A cidade e as serras - a casa do espiritismo

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A cidade e as serras - a casa do espiritismo

Era prudente. Mas, certa manhã, em Guiães, acordei aos berros da tia

Vicência! Um homem chegara, misterioso, com outros homens, trazendo arame,

para instalar na nossa casa o novo invento. Sosseguei a tia Vicência, jurando

que essa máquina nem fazia barulho, nem trazia doenças, nem atraía as

trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacinto sorriu, encolhendo os ombros:

-Que queres? Em Guiães está o boticário, está o carniceiro... E, depois,

estás tu!

Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro dum mês temos a

pobre Joana a apertar o vestido pôr meio duma máquina! Pois não! o Progresso,

que, à intimação de Jacinto, subira a Tormes a estabelecer aquela sua

maravilha, pensando talvez que conquistara mais um reino para desfear,

desceu, silenciosamente, desiludido, e não avistamos mais sobre a serra a sua

hirta sombra cor de ferro e de fuligem. Então compreendi que,

verdadeiramente, na alma de Jacinto se estabelecera o equilíbrio da vida, e com

ele a Grã-Ventura, de que tanto tempo ele fora o Príncipe sem Principado. E

uma tarde, no pomar, encontrando o nosso velho Grilo, agora reconciliado com

a serra, desde que a serra lhe dera meninos para trazer às cavaleiras, observei

ao digno preto, que lia o seu Fígaro, armado de imensos óculos redondos:

-Pois, Grilo, agora realmente bem podemos dizer que o Sr. D. Jacinto está

firme.

O Grilo arredou os óculos para a testa, e levantando para o ar os cinco

dedos em curva como pétalas duma tulipa:

-Sua Exª brotou!

Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho da Cidade,

plantado na serra, pregara, chupara o humo do torrão herdado, criara seiva,

afundara raízes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores,

forte, sereno, ditoso, benéfico, nobre, dando frutos, derramando sombra. E

abrigados pela grande árvore, e pôr ela nutridos, cem casais em redor a

bendiziam.

XVI

Muitas vezes Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num regresso

de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris à prima Joaninha. E eu seria o

companheiro fiel, para arquivar os espantos da minha serrana ante a Cidade!

Depois conveio em esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder

jornadear sem desconforto, e apontando já com o seu dedo para as coisas da

civilização. Mas quando ele, em Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima

Joaninha sentiu uma preguiça imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor

da Cidade, do 202, e dos seus esplendores. “Estamos aqui tão bem! está um

tempo tão lindo!” murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao rijo

pescoço do seu Jacinto. Ele desistia logo de Paris, encantado. “Vamos para

Abril, quando os castanheiros dos Campos Elísios estiverem em flor!” Mas em

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