Piratas em Buarcos. Digressão épica na Oração de Sapiência do P ...

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Piratas em Buarcos. Digressão épica na Oração de Sapiência do P ...

230 CARLOTA MIRANDA URBANO

fazenda se guardasse o tesouro de sabedoria da justiça, o autor segue para uma

digressão que aproveita o ensejo da alusão ao estado crítico do reino e à grandeza

perdida de Portugal 8 .

A fuga para este excurso não é gratuita, Machado não perde a

oportunidade de, por meio deste artifício, trazer ao auditório, não um exemplum

clássico, nem um outro inteiramente inaudito, mas um episódio conhecido da

comunidade universitária que decerto se interessaria vivamente pela narrativa

de um acontecimento que recentemente a envolvera 9 .

O excurso é anunciado por uma máxima que Machado se propõe

'reformar': se os antigos diziam que o dinheiro é o nervo da guerra, com mais

propriedade o mesmo se diria da Sabedoria, pois já muitas guerras terão

começado sem dinheiro mas nenhuma sem Sabedoria.

Veteres belli neruos pecuniam appellarunt, nec immerito.

Quemadmodum enim corpus neruis continetur, ac sustentatur, sic bellum

pecunia. Rectius tamen belli neruos dicerent sapientiam, guia sine pecunia

nonnunquam bellum inferri poterit, non uero sine sapientia.

Tollite stipendia, uectigalia, commeatus, praemia, dona militaria;

si una supersit sapientia, nihil eorum desiderabitur. Tollite signa, hastas,

gládios clypeos: tollite reliquum armorum genus, si unus tantum

sapientiae thesaurus non deficiat, haec omnia dimicabunt 10 .

Os antigos chamavam ao dinheiro, e não sem fundamento, o nervo

da guerra". Com efeito, assim como o corpo é mantido e suportado pelos

s Este é um tópico recorrente na oração de Machado. A grandeza da Nação está projectada

no passado. Era o tesouro da Sabedoria que outrora mantinha Portugal, 'grande nação', que contrasta

com os tempos 'ruinosos' (tempus durum adeo, et calamitosum) a 'estreiteza da fazenda'

(pecuniarum dificultaíe) e a fragilidade face aos ataques holandeses à costa portuguesa. Ε com esta

fragilidade que o orador caracteriza Portugal sob os Habsburgos. Em outros passos do seu texto,

Machado não perde a oportunidade de estimular no auditório, por um lado o 'aborrecimento' da

situação presente que facilmente se associa à união das duas coroas, por outro sentimentos de autoestima

e dignidade nacionais, como o passo em que, fugindo ao lugar-comum do elogio do monarca

(Filipe III), Machado se atreve a fazer o elogio de D.João III, emblema de um passado áureo, não só

da Universidade, como do reino.

9 CÍCERO aconselha o uso do exemplum no género epidictico, para o qual é útil a narrativa

de factos surpreendentes e inauditos (Partitiones Oratoriae, XXI, 73) e no deliberativo, lembrando

que os exempla podem ser antigos, e assim detentores de mais prestígio e autoridade, ou recentes,

e desse modo mais conhecidos {Partitiones... XXVII, 96).

10 Note-se o paralelismo da construção de frase.

11 Não encontrámos nos 'antigos' esta afirmação, mas algo muito semelhante, que decerto

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