A cidade e as serras - a casa do espiritismo

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A cidade e as serras - a casa do espiritismo

Jacinto riu alegremente:

-Zé Fernandes, seria excessivo, só pôr causa de meia dúzia de pêssegos, e

dum boião de doce.

Assim ríamos, quando apareceu, à volta da estrada, o longo muro da

Quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S. José de Sandofim. E

imediatamente piquei para o largo, para a taberna do Torto, pôr causa daquele

vinhinho branco, que sempre, quando pôr ali a levo, a minha alma me pede. O

meu Príncipe reprovou, indignado:

-Ó! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois de almoço, vais beber vinho

branco?

-É um costumezinho antigo... Aqui à taberninha do Torto...Um

decilitrozinho... A almazinha assim, mo pede.

E paramos; eu gritei pelo Manuel, que apareceu, rebolando a sua grossa

pança, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.

-Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro também aprecia.

Depois dum pálido protesto, o meu Príncipe também quis, mirou o límpido

e dourado vinho ao sol, provou, e esvaziou o copo, com delícia, e um estalinho

de alto apreço.

-Delicioso vinho!... Hei de querer deste vinho em Tormes...É perfeito.

-Hem? Fresquinho, leve, aromático, alegrador, todo alma!...Encha lá outra

vez os copos, amigo Torto. Este cavalheiro aqui é o Sr. D. Jacinto, o fidalgo de

Tormes.

Então, de trás da ombreira da taberna, uma grande voz bradou,

cavamente, solenemente:

-Bendito seja o Pai dos Pobres!

E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe

comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um bordão,

com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacinto dois olhinhos dum negro,

que faiscavam. Era o tio João Torrado, o profeta da Serra... Logo lhe estendi a

mão, que ele apertou, sem despegar de Jacinto os olhos, que se dilatavam mais

negros. Mandei vir outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraçado.

-Pois aqui o tem, o senhor Jacinto, que corara, embaraçado.

-Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez pôr aí todo esse bem à

pobreza.

O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía cabeludo e quase

negro duma manga muito curta.

-A mão!

E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, João

Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo, murmurando:

-Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara!

Depois tomou o copo, que lhe oferecia o Torto, bebeu com imensa lentidão,

limpou as barbas, deu um jeito à correia que lhe prendia a caixa de lata, e

batendo com a ponta do cajado no chão:

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