Memórias Póstumas de Brás Cubas

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Memórias Póstumas de Brás Cubas

Memórias

Póstumas

de Brás

Cubas

Machado de Assis

Resenhado por Douglas Machert


AO VERME

QUE

PRIMEIRO ROEU AS

FRIAS CARNES

DO MEU CADÁVER

DEDICO

COMO SAUDOSA

LEMBRANÇA

ESTAS

MEMÓRIAS PÓSTUMAS

Por Douglas Machert

Memórias Póstumas de Brás Cubas

o ceticismo

SENTIDO DA

EXISTÊNCIA

X

EXISTÊNCIA

SEM SENTIDO

Francis Bacon -

painting


Memórias Póstumas de Brás Cubas

o ceticismo

CETICISMO E NIHILISMO

Este último capítulo é todo de

negativas. Não alcancei a celebridade do

emplasto, não fui ministro, não fui califa,

não conheci o casamento. Verdade é

que, ao lado dessas faltas, coube-me a

boa fortuna de não comprar o pão com o

suor do meu rosto. Somadas umas

coisas e outras, qualquer pessoa

imaginará que não houve míngua nem

sobra, e conseguintemente que sai quite

com a vida. E imaginará mal; porque ao

chegar a este outro lado do mistério,

achei-me com um pequeno saldo, que é

a derradeira negativa deste capítulo de

negativas: - Não tive filhos, não transmiti

a nenhuma criatura o legado da nossa

miséria. (CAP. 160 – Das Negativas)

Por Douglas Machert

Francis Bacon - Study for a

Crouching Nude, 1952


Memórias Póstumas de Brás Cubas

o estilo

Escrevia a obra com a pena da galhofa

e a tinta da melancolia (Ao Leitor)

Algum tempo hesitei se devia abrir estas

memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se

poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a

minha morte. Suposto o uso vulgar seja

começar pelo nascimento, duas considerações

me levaram a adotar diferente método: a

primeira é que eu não sou propriamente um

autor defunto, mas um defunto autor, para

quem a campa foi outro berço; a segunda é que

o escrito ficaria assim mais galante e mais

novo. Moisés, que também contou a sua morte,

não a pôs no intróito, mas no cabo; diferença

radical entre este livro e o Pentateuco. (Cap1 – Óbito

do Autor)

Por Douglas Machert

PESSIMISMO + IRONIA =

SARCASMO

CARÁTER ICONOCLATA E

DESSACRALIZADOR

Francis Bacon – Head III


Memórias Póstumas de Brás Cubas

o estilo

ESTE LIVRO E O MEU ESTILO

Começo a arrepender-me deste livro. Não que

ele me canse; eu não tenho que fazer; e,

realmente, expedir alguns magros capítulos para

esse mundo sempre é tarefa que distrai um

pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho,

cheira a sepulcro, traz certa contração

cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o

maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens

pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu

amas a narração direita e nutrida, o estilo regular

e fluente, e este livro e o meu estilo são como os

ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e

param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam

o céu, escorregam e caem... CAP 71 - O Senão do Livro

Por Douglas Machert

Goya - Due vecchi

che mangiano


Memórias Póstumas de Brás Cubas

O defunto e o

delírio

Brás Cubas nos conta suas

memórias. Supostamente defunto

autor, afirma que morreu, aos 64

anos, de pneumonia quando

trabalhava num “sensacional”

invento, um emplastro antihipocondríaco.

No sepultamento

estavam presentes apenas onze

pessoas. Nos conta também um

delírio durante uma visita de Virgília:

um hipopótamo branco o leva a uma

planície extensa e gelada, onde

encontra com Natureza ou Pandora.

Esta o eleva a uma montanha, e lhe

mostra a sucessão dos séculos.

Por Douglas Machert


Memórias Póstumas de Brás Cubas

Brás Cubas nasceu no dia 20 de

outubro de 1805. Demasiadamente

mimado pelo pai, foi um menino

endiabrado. Nos conta de

Prudêncio: que, em criança,

montava-o, punha-lhe um freio na

boca, e desancava-o sem

compaixão; ele gemia e sofria.

Aos dezessete anos apaixona-se

por Marcela. Para agradá-la, gasta

demais - ela gostava de jóias.

Marcela amou-me durante quinze

meses e onze contos de réis.

Marcela

Por Douglas Machert

Münch - RED AND WHITE


Memórias Póstumas de Brás Cubas

Quando o pai tomou conhecimento

desses esbanjamentos, mandou-o para

Coimbra cursar Direito. Lá formou-se

em um advogado medíocre.

Regressa ao Rio: sua mãe está à beira

da morte. Após o falecimento desta,

passa uns dias na Tijuca. Lá conhece

Eugênia (a flor da moita) e mantém um

romance passageiro. Brás Cubas

desiste da relação pois, apesar de

moça bonita, tem um defeito na perna

que a fazia coxear um pouco.

Eugênia

Por Douglas Machert

Münch - RED AND WHITE


Memórias Póstumas de Brás Cubas

Virgília

Ainda na Tijuca, Brás recebe a visita do pai,

que tem dois projetos: casá-lo e fazê-lo

deputado. Assim, apresentado ao

Conselheiro Dutra, que promete ajudá-lo na

pretendida ascensão política, conhece

Virgília. Pareciam que os sonhos do pai

estavam prestes a realizar-se. Entretanto,

surge Lobo Neves, que não somente

“rouba” Virgília, como também cai nas

graças do Conselheiro Dutra. O pai de

Brás, profundamente desapontado e

magoado, falece em alguns meses.

Por Douglas Machert

Klimt - Judith I


Memórias Póstumas de Brás Cubas

Virgília

Virgília casa-se com Lobo Neves, que,

pouco tempo depois, elege-se

deputado. No entanto, Virgília e Brás

encontram-se com freqüência e

tornam-se amantes. Nessa época,

Brás Cubas encontra seu ex-colega de

escola primária, o Quincas Borba, que

se tornara mendigo. Depois do

encontro, Brás percebe que Quincas

lhe roubara o relógio.

Por Douglas Machert

Klimt - Judith I


Blake - Whirlwind of Lovers

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Turbilhão do amor

Os encontros entre

Virgília e Brás suscitam

vários comentários.

Enquanto Brás propõe

fuga para um lugar

distante, Virgília sugere

uma casinha em alguma

rua escondida. Dona

Plácida, ex-empregada

de Virgília, será a

encarregada de cuidar

dessa casa.

Por Douglas Machert


Blake - Whirlwind of Lovers

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Turbilhão do amor

Lobo Neves é designado

presidente de uma província

no nordeste. Brás,

desesperado, pede a Virgília

que não o abandone.

Quando tudo parece sem

solução, Lobo Neves

convida Brás para ser seu

secretário, que aceita.

Diante dos comentários que

aumentam, Cotrim, casado

com Sabina, irmã de Brás,

procura fazê-lo ver que a

viagem seria uma aventura

muito perigosa.

Por Douglas Machert


Memórias Póstumas de Brás Cubas

Do 13 ao 31

No entanto, Lobo Neves,

extremamente supersticioso, acaba

não aceitando o cargo, porque o

decreto de nomeação fora publicado

no Diário Oficial num dia 13. Recebe

também uma carta anônima

denunciando os amores da esposa

com o amigo – eis o conflito entre a

Honra e o Interesse.

Virgília engravida e perde o filho.

De quem?

Lobo Neves é novamente nomeado

presidente, e desta vez, a data é de 31.

Olhem para as sutilezas da vida!

Por Douglas Machert

Francis Bacon, Self portrait


Memórias Póstumas de Brás Cubas

Do 13 ao 31

Brás Cubas diz adeus a Virgília,

almoça como se nada de

importante tivesse acontecido.

Aliás, o tempo havia passado e,

embora ainda se sentisse forte e

com saúde, era já um cinquentão.

Sabina, pretende "arranjar" um

casamento para Brás: uma moça

prendada chamada Nhá-Loló.

Mesmo sem entusiasmo, Brás

aparenta interesse pelo projeto. No

entanto, mais uma fatalidade: Nhá-

Loló morre durante uma epidemia.

Por Douglas Machert

Francis Bacon, Self portrait


Memórias Póstumas de Brás Cubas

O tempo vai passando. Brás torna-se

deputado (também, medíocre). Sua

preocupação era o tamanho da

barretina que usava a Guarda

Nacional. Na Assembléia, encontra

com Lobo Neves que havia voltado

da província .

Reencontra-se também com Virgília,

que não tinha mais a beleza antiga. O

desinteresse recíproco põe fim aos

amores tão ardentes

Por Douglas Machert

A mão pesada do tempo

Blake - Pietá


Memórias Póstumas de Brás Cubas

Quincas Borba reaparece e restitui o

relógio roubado. Passa a ser um

freqüentador da casa de Brás. Havia

mudado muito: não era mais

mendigo (recebera uma herança de

um tio em Barbacena) e virara

filósofo: inventara uma teoria

filosófico-religiosa, o Humanitismo, a

qual o próprio Brás Cubas passou a

se interessar.

Por Douglas Machert

A mão pesada do tempo

Blake - Pietá


Memórias Póstumas de Brás Cubas

Perdas e decadências

Procurado por Virgília, já idosa, Brás ampara

dona Plácida. Quanto aos cinco contos, não

vale a pena dizer que um carteiro da vizinhança

fingiu-se enamorado de Dona Plácida, logrou

espertar-lhe os sentidos, ou a vaidade, e casou

com ela; no fim de alguns meses inventou um

negócio, vendeu as apólices e fugiu com o

dinheiro. Dona Plácida morre pouco depois.

É um período cheio de perdas e decadências:

Não acabarei, porém, o capítulo, sem dizer que

vi morrer no hospital da Ordem, adivinhem

quem?... a linda Marcela; e via-a morrer no

mesmo dia em que, visitando um cortiço, para

distribuir esmolas, achei... Agora é que não são

capazes de adivinhar.., achei a flor da moita,

Eugênia, tão coxa como a deixara, e ainda mais

triste.

Por Douglas Machert

Francis Bacon - Studies of Isabel

Rawsthorne


Memórias Póstumas de Brás Cubas

Perdas e decadências

Morre, também, Lobo Neves, e Virgília chorou

com sinceridade o marido, como o havia

traído com sinceridade.

Brás fracassa na tentativa de virar ministro de

Estado. Frustrado, funda um jornal de

oposição. Percebe, também, que Quincas

Borba está completamente louco.

Brás Cubas deixou este mundo pouco depois

de Quincas Borba. Depois de um balanço da

vida, conclui de forma pessimista:

Por Douglas Machert

Francis Bacon - Portrait 1949


Memórias Póstumas de Brás Cubas

O balanço

ENTRE A MORTE do Quincas Borba e a minha, mediram os sucessos

narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do

emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que

apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens,

acima da ciência e da riqueza, porque eras a genuína e direta inspiração

do Céu. O caso determinou o contrário; e aí vos ficais eternamente

hipocondríacos.

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade

do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento.

Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não

comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D.

Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas cousas e

outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e

conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao

chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo,

que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: --Não tive filhos,

não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

Por Douglas Machert


Memórias Póstumas de Brás Cubas - o desejo de fama

A MULTIDÃO

Essa idéia era nada menos que a invenção de

um medicamento sublime, um emplasto antihipocondríaco,

destinado a aliviar a nossa

melancólica humanidade. Na petição de

privilégio que então redigi, chamei a atenção

do governo para esse resultado,

verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei

aos amigos as vantagens pecuniárias que

deviam resultar da distribuição de um produto

de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora,

porém, que estou cá do outro lado da vida,

posso confessar tudo: o que me influiu

principalmente foi o gosto de ver impressas

nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas,

e enfim nas caixinhas do remédio, estas três

palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que

negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do

cartaz, do foguete de lágrimas. O Emplato

Multidão, cujo amor

cobicei até à morte,

era assim que eu me

vingava às vezes de

ti; deixava

burburinhar em volta

do meu corpo a

gente humana, sem a

ouvir. Na Platéia

BRÁS CUBAS = DEUS

Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A

manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra,

espairecendo as suas borboletices. Passa pela minha

janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto

um homem; não sabia, portanto, o que era o homem;

descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu

que me movia, que tinha olhos,braços, pernas, um ar

divino, uma estatura colossal. Então disse consigo:

“Este é provavelmente o inventor das borboletas.” A

idéia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, insinuou-lhe

que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo

na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por

mim, não é foi impossível pousar na que vidraça, viu dali o retrato de meu pai,

e descobrisse meia verdade,

que estava ali o pai do

inventor das borboletas, e

voou a pedir-lhe

misericórdia.

Pois um golpe de toalha

rematou a aventura. Vejam

como é bom ser superior às

borboletas!... uni o dedo

grande ao polegar, despedi

um piparote e o cadáver

caiu no jardim. Era tempo;

aí vinham já as próvidas

Por Douglas Machert

Orozco -

Demagigo

formigas... A Borboleta Preta

H R Ginger -

Children Grün


Memórias Póstumas de Brás Cubas - as

relações inter-pessoais

O VERGALO

Interrompeu minhas reflexões um ajuntamento;

era um preto que vergalhava outro na praça. O

outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas

únicas palavras: - “Não, perdão, meu senhor,

perdão!” Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada

súplica, respondia com uma vergalhada nova.

- Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão,

bêbado!

- Meu senhor! gemia o outro.

- Cala a boca, besta! replicava o vergalho.

Parei, olhei ... Justos céus! Quem havia de ser o

do vergalho? Nada menos que o meu moleque

Prudêncio, - o que meu pai libertara alguns anos

antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me

a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era

escravo dele.

- É, sim, nhonhô.

- Fez-te alguma coisa?

- É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda

hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá

embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir

na venda beber.

- Está bom, perdoa-lhe, disse eu.

- Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede.

Entra para casa, bêbado!

Era um modo que o Prudêncio tinha de se

desfazer das pancadas recebidas, - transmitindoas

a outro.Agora, porém, que era livre, dispunha

de si mesmo, dos braços, das pernas, podia

trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga

condição, agora é que ele se desbancava:

comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto

juro, as quantias que de mim recebera. Capítulo 68 -

O Vergalho

Por Douglas Machert


Memórias Póstumas de Brás Cubas – o sentido da vida

- Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua

inimiga.

Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado

de susto.

- Não te assustes, disse ela, minha inimizade não

mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives: não

quero outro flagelo.

- E por que Pandora?

- Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o

maior de todos, a esperança, consolação dos homens.

Creia; eu não sou somente a vida; sou também a

morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te

emprestei. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi

mais alguns anos.

- Pobre minuto!

exclamou. Para

que queres tu

mais alguns

instantes de

vida! Para

devorar e seres

devorado

depois! - O Delírio

H R Giger – Li I

NATUREZA OU PANDORA; SOU

TUA MÃE E TUA INIMIGA

O HOMEM, A HISTÓRIA E A

FELICIDADE

Os séculos desfilavam num turbilhão -- flagelos

e delícias, desde essa cousa que se chama glória

até essa outra que se chama miséria, e via o amor

multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a

debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera

que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena,

úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a

melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o

homem, como um chocalho, até destruí-lo, como

um farrapo. Então o homem, flagelado e rebelde,

corria diante da fatalidade das cousas, atrás de

uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos,

um retalho de impalpável, outro de improvável,

outro de invisível, cosidos todos a ponto precário,

com a agulha da imaginação; e essa figura, -- nada

menos que a quimera da felicidade. O Delírio

Willian Blake -

Por Douglas Machert

Nabucodonosso

r


Memórias Póstumas de Brás Cubas

O HUMANITISMO

- Humanitas, dizia Quicas Borba, o princípio

das coisas, não é outro senão o mesmo homem

repartido por todos os homens. Explicou-me

que, o Humanitismo ligava-se ao Bramanismo,

na distribuição dos homens pelas diferentes

partes do corpo de Humanita. Assim, descender

do peito ou dos rins de Humanitas, isto é, ser

um forte, não era o mesmo que descender dos

cabelos ou da ponta do nariz.

O Quincas Borba, disse. O que o teu criado

tem é um sentimento nobre e perfeitamente

regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho

da servilidade. A intenção dele é mostrar que

não é criado de qualquer. - Depois chamou a

minha atenção para os cocheiros de

casa-grande, mais impertigados que o amo,

para os criados de hotel, cuja solicitude

obedece às variações sociais da freguesia, etc.

E concluiu que era tudo a expressão daquele

sentimento delicado e nobre, - prova cabal de

que muitas vezes o homem, ainda a engraxar

botas, é sublime.

CAP 156 – Orgulho da Servilidade

Por Douglas Machert


Memórias Póstumas de Brás Cubas – a moral

-- É minha! dizia eu ao chegar à porta de casa.

Mas aí, como se o destino ou o acaso, luziu-me no chão

uma coisa redonda e amarela. Abaixei-me; era uma

moeda de ouro.

-- É minha! repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso.

Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia

seguinte, senti uns repelões da consciência, e uma voz

que me perguntava por que diabo seria minha uma

moeda que eu não herdara nem ganhara, mas somente

achara na rua. Evidentemente não era minha, e talvez de

um pobre, algum operário que não teria com que dar de

comer à mulher e aos filhos. Cumpria restituir a moeda.

Enviei um carta ao chefe de polícia, remetendo-lhe o

achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance,

fizesse devolvê-lo às mãos do verdadeiro dono.

Mandei a carta e almocei tranqüilo. Minha consciência

valsara tanto na véspera, que chegou a ficar sufocada,

sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma

janela que se abriu para o outro lado da moral.

Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da

equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de

compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que

a moral possa arejar continuamente a consciência. (CAP

51 - É Minha)

LEI DA EQUIVALÊNCIA DAS

JANELAS

Por Douglas Machert

RELATIVIZAÇÃO DA MORAL

Súbito deu-me a consciência um repelão,

acusou-me de ter feito capitular a probidade de

Dona Plácida, obrigando-a a um papel torpe,

depois de uma longa vida de trabalho e

privações. Medianeira não era melhor que

concubina, e eu tinha-a baixado a esse ofício, à

custa de obséquios e dinheiros. Foi o que me

disse a consciência; e eu fiquei uns dez

minutos sem saber que lhe replicasse.

Mas aleguei que a velhice de Dona Plácida

estava agora ao abrigo da

mendicidade: era

uma compensação. E

raciocinei então que,

se não fossem os

meus amores,

provavelmente Dona

Plácida acabaria

como tantas outras

criaturas humanas;

donde se poderia

deduzir que o vício é

muitas vezes o

estrume da virtude.

CAP 76 – O Estrume

Goya

1


Memórias Póstumas de Brás Cubas – a

fragilidade

CONTRADIÇÕES DE CARÁTER EM

BRÁS CUBAS

Entre a morte do Quincas Borba e a minha,

mediaram os sucessos narrados na primeira

parte do livro. O principal deles foi a invenção

do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo,

por causa da moléstia que apanhei. Divino

emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os

homens, acima da ciência e da riqueza, porque

eras a genuína e direta inspiração do céu. O

acaso determinou o contrário; e ai vos ficais

eternamente hipocondríacos.

Este último capítulo é

todo de negativas. Não

alcancei a celebridade

do emplasto, não fui

ministro, não fui califa,

não conheci o

casamento. CAP 160 Das

Negativas

AS MÁSCARAS

Talvez espante ao leitor a franqueza com que

lhe exponho e realço a minha mediocridade;

advirta que a franqueza é a primeira virtude de

um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o

contraste dos interesses, a luta das cobiças

obrigam a gente a calar os trapos velhos, a

disfarçar os rasgões e os remendos, a não

estender ao mundo as revelações que faz à

consciência; e o melhor da obrigação é quando,

à força de embaçar os outros, embaça-se um

homem a si mesmo.... CAP. 24 - Curto, Mas Alegre

Francis Bacon –

Self Portrait

Por Douglas Machert

Francis Bacon -

Head

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