A cidade e as serras - a casa do espiritismo

acasadoespiritismo.com.br

A cidade e as serras - a casa do espiritismo

O meu Príncipe encolheu os ombros. Pôr esse Reino... Na igrejinha, no

cemitério de alguma das freguesias numerosas, onde ele possuía terras. Casa

tão espalhada!

-Bem! – concluí. – Então, como se trata de ossadas vagas, sem nome, sem

data, convém uma cerimoniazinha muito simples, muito sóbria.

-Quietinha, quietinha! – murmurou o Silvério, dando um forte sorvo

assobiado ao café.

E foi quietinha, duma rústica e doce singeleza a cerimônia daqueles altos

senhores. Cedo, pôr uma manhã, levemente enevoada, os oito caixões

pequeninos, cobertos dum veludo vermelho mais de festa que de funeral, com

molhos de rosas espalhados contendo cada um o seu montezinho de ossos

incertos, saíram aos ombros dos coveiros de Tormes e dos moços da quinta, da

Igreja de S. José, cujo sino leve tangia, na enevoada doçura da manhã –

quando fina e levemente! – como pia um passarinho triste, Adiantem um airoso

moço de sobrepeliz erguia com zelo a velha cruz prateada; abrigando o pescoço

sob um imenso lenço de rapé, de quadrados azuis, o velho e corcovado

sacristão segurava pensativamente a caldeirinha de água benta; e o bom abade

de S. José, com os dedos entre o breviário fechado, movia os lábios, numa

lenta, murmurosa reza, que ia pelo doce ar, espalhando mais doçura. Logo atrás

do último cofre, o mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacinto caminhava;

e eu, a estalar dentro dum fato preto de Jacinto, tirado à pressa duma das

malas de Paris quando, de manhã, já tarde para mandar a Guiães, me lembrei

que toda a minha roupa era de cores festivais e pastoris.

Depois marchava o Silvério, soleníssimo, com um imenso peitilho, onde as

barbas imensas se alastravam negríssimas. De casaca, com o grosso beiço

descaído, descaído todo ele pôr aquela melancolia de enterro que se juntava à

melancolia da serra, o Grilo enfiava no braço a sua coroa, enorme, de rosas e

de heras. Pôr fim seguia o Melchior, entre um rancho de mulheres, que,

sumidas na sombra dos lenços pretos, desfiando longos rosários, rosnavam

surdas ave-marias, através de espaçados suspiros, tão doridos como se

inconsoladamente lhes doesse a perda daqueles Jacintos. Assim, pelas várzeas

entrecorridas de regueiros, lenta nos recostos dos matos, escorregando mais

rápida, pelos córregos pedregosos, seguia a procissão, sempre com a cruz

adiante, alta e prateada, rebrilhando pôr vezes num breve raiozinho de Sol que,

vagarosamente, surdia da névoa desfeita. Ramos baixos de lódão ou de

salgueiro passavam uma derradeira carícia sobre o veludo dos caixões.

Um regato pôr vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as relvas,

sussurrando e como rezando também, alegremente; e nos quintalinhos

umbrosos, à nossa passagem, os galos, de cima das pilhas de mato, faziam

soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da Lira, como o caminho se

alongava, e desejássemos poupar o nosso velho abade, cortamos através duma

seara, já alta, quase madura, toda entremeada de papoulas. O Sol radiou: sob a

brisa larga, que levara a névoa, toda a messe ondulou numa lenta vaga

dourada, em que se balouçavam os esquifes; e, como enorme papoula, a mais

100

More magazines by this user
Similar magazines