A cidade e as serras - a casa do espiritismo

acasadoespiritismo.com.br

A cidade e as serras - a casa do espiritismo

voltavam para o ver ainda, havia uma seriedade de oração, o bem sincero

desejo de que Deus o guardasse sempre. As crianças a quem ele distribuía

tostões farejavam de longe a sua passagem – e era em torno dele um escuro

formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com grandes olhos arregalados, que se

ainda tinham pasmo, já não tinham medo. Como o cavalo de Jacinto uma tarde

se chapara, ao desembocar da alameda, numas grossas pedras que aí

deformavam a estrada, logo ao outro dia um bando de homens, sem que

Jacinto o ordenasse, veio pôr dedicação ensaibrar e alisar aquele pedaço

perigoso de caminho, aterrados com o risco que correra o bom senhor. Já pela

serra se espalhava esse nome de “bom senhor”. Os mais idosos da freguesia

não o encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes

risos desdentados:

-Este é o nosso benfeitor! Pôr vezes, alguma velha corria do fundo do eido,

ou vinha à porta do casebre, ao avistá-lo no caminho, para gritar, com grandes

gestos dos braços magros: “Ai que Deus o cubra de bênçãos! Que Deus o cubra

de bênçãos!”

Aos domingos, o padre José Maria (bom amigo meu e grande caçador)

vinha de Sandofim, na sua égua ruça, a Tormes, para celebrar a missa na

Capelinha. Jacinto assistia ao ofício na sua tribuna, como os Jacintos de outras

eras, para que aqueles simples o não supusessem estranho a Deus. Quase

sempre então ele recebia presentes, que as filhas dos caseiros, ou os pequenos,

vinham muito corados, trazer-lhe à varanda, e eram vasos de manjericão, ou

um grosso ramalhete de cravos, e pôr vezes um gordo pato. Havia então uma

distribuição de cavacas e merengues de Guiães, às raparigas e às crianças – e,

no pátio, para os homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silvério já

sustentava com espanto, e redobrado respeito, que o Sr. D. Jacinto em breve

disporia de mais votos nas eleições que o Dr. Alípio. E eu próprio me

impressionei, quando o Melchior me contou que o João Torrado, um velho

singular daqueles sítios, de grandes barbas brancas, ervanário, vagamente

alveitar, um pouco adivinho, morador misterioso duma cova no alto da serra, a

todos afirmava que aquele senhor era El-Rei D. Sebastião, que voltara!

Assim chegou Setembro, e com ele o meu natalício, que era a 3 e num

Domingo. Toda essa semana a passara eu em Guiães, nos preparos da vindima

– e de manhã cedo, nesse Domingo ilustre, me fui debruçar da varanda do

quarto do saudoso tio Afonso, vigiando a estrada, pôr onde devia aparecer meu

Príncipe, que enfim visitava a casa do seu Zé Fernandes. A tia Vicência, desde a

madrugada, andava atarefada pela cozinha e pela copa, porque, desejando

mostrar ao meu Príncipe “o pessoal” da serra, convidar para jantar algumas

famílias amigas, dos arredores, as que tinham carruagens ou carroções, e

podiam, pelas estradas mal seguras, recolher tarde, depois dum bailarico

XII

121

More magazines by this user
Similar magazines