Ética na Política já - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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Ética na Política já - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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Ano IN 0 5

O Brasil que a gente quer

Cr$ 500,00 Manaus, Agosto/Setembro de 1992

- A votação na mais perfeita ordem

- O povo nas ruas, dançando e cantando

- Os quartéis calmos.

- Todos unânimes, decididos a cumprir a lei.

- Um exemplo para o mundo.

- O Brasil está de parabéns

Ética na Política

"ÉTICA NA POLÍTICA"

mereceria, não só igual mas maior,

mobilização popular que a das

"DIRETAS JA". Em 1983, a

nação não agüentava o horror, a

vergonha e a humilhação de uma

ditadura militar. Aos milhões, os

cidadãos brasileiros saíram às ruas

manifestando-se por uma

transformação democrática radi-

cal. Exigiram eleger "" e

SUMARiO

..: . na íutá peta:. .

:: :: ;. preservaçâQ " .

Í&5

ilililiiliiiiiiiiiiiii

diretamente o seu presidente. No

fundo, era também uma questão

ética: reconquistar o direito político

do voto. Infelizmente, não

conseguiram, então, esse objetivo.

Hoje, 10 anos depois,

com presidente diretamente eleito,

saiu às ruas o movimento "ÉTICA

NA POLÍTICA".

Lamentavelmente, a mobilização

não conseguiu arrastar os milhões

de 1983, para com o mesmo e

maior empenho maniestar-se contra

a falta de ética e a desonestidade

pública. A indecência ética pública

nem de longe é menor: horror, nem

envergonha menos, nem causa

menor humilhação para os cidadãos

que se prezem, do que o arbítrio

ditatorial. É arbítrio igual ou pior,

só que em outra dinâmica na

corrupção, na desonestidade, na

privilegialização de interesses

corporativistas... Já não é o famoso

"jeitinho brasileiro", mas

verdadeiro "JEITÃO" dedilapkíar

o bem comum de todos. Incrível:

como este escândalo não mexe

ainda toda a Nação, mobilizando-

se para uma radical transformação

ética? Essa visão ainda não faz

opinião pública maciça. Precisa ser

criada. É o que visava a

movimentação do dia 11 de agosto,

que deve continuar.

A desonestidade, o desvio

dos recursos públicos, a corrupção

- o pecado político - inviabilizam a

cidadania, mantêm a ignorância, o

analfabetismo, as doenças

endêmicas, afome, as dependências

paternalistas... De tudo isso os

políticos deverão prestar severas

contas ao Deus da Vida. Como

seria bom se o povo exigisse

essas contas, mobilizando-se

constantemente pela ética na

política, mantendo permanente

controle e fiscalização dos seus

políticos. Seria a promoção, por

parte do povo, da educação ético-

política dos próprios homens

públicos, tão deseducados! Seria,

ainda, a formação do "político

novo".

Guardar epromoveroBem

Comum - tarefa essencial do pol ítico

e realização da santidade política -

faz parte da dinâmica da Criação,

tal como alemos na primeira página

da Bíblia. A palavra "bom", várias

vezes repetida, inclui a qualificação

ética. Só é bom o que é ético. O

Bem Comum eticamente

administrado e promovido toma

"bom" tudo o gue fôrma a cidadania

e santifíca. A Ética Política mantêm

em dia o máximo "bom", que é a

vida dos cidadãos em todos os seus

níveis e atuações:

- A educação serádequalidade

para todos, realmente formando para

a vida, sem aquele afünilamento f* 6

privilegia apenas aqueles a'~ t ® m '

apagando parasempreo anaitábetismo

e a ignorância.

- Teremos um povo com saúde. E, nas

doenças inevitáveis terá pronto e

gratuito atendimento de qualidade.

- Saneamento básico não faltará em

nenhumaruadeperiferia mais afastada

nem nas pequenas cidadezinhas do

interior.

- Não haverá mais brasileiros sem sua

moradia própria digna.

- O transporte público será eficiente.

- O trabalho e o salário terão o traba-

lhador como prioridade.

- Todos poderão gozar de um lazer

que manterá a alegria de viver.

Evidentemente, é uma utopia

a se realizar a longo prazo. E também

é óbvio que a falta de ética, a

desonestidade, os desvios corruptos

atrasaram esse bem-estar condigno

para todos os filhos de Deus. E os

responsáveis terão que responder por

esse atraso. O movimento "ÉTICA

NA POLÍTICA" visa que, no futuro

não se atrase mais a realização desse

bem-estâr mínimo de todo o povo e

que é um direito dele e um dever ético

dos políticos.

Por isso, agora e sempre:

ÉTICA NA POLÍTICA Já!


Interior

miramirá

Ribeirinhos avançam na luta pela preservação

Anori - Ribeirinhos

agricultores de Anamã, Beruri e de

Anori se reuniram nos dias 10 e 11 de

julho com apoio dos agentes de pas-

toral para discutir suas formas de

atuação.

Este foi o primeiro encontro

de agricultores ribeirinhos com

objetivo de discutir a preservação

dos lagos, peixes e meio ambiente a

partir da realidade existente. Os

participantes - 48 ao todo -

denunciaram a escassez de pescado

provocada pela pesca predatória feita

por comerciantes; o êxodo rual - a

fuga do interior para as cidades

provocada pela falta de alimentos, e

ainda a diminuição do volume de

produtos devido ao tempo que os

agricultores ribeirinhos gastam à

procura do peixe.

No encontro foi decidido

que cada comunidade ou grupo de

comunidade irá, a partir de agora,

escolher um lago ou até parte de um

lago para preservação contra a pesca

comercial e para a manutenção da

população. A decisão foi tomada

após o relato de que o lago do Pucu,

em Anori, ainda tem peixe suficiente

para o sustento das famílias que lá

vivem, por haver uma resistência

dos moradores do local contra a pesca

comercial. Os moradores querem

preservar para não acabar com que

Romaria

Conscientes da necessidade de preservar os lagos

e as fontes de alimentação, as comunidades

ribeirihas estão avançando na luta por este objetivo nos

diversos municípios do Estado.

ainda resta de uma de suas principais

fontes de alimentação

Pescadores profissionais

perseguem

Coari - Também os

ribeirinhos do município de Coari se

conscientizam cada vez mais da

necessidade de preservar os lagos.

Naquela cidade, 31 agricultores.

Por Raimundo Maciel

ribeirinhos e pessoas ligadas aos

movimentos populares reuniram nos

dias 15 e 16 de julho, para avaliar o

primeiro ano de luta organizada pela

preservação de peixes, lagos e meio

ambiente.

Reuniram-se os 10 comitês

de defesa, fiscalização e reflexão

para educação do povo sobre a

necessidade de preservar. Na

avaliação dos participantes, os pontos

considerados positivos são animadores,

pois se constatou o reaparecimento de

peixes nos lagos; a facilidade com que

se pode pescar de forma artesanal, e a

fartura com o aumento do volume de

peixe, o que incentiva os moradores a

permanecerem em suas comunidades.

Apesar dos avanços, ainda há

muito o que melhorar. Os pontos

negativos apontados pelos participantes

são a perseguição dos pescadores

profissionais, que querem o peixe a

qualquer custo; falta de compreensão

de alguns moradores que acabam traindo

a luta ao vender o peixe por quantia

insignificante; falta de apoio das

autoridades e órgãos públicos como o

Ibama, Prefeitura e Câmaras municipais

e casos em que os moradores arrendam

seus terrenos para que os comerciantes

se achem no direito de explorar o

pescado.

Os participantes analisaram

ainda que ainda falta maior compreensão

sobre as causas desses problemas, como

também maior organização para a luta e

para fortalecer a resistência.

No encontro foi confirmado o

propósito de continuar resistindo e

buscando formas mais organizadas e

maiores recursos para a defesa do meio

ambiente e da vida no presente e no

futuro, como prevê a Constituição do

Brasil.

Em busca da "Terra Prometida"

Lábrea - A população do município de Lábrea assistiu a mais

uma manifestação pela conquista da *TerTa Prometida*. No

dia 02 de agosto, centenas de agricultores, pescadores,

donas-de-casa e indígenas participaram da II Romaria da

Terra, promovida pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).

*Todos Unidos à conquista da Terra Prometida* foi o tema

da Romaria, cujo objetivo, segundo os organizadores, era

despertar no povo a necessidade de organização e união na

conquista dos direitos fundamentais da pessoa por uma vida

mais digna. As comunidades e os diferentes grupos refletiram

sobre a situação dos seringueiros, agricultores, pescadores e

da mulher trabalhadora da Região.

Cerca de 600 pessoas participaram do ato, percorrendo as

principais ruas da cidade com palavras de ordem e discursos

denunciando a situação de abandono em que vive a população

do interior. Os participantes pediam providências urgentes

para acabar com as injustiças, que têm causado a morte de

índios, seringueiros e trabalhadores rurais.

Gente e Árvore

Agosto/Setembro de 1992

Editor Responsável

J. Rosha

(RMTb 199-02)

Comitê Editorial:

CIMI - CDDH - CPT

Projeto Gráfico:

André Palladino

Tel: (092) 233-8072

Fax: (092) 233-8635

Altemex: cddhmao

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Colaboradores:

Dionísio Kuduavicz, José Aldemir de

Oliveira, Ivânia Vieira, Jansen

Zuanon, Albano Temus, Orlando

Baré, Dom Antônio Possamai

Composição:

COMPUSERVICE LTDA.

Tel: (092) 232-1003

Impressão:

Indústria Gráfica Belvedere Ltda.

Rua Agnelo Bittencourt Q 14/C7

Conj. Belvedere

Manaus - Am.

.


miramira

Direitos Humanos

índios ameaçados de morte em Roraima

O tuxaua Jaci José de Souza, da aldeia Maturuca, e o motorista do Conselho Indígena de Roraima - CIR -, Orlando de

Souza, foram ameaçados de morte pelo garimpeiro conhecido pelo apelido de "Teco".

A ameaça foi feita em represália ao fechamento da estrada que dá acesso aos garimpos localizados

dentro da área indígena Raposa/Serra do Sol, no norte de Roraima.

Por volta das 11 horas de

anteontem o motorista Orlando de

Souza foi à loja "Jaguará", no bairro

São Francisco, em Boa Vista, a fim

de fazer compras para a fazenda do

Conselho. Ao estacionar o carro em

frente a loja, surgiu o garimpeiro

"Teco", que primeiro esmurrou a

porta do veículo e depois partiu para

as ameaças de morte, como vingança

pelo fechamento da estrada ocorrido

no dia 17 do mês passado.

"Ele disse que vai matar o

Jaci e qualquer outro índio da aldeia

Maturuca onde ele encontrar. Ele

tfcsse^que eu e o Jaci estamos na lista

dele e dos outros garimpeiros que

foram expulsos de dentro da área

indígena", relatou Orlando.

Além das ameaças feitas

pelos garimpeiros, os índios de

Roraima estão apreensivos com uma

possível reação dos fazendeiros

instalados na área indígena Raposa/

Serra do Sol. Anteontem

desembarcaram em Boa Vista oito

integrantes do Grupo de Trabalho

criado recentemente para fazer

levantamento daquela área a fim de

proceder a demarcação. A área

reivindicada pelos índios tem uma

Violência policial

extensão de aproximadamente dois

milhões de hectares. O deslocamento

dos integrantes do GT para a área

indígena estava prevista para as 13

horas de ontem.

Anteontem, em Manaus, o

bispo da Diocese de Roraima, Dom

Aldo Mongiano, pediu apoio dos

bispos da Amazônia para a

demarcação das terras indígenas em

Roraima. Ele participava da reunião

da coordenação da CNBB Norte I.

Na mesma ocasião, o representante

do Cimi I levou ao conhecimento dos

bispos a Campanha pela Demarcação

das Terras Indígenas da Amazônia,

promovida pela Coiab - Coordenação

das Organizações Indígenas da

Amazônia e Fórum Permanente da

Amazônia.

Os bispos dos estados da

Amazônia Cí» mmnrrmi^tArarM •» /ín-

total apoio à luta dos Índios pela

demarcação e garantia de suas terras.

Dom Antônio Possamai, Dom

Moacyr Grechi e Dom Luiz Vieira,

bispos de Ji-Paraná (RO), Acre-Pums

e arcebispo de Manaus,

respectivamente, foram eleitos para

representar a região na reunião de

Santo Domingo, que terá início no

dia 12 de outubro próximo. Eles

receberam três alianças de TucUm

simbolizando os três compromissos

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a serem defendidos naquela reunião: a

questão indígena, dos negros e das

mulheres.

Funcionárias do CDDH sofrem agressão física

O Centro de Defesa dos di-

reitos humanos - CDDH/CNBB Norte

1, vem, publicamente denunciar a

agressão física sofrida pela

coordenadora Socorro Prado e a

assistente social Aparecida Rodrigues

por parte de policiais civis.

No dia 24 de Setembro,

quinta feira, as vinte e duas horas, as

duas funcionárias do CDDH

retomavam para sua casa, no ônibus

"Lirio do Vale 11". Na estrada da

Ponta Negra, em frente ao conjunto

*" Cophasa'', o ônibus foi parado para

uma "batida "efetuada pela Policia

Civil. Os policiais pediram para todos

os homens descerem do ônibus, para

serem revistados. Três homens

permaneceram no ônibus, sendo que

dois dormiam e um se encontrava com

uma criança no colo. Dois policiais

subiram no ônibus dizendo '" vamos

descer os viados". Os três foram

pressionados descer, enquanto o último

foi espancando pelos dois policiais.

Diante da cena, as duas funcionárias

do CDDH pediram para os policiais

não baterem e não agredirem. Como

resposta, os policiais arrastaram

Socorro Prado de dentro do ônibus,

declarando que ela estava presa. A

coordenadora do CDDH foi espancada

pelos policiais presentes, várias vezes,

empurrada contra o ' v camburão'', e

jogada com força no mesmo, onde

se encontrava um homem alcoolizado.

Ao mesmo tempo, outros policiais

bateram na cabeça de Aparecida

Rodrigues, enquanto ela estava

protestando contra a prisão arbitraria

da Socorro. Ela também foi empurrada

para dentro do camburão, junto com

Alexandre, um dos homens que

ficaram no ônibus.

Durante uma hora os três

ficaram presos, por ordem do delegado

Cavalcante, que dirigiu a operação.

No dia 25 de Setembro de

1992, foi apresentada uma denúncia

na Corregedoria de Manaus.

O CDDH pedeàs autoridades

que sejam tomadas as devidas

providências, sendo este um dos muitos

casos de abuso de autoridade e de

violência praticada pela Polícia de

Manaus. Apesar das muitas denúncias

feitas por este Centro, até agora não

foram resolvidos os processos

encaminhados contra os policiais

envolvidos.

Esperamos que não seja este

mais um caso de impunidade.

Pedimos que sejam enciados

telegramas de protesto e de pressão

para que sejam tomadas as devidas

providências.

Eis os endereços onde enviar os

telegramas:

SECRETARIA DE SEGURANÇA

PÚBLICA

Cel. PM Antônio Guedes Brandão

Rua Simão Bolivar. s/n Centro

MANAUS/AM 69010-130

AO GOVERNADOR DO ESTADO

Gilberto Mestrinho de Raposo Medeiros

Palácio do Governo

Av. 7 de Setembro s/n - Centro

MANAUS/AM 69005-141

DELEGACIA GERAL DE POLICIA

Delegado Elcy Barroso

Av. Constantino Nery, s/n - Flores

MANAUS/AM - 69050-002

CORREGEDORIA GERAL DE

JUSTIÇA

Del. Dejanir Guimarães Dantas

Av. Constantino Nery s/n - Flores

MANAUS/AM - 69050-002


Eleições 92

miramirá

O papel dos partidos políticos

Muitas pessoas pensam que na hora de votar não interessa saber a qual partido político pertence tal candidato, pois "todos são iguais".

A realidade não é bem assim: cada partido político representa interesses e pontos de vistas de grupo ou classe.

Os empresários têm seus partidos

políticos, cujos candidatos defendem as propostas

elaboradas e articuladas pelos empresários e

pelas pessoas que estão a seu serviço. Na hora

de defender essas propostas, no horário eleitoral

gratuito ou durante um comício, o candidato vai

fazer de tudo para que a população acredite que

aquela é a melhor solução para a comunidade e

que por isso devem votar nele. Ou, se não

consegue defender no discurso, passa a utilizar

outros meios, como distribuição de ranchos,

promessas de empregos e outras coisas.

Os trabalhadores, por outro lado,

também têm os partidos que representam seus

anseios e necessidades. Os integrantes dos

partidos populares, ao contrário dos partidos das

classes dominantes elaboram propostas a partir

da realidade da população. Muitas vezes a

própria população participa e interfere na

elaboração dessas propostas, que depois são

transformadas em plataforma política e até em

projetos de lei.

Como se vê, há muita diferença entre os

partidos políticos.

Um exemplo. Em Manaus o candidato

do governador e do prefeito jamais teria ingresso

num partido da oposição, pois as idéias que

movem cada um são completamente diferentes.

Ele poderia até passar de um partido para o

outro, como muitos têm feito, mas jamais entraria

na oposição porque o interesse dele é interesse

de um empresário e, como tal, dificilmente

votaria e defenderia as matérias de interesses dos

trabalhadores. O atual candidato a prefeito de

Manaus apoiado pelo governador e pelo prefeito

votou contra todas as propostas dos trabalhadores

A crise e as eleições municipais

durante a assembléia nacional constituinte.

Nesta eleição, procure conhecer os

partidos políticos e as pessoas que os integram.

O partido em que você está acostumado a votar

pode não representar nenhum dos seus

interesses...

Mas, então, em quem vamos votar?

Quando chegar em suas mãos este jornal

será esta a pergunta que anda nas cabeças de todo

mundo. Todo mundo quer saber em quem votar.

Nós não vamos responder a esta pergunta, mas

vamos ajudar você a responder.

Primeiro é preciso estar consciente de

que, quando votamos, estamos contribuindo

com algo de muito importante. Se o nosso voto

não fosse tão importante, por que haveria tanta

Vivemos sem dúvida uma das maiores crises da história recente do país. Nunca se falou tanto de delitos cometidos pelos que estão

no poder. Quase sempre, entretanto, os acontecimentos têm sido tratados com estreiteza, como se a crise se restringisse apenas

aos que estão diretamente relacionados com os fatos.

É necessário compreender com a maior clareza possível que, se a crise é econômica, é social e é moral, ela é principalmente política.

É preciso que os envolvidos diretamente com as denúncias sejam punidos com todo o rigor da lei. Mas devem também ser punidos

os "indiretamente" envolvidos. Para estes a sanção é política e pode ser exercida através do voto. As eleições municipais que se

aproximam é o momento ideal para punir com rigor político aqueles que colaboraram para este estado de coisas.

A crise do Brasil de hoje tem nome, chama-se Fernando Collor. Mas não é só ele.

A certa altura da campanha eleitoral de 1989 quando se vislumbrou a possibilidade do LULA ganhar as eleições e colocar em prática

um projeto que minimamente resgatasse a grande dívida social para com os mais necessitados, o hoje Presidente da República passou

a ser o candidato de toda a direita brasileira, sendo por esta colocado como aquele capaz de modernizar o Brasil, salvar a economia

e levar a todos para o primeiro mundo.

Estes segmentos que apoiam Collor também têm nomes. São os empresários grandes e pequenos, a maior parte da imprensa, na

região Norte os governadores e a grande maioria dos prefeitos, os sindicalistas de resultados, políticos do PFL, PDS, PDC, PL e a

maioria dos do PMDB e outros mais que você aí na sua comunidade pode facilmente recordar. Estas pessoas não só sustentaram

a campanha dando dinheiro, mas sobretudo garantiram as promessas feitas pelo então candidato e espalharam boatos que

amedrontaram a maioria da população menos esclarecida. Com isso garantiram os privilégios e continuaram onde sempre estiveram,

no poder.

As pessoas votaram muitas vezes nos que perto delas garantiam ser Collor o melhor candidato. E o que se viu depois todos nós

sabemos.

Este é o problema de fundo da crise brasileira. Uma elite política que não quer perder nada, e para tanto usa de todos os meios nem

sempre eticamente corretos. Estas pessoas, repito, têm nomes (Gilberto Mestrinho, Artur Neto, Amazonino, Dutra, Medeiros, Ézio

Ferreira, família Lins etc) só para ficar no Estado do Amazonas, e são tão culpados pela crise como o é o Presidente.

Os eleitores devem utilizar as próximas eleições municipais para impor a todos aqueles que apoiaram Collor um justo castigo. É

necessário politizar o processo eleitoral, num primeiro momento, lutando pelo voto consciente e num segundo momento

aprofundando o ato de votar como um exercício da cidadania, cobrando dos eleitos o cumprimento das promessas feitas. Num

sistema que se pretende democrático, este é o caminho.

De nada adianta dizer que não se acredita em políticos e que estes são todos iguais. Isto é apenas meia verdade. Qs políticos que

estão sempre no poder, que mudam de Partido como mudam de camisa, estão sempre no Partido do governador, estes são realmente

todos iguais.

Mas nem todos são assim e, se tivemos uma atitude de passividade, eles continuarão onde sempre estiveram, enganando o povo.

José Aldenir ide Oliveira, professor da FUA

gente querendo comprá-lo ou conqüistá-lo? A

verdade é que é justamente a soma de cada

votinho depositado na uma que fará fulano ou

beltrano ser prefeito ou um dos vereadores do

município.

Esses que recebem os votos e são eleitos

passam a ser considerados representantes nossos

no PODER. Vão receber um salário alto, inclu-

sive para falar e decidir em nosso nome.

Muitos têm este interesse, mas por motivos

diferentes. Os principais tipos de políticos que

desejam estar no poder são três: O POLÍTICO

DESCOMPROMISSADO, O POLÍTICO

"BONZINHO" e o POLÍTICO COERENTE.

- O POLÍTICO DESCOMPROMISSADO é

aqueleque tenta se eleger por um projeto pes«na!,

para desfrutar das mordomias do poder e ganhar

um alto salário. Só pensa em si, na família e nos

amigos mais chegados. Não se preocupa em

cumprir as suas obrigações de prefeito ou

vereador.

Estes costumam ser os mais

espalhafatosos nas campanhas.

- O POLÍTICO "BONZINHO" tenta se eleger

para fazer caridade, ajudar os pobres com

presentes e fazer boas ações. Não se preocupa

também com suas obrigações dehomem público,

quer mais ser considerado honesto, "cristão" ou

boa pessoa.

- O POLÍTICO COERENTE é aquele que

procura, de fato, defender os interesses de sua

classe social ou de sua categoria profissional.

Deste existe dois tipos:

a) O COERENTE COM A CLASSE

DOMINANTE, aquele que procura defender os

grandes empresários, os fazendeiros, as

imobiliárias e, logicamente, é contra as

reivindicações dos trabalhadores. Pode não se

envolver em corrupção, mas se preocupa apenas

com a minoria rica da sociedade.

b) O COERENTE COM AS CLASSES

POPULARES, com o povão, aquele que defende

os interesses dos trabalhadores, dos sem-terra,

dos sem-casa, das mulheres, dos meninos e

meninas de rua, dos negros, etc. e, sobretudo,

tenta modificar a sociedade para que a maioria

seja beneficiada.

E claro que estes três tipos muitas vezes

não aparecem tão separados assim. Há políticos

onde estas características estão misturadas.

Que tal tentar analisar a atuação dos

políticos que conhecemos e perceber de que tipo

são?

Se o que falamos agora está correto, é

preciso então estar conscientes de que no dia 03

de outubro, ao depositar nosso voto na urna, não

estaremos simplesmente votando para escolher

nosso prefeito e nosso vereador, mas estaremos

escolhendo e elegendo interesses de classe que

poderão inclusive ser contrários aos nossos. Os

economicamente poderosos sabem votar correto,

porque escolhem aqueles que representam seus

interesses, mas os trabalhadores não votam

corretamente, porque votam por um candidato

do qual gostam, sem perceber porém, que

escolhendo-o podem votar contra seus próprios

interesses.

Deveríamos e poderíamos acrescentar

outros elementos para entender o quadro político,

mas o que dissemos é suficiente para tentar dar

algumas dicas para você escolher seu candidato.

Os dez critérios para votar bem

1 0 ) Veja bem se o que o candidato promete está

coerente com a função que ele quer ocupar. Por

exemplo: vereador que promete obras está

mentindo, pois fazer obras é função do poder

Executivo (secretário de obras, ou prefeito).

2 o ) Cuidado com os candidatos que começaram

a participar das organizações do povo perto das

eleições. Quem é de luta, luta sempre e não só

em época de eleições.

3 o ) Verifique a qual partido o candidato está

ligado, e a qual deputado estadual e federal está

ligado, para saber qual interesse ele defende e

quem são os seus aliados;

4 o ) Olhe bem o passado do candidato, qual foi

o seu compromisso com o povo, a qual partido

pertenceu e, se foi eleito alguma vez,

procure saber se durante esse seu mandato agiu

contra ou a favor da classe popular.

5 o ) Valorize os candidatos que discutem

propostas com o povo ao invés de fazer

promessas absurdas.

6 o ) Desconfie dos que gastam muito dinheiro

com a campanha, distribuindo camisas,

chaveiros, dando presentes, desfilando com trio

elétrico... de onde vem todo este dinheiro?

7 o ) Lembre-se que um prefeito não faz nada sem

a aprovação da Câmara dos Vereadores; pense

nisso na hora de votar.

8 o ) O voto não é favor para o candidato é favor

de nós mesmos, o povo. Por isso não pague

favores com o voto e nem o troque por nada.

Todos nós poderemos ser prejudicados por esta

troca.

9 o ) O VOTO EM BRANCO favorece a quem

está no poder e aos partidos da classe dominante.

10°) A responsabilidade do eleitor não termina

com o voto do dia 03 de outubro mas continua

no acompanhamento e fiscalização permanente

dos novos governantes, antes da posse, na

formação do governo municipal e, depois, no

exercício dos cargos de prefeito e vereadores.

OS ELEITORES DEVEM CONTINUAR O

EXERCÍCIO DA CIDADANIA,

ACOMPANHANDO AS DECISÕES

POLÍTICAS COBRANDO PROMESSAS,

EXIGINDO TRANSPARÊNCIA NA

CONDUÇÃO POLÍTICO

ADMINISTRATIVA E DEFENDENDO

SEMPRE OS INTERESSES DO BEM

COMUM.


Opressão, Resistência, Luta

uma história de 500 anos

Participe dos atos e manifestações

contra as forcas colonizadoras


Nem festa, nem

esquecimento:

Reconciliação e

m

Compromisso

por

Pedro Casaldáliga

500 anos e

Resistência

Negra

Não faz falta ser radical, não adotar pose de profeta para rechaçar qualquer tipo de

celebração festiva ao mal chamado desbrimento, que não o foi. Chega de ter

sensibilidade humana e conhecer a história e reconhecer a universidade supracultural do

evangelho de Jesus.

O ano de 1492 marca o princípio de uma conquista, de uma invasão, de uma continauda

colonização depredadora.

Nem se pode apelar à chegada do evangelho, que seria em si um bem maior, porque o

evangelho veio com uma evangelização colonizadora também, não inculturada, anatema-

rizadora de culturas antiquíssimas.

A história não conhece outra gueixa tão devastadora, mais prolongada, mais global. Os corpos

e as almas, o solo e o subsolo, as vidas e as culturas, a liberdade e a alteridade vêm sendo

negados a milhões de indígenas, negros e mestiços desta terra violada que seus filhos primeiros

chamam Abia Yala ou Virgem fértil ou Mãe Terra.

Laiam-se os testemunhos das próprias vítimas e respeite-se a vontade de filhos e filhas

sobreviventes. As organizações indígenas e americanas, contes-taram com indignação a

celebração do V Centenário e, alternativamente, mobilizaram uma campanha continental com a

significativa denominação de comum sofri-mento, de forças unidas de 500 ANOS DE

RESISTÊNCIA INDÍGENA, NEGRA E POPULAR.

A Igreja Católica pediu perdão, um dia, aos judeus e aos protestantes. As Igrejas, na África do

Sul, pediram perdão aos negros submetidos ao Apartheid, porque também elas se consideraram

cúmplices do pecado da segregação. O menos que se pode pedir à Igreja, e particularmente à

Igreja Católica, é que peça perdão também aos povos indígenas e ao povo negro deste

continente e de suas ilhas.

É a chamada civilização ocidental cristã que aqui dominou pelos sucessivos impérios que a têm

representado, desde Espanha e Portugal até os Estados Unidos de hoje, deveria tentar pagar em

pequena parte, somente em pequena parte porque mais não poderia, a incalculável dívida de

500 anos em que os sucessivos impérios contraíram com os povos e com a natureza de nossa

América violentada. Os templos, as culturas, as línguas, as árvores, as vidas, não poderão nos

devolver. Tampouco poderão nos devolver o ouro e a prata que levaram os piratas mais diretos

ou mais executivos, se lhes pedíssemos os mesmos interesses que o FMI(Fundo Monetário

Internacional) nos sabe pedir. Que nos devolva, pelo menos, o respeito e o diálogo entre

iguais. Que vejam a história, como a história tem sido e aprendam dela a grave lição de não

colonizar mais. Que deixem falar o evangelho em sua límpida verdade e com sua força de

libertação. Que não nos imponham novas ordens mundiais de mercado total, vetos,

hegemonias e justas causas. Que respeitem o sangue de nossos mátires de ontem e de hoje e o

pranto crescente dos milhões de meninos e meninas proibidos nos ventres de nossas mães ou

nas ruas de nossas cidades. Que nos deixem ser nós mesmos: livres, outros. Que nos

interdescubramos, por fim, solidariamente humanos todos.

Em meio às "comemo-rações" dos 500 anos de descobrimento das Américas, não

falta quem pretenda recolocar os protagonistas desta história numa ótica mais amena,

tencionando com isto o perdão dos pecados, e esquecimento dos assassinatos de índios

e negros cometidos pela sede de dominação e a busca da riqueza, de uma civilização sobre

outra. O chamado "descobrimento" das Américas é um marco que deu início aos saques e

pilhagens de toda ordem às riquezas do Continente, só possível graças ao extermínio em massa

dos povos indígenas e à escravidão de negros Africanos.

Ao que nos parece este momento não pode ser de confraternização entre as partes, posto que uma

delas até hoje insiste em preservar seu caráter dominador e continua se aproveitando das riquezas,

enquanto à outra é legada a miséria, o extermínio de seus povos e toda sorte de restrições sociais,

como o demonstra o sofrimento do povo sul-africano, que mesmo sendo maioria é coagido dentro

de seu próprio território por colonizadores brancos, muitos dos quais teimam em suavizar a

violência da realidade desse quadro dantesco, pintado por suas próprias mãos.

Naturalmente, é uma oportunidade para que vejamos à luz da história o quanto nós, seres

humanos, devemos uns aos outros. Aos negros não caberia apenas o papel de juiz, ainda que

vítima notória de todo um processo de submissão, mas, o de recuperar as lições de sua própria

luta ao longo da história para fortalecer a aliança de todos os oprimidos da terra, no sentido de

resgatar a DIGNIDADE HUMANA como condição inalienável de todos os homens, acima das

pretensões que a tomam apenas como privilégio de alguns. Essas lições são a nossa bússola

que nos orienta nesta luta, são o testemunho de que somente lutando é que se vence o

imperialismo de ontem e de hoje; de que somente lutando se conquista a igualdade entre os

povos e o fim da discriminação racial.

Resistência

contra o

genocídio na

Amazônia

"Eu sou

testemunha de

tudo isto e de

outras maneiras

de crueldades

nunca vistas

nem ouvidas".

Frei Bartolomé de Las

Casas

(1552)

Dizei, com que

direito e com

que justiça

tendes em tão

cruel e horrível

servidão a esses

índios?

Frei Antônio de

Montesinos

(1511)

Os povos de toda América não se deixaram dominar de forma passiva pelos coloni-

zadores europeus. Ao contrário, enfrentatam corajosamente os invasores numa luta

desigual que custou a vida de milhões de pessoas. Aqui na Amazônia temos o exemplo

de Ajuricaba, lider guerreiro da tribo dos Manaos, como símbolo da resistência indígena

contra a opressão.

No século passado, outro marco significativo dessa resistência juntou vários segmentos da

população amazônica, a CABANAGEM. Esse acontecimento reuniu índios, negros,

tapuios'' e brancos, contra a dominação dos grandes proprietários, dos comerciantes e de

políticos submissos aos interesses da coroa portuguesa.

Duas vozes históricas

Entravam os espanhóis nos povoados e não deixavam crianças, nem

velhos, nem mulheres grávidas que não lhes abrissem a barriga e

fizessem em pedaços. Faziam apostas sobre quem com uma facada

abria um índio pelo meio ou lhe cortava a cabeça com um só golpe.

Arrancavam as criancinhas de peito de suas mães e as jogavam contra as

pedras. Aos homens cortavam-lhes as mãos. A outros amarravam com palha

seca e os queimavam vivos. E cravavam uma estaca em suas bocas para que

não se ouvissem seus gritos. Para manter os cachorros amestrados e os

mordiam e os destroçavam e tinham carnificina pública de carne humana...

Eu sou testemunha de tudo isto e de outras maneiras de crueldade nunca

vistas nem ouvidas".

Todos estais em pecado mortal e nele viveis e morrerreis pela crueldade e tiiania que

usais com gentes inocentes. Dizei, com que direito e com que justiça tendes em tão

cruel e horrível servidão a estes índios? Com que autoridade fizeste tão detestáveis

guerras a estas pessoas que estavam em suas terras mansas e pacíficas, onde um número tão

infinito delas, consumistes com mortes e estragos nunca antes ouvidos? Como os tendes tão

oprimidos e fatigados, sem dar-lhes de comer, nem curá-los em suas doenças, que contraem

pelos excessivos trabalhos que lhes dais, e morrem, para tirar ou adquirir ouro cada dia? E que

cuidado tendes para que sejam doutrinados e conheçam o seu Deus e Criador, sejam batizados,

ouçam missa, guardem as festas e os domingos? Estes não são homens?

Não têm almas racionais? Não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos? Não entendeis

isto? Não o sentis? Como estais dormindo em sono tão profundo?".


O que queremos com esta campanha:

Declarar o 12 de outubro v v Dia da Dignidade Continental, Soberania e Auto-

determinação" de nossos povos, estimulando a reflexão sobre o significado da

invasão, do genocídio e da chamada evangelização.

Estimular os movimentos étnicos e populares para que resgatem suas histórias de

luta e de resistência contra a opressão e a dominação a níveis local, regional,

nacional e latinoam-ericano, no intuito de mostrar a sociedade como os oprimidos

compreendem a verdade dos fatos desta história, alguns deles omitidos, outros

deturpados na versão das classes dominantes.

Fortalecer a aliança entre as organizações populares e as indígenas, na construção de

uma sociedade que respeite as diferenças étnicas e reafirme a verdadeira autonomia

entre os povos, baseados na igualdade e na harmonia com a natureza.

Construir um projeto altenativo de educação nos diversos níveis, que reafirme a

sabedoria, o conhecimento científico e experiências acumuladas pelos diferentes

povos e nações.

Intensificar a luta pela conquista e garantia da terra, através da demarcação dos

territórios indígenas e dos remanescentes dos quilombos; de uma autêntica reforma

agrária que atenda as reivindicações de reservas extrativistas, de preservação de

lagos e de terra para agricultores e ribeirinhos.

Impedir a instalação de projetos governamentais ou de empresas privadas que

atentem contra os recursos naturais, a integridade cultural e territorial das

comunidades indígenas, bem como, contra as condições de sobrevivência e de

desenvol-vimento das camadas populares da amazônia.

Exigir punição aos envolvidos em atos de violência contra índios, religiosos, lide-

ranças políticas e trabalhadores do campo e da cidade.

Entidades Promotoras

- Universidade do Amazonas (UA) - Fase Amazônia-Inserção de Manaus

- Fórum Permanente de Debates da Amazônia (FORAM) - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil Regional Norte 1

- Fórum Estadual em Defesa da Vida (CNBB)

- Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia - Centro de Defesa dos Direitos Humanos Regional Norte 1

Brasileira (COIAB) (CDDH)

- Movimento Alma Negra/Manaus (MOAN) - Conselho Indigenista Missionário/CIMI Norte 1

- Conselho de Articulação dos Povos e Organizações - Comissão Pastoral da Terra-CPT Regional AM-RR

Indígenas do Brasil - Central Única dos Trabalhadores (CUT-AM)


índios

Aviso de Collor é golpe

contra os índios

Depois dos pronunciamentos contundentes de empresários,

militares, políticos e governadores dos Estados da Amazônia

contra a demarcação das terras indígenas, os índios sofrem

agora com golpe desfechado pelo presidente da República.

O Aviso n 0 745/SG-PR, que

condiciona o ato de demarcação ao

parecer de órgãos como o DNPM,

Eletrobrás, Embrapa e EMFA, foi

recebido pelos índios como mais um

golpe do governo e uma clara

submissão da política indigenista aos

interesses militares e econômicos.

Emnotadirigidaa imprensa, a Coiab-

Coordenação das Organizações

Indígenas da Amazônia Brasileira -,

considera que "o modo de agir de

muitos parece ser influenciado pelos

atos de nossos dirigentes e políticos

cujas trapaças tomadas públicas

revelam o quanto defendem interesses

escusos de grupos econômicos ou

particulares, apelando sem medo para

a corrupção, a manipulação e a

ilegalidade", tendo reflexos inclu-

sive na questão indígena.

Para a Coiab, nunca houve intenção

dos militares em reconhecer e

demarcar as terras indígenas. "O

processo demarcatório das terras

indígenas que se encontra

praticamente paralisado não terá

qualquer possibilidade com a nova

PorJ. Rosha

lei de contemplar as necessidades

urgentes dos povos indígenas, de

garantir a sua sobrevivência física e

a preservação de seus territórios",

denunciam os índios.

A crise política que o governo

atravessa é outra preocupação para

os índios. Eles temem que os

retrocessos na política indigenista

sejam ainda maiores caso os militares

venham a assumir o governo. "O

retrocesso em conseqüência das

medidas adotadas através do Aviso

do presidente é um sinal do que

vem pela frente", prevê Amarildo

Machado, coordenador de

Comunicação da Coiab.

Estatuto

As organizações indígenas não se

surpreenderam com o substitutivo

apresentado pela deputada Teresa

Jucá (PTB/RR), relatora da Comissão

que elabora o novo Estatuto do

índio.Em recentes declarações à

imprensa, a deputada revelou que

seu substituto às três propostas em

tramitação no Congresso Nacional

sugere a emancipação dos índios,

mantém a tutela - de forma piorada e

os considera incapazes - e demonstra

a intenção de integrar o índio à

sociedade nacional, resgatando um

antigo sonho dos militares brasileiros.

Os representantes da Coiab avaliam

que o substituto apresentado por

Teresa Jucá é pior do que o atual

Estatuto do índio (Lei 6001/72).

Para o Cimi, a deputada está

colocando no substitutivo o que

empresários, militares, políticos e

governadores têm manifestado nos

miramirá

últimos meses, sobretudo depois da

decisão do governo em providenciar a

demarcação das terras Yanomami.

O Cimi avalia que tanto o ato

administrativo do governo em submeter

a demarcação de terras indígenas ao

crivo de órgãos que nada tem a ver com

questão indígena e as sugestões

apresentadas por Teresa Jucá para o

novo Estatuto do -índio são parte da

ofensiva contra os direitos dos índios

conquistados na Constituição. "É a

retomada das propostas conservadoras

que foram derrotadas na Constituinte",

diz Egon Heck, membro da coordenação

do Cimi.

Novo golpe contra a demarcação dos territórios indígenas

É infelizmente necessário constatar

que, em nosso país, o modo de agir de

muitos parece ser influenciado pelos

atos de nossos dirigentes e homens

políticos cujas trapaças tomadas

públicas, revelaram o quanto defendem

interesses escusos de grupos

econômicos ou particulares apelando

sem medo para a corrupção, a

manipulação e a ilegalidade, pratos

servidos diariamente ao povo

brasileiro.

Essa realidade se reflete também no

trato da questão indígena.

A Coiab - Coordenação das

Organizações Indígenas da Amazônia

Brasileira, denuncia e se opõe

firmemente contra o recente ato

administrativo decretado pelo

Presidente da República que faz com

que a demarcação dos territórios

indígenas tenha que passar pelo crivo

do DNPM - Departamento Nacional

de Pesquisa Mineral; EMFA - Estado

Maior das Forças Armadas; Embrapa

- Empresa Brasileira de Agropecuária

e Eletrobrás.

O processo demarcatório das terras

indígenas que se encontra

praticamente paralisado não terá

qualquer possibilidade com a nova lei

de contemplar as necessidades urgentes

dos povos indígenas, de garantira sua

sobrevivência física e a preservação de

seus territórios.

Constatamos também que nunca

houve por parte dos militares e de

nossos governantes qualquer vontade

política de outorgar aos povos indígenas

o reconhecimento do seu bem mais

sagrado: A TERRA.

Já em 1973, o governo assumiu o

compromisso constitucional de

demarcar todas as terras indígenas

numprazo de5anos. Apenas 14% das

terras indígenas foram então

demarcadas e a partir dessa época o

govemo federal e os próprios militares

não pouparam esforços no sentido de

tentar reduzir e não demarcar as terras

indígenas.

Em 1983 foi promulgado o decreto

88.118 que retirou da Funai toda a

competência no processo de

demarcação. Nesse mesmo ano um

outro decreto n 0 88.985 procurou

abrir as áreas indígenas à exploração

mineral.

Em 1985 ainda é lançado o projeto

Calha Norte inspirado pelo CNS -

Conselho de Segurança Nacional que

visava a implantação de colônias

agrícolas nas áreas indígenas ea revisão

da política indigenista para as áreas de

fronteira sustando a demarcação de

grandes áreas contínuas. A política

indigenista do govemo favoreceu sem

dúvida a invasão de inúmeras áreas

indígenas e o aumento de conflitos e

preconceitos para com a população

indígena.

Em 1987, um novo decreto alterou

a estrutura do Grupo de Trabalho

Interministerial incluindo o Conselho

de Segurança Nacional (e

posteriormente Saden) para tomar parte

nas decisões no que diz respeito a

demarcação das terras indígenas.

Em 1988, novo compromisso é

assumido na Constituição Federal no

sentido de demarcar a totalidade dos

territórios indígenas do país no prazo de

5 anos, prazo este que finda em outubro

de 1993.

Mais uma vez o govemo não está

cumprindo com a legislação em vigor e a

maioria das terras se encontra ainda por

demarcar. Essa nova lei demonstra

claramente a intenção dos militares e do

estado brasileiro no sentido de negar a

demarcação das terras indígenas e não

reconhecer a identidade étnica dos povos

indígenas procurando mais uma vez

assimilá-los o mais rapidamente possível

ao contexto nacional.

Não contaram com certeza, com a

resistência e a organização dos povos

indígenas que continuam clamando justiça

e o bom cumprimento da lei. Nunca

pedimos esmola, exigimos apenas o

reconhecimento dos nossos direitos

históricos como povos e um pouco mais

de dignidade dos líderes do govemo que,

de certeza, não estão demonstrando o

melhor exemplo de cidadania perseguindo

os povos indígenas e esquecendo a rica

contribuição que somos capazes de dar a

nação brasileira.


miramira

índios

Mulheres índigenas realizam encontro em Tefé

Desta vez são as mulheres

índias do Médio Solimões e

Japurá que começam a se

organizar com o propósito de

fortalecer o movimento indígena

na Amazônia. No último dia 17,

elas realizaram seu primeiro

encontro, reunindo represen-

tantes de vários povos daquela

localidade.

46 mulheres indígenas de seis

comunidades, representando

cinco povos, reuniram-se pela

primeira vez na aldeiade Marajaí,

no município de Tefé. Nos três

dias de encontro, elas levantaram

os problemas que enfrentam em

suas aldeias e que até aquele

momento haviam sido a causa de

suaausênciaem outros encontros,

onde as discussões aconteciam

somente entre os homens.

As participantes do Encontro

consideraram a desinformação,

sobrecarga de trabalho na roça e

serviço doméstico e a falta de

assistência aos filhos que vão

Terra

Desapropriação em

Carauari beneficia

mais de 50 famílias

Uma área de 235 mil hectares foi desapropriada no município

de Carauari, beneficiando mais de 50 famílias que moram no local. A

área pertencia à Serraria Moraes e o anúncio da desapropriação foi feito

no dia 21 de agosto passado, durante a reunião do v " Programa Terra'',

integrado por várias entidades governamentais e não-govemamentais,

entre elas a Comissão Pastoral da Terra (CPT/AM-RR).

A área denominada "Marary" pertencia ao larifdndio da

Serraria Moraes, proprietária de mais de dois milhões de hectares no

município de Carauari e redondezas. Ali vivem mais de 400 pessoas que

para sobreviver trabalham como agricultores, pescadores e seringueiros.

Depois do processo de desapropriação, as entidades que participam do

'" Programa Terra'' propõe a criação de uma reserva extrativista.

Para a CPT, autora da proposta de desapropriação, a medida é

um dos primeiros passos no sentido de solucionar o problema fundiário

no interior do Estado. Esta não é a primeira vez que uma área é

desapropriada, mas trata-se de uma esperança para as entidades ligadas

à defesa da terra para que outros trabalhadores rurais e ribeirinhos sejam

beneficiados.

Mais uma organização indígena está sendo

consolidada no Amazonas, somando-se às 36 que

existem na região.

Demarcação

estudar na cidade como maiores

problemas. Elas disseram ainda

que enfrentam dificuldades de

participar mais ativamente no

movimento indígena porque muitas

vezes os maridos não permitem.

Para resolver as dificuldades, elas

sugerem ter acesso a mais

informações sobre a questão

indígena, a criação de uma casa de

apoio em Tefé, para que os

estudantes não fiquem

desamparados. Outro assunto que

mereceu maior discussão foi a

questão da saúde. Elas querem

participar dos cursos de formação

para agentes de saúde e acreditam

que para isso ter melhor resultado

é imprescindível o resgate da

medicina tradicional a ser feita a

partir de consulta aos mais velhos.

Para articular a organização das

mulheres indígenas do Médio

Solimões e Japurá foi eleita uma

coordenação e marcada data da

próxima assembléia, que será em

janeiro no próximo ano.

índios Kuíina levam para

frente a auto demarcação

O processo de autodemarcação das terras iniciados em 1990 foi

assunto avaliado na reunião dos líderes do povo Kuíina, realizada nos dias

20 e 21 passado na aldeia do Degredo, município de Eirunepé. A

autodemarcação foi o meio encontrado pelos índios para resolver os

problemas provocados pela não definição dos limites - como invasões de

pescadores e madeireiros.

Até o momento os Kuíina autodemarcaram apenas 80 quilômetros

da sua área, que tem uma extensão de 703 mil hectares. Todo o

levantamento topográfico está sendo feito pelos próprios índios, que

aprenderam a manusear os instrumentos com orientação de um assessor

contratado pelo Cimi do Acre.

A autodemarcação foi a providência encontrada pelos Kuíina e

por outros povos indígenas do Brasil para superar a morosidade do

governo em fazer cumprir a Constituição, onde está estabelecido que a

demarcação de todas as áreas indígenas - 254 no total - deve ser efetuada

até outubro do próximo ano.


8 miramirá

Carta ao Povo de Deus da

Arquidiocese de Manaus

De 6 a9 de agosto de 1992 nos reunimos representantes de movimentos populares, entidades da sociedade civil e das diversas

pastorais, na I a semana social da Arquidiocese de Manaus.

Esta semana continua a caminhada iniciada em setembro de 1991 com a Semana social da Amazônia ocidental

cujas propostas assumimos procurando adaptá-las à realidade de nossa cidade.

Durante estes dias ouvimos os clamores que o povo manauara dirige à Igreja e à sociedade.

1. Zona Franca de Manaus /

A Zona Franca de Manaus foi projetada e instalada sem participação popular e seu fracasso é evidente. Suas conseqüências negativas não se restringem à

cidade de Manaus, mas atingem a Amazônia Ocidental toda: êxodo rural, inchaço da cidade, desestruturação da atividade produtiva, aniquilamento do

empresariado local, busca exclusiva do lucro em detrimento do trabalhador, gerando baixos salários, desemprego e falta de perspectiva.

Frent a esta realidade faz-se urgente a busca, com a participação popular, de soluções econômicas duradouras para a Amazônia e para a cidade de Manaus.

2. Conseqüências

Como resultado deste modelo econômico-social, a cidade de Manaus não conseguiu oferecer a seus cidadãos condições de vida digna nos diversos aspectos.

* Saúde: foi altamente prejudicada pela falta de saneamento básico, de alimentação e de moradia adequadas, pela ineficiência no atendimento e pela privatização

do sistema de saúde. A principal doença continua sendo a fome.

* Educação: o modelo educacional adotado, tradicional e desatualizado, conduz à manutenção do sistema social vigente: currículos inadequados, falta de

recursos, baixos salários, má distribuição das escolas...

* Moradia e solo urbano: enquanto a maioria da população não tem condições mínimas de habitação e deve apelar para as *Dcupações* em lugares insalubres

(igarapés, por exemplo) à especulação imobiliária aumenta cada vez mais gerando maior lucro para uma minoria.

3. Crianças e adolescentes

Vítimas mais vulneráveis e mais duramente atingidas por este sistema, são as crianças e adolescentes. A violência contra estes filhos de Deus é realizada no

aspecto físico, moral, familiar e educacional; a cada dia mais, lhes é tirada a perspectiva de um futuro promissor e humano. O Estatuto da Criança e do

Adolescente não é respeitado e as pessoas e instituições que se dedicam à sua viabilização são sistematicmente relegadas a planos secundários e até mesmo

reprimidas.

4. Cultura amazônica

A cultura amazônica, entendida como sistema regional típico de vida, folclore, pensamento, religiosidade, moralidade, moradia, vem sendo sistematicamente

descaracterizada e violentada por forças a serviço de interesses estranhos à nossa região e realidade. Para isto são utilizado, entre outros, os Meios de

Comunicação Social, o sistema educacional (cartilha, métodos de alfabetização...), os modelos propostas de habitaçãít popular...

5. Sistema político

O sistema político, atrelado aos interesses do poder econômico, contribui para a continuidade e o agravamento da situação.

A manipulação das classes populares se manifesta na criação e manutenção de verdadeiros *currais eleitorais*, na exploração da boa-fé do povo, no apelo

à corrupção para alcançar os objetivos desejados. Por isso são eleitos representantes não comprometidos com os verdadeiros anseios e necessidades da

população mais carente.

6. Plano diretor

A cidade de Manaus possui uma proposta de plano diretor, instrumento de orientação político-administrativa da atuação social da Prefeitura, elaborada pelas

autoridades sem a participação popular.

Deve ter ampla divulgação para que o povo possa conhecê-lo, ajudar na sua avaliação e re-elaboração e cobrar sua aplicação.

Conclusão

Diante destas constatações nós, participantes da í a Semana Social da Arquidiocese de Manaus, acreditamos que a transformação necessária vai acontecer a

partir da organização do povo, com o qual a Igreja está comprometida.

Por isso elaboramos um documento que, após sua divulgação, será discutido na Assembléia Pastoral Arquidiocesana a ser realizada em outubro.

Como Igreja encontramos em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, a ÍOrça de ser companheiros de todos os que lutam para passarmos da Manaus que temos

à Manaus que queremos.

Manaus, 9 de agosto de 1992.

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