A cidade e as serras - a casa do espiritismo

acasadoespiritismo.com.br

A cidade e as serras - a casa do espiritismo

Sacristão nédio, de barrete de veludo, cerrou fortemente a porta, e um Padre

passou, enterrando na algibeira, com um cansado gesto final e como para

sempre, o seu velho Breviário.

-Estou com uma sede, Jacinto... Foi esta tremenda Filosofia!

Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo

camarada comprou uma imagem da Basílica. E saltávamos para a vitória,

quando alguém gritou rijamente, numa surpresa:

-Eh Jacinto!

O meu Príncipe abriu os braços, também espantado:

-Eh Maurício!

E, num alvoroço, atravessou a rua, para um café, onde, sob o toldo de

riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absinto, com

o chapéu de palha descaído na nuca, a quinzena solta sobre a camisa de seda,

sem gravata, como se descansasse num banco, entre as sombras do seu

jardim.

E ambos, apertando as mãos, se admiravam daquele encontro, num

Domingo de Verão, sobre as alturas de Montmartre.

-Ó! eu estou aqui no meu bairro! – exclamava alegremente Maurício. Em

famíçia, em chinelos... Há três meses que subi para estes cimos da Verdade...

Mas tu na Santa Colina, homem profano da planície e das ruas de Israel!

O meu Príncipe mostrou o seu Zé Fernandes:

-Com este amigo, em peregrinação à Basílica... O meu amigo Fernandes

Lorena... Maurício de Mayolle, velho camarada.

Mr. De Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava

Francisco de Valois, Rei de França) ergueu o seu chapéu de palha. E empurrava

uma cadeira, insistia que nos acomodássemos para um absinto ou para um

bock.

-Toma um bock, Zé Fernandes! – lembrou Jacinto. – Tu estavas a ganir com

sede!

Corri lentamente a língua sobre os beiços mais secos que pergaminhos:

Estou a guardar esta sedezinha para logo, para jantar, com um vinhozinho

gelado!

Maurício saudou, com silenciosa admiração, esta minha avisada malícia. E

imediatamente, para o meu Príncipe:

-Há três anos que não te vejo, Jacinto... Como tem sido possível, neste Paris

que é uma aldeola e que tu atravancas?

-A vida, Maurício, a espalhada vida... Com efeito! Há três anos, desde a casa

dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuário?

Maurício atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:

-Ó! Há mais dum ano que me separei dessa bicharia herética... Uma turba

indisciplinada, meu Jacinto! Nenhuma fixidez, um diletantismo estonteado,

carência completa e cômica de toda a base experimental... Quando tu ias aos

Lamotte-Orcel, e à Parola do 37, e à Cerveja ideal, o que reinava?...

Jacinto catou lentamente as suas recordações pôr entre os pêlos do bigode:

53

More magazines by this user
Similar magazines