A cidade e as serras - a casa do espiritismo

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A cidade e as serras - a casa do espiritismo

me conhecia? Quem se interessaria pôr Zé Fernandes? Se eu sentisse fome, e o

confessasse, ninguém me daria metade do seu pão. Pôr mais aflitamente que a

minha face revelasse uma angústia, ninguém na sua pressa pararia para me

consolar. De que me serviriam também as excelências da alma, que só na alma

florescem? Se eu fosse um santo, aquela turba não se importaria com a minha

santidade; e se eu abrisse os braços e gritasse, ali no Boulevard – “ oh homens,

mais ferozes que o lobo ante o Pobrezinho de Assis, ririam e passariam

indiferentes. Dois impulsos únicos, correspondendo a duas funções únicas,

parecia estarem vivos naquela multidão – o lucro e o gozo. Isolada entre eles, e

ao contágio ambiente da sua influência, em breve a minha alma se contrairia,

se tornaria num duro calhau de Egoísmo. Do ser que eu trouxera da Serra só

restaria em pouco tempo esse calhau, e nele, vivos, os dois apetites da cidade

encher a bolsa, saciar a carne! E pouco a pouco as mesmas exagerações de

Jacinto perante a Natureza me invadiam perante a cidade. Aquele Boulevard

reçumava para mim um bafo mortal, extraído dos seus milhões de micróbios.

De cada porta me parecia sair um ardil para me roubar. Em cada face avistada

à portinhola dum fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as

mulheres me pareciam caiadas como sepulcros, tendo só podridão pôr dentro. E

considerava duma melancolia funambulesca as formas de toda aquela Multidão,

a sua pressa áspera e vã, a afetação das atitudes, as imensas plumas das

chapeletas, as expressões postiças e falsas, a pompa dos peitos alteados, o

dorso redondo dos velhos olhando as imagens obscenas da vitrinas. Ah! tudo

isto era pueril, quase cômico da minha parte, mas é o que eu sentia no

Boulevard, pensando na necessidade de mergulhar na Serra, para que ao seu

puro ar se me despegasse a crosta da Cidade, e eu ressurgisse humano, e Zé

Fernandico!

Então, para dissipar aquele pesadume de solidão, paguei o café e parti,

lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da estação dos

ônibus, pensei: - Que será feito de Madame Colombe? E, oh miséria! Pelo meu

miserável ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto pôr aquela

besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e que me envolvia

nas emanações sutis do seu veneno. Depois, ao dobrar da rue Royale para a

praça da Concórdia, topei com um robusto e possante homem, que estacou,

ergueu o braço, ergueu o vozeirão, num modo de comando:

-Eh, Fernandes!

O Grão-Duque! O belo Grão-Duque, de jaquetão alvadio e chapéu tirolês

cor de mel! Apertei com gratidão reverente a mão do Príncipe, que me

reconhecera.

-E Jacinto? Em Paris?...

Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a

Natureza, a minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia às

cavaleiras. O Grão-Duque encolheu os ombros, desolado:

-Ó lá, lá, lá!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem perdido!

Ora não há!... E um rapaz útil! Que nos divertia, e tinha gosto! Aquele Jantar

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