A cidade e as serras - a casa do espiritismo

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A cidade e as serras - a casa do espiritismo

-Semear, patrão? Agora é antes colher... Olhe que já se anda a limpar a

eirazinha para a debulha, meu patrão.

-Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... então ali no pomar, rente do

muro velho, não se podia plantar uma fila de pessegueiros?

O riso do Manuel crescia.

-Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou para o Natal. Agora só

a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijãozinho em terra

muito fresca...

O meu Príncipe sacudiu, com brando gesto, estes legumes rasteiros.

-Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas são da tal laranjeira que diz o

Melchior, muito doces, muito finas? Então leve para os seus pequenos. Leve

muitas para os pequenos.

Não! o empenho era criar a árvore contemplada na serra em sua

verdadeira majestade, na beneficência da sua sombra, na frescura embaladora

do seu rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a povoam, começara

talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora sonhava uma Tormes

toda coberta de árvores, cujos frutos e verduras, e sombras, e rumorejos

suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o cuidado das suas mãos

paternais.

No silêncio grave do crepúsculo, que descia, murmurou ainda:

-Ó Zé Fernandes quais são as árvores que crescem mais depressa?

-Eh, meu Jacinto... A árvore que cresce mais depressa é o eucalipto, o

feiíssimo e ridículo eucalipto. Em seis anos tens aí tormes coberta de

eucaliptos...

-Tudo tão lento, Zé Fernandes...

Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar caroços que

subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de ele

voltar ao 202, no começo do Inverno...

-Um carvalho!... Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo! É bom para

deus, que pode esperar... Patiens quia oeternus. Trinta anos! Daqui a trinta

anos, árvores só para me cobrirem a sepultura!

-Já é um ganho. E depois para teus filhos, Jacinto...

-Filhos! Onde os tenho eu?

-É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. Não faltam pôr aí terras

agradáveis... Em nove meses tens uma planta feita. E quanto mais tenrinhas, e

mais pequeninas, mais essas plantas encantam.

Ele murmurou, cruzando as mãos sobre os joelhos:

-Tudo leva tanto tempo!...

E à borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca doçura do anoitecer,

entre o cheiro avivado das madressilvas do muro, olhando o crescente da Lua,

que surdia dos telhados de Tormes.

E decerto esta pressa de se tornar a Natureza não mais um sonhador, mas

um criador, arremessou vivamente o seu interesse para os gados!

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