fernando pessoa - Planeta de Agostini

planetadeagostini.pt

fernando pessoa - Planeta de Agostini

Uma colecção

com as obras dos mais

notáveis e míticos autores

da geração de Orpheu


FERNANDO PESSOA

O poeta, de nome completo Fernando

António Nogueira Pessoa nasce a 13 de

Junho de 1888, na Praça de São Carlos,

em Lisboa, filho de Joaquim de Seabra

Pessoa e de Maria Madalena Pinheiro

Nogueira, a quem deve a sua educação

nos primeiros anos de vida. O jovem

Pessoa vê o universo familiar alterar-se

aquando da morte do seu pai, em Julho de

1893.

A 30 de Novembro de 1895 a sua mãe,

que no ano anterior conhecera o comandante

João Miguel Rosa, casa-se por procuração,

dado que o comandante fora

nomeado capitão do porto de Lourenço

Marques. Em Janeiro de 1896, após João

Miguel Rosa ter assumido as funções de cônsul de Portugal em Durban,

Pessoa parte com a mãe para a África do Sul, ingressando num colégio

de freiras irlandesas.

Três anos mais tarde, Pessoa é admitido na Durban High School, realizando

quatro anos lectivos em pouco mais de dois anos. Em Maio

de 1901 escreve o seu primeiro poema em inglês.

Parte para Lisboa em 1905, começando, em Outubro, a frequentar

o Curso Superior de Letras, que abandonará dois anos mais tarde.

O heterónimo Alexander Search surge provavelmente em 1906 enquanto

Jean Seul, o seu heterónimo francês, surge em 1907, ano em que

Pessoa, depois do retorno da família a Durban começa a trabalhar para

a R.G. Dun, uma agência internacional de informações comerciais.

Nos anos seguintes, Pessoa dedica-se à

formação de uma tipografia (1909-1910),

colabora, como correspondente estrangeiro,

em diferentes firmas, traduz obras

inglesas e espanholas para português,

escreve artigos para as revistas A Águia

e Teatro: Revista de Crítica e publica os

seus primeiros poemas na Renascença.

Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e as

primeiras odes de Ricardo Reis surgem

em 1914, período de intensa criação

literária. Funda, em Abril de 1915, a


evista Orpheu, publicação de vanguarda,

juntamente com Mário de Sá-Carneiro e

Almada Negreiros, e onde, com a restante

elite literária portuguesa, publica os seus

textos. Nesse mesmo ano, surge no imaginário

de Pessoa uma outra personagem

literária, Rafael Baldaia, um astrónomo.

Em Abril de 1916, o poeta e amigo de

Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, com o qual

havia trocado intensa correspondência,

suicida-se em Paris.

Após várias tentativas de publicação,

Pessoa edita, assumindo os custos, Antinous

e 35 Sonnets, em 1918.

Em 1919, no seu local de trabalho,

conhece Ofélia, com quem manterá uma

intensa correspondência amorosa.

1921 é o ano em que finalmente coloca em funcionamento a firma

Olisipo (“Agentes, Organizadores e Editores”), durante dois anos planeada

por Pessoa como uma empresa dedicada à promoção da cultura e

comércio portugueses no estrangeiro. Nesta editora publica os seus

English Poems I-II e English Poems III, bem como A Invenção do Dia

Claro, de Almada Negreiros. De 1922 até à morte publicará os seus

poemas e os dos heterónimos nas revistas Contemporânea, Athena e O

Notícias Ilustrado. O único livro de poesia em português publiado por

Pessoa, Mensagem, sai em 1934 concorrendo ao prémio Antero de

Quental, criado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, onde ganhou

o prémio destinado à segunda categoria.

Vem a falecer em 30 de Novembro de 1935, em Lisboa.

À esquerda,

a capa da revista

que aglutinou

diversos nomes

da juventude

intelectual,

com destaque

para os autores

presentes nesta

colecção.


MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Nascido em Lisboa em 19 de

Maio de 1890, Mário de Sá-

-Carneiro viveu a sua infância

e adolescência de forma

angustiada e solitária, devido

à morte prematura da

mãe, tinha ele 2 anos.

Matriculou-se na Faculdade

de Direito de Coimbra em

1911, mas não chegou a

completar o primeiro ano,

decidindo posteriormente ir

para Paris, para a Sorbonne,

com um objectivo semelhante

que, novamente, não

viu realizado, não chegando

a acabar o curso, devido a

problemas mentais e materiais

que atravessou.

Foi, juntamente com Fernando

Pessoa e Almada Negreiros, entre outros, um poeta da publicação

Orpheu, divulgadora das novas vanguardas artísticas e literárias de inícios

do século XX que tanto

choque e entusiasmo provocou

em Lisboa no seio das

elites cultas. No entanto, o

seu estado mental deteriorava-se

cada vez mais, situação

que culminou com o seu suicídio

no momento em que o

terceiro número do Orpheu

estava pronto para ser editado

(1916), não chegando

nunca a ser publicado.

A escrita de Sá-Carneiro, profunda

e reflexiva, é marcada por

um tom intimista e por dilemas

existenciais, conforme se pode

verificar em A Confissão de

Lúcio e Céu em Fogo.


JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS

José Sobral de Almada Negreiros

nasceu na Ilha de

São Tomé, a 7 de Abril de

1893, e faleceu em Lisboa,

a 15 de Julho de 1970.

Em 1900 é internado no

Colégio de Campolide, em

Lisboa, vindo também a

estudar no Liceu de Coimbra

e na Escola Nacional

de Lisboa.

Realizou, desde 1913, inúmeras

exposições individuais,

em Portugal e no estrangeiro.

De 1919 a 1920, fez estudos

de pintura em Paris. Em Espanha,

onde viveu de 1927 a

1932, ocupou-se a decorar

casas de espectáculos e outros

edifícios.

Almada Negreiros é uma figura

notável, tendo sido,

além de pintor, desenhador e vitraleiro, romancista, ensaísta, crítico de

arte, conferencista e dramaturgo. Entre os seus livros, contam-se Nome

de Guerra e Ficções. Foi membro

da revista Orpheu e colaborou

nas publicações Portugal Futurista,

Contemporânea e Athena.

Em 1935 lançou a revista Sudoeste,

redigindo na íntegra os

dois primeiros números, dos três

publicados. Deixou também uma

série de obras públicas emblemáticas,

como os vitrais da Igreja

de Nossa Senhora de Fátima,

as decorações da Cidade Universitária

de Lisboa e a descoberta

da perspectiva dos ladrilhos

no políptico atribuído a Nuno

Gonçalves.


PESSOA, SÁ-CAR

«Decerto nunca pensaste acerca do teu lugar

na história da literatura. Tenho a certeza

de que as homenagens sonoras te espantam,

que te espantam mas que vão direito

ao teu coração. És hoje o poeta de Portugal.»

JORGE LUIS BORGES

«Não sei quem sou, que alma tenho.

Quando falo com sinceridade não sei com

que sinceridade falo. Sou variamente outro

do que um eu que não sei se existe (se é esses

outros).

Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto

com inúmeros espelhos fantásticos que torcem

para reflexões falsas uma única anterior

realidade que não está em nenhuma

e está em todas.»

«Meu querido Fernando: Imagina você a falta que nos faz?

Ainda há poucos dias, numa rua onde parámos a falar de si,

o Almada me disse: O Fernando faz muita, muita falta!

Na mágoa deste desabafo, pareceu-me reconhecer a mesma

inconfessada sensação que a sua ausência, algumas vezes,

me dá: a de ter feito uma partida que os seus amigos

não mereciam… Quase apetece acusá-lo, gritar à sua memória:

Você não tinha o direito de nos deixar tão cedo!»

CARLOS QUEIRÓS

FERNANDO PESSOA


NEIRO e ALMADA

«Acho-me tranquilo – sem desejos, sem esperanças.

Não me preocupa o futuro. O meu passado, ao vê-lo,

surge-me como o passado de um outro. Permaneci,

mas já não me sou.»

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

«Custa-me muito a escrever-lhe esta carta dolorosa

– dolorosa para mim e para você. Mas por mim

já estou conformado. A dor é pois neste momento

sobretudo pela grande tristeza que lhe vou causar.

Em duas palavras: temos desgraçadamente de desistir

do nosso Orpheu.»

«Bem propriamente, Orpheu, é um exílio de temperamentos

de arte que a querem como a um segredo

ou tormento»

LUIS DE MONTALVOR

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Não basta ser sincero toda a vida. Depois de tudo ainda é necessário

que a nossa sinceridade seja perigosa. Perigosa para o mesmo

e para a sociedade. Não deixemos a sociedade assentar arraiais

sem primeiro ter reconhecido pessoalmente a cada um.

A ver se, por fim, ela deixa de se ofender com o nosso sincero caso pessoal.

A ver se ela acaba por uma vez com aquilo de dar mostras bem duras

de ter ficado ofendida com a nossa sinceridade. Ou terá de ser sempre assim?

Para ela, a nossa sinceridade será sempre a impertinência

de um extraviado, a loucura de um isolado?!

ALMADA NEGREIROS


Uma colecção de luxo

Sobrecapa impressa a cores e encadernação

em geltex, ambas com gravações a ouro

Edição original Assírio & Alvim


Finalmente reunida

numa edição exclusiva Planeta DeAgostini,

a obra dos três grandes nomes

da mítica geração de Orpheu.

Com a colaboração dos notáveis especialistas

deste período literário:

Teresa Rita Lopes, Richard Zenith, Madalena Dine,

Ana Maria Freitas, Fernando Cabral Martins, Luísa Freire,

Manuela Parreira da Silva


Ficções do Interlúdio 1914-1935

Fernando Pessoa

Livro do Desassossego

Fernando Pessoa

Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade

Nem veio nem se foi: o Erro mudou.

Temos agora uma outra Eternidade,

E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.

Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.

Um novo deus é só uma palavra.

Não procures nem creias: tudo é oculto.

Pertenço, porém, àquela espécie

de homens que estão sempre na margem daquilo

a que pertencem, nem vêem só

a multidão de que são, senão também

os grandes espaços que há ao lado.

Poesia

Alberto Caeiro

Li hoje quase duas páginas

Do livro de um poeta místico,

E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,

E os filósofos são homens doidos.


Céu em Fogo

Mário de Sá-Carneiro

Sou um punhal d’ouro cuja lâmina embotou.

A minha alma é esguia – vibra de se enlaçar.

Só o meu corpo é pesado. Tenho a minh’alma presa

num saguão.

Poesia 1918-1925

Fernando Pessoa

Ó sino da minha aldeia,

Dolente na tarde calma,

Cada tua badalada

Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar.

Tão como triste da vida,

Que já a primeira pancada

Tem o som da repetida.

Poesia

Ricardo Reis

Com que vida encherei os poucos breves

Dias que me são dados? Será minha

A minha vida ou dada

A outros ou a sombras?

À sombra de nós mesmos quantas vezes

Inconscientes nos sacrificamos,

E um destino cumprimos

Nem nosso! nem alheio!


Poesia 1926-1930

Fernando Pessoa

Nome de Guerra

Almada Negreiros

No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,

De balas traspassado –

Duas, de lado a lado –,

Jaz morto, e arrefece.

………………………………………

Lá longe, em casa, há a prece:

«Que volte cedo, e bem!»

(Malhas que o Império tece!)

Jaz morto, e apodrece,

O menino da sua mãe.

Das duas uma: ou as pessoas se fazem

ao nome que lhes puseram no baptismo,

ou ele tem de seu o bastante para marcar

a cada um. Será imprudente deduzir

o nome próprio através das fisionomias

ou dos caracteres: no entanto, uma vez

conhecido o nome próprio de uma pessoa, ficamos

logo convencidos de que este lhe assenta muito bem.

Correspondência 1905-1915

Fernando Pessoa

Mau grado a alguma depressão,

constante desde que lá fora é guerra, tenho passado

com razoável calma pela ilusão sucessiva dos dias.

Nada tenho escrito que valha a pena mandar-lhe.

Ricardo Reis

e Álvaro futurista – silenciosos. Caeiro

perpretador de algumas linhas que

encontrarão talvez asilo num livro futuro.


Correspondência 1916-1925

Fernando Pessoa

Estou num daqueles dias em que nunca tive

futuro. Há só um presente imóvel

com um muro de angústia em torno.

A margem de lá do rio nunca, enquanto

é a de lá, é a de cá; e é esta a razão

íntima de todo o meu sofrimento.

Há barcos para muitos portos, mas

nenhum para a vida não doer, nem há desembarque

onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há

muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.

A Confissão de Lúcio

Mário de Sá-Carneiro

Correspondência 1926-1935

Fernando Pessoa

Cumpridos dez anos de prisão por um crime que

não pratiquei e do qual,

entanto, nunca me defendi; morto para

a vida e para os sonhos; nada podendo já esperar

e coisa alguma desejando

– eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é:

demonstrar a minha inocência.

O retrato, de que falo, e de que digo

que é o espiritualmente verdadeiro, não

dá o Sá-Carneiro como usualmente era,

mas um Sá-Carneiro torturado (o próprio olhar o

diz), um Sá-Carneiro emagrecido

e final, que tem mais verdade que

os retratos mais vulgares que ele tinha tirado nas

fotografias do grande costume.


OS ORGANIZAD

A Planeta DeAgostini apresenta a colecção Biblioteca Fernando Pessoa e a Geraç

cia da obra de Fernando Pessoa no mercado português, que conta com o trabalh

Teresa Rita Lopes

Teresa Rita Lopes viveu treze anos em Paris,

cidade onde leccionou, na Sorbonne. É agora

professora catedrática de Literaturas Comparadas

na Universidade Nova de Lisboa.

Escreve teatro e poesia, tendo alguns dos seus

livros sido traduzidos para francês, espanhol

e italiano.

Trabalha sobre Pessoa há mais de trinta anos.

Publicou, em Paris, além de artigos vários, estudos sobre textos inéditos

de Pessoa.

Coordenou mais de uma vintena de obras de Pessoa no âmbito

do Instituto de Estudos Sobre o Modernismo, que dirige, traduzidas

algumas em várias línguas.

Richard Zenith

Richard Zenith, norte-americano residente

em Lisboa desde 1987, é escritor, tradutor,

investigador e crítico. Organizou várias edições

de Fernando Pessoa.

Madalena Dine

Lecciona na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade

Nova de Lisboa.

É autora de Para uma Leitura da Poesia Modernista – Mário de

Sá-Carneiro e José Almada Negreiros, tendo integrado a equipa

responsável pela recolha e organização de poemas dos três volumes

de Poesia, de Fernando Pessoa.


ORES DA OBRA

ão de Orpheu, com a colaboração da Assírio & Alvim, uma editora de referêno

de uma prestigiosa equipa de investigação especializada.

Ana Maria Freitas

Foi responsável, em conjunto com Madalena Dine e Manuela Parreira da

Silva, pela organização dos poemas integrantes da obra Poesia, em três

volumes, de Fernando Pessoa.

Fernando Cabral Martins

É professor na Faculdade de Ciências Sociais

e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Organizou edições de Fernando Pessoa, Mário

de Sá-Carneiro e Almada Negreiros.

Luísa Freire

Luísa Freire nasceu em 1933, em Castelo

Branco.

Desde 1995 tem sido membro do Instituto de

Estudos sobre o Modernismo da F.C.S.H. da

Universidade Nova de Lisboa e, nessa qualidade,

dedicou-se à investigação da obra pessoana,

sobretudo no campo da sua poesia inglesa, que

publicou e traduziu na totalidade.

Manuela Parreira da Silva

Manuela Parreira da Silva nasceu em Castro

Verde (Baixo Alentejo).

Tem desenvolvido a sua actividade profissional

na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas

da Universidade de Lisboa, como assistente

do Departamento de Românicas. Dedica-se ao

estudo do espólio pessoano, nomeadamente

à fixação e edição de textos de Fernando Pessoa e

à investigação da sua correspondência.

More magazines by this user
Similar magazines