Untitled - Danton Medrado

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Untitled - Danton Medrado

ERGÁSTULO ETERNO

poesias


Revisão:

Vilma Maria da Silva

ERGÁSTULO ETERNO

© 2007 - D’anton Medrado

Proibida a reprodução total ou parcial desta obra, de qualquer

forma ou por qualquer meio eletrônico, mecânico, inclusive

por meio de processos xerográficos, sem a permissão

do editor (Lei nº9.610, de 19/02/1988)

Capa:

just beatifull, de Sixty - Bulgária

http://www.sxc.hu

Diagramação e arte-final:

Paginanet

Impressão:

Gráfica Oportuno

Medrado, D’anton

M488a

Ergástulo Eterno / D’anton Medrado.

– São Paulo: Editora Oportuno, 2007.

120 p.

1. Literatura brasileira 2. Poesia I. Título

Impresso no Brasil

Presita en Brazilo

CDD-869.91


D’anton Medrado

ERGÁSTULO ETERNO

poesias

São Paulo, 2007


DEDICADO A

Amigos, amigas e irmãos


D’anton Medrado

ERGÁSTULO ETERNO

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ERGÁSTULO ETERNO

ERGÁSTULO ETERNO

Mergulho a alma no café

Que me abastece e aquece

Ao mesmo tempo que arrefece

Índícios de qualquer fé.

Já que a truculência diária

Me atinge, é sempre assim

Quem sabe eu possa enfim

Torná-la a minha proprietária.

Não tenho mais amigos por perto

A distância tornou-se paradeiro

E eu que me achava aventureiro

Recriei o meu inferno decerto.

Preocupar-me porque, se tudo é moderno?

Eu só não posso é aceitar

Que isso venha a postular

Tornar meu sonho ergástulo eterno.

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D’anton Medrado


NUNCA O FOI ASSIM

Há uma solidão em mim

Advento inusitado de estar só,

O que antes tinha como meu

Nunca o foi assim,

O doce nunca fora tão doce

E o que dizer das verdades?

Há um pouco de rancor em mim

Pode até soar como insensatez,

Eu que me achei pioneiro

E de fato nunca a tive

muito menos fui o primeiro

Dos seus inúmeros prisioneiros.

Há uma certa indiferença

No que me resta de querer,

Nunca tive o que quis

Sempre o foi assim.

Imaginei formas de te amar

Mas no entanto...

Somos tão diferentes

A ponto de sermos tão iguais?

tão apaixonados somos

Que não nos permitimos o toque?

Quisera eu acreditar em bobagens,

Mas nunca o foi assim.

D’anton Medrado

ERGÁSTULO ETERNO

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ERGÁSTULO ETERNO

COMO SE FOSSE PARA INARA

Ocorreu-nos o que jamais se imaginara

Sucinta alusão ao improvável, ao impossível;

Destempero poético, e querer incontível

Paixão que a nenhuma outra se compara.

E se contarmos passa a ser incrível

O amor que até então nos resguardara

São coisas que ninguém jamais sonhara

Brotar em tal distância amor tangível.

Se o afã dos deuses a nós dois agraciara

Não há porque negar, é tão plausível

Essa propulsão que nos outros é rara

Que mesmo parecendo incompreensível

Sou eu o seu amor distante, Inara

E faço-me presente mesmo invisível.

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D’anton Medrado


OPOSTOS

Vejo em sua vida

Minha morte;

No meu azar

Sua sorte;

No meu sofrer

A sua alegria;

Nas minhas trevas

O seu dia.

Meu lado oposto é igual

Ao seu lado

Nem um pouco normal.

D’anton Medrado

ERGÁSTULO ETERNO

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ERGÁSTULO ETERNO

ORVALHO DA ALMA

Choveu após a meia-noite

Choveu...

E eu na janela da sala

Como todo poeta de vida noturna

Juntei as gotas que ficaram na vidraça

E fiz com elas um poema molhado e sem nome.

Choveu após a meia-noite

Choveu...

E eu a esquecer de mim

Dela em mim

Entre uma xícara de café

E uma lembrança fugaz.

Gotas de água na vidraça

São como lágrimas de apartamento

De apartação, de amor rompido

Vida que escorre lentamente

Gota que rola, desliza pelo rosto...

Lágrima, orvalho da alma.

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D’anton Medrado


AGONIA

A dor procura meu peito

Como se fosse ali um abrigo

E se instala fidalga satisfeita

Como sendo um lar antigo.

Corroe-me por dentro uma angústia

Que me transforma em morto-vivo

Tal qual incurável moléstia

E eu sem saber qual o motivo.

Morro aos poucos e que ironia

Como se fosse um vírus mortal

Que se debate inútil em agonia

Contra a vacina cruel e fatal.

D’anton Medrado

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ERGÁSTULO ETERNO

CAPTURA E FUGA

A tarde finda nostálgica

São Paulo cala-se, esfria-se

E lança então sua magia

Nos olhos enigmáticos de uma jovem

Que parece arredia

Com suas olhadelas e sem riso.

Chama-me de louco

Louco-poeta-só

A desejar um álibi, um verso, um beijo

A desejar-te somente

Fulgor que cintila e queima

Lantejoula acesa, termo oriental.

A noite de leve chega

Na suavidade da pressa

No tentar fugir dos olhos

Cabelos, dos gestos e da beleza

Impressos no corpo

De uma única mulher.

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D’anton Medrado


FELAÇÃO

O improvável pecado

Negado na confissão

E que surge quando pesarosa

De joelhos reza

Implorando por perdão,

O pecado original

O mal da carne

O queimar da pele

O desejo que a impele

Ao contato da boca, da mão

O desmedido prazer

O proibido querer

Negado, pecado em religião

Relacionado à sua submissão

O insubordinado tesão

É fogo divino ou tentação?

É sexo na boca, na mão

É boca no membro

É lábio, é língua é saliva

É sexo oral

Felação.

D’anton Medrado

ERGÁSTULO ETERNO

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ERGÁSTULO ETERNO

SOBRE MAÇÃS E AMORES

Deitada sobre a seda de sua pele

Uma maçã repousa apetitosa

E toda a imaginação me impele

A profanar essa visão majestosa.

Fruta sobre fruta, desejo sobre desejo

Sei bem que poderia ser meu

Todo esse encanto de maçã, amor e pejo

Desde que eu pudesse ser apenas seu.

Mas não sou merecedor, nunca o fui

Foste bem mais que amor, maçã, ensejo

Muito mais que um simples beijo

Que o amante entre alcovas usufrui.

Não é para mim tamanha dádiva

Óh! como dói, ter que assim falar,

Ver esta maçã sobre mulher ávida

Queimando de paixão e a me chamar.

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D’anton Medrado


ANDARILHO

Procuro

O que nunca entendi,

Caminho a noite nas ruas

Metido em jaqueta de couro

Bota carrapeta e calça “jeans”,

Nada discreto

Na certa para atrair

Sem dinheiro e sem carro

Hoje em dia custa caro

Procurar se divertir.

O jovem

Já não é mais tão jovem

Eu também envelheci

Diferente do vinho que melhora

Eu fiquei velho para mim,

Dispenso as drogas e o luxo

Permaneço no refluxo,

Já não se ouve “rock and roll”

E se houve, no passado ficou

Tatuado em minha mente.

Me confundo com os demais

Sou o que restou de uma época

Que talvez nem eu mesmo vivi.

D’anton Medrado

ERGÁSTULO ETERNO

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ERGÁSTULO ETERNO

RESISTIR

Acordo para um novo dia

Como se houvesse possibilidade

Mesmo que mínima

De sobrevivência digna.

Curvo a espinha

Subjugando-me ao trabalho,

O que resta de escravo em mim

Reluta e tenta resistir,

O que resta em mim de verme

Cede ao impulso burocrático

E enfim sirvo de tapete,

Eis-me aqui patrão!

Se um dia fui gente

Acreditem não vivi,

Mas como bicho

Sempre me encontrei disposto

A servir a imbecís

Desses que se fizeram grandes

Ante a ingenuidade e ignorância.

Desconheço o poder

E por mais que digam que ele atrai

Eu o renego

E vou tentando resistir.

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D’anton Medrado


ME NEGO A MIM

Eu já não sonho, pudera

Desisti da busca infrutífera

Deixei de ser homem, sou fera.

Na verdade eu cansei de perder

E se não pedi pra nascer

Não me negue a chance de morrer.

A mim me negam direitos

E se errados são meus conceitos

Tenho falhas - não sou perfeito.

Entretanto, resignado eu paro

Pois não acredito em amparo

Divino, isso eu já deixo claro.

D’anton Medrado

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ERGÁSTULO ETERNO

POLÍGAMO NO SENTIDO AMPLO

Centrado numa comédia humana

Enredo de vida tão minha

Rotina que perpetua os acasos,

Caso haja um rebocador no cais

Estou salvo, caso não,

Nau sem rumo naufragando

Milhas que me separam de mim.

Devo conhecer o meu eu

Para em seguida matá-lo?

Ridículo seria a eternidade

Destes atos tão insanos

No fundo, sou apenas um afogado

Enveredando as entranhas sub-humanas,

Recalque do que fui.

O que será meu Deus?

Que diabo me acolherá?

Que tipo de mulher louca me amará?

Súdito de uma vida etérea

Nas brenhas de uma cidade concreto

Adverso, verso, rima

E tudo o mais que me reveste

São como roupas

As quais vivo trocando,

No demais

Eu sou pele e ideal

Contanto que irreal

Polígamo no sentido amplo.

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D’anton Medrado


A CURA

Há uma inigualável infinitude

No brilho de teus olhos,

Um limiar de eternidade,

E quando olho me vejo

Refletido na límpida retina

Como se fosse parte dela.

Há uma transparente imortalidade

Em teu sorriso espontâneo,

Não é alegria, é felicidade

E quando sorri, me desenha

No quadro de tua autenticidade.

Há uma atração involuntária

No ouro de teus cabelos

No dourado de teus pêlos

Que escondes sob a roupa.

Há uma pureza na tua teima,

Um singelismo em tua vontade,

Esta que em ti arde e me queima,

Provando que sou tão frágil.

É uma primazia esta loucura,

Onde tu és a minha doença

E ao mesmo tempo minha cura.

D’anton Medrado

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ERGÁSTULO ETERNO

CIRCUNSTÂNCIAS

Há circunstâncias que se limitam

À mísera realidade adversa

Onde o homem tido como racional

Em seu raciocínio fraqueja

Deixando-se levar nau perdida

a duras penas, a sofregar,

Enredo trucidado pelo tempo

Substancialmente envolto

Num mero piscar de olhos.

Quisera eu poder mudar

fazer da vida, liberdade

Essa que em todo homem há

Porém escondido no ego

E pelo medo de ser útil.

Há circunstâncias que se limitam

A engendrar a inutilidade

Enaltecendo a propriedade

Negando prioridades

Reagindo à natureza humana

Dos que se doam, os ácratas,

Os velhos que se preocupam

Com os filhos que não são seus

Acusados de ateus

Mas acreditando em si mesmo.

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D’anton Medrado


REVOLTA ARMADA

Derrubar o patrão vil

O estado e a burguesia

Fazer jus à rebeldia

Vamos à guerra civil.

Trabalhadores oprimidos

Partamos para a ação

Pois só a revolução

Fará justiça aos sofridos.

Unidos num mesmo ideal

De justiça e solidariedade

Vamos buscar a liberdade

Na revolução social.

Queremos transformação

E o anarquismo nos guia

Diante de um novo dia

Que viva a revolução!!!

D’anton Medrado

ERGÁSTULO ETERNO

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ERGÁSTULO ETERNO

DAMA CREPUSCULAR

Dama crepuscular que um dia

Diante de mim apareceu

Trajava “jeans”, que ousadia

E de seu poder me convenceu.

Ante seu olhar juro eu tremi

Meu Deus, como a desejei

Mulher assim eu nunca vi

E claro, seus homens eu invejei.

E ensejei em minha lascívia

Toda escultura daquele corpo

Que claramente nele se via

Ser lucubração de fino escopo.

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D’anton Medrado


ESTRELA MATUTINA

A manhã lenta ainda surgia

Na solitude do meu mundo

Quando essa paixão emergia

Vinda de um repouso profundo.

D’anton Medrado

ERGÁSTULO ETERNO

Porém se esse meu querer profano

Insistir em adorá-la, o que fazer?

Estou certo de que não era esse o plano

Mas o mesmo já me proporciona prazer.

E passo a sonhar diariamente acordado

Tendo essa bela mulher do meu lado

Irradiando brilho e sensualidade.

E eu me apego a esta fantasia

Pois esta mulher me extasia

E traz de volta minha vaidade.

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ERGÁSTULO ETERNO

ESCREVO A DOR

Escrevo a dor antes perdida

No mais remoto passado

E que hoje volta a pedir guarida

Neste meu peito já cansado.

Minh’alma desguarnecida

Meu coração magoado

Minha mente enternecida

Meu mundo descontrolado.

O então forte maior abandonado

Imerso em noites mal dormidas

Sente-se (quem diria) condicionado

A ela apegado, mas que atrevida!

E nesse desconsolo suicida

Por estar enamorado

Desapego-me da vida

Eis-me aqui, pobre coitado!

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D’anton Medrado


COLO DE MÃE

A paz que me invade

É derradeira

É verdadeira

Alvissareira.

A paz que me invade

É comovente

É indulgente

É conivente.

A paz que me invade

É infinita

É bendita

É explicita.

A paz que me invade

Vive na grandeza

Do colo de mãe.

D’anton Medrado

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ERGÁSTULO ETERNO

DIA MESQUINHO

Ricardo F. de Souza

Muito embora magro, feio e desprezado

Segue firme, incompreendido e mal amado

Como um Judas ao esquecimento renegado.

Mendigando comida, abrigo e carinho

Revirando lixos em becos escuros, sozinho

Sobrevive a mais um dia tão mesquinho.

Quando dorme (se é que dorme) ele tem medo

É despertado à pontapés, e ainda parece cedo

Para esse imensurável, infame e vil degredo.

Levanta-se debaixo de palavrão e de esporro,

Sob aqueles andrajos um homem pede socorro

Um homem, eu disse um homem e não cachorro.

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D’anton Medrado


EM VÃO

D’anton Medrado

ERGÁSTULO ETERNO

Sobrevivo a mim mesmo

Há quem diga o contrário,

Sei lá, as vezes nem consigo ser eu

Esquecido de mim, sobrevivo.

Outrora me encontrei falante

Numa dessas tardes sem sol

O café espanta o frio

Refugos de um dia só

Vivo a morte lenta da vida

Plena como a dúvida,

Sigo com passos incertos

Deserto que sou de mim mesmo

Castigo que aflige os poetas

Ao menos os que se renderam

Os que não tornaram-se ascetas.

O café antes do avião

O aliviar da pressão

Pra quem não nasceu alado

Só mesmo uma mulher do lado

Para fingir tranquilidade,

Rabisco papeis depois atiro-os ao chão

Num minuto todo o viver

Pareceu-me ser em vão.

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ERGÁSTULO ETERNO

SITIADO EM MOJI

Cenário “rural-proudhoniano”

Onde ocorreram romances

Solitude e dissabores,

Palco do sossego paulistano

Rota de fuga dos insanos.

Eis-me aqui outra vez

Logo imaginas o efêmero

Mas não, são circunstâncias,

É o buscar reviver

O renascer dos incrédulos.

Sitiado e esquecido do mundo

Num lugar paradisíaco e mágico

Me sinto mais ser humano.

Amigos, irmãos e bichos

Compõem o ambiente propício,

Dos inocentes aos radicais

Todos encontram a paz

Quando refugiados no sítio em Moji.

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D’anton Medrado

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