas propostas

sempre têm sido rechaçadas pelos

representantes árabes”. Isto é, não foi Israel

o primeiro responsável pelo confronto.

Sempre buscou a conciliação e apenas

se defendeu, mesmo, segundo ele, em

1967. Além do mais, Israel se constituiu

como sociedade democrática, fortemente

influenciada pelos ideais socialistas. Não

fazia muito (1950) que Martin Buber afirmara

a existência de dois núcleos socialistas

no mundo: Moscou e Jerusalém (Caminhos

de utopia, FCE, 1955). E não o fez

de forma retórica: o papel da economia

socializada era grande, e ainda é significativo,

em Israel.

O anti-americanismo não se constitui,

por si só, prova de política progressista,

assegurou, sensatamente, Marcuse. Os EUA

são atacados pela esquerda, mas também

pela direita, e por diferentes razões. Lembremo-nos

do similar erro de Gandhi, no

limiar da II a Guerra Mundial. O Mahatma

buscou o apoio de Mussolini, pela única

razão de ambos serem hostis aos ingleses.

Nada mais equivocado. A reação que se desenvolve

no mundo muçulmano desde 1945

é, em geral, retrógrada e reacionária. Volta-se

contra Israel. Mas, através dele, também

contra o liberalismo e o direito laico

ocidental e os princípios da soberania popular.

Em um sentido mais amplo, é hostil

ao socialismo, evidentemente. Insiste,

com crescente virulência, na força da ignorância

religiosa e na intolerância política.

Afunda suas sociedades em autocracias

retrógradas e corrompidas. Que os

povos árabes e muçulmanos necessitavam

de revoluções parecia claro a Marcuse, mas

revoluções libertadoras e democráticas.

Por essas razões, Marcuse defendeu, em

Berlim, no distante 1967, não apenas os

vietcongs, mas também a causa de Israel.

Sem dúvida, os árabes, os iranianos ou os

curdos — e todas as nações e pessoas —

têm direitos à autodeterminação, a um lugar

no mundo. Mas não a partir do extermínio

de outros povos e seres humanos.

Quando Sartre sustentou que “o único que

deve ser evitado, a qualquer preço, é uma

nova guerra de extermínio contra Israel”,

pensava certamente que a causa de Israel

não pertence apenas aos israelenses ou aos

judeus. É uma causa da Humanidade. Símbolo

da vitória contra o poder aniquilador

da ignorância. Verdadeira e virtuosa.

* Edgard Leite Castro é professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ.


10

* Breno Lerner é

editor e gourmand,

especializado em

culinária judaica.

Escreve para revistas,

sites e jornais. Dá

regularmente cursos e

workshops. Tem três

livros publicados,

dois deles sobre

culinária judaica.

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Breno Lerner*

o princípio eram os vegetais...

Na criação D-us reserva

como alimento ao homem “...

todas as plantas que dão sementes

e todas as árvores em que haja

fruto que dê semente...” (Gen 1:29).

Assim, o cardápio inicial devia ser

composto de trigo, cevada, centeio,

aveia, painço entre os grãos. As sementes

deveriam ser o girassol, gergelim,

linho ou linhaça, abóbora e

outras frutas. As oleaginosas: lentilhas,

ervilhas, talvez o amendoim,

quem sabe a soja.

Berinjelas, pimentões, melões,

pepinos, eventualmente quiabos abobrinhas

e feijão de corda eram as

suculentas mais consumidas.

Das frutas, neste primeiro momento,

as cítricas e aparentemente as

palmáceas.

Das nozes, amêndoas e pecans.

Ou seja, o plano original era que

o homem comesse plantas e frutas.

Ocorre que após o pecado original,

o homem é expulso do paraíso

e condenado a tirar da terra o

seu sustento, sendo incluídas em

sua dieta as folhas verdes – a relva

-, até então reservadas aos animais

(Gen 3:17,19).

Possivelmente passam a fazer

parte da dieta a couve, a endívia,

a escarola, a couve-flor e provavelmente

nabos e beterrabas numa etapa

posterior.

Carne e peixe são adicionados ao

cardápio humano após o dilúvio.

D-us, após sentir o aroma da fumaça

do sacrifício ofertado por Noé

(Gen 8:21) concede aos homens to-

A dieta bíblica

dos os animais que se movem (Gen

9:2) como alimento, apesar de já

proibir o consumo de sangue.

É também após o dilúvio que o

homem conhece o vinho e seu primeiro

“porre”. Noé planta a vinha,

colhe a uva, faz o vinho e o bebe

bem bebido (Gen 9:21).

Vinho e bebedeira que, aliás, na

história de Lot, vão ser pano de fundo

de um dos momentos mais escabrosos

da história bíblica (Gen

19:31,38).

Mais à frente serão diferenciados

os animais puros dos impuros bem

como restrições ao consumo de gordura

(Lev 7:23,24) e até restrições a

glutonice (Provérbios 23:2).

Na chegada à Terra Prometida são

introduzidos o leite e o mel, na verdade,

o equilíbrio entre o carboidrato

(leite) e a proteína (mel).

Aliás, uma leitura genérica do

texto sagrado nos leva a uma sensação

de que o autor gostaria de uma

dieta mais vegetariana e menos carnívora.

A carne é mais reservada aos

sacrifícios, festas, visitas, oferendas.

Tem todo o código de impureza a ser

respeitado, restrições diversas a seu

consumo, a restrição maior de não

mistura com o leite, enfim, tudo leva

a crer numa forte preferência pelo

alto consumo de vegetais.

Alto lá diriam os médicos e nutricionistas.

E as proteínas? De onde tiraria

o homem bíblico suas proteínas?

Até onde sabemos, o alimento

mais completo que o homem conhece

é o leite materno, ele contém ou

deveria conter tudo que um ser humano

necessita para uma alimentação

100% equilibrada.

Pois bem, pasmem, apenas 1,5 %

de seu total é proteína, ou seja, um

bom prato de brócolis tem mais proteínas

que uma mamadeira!

Em outras palavras, mais uma vez,

o escritor do texto sagrado, mostra

seu conhecimento da natureza humana,

seu comportamento e suas

necessidades.

Conhecimento este que é consagrado

e definitivo no que tange

à dietas na história de Daniel, que

terá sido não apenas o inventor

da primeira e bem sucedida dieta

como também o precursor do método

científico com controle de

amostragem, 2.000 anos antes de

Sir Roger Bacon.

Em 586 A.C. Nabucodonosor in-

vade Jerusalém, destrói o Templo e

leva cativo o povo judeu para a Babilônia,

naquilo que convencionouse

chamar primeira diáspora. Desta

época vem a narração do Livro de

Daniel e sua curiosa dieta.

O grande Nabucodonosor pretendia

converter os jovens judeus aos

costumes e à religião local, ordenando

ao seu chefe dos eunucos, Aspenaz,

que lhes desse nomes babilônicos

e os alimentasse com o melhor

de sua cozinha e seus melhores vinhos,

corrompendo assim suas mentes

e seus costumes.

Daniel e três de seus amigos,

Hananias, Misael e Azarias recusamse

a aceitar seus novos nomes Beltessazar,

Sadraque, Mesaqu e Abede-Nego

e principalmente a comida

e o vinho.

Após muita conversa com Aspenaz

que teme ter sua cabeça cortada

por causa dos quatro rebeldes,

combinam fingir aceitar seus nomes

e fazem um trato com o cozinheiro

real. Durante 10 dias receberão

apenas legumes e água. Se,

ao cabo de dez dias, não estiverem

em condições melhores que os outros

jovens, não criarão problemas

a Aspenaz e ao cozinheiro.

Passados os 10 dias e comparados

ao grupo de controle estão muito

mais saudáveis e corados que os

outros jovens, ficando assim isentos

da comida impura e do vinho e

sendo levados à presença do rei

como sábios. O resto da história

todos sabemos e, quando os persas

chegaram e Nabucodonosor já tinha

morrido louco, lá estava Daniel,

aguardando Ciro.

Estudando-se o que comiam os

caldeus na época é de se presumir

que Daniel e seus amigos tenham rejeitado

carneiro temperado com muita

cebola, alho-porró e algumas ervas.

Possivelmente galinhas, pombas

ou tordas, sempre assados ou fritos

em gordura animal.

Alguns peixes de mar, não muitos

e sempre grelhados diretamente

no fogo. Tudo sempre com pouco sal

embora ele já fosse bem conhecido.

A pimenta já era também utilizada

e apreciada.

Devem também ter recusado vinhos

de alta graduação alcoólica,

que eram bebidos diluídos em água

ou misturados com ervas.

Por outro lado devem ter comido

lentilhas, trigo e cevada, sempre

cozidos, em papas ou em farelo,

apenas temperados com sal e

uma ou outra erva. Eventualmente

nabos ou abóboras ensopados ou

em purê. Faziam-se conservas, mas

acredito que devido às restrições

ao vinho, Daniel e seus amigos não

as experimentaram.

A dieta babilônica já incluía folhas

verdes e frutas, mas o texto do

livro de Daniel refere-se exclusivamente

a uma dieta de legumes.

Fica aqui então, uma sugestão bíblica,

para uma dieta, que vai te deixar

mais saudável e mais corado (a)...

Diverso estudo médico e sociológico

tem abordado esta inclinação

do texto sagrado por uma dieta vegetariana.

Pouco se concluiu das

razões que levaram a esta conduta.

Povos nômades teriam como base de

sua dieta os vegetais e o leite e seus

derivados, mas consumiam naturalmente

a carne. A aceitar-se o dilúvio

como fenômeno universal, é de

se supor uma mudança de hábitos

alimentares uma vez que, com todas

a vegetação destruída, o homem teria

de servir-se um pouco mais da

caça para alimentar-se.

Todavia, toda constituição biológica

e física do homem, o prepara

para ser onívoro, mas com bons

dentes caninos e excelente aparelho

digestivo e enzimático, apto a

consumir carne duas vezes ao dia,

por maiores danos que isto cause

no longo prazo.

Será que o autor do texto bíblico

já sabia de tudo isto?

Como sempre, muito provavelmente,

sim...

Mês que vem tem mais papo de

cozinha.


Ativistas da comunidade

Nathan Paciornik nasceu em Vatin, então

Rússia, hoje Polônia. Filho de Scholem Modche e

Rivke Paciornik, que tiveram onze filhos, oito do

sexo masculino e três do sexo feminino.

Em casa, Nathan era chamado de Nuchen, e

era o quarto filho da longa escada. Cordial, nas

brigas e discussões da irmandade, perdia sempre,

e evitava isso o mais que podia.

Ao chegar a época de servir o exército, cada

família tinha que ceder um filho. Em vez do mais

velho, Max, Nathan falseia a idade e vai em seu

lugar. Assim, por três anos serve como cavaleiro

do Exército Russo, responsável pelos cavalos de

tração dos canhões. Saindo do exército, conhece,

encontra-se e casa em Reize (Rosa).

Já com uma filha, Ester, de 1 ano, em 1912,

vem atrás dos manos, Rafael e Salomão, para longínquas

plagas do Paraná. Habituado com a vidinha

de Vatin, onde se trabalhava na mata com

madeira e lenha, procurava semelhança, em São

José dos Pinhais. No tempo em que todo mundo

fabricava pão em casa, monta uma fábrica de

broas, mas não progride em face de pouca freguesia.

Na procura de ambiente iídiche, muda-se

para Curitiba. Rua Visconde do Rio Branco, campo

da Galícia, reduto de imigrantes poloneses

para onde transfere sua fábrica de broas.

Nela trabalhavam Nathan, o Juca e o Negrinho

que entregava a broa a domicílio.

O Nathan contava que na madrugava do meu

parto, nervoso, fora do potreiro, hoje Praça de

Poti, no escuro, como encontrar a parteira que

tinha que me ver nascer?

Surpreso encontra o negrinho que o ensinou

onde residia a parteira.

Conheci o Negrinho e foi meu amigo. Mais tarde,

com os irmãos Max, Salomão, Germano, Chico

e Bernardo abrem a firma Irmãos Paciornik, ao lado

da Igreja da Ordem, com Secos e Molhados. Em

pouco tempo transforma-se na maior firma atacadista

do Paraná. Neste tempo, chega da Áustria,

uma família judaica, os Benjamin Schargel, pais

de Helena, esposa do dr. Moyses Paciornik, que na

Europa fabricavam sabão. O sr. Benjamin foi contratado

pelos Paciornik, que lhes ensinou como se

fabricava sabão em pedra que tinha o nome de

Veado em homenagem ao nobre e bonito animal.

Com a fabricação do sabão Veado, o produto

ganhou fama, teve enorme aceitação e até de

outros Estados vieram pedidos.

O que está escrito acima me foi cedido pelo dr.

Moyses Paciornik, filho do sr. Nathan Paciornik.

Quando eu vim para Curitiba em 1942, o dr.

Nathan

Paciornik

Moisés Bronfman *

Manoel Scliar havia sido eleito presidente do Centro

Israelita do Paraná e procurava um secretário

executivo para o CIP. Os meus irmãos que já estavam

aqui informaram a ele que eu chegaria dentro

de alguns dias e tinha condições de assumir. Cheguei

em março de 1942, e na primeira reunião da

diretoria compareci, fui sabatinado e aprovado.

O tesoureiro era o sr. Nathan Paciornik. Ele me

disse: “Amanhã você vai na minha fábrica” à Rua

João Negrão, 586 e eu te explico tudo o que fazer”.

No dia seguinte fui até lá, e ele, muito gentil e

atencioso, me deu um livro de atas, para as reuniões

de Diretoria, às quais eu devia comparecer,

e uma lista de sócios de 120 pessoas, que eu deveria

visitá-los e fazer um cadastro. Antes de sair

ele me deu cem mil réis e disse: costumo pagar

adiantado. Este é teu salário. Fiquei emocionado,

porque eu fui o primeiro funcionário remunerado

do Centro Israelita, e o fato de ele estar pagando

adiantado era uma prova de bondade, que mais

tarde eu reconheci, com sua convivência, o homem

maravilhoso que ele sempre foi.

Nathan Paciornik foi um dos veteranos da coletividade

Israelita Paranaense que mais se destacaram

nos trabalhos sociais, tornando parte ativa na

fundação e no desenvolvimento de todas as organizações

e instituições existentes em Curitiba.

A primeira atuação iniciou em 1913, como

um dos fundadores da primeira congregação Israelita,

denominada “União Israelita do Paraná”,

sendo presidida por Max Rosenmann.

Em 1917, ano da “Declaração Balfour”, foi fundada

em Curitiba a organização sionista Shalom Sion

e Nathan Paciornik filiou-se aos sionistas, colaborando

com afinco em todas as suas atuações.

Foi uns dos fundadores e membro ativo da

Escola Israelita, da Chevra Kadisha, do Centro Israelita.

Colaborava com denodo em todas as campanhas

nacionais, bem como em todos os empreendimentos

em prol do bem coletivo.

Pelos seus relevantes serviços prestados, a

Assembléia da Chevra Kadisha reunida em 1950

distinguiu Nathan Paciornik com o título de Presidente

Honorário. Mas por motivo de saúde afastou-se

das atividades sociais em 1953.

Nathan e a esposa d. Rosa, tiveram quatro

filhos: Esther Pechman, casada com David Pechman;

Moyses Paciornik, médico, casado com Helena

Schargel Paciornik; Rafael Paciornik, médico,

já falecido, e Ernani Paciornik, do comércio,

falecido moço, que foi casado com Sofia Nemetz.

Nossa homenagem a este homem que foi muito

importante para a nossa comunidade e parabéns

aos seus filhos, netos e bisnetos.

* Moisés Bronfman é médico e empresário, decano dos ativistas da comunidade de Curitiba. Teve uma intensa vida na

coletividade por mais seis décadas e ainda participa ativamente dela. É uma espécie de memória viva das bases da atual

coletividade. Ajudou na construção da Sinagoga Francisco Frischmann, do Centro Israelita do Paraná (CIP), da criação

da B’nai B’rith e da Loja Chaim Weizmann, do Fundo Comunitário, do Instituto Cultural Brasil-Israel e do Grêmio

Esportivo do CIP. Esta coluna é publicada sob os auspícios do Instituto Cultural Judaico-Brasileiro Bernardo Schulman.

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

O LEITOR

ESCREVE

Shaná Tová

Amigos do Visão:

A todos os chaverim e chaverót

do jornal Visão Judaica, e a

todos os membros do ishuv de Curitiba,

um Shana Tová.

Paulo Cesar da Silva

Curitiba – PR

Shaná Tová 2

Prezados:

Aos amigos de Visão Judaica e

da comunidade, desejamos um

ano fraterno e de grandes realizações.

Shana Tová.

Ruth Kaiser Lamega e família

Por e-mail

Shaná Tová 3

Senhores diretores:

Desejo a vocês do jornal Visão

Judaica e a todos os judeus, povo

que o Criador escolheu, que o ano

de 5767 seja de alegria, vitórias

e que a paz de que o judeu tanto

carece por todos esses milênios

chegue. Pensei em vocês nos

momentos que antecederam a

chegada do novo ano. E perguntei

ao Criador por que não apressar

a vitória desse povo e conceder-lhe

a paz de que tanto precisa.

E por que não se aquietarem

seus inimigos na Terra. Pois, se

Ele deu aquele pedaço de terra

11

ao seu povo, aquietem-se os

que não são os verdadeiros herdeiros

da promessa. Gostaria de

ver Israel em paz antes de partir

desta vida. Peço ao Criador,

que escolheu vocês, que me

deixe ver a paz em Israel. D-us

os abençoe, do fundo do meu

coração. Felicidade para todos,

Daniel Pinheiro Junior

Por e-mail

Pilar Rahola

Ao diretor de redação:

Gostaria de parabenizar a jornalista

e escritora Pilar Rahola

por sua inteligência; amei ler

os textos dela.

Maria Cristina dos Santos

Por e-mail

Aos Srs.

Diretores:

Descobri o jornal Visão Judaica

em um consultório e achei o

máximo. Vocês estão de parabéns

pela excelência dos artigos

publicados, que por sinal

são altamente esclarecedores.

Muita coisa que nos é impingida

a respeito dos judeus, de

Israel e de todo o Oriente Médio

é falsa. Grato por nos fazer

ver a verdade.

Lucas Videira Antunes

Curitiba - PR

Para escrever ao jornal Visão Judaica basta passar um fax pelo

telefone 0**41 3018-8018

ou um e-mail para visaojudaica@visaojudaica.com.br

Renove sua assinatura

do Visão Judaica

Em outubro começam as

renovações e o VJ tem uma

promoção promoção especial especial para você:

As duas primeiras renovações

serão premiadas com o livro

"Bíblia Hebraica", recém lançado

pela Editora e Livraria Sêfer.

E brindes para os dois próximos

assinantes que renovarem.

MAS ATENÇÃO!

Para efeito da premiação, valem apenas os

quatro primeiros boletos bancários pagos.


12

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Um Klimt roubado

pelos nazistas é o quadro

mais caro da história

quadro tinha sido devolvido

em janeiro à neta do rosto

que lhe dá nome, Maria Altmann,

depois de sete anos de

batalha judicial entre ela e o governo

austríaco.

Desde então, o retrato de Adèle

Bloch-Bauer, de Gustave Klimt, acumula

outra anedota na trepidante

história de seu século de vida. Após

superar os 104,1 milhões de dólares

pagos num leilão público por

“Garotos com pipa”, de Picasso, tornou-se

o quadro mais caro da história:

135 milhões de dólares. Pintado

em 1907 e transformado num

dos ícones mais reconhecidos da

pintura do século XX, foi roubado

pelos nazistas durante a Segunda

Guerra Mundial.

Agora mudou de mãos. O comprador

dessa obra de arte austríaca

magnífica não é outro senão o magnata

da indústria cosmética Ronald

S. Lauder. “É nossa Mona Lisa”, declarou

o também co-fundador da

Neue Galerie de Manhatan, o museu

nova-iorquino dedicado à arte alemã

e austríaca onde está sendo exposto

o retrato de Adèle Bloch-

Bauer, junto com outros quatro Klimt

que pertenciam à família.

Maria Altmann, de 90 anos, vive

em Los Ángeles e teve que lutar durante

sete anos para recuperar o

quadro de sua avó, a mulher de um

industrial judeu dedicado ao açúcar,

considerado uma das obras-primas

do pintor.

Retrato de Adele Bloch-Bauer I, 1907, óleo e dourado sobre

canvas, 138 x 138 cm

Finalmente, o governo austríaco

devolveu-lhe o retrato junto

com os outros quatro Klimt da coleção

familiar.

A soma exata pela qual foi vendido

o quadro é confidencial, mas

Maria Altmann confirmou que supera

o que foi pago por “Garotos

com pipa” de Picasso. O The New

York Times publicou a cifra de 135

milhões de dólares.

“É uma compra de uma vez na

vida”, disse Lauder, que não confirmou

a soma. A Neue Galerie foi fundada

por Lauder há cinco anos e expos

as cinco pinturas de Klimt desde 13

de julho até o mês de setembro.

Devolução

Maria Altmann e outros integrantes

da família Bloch-Bauer, defendiam

a propriedade do óleo, que

tinha sido roubado pelos nazistas

durante a Segunda Guerra Mundial.

Os Bloch-Bauer tiveram que fugir

do país europeu quando os nazistas

tomaram o poder em 1938.

Um tribunal de Viena determinou

em janeiro passado que a custódia

da obra, junto com outras

quatro também roubadas pelos nazistas,

fossem entregues à reclamante

e sua família. Uma lei austríaca

de 1998 estabelece que os museus

devem devolver as obras confiscadas

pelos nazistas. O governo austríaco -

que inicialmente se negou a devolver

a pintura - considerou a obra demasiado

cara para adquiri-la.

O lote devolvido inclui três paisagens

de Klimt entitulados “Apfelbaum”

(Macieira), “Buchenwald/Birkenwald”,

e “Hauser in Unterach am

Attersee” (Casas en Unterach, a margem

do lago Attersee).

Gustav Klimt nasceu em Baumgarten,

nas cercanias de Viena em

14 de julho de 1862 e viveu na Viena

de Sigmund Freud. No final do

século XIX, era uma cidade na qual,

frente à moral estabelecida, crescia

um novo clima mais erótico e complexo.

A lenda conta que no ateliê

do pintor, uma casa de um andar

rodeada por um belo jardim silvestre,

as mulheres passeavam desnudas

o tempo todo. Ali, ele as pintava

em todas as formas possíveis:

jovens, anciãs, grávidas, sozinhas,

com homens ou com outras mulheres.

Fonte: El País, BBC).

Caros senhores terroristas

Começou a época das manifestações.

Leio agora que, só em Londres,

milhares de pacifistas saíram à rua

para marchar contra a guerra no

Oriente Médio. Nada a opor. Marchar

contra a guerra é simpático. Mais

ainda: é cômodo. Você pode não

saber nada sobre o conflito, nada

sobre as razões do conflito, nada

sobre as conseqüências do conflito.

Mas é contra. Ser contra é a absolvição

do pensamento: uma forma tranqüila

de colocar a flor na lapela do

casaco e mostrar a sua vaidade moral

ao mundo. Hitler invadiu a Polônia,

exterminou milhões de judeus e

procurou subjugar um continente

inteiro? O pacifista é contra. Contra

quê? Contra tudo: contra Hitler, contra

Churchill, contra Roosevelt. Contra

Aliados, contra nazistas. E quando

os nazistas entram lá em casa e

se preparam para matar o pacifista,

ele dispara, em tom poético: “Não

me mate! Você não vê que eu sou

contra?” É provável que o nazista se

assuste com a irracionalidade do pacifista

e desapareça, correndo.

Capitão: “Eu não mandei você

matar o inimigo?”

Soldado: “Sim, meu capitão. Mas

ele era contra. Fiquei com medo.”

O pior é que os pacifistas que

saíram à rua não são contra tudo.

Eles só são contra algumas coisas, o

que torna o caso mais complexo e,

do ponto de vista paranóico, muito

mais interessante. Lemos as palavras

de ordem e ficamos esclarecidos.

“Não ataquem o Irã”. “Liberdade para

a Palestina”. “Tirem as mãos do Líbano”.

Imagino que alguém deixou

em casa as frases sacramentais. “Irã

só quer paz”. “Hezbolá é gente séria”.

“Israel é racista; não gosta de mísseis”.

Essa eu entendo. Israel retirou

do Líbano em 2000. Retirou de Gaza

em 2005. O Líbano e Gaza, depois

da retirada, transformaram-se em

parque de diversões para terroristas

do Hezbolá e do Hamas (leia-se: do

Irã e da Síria) que tinham por hábito

seqüestrar soldados israelenses e

lançar rockets para o interior do estado

judaico. Israel, inexplicavelmente,

não gostava de apanhar com

mísseis na cabeça, marca visível da

sua intolerância. Os pacifistas de

Londres deveriam denunciar essa intolerância:

um Estado que retira dos

territórios ocupados e, ainda por

cima, não gosta de ser bombardeado,

não merece o respeito da “comunidade

internacional”.

E a “comunidade internacional”

não respeita. Desde o início das hostilidades,

no sul do Líbano, regres-

João Pereira Coutinho *

saram acusações conhecidas de “desproporção”

e “matança indiscriminada

de civis”. Apoiado: as acusações,

não os ataques. Se Israel não gosta

de ser bombardeado, deveria refrear

seus ímpetos belicistas e escrever

uma carta aos senhores terroristas.

Para explicar o desconforto da situação.

Exemplo:

“Caros senhores terroristas,

Boas tardes.

Nós sabemos o quanto vocês gostam

de bombardear as nossas cidades,

apesar de termos voluntariamente

retirado dos vossos territórios.

Longe de nós condenar a forma gentil

como gostais de matar o tempo.

Mas lançar rockets para o interior de

Israel não mata só o tempo; também

mata pessoas que estão nas ruas, nos

mercados, nos cafés. Seria possível

parar com esse desporto?

Nós, judeus, sabemos que o pedido

é excessivo, na medida em que,

segundo opiniões dos senhores terroristas,

que nós compreendemos e até

respeitamos, desde 1948, ano da fundação

de Israel, que nós não temos

qualquer direito à existência. Mas não

seria possível chegar a um entendimento,

apesar da palavra ‘entendimento’

ser ofensiva para a cultura dos

senhores terroristas? Dito ainda de

outra forma: não seria possível que o

lançamento de rockets ocorresse apenas

em dias salteados? Por exemplo:

às segundas, quartas e sextas? Os seqüestros

seriam apenas às terças e

quintas, de preferência mais ao final

da tarde, depois da saída do trabalho,

para deixar o jantar já pronto.

O pedido pode parecer excessivo

mas gostaríamos de lembrar aos senhores

terroristas —e, por favor, não

vejam nas nossas palavras qualquer

crítica— que nós tivemos essa gentileza:

avisar as populações civis de

que o sul do Líbano seria atacado,

pedindo-lhes que se retirassem. Estamos

conscientes, e por isso nos

penitenciamos, que esse aviso às

populações civis acaba por retirar

valioso material humano que os senhores

terroristas gostam de usar

como escudo para exibir na televisão.

Mas não seria possível substituir

seres humanos por sacos de areia,

mais fáceis de usar e controlar?

Uma vez mais, queiram-nos perdoar

a ousadia da sugestão. Estamos certos

de que a racionalidade das nossas

propostas será recebida com a irracionalidade

dos vossos propósitos”.

Depois, era só enviar a carta e,

estou certo, esperar pela resposta.

Que viria, como vem sempre, voando

pelos ares.

* João Pereira Coutinho é colunista da Folha de S.Paulo. Reuniu seus artigos no livro

“Vida Independente: 1998-2003”, editado em Portugal, onde vive. Escreve

quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha On-line. Publicado em 24/7/2006 .


Um novo anti-semitismo

orrem tempos violentos.

Alguns crêem que vivemos

um novo tipo de

conflito: as “guerras culturais”.

Por exemplo, entre muçulmanos

sunitas e xiitas, ou entre islamistas

e ocidentais. No entanto, é

muito provável que as razões de alguns

destes conflitos sejam tradicionais.

Pertencer a um determinado grupo

cultural é só um pretexto para as

batalhas entre os vencedores e os

perdedores da globalização. Líderes

implacáveis mobilizam seguidores

desorientados e, no caso particular

dos perdedores, até podem induzilos

a empreender ações suicidas contra

o suposto inimigo.

Talvez não devêssemos nos surpreender

que em tais tempos ressurja

o mais antigo de nossos ressenti-

mentos perversos e letais: o anti-semitismo.

Retorna em sua forma clássica:

ataques individuais, como o

recente assassinato de um jovem judeu

na França, ou contra sinagogas,

cemitérios e outros lugares simbólicos.

Mas também há um sentimento

mais generalizado de hostilidade

contra todo o judeu.

Caberia supor que o Holocausto

acabou definitivamente com o

anti-semitismo, mas não foi assim.

Há aqueles que negam o Holocausto

ou que tenha acontecido da forma

perfeitamente documentada, em

que ocorreu.

Seus negadores vão desde historiadores

de menor importância, como

David Irving, até políticos aparentemente

populares, como Mahmoud

Ahmadinejad, presidente eleito do

Irã. As provas do que fez a Alemanha

nazista são tão irrefutáveis que tal-

vez nem sequer fizesse falta encarcerá-los

e, desse modo, atrair até eles

mais atenção da que merecem.

A fonte mais inquietante do

anti-semitismo é outra. É justo,

pois, falar de um “novo anti-semitismo”.

Tem a ver com Israel, a única

nação bem sucedida do Oriente

Médio que, além disso, é muito militarizada,

é uma potencia ocupante

e uma defensora implacável de

seus interesses.

Parece difícil exagerar o estranho

sentimento dos ocidentais para com

a Palestina. Poderíamos chamá-lo

“romanticismo”. Assim expressaram

intelectuais como Edward Said, já

falecido, mas tem muitos adeptos

nos Estados Unidos e na Europa. Glorificam

os palestinos como as vítimas

da dominação israelense. Falam

do tratamento que recebem os palestinos

israelenses: cidadãos de segunda

classe, no melhor dos casos.

Citam os numerosos incidentes opressivos

nos territórios ocupados. Implicam

o explícito, se põem ao lado

das vítimas, enviam-lhes dinheiro,

até declaram lícitos os atentados

suicidas e se afastam cada vez mais

do apoio a Israel e de sua defesa.

É certo que, em teoria, podemos

opor-nos às políticas de Israel sem

ser por isso anti-semitas. Além disso,

há muitos israelenses que as criticam.

Não obstante, cada vez custa

mais manter a distinção. Os judeus

da diáspora se sentem obrigados a

defender (com razão ou sem ela) o

país que, apesar de tudo, é sua última

esperança de segurança. Por isso,

seus amigos vacilam em falar claro:

temem ser tachados não só de hos-

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Ralf Dahrendorf * tis a Israel, como também de anti-

Charge publicada no jornal Chicago Tribune, em 19 de julho

semitas. A atitude defensiva dos judeus

e o silêncio incômodo de seus

amigos indicam que o cenário do

debate público está aberto para os

verdadeiros anti-semitas, mesmo que

se limitem a falar mal de Israel.

O anti-semitismo é repugnante,

seja qual for a forma que adote. A

educação e o debate não bastam para

lutar eficazmente contra o novo antisemitismo.

Ele está ligado a Israel.

Nós que pertencemos

a uma geração que con-

sidera Israel uma das

grandes conquistas

do século XX e o

admira pelo modo

em que deu um orgulhoso

lar aos perseguidos

e oprimidos,

nos inquietamos

particularmente diante

da possibilidade de que

hoje em perigo.

13

* Ralf Dahrendorf integra

a Câmara dos Lordes, na Grã-

Bretanha. Tradução para o espanhol

de Zoraida J. Valcárcel e publicado no

jornal La Nación em 20.3.2006. O texto

está em http://www.lanacion.com.ar/

opinion/nota.asp?nota_id=790259.

Traduzido para o português

por Szyja Lorber, para o jornal

Visão Judaica.

Chavez e Ahmadinejad são parte do novo anti-semitismo


14

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Os judeus secretos

VJ INDICA

Sobreviventes da Inquisição reunidos na Catalunha pedem ao Grão Rabinato o retorno ao povo de Israel

venerável rabino Boaron

não dava crédito ao que

viam seus olhos. Francesc

Bellido de Sant Feliu desenrolava

com esmero um talit que sua

mãe lhe havia tecido quando era um

menino, 60 anos atrás, para que seguisse

os preceitos de sua religião

secreta. Branco com faixas azuis em

seus extremos, o manto de oração

judaico não se diferenciava em nada

do que sua própria mãe havia legado

a ele ou a milhões de judeus em todo

mundo. O extraordinário era que Bellido

tinha nascido e crescido em Cirat,

no inacessível interior de Castellón,

numa terra onde oficialmente

os judeus tinham-se acabado cinco

séculos antes, quando os Reis Católicos

lhes deram para escolher entre

o exílio e a conversão.

Boaron, o braço direito do Grão

Rabino de Israel, esteve com uma delegação

religiosa em Barcelona em 31

de março e em 1º de abril (no dia 2

visitaram o antigo bairro judeu [judería]

de Girona) para ouvir os casos

de dezenas de descendentes de

conversos da península Ibérica que

pedem o direito de pertencer ao povo

de Israel. O que pareceu mais extraordinário

à comissão é que a maioria

destas pessoas conservou não só a memória,

mas também rituais e tradições

de seus antepassados israelitas.

Bellido recitou orações em hebraico

que sua mãe lhe havia ensinado,

explicou que acendia as velas

LIVRO

E. Casanova *

Viagem ao fim do milênio –

Romance da Idade Média

Autor: Abraham B. Yehoshua

do Shabat, que fora instruído no

cumprimento dos preceitos e inclusive

recitava algum velho provérbio:

“De Sefarad (Hispânia) soy un jayao

(soldado)/ fablo el safá (idioma) castellano/

como el más puro villano/

que nunca cató el jalá (pão sabático)”.

Em sua casa de Cirat (no Alto

Mijares valenciano, de língua castelhana),

Bellido mantém uma mezuzá,

a cápsula com orações que todos os

lares judaicos colocam no umbral da

porta. Contudo, eles a tinham no

interior, já no hall ou ante-sala, e

coberta com gesso. Outros objetos

rituais, como a menorá, o candelabro

de sete braços, estavam escondidos

num armário.

O caso de Bellido se repete em

todo o território ibérico, onde muitas

famílias conservaram através das

gerações traços judaicos e, em alguns

casos, os preceitos completamente.

É impossível dar cifras, porque continuam

escondidos, mas as pessoas que

se dizem descendentes de israelitas

são vários milhares. “Em toda parte,

nas 52 províncias espanholas, há judeus

secretos, mas a Espanha continua

sendo um país muito anti-semita

e ainda não nos sentimos seguros”,

diz um valenciano que prefere

que seu nome não apareça.

A persistência do judaísmo está

documentada na Espanha e Portugal

até os finais do século 18, 300 anos

após o decreto dos Reis Católicos.

Os arquivos da Inquisição revelam dezenas

de milhares de casos de heresia

até essas datas. Os historiadores

Na passagem do milênio cristão, uma pequena caravana liderada pelo mercador

Ben-Atar deixa as praias de Tânger, no norte da África, com destino a Paris, a

aldeia mais próspera do reino dos francos. A bordo de um velho navio-patrulha, Ben-Atar

segue acompanhado de suas duas esposas e do sócio Abu Lutfi. Os comerciantes se preparam para desembarcar

mais uma preciosa carga de mercadorias, enquanto esperam ansiosos pelo encontro com o terceiro

sócio, Abuláfia, que lhes fará o relatório sobre a venda das mercadorias trazidas no ano anterior. A viagem

se dá num contexto histórico definido, nos primórdios do intercâmbio mercantil entre os povos separados

pelo Mediterrâneo. Ben-Atar cruza o mar em busca de bons negócios, mas se defrontará com situações que

vão muito além da simples troca de mercadorias. Judeu sefaradita entrará em choque com a tradição

asquenazita, para a qual a bigamia é uma prática inaceitável. Numa recriação brilhante do mundo

medieval do século X, A. B. Yehoshua traça os contornos da cultura judaica dividida por duas tradições - a

asquenazita e a sefaradita - que ainda hoje demarcam afinidades e diferenças para Israel.

asseguram que mais da metade dos

judeus evitou o exílio convertendose

ao cristianismo, mas a maioria também

continuou praticando clandestinamente

a religião de seus pais.

Assim, nasceram os criptojudeus, que

foram chamados também de marranos,

um nome que se conserva muito vivo

em muitas famílias portuguesas.

Quando o tribunal capturava um

herege acusado de judaizar, imediatamente

caíam parentes e amigos de

distintos pontos da Espanha e Portugal,

porque durante séculos os

criptojudeus mantiveram uma rede

de contatos que lhes permitia ajudar-se,

reunir-se para as festas e fazer

casamentos, sem os quais a tradição

teria desaparecido. Os judaizantes

desaparecem dos arquivos justamente

quando o Santo Ofício que

os perseguia se modera, no final do

século 18, e, finalmente, abolido em

princípios do 19.

Um presunto à mostra

A também valenciana Marina de

Paz Peris conta como seus avós paternos

acendiam no povoado galego

de Rivadavia as velas do Shabat dentro

de uma caçarola para que seus

vizinhos não as percebessem e que

de menina descobriu em seu sótão

livros escondidos escritos “com casinhas”,

que mais tarde soube que

era o alfabeto hebraico. Sua avó

materna guardava as aparências culinárias

para evitar que fosse descoberta.

A Inquisição processou muitíssimos

suspeitos por cozinhar com azeite

vegetal ou por não consumir porco.

“Eu sempre vi um presunto na despensa

- conta Marina —, que devia

ser herdado, porque estava há anos ali,

para que os vizinhos o vissem”.

A avó dava de presente os coelhos

que criava (proibidos pela lei

rabínica) aos vizinhos; “em troca,

frangos não presenteava nem um”. A

família de Marina de Paz teve que se

fazer equilibrismo durante o período

franquista para ocultar sua verdadeira

religião. Quando em algum ato social

recusavam o porco, alegavam que

engordava, e diziam que o marisco

produzia-lhes desarranjos. Quando

eram convidados a um casamento

chegavam sempre no final da missa,

“com a desculpa da modista ou de

um sapato estragado”, porque tinham

restrições para entrar na igreja.

A família ajeitou-se também para

obter um lote no cemitério sem uma

só cruz, onde também eram enterrados

ateus e suicidas. Quando em

1948 fundou-se o Estado de Israel,

37 de seus primos emigraram em massa

protagonizando uma aliyá (originalmente

retorno, mas hoje significa

imigração) incrível para o mundo, porque

teoricamente os judeus não existiam

mais em Sefarad há séculos.

Marina, que tem 55 anos, conheceu

a rede clandestina que unia os

judeus ibéricos. Quando completou

18 anos, seus pais levaram para casa

alguns jovens para que se casasse

dentro do grupo. “Era uma espécie

de serviço secreto criptojudeu. Havia

aqueles que colocavam em contato

as pessoas, e a mim trouxeram

rapazes de Córdoba, de Navarra e

mesmo de Valência, e algum centroeuropeu,

de famílias que se relacionavam

com meus pais”, conta.

A comissão rabínica ouviu também

representantes lusos. Em Portugal

— onde os judeus foram convertidos

a força, sem a possibilidade de

exilarem-se — foram mantidas algumas

comunidades perfeitamente constituídas,

e durante as décadas de

1920 e 1930 houve um importante

movimento, a Obra do Resgate, que

levou muitos marranos à sinagoga e

criou escolas para as crianças.

Outro grupo que explicou seu caso

aos rabinos foi o dos chuetas, os

maiorquinos (da Ilha Maiorca) portadores

de 15 sobrenomes, descendentes

dos últimos conversos que sofreram

represálias da Inquisição nos finais

do século 17, que estiveram estigmatizados

até faz muito pouco,

porque viviam agrupados no velho call1 de s'Argenteria de Palma. Após Barcelona,

a comissão israelense viajou

a Maiorca e a Oporto. O rabino Boaron

declarou-se impressionado pelos

testemunhos que tinha escutado e reconheceu

Sefarad como terra de judeus.

Segundo suas palavras, existe

uma boa disposição do Grão Rabinato

para que os bnei anusim (os filhos

dos forçados) regressem ao povo de

Israel com todas as honras.

1 - Call significa sinagoga.

E. Casanova é autor do livro ‘Els jueus

amagats. Supervivents de la Inquisició a

la Sefarad del segle XXI’ [Em catalão ‘Os

judeus amistosos. Sobreviventes da Inquisição

na Sefarad do século XXI’].


Simchat Torá

Em Simchat Torá (“Júbilo da

Torá”) concluímos, e recomeçamos

o ciclo anual de leitura da Torá. O

evento é marcado com muita alegria,

e hacafot, feita na véspera

e na manhã de Simchat Torá, na

qual dançamos com os Rolos de

Torá ao redor da bimá. Durante

a leitura da Torá, todos, incluindo

crianças abaixo da idade de

bar-mitsvá, são chamados à Torá;

assim a leitura é feita inúmeras vezes, para que todos recitem a

bênção sobre a Torá neste dia.

Três rolos são tirados da Arca para leitura. No primeiro, a última

porção da Torá - Vezot Haberachá - é lida e relida muitas vezes, até

que todos tenham sido chamados à Torá. Então meninos que ainda

não têm bar-mitsvá (não completaram treze anos) são chamados à

Torá juntamente com um membro destacado da sinagoga. Em seguida

à bênção Hamalach hagoel (O Anjo que redime) com a qual

Yaacov (Jacó), abençoou os filhos de Yossef (José), é pronunciada

em nome dos meninos.

Para a porção de encerramento chama-se alguém de destaque que

recebe a denominação de “Noivo da Torá”. Outro membro é então

convocado para a primeira porção de Bereshit, que é lida no segundo

Rolo da Torá e é denominado “Noivo de Bereshit”.

Finalmente o Maftir, trecho dos profetas que acompanha a leitura

da Torá, é lido no terceiro Rolo da Torá. Dessa maneira, a leitura da

Torá prossegue porção por porção durante o ano todo, durante todas

as épocas, em um eterno ciclo que quando parece se encerrar,

logo depois recomeça ininterruptamente.

Isto mostra que não há fim na Torá, que deve ser lida e estudada

constantemente, mais e mais, pois a Torá, como o próprio D-us que

a deu para nós, é imorredoura. Cumprindo-a, nosso povo forma o

terceiro elo na eterna união entre D-us, a Torá e Israel.

(www.chabad.org.br).

Shemini Atsêret

Em conexão com a festa de Shemini Atsêret (o Oitavo Dia de

Assembléia), nossos sábios nos contam uma bela parábola:

Um rei certa vez promoveu uma grande festa e convidou príncipes

e princesas a quem apreciava muito para seu palácio. Tendo

passado vários dias juntos, os hóspedes prepararam-se para ir embora.

Porém, o rei lhes disse: “Peço-lhe, fiquem mais um dia comigo,

é difícil ficar longe de vocês!”

Assim acontece conosco, nossos sábios concluem a parábola.

Passamos muitos dias felizes na sinagoga. D-us deseja nos ver por

mais um dia na sinagoga, e por isso Ele nos concede uma festa

adicional - Shemini Atsêret.

Em algumas congregações é costume fazer Hacafot (danças com a

Torá) na noite de Shemini Atsêret, assim como na noite de Simchat Torá.

Sucot é a Festa da Colheita quando a produção dos campos era

colhida e o dízimo era separado, de acordo com o mandamento da

Torá, e dado aos levitas e aos pobres. A leitura da Torá no Serviço

Matinal de Shemini Atsêret fala do mandamento de dar o dízimo.

O serviço de Mussaf, Prece Adicional, é assinalado pela prece

especial com pedidos para que haja chuva. (www.chabad.org.br).

ocê sabia que as Colônias do Golan

pertenciam ao Reino de David na

antiguidade e que, muitos judeus

lá moravam em épocas recentes?

Hoje se fala demais e se conhece de menos,

abocanha-se a história como algo que pode ser

mudado ao bel prazer de quem a interpreta como

se fosse sua propriedade particular.

Você sabia que a Palestina foi o nome dado

pelos romanos à antiga Judéia dos hebreus, no

Oriente Médio, há milênios atrás pelo último

Imperador romano Adriano, em 135 d.c?

Você já ouviu falar que os turcos otomanos

dominaram o Oriente Médio e parte da Europa

durante 400 anos e só perderam junto com a

Alemanha e o Império austro-húngaro na 1ª

Guerra Mundial, que durou de 1914 a 1918,

para os países da Europa, no Tratado de Versalhes

em 1918?

Você tinha conhecimento de que a maioria

dos países árabes de hoje foram criados

pela Inglaterra e pela França (que tanto abominam)

e doados à famílias abastadas da região,

um, dois ou três anos antes da criação

do Estado de Israel, (que teve o aval do ONU

que os outros não tiveram), após a 2ª Guerra

Mundial, vencida novamente pelos aliados e

pelos Estados Unidos?

Na conferência do Cairo, Churchill já havia

desenhado o mapa do Oriente Médio, que se

tornou em grande parte protetorado britânico

e protetorado francês.

Chamou Faiçal, filho do xerife de Meca (sunita),

como Rei de um território formado por

três províncias otomanas (Basra, Bagdá e Mosseul)

e deu-lhe o nome de Iraque.

Ao sul, Ibn Saud fundava a Arábia Saudita

com o aval da Inglaterra.

O reino Hachemita da Jordânia só teve a sua

independência em 1946, um ano antes de Israel.

Sob a custódia da França a vilayot de Allepo

se juntou à vilayot da Síria, que continha o

distrito de Damasco e virou a Síria. A Síria só

se tornou independente em 1946, um ano antes

de Israel.

Os distritos de Tripoli e Beirute formaram o

Líbano somente em 1943, 4 anos antes de Israel.

Uma faixa de terra composta pelos distritos

de Jerusalém, Nablus e Acre, ficou também como

mandato britânico, a terra dos judeus, antiga

palestina histórica, e em reunião da ONU, foi

resolvido em 1947, sob a égide do Chanceler

Oswaldo Aranha, portanto com o aval completo

do Brasil, que seria dividido em um Estado judeu

e outro árabe.

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

15

O que nos

conta a históriaEdda Bergmann*

O Império Otomano fora assim fatiado e,

graças aos ingleses, os árabes garantiram praticamente

todo o Oriente Médio, com apenas

duas famílias mandatárias, os Hachemitas

e os Sauditas.

Assim os árabes tornaram-se senhores do

Oriente Médio otomano, os turcos otomanos ficaram

com a Ásia Menor e a Anatólia e seus vizinhos

e inimigos históricos, ficaram com o Irã.

Mas o Estado de Israel ao ser criado em

1947-48, foi invadido pelos países árabes recém-criados,

que não achavam bastante o que

tinham conseguido e após uma luta desigual e

cheia de atos de heroísmo por parte dos judeus,

sua independência foi concretizada.

Seis guerras se sucederam com o intuito de

jogar os judeus ao mar, mas foram todas vencidas

por Israel.

Os judeus mostraram que estão lá para ficar

e para valer, sendo a única democracia do Oriente

Médio que não pertence a uma família, e

não é fruto do acaso, mas da história contemporânea

que representa, reconhece e endossa

o passado e seus habitantes.

Este caminho de querer varrer Israel do

mapa, um Estado soberano, livre e democrático,

criado pela ONU, com o voto da maioria

dos países do mundo, que preza e exercita

sua cidadania e acaba de livrar o Líbano da

ocupação dos foguetes, mísseis e armas do

Hezbolá, um grupo terrorista da Síria e do

Irã que pretendia dominá-lo e torná-lo dependente

de suas vontades inexoráveis, não

vão deixar as coisas acontecerem.

Ameaçar Israel tem um preço, muito alto por

sinal, os países árabes que se cuidem.

O sindicato dos trabalhadores da Universidade

de São Paulo, apregoando ao público em

discussões, passeatas, manifestações e oratórias

o fim do Estado de Israel, sua varrição do

mapa, “Os protocolos dos sábios de Sião” (uma

falsificação histórica) e seu ódio gratuito e

imponderável aos judeus em geral, estão optando

por um desvio de comportamento e por

criar no Brasil um comportamento antidemocrático,

que não coincide com as diretrizes históricas

e políticas do nosso Brasil, que é um

país e não dará guarida à ditaduras, venham

elas de onde vierem.

Vivemos num país democrático onde faremos

valer nossos direitos, o Brasil tem uma grande

influência histórica judaica através de sua população

de cristãos novos e de muitas mesclas

populacionais, para se dar ao luxo destes tipos

de comportamentos inadequados, incoerentes,

extemporâneos e contrários às leis vigentes.

*Edda Bergmann é vice-presidente Internacional da B’nai B’rith.


16

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Palavra de

Ratzinger

efender Ratzinger. Estranha situação

para alguém que, como

eu, diverge dezenas de povos de

sua concepção do mundo. E não

só porque ele habita na gramática do

intangível e eu sou uma impenitente cidadã

do racionalismo, mas porque quando atua no

terreno, suas idéias sociais estão nos meus

antípodas. Não me agrada o Vaticano nem

por sua discriminação sexual, nem por sua

homofobia, e sua atitude no terceiro mundo,

contrária à anticoncepção, me parece

seriamente irresponsável. Reconheço que a

espiritualidade deste papa me comove quase

tanto como sua densa cultura, mas seu mundo

e meu mundo palpitam em mundos distintos.

Todavia, e parafraseando a famosa frase,

daria o que fosse para que Ratzinger pudesse

defender suas idéias contrárias às minhas;

essa é a raiz da liberdade, seu profundo

compromisso: garantir o cadinho, assegurar

a pluralidade. E é o cadinho de idéias,

o direito de pensar mais além dos medos e

das ameaças, o que resulta frontalmente atacado

nestes tempos.

Falamos de Ratzinger, mas falamos também

de Theo Van Gogh, de Salman Rushdie,

dos chargistas dinamarqueses, de Ayan Hirsi

Alli, do escritor Naguib Mahfuz, cuja morte

recente nos recordou o calvário que sofreu

nas mãos da intolerância. Todos eles foram

responsáveis por lesa culpa em opinar mais

além da comodidade, talvez além da corrente

e, sem dúvida, mais além da prudência. E

todos deixaram pelo caminho muita pele,

violentados, ameaçados, inclusive assassinados.

É Ratzinger o mesmo que Rushdie? Se

parece com a provocação profana dinamarquesa?

Tem algo a ver com a denúncia de

Van Gogh? Todos têm a ver com o mesmo, se

atreveram a opinar criticamente sobre o islã

e padeceram as conseqüências.

Para começar, Bento XVI já pediu precipitadamente

perdão, num ato de genuflexão

pública que estranhamente se dá no Vaticano.

O fez por convicção ou o fez obrigado

pela histeria desatada no islã? A evidência

da resposta poupa o texto. Novamente, pois,

o mundo amanheceu com manifestações à

solta, com igrejas queimadas, com parlamentos

pedindo explicações e com os gurus do

islã exigindo penitência.

E tudo isso aconteceu porque Bento XVI

disse que a jihad é contrária a D-us, e que a

violência não é compatível com a religião.

Ou seja, tem o meio mundo muçulmano sublevado

por ter sido coerente com o catecismo.

Um homem de D-us assegura que, em

nome de D-us, não se pode matar. E tem que

pedir perdão…

Pilar Rahola*

Eu sei. Seriam muitas as arestas do tema.

Para começar, Ratzinger lidera uma religião

que teve sua jihad nos tempos dos cruzados,

e que também, em nome da religião, defendeu

todo tipo de violências. Sem ir mais longe,

o cristianismo é o principal responsável

pela loucura histórica do anti-semitismo. Mas

também é certo que muitas são as reflexões

críticas do próprio cristianismo, e que a Nostra

Aetate supõe uma fronteira definitiva com

seu passado. E o é ainda mais sua designação

dos valores democráticos das sociedades

nas quais vive. Seja como for, Ratzinger

poderia ter partido da própria culpa cristã

para aterrissar na inequívoca culpa islâmica,

e poderia ter usado textos históricos menos

antipáticos como exemplo, mas nada do que

foi dito justifica a violência de rua e de taverna

que estão gerando suas palavras. O tema

não é o que Ratzinger disse, sobretudo porque,

matizes à parte, o dele é de um sentido

comum inapelável. O tema é a falta absoluta

de cultura democrática que afoga o islã e

que nos afoga a todos.

Não me cansarei de dizer que, sem dúvida,

há um islã de paz, mas também há um

islã de guerra, e da mesma forma que em

nome de Alá se conjuga o verbo amar, hoje,

em nome de Alá, também se conjuga o verbo

matar. Milhares de mortos, de Nova York

até Atocha, de Beslan até Bombaim, avalizam

isso tragicamente. E o mais trágico não

é que o islã radical esteja seqüestrando a

imagem de todo o mundo muçulmano. O

mais trágico é que o mundo muçulmano

pacífico não se manifesta, não critica, não

se rebela, mas se cala.

Os poucos Mahfuz e Rushdie que levantam

a voz vivem um calvário. Pessoalmente

creio que uma comunidade diversa, complexa,

heterodoxa como a islâmica não pode ser

reduzida à imagem simplista e malvada que o

próprio fundamentalismo tenta dar. Mas, para

isso, é necessário que surjam seus próprios

Ratzingers e que o mundo islâmico diga, de

própria voz, que a jihad é contrária a D-us.

Infelizmente vivemos uma trágica inversão

de valores: as vozes surgem massivas, histéricas

e ameaçadoras, para violentar os críticos.

Milhares vociferando nas ruas porque um

Papa falou contra a violência. Onde estão

esses milhares quando, em nome de seu deus,

se massacram cidadãos em trens, ônibus e

aviões? Há um Islã que está muito doente e,

por infelicidade, é, o Islã que impõe sua voz.

Esse Islã hoje silencia Ratzinger e ontem o

fez com outros. Por isso me atrevo a dizer

que as desculpas do Papa não são um êxito

da prudência, são uma derrota da razão. Uma

quebra, — outra —, da liberdade.

* Pilar Rahola é jornalista, escritora e tem programa na televisão espanhola. Foi vice-prefeita

de Barcelona, deputada no Parlamento Europeu e deputada no Parlamento espanhol.

Publicado no El Periódico, de Barcelona. Tradução: Szyja Lorber.

OLHAR ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

HIGH-TECH

○ ○

Sistema de água da era bíblica

Arqueólogos de Israel desenterraram

um antigo sistema de água modificado

pelos persas para transformar o

deserto num paraíso. A rede de reservatórios,

dutos de escoamento e

túneis subterrâneos atendeu um dos

grandes palácios do reinado bíblico

da Judéia. Os arqueólogos descobriram

o palácio em 1954, uma estrutura

construída sobre uma área de 2,4

hectares onde hoje está a fazenda

coletiva de Ramat Rachel. Mas escavações

recentes desenterraram quase

70 metros quadrados de um sistema

de água considerado único. O sistema

foi construído no final da Idade

do Ferro, passando pelo período

bíblico, até o século VII, afirmou

Oded Lipschits, arqueólogo da Universidade

de Tel Aviv. A infra-estrutura

do palácio foi redesenhada ao

longo dos séculos para atender às necessidades

dos babilônios, persas,

romanos e hasmoneus que governavam

a Terra Santa, disse o cientista,

que comanda as escavações ao lado

de um acadêmico da Universidade de

Heidelberg, Alemanha. (Reuters).

Sistema de água da era bíblica II

Mas foram os persas que renovaram

o sistema de águas e o transformaram

em algo de grande beleza. Segundo

Lipschits, os persas acrescentaram

pequenas quedas d’água ao

sistema tentando transformar o deserto

em um paraíso. “Imagine que

nessa terra havia plantações e água

correndo”, afirmou o cientista. “Alguém

considerava a estética algo

importante e não desejava se sentir

em um remoto canto qualquer do

deserto”. Yuval Gadot, arqueólogo

especializado no período bíblico, também

da Universidade de Tel Aviv, participa

das escavações. Ele disse que

os cientistas não sabem exatamente

como o sistema funcionava. “Provavelmente,

a água das chuvas descia

do teto das casas [do complexo do

palácio]”, afirmou. “A partir dali, por

meio de escoadouros, ela era levada

até piscinas ou reservatórios subterrâneos

antes de chegar aos campos

de plantio próximos dali ou a

belos jardins”. Por séculos, o suprimento

de água tem sido um dos assuntos

mais delicados do Oriente

Médio, uma região dominada por

desertos. (Reuters).

Mosaicos milenares em Jerusalém

Arqueólogos israelenses descobriram

na cidade velha de Jerusalém dois

mosaicos milenares, um debaixo do

outro e acredita-se que decoravam a

casa de uma família abastada da

época do Segundo Templo. Com forma

e desenho de tapete, os mosaicos

foram descobertos no chamado

Recinto Herodiano, situado na parte

judaica da cidade antiga e um dos

principais parques arqueológicos da

cidade. Os arqueólogos consideram

que ambos procedem da segunda

metade da Era do Segundo Templo,

um período que se estende do ano

538 a.C até o redor de 132 d.C. Foi a

recuperação do primeiro mosaico

mediante uma técnica conhecida

como “levantamento”, ou seja, a introdução

de uma rede na parte inferior

para erguê-lo de seu lugar, o que

deixou à mostra o segundo mosaico,

que era um piso anterior da mesma

casa. Após um árduo processo de

conservação, ambos ficaram expostos

no recinto que foram encontrados,

um deles colocado numa parede.

(Haaretz/Rádio Chai).

Israel competitivo

Este ano Israel passou da 23ª posição

no ranking da competitividade

global para a 15ª, o que colocou o

país entre as economias mais competitivas

do mundo, segundo a edição

2006-2007 do Relatório de Competitividade

Global do Fórum Econômico

Mundial. Israel superou países

como Canadá, França, Espanha, Itália

e Austrália. As conquistas mais

significativas israelenses concentramse

nas áreas de prontidão tecnológica,

technological readiness — categoria

na qual subiu da 20ª para a 3ª

posição — aperfeiçoamento da administração

macroeconômica, eficiência

de mercado e diversas áreas de

infra-estrutura. Alavancada por fatores

externos, como o aumento da

atividade econômica global e do comércio

mundial, e a recuperação do

setor high-tech, a competitividade de

Israel também cresceu devido a reformas

significativas de regras aliadas

à disciplina fiscal. (weforum.org)

Competitivo II

A área que apresentou avanços mais

impressionantes foi o mercado financeiro,

altamente desenvolvido para os

padrões regionais e internacionais.

Isso se explica pelos efeitos da revolucionária

reforma do mercado de

capitais, entre outras coisas, segundo

o relatório do Fórum Econômico

Mundial. O relatório explica que Israel

beneficiou-se do desenvolvimento

de uma cultura de inovação, apoiada

por instituições de educação de primeira

classe e pela pesquisa científica,

“tornando-se um gerador mundial

de tecnologia, e está começando

a colher efeitos favoráveis na

economia, uma excelente promessa

para o futuro”, na avaliação do economista

e chefe da Rede de Competitividade

Global do Fórum Econômico

Mundial, Augusto Lopez Claros.

(weforum.org).


VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Nem tudo é o que parece ser

Roberto Musatti * gem, completavam esta estrutura, toneladas de bombas na região xiita veis, sem que nenhum protesto te-

financiada e entregue pelos aiato- de Beirute, continha ‘apenas’ o nha sido feito pela França ou por Kofi

preocupante crise do

Oriente Médio assumiu

tons que nos evocam o

celebre bordão do shampoo

‘Denorex’ de algum tempo

atrás. No novo mundo globalizado

onde as noticias, os comentários

e as imagens viajam na velocidade

digital e em tempo real - vemos uma

outra batalha sendo travada, de guerrilha

e sem quartel: a batalha pela

conquista da opinião pública, correta

ou não.

As previsíveis coberturas jornalísticas

do atual conflito no Líbano

e Israel, mostram compenetrados jornalistas

reportando de áreas arrasadas,

mulheres em prantos incontidos,

feridos em hospitais, protestos em

funerais - tudo parte de um script

de teatro de horror e sofrimento

humano, que estes produtores acreditam

ser o material que mais galvaniza

a atenção de espectadores

em todo o mundo. Estão apenas

lás xiitas do Irã via Síria.

O governo Baath da Síria, por sua

vez, ao ver frustradas suas intenções

imperialistas da ‘Grande Síria’ com a

retirada de seus 15 mil soldados do

Líbano em 2005, deixou com o Hezbolá,

boa parte de seu armamento

russo de última geração. Em 31 de

janeiro deste ano, 12 caminhões carregados

de mísseis foram parados

pelo exercito libanês após cruzarem

a fronteira com a Síria e liberados

em seguida, por ordem expressa do

governo libanês, (agora no papel de

‘inocente traído’) para serem entregues

ao Hezbolá.

Criou-se no Líbano, dentro de

Beirute, uma nação iraniana xiita,

com exercito, ministros, parlamentares

burocratas, estação de TV (Al-

Manar) e até policia própria. Não era

possível entrar no conjunto de prédios

na região sul de Beirute, sem

identificação própria ou documento

do Hezbolá.

bunker subterrâneo central de comando

do Hezbolá, construído por

engenheiros iranianos especializados

em instalações nucleares. Pistas de

aeroportos, estoques de combustíveis,

pontes e estradas foram destruídas

por serem vitais para a locomoção

dos mísseis e suas plataformas

de lançamento. O que as imagens

não mostram é o resto de Beirute

e Tiro, até agora intactos.

Antes de atacar vilarejos, casas,

hospitais e creches usados como

base de ataque e estoque de mísseis

do Hezbolá no sul do Líbano, milhares

de panfletos são jogados pela

aviação de Israel pedindo que a população

civil saia face o iminente

perigo. Enquanto isso, mais de 2 mil

mísseis já foram disparados pelo Hezbolá

contra as cidades de Israel, indiscriminadamente

e de forma criminosa,

contendo centenas de bolinhas

de chumbo objetivando atingir

o maior número de civis possí-

Annan, rápidos em censurar as incursões

de Israel.

Existem dois grandes receios de

conseqüências por trás do atual conflito:

A) que os sunitas, maioria nos

demais países árabes, que consideram

os xiitas como traidores e fonte

principal dos terroristas do Al Qaeda

– desfechem ataques a alvos ocidentais

em todo o mundo como forma

de concorrência com o prestigio

atual do Hezbolá. B) que o Hezbolá

em desespero, ative suas células de

terror fora do Oriente Médio e ataque

comunidades judaicas, como fez

na Argentina em 93 e 94, com centenas

de mortos e feridos.

Nem tudo é o que parece, especialmente

no jogo de inte- * Roberto Musatti é

resses do Oriente Médio. É de economista pela USP

se lamentar que ‘no frigir dos

e mestre em

Marketing (Michigan

ovos’ vitimas inocentes, in-

State) e Professor

clusive brasileiras, sejam ape- Universitário.

nas estatísticas.

servindo de marionetes para os radicais

islâmicos.

Para quem ousasse desafiar este

poderio, a lembrança o recente as-

‘Israel, agora no papel de agressassinato do ex-premiê libanês (antisor,

está destruindo o Líbano e ponxiita e sírio) Hariri servia de intimito

final!’ ‘A pequena e frágil nação libanesa

sucumbe com seus milhares de

refugiados, ao poderio imperial do 4º

exercito mais poderoso do mundo que

reage com desproporção e insensibilidade’.

‘Os surpresos e inocentes políticos

libaneses apelam à consciência

do mundo ocidental, diante deste

‘tsunami’ militar em seu país!’

Por trás desta ‘cortina de fumaça’

se escondem varias realidades

dação e manteve políticos e o exercito

libanês dóceis e coniventes.

O objetivo iraniano é o de ter

‘uma ponta de lança’ na garganta de

Israel e dos EUA, caso estes resolvessem

tomar medidas militares contra

seu programa militar nuclear, essencial

para efetivar o domínio xiita

até a península arábica. A idéia, como

afirmou nesta semana seu líder Nasrallah,

é “tornar a vida dos israelen-

Justiça Eleitoral do RS retira do ar

propaganda de cunho anti-semita

Manifestações em programa eleitoral do festação de candidato afirmando que a paz

candidato a deputado estadual Julio Flores somente será possível com a extinção do

(PSTU) pedindo o fim do Estado de Israel Estado de Israel e a criação de uma palesti-

foram objeto de apreciação da recém- criada na não racista onde convivam todas as reli-

comissão jurídica da FIRGS - CALE (Comitê giões: Irregularidade que se ostenta por

bem diferentes, parte de um plano ses impossível em Israel”. Poucos de Ação Legal). Com a gravação comprovan- evidenciar a mensagem ofensa à ordem ju-

estratégico muito bem elaborado. países se sujeitariam a esta ameaça. do as manifestações, a comissão entrou em rídica brasileira e a princípios fundamen-

Israel está atacando a região geográfica

do Líbano (e não o país)

para destruir o grupo terrorista militar

Hezbolá, que ali se instalou

criando um estado dentro de outro

estado, objetivando a total destruição

do Estado de Israel. “Desde a

saída do exercito de Israel do sul

do Líbano em 2000, estivemos nos

preparando para este dia”, dizem os

comandantes desta milícia.

E se prepararam muito bem, a

ponto de serem mais poderosos que

a muitos dos exércitos regulares árabes.

São 30 mil homens, armados

com 12 mil mísseis de diversas capacidades

e poderio, capazes de

atingir grandes populações civis em

Israel. Mísseis antitanque, RPG -

bunkers, túneis, fortificações, plataformas

moveis de lançamento,

equipamentos de visão noturna,

A tecnologia israelense de ponta,

os seus satélites que monitoram

objetos até 3 metros do solo, conseguiu

até agora orientar as incursões

aéreas e de artilharia, para que

atingissem seus alvos, causando o

menor número possível de baixas civis,

proposta quase impossível, visto

que boa parte da estratégia do

Hezbolá é manter seus armamentos

e disparos atrás de escudos humanos

- os ‘sahids’ ou mártires, voluntários,

ou não. Quanto maior o número

destes mortos, melhor para sua

campanha de mídia - é o ‘efeito Jenin’

(o massacre étnico de 2002 que

nunca ocorreu): como a família

morta na praia em Gaza (que de

míssil israelense passou à mina do

Hamas) e as vitimas dos bombardeios

no Líbano - que sempre são

só crianças e mulheres.

contato com os procuradores dos Ministérios

Públicos Eleitorais. O Ministério Público

Federal, após exame aprofundado da matéria,

encaminhou representação à Justiça

Estadual eleitoral, obtendo desde logo liminarmente

a retirada das palavras consideradas

ofensivas aos princípios fundamentais

do Estado Brasileiro. Ao sentenciar, o juiz

João Carlos Cardoso Branco, acolhendo o

mérito da representação, determinou a exclusão

definitiva do âmbito da propaganda

eleitoral, com base no artigo quarto da Constituição

Federal brasileira, segundo o qual a

República rege-se nas suas relações internacionais

pela autodeterminação dos povos,

defesa da paz e solução pacífica dos conflitos.

O texto da ementa da decisão do Poder

Judiciário eleitoral é o seguinte:

Representação – propaganda irregular –

horário eleitoral gratuito de rádio – manitais

que regem as relações internacionais

do Brasil, na conformidade do art. 4º da CF,

extrapolando o direito de livre manifestação

do pensamento – aplicação do disposto

no artigo 243 do Código Eleitoral e § 2º

do artigo 53 da lei nº 9504/97 – proibição

de reapresentação da propaganda. Representação

acolhida.

A propaganda eleitoral impugnada e à

qual o Poder Judiciário determinou fosse

excluída do horário eleitoral gratuito atenta

contra os princípios democráticos e de

direito que estão na Constituição e garantem

a dignidade da pessoa humana. Com

esta decisão judicial entende a Federação

Israelita do Rio Grande do Sul ter cumprido

com um dos seus objetivos que é a defesa

da comunidade judaica e a preservação de

seus valores. (Federação Israelita do Rio

Grande do Sul - Depto. de Comunicação).

torres de comunicação e espiona- A ‘mesquita’ bombardeada com 26

17


18

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Léia Hecht foi empossada como

presidente da Na’amat Pioneiras-Brasil.

Estão sob sua coordenação,

Centros de Na’amat

de 10 estados brasileiros (Amazonas,

Pará, Rio Grande do

Norte, Ceará, Bahia, Minas Gerais,

Rio de Janeiro, São Paulo,

Paraná e Rio Grande do

Sul), que trabalharão em prol

da elevação do status da mulher

e sua família. A cerimônia

de posse da nova presidência

encerrou o XVI Kinus Artzi

(Congresso Nacional) de

Na’amat Pioneiras Brasil, realizado

a cada três anos alternadamente

nas cidades de São

Paulo e Rio de Janeiro, e que

teve como tema este ano ‘A Missão

de Na’amat Brasil para o

Século XXI’, desde 1948.

Max Rosenmann foi reeleito deputado

federal, com 116 mil votos, ficando em

10º lugar entre os deputados mais votados

do Paraná. Ganha o Estado e a Comunidade

Israelita do Paraná. Mazal Tov!

No dia 19/9 a Sociedade Brasileira dos

Amigos da Universidade Hebraica de Jerusalém,

presidida no Brasil por Morris Dayan,

entregou o Prêmio Scopus a José Mindlin,

por sua contribuição à educação e cultura

do Brasil. O evento aconteceu na residência

de Morris Dayan, e contou com a presença

de personalidades ligadas à cultura

e educação brasileira, e lideranças da comunidade

judaica.

Morris Daian e José Mindlin

O Prêmio Scopus é concedido anualmente, pela

Sociedade Amigos da Universidade Hebraica de

Jerusalém a pessoas que se destacam em suas

áreas de atuação, e leva esse nome por remeter

à localização da Universidade, que fica no Monte

Scopus, em Jerusalém, Israel. Dentre os já

agraciados com o prêmio, destacam-se o ministro

Gilberto Gil (2005), Roman Polansky, Frank

Sinatra, Itzhak Perlman, Edward Kennedy Zubin

Mehta e o Dalai Lama, entre outros.

No Kinus Artzi da Na'Amat Pioneiras as dirigintes da entidade em todo o

Brasil. A primeira à esquerda é a curitibana Marina Hasson

O encontro foi realizado entre os dias 30/8 a 3/9 em São

Paulo, reunindo 115 voluntárias do Brasil, e contou com a

participação especial da coordenadora do Departamento de

Relações com a Diáspora de Na’amat Israel, Shirli Shavit. A

Na’amat é uma Organização Feminina Judaica Beneficente,

atuando em vários países, e no Brasil existe.

Aconteceu em São Paulo, no Buffet

França, o “Encontro de Mil Mulheres”

que o Beit Chabad realiza

todos os anos antes de Rosh Hashaná.

Impressionou a organização do

evento: recepcionistas para encaminhar

as pessoas para suas mesas,

mulheres trabalhando com listas,

para formarem grupos de rezas

de salmos (que é muito bem

feito por aqui também), listas percorrendo

o salão, para recolher

nomes para brachot especiais, etc.

Foram distribuídos “kits” contendo

uma belíssima gravura com a

Reza para o Lar, o calendário para

o ano de 5767, bênçãos anteriores

e posteriores a alimentos e um

adesivo, para se colocar na geladeira,

com o horário do acendimento

das velas no Shabat e nos

dias festivos.

Foram reservadas duas mesas para

a turma de Curitiba e esta foi homenageada

por ter comparecido

com 13 mulheres, fora as que estão

residindo em SP. Foram servidos

salgados e doces deliciosos com

grife casher do Buffet França.

Para a alegria das curitibanas presentes,

a apresentação do Coral “Pirchei

Chabad” teve um sabor especial.

O coral conta com as belíssimas vozes

de 33 crianças e é regido pelo paranaense,

que está fazendo sucesso em

SP, Hélcio Muller.

O Rabino Chabsi Alpern, dirigiu a

palavra a todas, desejando Shaná

Tová e falando da importância da

continuidade de todo trabalho que

é dever de todo judeu: na ética e na

força moral, que nos foram ensina-

Colabore com notas para a coluna. Fone/fax 0**41 3018-8018 ou e-mail:

visaojudaica@visaojudaica.com.br

das desde o princípio dos tempos. O

encontro terminou com o emocionante

toque do Shofar.

Parabéns a toda equipe, que conseguiu

transformar uma tarde de

2ª feira, num encontro do mais alto

grau de espiritualidade.

Agradecemos todas as mensagens

que recebemos nos desejando um

Shaná Tová.

O 6º Festival de Cinema Brasileiro

em Israel ocorreu em agosto, em

Jerusalém e em Tel-Aviv, com direito

a capoeiristas e sambistas.

Entre os filmes projetados, “Brasília

18%”, “Mulheres do Brasil” e

“Bendito Fruto”. O prêmio de melhor

filme, segundo o júri popular,

ficou com “O casamento de

Romeu e Julieta”.

Foi lançada a revista eletrônica Aliança

Cultural (www.brasilisrael.

com.br), um projeto do Centro de

Mídia Brasil-Israel e da B’nai B’rith

do Rio de Janeiro. Com periodicidade

mensal, ela surge com a intenção

de divulgar ao público brasileiro

notícias sobre cultura, história,

ciência e tecnologia israelenses

e de promover o intercâmbio

entre Brasil e Israel nestas áreas. A

publicação é editada por Janete Cozer,

que já trabalhou inclusive no

Jerusalem Post.

Quatro israelenses estão entre as

mulheres mais importantes do mundo

na lista das 100 personalidades

femininas com maior poder em todo

o mundo, da revista norte-americana

“Forbes”. Safra Catz é a mulher

de Israel mais bem posicionada.

Ela é presidente da Oracle. As

outras são a ministra das Relações

Exteriores Tzipi Livni, a diretora

executiva do Banco Leumi, Galia

Maor, e a diretora da multinacional

Bain and Company, Orit Gadiesh.

Catz, que encabeça a lista das israelenses,

ocupa a 21ª posição, e é

descrita como a mulher mais poderosa

de Silicon Valley, à frente inclusive

da diretora executiva da

eBay.Inc, Meg Whitman.

Sérgio Niskier (esquerda), presidente

eleito da FIERJ, durante o desfile de 7

de Setembro no Rio de Janeiro, com o

marechal Waldemar Levy Cardoso

A vice-ministra e ministra das Relações

Exteriores Tzipi Livni, está em

segundo lugar entre as israelenses,

e em 40º lugar na lista, à frente de

Laura Bush. Galia Maor, do Banco

Leumi, está em terceiro lugar, e é

a número 88 da lista da “Forbes”.

A quarta, a carismática Orit Gadiesh,

está no 99º lugar.

A “Forbes” coloca como número 1 da

lista a chanceler Angela Merkel — em

sua condição feminina — como a

política mais poderosa do mundo,

seguida da Secretaria de Estado Condoleeza

Rica e pela vice-primeira-ministra

chinesa Wo Yi. A senadora por

Nova York, Hilary Clinton, potencial

candidata a presidente em 2008, ocupa

o 18º lugar da lista.

Nasceu em Curitiba, dia 17/9 Gabriel,

filho do casal Daniel e Renata

Naigeboren Benzecry. Os felizes

avós, Clarita e Henrique Naigeboren,

são só sorrisos. Mazal Tov!

O artista plástico Aristide Brodeschi,

responsável pelas belas capas

das edições do jornal Visão Judaica

exibiu suas obras na Exposição

“Harmonias”, do Solar do Rosário,

em Curitiba, de 24 de setembro a 8

de outubro.

A Biblioteca do Exército - BI-

BLIEX – acaba de lançar o livro

“Yitzhak Rabin - o soldado da

paz”, de David Horovitz e outros,

ao preço de R$ 48,00. Aos interessados,

maiores detalhes podem

ser encontrados no site

www.bibliex. com.br. É um livro

irresistível e arrasador, palpitante

e polêmico, incidental e transcendental,

formidável combinação

de jornalismo, história e biografia.

Trabalho de uma equipe

de jornalistas, de origem americana,

que produz uma das melhores

publicações israelenses,

The Jerusalem Report. O livro

está sendo publicado simultaneamente

em seis idiomas e é recomendado.

Informa Israel Blajberg,

do Rio de Janeiro.

Sérgio Niskier, presidente eleito

da Federação Israelita do Estado

do Rio de Janeiro (Fierj) no

dia do desfile de 7 de setembro,

no Rio, cumprimentou o

Marechal Waldemar Levy Cardoso

que, aos 105 anos, é o ultimo

Marechal, sendo o mais antigo

e idoso ex-combatente da

FEB - Força Expedicionária Brasileira,

da qual é o atual detentor

do Bastão Simbólico de

Comando. O marechal Levy descende

pelo lado materno de uma

família de judeus que emigraram

do Marrocos no século 19.


Charles Krauthamer *

hora de examinar de maneira

crítica as crenças

amplamente sustentadas.

Em junho completouse

o 40º aniversário da

Guerra dos Seis Dias.

Ao longo de quatro décadas nos

dizem que a causa da raiva, da violência

e do terror contra Israel é a

sua ocupação dos territórios capturados

nessa guerra.

Ponha fim à ocupação, e “o ciclo

da violência” cessará. O problema

desta afirmação é que antes que

Israel tomasse posse da Cisjordânia

e Gaza, na Guerra dos Seis Dias,

todos Estados árabes tinham rejeitado

o direito de Israel existir, e

declarado as fronteiras pré-1967 de

Israel — que agora se supõe sejam

sagradas — nada mais que linhas de

armistício mantidas temporariamente

e, que não punham fim à guerra

de 1948-49 para aniquilar a Israel.

Mas não é preciso ser historiador

para compreender as intenções dos

inimigos de Israel. Só é necessário

ler os jornais de hoje.

Prova A: Gaza. Apenas em setembro

do ano passado, Israel evacuava

Gaza por completo. Declarou fronteira

internacional a fronteira entre Israel

e Gaza, renunciando a qualquer direito

sobre o território. Gaza se convertia

no primeiro território palestino

independente da história. Mas os

habitantes de Gaza continuaram a

guerra. Transformaram Gaza em uma

base para lançar ataques contra Israel

e para escavar túneis por baixo

da fronteira para perpetrar ataques

como o que matou dois soldados israelenses

em 25 de junho e levou de

volta a Gaza um refém ferido. Os tanques

israelenses tiveram agora que

voltar a Gaza e tentar resgatar o refém

e eliminar o fogo dos mísseis.

Prova B: Sul do Líbano. Duas semanas

depois, a organização terrorista

libanesa Hezbolá, que tem representação

no Parlamento e no Governo

libaneses, lançava um ataque

contra Israel que terminou com a

morte de oito soldados e dois mais

feridos, que foram conduzidos ao

Líbano como reféns.

Qual é o agravo aqui? Israel retirou-se

do Líbano em 2000. Foi tão

escrupuloso na hora de assegurar-se

de que nem uma polegada quadrada

Pelo que lutam

do Líbano ficaria ocupada inadvertidamente

que pediu às Nações Unidas

que verificasse a fronteira exata

que define o limite sul do Líbano, e

se retirou para trás dela. Esta “demarcação”

foi aprovada pelo Conselho

de Segurança, que declarou que

Israel tinha cumprido por completo

as resoluções que exigiam sua retirada

do Líbano. Agravo satisfeito.

Mas o que acontece? O Hezbolá fez

no sul do Líbano exatamente o mesmo

que o Hamas fez em Gaza: converteu-o

em base militar e centro de

operações terroristas para continuar

a guerra contra Israel. O sul do Líbano

deixa os cabelos em pé com os

10.000 mísseis Katyusha do Hezbolá

que pressionam o norte de Israel.

Disparados nas primeiras horas de

luta, apenas 85 deles matavam dois

israelenses e feriam 120 em cidades

do norte de Israel.

Ao longo dos seis últimos anos,

o Hezbolá lançou disparos periódicos

e ataques de morteiros contra

Israel. A resposta israelense foi não

responder a estas provocações, até

o seguinte momento conveniente

para o Hezbolá. No dia 12/7 foi tal

momento. Uma base do terrorismo

localizada em território de ocupação

completamente árabe (o sul do

Líbano) atacou Israel em apoio a

outra base do terrorismo em território

de ocupação completamente

árabe (Gaza).

Por quê?

Porque a ocupação era uma simples

desculpa para persuadir os ocidentais

historicamente ignorantes e

levados com facilidade a apoiar a

causa árabe contra Israel. O tema é,

como foi sempre, a existência de Israel.

Isso é o que está em jogo.

Foi a Organização para a Libertação

da Palestina de Yasser Arafat a

que convenceu o mundo que o problema

era a ocupação. Mas ainda assim,

ao longo de todos aqueles anos

de engodo, o próprio grupo de Arafat

celebrava seu Dia da Fatah anual

no aniversário do primeiro ataque

contra Israel, a destruição do Canal

Nacional de Água de Israel, em 1º de

janeiro de 1965. Observe: 1965. Dois

anos antes da guerra de 1967. Dois

anos antes que Gaza e Cisjordânia

caíssem em mãos israelenses. Dois

anos antes que houvesse algum “território

ocupado”. Mas, de novo,

quem precisa da história? Todas as

desculpas palestinas para continuar

sua guerra caem uma após outra, a

retórica se faz mais sincera e honesta.

Justamente no dia 11/7 passado,

o primeiro ministro palestino,

Ismail Haniya, escrevia no The Washington

Post e se referia a Israel

como “um estado presumidamente

ilegítimo”. Deixava claro que quer

acabar com esta entidade bastarda.

“Ao contrário das representações

populares da crise nos meios de comunicação

americanos”, escreve, “a

disputa não trata somente de Gaza

e Cisjordânia”. Trata de “um conflito

nacional mais genérico” que exige

o cumprimento dos “direitos nacionais

palestinos”.

Isso, é claro, significa direito a

toda Palestina, sem Estado judeu.

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Em 1967 Israel conseguia “os

territórios ocupados”. Em 1948 Israel

conseguia a vida. A luta que ressoa

agora em 2006 entre Israel e o

“islamismo genocida” (para citar o

escritor Yossi Klein Halevi) do Hamas

e do Hezbolá, e do Irã respaldando-os,

trata de se essa vida deveria

continuar existindo e se continuará

a existir.

* Charles Krauthamer é colunista do The Washington Post e Time e Prêmio

Pullitzer de 1987

VJ INDICA

Palavras de amor

FILME

Elenco: Richard Gere, Juliette Binoche, Flora

Cross.

Gênero: drama

Distribuidora: Fox

Disponibilidade: em DVD

A descoberta do talento de uma garota em concursos de soletração, altera todo

o cotidiano de uma família de origem judaica aparentemente perfeita. Com isso, o pai

da jovem, um professor de teologia, torna-se obsessivo no treinamento de sua filha,

atrapalhando a harmonia da casa, que ainda reúne o filho e a sua esposa.

19


20 (com

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

VISÃO

Irving pega três anos de prisão

Ao rejeitar um recurso judicial a Suprema

Corte da Áustria condenou o revisionista

britânico David Irving a três anos de prisão,

por ter negado o Holocausto contra o

povo judeu, confirmando a sentença que

lhe fora imposta em fevereiro deste ano

por um tribunal regional de Viena. A duração

da pena, entretanto, pode ser revisada

numa nova reunião do tribunal regional

de Viena, que seria realizada dentro de dois

meses. Durante seu julgamento, o “historiador”

Irving, de 67 anos, se declarou culpado

pelo crime previsto no código penal austríaco

como “negacionismo”, ou seja, a

negação do Holocausto e dos crimes nazistas

contra a humanidade, que lhe deram

popularidade nos círculos revisionistas de

extrema direita. (Agência Estado).

Por que foi condenado?

A condenação se baseia em dois discursos

públicos de Irving na Áustria, realizados em

1989, nos quais negou a existência das câmaras

de gás no antigo campo de concentração

de Auschwitz, na Polônia. Além disso,

alegou que a “Noite dos Cristais”, primeira

grande perseguição violenta contra

os judeus da Alemanha e da Áustria, em

1938, não foi feita pelos nazistas. Irving

foi detido durante uma operação policial em

uma estrada no sul da Áustria, em novembro

do ano passado, e está em uma prisão

de Viena desde então. (Agência Estado).

A tragédia do Holocausto

“A tragédia do Holocausto é um fato histórico

triste e irrefutável. Devemos aceitar o

fato e ensinar às crianças sobre o que aconteceu

na 2ª Guerra Mundial para garantir

que nunca se repita”. A frase foi pronunciada

por Kofi Annan, secretário-geral da ONU,

dia 3/9 no Irã, para observar que o Holocausto

é um “fato histórico inegável”. O discurso

foi logo depois de encontro que manteve

com o presidente do país, Mahmoud

Ahmadinejad, que tem provocado polêmica

ao contestar o massacre de 6 milhões de

judeus. Annan também condenou uma exposição

de caricaturas em Teerã sobre o

Holocausto, promovida por um jornal iraniano

em retaliação à publicação de charges

do profeta muçulmano Maomé em jornais

da Europa. (Reuters).

Registro para judeus expulsos

de países árabes

panorâmica

Há mais de cinqüenta anos, cerca de um

milhão de judeus foram obrigados a sair

dos países árabes. Agora, os refugiados

judeus e seus descendentes podem se registrar

on line em um processo para receber

reparações pelo sofrimento e pelas

perdas. O programa de registro on line foi

lançado pela Justice for Jews from Arab

Countries (JJAC), como parte de uma Campanha

de Direito e Reparações Internacionais,

que será lançada em novembro de

2006. Mais de 40 entidades judaicas de

informações das agências AP, Reuters,

AFP, EFE, jornais Alef na internet, Jerusalem

Post, Haaretz e IG)

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

• Yossi Groisseoign

todo mundo se uniram para o lançamento

desta iniciativa, entre elas a Confederação

Israelita do Brasil. Também é possível

registrar as narrativas de familiares através

do site www.justiceforjews.com. (JJAC).

Menem sofre nova acusação

Um ex-chefe dos serviços secretos da Argentina

comprometeu Carlos Menem num

processo que averigua as irregularidades

nas investigações do atentado contra a

associação judaica Amia, em 1994, ao dizer

que o ex-presidente teria dado dinheiro

para incriminar policiais pelo ataque.

Hugo Anzorreguy, ex-chefe da Secretaria

de Inteligência do Estado (Side), disse ter

dado US$ 400 mil ao juiz responsável pelo

caso, Juan José Galeano, que teria entregue

o valor ao vendedor de automóveis

Carlos Telleldín para que incriminasse policiais.

“Não tinha outra opção a não ser

entregar o dinheiro por três razões: a Side

era um organismo colaborador da Justiça

pelas leis de inteligência que regulamentavam

o dever de colaboração, por disposição

do juiz e pela decisão do então presidente”,

declarou Anzorreguy, em referência

a Menem. O ataque terrorista contra a

sede da Associação Mutual Israelita Argentina

(Amia), em 18 de julho de 1994 causou

a morte de 85 pessoas e deixou mais

de 200 feridas. (Agência Efe)

Menem II

Anzorreguy é acusado de peculato (desvio

de dinheiro público) no processo e 22 pessoas,

entre elas Telleldín e vários ex-policiais

acusados de cumplicidade no atentado

foram absolvidos por falta de provas em

setembro de 2004. O ex-juiz Galeano, que

ficou responsável pelo caso por quase uma

década, foi destituído do cargo em 2005

por mau desempenho das suas funções durante

a investigação. O atentado contra a

Amia foi o segundo ataque terrorista contra

alvos judaicos na Argentina, depois do

atentado contra a Embaixada de Israel, em

Buenos Aires, cometido em 17 de março de

1992 e que deixou 29 mortos. Os dois ataques

foram atribuídos a organizações terroristas

islâmicas, mas em nenhum dos dois

casos as investigações conseguiram prender

os responsáveis. (Agência Efe).

Novo embaixador do Brasil em Israel

Pedro Motta Pinto Coelho é o novo embaixador

do Brasil em Israel, em substituição

a Sérgio Eduardo Moreira Lima, que ocupou

o cargo desde 2002. Ministro de Primeira

Classe da Carreira de Diplomata do

Ministério das Relações Exteriores, Motta

Pinto ocupará, cumulativamente, a função

de embaixador no Chipre. Ele foi diretorgeral

do Departamento de África e Oriente

Próximo em 2001 e 2003, ministro-conselheiro

da Embaixada em Buenos Aires em

1994; e cônsul-geral em Lisboa em 1999,

além de chefiar delegações brasileiras em

reuniões internacionais na área de Comércio

Internacional, Meio Ambiente e outros

setores. Já recebeu a Ordem do Mérito

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Aeronáutico, Ordem de San Martin, grau

oficial; Ordem do Libertador S. Bolivar,

comendador; e Ordem do Mérito de Defesa,

grande-oficial. (Intercâmbio – Câmara

Brasil –Israel de Comércio e Indústria).

Espanha emite selo sobre Israel

Para marcar o 20º aniversário das relações

entre Espanha e Israel os correios espanhóis

emitiram um selo comemorativo multicolor,

com tiragem de 600 mil exemplares

e valor facial de 0,78 centavos de Euro.

As relações diplomáticas regulares foram

estabelecidas entre os dois países em

1986. O selo estampa as fotografias de

um capitel do século XIII que se encontra

no Museu de Mallorca, remetendo ao período

medieval e à Espanha judaica, e a

fachada do Santuário do Livro, em Jerusalém.

(Correos de España).

Mulher assume presidência

da Suprema Corte

A juíza Dorit Beinisch é a primeira mulher

a ocupar a presidência da Suprema Corte

de Israel. Ela tem 64 anos, duas filhas e

nasceu em Tel-Aviv. Completou seu serviço

militar, chegando ao posto de primeiro-tenente,

e fez mestrado pela Universidade

Hebraica. Começou sua carreira trabalhando

no escritório do Promotor Público em

1970, e foi indicada promotora pública em

1989. Em 1995, foi eleita juíza da Suprema

Corte. (Jornal Alef).

Irã acusa o Papa de conspirar

“As declarações do papa Bento 16 sobre o

islã e a violência são parte de uma cruzada

EUA-Israel contra os muçulmanos”, declarou

Ali Khamenei, líder supremo e autoridade

máxima do Irã. “Líderes dos arrogantes

imperialistas já definiram as ligações

da cruzada neste projeto EUA-Sionista com

os ataques ao Iraque”, disse Khamenei em

discurso transmitido pela TV estatal. “O problema

das caricaturas ofensivas e os discursos

de alguns políticos sobre o islã são

partes diferentes na conspiração dos cruzados

e o discurso do Papa é a última parte

nisto”, acrescentou. O porta-voz do governo

iraniano, Gholam-Hoeein Elham, afirmou

que a explicação de Bento 16 após as declarações

sobre o islã não foram suficientes.

“Ele tem que dizer claramente que o

que disse foi um erro e corrigir as declarações”,

acrescentou. (France Presse).

Wiesel pede a expulsão do Irã da ONU

O Prêmio Nobel da Paz Elie Wiesel propôs

em 17 de setembro que o Irã seja expulso

da Organização das Nações Unidas (ONU).

“Comecei uma campanha pela expulsão do

Irã da ONU e pela qualificação de seu pre-

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

sidente como persona non grata em todo o

mundo (...) porque ele ameaça destruir um

Estado-membro”. Recentemente, o presidente

iraniano Mahmoud Ahmadinejad afirmou

que queria que Israel “sumisse do

mapa” e chamou o Holocausto nazista de

mito. Wiesel, que sobreviveu aos campos

de concentração nazistas de Auschwitz e

Buchenwald durante a 2ª Guerra Mundial,

foi agraciado com o “Prêmio Nobel da Paz”

em 1986. (Jornal Alef).

Prêmio Raoul Wallenberg a Colina

A Fundação Internacional Raoul Wallenberg

concedeu o Prêmio Raoul Wallenberg 2006

a Jesús Colina, editor da Agência Internacional

Católica de Notícias Zenith “pelo

mérito e a excelência do trabalho informativo

colocado a serviço do diálogo interconfessional

e à reconciliação”. O prêmio

foi entregue na Cidade do Vaticano,

em 2/9. O prêmio foi instituído com o objeto

de distinguir as pessoas que por suas

ações e por seu trabalho o mereçam e foi

entregue pela primeira vez em 2000. Raoul

Wallenberg é um o herói que salvou

100.000 pessoas durante a Segunda Guerra

Mundial. Foi capturado por tropas soviéticas

e não mais foi visto. (FIRW).

Julgamento de três terroristas do Hezbolá

Três libaneses da organização terrorista

Hezbolá presos por Israel tiveram seus julgamentos

iniciados em setembro, no tribunal

do distrito da cidade de Nazaré. São

acusados de assassinato, tentativa de assassinato

e participação em organização

terroristas. Um deles, Hussein Suleiman,

de 22 anos, especialista em foguetes antitanque,

treinado no Irã, foi acusado de

participar na operação comandada pelo

Hezbolá que, em 12 de julho, matou oito

soldados israelenses na fronteira, e seqüestrou

os militares Eitan Regev e Ehud Goldwasser,

os quais ainda estão em poder da

organização. O segundo é Abed el Hamid

Srur, de 20 anos, e o terceiro é Maher Kurani,

de 30 anos, também treinado no Irã

para a luta contra carros blindados e a

empunhar armas antiaéreas. A operação

do Hezbolá contra dois carros de uma patrulha

israelense junto à fronteira entre

os dois países desencadeou a reação de

Israel diante da agressão que sofreu. Durante

a guerra contra o Hezbolá, o norte

de Israel e sua população civil foram bombardeados

por cerca de 4.000 mísseis fornecidos

pelo Irã, e disparados do território

libanês. (Videversus).

Mais prêmio Nobel

O vencedor do Prêmio Nobel de Química deste

ano, Roger Kornberg é um professor associado

da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Judeu norte-americano, ele teve reconhecida

sua pesquisa sobre como os genes

são copiados. A universidade congratulou

Roger Kornberg por sua vitória. Ele é professor

de biologia estrutural da Universidade

de Stanford e associado ao departamento

de biologia da Universidade Hebraica.

“Estamos orgulhos do professor Kornberg,

que esteve trabalhando conosco por vários

anos”, disse o presidente da Universidade

Hebraica, Menachem Magidor. O pai do premiado,

Arthur Kornberg, em 1959 ganhou o

Prêmio Nobel de Medicina. Outro judeu, o

israelense Amos Oz, está sendo cotado para

o prêmio Nobel de Literatura. (Agências)


ocê sabe, é engraçado.

Durante anos eu tenho

tentado conseguir

que as pessoas prestem

atenção às mortes, a destruição e

às injustiças que são cometidas no

meu Líbano amado.

Mas ninguém se preocupou.

Quando a Organização da Liberação

da Palestina (OLP) de Yasser Arafat

tentou apoderar-se do país e fazer

dele seu pátio de recreio terrorista,

ninguém se incomodou.

Quando pessoas morriam aos milhares

durante a guerra civil, ninguém

se preocupou.

Quando a Síria manteve sua bota

no pescoço do seu minúsculo vizinho

durante 25 anos, ninguém se

preocupou.

Quando o Irã despachou os terroristas

do Hezbolá ao país para arruinar

a autonomia libanesa, ninguém

se preocupou.

Quando os muçulmanos perseguiram

milhões de cristãos no Líbano,

desequilibrando a balança de forças,

ninguém se preocupou.

Mas agora, todos os olhos estão

no Líbano.

Você sabe por quê?

Porque Israel tentou limpar esse

vespeiro. Agora, tudo o que ouvimos

falar é sobre quantos libaneses

morreram.

Posso deixá-lo a par de um pequeno

segredo?

Adivinhe qual o número total de

vítimas entre os libaneses durante a

extensão desta guerra, inclusive terroristas

do Hezbolá, muitos dos quais

nem são realmente libaneses?

É melhor você se sentar.

O número total de mortes é

cima de 500 1 .

Agora, longe de eu minimizar o

total de mortes. Uma única morte

inocente é uma tragédia. Mas este é

o total de todos os terroristas, civis,

exército libanês, tudo.

O mundo inteiro enlouqueceu

com esta “matança”. Os franceses, os

russos, os britânico e, sim, os paquistaneses.

O que é necessário é um pouco de

perspectiva aqui. Eu posso oferecê-la?

Só no mês de julho, tropas norte-americanas

no Afeganistão anunciaram

ter matado 600 “suspeitos”

talibãs. Isso foi só num mês.

Temos ocupado este país estrangeiro

desde 2002. Começou com relação

ao ataque terrorista de 11 de

Setembro. Forças norte-americanas

atravessaram meio mundo para atacar

uma nação soberana, derrubar o

governo e matar tantas pessoas

quanto julgasse necessário durante

os últimos cinco anos para prevenir

mais ataques terroristas no futuro.

Poucos diriam que o Afeganistão representa

qualquer ameaça iminente

para os EUA hoje. A propósito, de

acordo com porta-vozes do exército

norte-americanos, um total de

1.700 afegãos foram mortos desde

o início do ano. Isso inclui alguns

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Todos os olhos sobre o Líbano

Joseph Farah *

Vi um adesivo num carro com os seguintes

dizeres: “Seja bom com seus filhos. Serão eles

que escolherão seu asilo de velhos”. Se alguém

acha esta frase cômica, é porque há um fundo

de verdade nela. Devemos ser bons com nossos

filhos porque esta é a coisa certa a ser feita.

Entretanto, há coisas que podemos fazer para

ajudar as crianças (ou adolescentes, ou até mesmo

adultos) a desenvolverem a perspectiva correta

sobre gratidão, bondade e prioridades.

Gostaria de compartilhar com vocês um trecho

do livro Thank You!, sobre como educar os

filhos a serem bem agradecidos. E se você ainda

não tem filhos, talvez isto o ajude a se relacionar

ainda melhor com seus pais:

“Sejamos modelos exemplares de gratidão.

Possibilitemos a nossos filhos a oportunidade

de ouvir frequentemente que somos gratos ao

civis, alguns trabalhadores de salvamento

e mais de 70 soldados de

tropas estrangeiras.

Mas, desde a última vez que verifiquei,

não houve demonstrações

nas ruas dos Estados Unidos, ou em

outro lugar ao redor do mundo sobre

esta guerra.

Ao contrário, todo mundo explodiu

de raiva pelo Líbano. Por falar

nisso, o governo do Afeganistão,

instalado pelos EUA, está satisfeito

com a guerra. O presidente Hamid

Karzai quer ver os terroristas arrancados

para fora do seu pai. Ele reconhece

que representa a melhor chance

de sua nação tornar-se livre.

Enquanto isso, no Líbano, um

governo que tolerou bases terroristas

em seu território durante anos

e anos, está repentinamente indignado

com a retaliação de Israel contra

os ataques incessantes a partir

dessas fortalezas Alguma coisa disso

faz sentido?

Você acha realmente que esses

gritos sobre o derramamento de sangue

no Líbano são algum lamento pelo

Líbano? Nesse caso, onde eles estavam

durante os últimos 30 anos?

Por que o Líbano é a manchete

de todo noticiário? Por que o Líbano

está na primeira página de todo

jornal? Você não tem a impressão de

que a violência lá é provavelmente

pior do que em qualquer outro lugar

do planeta, neste enfoque? Claramente,

não é.

E a única diferença é quem está fazendo

de alvo o Líbano e chutando-o.

Todo-Poderoso por todo o bem que ele nos faz

em nossas vidas”;

“Possibilitemos a nossos filhos ouvirem frequentemente

de nós que somos gratos a nossos

pais pelo que fizeram por nós e pelo que

nos ensinaram”;

“Possibilitemos a nossos filhos ouvirem frequentemente

de nós que somos gratos a nossos

amigos, parentes e vizinhos pelas coisas que nos

fizeram, recentemente e há muito tempo atrás”;

“Possibilitemos a nossos filhos ouvirem frequentemente

de nós que somos gratos a eles

pelas coisas positivas que fazem”;

“Os pais precisam explicitamente ensinar seus

filhos que a gratidão é uma característica muito

especial que precisa ser desenvolvida e aprimorada.

As crianças devem ser ensinadas a dizer

Como um americano de origem

libanesa e síria, eu não quero ver um

“cessar-fogo”. Quero ver o Líbano livre

da ferrugem terrorista, de uma

vez por todas. Quero ver o Líbano

livre da dominação do Irã e da Síria.

Quero ver o Líbano ser o Líbano.

Eu não quero ver o Líbano sofrer

durante outros 30 anos. Está na hora

de limpar a desordem e permitir a este

pobre e pequeno país que se cure.

E isso significa libertar-se da

doença do Hezbolá agora.

Para o Dia das Crianças

21

* Joseph Farah é jornalista árabe-cristão americano,

fundador, editor e diretor do World Net Daily. Colunista

internacionalmente conhecido, seu mais recente livro é

“Taking América Back” (Levando a América para Trás).

Ele também edita semanalmente um boletim informativo de

inteligência on-line chamado “Joseph Farah’s G2

Bulletin”, no qual utiliza suas fontes de informação que

desenvolveu ao longo de mais de 30 anos de carreira na

área de notícias.

‘obrigado!’, quando outros lhe fazem algum favor.

Entretanto, todos os ‘sermões’ do mundo não

têm o poder que o nosso exemplo pessoal pode

passar à criança”;

“Quando alguém fizer algo por seu filho, além

de apenas dizer a seu filho(a) para ser educado(a)

e falar ‘obrigado!’, você pode dizer-lhe: ‘A gratidão

é muito importante. Cada vez que você agradece

alguém, está fortificando mais e mais sua

característica de gratidão. Portanto, alegre-se

com cada oportunidade que se apresenta’”;

“Para ajudarmos alguém a aprender e/ou desenvolver

sua gratidão, podemos acrescentar

perguntas ao final de uma frase. Por exemplo:

‘Foi muito bonito da parte daquela pessoa nos

ajudar a carregar este pacote pesado, não foi?’

Ou ‘A bondade dela merece um grande ‘obrigado’,

você não acha?’“

* Publicado no boletim eletrônico Meór HaShabat e extraído do livro “Thank You! – Fratitude: Formulas, Stories and Insights” (Obrigado! – Gratidão: Fórmulas,

Estórias e Pensamentos) do Rabino Zelig Pliskin.

1 - O autor faz referência

ao número de

vítimas no Líbano

como sendo 500

porque escreveu este

texto durante o

desenrolar da guerra

de Israel contra o

Hezbolá.


22

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Democracia

disfuncional

Nahum Sirotsky*

a tela do meu computador tenho

longa lista de veículos de todos

os países. É obrigação de ter uma

idéia do que vai pelo mundo. Com

um clique navego para o que se diz

e se escreve sobre o tema que escolho. É assim

que sempre confirmo como é difícil estar

informado. Um mesmo fato nunca deixa de ter

versões diversificadas, representando diferentes

pontos de vista. Se assim é em contextos

nacionais imagine-se no internacional. Ser bem

informado implica em se compreender um fato

em todas as suas dimensões, praticamente impossível,

pois que são incontáveis... Por exemplo,

o monoteísmo significa que existe um só

D-us, mas são em centenas, ou mais, o entendimento

de tal conceito. Quantas são as seitas

de uma mesma fé? Tento o melhor, mas é inevitável

a infiltração inconsciente do que já está

no meu subconsciente. Há sempre um ponto

de referência que se fixa.

Em tese sei por que se massacram sunitas e

xiitas, seitas muçulmanas, no Iraque. As diferenças

entre eles na compreensão da fé são

mínimas. Não justificam que a convivência seja

aparentemente impossível a não ser imposta

pela mão dura do ditador.

Percorro a história de todas as expressões

do monoteísmo e encontro sempre guerras civis.

Aconteceu com as tribos hebraicas quando

saíram do deserto e entraram na Terra Prometida.

Sob formas diferentes desentendimentos

persistem até hoje. O cristianismo tem uma

longa história de sangrentos conflitos. O passado

do Islã também é sangrento. Mas atravessa

nova fase de lutas intestinas e confrontos

com não muçulmanos.

A Faixa de Gaza cobre cerca de 360 quilômetros

quadrados dentro dos quais se apertam

um milhão e 500 mil palestinos.Tem algumas

das mais belas praias naturais do mar Mediterrâneo

e não tem água para beber. É área de

gente pobre e miserável com uma pequena de

minoria abastada.

E parte da região da chamada Autoridade

Palestina da qual está separada uma seção de

outra uns tantos quilômetros de território israelense.

Os palestinos estão em conflito com

Israel há uns cem anos.

A Autoridade Palestina resultou de acordos

entre Israel e a liderança do Movimento

Nacional Palestino, o Fatah, liderado por Yasser

Arafat. A idéia era de que viria a surgir um

estado palestino independente. Parte do território

palestino havia estado sob o domínio

da Jordânia que preferira não incorporá-la o

que, provavelmente, seria aceito pela Comunidade

Internacional. Dois terços da população

da Jordânia, país sob uma monarquia de árabes

beduínos, tribos vindas da Arábia, era e é

de palestinos. A incorporação da Cisjordânia

transformaria os palestinos em maioria. Mas a

monarquia temia o que aconteceria se houvesse

mais milhões de palestinos...

Arafat dominava com braço forte. Morreu.

Ele foi substituído por Abu Mazen, também do

Fatah, em eleições. A disciplina imposta pelo

regime autoritário de Arafat se desmanchou

ao assumir um sistema de poderes compartilhados.

No seio do sistema de Arafat, que se pode

qualificar de secular, cresceu o Hamas (Movimento

Islâmico de Resistência) que implantou,

principalmente na faixa de Gaza, um eficiente

sistema de assistência social que incluía clínicas,

ajuda econômica, escolas. De islâmico puritanismo

a liderança do Hamas ganhou o povo.

E a maioria no Parlamento palestino o que lhe

deu o direito de assumir as funções de Primeiro

Ministro e outros ministérios.

Abu Mazen, o presidente eleito em pleito

anterior, manteve os poderes que eram de sua

função, apoiado nas forças de segurança e policiais.

O conflito tornou-se inevitável. Os 160

mil funcionários públicos, incluindo a tropa,

eram de nomeados pelo Fatah, mas o Hamas

passou a programar a tomada do comando do

Estado com gente de sua escolha. Começou

nomeando para cargos de confiança. O entendimento

se tornou cada dia menos provável.

Quem era funcionário não queria perder o lugar.

Abu Mazen preferia negociar a criação do

estado palestino e aceitara o mapa do caminho,

o ”roadmap” traçado pelo Quarteto-Estados

Unidos, Rússia, Nações Unidas, Europa. O

Hamas, representando a crescente tendência

da massa árabe e segmentos de intelectuais

por sistemas teocráticos, como o do Irã, inspirados

e orientados pela sharia, a lei islâmica,

deixou claro que iria impor tal sistema na

área palestina e jamais reconheceria o direito

de Israel a existir.

O desentendimento entre o Fatah e o Hamas

aprofundou-se quando as potências concordaram

em impor sanções ao governo palestino

que sofreu suspensão da ajuda internacional.

Abu Mazen pressiona o Hamas para que

mude sua promessa de se empenhar na extinção

do estado judeu. Chegam perto e se distanciam

do entendimento. Falta de tudo em

Gaza. Não há ordem pública. Brigam os que

aceitam a orientação de Abu Mazen com aqueles

que optam pela do Hamas. Os palestinos

estão a milímetros de uma sangrenta guerra

civil. E assim afastam a hipótese de retomada

de negociações com Israel para chegarem ao

seu sonhado estado independente. E de voltarem

a ter o que comer...

A questão palestina só tem solução possível

por meios políticos. Mas pode se repetir o

que acontece no Iraque onde os muçulmanos

se matam uns aos outros e afastam o dia em

que os americanos poderão sair do país. As

soluções democráticas, por eleições, não parecem

viáveis. Não se trata de diferenças de

ambições entre partidos entre os quais os derrotados

sempre têm a alternativa de sustentarem

a luta como oposição. Entre os palestinos,

como no Iraque, é guerra religiosa, de

incompatibilidades aparentemente intransponíveis.

De se tentar ganhar para se ficar com o

poder absoluto submetendo a ele as minorias.

* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último Segundo/IG em Israel. A

publicação desta coluna tem a autorização do autor.

Chargistas brasileiros

participam da mostra iraniana

que nega o Holocausto

Vinte e um chargistas brasileiros participaram da mostra polêmica

— o festival iraniano de charges sobre o Holocausto, em Teerã.

Chama a atenção o fato do Brasil ter sido o país com o terceiro maior

número de inscritos, perdendo apenas para o próprio Irã e para a

Turquia, ambos com população de maioria muçulmana.

Em exibição no Museu Palestina de Teerã até o dia 13 de setembro,

o evento foi proposto durante a onda de protestos mundiais

contra as caricaturas do profeta Maomé publicadas pelo jornal dinamarquês

Jyllands-Posten no ano passado. A polêmica provocou a

reação do jornal iraniano Hamshahri, controlado pelo governo de

Teerã, que estimulou a realização do festival. A iniciativa, claro, teve

amplo apoio do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad - que

não hesita em pôr em dúvida a ocorrência do Holocausto e defende

a destruição do Estado de Israel.

Para o presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil, o chargista

José Alberto Lovetro, o Jal, parte da explicação está no grande

número de desenhistas brasileiros e na falta de canais para esses artistas

se expressarem. Assim, segundo ele, quando há festivais internacionais,

o Brasil é sempre um dos países com maior número de inscritos.

Mas Jal explica que é grande o intercâmbio entre artistas iranianos

e brasileiros. Em constante contato com a organização de festivais

de humor, ele explica que muitos artistas de países de maioria

muçulmana costumam participar dos eventos no Brasil. “Pode parecer

estranho, mas o Irã é um dos países com maior número de humoristas

por metro quadrado”, diz.

Explicação semelhante também foi dada por Eloar Guazzelli, que

participa do festival. Com várias premiações no currículo - como o

Excellence Prise do jornal japonês Yomiury Shimbum e o 1º lugar na

edição de 2002 do Salão Internacional de Humor de Piracicaba -, o

quadrinista acredita que o fenômeno deva-se principalmente à grande

atuação brasileira em competições internacionais. Segundo o autor,

é no mercado exterior que os conterrâneos encontraram espaço

para divulgar seus trabalhos. “Somos mais reconhecidos lá fora do

que aqui dentro”, lamenta.

Críticas a Israel

Os dois desenhistas reconhecem, no entanto, que outra parte da

explicação deve-se também a um forte componente de crítica à atuação

de Israel no Oriente Médio. Mas, enquanto Jal afirma que não

participaria do concurso por considerar tanto os desenhos de Maomé

quanto a resposta iraniana inadequadas, Guazzelli diz ter aderido

ao concurso por sentir-se indignado diante do que está ocorrendo

“na Palestina”.

Ainda assim, ele afirma que, no início, temia que a exposição

tivesse uma vertente anti-semita. “Porém, ao acessar o site (do evento)

e ver que um dos seus temas era por que os palestinos têm de pagar

o preço pelo Holocausto, vi que não era esse o propósito”, afirmou.

Embora também critique a atuação do Estado judeu, Jal, por sua

vez, diz preferir não endossar “nada que leve ao radicalismo”. Isso,

no entanto, não o impede de criticar a forma como a crise das charges

de Maomé foi explorada pela mídia ocidental. Segundo ele, o

humor - “uma forma de expressão anarquista” - deve ser livre, mas

não desrespeitoso.

Para ilustrar a opinião, ele lembra a história do cartunista Otávio,

que nos anos 60 perdeu o emprego no jornal Última Hora por publicar,

às vésperas de um clássico entre Corinthians e Santos, uma charge

de Nossa Senhora com a cara de Pelé. “Uma multidão de religiosos

cercou a porta do jornal, que teve de encerrar o expediente por um

bom tempo. Otávio foi demitido e teve de pedir proteção policial.”


Bento 16 quis dizer

exatamente o que disse

Existem apenas duas religiões que

procuram converter o mundo inteiro.

Uma é o cristianismo, a outra o

islamismo. Talvez o islã agora seja o

único credo dotado da energia vital

necessária para se dedicar a uma missão

tão improvável; talvez o cristianismo

esteja ocupado demais defendendo

seus territórios espirituais

existentes. Mesmo assim, uma coisa

fica clara: existe uma incompatibilidade

doutrinária fundamental entre

as duas fés, e o papa Bento 16 está

servindo à verdade ao apontá-la.

A despeito de seu cargo anterior

como principal ideólogo do Vaticano,

Josef Ratzinger não aprovava a

extensão do diálogo promovido por

João Paulo 2º com o islamismo. O

cardeal alemão havia chegado à conclusão

de que o absolutismo islâmico

tornava impossível qualquer discussão

teológica significativa; tudo

que restava seria, na melhor das hipóteses,

uma série de declarações insípidas

sobre “valores compartilhados”.

Na pior, o endosso de uma manobra

política para ocultar a opressão

que os cristãos sofrem em terras

muçulmanas.

Não foi por acidente que um dos

primeiros atos do novo papa tenha

sido remover o arcebispo Michael Fitzgerald

da presidência do Conselho

Pontifício para o Diálogo entre as

religiões, e a seguir decretar uma redução

radical no papel do conselho.

Os ecumênicos estão absolutamente

certos ao apontar que o islã

e a Igreja Católica além dos judeus,

obviamente, reverenciam o D-us de

Abraão. As três religiões compartilham

muitos profetas, e como resultado

efetivamente compartilham alguns

valores, que deram forma às

sociedades em que elas predominam

nos dois últimos milênios. Mas o

cristianismo existe apenas com base

na crença de que Jesus Cristo é o

filho de D-us; o islã existe apenas

com base na crença de que D-us ditou

suas palavras a Maomé, e que o

Alcorão contém efetivamente as palavras

do Senhor.

Os cristãos, porém, não acreditam

que o Alcorão apresente as pala-

Dominic Lawson *

vras de D-us em transmissão direta.

Portanto, só podem imaginar que

Maomé estivesse iludido, ou que estivesse

mentindo. Evidentemente, a

grande maioria dos cristãos é bem

educada ou covarde demais para fazer

uma afirmação como essa. Os muçulmanos,

igualmente, parecem surpreendentemente

relutantes em expressar

a lógica de sua fé aos cristãos.

Raramente se referem a Jesus

sem acrescentar a elogiosa expressão

“que a paz esteja com ele”.

No entanto, se observarmos o Alcorão,

não há qualquer possibilidade

de equívoco: “Aqueles que pregam

que “o D-us da Misericórdia” concebeu

um filho estão praticando uma

monstruosa falsidade, diante da qual

os céus podem rachar”.

Incompreensão

O papa Bento 16 está muito mais

capacitado do que qualquer pessoa para

compreender esse ponto e, como a

maioria dos intelectuais, tem profunda

aversão a deixar de lado uma discussão.

Ele não é um líder político.

Os editorais de jornais que sugerem

que o papa exiba mais consciência

sobre suas palavras, demonstram

completa incompreensão quanto

ao caráter do homem que ocupa o

Vaticano, e quanto à missão que ele

quer realizar.

Bento 16 deseja expressar a batalha

de idéias. E não quer que profundas

divergências ideológicas sejam

varridas para baixo de um tapete

de boas intenções. Josef Ratzinger

nunca poderá ser acusado de

falta de clareza. A mais detalhada

exposição de suas opiniões surgiu

10 anos atrás, em uma entrevista a

Peter Seewald no livro “Salt of the

Earth” (sal da terra).

O então cardeal declarava que “o

islã simplesmente não dispõe da separação

entre as esferas religiosa e

política de que o cristianismo dispunha

desde o princípio. O Alcorão...

insiste em que toda a ordem da vida

seja islâmica... É preciso compreender

que o islã não é só um credo que

possa ser incluído no reino livre de

uma sociedade pluralista”.

* Dominic Lawson escreve no jornal Independent. Traduzido por Paulo

Migliacci e publicado originalmente em português no jornal Folha de S.

Paulo, dia 19 de setembro de 2006.

embaixador israelense nas Nações

Unidas, Dan Gillerman há pouco foi

citada dizendo, “Quando você dorme

com um míssil, você pode não

acordar”. Ele então perguntou quando foi a

última vez que o Hezbolá se desculpou por

qualquer dano causado a civis israelenses. A

resposta é conhecida de todos nós — nunca.

Talvez estas difíceis batalhas contra o

Hezbolá no norte, o Hamas no sul, e a prevenção

de ataques terroristas em nossas cidades

não seja tanto sobre onde nós lutamos,

mas sim contra o que nós lutamos. Isto

é especialmente difícil de ser guardado na

memória depois da tragédia em Kfar Qana,

mas é muito mais importante lembrar agora

do que nunca.

Na sexta-feira 28/7, o Hezbolá lançou

foguetes Katyushas em Nahariya e atingiu um

hospital. Só pela graça de D-us e do poder

do exército em pensar adiante, pôde o hospital

ser previamente evacuado, e apesar de

pesados danos ao edifício, não ocorreu nenhuma

perda de vida.

Mas não houve nenhum milagre em Kfar

Qana aquela semana. Há mais de cinco dias,

o exército israelense advertiu os residentes

para deixarem as áreas das vilas. Imagens de

satélite tornadas públicas pelo exército israelense

mostravam claramente o que todos

residentes de Kfar Qana não poderiam ter evitado

saber — que o Hezbolá estava usando

sua aldeia como área de lançamento para pelo

menos 150 foguetes atirados no norte de Israel.

Quando você dorme com um míssil...

Enquanto isso, as fotos do Líbano continuam

saindo, o que faz a maior parte do

mundo ficar com raiva e contra Israel. O que

está faltando, dizem eles, é proporcionalidade.

Está errado, diz o mundo, destruir um

país pelas vidas de dois ou três soldados.

Como sempre, o mundo está parcialmente

correto — o que está faltando é proporcionalidade.

A BBC continua mostrando os escombros

dos edifícios bombardeados em Beirute,

mas falha quando não deixa claro que

eles estão centrando as suas transmissões em

uma área que circunscreve aproximadamente

1% da área total de Beirute. As outras 99%

permanecem intactas, porque não existem

alvos do Hezbolá nelas.

Nosso governo e os políticos estão indo

ao ar para explicar para o mundo por que nós

fazemos o que estamos fazemos, e como o

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Quando você dorme

com um míssil

Paula R. Stern *

23

fazemos. Os comentários insultuosos de Kofi

Annan de que nós atingimos uma base da

ONU de propósito, no Líbano, mostra a extensão

do quanto Annan tem se corrompido

por suas políticas pessoais. A mídia mostra

fotos do Líbano e as dezenas de milhares de

libaneses procurando refúgio com pouca consideração

para o fato de que mais de 300.000

israelenses também fugiram das áreas de batalha,

e que mais de um milhão de outros

passam dias e noites em abrigos antiaéreos.

As fotos e a atuação da mídia podem estar

tirando de foco todas as mil palavras que

elas pretendem representar. No final das contas,

talvez, a verdade realmente esteja nas

palavras, nas verdadeiras palavras que os líderes

usam para descrever seus objetivos. O

secretário geral do Hezbolá, Hassan Nasrallah,

resumiu a batalha que nós enfrentamos em

todas as frentes. “Nós descobrimos como

atingir os judeus onde eles são mais vulneráveis.

Os judeus amam a vida, de forma que

isso é o que nós devemos tirar deles. Nós

vamos vencer porque eles amam a vida e nós

amamos a morte”.

Nasrallah está correto quando diz que os

judeus amam a vida, que nós fazemos tudo

que podemos para preservar as vidas de nossa

gente e daquele com quem temos que batalhar.

Não são as nossas forças que escondem

armas entre os civis e lançam foguetes Katyusha

em cidades indiscriminadamente. Foi

Israel quem advertiu os civis libaneses para

deixar Kfar Qana e foi o Hezbolá que os impediu

de ir. Foi Israel quem advertiu os civis

para se distanciarem das bases do Hezbolá, e

foi as Nações Unidas quem decidiram deixar

sua base tão perto do campo do Hezbolá.

Foi o Hezbolá quem escolheu Kfar Qana

como base de lançamento para esses foguetes,

foi o Hezbolá que usou as casas de Kfar

Qana para esconder os lançadores de míssil, e

finalmente, é o Hezbolá que precisa explicar a

estranha diferença de tempo entre Israel lançar

mísseis nos arredores de uma casa que só

desmoronou umas sete ou oito horas depois.

Mas, indiferentemente do que aconteceu

em Kfar Qana, Nasrallah tem razão — nós

amamos viver e eles amam a morte. Mas ele

está errado na conclusão que tirou disto.

Nosso amor pela vida não é o que nos torna

vulneráveis, é o que nos torna invencíveis.

E na análise final, Dan Gillerman está correto:

“Quando você dorme com um míssil, você

pode não acordar”.

* Paula R. Stern é jornalista freelance formada em Ciência Política e Economia na Universidade de

Columbia. Seus artigos têm aparecido em jornais através dos Estados Unidos e Israel, bem como em

numerosos websites. Ela é diretora da WritePoint Ltd, uma empresa de técnica de redação em Israel e

vive em Maaleh Adumim. Seu site pessoal é www.writepoint.com Escreveu este artigo em defesa de

seu país. Título original: When You Sleep With a Missile. Fonte: Arutz Sheva. Tradução: Ivan Kelner


24

VISÃO JUDAICA • outubro 2006 • Tishrei / Chesvan • 5767

Celso Lafer,

professor titular da

Faculdade de

Direito da USP, foi

ministro das

Relações Exteriores

no governo FHC.

O Oriente Médio

e o discurso de ódio

Celso Lafer *

ão indizíveis, adverte a Carta

da ONU, os sofrimentos da

guerra. Atingem os que padecem

uma pena sem culpa, vitimados

pela violência empregada

nos conflitos bélicos. A intervenção

de Israel no Líbano, induzida por

uma provocação militar do Hezbolá,

trouxe à tona a sensibilidade em relação

a estes sofrimentos que incidem

no contexto dos conflitos no

Oriente Médio.

O contencioso Israel-palestinos é

um dos epicentros destes conflitos.

Ele não tem a clareza jurídica de uma

controvérsia, qual seja a das condições

de criação de um Estado palestino

política e economicamente viável

e o reconhecimento do direito

de Israel de viver em paz dentro de

fronteiras reconhecidas. Não tem esta

clareza, pois o problema se insere num

ambiente de tensões. As tensões, em

contraste com as controvérsias, são

difusas. Manifestam-se por posturas

que escapam à razoabilidade da lógica

diplomática.

O Oriente Médio está permeado de

múltiplas tensões. Entre elas a tensão

da hegemonia provocada pelo unilateralismo

da intervenção norte-americana

no Iraque e seus efeitos; a tensão

do solipsismo da razão terrorista;

a tensão estratégica, induzida pelas

aspirações de poder do Irã; a tensão

da sublevação dos particularismos

religiosos e nacionais.

Um entorno regional com estas

características é centrífugo

e heterogêneo. Carece de uma

vontade comum de estabilidade.

Por isso os esforços de persua-

são diplomática se vêem atropelados

pela violência. Esta é a razão pela

qual a política na região está mais

vinculada à busca dos meios para sobreviver

e vencer, ficando em segundo

plano a aspiração kantiana de

construir a paz e evitar os sofrimentos

da guerra, reconhecendo o direito

à hospitalidade universal.

Esta contextualização de complexidades

é necessária para o tema

deste artigo, que diz respeito ao

impacto, no Brasil, da importação das

tensões no Oriente Médio.

Uma das características da globalização

é a internalização, nos

países, das tensões do mundo. É o

que vem ocorrendo com a situação

do Oriente Médio, no qual um dos

elementos de irradiação é a tensão

de hegemonia trazida pela ação

norte-americana no Iraque. Esta

leva ao antiamericanismo e afeta

Israel, que tem nos Estados Unidos

um decidido aliado.

No caso do Brasil, para a equação

da internalização contribui o fato

de existir um expressivo número de

cidadãos brasileiros de origem libanesa

com laços de família e de memória

afetiva em relação ao Líbano,

com compreensível sensibilidade ao

que se passa num país que se estava

reconstruindo em meio a suas dificuldades.

Também é um dado desta

equação a existência de um número

relevante de cidadãos brasileiros de

origem judaica, muitos dos quais

também têm laços de família e de

afeto com o Estado de Israel e que,

por isso mesmo, olham para a segurança

deste país com atenção. Neste

olhar existe a memória de guerras do

passado e dos insucessos das nego-

ciações, permeado por uma sensibilidade

própria em relação aos atentados

terroristas em Israel e ao fato

de o Hezbolá operar a partir do Líbano,

respaldado pela Síria com o declarado

apoio logístico-militar do Irã

- cujo presidente denega o Holocausto

e propõe o desaparecimento de

Israel do mapa do Oriente Médio.

Feitos estes registros, observo

que o preâmbulo da Constituição

considera como valores supremos do

nosso país a concepção de uma sociedade

fraterna, pluralista e sem

preconceitos, comprometida, na ordem

interna e internacional, com a

solução pacífica de controvérsias.

Esta diretriz tem sido bem-sucedida

na construção histórica do

amálgama do povo brasileiro na diversidade

das suas origens.

Daí o tranqüilo entendimento

entre brasileiros de origem árabe e

de origem judaica. Este é um adquirido

da convivência nacional a ser

preservado. Não pode ser corroído

pelo discurso de ódio que, lamentavelmente,

tem aparecido como parte

das internalizações das tensões do

Oriente Médio. É o caso, por exemplo,

de certas virulentas manifestações

antiisraelenses mescladas de

inequívoco anti-semitismo do tipo

das relatadas pela revista Carta Capital

de 6/9 em matéria apropriadamente

intitulada O Líbano é aqui.

A contenção do discurso de ódio

tem sido objeto das normas internacionais

dos Direitos Humanos às

quais o Brasil aderiu. É o que estipula

a Convenção para a Eliminação de

Todas as Formas de Discriminação

Racial, o Pacto de Direitos Civis e

Políticos e o Pacto de São José. Este,

no seu artigo 13, 5, reza: ‘A lei deve

proibir toda propaganda a favor da

guerra, bem como toda apologia ao

ódio nacional, racial ou religioso que

constitua incitamento à discriminação,

à hostilidade, ao crime ou à violência.’

É nesta moldura que o Direito

brasileiro, no âmbito do artigo

5º, XLII, da Constituição, que prevê

o crime da prática de racismo, capitula

como prática de racismo o discurso

de ódio (artigo 20 da Lei

7.716/89, com a redação dada pela

Lei 8.081/90).

Foi esse o entendimento que o

Supremo Tribunal Federal consagrou

ao decidir, em 2003, o caso Ellwanger,

observando que a liberdade de

expressão não consagra o ‘direito à

incitação ao racismo’.

Daniel Sarmento, escrevendo sobre

o hate speech, explica, neste contexto,

por que ele compromete a dinâmica

da democracia. Observa que o

discurso de ódio está mais próximo

de um ataque que de uma participação

no debate de opiniões; não se

baseia no recíproco reconhecimento

da igualdade da dignidade humana,

que é a garantia da integridade da

discussão na esfera pública, e, ao estigmatizar

grupos, a eles causa dano,

propiciando preconceitos.

Em síntese, a importação das tensões

do Oriente Médio na forma de

discurso de ódio precisa ser afastada.

É inaceitável, pois fere a dignidade

humana e compromete um dos

objetivos constitucionais do Brasil,

que é o de ‘promover o bem de todos,

sem preconceitos de origem,

raça, sexo, cor, idade e quaisquer

outras formas de discriminação’

(Constituição federal, artigo 3º, IV).

More magazines by this user
Similar magazines